De laços e fitas
5 Capítulo 5
As semanas seguintes se passaram de forma quase maquinal. Acordar, trabalhar e dormir. Can-Can ocupava a maior parte de seu tempo com o trabalho. Pensava muito na potra castanha; não tiveram mais a chance de se verem, o que a deixava num estado de melindre interminável. Seus pelos brilhavam pouco, mesmo quando dançava. Turner não ia mais à praça do artista, evitava aquela parte da cidade como podia, não queria arranjar mais confusão com o padeiro e sua família. E queria evitar que sua pequena voltasse a ver a suposta namorada. No entanto, percebia o quão triste sua filha ficara com o passar dos dias; Can-Can já quase não sorria, não fazia brincadeiras, não queria conversar. O flautista tentou ajudá-la, à sua maneira. Certo dia convidou um dos potros do bairro para passear com a filha. Era um pégaso muito simpático, de pelagem turquesa, crina e cauda crespas e de cor de areia, seus olhos eram de um magenta brilhante; chamava-se Clean Weather. Turner nutria certa esperança de que ele fizesse a filha esquecer Sticks. Mesmo que para isso tivesse que deixar de ter ciúmes de Can-Can. A potra rubra saiu para passear com o jovem pégaso sem grandes pretensões, caminharam pelas ruelas próximas de casa e conversaram em voz baixa a maior parte do tempo. Can-Can ouvia muito mais do que falava. Weather tinha uma voz mansa e agradável, sua fala era leve e gostosa de ouvir; monologava sobre o quanto gostaria de ir para uma cidade com clima mais ameno, sobre trabalhar movendo nuvens e várias outras particularidades que a jovem dançarina pensava serem apenas ‘coisa de pégaso’. Estava aborrecida, não porque desgostasse da companhia do potro, gostaria de ser amiga dele, mas porque não parava de pensar em sua princesa.
A companhia do pégaso, porém, deu a Can-Can aquilo que ela mais queria: uma oportunidade. Se saísse com ele, não estaria sendo vigiada pelo pai, e se não estivesse sendo vigiada, poderia pedir para que Weather a acompanhasse até a praça do artista. Mas antes, precisaria ficar amiga dele.
“Então, papa foi até a sua casa para falar sobre mim”, Can-Can interrompeu Weather bruscamente.
“Oh, bem... ele mencionou que você estava muito sozinha e que talvez precisasse de um... amigo”, a frase do potro soou quase como uma pergunta. A potra sabia que a palavra amigo não era exatamente onde Weather queria chegar. Talvez tampouco fosse a palavra que o próprio Turner tivesse usado, não tinha certeza. Can-Can passara a ser desconfiada das intenções do pai.
“Você não vai me beijar”, decretou a potra com um olhar sério, para o espanto do pégaso que ficou sem jeito. O focinho dela se torceu de forma irritada.
Weather balbuciou algo ininteligível.
“Acredite, o problema não é você. Eu sou comprometida”, Can-Can falou, quase duvidando do que havia dito. Não via Sticks há pouco mais de um mês e não sabia ao certo se ainda tinha uma namorada.
“Herr Turner não mencionou que você tinha um pônei especial”, o pégaso disse, frustrado. Era fato que a beleza da pônei de cristal era de causar inveja, de forma que parte das potras pareciam sumir se colocadas próximas a Can-Can. A dançarina despertava o interesse de vários potros do bairro. Não foi fácil ser dispensado tão secamente. Como parecia que não conseguiria nada com ela, e como a potra parecia aborrecida, o jovem logo procurava uma desculpa para ir embora. Antes que pudesse pensar em algo ela disse, triste, “Ele não mencionaria...”
Weather ficou observando o rosto da potra. Ela costumava brilhar mais, não?, pensou. Foi quando se deu conta de que havia algo errado.
“Por que ele não mencionaria?”
“Não sei se quero falar sobre isso.”
“Se não falar, não posso te ajudar”, Weather insistiu. Era um pônei oportunista, e imaginava que resolvendo qualquer que fosse o problema de Can-Can, teria uma chance.
“Eu posso confiar em você?”, a potra perguntou, insegura.
“Vamos lá. Para ver um sorriso nessa sua carinha, eu guardo um segredo”, ele disse, animado.
“Papa não mencionaria minha namorada”, Can-Can revelou com pesar. Não via mais por que esconder seu amor por Sticks, afinal, já haviam sido descobertas mesmo. E mais uma vez surpreendeu o pégaso, que se perguntou se tinha ouvido direito.
“Você tem uma namorada?”, Weather disse entre risos, tamanha sua descrença.
“É verdade!”, Can-Can retrucou, ofendida. Tinha uma expressão que misturava severidade e melancolia no rosto. “Preciso da sua ajuda”, completou com um sussurro. Enquanto caminharam pelas calçadas pouco movimentadas dos quarteirões mais próximos, Can-Can explicou sua condição a Weather. Falou a respeito o namoro e sobre a confusão no apartamento acima da padaria. O pégaso não era um pônei maldoso, mas somente considerou ajudar a potra rubra quando se deu conta de como poderia ganhar algo ao ajudá-la.
“Eu posso te ajudar. Mas tem uma condição”, disse ele, por fim.
“E qual é?”, Can-Can perguntou apreensiva.
“Você vai fingir que namora comigo.”
“O quê?!”, a potra rubra indagou, frente a tamanho absurdo.
“É simples. Eu vou levar você pra ver a sua namoradinha, mas nós vamos agir como se fossemos um casal quando estivermos juntos”, ele explicou, estufando o peito.
“Por quê?”, ela replicou secamente.
“É o seguinte. Se as outras virem a pônei mais bonitinha dessas bandas comigo, vão pensar que eu tenho algo de muito especial. Vão ficar muito interessadas em mim, entendeu? E eu vou poder ter qualquer uma delas. É genial”, Weather discursava mais para si do que para Can-Can, que o olhava agora com certo desgosto.
Potros, ela pensou decepcionada e revirou os olhos. Questionou, “E eu vou fazer o papel da potra burra?”
“Bem...”
“Você é um idiota, sabia?”
“Já me disseram isso alguma vezes. Eu costumo não ligar”, Weather afirmou, e sorriu para Can-Can como um perfeito cafajeste.
Apesar de achar a ideia um bocado degradante, a jovem dançarina pensava que passar por aquilo para ver Sticks valia completamente a pena. E se seu pai descobrisse que Weather a traía, sabia que o potro levaria uma surra para jamais esquecer. Ou melhor, se alguém descobrisse que Can-Can traía o namorado com outra potra, ele passaria por um vexame muito grande. O plano não era de todo ruim, afinal.
