De onde vem os bebês?!
1 Único
Notas iniciais
A maior parte dos semideuses, gregos ou romanos, enfrentam monstros desde a infância. Percy Jackson, filho de Poseidon, é um exemplo: nem sabia falar e já havia matado duas serpentes no berço. Seria de esperar que eles crescessem fortes, espertos e capazes de enfrentar qualquer dificuldade na vida, certo? Errado. Percy pode ter enfrentado Ares, Cronos e até o próprio Tártaro, mas não o peça para enfrentar a mãe, a esposa ou o filho, Julian. Aliás, ele não era o único: Nico di Angelo, apesar de ter morado um tempo no Mundo Inferior, não poderia enfrentar a pequena Layla di Angelo e, tampouco, a mãe dela, Thalia.
E, como obra das parcas, os dois rapazes enfrentariam um grande desafio naquela noite, uma batalha começada por duas crianças.
— Papai! _ A voz de Julian foi a primeira a ser ouvida. Com três anos e perninhas rechonchudas, ele corria até o pai o mais rápido que podia, os cachos escuros balançando por todo o rosto. _ Papai!
— O que foi, Jules? _ Percy franziu a testa, pegando o menino no colo assim que ele alcançava o sofá. _ Algum problema?
Julian negou com a cabeça, o rosto angelical um pouco vermelho. Ele mordeu os lábios finos, olhando de soslaio para o Tio Nico que havia desviado a atenção da televisão para procurar a filha com os olhos por toda a sala dos Jacksons, mas, aparentemente, ela não havia seguido o amiguinho. Devia estar no quarto com Thalia e Annabeth, desde que havia descoberto da gravidez das duas semideusas, Layla estava sempre falando com os bebês ainda dentro dos ventres.
— Papai, me responde! _ Julian exclamou, fazendo o pai franzir a testa:
— Responder o que?
— De onde vem os bebês! _ O menino completou, os olhos cinzentos fixos no pai, um olhar tão sério e atento que só um herdeiro de Atena poderia ter.
— O que?! _ Percy exclamou, ajustando a postura alarmado e segurando a criança em seu colo.
— Os bebês, papai! _ Julian completou, a expressão levemente aborrecida. _ De onde vem?
Percy encarou a criança por alguns segundos e depois desviou o olhar para Nico, sentado ao seu lado. O filho De Hades tinha um sorriso de escárnio e prestava atenção, muito mais divertido com o embaraço do amigo do que com a Oprah na televisão.
— Por que você está me perguntando isso, Julian? _ Percy questionou, um tanto mais pálido que o normal.
— Porque eu não sei a resposta! _ O pequeno bufou, emburrado. A risada de Nico foi audível, e Percy o olhou murmurando “socorro!”, mas foi ignorado com sucesso. _ Pai!
— Tudo bem! _ Foi a vez de Percy exclamar, passando os dedos pelos cabelos escuros. _ Estou tentando pensar em como te explicar!
Nico franziu a testa. Seu olhar alarmado dizia claramente: “Você não vai explicar sobre sexo para uma criança de três anos, não é?!”, o que fez o amigo revirar os olhos. Era óbvio que não! Tudo bem que ele havia tido um pequeno problema ao lidar com Layla há pouco menos de um mês _ Algo envolvendo pipoca, canibalismo e muito choro. Longa história! _, mas, no geral, ele era responsável com a família. Não era?!
— Lerdo! _ Julian exclamou irritado, o mesmo tom que a mãe.
— Ei! _ Percy brigou, mas era em vão quando Nico gargalhava com a fala da criança:
— Esse menino puxou Annabeth!
— O que eu disse sobre me chamar de lerdo?! _ Percy brigou, o tom sério.
— Mas a mamãe chama! _ O menino exclamou. Mas, ao ver que o semblante do pai se fechou mais, apenas suspirou. _ Tudo bem, papai! Desculpe. Pode me contar agora?
— Não sei não, rapazinho. Você anda muito malcriado, deixando o papai triste.
— Papai, por favor. _ Julian suplicou fazendo um bico. Os olhinhos encheram-se de lágrimas, mostrando os reflexos de verde ali presente e Percy sabia que não aguentaria recusar.
— É, Percy. _ Nico implicou. _ Julian merece saber.
Percy não queria inventar uma história. Ele queria bater a cabeça de Nico na parede até ele criar juízo, e não era a primeira vez que tinha esse desejo. Infelizmente, Thalia havia sido muito explícita sobre o que aconteceria se eles brigassem na frente da criança e ela era assustadora o suficiente para o filho de Poseidon não querer deixá-la irritada ou viúva.
