De repente bilionária

2 Números premiados


As manhãs de terça sempre foram desanimadoras pra mim, mas não as de férias. Eu acordava lá pelas nove da manhã, dava uma ajeitada no cabelo e colocava a primeira roupa que eu encontrava e saia um pouco de skate por ai, raramente via algum garoto bonitinho, até porque onde eu morava era o buraco dos feios. Era assim que eu preferia chamar esse bairro, e se eu tivesse a possibilidade de morar longe dele, eu moraria.

Eu ficava pouco mais de uma hora fora e quando voltava costumava ler umas cem páginas pela manhã, e de tarde eu assistia filmes e lia mais umas cem páginas. Meus pais ficavam fora o dia inteiro e então eu tinha o dia sozinha para relaxar.

– Manuela, cheguei.

Não respondi minha mãe e continuei concentrada na minha leitura. Até o meu pai chegar gritando em casa, ele costumava gritar sempre, bom, ele falava alto mesmo. Minha mãe deu um pulo e eu cheguei a me assustar também, sai do quarto às pressas para ver o porquê daquele grito.

– Juliana, Manuela. — E então ele entrou na cozinha e começou a sussurrar. – Joguei na semana passada e hoje saiu o resultado. 06, 14, 29, 36 e 50.

– Tá, e daí? – Franzi os lábios.

Meus pais se olharam e começaram a rir e a pular, se abraçaram e depois me abraçaram. Foi estranho. Meus pais nunca estiveram tão empolgados como nesse momento, mas eles falavam tão baixo que eu mal entendia.

– Alguém pode me explicar o que tá acontecendo? – Perguntei agoniada com essa dúvida na minha cabeça.

– Ganhamos Manuela, estamos bilionários.

Coloquei a mão na boca para evitar meus gritos e não deixar pistas para os vizinhos que nós havíamos ganhado mais de dez bilhões de reais, eu não podia acreditar. O que aconteceria agora? Eu iria embora? Eu iria virar uma patricinha bem vestida? Eu sairia finalmente do buraco dos feios? Minha mãe chegou no meu quarto lá pelas dez e continuamos a cochichar.

– Amanhã vamos sair as dez da manhã, faça uma pequena mala com as coisas que quer levar. Pequena entendeu Manuela? Vamos nos mudar para o centro da cidade, onde ninguém sabe nada sobre nós. Vamos ser discretos, ok? Diga para seus amigos que vamos nos mudar por que seu pai ira ser transferido para outra empresa.

– Ok, tudo bem.

Foi só o que eu disse, não queria me afastar de Renata e nem de Danilo, mas era isso ou falar que minha família estava bilionária e ser perseguida por ladrões. Eu teria que mentir.

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Passei boa parte da madrugada conversando e mentindo para Renata, falei que teria que me mudar, que mudaria de escola e provavelmente nunca mais voltaria, não que eu quisesse voltar, porque eu não queria. Eu era invisível na escola, e todos que me olhavam rapidamente me chamavam de estranha. Pobres coitados, nem me conheciam.

Minha mãe me acordou sete e vinte, e eu terminei de enfiar meus livros dentro da pequena mochila, eu não tinha muita coisa e nem muitos livros, devia ter uns vinte e cinco pois havia começado a ler a um ano e pouco. Meu skate surrado estava na minha mão e eu fiz questão de leva-lo comigo, mesmo que fosse apenas por lembrança.

Penelope, cadela que eu tanto amava, estava atrás de mim me seguindo por todos os cantos e entrou no carro junto comigo e quando eu olhei pela janela vi Renata e Danilo vindo em direção a minha casa e então saiu do carro e corri para abraça-los.

– Vou sentir falta de vocês dois.

– Vamos nos ver novamente Manu, prometo. – Renata me abraçou com força e depois Danilo veio em minha direção.

– Se cuida ein? – Danilo sorriu pra mim.

– Vocês também.

– Precisamos ir filha. – Caminhei até o carro e acenei para meus amigos, com lágrimas presa nos olhos.

Entrei no carro e Penelope se deitou no meu colo, e eu fiquei fazendo carinho nela enquanto tentava não chorar dando adeus a todos os lugares que passávamos. Agora eu teria de recomeçar minha vida ...

Notas finais
Espero que tenham gostado, beijinhos.