“Certo. Se alguém perguntar, nós namoramos”, ela concordou.
“Não é tão simples assim. Não basta alguém perguntar, nós precisamos também da encenação”, Weather retrucou com um sorriso maroto no rosto. De súbito, esticou a asa esquerda sobre as costas da pônei de cristal e puxou-a para perto de si. Perto demais para o gosto de Can-Can, que agora trotava encostada no flanco pégaso.
“Você é mesmo um idiota!”, Can-Can disse, olhando para Weather. Ele virou a cabeça em direção à dela, encostando os focinhos de ambos. O rosto da potra se aqueceu. Se fosse possível, sua face parecia haver ficado ainda mais vermelha naquele instante.
“O que disse?”, o pônei turquesa indagou com malícia. Observava os olhos dela muito de perto, o dourado neles era atraente. Weather não pretendia mexer com a pônei de cristal daquela forma, tinham um acordo e ele deveria cumpri-lo. Da melhor forma que pudesse, pelo menos. Mas se eu puder tirar uma casquinha de vez em quando, pensou.
Can-Can estava confusa. Não afastou o próprio focinho do de Weather, estancou encarando os sagazes olhos de tom magenta dele. Após algum tempo, interrompeu os devaneios do potro com um sonoro, “O que pensa que está fazendo?!”, e afastou-o um pouco usando um casco. Que absurdo! Eu devia saber que ele ia aprontar uma dessas, pensou irritada.
“Você não vai fazer isso de novo”, a pônei de cristal ordenou, nervosa.
“Desculpe, eu acho que não consegui resistir. Vou trabalhar melhor nisso”, Weather murmurou, todo sorrisos. Can-Can percebeu que não podia confiar muito nele. Sequer conseguiu se dar conta de que – de um modo torto e idiotamente masculino – ele havia feito um elogio a sua beleza. A potra virou o rosto para longe e voltou a trotar devagar. Durante o percurso de volta para casa, a asa sobre suas costas fazia-lhe carinho num roçar lento e macio. A sensação era estranha, mas de um jeito bom, logo, não protestou. O plano de Weather já estava em prática, algumas das potras do bairro tinham visto os dois caminharem juntos durante a tarde; as fofocas começariam logo.
Caminhar daquela forma com um pônei era algo novo para Can-Can. Como escondia o namoro com Sticks, nunca tivera a chance de trotar ao lado dela assim, tão próxima. Vou trotar com ela assim, um dia... pena ela não ter uma asa, pensou distraída e deixou-se sorrir levemente; seus pelos cintilaram. Veria Sticks logo. O pensamento a alegrou.
“Quando vamos sair de novo?”, a potra perguntou ansiosa.
Weather sorriu para Can-Can.
“Não pense bobagens”, Can-Can cortou-o imediatamente.
“Isso depende, preciso saber de um dia que você esteja disponível.”
“Amanhã!”
“Segunda-feira?”, o pégaso questionou, confuso.
“Tem algo para fazer amanhã?”
Weather pensou por um momento, decidiu que mataria um dia de aula para sair com a potra rubra. Respondeu com um aceno de cabeça negativo.
“Quando chegarmos em casa, você vai pedir para sair comigo amanhã. Se papa falar que temos de trabalhar, eu vou insistir. Ele vai deixar”, como ela havia dito, foi feito. Chegaram à casa da potra não muito tempo depois, ao abrir a porta e ver a asa de Weather por cima das costas da filha, Turner ficara surpreso, uma parte de si estava contente com a possibilidade de seu plano ter sido um sucesso, enquanto outra parte, enciumada, queria questionar a ousadia do potro.
Quando Weather perguntou se poderia levar Can-Can para sair de novo no dia seguinte, Turner ficou receoso. E no momento em que sua filha intercedeu pelo pégaso, deixando de lado a vontade de ir para sua amada praça das camélias, o unicórnio só pôde pensar que ela talvez estivesse mesmo gostando dele. Em outra situação, Turner acharia muito estranho a filha ficar tão interessada por um potro que conhecera naquele mesmo dia, por um instante passou por sua cabeça a possibilidade da filha estar no cio, pensamento que foi logo em seguida descartado visto que Can-Can não tinha idade para tal. Por fim decidiu que se aquele potro faria com que ela esquecesse Sticks, deixaria que saíssem de vez em quando – não demais, é claro, temia que aquilo pudesse fazer a filha ficar falada na rua, mesmo que, tanto quanto soubesse, Weather fosse um pônei respeitável, afinal, pelo menos os pais dele eram.
“Certo. Podem sair amanhã. Mas eu quero Can-Can em casa às três da tarde”, disse o pai, recebendo um sorriso animado da filha, que balançou a cabeça positivamente. Um silêncio um pouco constrangedor se apoderou dos pôneis parados à porta da casa.
“Bem, então acho que vejo você amanhã, Clean”, Can-Can disse com um pequeno sorriso.
“Oh, claro. Tchau, amorzinho”, o potro retrucou retirando a asa das costas da pônei de cristal e dando-lhe um beijo no rosto em seguida. O beijo pegou Can-Can desprevenida, aquilo não estava combinado. Ele me chamou de amorzinho?!, pensava indignada ao ver o pégaso se afastando rua abaixo com um sorriso bobo na cara. Turner, confuso, observava os dois potros. Primeiro, aquela asa boba, então esse beijo. O que está acontecendo aqui?, a voz na cabeça do pai era nervosa.
“Entre, mein liebe.”
Can-Can entrou em casa ainda irritada com o atrevimento de Weather. Dirigia-se distraída para o quarto quando o pai chamou por seu nome. A pônei de cristal virou-se para encará-lo. O chifre de Turner brilhava; no fogão, uma colher fazia movimento circulares dentro de uma panela. O pai preparava mais um de seus ensopados.
“Está tudo bem, filha? Como foi o passeio?”, ele perguntou apreensivo.
“Foi bom”, a potra respondeu vagamente.
“Bom como?”, ele insistiu.
“Sendo bom.”
“O que fizeram?”
“Conversamos”, ela retrucou com um suspiro aborrecido.
“Conversaram? Só conversaram? A tarde toda?”
“Sim, papa.” Can-Can começara a ficar impaciente.
“Por onde andaram?”, Turner inquiria com uma expressão séria no rosto.
“Ficamos dando voltas no quarteirão.”
“E sobre o que conversaram?”
“Clean estava me falando sobre trabalhar movendo nuvens.”