— Tudo bem, Jules. _ Percy murmurou, tentando se lembrar dos clichês “de onde vem os bebês”. _ Mas nada de perguntas durante a história, ok?
Julian se manteve calado, o que era um óbvio não, e fez o pai suspirar derrotado.
— Bom, quando duas pessoas se amam muito…— O filho de Poseidon começou, fazendo uma pequena pausa, procurando uma forma de continuar. _ Eles… Hã… Sabe… Decidem ter um bebê. _ Houve um silêncio longo, em que Julian olhava concentrado e Nico franzia a testa.
— E…? _ O Di Angelo perguntou, sendo rebatido pelo olhar irritado do amigo.
— E nada. Você sabe que é só isso, Nico. _ Murmurou entredentes, mas o filho foi quem o interrompeu.
— Não é não! Papai, conta direito! Eu não sou burro!
— É isso, filho. _ Percy tentou argumentar, mas a batalha já tinha um vencedor. _ A história resumida.
— Conta ela toda! _ Julian retrucou, cruzando os bracinhos e fazendo um bico. Quando o assunto era entender algo, ele era mais persistente que a própria Annabeth.
— Tudo bem, Jules… _ Percy suspirou de novo, rezando aos deuses em socorro, já que Nico obviamente só servia para atrapalhar. _ Quando essas duas pessoas, o papai e a mamãe, querem um bebê… Eles pedem um bebê.
— Pedem? _ Julian franziu a testa. _ Tipo quando a gente pede pizza? Tem um telefone pra ligar? Ou pode pedir pelo celular igual comida chinesa?
Nico colocou a mão na boca pra abafar o riso e recebeu outro olhar irritado de Percy.
— Não, Jules. Eles hum… Fazem uma oração. Isso! _ O filho de Poseidon exclamou, como se fosse um gênio. _ Eles fecham os olhos e fazem uma oração.
— Ah, com certeza fecham os olhos... _ Nico implicou com um sorriso malicioso e foi respondido com uma almofada atirada em sua direção.
— Pedem pra quem?! _ Julian continuou, mais concentrado em suas próprias questões do que na briga dos rapazes. _ Tipo uma deusa?
— É! Uma deusa! Hã… Bebezepeia. _ Percy rezou para não estar sendo herege e ser tostado por um raio. Se bem que, levando em conta a quantidade de olimpianos, ele não duvidaria que existia uma deusa chamada Bebezepeia. _ A deusa dos bebês.
— E ela vem aqui e entrega?
— Uhum, ela pede as cegonhas! _ Percy sorriu orgulhoso, como se tivesse finalizado uma grande e complexa história. _ Que é o animal sagrado dela! Uma cegonha pega o bebê e leva até o papai e a mamãe!
Julian parecia satisfeito e o filho de Poseidon olhou vitorioso para Nico, que apenas revirava os olhos, incrédulo.
— E de onde vem a barriga?! _ Uma voz infantil soou pela sala, fazendo Percy quase pular de susto no sofá. Ele demorou um segundo para notar a garotinha que subia no colo de Nico, uma manchinha pequena com cabelos e roupa preta. Com cinco anos, Layla naquela noite era a miniatura da mãe, Thalia, com saia rodada, meia-calça e olhos azuis.
— Já ensinou Layla a usar as sombras?! _ Percy acusou, ainda com o coração acelerado graças ao aparecimento repentino da menina.
— Não. _ Nico franziu a testa, abraçando a filha.
— Você que é lerdo! _ Layla deu língua para o tio.
— Já ensinou Layla a me chamar de lerdo?! _ Percy acusou Nico novamente, que apenas riu e negou.
— Isso é obra de Thalia. Vai querer discutir com ela? _ O filho de Hades ergueu a sobrancelha e era óbvio na expressão de Percy que a resposta era não.
Brigar com Thalia Grace _ agora Thalia Grace-Di Angelo _, a filha de Zeus mais explosiva e perigosa que conhecia? Ele já havia feito isso anos atrás e ainda se lembrava da sensação dos choques!
— Você e Thalia se merecem mesmo! _ Percy retrucou emburrado, fazendo Nico sorrir de canto e apertar mais a filha nos braços.
— Tio Percy! _ Layla chamou. _ Você não disse de onde vem a barriga!
— Barriga? _ Percy franziu a testa e ouviu Julian murmurar um “lerdo” alto o suficiente para ele ouvir, mas ignorar.
— Se a cegonha trás o bebê _ A pequenina explicou calmamente. _, como ele vai parar na barriga da mamãe?!
