De repente
4 Fatos
Notas iniciais
Como ironia do destino, acabo parando em uma praça. Sento-me, tiro o cachecol e a touca que me dão uma sensação sufocante e observo as poucas pessoas que estão nelas devido ao frio e por ser quase hora do almoço. Olho atentamente uma mulher mais ou menos da minha idade brincando com um menininho.
– Vamos Zac! Eu ainda tenho que preparar aquela bolo de maçã que você adora pra sobremesa – Escutei a mulher chamar carinhosamente o menino.
– Isso não vale mamãe, você sabe que eu amo bolo de maçã – O menino falou com uma cara fofa e se levantou da gangorra.
– Só pra você melhorar essa carinha, eu juro que te trago aqui depois do almoço – A mãe falou passando a mão pelos cabelos negros do menino.
– Oba! Mas ai você vai me empurrar muito forte no balanço – O menino falou alegremente enquanto andava na direção contraria do parque.
Não consegui não pensar em Rose. Mais uma vez as lágrimas escorreram. Rose tão inocente, como eu gostei daquele pequeno ser ruivo. Ela é tão inteligente, bonita, fofa e filha do Ronald. Filha de Ronald e Lilá. Olhei pro céu em busca de resposta.
– É assim que Londres me dá as boas-vindas – Falei pra mim mesma, dei um sorriso irônico e sequei as lágrimas que desciam teimosamente.
Fiquei ali parada pensando na vida, lembrei do dia da traição, lembrei como eu tinha passado as poucas horas com Rose. Pensei de como as coisas haviam mudado. Eu não queria ter quer ir à casa de Gina hoje, eu não queria ver Rose hoje, mas algo mais forte que eu me mandava ir.
Peguei o telefone, queria estar sozinha, mas ao mesmo tempo precisava desabafar, então liguei para Luna. Esperei dar sete toques até ela atender.
– Alô – Escutei a voz calma da loira pelo outro lado da linha.
– Deveria atender esse telefone mais rápido às vezes – Falei tentando fazer piada.
– Está aonde? Como está? Eu estou preocupada. Já chegou a Londres?
– Eu já cheguei, me desculpa por não ligar... – Falei e fiquei em silêncio – E..., e eu não estou bem – Falei com voz de choro.
– Você o encontrou? – Luna me perguntou e eu sabia que ela estava falando de Ronald, ela já sabia de toda a história.
– Não – fiquei em silêncio mais uma vez, e Luna pacientemente esperava que eu estivesse pronta para continuar – Me encontrei com o passado e o presente inteiro.
– Como eu queria estar perto de você amiga – Luna falava tentando me consolar – Vou tentar antecipar minha viagem para Londres, sinto que você precisa de mim.
– Você já me ajuda só de me escutar, não quero que antecipe nada por minha causa – Luna é artista plástica, eu a conheci na Itália e de lá pra cá, fizemos varias outras viagens juntas, nos separando uma vez ou outra para buscar diferentes tipos de inspirações ou aventuras. A verdade é que criamos uma ligação forte, talvez pelo nosso isolamento na época em que nos conhecemos, Luna é uma pessoa sozinha, sua família se resume a mim, Draco e a seu pai que se aventura na África em um belíssimo trabalho voluntário.
– Estarei sempre aqui pra você.
– Eu sei, quando chegar aqui, me liga. Mi casa su casa – Falei séria.
– Eu sei patroa – Luna falou séria também, mesmo que a conversa estivesse em um tom de brincadeira – Ou, me liga quando quiser e a hora que quiser. Fica bem.
– Eu sei, vou tentar, eu juro – Falei secando as lágrimas, que já escorriam novamente.
– Beijos, hermonizinha.
– Beijos, Sra. Apelidos.
Desliguei o telefone, e mesmo que quase eu não tenha falado quase nada com Luna, de alguma forma eu me senti melhor. Subi meus pés para o banco, me aconcheguei melhor e fiquei apenas observando e pensando na vida.