“Somente sobre isso?”
“Não, papa.”
“O que mais?”
Can-Can não entendia por que o pai a estava interrogando. Não gostava daquilo e a indignação que sentia por Weather se somou ao aborrecimento que sentiu pelo pai naquele instante. Uma expressão irritada ficou claramente visível no rosto da jovem.
“O que quer saber, papa?”, Can-Can perguntou, ríspida. Turner ficou surpreso, desde o dia em que a relação de sua pequena com Sticks fora descoberta, o garanhão cinzento pensava que já não conhecia mais a sua filha. Uma parte de si dizia que ele não a conhecia mais tão bem assim porque Can-Can estava crescendo, deixando de ser sua pequena. Outra parte nutria um tipo de aversão a potra que gostava de outras potras, que mentia para ele, que falava de forma mal-educada com ele, que o olhava de cara feia. “Nada. Não é nada. Deixe para lá”, Turner falou. A pônei de cristal virou-se mais uma vez e logo desaparecia atrás da porta do quarto. Enquanto mexia o ensopado, o pai perdia-se pensando no que havia de errado com a filha. A pequena dançarina que lia contos de fadas parecia ter sumido; em seu lugar havia uma jovem dada à devassidão que fazia sabe-se-lá-o-que com outros pôneis quando o pai não estava olhando. Pelo menos, Turner assim pensava. A dura verdade era que a não aceitação do unicórnio pelas preferências da filha havia envenenado a forma como ele a via. Can-Can ainda era Can-Can, o pobre Turner apenas tinha dificuldade em enxergar isso.
*** *** ***
Pela primeira vez em vários dias, Can-Can acordou com um sorriso no rosto. Seus pelos cintilavam de leve. Pulou para fora da cama, fazendo-a ranger sofrivelmente. Quando encostou o casco na maçaneta da porta, esta se abriu com uma leve aura esverdeada. Turner estava parado do lado de fora do quarto, tinha o cachecol no pescoço e a flauta levitava próxima à sua cabeça.
“Bom dia, filha”, o garanhão disse; seu rosto era apreensivo – e essa expressão tornava-se cada vez mais agonizantemente comum. Can-Can ultimamente não se sentia bem com a forma como o pai a olhava, parecia estranho, distante. O sorriso sumiu do rosto da potra. Devolveu o mesmo olhar ao pai. Os dois eram mais parecidos do que imaginavam.
Can-Can abraçou-o. “Olá, papa”, sussurrou. Afastou-se e ficou olhando para Turner de novo.
“Eu já estava de saída. Vim dizer que aqueci o resto do ensopado de ontem à noite para o café da manhã. Weather chegou a dizer que horas viria buscar você?”, murmurou. A potra rubra negou com a cabeça.
“Bem, eu tenho que ir. Cuide-se, está bem? E, por favor, não faça nenhuma besteira, mein liebe”, Turner advertiu, quase triste. Com um casco, afagou a crina da filha, virou-se para a sala e trotou devagar para a saída. Can-Can o acompanhou com certa distância até a porta que dava para a rua.
“Auf wiedersehen”, o pai se despediu, fazendo menção a trotar para a calçada. Antes que pudesse ir, Can-Can chamou sua atenção.
“Eu amo você, papa”, a potra disse com doçura. Abraçou-o de novo e beijou seu rosto. Aquele pequeno gesto de carinho enterneceu Turner, que ainda estava confuso com tudo o que pensava sobre a filha. Sorriu para ela.
“Também amo você”, disse ternamente, e então partiu.
Can-Can viu o pai fazer a curva na esquina e sumir. Voltou para dentro de casa e foi ao banheiro. Tomou um banho demorado, limpou-se o melhor que podia debaixo do chuveiro, queria estar cheirosa para encontrar Sticks. A pônei de cristal era tão vaidosa quanto podia, sendo limitada apenas pela falta de bits para a compra de adereços, perfumes e indumentárias; felizmente, xampu e sabonete jamais lhe fizeram falta, de forma que mantinha uma aparência quase sempre agradável. Logo mais, saía do banheiro e entrava no quarto com uma toalha sobre as costas. Sentada na cama, começou o lento processo de secar e escovar crina e a cauda. Enquanto passava a escova nos cabelos, olhou para a fita vermelha que usava para prendê-los, estava ao seu lado na cama. Can-Can suspirou decepcionada, não sabia fazer uma trança, o pai nunca lhe ensinara por também não saber. Certa vez a pônei pedira para uma colega na casa de Fraülein Balance ensiná-la, mas a outra potra questionara por que a mãe de Can-Can não a mostrava como fazer. A jovem dançarina então nunca mais pedira ajuda com penteados. Atou a fita vermelha nos cabelos prateados como de praxe, próxima à raiz, atrás da cabeça, formando um modesto rabo de cavalo. Entrelaçou toda a extensão da cauda com outras fitas vermelhas. Voltou ao banheiro para olhar-se uma última vez no espelho que ficava sobre a pia. Observou o próprio rosto atentamente, sorriu para si mesma.
“Agora só falta aquele potro bobo aparecer”, disse para seu reflexo. “Que ele não faça nenhuma gracinha hoje, por favor.”
Can-Can tomou um pouco do ensopado enquanto esperava por Weather sentada no sofá. A todo momento olhava para o relógio de parede que ficava próximo ao fogão. Suas pernas se moviam num balançar nervoso conforme o tempo passava e o pégaso não aparecia, até poderia se dizer que era uma potra ansiosa esperando o namorado vir buscá-la. Quando ouviu, às dez horas, um bater de cascos na porta da frente, saiu de seu lugar num pulo e trotou rapidamente para atendê-la. Abriu a porta de uma vez e ali estava Weather, com seu sorriso idiota no rosto.
“Olá, amorzinho”, ele disse.
“Não me chame assim. Falo sério”, Can-Can disse, torcendo o focinho.
“Você sempre acorda de mau humor?”, Weather ironizou.
“Calado. Vamos”, a potra respondeu carrancuda, saindo de casa. Trancou a porta e deixou a chave debaixo do capacho. O pégaso pensou em dizer o quanto aquilo era perigoso, mas temeu irritá-la ainda mais, porém, não perdeu tempo em colocar uma asa de novo sobre as costas dela e puxá-la para mais perto ao trotarem juntos.