— Bom… _ Percy resmungo, tentando achar alguma justificativa. As crianças não aceitavam essa desculpa e ficavam caladas?! Porque Layla queria tanto achar furos na história dele?!
— A mamãe come o bebê?! _ Julian exclamou assustado, se remexendo nos braços do pai.
— O que?! _ O filho de Poseidon tentou entender, mas era tarde de mais.
— Uhum. _ Nico balançava a cabeça positivamente com um sorriso malvado.
— A mamãe comeu meu irmãozinho?! _ Julian perguntou mais exasperado, se livrando de Percy e engatinhando sobre o sofá até o tio, que ria do medo do menino e de Layla, que parecia igualmente assustada com a possibilidade.
— Sim. _ Nico confirmou calmamente.
— A mamãe também?! _ Layla questionou arregalando os olhos azuis e o pai apenas assentiu, tentando não rir. _ Mas eu nem vi o bebê chegar!
— Eu não queria que a mamãe comesse meu irmãozinho! _ Julian choramingou, os olhos enchendo de lágrimas.
— Tia Annabeth é mais gulosa. _ Layla sussurrou pensativa. _ A barriga dela tá grandona e da mamãe pequenininha!
Nico colocou a mão na boca pra abafar o riso. Era verdade, Thalia estava grávida há poucas semanas, enquanto o bebê de Annabeth nasceria no próximo mês.
— A barriga da mamãe cresceu muitão! _ O pequeno Jackson constatou. _ Ela tá comendo fermento?
— Ela está comendo fermento, Percy?! _ Nico repetiu, olhando para Percy, mais nervoso do que nunca. Os olhos verdes do rapaz diziam claramente que ele queria matar o amigo, mas não faria. Não na frente das crianças.
— Não. _ O filho de Poseidon enfim respondeu. _ A barriga está crescendo porque o bebê está crescendo.
— Tenho quase certeza que essa é a história dos nossos pais. _ o filho de Hades retrucou, sorrindo mordaz e sendo ignorado.
— O tio Nico explicou errado, crianças. _ Percy continuou, se lembrando de algo que havia visto em um livro infantil. Annabeth havia o mandando ler vários quando descobriu que estava grávida da primeira vez. Alguns tinham figuras, então o Jackson leu. _ A mamãe não come o bebê. O papai dá uma sementinha pra ela e essa sementinha vira o bebê.
— Ah! _ Layla exclamou pensativa. _ Por isso que a mamãe disse que eu vim da barriga também!
— E meu irmãozinho já cresceu muito! _ Julian completou e agora as duas crianças pareciam felizes enquanto Nico e Percy se fuzilavam com os olhos.
— Por que o bebê fica na barriga? _ A pequena Grace-Di Angelo questionou e Percy levou a mão a testa, cansado. Felizmente, Nico se apiedou do amigo e decidiu responder a filha:
— Porque ele é muito pequeno, mio amore. — O Di Angelo riu, batendo o dedo no nariz da pequena. _ Lá ele não se machuca.
— Qual o tamanho? _ Layla perguntou ao pai, os olhos azuis curiosos.
— Bom, ele começa bem pequenininho. Seu irmãozinho, ou irmãzinha, é do tamanho de um grão de feijão. E depois vai crescendo.
— A barriga da mamãe é grande, então ele é grande. _ Julian opinou. _ Do tamanho de uma melancia!
— Ele nasce do tamanho de uma melancia?! _ Layla arregalou os olhos.
— Do tamanho de um bebezinho, filha. _ Nico riu, bagunçando os fios negros da menina. _ Você já foi pequenininha.
— Do tamanho de uma melancia?!
— Também. _ Nico riu. _ E de um grão de feijão também, ficou dentro da barriga da sua mãe.
— E eu ficava quietinha? _ A pequena questionou.
— Não, não mesmo! _ O Di Angelo respondeu, abraçando a filha. _ Ficava mexendo de um lado pro outro! Não deixava sua mãe e nem eu dormir!
— Meu irmãozinho também não fica quieto. _ Julian contou. _ Ele fica chutando a barriga da mamãe! Eu falei pra ele quietar, mas ele chutou mais. Ele não me obedece.
O menino suspirou desolado, fazendo o pai rir.
— Todo mundo ficou na barriga da mamãe? _ Layla perguntou pensativa, pra ninguém em especial. Quando os dois rapazes assentiram, Julian quem se assustou:
— Você também?! _ Ele gritou, olhando pro pai.
— Uhum, quando era bem pequeninho. _ Percy riu da surpresa do filho, que voltava a engatinhar pelo sofá até ele.
— Na barriga de quem? _ O menino estreitou os olhos.
— Da sua vó Sally.