Me levantei e decidi que era hora de voltar, não sabia que horas eram, mas já devia estar batendo na casa das 15 horas. Andei vagarosamente pra casa, não estava com pressa de chegar nela, não estava nem um pouco a fim de responder ou falar qualquer coisa com os meus pais. Não estou com raiva deles, nem algo do tipo, estou apenas cansada para falar no momento e ainda tem Gina de noite, tem muita coisa que tenho que esclarecer e acho que também a escutar.
Assim que cheguei a casa fui direto para o quarto e me joguei na cama, isso era a única coisa que eu queria de verdade. Ficar deitada e não pensar mais em nada. Mas a minha mente não me permite isso, ela insiste em martelar o sobrenome Weasley.
Me levantei depois da frustrante tentativa de relaxar e fui direto para o banheiro, tinha que pelo menos melhorar minha aparência física, já que por dentro eu estava em perfeita desordem mental. Tomei um vagaroso banho quente e coloquei uma roupa quente e confortável e fui direto para cozinha comer umas torradas acompanhadas de um fumegante chá, só agora que eu me lembrei que não havia almoçado e que eu realmente estava com fome.
Assim que terminei meu lanche, suspirei fundo com um estremo cansaço, e fui à sala para ver se achava meu pai, e lá estava ele na sua velha poltrona.
– Pai, me empresta o carro?
– Não – me respondeu sem tirar os olhos do jornal.
– Posso saber o por quê? – Perguntei esperando sua resposta.
– Você não tem condições de dirigir, se quiser eu te levo – Ele falou, mas dessa vez estava olhando para mim. Apenas sai da sala – Hermione não faça isso, eu não tenho culpa – Escutei quando ele falou e eu prontamente voltei para sala.
– Eu não te culpo, não culpo ninguém pelos meus problemas pai – Falei me alterando um pouco – Eu só não quero ser obrigada a lidar com essa situação, isso ninguém pode me obrigar – Terminei de falar e sai em direção ao meu quarto sem esperar a resposta.
– Vai fugir até quando? E agora?! Vai subir, arrumar suas malas e SUMIR POR MAIS SEIS ANOS? – Escutei meu pai gritando da sala, desci pronta para continuar a discussão, mas assim que cheguei à sala, percebi que não valia à pena.
– Me desculpe pai – Falei com toda sinceridade, peguei o telefone e liguei para o táxi.
– Não tem que me pedir desculpa, pelo contrário, eu que te peço – Meu pai falou e me deu um abraço que correspondi prontamente.
– Não briga comigo – Pedi ainda abraçada a ele – Eu sei de minhas falhas, sei que fiquei longe, sei que fui egoísta, mas eu realmente precisava fazer isso – falei e meu pai passou a mão em meus cabelos – Eu o amava assim como você ama a mamãe.
– Não vou brigar, e eu já falei que eu e sua mãe temos apenas orgulho de ter você – Meu pai falou segurando meu rosto – Você é a melhor parte de nós dois, e me dói muito te ver nesse estado, o quanto está abalada, falei aquelas palavras para te ver reagir, e enquanto vier brigar, responder ou fizer qualquer outra coisa, eu sei que você ainda esta lutando – A chave do carro está na bancada da cozinha – completou e me soltou.
– Já chamei o táxi, estava com razão, não sei o que me espera.
– Uma garotinha encantadora – Meu pai falou e eu fiquei quieta.
Quando o táxi chegou eram 18:10h, eu já estava na porta quando minha mãe chegou me entregando a torta.
A viagem da minha casa até o apartamento de meus amigos foi menor do que eu desejava, infelizmente as 19h em ponto eu estava bem em frente ao apartamento, eu e uma torta de morango.
Fiquei olhando por mais ou menos cinco minutos aquela porta com o número 304 estampado nela, dei uma volta no corredor, parei em frente à porta mais uma vez, apoiei minha cabeça nela, estava cansada do meu próprio teatro. Coloquei a torta de morango no tapete de entrada e dei meia volta chamando o elevador, assim que ele chegou, entrei e olhei para porta mais uma vez.
Mais que merda é essa Granger! Atrás daquela porta estão seus amigos, Rose está lá. E com esses pensamentos, sai do elevador e me encaminhei até a porta novamente.
– Eu sabia que você não iria pra casa – Escutei a voz de Harry vindo das escadas do corredor, e prontamente me atirei em seus braços.