Can-Can não admitiria, mas não protestou porque gostava da sensação. Guiava o potro em direção à praça do artista e tentava conter o nervosismo. Não tinha pensado em como chegaria a falar com Sticks. E se ela não estivesse na padaria? E se estivesse, sua mãe provavelmente também estaria lá. E se Dame Flour a visse antes de ter a oportunidade de falar com a princesa? A mente de Can-Can perdeu-se em criar planos para as diversas situações. Weather monologava sobre coisas de pégaso de novo, não se deu conta de que a potra não prestava atenção. De repente, o potro encostou o rosto no de Can-Can. Ela se assustou.
“O que você pensa que está fazendo?”, a potra sussurrou.
“Sendo um namorado carinhoso, agora finja um sorriso, vamos passar por uma potra que conheço.”
Can-Can estava enojada. Fingiu seu sorriso, porém. Weather falava de uma pônei unicórnio de pelos cor de creme, suas crina e cauda eram ambas cor rosa claro. Ela vinha na direção oposta à deles. Era, de fato, bem bonitinha. Pônei de cristal e pégaso viraram os rostos para trás para observá-la após se cruzarem na calçada.
“Esse seu plano idiota, acha que funciona mesmo?”, Can-Can perguntou.
“É claro que sim. Agora ela deve estar pensando em como eu devo ser um potro ótimo de se estar junto”, Weather respondeu estufando o peito.
“Eu já disse que você é um idiota?”
“Já. E eu já disse que você dá uns olhares bem indiscretos, de vez em quando?”
Idiota, Can-Can pensou. Permaneceu calada, sentiu-se envergonhada. O pégaso deu mais um de seus sorrisos triunfantes, afeiçoara-se à potra rubra de um jeito próprio – gostava de provocá-la.
*** *** ***
Voltar a pisar no mármore da praça do artista deixou Can-Can com uma estranha sensação de angústia. O pesadelo que vivera na casa de Sticks ainda era presente em seus pensamentos. Mas não poderia voltar agora, estando tão perto. Queria ver sua pônei especial. E queria muito. Logo o mármore sob seus cascos era substituído pelo calçamento do quarteirão que precisava transpor para chegar à padaria, e quanto mais próxima ficava de seu destino, mais nervosa ficava. Weather observava os arredores atentamente, não ia muito àquela parte da cidade.
Chegaram à padaria. Estavam parados do outro lado da rua. Can-Can, escondida atrás do corpo do pégaso, espiava o interior do estabelecimento em busca da pônei castanha. Clientes enchiam o lugar e não conseguia achar quem procurava.
“Eu preciso que você vá até lá procurar por ela”, Can-Can disse. “Diga que estou esperando na esquina e que preciso vê-la.”
Weather ouviu quieto enquanto a potra rubra falava como se pudesse dar-lhe ordens. Prestou atenção em como Can-Can descrevia a namorada e os pais dela. Por fim, com um suspiro e um aceno de cabeça, o potro atravessou a rua e sumiu entre os clientes. A pônei de cristal trotou nervosa para a esquina, olhava para trás e para os lados como se esperasse que um rinoceronte fosse atropelá-la a qualquer momento. A espera pareceu uma eternidade, Can-Can batia os cascos no chão, ansiosa. Aguardava o pégaso e a pônei terrestre na curva da esquina, protegida pela parede de canto de um pequeno edifício de três andares, vez ou outra esticava o pescoço para observar a rua da padaria; frustrava-se toda vez que não via Weather ou Sticks. Começava a pensar que talvez a pônei castanha sequer estivesse lá, e o pégaso apenas perdia seu tempo procurando-a. Mas era apenas uma padaria, como podia demorar tanto para perceber que ela não estava lá?
“De Equestria para a potra no mundo da lua, você está aí, potra no mundo da lua?”, Weather brincou. Acabara de virar a esquina, Sticks estava ao seu lado, Can-Can não havia percebido. Ali estava sua princesa. Usava os óculos dourados que a deixavam com cara de espertinha. Tinha um meio sorriso no rosto.
A potra rubra se aproximou rapidamente e ignorou o pégaso que esperava algum tipo de agradecimento. Beijou a potra castanha. O beijo foi apaixonado e um bocado nervoso, afinal, estavam numa calçada! Quando os lábios das duas se separaram, Sticks tinha um rubor no rosto que ia até a orelhas. Can-Can passou os cascos por trás do pescoço da namorada, prendendo-a num abraço cheio de saudade.
“Você não imagina o quanto eu senti a sua falta”, Can-Can sussurrou, a voz falhando por causa da emoção.
Weather mantinha um olhar apalermado sobre as duas. Apesar de ter conhecimento da relação delas, parecia que tinha se dado conta de que tudo o que Can-Can havia dito era real somente após vê-las naquela situação. Elas ainda estavam abraçadas e Sticks dizia palavras carinhosas no ouvido da parceira; logo mais percebeu a forma como o pégaso as olhava.
“Qual é o problema dele?”, perguntou para Can-Can. A potra rubra usou uma pata para enxugar um princípio de choro que se formava em seus olhos.
“O problema?”, a pônei de cristal disse com a voz ainda falha. Virou o rosto para olhar Weather que, envergonhado, parou de encarar as duas. “Ele é um idiota”, Can-Can explicou, dando um sorriso agradecido para o pégaso; fez ele rir.
“Então, como conseguiu sair de lá?”, a pônei de cristal questionou.
“Disse para o papa que achava que precisamos de mais farinha. Ele morre de medo de ficar sem fazer os pães por falta de ingredientes, nem olhou a dispensa antes de me mandar pro mercado”, Sticks disse revirando os olhos e dando um sorriso. Espertinha, Can-Can pensou. Em seguida, a potra castanha pedia para que fossem a um lugar mais reservado; deu então a ideia de irem até um café que ficava no outro quarteirão. Era um local discreto e muito modesto que visto de fora parecia uma casa como qualquer outra. A única indicação de que existia um estabelecimento comercial ali dentro era uma singela placa de madeira, acima da porta, que dizia Coffee Shop. Dentro do lugar estavam distribuídas várias pequenas mesas em um salão, o assoalho era bem limpo e brilhava. O papel de parede com tema floral dava ao lugar uma ambientação agradável. Ao fundo ficava o balcão com docinhos e bolos, via-se também a porta que levava à cozinha, de onde vinha o aroma de grãos de café recém torrados. Um casal de pôneis conversava em voz baixa numa mesa no canto do recinto. Sticks se dirigiu à mesa no canto oposto à do casal, Can-Can e Weather a seguiram. Havia apenas duas cadeiras. Sticks sentou-se e indicou a outra para a pônei de cristal. Quando Can-Can mencionou que o pégaso deveria buscar uma cadeira para si, ele recusou. “Esse momento é de vocês duas, não vou ficar atrapalhando”, afirmou. Em seguida, tirou de seu alforje um punhado de bits que deixou na mesa. “Aqui. Para o seu café. Volto pra te buscar depois.” Em seguida dirigiu a palavra à Sticks, “Cuida bem da nossa namorada”. E saiu. Can-Can ficou boquiaberta com a ousadia de Weather e xingou-o mentalmente. Sticks manteve uma sobrancelha erguida em descrença ao ver o pônei indo embora. Olhou para Can-Can procurando respostas.
