De repente mafiosa
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Passadas algumas horas, Helena havia me contado que é da Grécia e tem 24 anos, faz mestrado em ciências da computação, têm dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova, seus pais são donos de uma pousada muito aconchegante e até me convidou para passar alguns dias por lá. Ela namorava um jovem chamado Henry antes de vir para a Sorbonne, mas ela o pegou beijando uma prima dela, uma história bem infeliz, coitada da Helena. Mas acabou que foi ela quem saiu ganhando no fim das contas, ela já estava decidida a não vir para Paris e depois desse episodio ela caiu em si e viu que se arrependeria para o resto da vida se não viesse. O engraçado é que parece que nos conhecemos há anos, nos tornamos melhores amigas instantaneamente.
Também contei a ela sobre minha vida, sobre o Giovanni e como eu sinto falta dele. Sobre nossa mãe que se formou em engenharia mecatrônica em Harvard e fundou uma das renomadas empresa na área, mas deixou a profissão de lado para cuidar de mim e do meu irmão depois da morte do nosso pai. A morte dele até hoje não teve solução, eu não sei muito sobre o assunto, na época eu tinha apenas cinco anos e minha mãe não gosta de tocar no assunto. O que sabemos é que ele foi assassinado, meu avô ficou muito abalado com a morte do único filho, mas insistiu que minha mãe largasse o trabalho e ficasse com seus netos, a família do meu pai é uma das mais importantes da Itália, não foi problema para meu avô que minha mãe deixasse o emprego, mesmo que esta decidira se mudar para Nova York após se tornar viúva e ainda que tenha elegido um substituto para ela sempre estava por dentro dos assuntos da empresa.
Helena foi para seu apartamento pouco mais de meia noite e eu fui tomar um banho para dormir. Logo depois do banho, me vesti e fui dormir, estava quase pegando no sono quando meu celular começa a vibrar.
“Boa noite minha princesa, não deixe os mosquitos te morderem”.
Oh, Giovanni! Que saudade de você. Respondi a mensagem e finalmente fui dormir, amanhã será um longo dia!
***
O dia seguinte foi perfeito, Helena e eu decidimos visitar o panthéon. Que fique claro aqui que eu não sei o que ele é ou o que significa. Foi por esse motivo que a caminho de lá paramos em uma banca e compramos um folheto explicativo sobre o panthéon, confesso que fiquei um pouco decepcionada. Não que seja menos bonito que qualquer outro monumento de Paris, mas é que eu esperava um pouco mais de história.
Quer dizer, é um prédio realmente lindo, parece que saiu da Roma Antiga, mas é um tipo de cemitério de famosos. Não me entenda mal, pessoas como Voltaire e René Descartes, além de vários reis, estão enterrados aqui, sem contar o Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, para ele há uma homenagem linda. É um monumento realmente bonito, com uma história importante, mas eu não esperava que fosse um cemitério.
Foi um dia divertido, tiramos várias fotos, rimos muito de um turista com blusa da Euro Disney e maquina fotográfica pendurada no pescoço falando um francês enrolado que mais parecia latim.
— Belle, você viu aquele cara? Uau, que gato! – acho que me esqueci de dizer que a Helena é uma grega fogosa e que está à procura de um novo namorado.
— Ele está olhando para cá, por que não vai falar com ele?
— Não, ele terá que vir até mim. Aprenda uma coisa sobre os homens Isabelle, você nunca pode mostrar suas fraquezas a eles ou estará na mão deles. – E não é que o homem veio mesmo atrás dela?
Eles engataram em uma conversa animada e Helena acabou esquecendo-se de mim, então eu resolvi caminhar um pouco mais a frente e dar mais privacidade para eles. Pode não parecer, mas Helena está sofrendo muito pelo Henry, seria bom se ela conhecesse alguém que a ajudasse a esquecê-lo, alguém que não a traga sofrimentos dessa vez.
No fim do dia, Helena já tinha se lembrado de mim e marcado um encontro com o moço misterioso que segundo ela se chama Matthew. Estávamos exaustas de tanto andar, pode não parecer, mas o panthéon é imenso, deve ter mais de 500 criptas ali, muitas delas se encontravam vazias a espera de mais famosos mortos, fiquei me perguntando quem em nossa época seria enterrado ali, não temos muitas pessoas que se comparem a quem já está lá. Talvez seja verdade que em outras épocas tinham mais intelectuais, mais pessoas interessadas em acrescentar algo no mundo, marcar a humanidade de alguma forma, fazer história. Voltamos para a résidence Lambert caminhando, o caminho era curto e estava uma noite agradável, havia estrelas no céu e várias pessoas caminhando com seus cachorros.