– Seu idiota, era para ter falado comigo antes, teria poupado grande desconforto mental – Falei abraçada a ele – Senti sua falta.
– Eu também, fazer minha monografia foi uma droga sem você aqui – Harry falou divertido – Vamos entrar, Rose não fala outra coisa a não ser na Herm.
Assim que entrei no apartamento, percebi que pouca coisa havia mudado, estava bem mais arrumado e aconchegante, com toda certeza Gina tinha haver com isso.
– Juro, por um momento eu pensei que você não viria – Escuto Gina falando da porta da cozinha.
– Juro, eu também – Respondi e a abracei.
– Gina aonde coloca a torta? – Harry perguntou lambendo a ponta do dedo.
– No seu estomago que não é querido – Gina responde pegando a torta da mão de Harry – Vou por na geladeira, Rose vai adorar.
– Eu sei, Rose me falou que era a favorita dela – Falei me sentando no sofá – Falando em Rose, aonde... – Não consegui terminar de pergunta, pois escutei Rose me chamando.
– HEEEEEEERM – Rose gritou se jogando em meu colo e me dando um abraço forte que eu correspondi imediatamente – Trouxe minha torta?
– É claro – respondi rindo e a ajeitando em meu colo.
– Essa aí tem a fome de torta igual a do pai – Harry comentou.
– O meu papai adora torta, a minha preferida é de morango e a dele é a de... – Rose parou pra pensar – Qual é a torta preferida do papai, titia? Eu me esqueci.
– Sei lá Rose, seu pai gosta de tudo, se tiver pedra com um pouco de açúcar ele come – Gina falou arrumando a mesa do jantar.
– Não olhe pra mim – Harry respondeu – Eu nem sei a da sua tia – Harry falou cochichando – Não conte pra ela – Harry pediu e fez um toque estranho de mãos com Rose.
– É de limão Rose – Falei simples.
– É isso aí Herm, ele gosta muitão dessa aí –Rose falou, Harry me olhou com um sorriso de lado e eu me limitei a mandar um olhar irônico para ele.
Depois de algum tempo Gina anunciou o jantar, que estava divino por sinal, eu não conhecia esse lado dela. Assim que terminamos de jantar, Rose se apreçou para comer a torta que minha mãe havia mandado, eu a ajudei com a torta e acabamos dividindo um pedaço grande.
Depois do jantar nos juntamos na sala e ficamos conversando algumas banalidades, eu acabei ajudando Rose a montar um quebra cabeça e quando a vi bocejar olhei para o relógio.
– Dez e meia Rose, acho que é melhor você dormir, está cansada – Falei passando a mão em seu cabelo extremamente ruivo.
– Não Herm, eu só abri a boca, mas não estou com sono – Rose falou passando a mão no rosto na tentativa de despertar.
– Rose, a Mione tem razão, já passou da sua hora.
– Por favor, titia eu quero ficar acordada, quero ficar com a Herm – Rose pediu para Gina e se jogou no meu colo manhosa.
– Rose! – Gina falou firme – Já está na hora e você sabe que seu pai não gosta que você fique acordada até mais tarde.
– Ele não precisa saber oras – Rose falou furtiva e eu tive que rir.
– Assim você não ajuda Hermione – Harry falou me observando e Rose riu.
–Eu não vou falar de novo Rose – Gina foi firme, Rose fez uma cara triste e saiu do meu colo.
– Boa noite tia Gi e tio Harry – Rose falou depositando um beijo em cada.
– Você sabe que faço isso para o seu bem – Gina falou a beijando de volta.
– Eu sei – Rose respondeu e veio em minha direção – Boa noite Herm – Rose falou me abraçando – Amanhã você vem me ver?
– Eu não sei, tenho umas coisas para resolver – Falei abraçada a Rose – Mas se você quiser eu te coloco para dormir agora.
Na mesma hora Rose saiu do abraço e me arrastou até o quarto e me fez contar uma história até que ela dormisse. Não foi difícil, logo se entregou ao sono com sua pequenina mão apertando a minha e eu fiquei a observando, identificando os traços que ela tinha parecido com o de Rony.
– Acho que Rose escolheu ser sua fã – Harry comentou baixinho entrando no quarto e eu dei um pequeno sorriso.