“Eu juro que posso explicar”, a pônei de cristal disse no mesmo instante. “Que tal se pedirmos o café? Ele deixou o dinheiro mesmo...”, completou sem jeito. A potra castanha não disse nada. Can-Can respirou fundo e começou a contar como havia passado as últimas semanas, contou também sobre como o pai estava esquisito e a respeito do plano do namoro fingido também. Sticks escutara tudo calada, balançando a cabeça vez ou outra. Quando Can-Can terminou, a potra castanha sorriu ternamente e sinalizou para o pônei no balcão, que observava as duas há algum tempo esperando que fizessem um pedido.
“Tá aturando aquele mala por minha causa? É uma cabeça-oca mesmo.”
As duas pôneis se encararam por um tempo. Sticks foi a primeira a rir. Can-Can sorriu constrangida e depois entregou-se ao riso também. O pônei do balcão chegara a mesa. “O que vão querer, mocinhas?”, perguntou gentilmente. “Duas xícaras de café com creme, por favor”, Sticks fez o pedido. O pônei respondeu com um aceno de cabeça e se foi.
“Então... terminou aquele livro?”, Can-Can perguntou.
“Qual livro? Li um monte deles”, Sticks indagou.
“Aquele do dragão que se apaixonava pela pônei”, a potra rubra explicou. Lembrava-se quase sempre do dia em que foram pegas. “Aquele que você não queria um final feliz...”
“Ei, eu não disse que não queria um final feliz. Eu queria um final que fizesse sentido!”
“Certo, certo”, Can-Can comentou e revirou os olhos. “O que acontece no final?”
“Eu me surpreendi, sabe? Não fazia ideia, mas dragões podem fazer magia! Eles se transformam em outras criaturas quando bem entendem. Fafnir virou um pônei no final da história. Tudo deu a entender que Sweet Heart ficou grávida. E descobri há uns dias que existe um livro dois!”, Sticks falou animada. Em seguida, pôs-se a discursar sobre como gostaria de ver um dragão de perto, e sobre como eles eram criaturas magníficas. Can-Can não quis interromper a potra castanha para dizer que se visse, de fato, um dragão de perto, ele a devoraria. Mas continuou a conversa sobre como dragões eram criaturas curiosas, sopravam fogo de cores diferentes, suas escamas tinham tons invejáveis e eram gigantes!
O pônei servente trouxe as duas xícaras de café numa bandeja e deixou-as em cima da mesa. Can-Can observou o creme de chantilly que encimava seu café. Com muito cuidado, segurou a xícara entre os cascos e tomou um gole. Saboreou o gosto por um instante e Sticks riu.
“O que foi?”, a pônei de cristal perguntou. Sticks esticou um casco por sobre a mesa até o rosto da companheira e, com um toque gentil, retirou um pouco de chantilly que ficara no focinho dela. A potra castanha lambeu o casco e riu mais uma vez enquanto Can-Can ficava vesga olhando para o próprio focinho em busca de resquícios de creme. A jovem dançarina suspirou e sorriu levemente; colocou um casco na mesa e esperou. Sticks não demorou a encostar um casco seu no dela. Olharam-se. Voltaram a conversar. Sticks mencionava que tinha dançado bastante, mesmo sozinha, nos dias que se seguiram ao da confusão no andar de cima da padaria. “Acho que dancei tanto pensando em você que até emagreci um pouquinho”, brincou. Can-Can dizia que continuava a treinar seu canto quando podia, já era capaz de alcançar algumas poucas notas mais altas e entoava as pequenas canções de A pena e o Lírio como ninguém. Falaram também bastante sobre Weather. Sticks o achara engraçado, apesar de abusado. “Ele me disse que um rubizinho irritado queria me ver. E que não sairia dali sem mim porque provavelmente apanharia se eu não fosse”, a pônei terrestre contou entre risos.
“Ele vai apanhar mesmo, algum dia desses...”, Can-Can retrucou franzindo o cenho. “Eu o conheço há dois dias e ele me enlouquece!”
“Oh! Que rubizinho mais irritado!”, Sticks desdenhou. Can-Can mostrou a língua para a potra castanha, em falsa raiva. A pônei rubra dizia o quanto ele podia ser um pônei repugnante, enquanto a parceira defendia que mesmo assim ele as unira de novo.
“É verdade. Mas ele tem seu preço”, Can-Can disse, aborrecida. “Nós temos um trato, mas às vezes parece que ele só quer uma chance para se aproveitar de mim. Ele chega perto demais.”
“Ah, não seja tão dramática. Ele é até bonitinho”, Sticks replicou com um tom de malícia que pegou a pônei rubra de surpresa. Can-Can balançou a cabeça negativamente, uma expressão desgostosa no rosto. A filha do padeiro insistiu na possibilidade de Weather ser um partido, no mínimo, interessante. A pônei de cristal limitava-se a discordar e demonstrar estranheza com os dizeres namorada.
“Falando assim até parece que você quer ele para você”, Can-Can falou apreensiva. “Ou talvez me empurrar para cima dele.”
Sticks pigarreou e mudou de assunto, começou a falar sobre como ela e o pai estavam tentando novas receitas de pães doces na padaria. Mostrou uma marca de queimadura recém adquirida na pata esquerda, uma grande mancha negra havia se formado no tornozelo da potra castanha. Sticks passara dias reclamando da dor lancinante, mas o pai via a queimadura com certo orgulho; todo bom padeiro se queimava no fogão em algum momento da vida, ou pelo menos assim ele achava. Herr Flour já perdera a conta de quantas vezes havia se queimado na cozinha. Sticks torcia para que nunca mais voltasse a se queimar.
