De repente irmão
7 Acordo de paz
Notas iniciais
Se esse moleque tiver fugido, juro que o amarro no pé da mesa quando o encontrar ! Espera, na minha casa não tem mesa, exceto a mesinha de centro da sala... Foda-se, eu amarro ele até no botijão de gás se me der na telha !
Andei pela casa feito um condenado, procurei em cada canto onde ele pudesse se esconder, mas nem sinal do moleque.
Será que é tarde demais pra devolvê-lo pra cegonha ou colocá-lo num cestinho na porta da casa de alguém ?
Foco, Itachi, foco ! Você assumiu tal responsabilidade, disse que cuidaria do garoto, então trate de encontrá-lo ! Você é o adulto, então assuma tal papel e ponha moral nessa bagaça !
Procurei pelo bairro inteiro, mas nem sinal do Sasuke. Será que ele se perdeu ? Por via das dúvidas, acho que vou providenciar pra ele uma pulseira com o endereço de casa, aí fica mais fácil se alguém achá-lo pela rua.
Eu estava no final da nossa rua quando olhei pra minha casa de longe e vi o infeliz no telhado... Vou esfolar a cara desse moleque no asfalto ! Eu estava me esgoelando de tanto gritar e ele sequer respondeu, me deixou preocupado à toa !
Corri pra casa e fiquei tentado imaginar como o Sasuke subiu no telhado, pois não tem escada por perto, então como eu vou subir ? Foda-se, ele não vai ficar lá pelo resto da vida, uma hora a fome vai bater e ele vai ter que descer, a não ser que dê um jeito de assar algum passarinho lá em cima.
Senti meu celular vibrar no bolso e peguei pra olhar, era uma mensagem da Izumi, perguntando se eu já tinha me acertado com o Sasuke... Putz, isso deve ser algum tipo de aviso pra eu tentar conversar com ele logo.
Ok...
– Sasuke ! — Berrei — Cara, desce daí, anda ! — Ele nem se mexeu, com certeza vai me ignorar o quanto puder — Deixa de infantilidade e vamos conversar cara a cara. Vai, desce — Moleque mimado, finge que nem escuta — Porra, desculpa, eu vacilei contigo de novo, foi mal.
Não adianta, parece que eu tô falando com um pedaço de madeira ou qualquer outro ser não vivo. Esse garoto tem o gênio ruim, eu já percebi isso; de fato não tem como não ser filho do meu pai, pois, mesmo que ele não o tenha conhecido, ainda assim tem a personalidade super parecida e às vezes parece que eu estou vendo o papai no Sasuke, por mais que eles não se pareçam fisicamente.
Olhei para o coqueiro ao lado da janela... É ! Dá pra subir.
Fiz um verdadeiro malabarismo, usando o coqueiro e as grades da janela para conseguir subir no telhado.
Eu nunca tinha subido no telhado de uma casa antes, nem quando era pequeno. Isso só prova que o Sasuke era um cãozinho quando criança, pois já tem as manhas de subir no telhado.
Tô lascado com esse moleque aqui.
– Te achei ! — Falei assim que subi no telhado. Tô exausto, quebrado, quase morrendo, mas consegui... Minha nossa, eu tô ficando velho — Eu fiquei te chamando feito um louco e você nem me respondeu ! — Sasuke simplesmente me ignorou, fingindo que eu nem estou aqui — Poxa, eu me arranhei todinho pra vir aqui falar com você e é assim que você me trata ?
– Me deixa sozinho — Pelo tom de voz, olhos vermelhos e rosto inchado, não há dúvidas de que ele chorou bastante.
– Você não vai descer ? — Indaguei, sentando ao seu lado e ele apenas negou com a cabeça — Ok, você vai morar aqui ? Quer que eu traga travesseiro e cobertor ?
– Idiota — Bufou após me olhar com indignação.
– Já anoiteceu, tá ficando frio e você vai acabar adoecendo se ficar aqui.
– E você se importa ? — Quem esse pirralho pensa que é pra falar dessa forma grosseira comigo dentro da minha própria casa ? Ok, estamos em cima da casa, mas deu pra entender.
– Sasuke, desculpa — Falei, tentando controlar minha raiva, pois admito que isso tudo foi culpa minha e não quero criar treta — Porra, eu tô de ressaca, tava morrendo de dor de cabeça e você ficou me amolando... Acabei falando o que não devia, mas foi mal, me perdoa.
– Quantas vezes vai ser assim, Itachi ? Quantas vezes você vai esquecer de me levar na escola por estar de ressaca e quantas vezes vai jogar na minha cara que preferia que eu não estivesse aqui ?
Putz, ele ficou magoado pra caralho... Porra, por que a Izumi não fala com ele ? Ela é muito melhor do que eu com as palavras.