— Tadinha da vovó! _ Julian abriu a boca e arregalou os olhos, incrédulo. _ Desse tamanhão na barriga dela!
— Eu era pequeno, Julian. _ Percy revirou os olhos, pensando que talvez o filho tivesse herdado algo dele além da hiperatividade e dos cabelos negros. _ Do tamanho do seu irmãozinho. Só depois eu cresci.
— E como é que sai?! _ O menino questionou.
— Bom… Sabe… Sai por… _ Percy murmurou, olhando nervoso para Nico que negava ajuda. _ Bom…
— Eles cortam! _ Layla exclamou. _ A mamãe já me mostrou! Tem uma cincantiz na barriga dela! Bem grande!
— Eles vão cortar a mamãe?! _ Julian exclamou, novamente horrorizado.
— Ela vai ficar bem, Jules. _ Percy o acalentou. _ Ela já não teve você?!
— Tadinha das mamães. — O menino murmurou.
— Eu não vou querer ser mamãe! _ Layla ressaltou. _ Cortar minha barriga? Não!
— E demora pro bebê nascer?! _ Julian questionou por fim;
— Um pouquinho, seu irmão vai nascer logo, logo. Ansioso?
— Muito! _ O menino riu, deitando com a cabeça no colo do pai. Os quatro ficaram em silêncio durante alguns minutos, prestando atenção na televisão, até que as crianças começassem a rir.
— O que foi, mio amore? _ Nico franziu a testa sem entender, fazendo a filha rir mais.
— Tio Percy é lerdo!
— Muito lerdo! _ Julian confirmou, rindo também. _ Não sabe nada!
— Do que vocês estão falando? _ Percy estreitou os olhos olhando de soslaio para Nico.
— A mamãe me explicou de onde vem os bebês! _ Julian contou ainda rindo.
— Da barriga! _ Layla confirmou, mostrando-se cúmplice. _ E fazendo amor!
— E você sabe o que é fazer amor, bambina?— Nico questionou, apertando o nariz da filha.
— A mamãe me contou!
O Di Angelo se surpreendeu, mas, vindo de Thalia, o melhor era apenas concordar e não entrar em detalhes.
— E a mamãe disse pra pergunta pra você! _ Julian continuou a explicar, rindo ainda mais. _ Ela disse que você é lerdo!
— E não ia conseguir explicar! _ A menina Grace-Di Angelo continuou. _ Nem o papai conseguiu e olha que ele é professor!
— Você sabia disso? _ Percy estreitou os olhos, encarando o Di Angelo e tentado a pegar contracorrente no bolso.
— Que era uma pegadinha?! _ Nico ergueu a sobrancelha. _ Não, mas Layla já tinha me perguntado antes. Achei que você também devia passar pelo pior.
— “Era uma vez um milho e uma pinha que se apaixonaram...” _ Uma voz feminina recitou do corredor, conquistando a atenção deles. _ Não sei qual dos dois é pior!
— E eu estou errado, Pinhazinha?! _ Nico retrucou para a esposa, que o acertou com um tapa na nuca assim que o alcançou. _ Ai!
— Espero que com James você se saia melhor, Cabeça de Algas! _ Annabeth ordenou, aparecendo logo atrás de Thalia e se sentando no sofá ao lado de Percy. Mesmo com o tom de briga, ela acariciava a barriga saliente, onde o pequeno James gostava de chutar. _ Francamente: deusas, cegonhas e sementes?! Já estava vendo a hora de você traumatizar Julian!
— Acho que estou me esquecendo como é, Sabidinha. _ Percy a abraçou, acariciando os cachos loiros. _ Talvez você possa me ensinar mais tarde.
Annabeth ficou vermelha e lhe acertou um tapa no braço: _ Percy!
— Pelos deuses! _ Thalia exclamou, sentando-se no chão perto do marido. _ Arrumem um quarto vocês dois!
— Ah, vá beijar um milho, Thalia! _ A loira ordenou, dando língua.
— Na verdade, adorei a sugestão da Annabeth! _ Nico opinou, deixando um beijo no topo da cabeça da esposa.
— É, tenho certeza que vocês vão sei beijar muito depois, Nico! _ A filha de Atena revirou os olhos. _ E não estou reclamando disso, você sabe: super shipo vocês! Mas, antes, eu preciso ouvir a sua história.
— Minha história? _ O Di Angelo franziu a testa para a amiga.
— Sim, sua história. _ Annabeth confirmou, sorrindo ao entrelaçar as mãos com Percy. _ Então, Nico, de onde vem os bebês?!
— Ah, você sabe: tudo começou com uma pinha e um milho...
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