A pônei terrestre também falou sobre a mãe. A esposa do padeiro passara os dias que se seguiram a descoberta chorando pelo apartamento. Dizia que a filha era uma desguiada sem pudor. Após alguns dias de melindre escabroso, Dame Flour levou a filha para conversar com a orientadora do colégio onde Sticks estudava. A orientadora logo passou o caso da potra desguiada para uma colega de clínica; por fim, mãe e filha faziam terapia três vezes por semana. Can-Can olhava curiosa para Sticks, queria perguntar sobre a terapia, mas achou seria muito invasiva se fizesse tal coisa. A potra castanha reparou no olhar que a rubra lhe lançava e respondeu sem precisar da pergunta, “Nós basicamente ficamos conversando um bom tempo sobre as coisas que acontecem com a gente, e como nos sentimos. Não tem nada demais”. “E Herr Turner, como está?”
“Achei que já tinha dito que ele está agindo estranho...”, Can-Can respondeu insegura.
“Me refiro à saúde dele.”
“Ah, sim. Ele não está nada melhor. Continua tossindo, tem febre à noite. Mas... nós não temos falado muito sobre isso. Na verdade, não temos nos falado muito”, a potra rubra respondeu triste. “Ele parece distante. Fica me olhando de um jeito esquisito.”
Sticks suspirou e fez um carinho no casco de Can-Can. “Papa também ficou estranho por um tempo, mas passou. Aposto que Herr Turner vai parar com isso daqui a algum tempo”, a potra castanha assegurou. “É tudo uma fase.”
“Uma fase? Como assim?”
“Isso tudo pelo que estamos passando entre a gente e com os nossos pais, é tudo uma fase. Minha terapeuta disse”, Sticks explicou. “Vamos superar e esquecer isso logo, logo.”
“Eu não estou conseguindo entender o que você quer dizer com isso”, a pônei rubra disse. Olhava insegura para Sticks.
“Eu quero dizer que... a gente não devia ficar se beijando”, a potra castanha concluiu. “A gente estava passando por um momento de descobertas e acabou que aquilo tudo aconteceu, entende? Duas potras não deviam namorar. Na verdade, eu achei muito bom saber que o Weather gosta de você. Vocês fazem um casal bonitinho.” Can-Can estava chocada. Boquiaberta, observava Sticks sem saber o que dizer. Mas, mas... ela está falando sério? Nos beijamos não faz muito tempo, achei que estava tudo bem entre nós, pensou.
“Está terminando comigo?”, Can-Can indagou com a voz vacilante.
“Não é isso... é que nós nunca devíamos ter sequer começado. Você viu como isso quase acabou com as nossas famílias? Mama ficou irada e depois chorando. Papa passou dias inteiros gritando pela casa. Herr Turner não está falando direito com você. O que a gente fez foi errado. Eu nem devia ter deixado você me beijar hoje. Quando você chega perto de mim eu fico meio besta, mas preciso parar com isso. A gente não pode passar desse nível de apenas amigas. Não me olha assim, por favor”, Sticks disse pesarosa enquanto Can-Can permanecia calada, encarando-a como se estivesse prestes a chorar. Isso não pode ser sério, não pode ser, a potra rubra pensou com a mente estava confusa. Can-Can percebera que gostava de outras pôneis há algum tempo, ao passo que Sticks parecia ter certeza de que isso era apenas algo passageiro que devia ser enterrado e esquecido. A dançarina fungou de leve e desviou o olhar para o balcão. O pônei servente entendeu aquilo como um chamado e aproximou-se da mesa perguntando se as duas gostariam de pedir algo mais. Foi dispensado por Sticks, que continuou esperando que a companheira dissesse algo.
“Você não gosta mais de mim?”, Can-Can falou, sua voz quase sumindo.
“Oh, é claro que eu gosto de você. Eu te amo. Mas nós somos amigas. Amigas”, Sticks explicou sem conseguir sustentar o olhar da amiga. Partiu o coração da pônei rubra que se segurava para não começar a chorar.
“Acha mesmo é uma coisa ruim, nós duas? De verdade?”, Can-Can perguntou. Sticks não respondeu. Ficaram caladas por algum tempo. Ambas refletiam se existia de fato alguma forma de definir certo e errado em gostar de alguém. A potra rubra sentia-se errada, a castanha não se sentia cem por cento certa, mas não voltaria atrás com o que havia dito.
“Vamos superar isso. É só uma fase, afinal”, Sticks afirmou, tentando parecer segura.
Can-Can olhava-a tristemente. Depois de passar semanas pensando o quão mágico seria reencontrá-la, havia sido acertada por uma realidade muito dura. Por um lado, estava triste e queria chorar, por outro, estava feliz por poder falar com Sticks de novo. A potra castanha já voltara a falar alguma coisa, mas Can-Can não prestava atenção. Ambas estavam incomodadas, como se um clima sobrenatural tivesse pesado sobre elas. Não muito tempo depois, Sticks mexia em seus alforjes e tirava de dentro deles um pequeno pote com biscoitos que passou pela mesa.
“Além de gotas de chocolate, coloquei uns pedacinhos de castanha nesses biscoitos, sei que você vai adorar!”, disse Sticks ao se levantar da cadeira. “Eu preciso ir agora. Ainda tenho que voltar pra casa com um saco de farinha”, completou com uma risada leve. Can-Can não se moveu para pegar os biscoitos, nem disse nada, apenas a encarou.
“Por favor, não faz assim. Você sabe que eu gosto muito de você. Só quero evitar mais complicações”, Sticks pediu e beijou o rosto da potra rubra com carinho. “Eu gosto muito de você. A gente se vê outro dia, e dessa vez a gente podia sair como um trio, eu, você e o potro engraçado. Seria divertido.” Dizendo isso, despediu-se e foi em direção à saída da cafeteria, olhou algumas vezes para trás para ver se Can-Can ficaria bem.
Como se isso fosse ajudar em algo, Can-Can pensou, olhando para o pote. Abriu-o e mordeu um biscoito. Era delicioso, a castanha tinha dado um sabor diferenciado à receita. Infelizmente tinha razão e aquilo não havia ajudado em nada seu humor. Xingou mentalmente a mãe e a terapeuta de Sticks. Ficou sentada na cafeteria pelo que pareceram horas, sozinha. O casal de pôneis da outra mesa havia ido embora e o atendente debruçava-se entediado sobre o balcão.