– Sasuke — Falei sério, quem sabe assim ele presta atenção na minha pessoa — Eu já tinha uma vida antes de saber que você existia...
– Você não entende, Itachi, não entende — Ele começou a chorar novamente. Que diabos eu não entendo ? — Eu não tô pedindo pra você mudar sua vida e deixar de fazer as coisas que gosta de fazer, eu só tô pedindo pra você ser um pouquinho mais responsável e lembrar que eu também moro aqui. Poxa vida, já está sendo difícil acompanhar as matérias, você ainda me fez perder um dia de aula porque estava morto de bêbado, jogado na porta do quarto. Eu não me importo se você der festa todos os dias, desde que tenha o compromisso de me levar pra escola de manhã, será que é pedir demais ?
Eu sou um bosta !
– Poxa... — Baguncei os cabelos; sinceramente não sei explicar o quanto estou sem graça — Eu bebi um pouquinho além da conta.
– Essa cidade é enorme, eu não consigo ir pra escola sozinho e preciso de você pra me levar. Vai para as suas festas, bebe, se diverte, mas, por favor, me deixa na escola de manhã. Eu sou menor de idade, responsabilidade sua, a nossa mãe me confiou a você !
Fico pensando por que ela pediu para que eu cuidasse do Sasuke. Será que ela sabia da morte do papai ? Não... Ela não sabia, se soubesse teria vindo me procurar, a própria tia Misaki ficou surpresa quando soube e disse que a minha mãe também não sabia, então por que ela quis me entregar o Sasuke ?
Será que a minha mãe confiava em mim a ponto de deixar o Sasuke comigo mesmo achando que o meu pai estava vivo ? Porra, me senti pior ainda agora, não quero nem imaginar o que ela pensaria se soubesse o que aconteceu desde que o Sasuke passou a morar comigo.
– Admito que fui irresponsável, Sasuke... — Falei arrependido — Você tem razão, mas nós podemos passar uma borracha nisso tudo ?
Ele tá certo, odeio admitir, mas esse pirralho que mal saiu das fraldas está certo... Eu preciso colocar na minha cabeça que assumi uma responsabilidade, que prometi cuidar de uma criança e preciso cumprir com a minha palavra. Pela memória da minha mãe e pelo bem do meu irmão que eu espero aprender a amar... Eu não poso pisar na bola novamente com o Sasuke.
– Só se você prometer que vai ser menos irresponsável — Disse ele.
– Então me prometa que vai ser menos mimado — Meu comentário acabou fazendo o Sasuke rir.
Por mais mimado que ele seja, a verdade é que ele está sendo até bastante maduro pra lidar com essa situação, afinal, o garoto perdeu a mãe há pouquíssimos dias e eu sei que não está sendo fácil pra ele ter que lidar com a falta dela.
– Eu prometo que vou tentar — Ele falou com as bochechas levemente coradas. Até entendo por que ele é mimado desse jeito, após tudo que aconteceu, minha mãe deve tê-lo super protegido de tudo e de todos, sem falar no mimo e no dengo em excesso.
– Então eu também prometo que vou tentar.
Após esse pequeno acordo de paz, que eu não sei quanto tempo vai durar, pudemos finalmente descer da porcaria do telhado. Eu já estava tremendo de frio, como é que esse garoto aguentou ficar horas lá ? Depois adoece e ainda vai sobrar pra mim.
[...]
Fui tomar um banho quente assim que entrei em casa, estava muito frio lá fora e eu estou com medo de acabar adoecendo.
Não sei onde estava com a cabeça quando inventei de subir no telhado, mas agimos por impulso no momento da raiva, sem falar que tudo o que eu mais queria após aquela discussão era ficar o mais longe possível do Itachi.
Felizmente nos entendemos, não sei quanto tempo vai demorar até ele fazer outra cagada, mas precisamos nos dar bem. Eu preciso me dar bem com ele, já que não tenho mais ninguém.
Durante o banho, percebi que tanto meu xampu quanto meu sabonete estão acabando e eu preciso pedir para o Itachi comprar mais; mas amanhã eu falo com ele, o que tem aqui ainda dá pra tomar mais dois banhos, depois eu anoto direitinho qual é o tipo que eu uso e peço para ele ir à farmácia. Espero que ele não venha com papinho, dizendo que é frescura !
Senti um cheiro gostoso quando saí do banheiro, pelo visto o Itachi está fazendo alguma coisa para nós comermos, só espero que fique melhor do que a comida que ele fez ontem.
Fui direto para o quartinho da bagunça, onde estão as minhas malas. Será que o Itachi não vai providenciar um quarto pra mim ? Não aguento mais dormir naquele sofá ! Sem falar que esse quartinho onde estão minhas coisas é cheio de cacarecos, acho que ele tinha que tirar um dia pra limpar isso aqui.