***
Primeiro dia de aula e amanhece chovendo. Coloquei uma roupa um pouco mais quente, apesar de ser verão venta muito. Peguei uma sombrinha e fui em direção ao prédio de medicina. A Universté Paris-Sorbonne parece uma cidade dentro de Paris, é como se fosse uma miniParis. Eu teria aula com Melissa, uma americana conhecida de Helena, o que é ótimo porque eu não conheceria ninguém se ela não estivesse lá.
As aulas passaram rápido e logo depois do almoço já podia me dedicar a minha tese no laboratório de infectologia. Os professeurs são ótimos e bem legais também, nunca pensei encontrar um professeur legal, mas meu orientador é sem dúvida o melhor que já conheci. Minha turma não é muito grande, devem ter uns 20 alunos e cada um se dedica a sua própria tese, por isso a maior parte da tarde eu passo sozinha. Não conheci todos, mas já fiz algumas amizades. Logo chegou a noite e Helena saiu para seu encontro enquanto eu fui ao cinema sozinha. Uma curiosidade sobre Paris, aqui é a capital que mais ama cinema no mundo, eu nunca suspeitaria disso. A cada quarteirão tem pelo menos três cinemas, de todos os jeitos. Tem aqueles que exibem filmes lançamentos, alguns exibem filmes americanos legendado em francês e os que eu mais gostei aqueles que exibem filmes antigos, em preto e branco ou sem som. Isso é raridade, eu nunca tinha visto um cinema assim.
Assisti a um filme da Marylin Monroe no Le Champo. É um cinema pequeno de apenas duas salas, um típico cinema que a gente vê em filmes, sabe? Cadeiras vermelhas, sala pequena, uma graça e o melhor de tudo, fica a uma quadra da résidence Lambert. Muitas pessoas têm preconceito de ir ao cinema sozinho, mas eu não, pois quando as luzes se apagam a única relação que ainda existe é entre mim e o filme.
***
Se eu amava Paris no verão era porque eu nunca a tinha visto no outono, é simplesmente a cidade mais linda que eu já vi na vida. As folhas amareladas espalhadas pelas ruas em contraste com a aura de sofisticação dos monumentos é uma vista incrível. Eu passei a vir todos os domingos a tarde ao Le Jardin du Luxembourg, é o maior parque de Paris, o lugar perfeito para desenhar. Há crianças brincando com suas pipas ou jogando bola com seus cachorros. E a paisagem é uma das mais bonitas da França.
Esse domingo, porém, Helena insistiu em vir comigo com a desculpa de que desde que ela começou a namorar o Matthew há três meses não passamos muito tempo juntas fora da résidence Lambert, mas eu sei que tem algo mais ai. Estávamos esparramadas em frente ao Grand Bassin, um tanque octogonal conhecido por sua venda de barcos de brinquedos e eu estava quase cochilando quando ela resolveu dizer o verdadeiro motivo por ter vindo comigo ao invés passar à tarde com o namorado.
Matthew é alto e forte na medida certa, tem cabelos negros e uma barba por fazer que o deixa com cara de perigoso, mas todas as vezes que nos vimos ele se mostrou um cara bem apaixonado, não mede esforços para agradar Helena. Suas íris azuis não o deixam mentir, são grandes e expressivas de uma maneira incrível. É um homem diferente, o ar de mistério que exala dele o faz chamar atenção por onde passa, com seu charme e sua presença não há como Matthew passar despercebido.
— Sabe Belle, acho que você deveria ir comigo a festa do Matthew semana que vem, vai ser divertido e você pode me dar seu apoio por eu estar indo conhecer os pais dele – no próximo sábado Matthew faz 25 anos e vai dar uma mega festa em sua casa, a qual eu não sei onde fica, para ser sincera não sei muito sobre ele e Helena apesar de falar bastante nele, não revela nenhum detalhe significante.
— Helena você sabe que todos te adoram, não há a mínima chance de os pais dele serem imune ao seu carisma natural.
— Mas seria bom se você estivesse comigo, eu me sentiria mais segura. Vamos por favor?
— Hel, você não precisa implorar para que eu vá a uma festa, eu adoro festas, só estou dizendo que você se sairia perfeitamente bem, mesmo que eu não fosse.
— ENTÃO VOCÊ VAI? Ai Belle, Je t’aime.
— Er, Helena, não se desespere, mas tem um barco preso no seu cabelo. – acontece que ela estava perto demais do tanque, seu cabelo acabou ficando bem próximo a água e um barco de brinquedo desgovernado se prendeu nele.
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