“Terra para potra na lua... o que houve, potra na lua?”, a voz de Weather surgiu de repente. Ele olhava-a preocupado. A potra ergueu um olhar melancólico para ele. Weather abraçou-a. Sabia que havia algo errado, pois os pelos dela estavam opacos, parecia até outra pônei. Ela fungou baixinho e balbuciou, da melhor forma que pôde, o que havia acontecido. Weather ficou pasmo, jamais poderia imaginar que aquele reencontro afetuoso com direito a beijo e palavras carinhosas ia terminar daquela forma. Ele abraçava-a com força. Quase desequilibrou pelo mal jeito de abraçá-la sentada na cadeira. “Shh... shh... calma. Vai ficar tudo bem. Ela gosta de você, não gosta?”, ele falou tentando acalmar a potra que soluçava levemente em seu abraço. Can-Can balançou a cabeça positivamente. “Então vai ficar tudo bem. Tem um monte de potras por aí! Lembra daquela que encontramos na calçada? Eu posso apresentar vocês! Que tal?!”
“Seu idiota...”, Can-Can sussurrou, uma lágrima escorreu por sua face. Apesar de bobo, Weather estava tentando ajudar, e a potra rubra sabia disso, então completou com a voz muito fraca, “... obrigada.”
O atendente observava curioso os pôneis abraçados. Já vira um pônei de cristal antes, e sabia que se o brilho de um pônei desses diminuía, algo ruim havia acontecido. Sobressaltou-se quando o pônei turquesa fez um sinal com o casco. Rapidamente o atendente cruzou o recinto e aproximou-se da mesa. “Está tudo bem?”, a pergunta escapou, o certo deveria ser perguntar se gostariam de pedir algo. Viu de relance a pônei soluçando e encarou o pégaso.
“Pode nos trazer algum doce, por favor? Um pedaço de torta seria ótimo”, Weather pediu sem tirar os olhos de Can-Can. O pônei atendente assentiu com a cabeça e foi de volta ao balcão. Devido às circunstâncias e seu coração mole, trouxe um pedaço de torta de limão bem maior do que o tamanho padrão servido na cafeteria. Doces não acabam com tristezas, mas dão um apoio, pensou o atendente. Ao deixar o prato com a torta em cima da mesa, olhou para Can-Can e sorriu, solidário. A potra rubra não entendeu a expressão, limitou-se a agradecer de cabeça baixa. Weather largou a potra e sentou-se do outro lado da mesa, onde Sticks estivera.
“Vamos, come. Vai fazer você se sentir melhor”, disse gentilmente.
“Já comi um biscoito. Não me senti melhor...”, Can-Can retrucou.
“Que desculpa boba! É por minha conta. Aposto que não quer comer pra não engordar, vocês são todas assim. Você tá bem magrinha. Vai, come logo”, ele insistiu. A pônei de cristal olhou para o pedaço de torta por um tempo. Não costumava comer muitos doces, pois eram caros e não alimentavam direito, então resolveu não perder a chance e mordeu. O sabor pareceu explodir em sua boca.
“Aiai... eu preciso bater um papo com essa sua ex-namorada. Como ela pôde deixar você ficar aqui, triste e sozinha?! E meio solteira?! Agora se eu levar você pra casa desse jeito, Herr Turner vai pensar que a culpa é minha!”, Weather bradou, tentando soar cômico.
“Ela não fez por mal... Sei que não”, Can-Can murmurou sofregamente. “Eu apenas não queria que tivesse acontecido...”
“Pois é isso que dá quando se namora dois pôneis ao mesmo tempo! Eu não sou um cara ciumento, mas aposto que ela não conseguiu lidar com isso”, Weather ironizou. A potra rubra o encarou com um misto de mágoa e desgosto, aquele não era o momento para o pégaso fazer suas brincadeiras. Can-Can mordeu outro pedaço de torta e ficou quieta.
“Ei!”, Weather disse de repente.
“Sim?”
“Me dá um sorriso, por favor”, o potro pediu com carinho. Ele tinha uma preocupação genuína no rosto e na voz. “Você fica tão bonitinha quando sorri, sabe? Quer dizer, não que você fique feia quando tá assim chorosa, você tá sempre bonita, mas quando sorri, ilumina tudo ao seu redor.”
Can-Can sorriu, não por sentir-se melhor, tampouco pela torta, mas por descobrir que Weather era capaz de ser doce. Não foi mais que um arremedo de sorriso, mas conseguiu tirar uma risada do pégaso, que brincou dizendo, “Quase bom, aposto que você esconde uns sorrisos melhores que esse!”
Pela segunda vez no mesmo dia, Can-Can agradeceu mentalmente o próprio pai por ter tentado arranjar um namorado para ela. Empurrou o prato de torta para Weather. “Eu não devia comer demais... Muito doce engorda”, a potra disse, tentando fazer uma brincadeira, e deu mais um pequeno sorriso. O rosto do pégaso se encheu de satisfação. “Eu sabia!”, ele disse.
O potro comemorava em silêncio sua vitória em fazer Can-Can ficar melhor. A pônei rubra martelava na própria cabeça as palavras: não vou chorar, não vou chorar, não vou mais chorar.
“Então ela disse que é uma fase”, Weather falou distraído enquanto mastigava. Can-Can pensou sobre aquilo, deu de ombros e balançou a cabeça negativamente. Não sabia o que dizer. “Você não acha que é uma fase”, ele completou após avaliar a reação da potra rubra.
“Eu não sei. Se for, é uma fase muito estranha, porque não parece uma fase. O que você acha?”, Can-Can questionou.
“Eu só sei o que eu vi.”
“O que quer dizer com isso?”
“O que eu vi é a forma como você olha para outras pôneis. Como olhou aquela potra na calçada, ou como olhava Sticks. E que olhares, hein?!”, Weather disse entre risos.
“Que absurdo, será que eu não posso olhar?”, a potra retrucou.
“Não há problema em olhar, o pai sempre disse que olhar não tira pedaço. Mas você não só olha, você olha”, Weather implicou. Can-Can não entendia o que o pégaso via de tão interessante em deixá-la sem jeito. Se ele fora capaz de melhorar o ânimo da pônei de cristal alguns segundos antes, agora começara lentamente a fazer um processo inverso.
“Eu olhei para as pernas dela sim. Eram pernas bonitas. E você viu os tornozelos dela? Eram lindos!”, Can-Can justificou-se, impaciente. O potro encarou a pônei de cristal surpreso. Deu um sorriso cheio de malícia para a potra e revirou os olhos.
“Aposto um pedaço de torta para viagem que você não olhou só os tornozelos dela!”, ele duvidou, sorrindo. Can-Can cruzou as patas dianteiras, bufou, recostou-se na cadeira e fuzilou Weather com o olhar. O pégaso pediu desculpas. A potra ficou irritada, mas não admitiria que se permitira dar uma espiada na região da Marca da outra pônei.