– Podemos conversar agora? – Eu pergunte e Harry assentiu.
Levantei-me com cuidado e tirei minha mão que estava junto da de Rose, depositei um beijo em sua testa e segui Harry até a sala.
– Então Hermione, eu nem sei por onde começar – Gina falou e eu me acomodei em uma poltrona de frente a dela.
– Quem é a mãe da Rose? – Perguntei direta.
– Óbvio e infelizmente que é a vadia da Lilá – Gina falou fazendo careta.
Eu estava com dúvida devido o ocorrido lá em casa, mas no fundo eu já esperava essa resposta.
– Então por que a Rose não a conhece, por que ela perguntou que ela era? – Perguntei confusa.
Harry suspirou e me contou uma boa parte da história, que por sinal não era boa.
– Resumindo a história – Gina falava com tristeza na voz – Depois do ocorrido entre você e Rony, vocês terminaram, você foi viajar, depois de um mês Lilá bateu na nossa porta avisando que estava grávida de Rony, mas que não queria a criança e que iria tirar – Gina havia mudado o tom de voz para desprezo, o que é justamente o que eu estava sentindo naquele momento.
– Bom, acho que o resto eu já posso imaginar, Rony jamais deixaria tirar uma vida, ainda mais sendo filha dele – Falei dando um longo suspiro.
– Acertou, Rony obrigou Lilá a ter Rose, e assim que a teve a entregou para que nós cuidássemos –Gina fez uma pausa e depois continuou falando – Rose não havia completado nem 24h quando ela nós entregou, apenas mandou os enfermeiros nos entregar, não amamentou, não a registrou, não fez absolutamente nada.
– E o Rony nessa história? – Perguntei pela primeira vez dele em anos, eu realmente queria saber.
– Acho que você já sabe, você o conhece tão bem quanto nós – Harry falou dando um sorriso sem humor – Rony foi forte, mas foi muito difícil para ele, tudo aconteceu muito rápido, a separação de vocês, a faculdade que tinha que terminar, a chegada de Rose, eu pensei que ele não fosse aguentar em alguns momentos. Tenho certeza que ele só aguentou isso tudo por causa de Rose, ele virou um trapo ambulante quando você sai da faculdade.
– Eu nem sei o que falar ou pensar – Falei deixando lágrimas caírem – É muita coisa para uma noite só – Completei exausta – E se um dia por pura ironia do destino Lilá resolver voltar e exigir seus direitos em relação a Rose? – Perguntei preocupada que ela chegasse perto de Rose, só de imaginar essa possibilidade me dava um estranho aperto no coração, algo diferente de outras vezes que eu tive essa sensação.
– Como eu falei, Lilá não a registrou, Rose só tem o nome do Rony na certidão de nascimento.
– Nada impede de um exame de DNA – Falei completando.
– Rony se encarregou disso, ele fez um documento e nele Lilá abdicava de todos os seus direitos sobre Rose. Ela assinou sem nem pensar duas vezes.
Ficamos ainda conversando por duas horas, tirei minha dúvidas em relação a Rose, como era o dia a dia dela, e eu não entendi o motivo de querer saber tanto da vida dela, de querer participar. Como eu, eles também estavam querendo saber da minha vida, mas não contei muita coisa, até por que eu conversava com Gina e Harry ao longo desses anos.
Assim que a conversa se acalmou eu liguei para um taxi que não demorou muito a chegar.
– Tchau Gi – Falei a abraçando – Eu estarei no meu apartamento na terça, passa lá.
– Ok – Gina falou me abraçando também – Vou levar aquele chá que só você gosta – Gins falou e eu ri da careta que Harry fez.
– Passa lá também Potter – Falei dando um soco leve em seu ombros.
– Sim senhora – Completou me abraçando – Que falta que eu estava da mulheres da minha vida juntas – Harry falou e eu o apertei.
– Eu também estava, mas agora eu tenho que ir.
Não demorou muito e eu já estava dentro de casa enrolada na coberta, e refletindo sobre a conversa, estranhamente me veio um vontade de poder ver o Ron e de poder o abraçar, falar que já passou, que está tudo bem.
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