Qualquer dia desses vou alertá-lo sobre as minhas alergias.
– Sasuke, vem comer ! — Itachi berrou, já entrando no quarto, e eu puxei rapidamente a toalha para me enrolar.
A pessoa não pode mais nem se trocar em paz, porque chega uma criatura que não sabe bater na porta e entra no quarto com tudo! Poxa, eu estava só de cueca na hora. Tá certo que ambos somos homens, mas isso é constrangedor.
– Não sabe bater na porta ? — Questionei, vermelho de raiva.
– O que você tem eu também tenho — Revirou os olhos.
Idiota ! Isso não quer dizer que eu tenha que ficar nu na frente dele. Se eu me mudar pra esse quartinho, vou fazer questão de ter a chave.
– O que você quer ? — Indaguei, morto de vontade de que ele saia logo e me deixe sozinho para poder terminar de me trocar sem interrupções.
– Eu fiz uma sopa, vem comer.
– Tá bom.
No mínimo é uma sopa daquelas que já vem prontas, você só precisa colocar na água quente.
Finalmente ele saiu, então terminei de me vestir na velocidade da luz. Vai que ele aparecesse novamente, né ?! Então é melhor evitar qualquer constrangimento.
Vesti uma calça de moleton preta e uma blusa de mangas compridas cinza, calcei um par de meias pretas e fui até a cozinha para verificar a sopa que o meu digníssimo irmão preparou para nós.
Sopa de tomates ! O Itachi me surpreendeu, ele mesmo fez a sopa e ficou uma delícia ! Coloquei só um pouquinho no prato -vai que estivesse uma droga...- e detonei bem rápido; mas é claro que eu repeti.
– Gostou da sopa, Sasuke ? — Ele perguntou ao ver a quantidade que eu coloquei no prato quando fui repetir.
– Eu adoro tudo que tem tomate — Respondi — Essa sopa ficou muito gostosa, foi você mesmo quem fez ? — Indaguei, colocando o prato sobre o balcão da cozinha, já que não tem mesa nessa casa.
– Aham, eu fiz. Que bom que você gostou.
– Uhum — Respondi de boca cheia. Essa sopa tá muito boa, se bem que, com a fome que eu estava, até sopa de pedra estaria uma delícia — Você não vai comer ?
– Não, não. Fiz a sopa só pra você jantar mesmo — Respondeu, e ele realmente parece estar falando sério.
Ele se deu ao trabalho de fazer uma sopa só pra mim ? Será que é seguro comer ?
– Você vai ficar com fome ?
– Já comi, Sasuke. Agora eu só vou tomar um comprimido pra dor de cabeça e depois vou capotar na cama.
Ele está querendo me conquistar pelo estômago com sopa de tomates ?
– Tudo bem então — Falei — Pode ir dormir se quiser, deixa que eu lavo a louça quando terminar.
Ele sorriu e assentiu. Pois é, uma mão leva a outra; o Itachi me salvou de ter que jantar miojo e eu o salvei de ter que lavar a louça.
Quando já estava satisfeito e finalmente tinha terminado de arrumar as coisas, fui para a sala, onde o travesseiro e o cobertor já estavam sobre o sofá, sem falar que o Itachi não esqueceu do ventilador.
Não sei o que se passa pela cabeça do Itachi, mas eu ainda não o vejo como um irmão; nos conhecemos há pouquíssimo tempo, ele ainda é um estranho. Nem imagino como ele está se sentindo, pois, ao contrário de mim, que sempre soube sobre ele, Itachi sequer sabia da minha existência.
Ele diz que eu sou mimado, não vou negar, sempre fui mimado mesmo; mas ele é um pinguço irresponsável que não se lembra que precisa cuidar de mim agora. Ele pede desculpa, diz que não vai mais acontecer, mas já é a segunda vez que esse louco pisa da bola comigo.
Entendo que o último desejo da minha mãe fosse que eu conhecesse meu irmão e que ficasse com ele, mas será que passou pela cabeça dela que o Itachi fosse como ele é ? Será que a minha mãe pensou que ele pudesse não gostar de mim e não me tratar com o mesmo amor e carinho que ela me tratava quando era viva ? Minha mãe sempre esteve certa em todas as decisões que tomou, ela sempre fez o que acreditava ser o melhor para mim, mas começo a pensar que dessa vez ela errou muito feio, pois deveria ter pedido para a tia Misaki cuidar de mim.
Não sei se isso vai dar certo ou não, mas acho que, em nome da memória de minha mãe, devo dar o meu melhor para que não haja mais desentendimento entre nós.
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