“Você estava sendo tão adorável ainda há pouco. Por que não podia continuar daquele jeito?!”, ela disse frustrada, logo se arrependeu.
“Ah! Eu sou adorável?! Talvez seja mesmo uma fase, então!”, Weather respondeu com um piscar de olho que supostamente deveria ser charmoso.
“Quer saber de uma coisa? Retiro o que disse, você é um idiota e não passa disso”, Can-Can afirmou, não conseguindo conter um riso breve. Estava se acostumando aos esforços humorísticos de Weather aos poucos. A melancolia que havia sentido por causa da conversa com Sticks havia diminuído bastante, seus pelos já não estavam tão opacos. Queria agradecer ao pégaso, dizer que ele era um bom e grande amigo, mesmo tendo conhecido ele há muito pouco tempo. Porém, não queria dar mais motivos para Weather se gabar. Hoje não, ela pensou.
“Idiota. Você usa tanto essa palavra que em algum momento ela vai perder o significado”, ele brincou, conseguindo mais um sorriso da potra. O pônei atendente acompanhava tudo de longe, ver Can-Can sorrir deixou-o satisfeito.
Os dois pequenos pôneis passaram a hora seguinte conversando. Weather bradava animado, em cada palavra tentava arrancar um sorriso novo do rosto de Can-Can, que sorria timidamente e fazia inferências breves. Em dado momento o pégaso percebeu que sabia muito pouco sobre a companheira, logo, instigava-a a falar. A voz da pônei de cristal era doce, e quando discursava sobre o seu livro preferido, entoava alguma cantiga; quando falava sobre sua dança e suas praças – que não eram de fato suas, mas gostava de pensar que seu local de trabalho lhe pertencia – tinha um leve brilho nos olhos. Contou também suas pequenas aventuras nos momentos de folga, os pôneis que conhecera, ou os que gostaria de ter conhecido, e o que mais lhe viesse à cabeça. Falou brevemente de seu primeiro beijo, não se ateve a detalhes pois havia sido com Sticks. Weather ouviu tudo com atenção, quando percebeu que ela vacilara ao falar do primeiro beijo, tratou de mudar de assunto com uma pergunta:
“Então você estudou na casa da Fraülein Balance? Eu estudei lá por um tempo também, foi na época quando o pai estava sem emprego. Foram tempos difíceis.”
“Como são as coisas numa escola de verdade?”, Can-Can indagou, curiosa.
“Bem... eles pedem que você compre um monte de livros para acompanhar as aulas. E ensinam mais que as letras e os números, mas eu acho que se tratando desses assuntos, a Fräulein é muito melhor ensinando. Enfim, lá eles falam de História e Ciência também”, Weather explicou vagamente.
“História? Como em A Pena e o Lírio? Vocês leem contos nas aulas?!”
“Não, não. História é sobre... hum... quem foram os prefeitos das cidades, como elas foram fundadas, os conflitos políticos e pôneis importantes de um modo geral.”
“Bem... não parece tão interessante”, Can-Can murmurou um pouco decepcionada.
“Eu durmo em algumas dessas aulas”, Weather confessou e deu de ombros. “Essas coisas não me importam muito, eu quero trabalhar com o clima! Vou para Cloudsdale algum dia.”
“Não basta voar até lá? Por que ainda está aqui?”
“O pai não é pégaso, e a mãe jamais deixaria ele sozinho por aqui. Eu vou ficar com eles até poder me virar sozinho. Quando acontecer, vou sair da cidade pra nunca mais voltar”, ele disse, seguro de si.
“E por que não trabalhar aqui mesmo movendo as nuvens?” Can-Can questionou confusa.
“Alguma vez na vida você já sentiu como se nada prendesse você a um lugar? E outra coisa, minhas asas podem me levar muito mais longe do que os limites de Germane, seria um desperdício não tentar saber até onde eu posso ir, entende?”
Can-Can não compreendeu muito bem, nunca havia pensado em sair de Germane, tudo o que conhecia e amava estava naquela cidade. “Coisas de pégaso”, disse finalmente. Weather torceu o focinho em discordância. “Talvez um dia você entenda”, ele falou. A potra deu de ombros e desviou o olhar. Observou que havia um relógio na parede ao fundo, faltavam vinte minutos para as três horas. Weather percebeu a cara de espanto de Can-Can e olhou na mesma direção, xingou baixo e sinalizou para o atendente que trouxe a conta rapidamente. Saíram da cafeteria apressados.
“Papa vai me matar, ele disse três horas!”, a pônei de cristal dizia esbaforida ao dar passadas largas pela calçada. Weather vinha ao seu lado checando os alforjes. Após alguns segundos, disse, “Vamos chegar a tempo”.
“É claro que não, o caminho é longo.”
“Vamos voando”, anunciou sorridente. Can-Can estancou, surpresa. Pensava que o pégaso não podia estar falando sério.
“Então, você vai subir nas minhas costas ou eu vou precisar agarrar você?”, Weather perguntou, agora com um sorriso malicioso no rosto. A potra rubra não teve muita escolha, não queria chegar atrasada, tampouco queria que Weather a agarrasse seja lá como fosse que ele estava pensando. Pulou nas costas do pônei turquesa. Can-Can surpreendeu-se, o potro não tinha costas muito largas, mas seus músculos eram rijos e suas asas pareciam fortes. As pernas de Weather sequer fraquejaram com o peso extra.
“É melhor você se segurar”, ele aconselhou, olhando para o céu.
“Promete que não vai me deixar cair?”, Can-Can perguntou receosa. Passou os cascos dianteiros em volta do pescoço do amigo e segurou firme. Weather balançou a cabeça de modo afirmativo e respirou fundo, separou as pernas traseiras levemente, flexionou as dianteiras para pegar impulso.
“Pronta?”
“Sim”, Can-Can respondeu tentando parecer confiante.
Weather respirou fundo mais uma vez, pegou impulso e se atirou no ar, Can-Can gritou a plenos pulmões. Descreveram no ar, por apenas alguns segundos, uma subida quase vertical em direção às nuvens. O pégaso subiu até um ponto em que ficasse pouco acima da maior parte dos pequenos edifícios de Germane. Em seguida, virou-se para o oeste e partiu a toda velocidade. No lombo do amigo, Can-Can mantinha-se agarrada de olhos fechados e fazia uma prece rápida e silenciosa para a princesa do Sol. Como se uma pontada de coragem a tivesse acertado, a pônei rubra abriu um olho para espiar ao seu redor. Ficou maravilhada. Nunca tinha visto a cidade de cima, tudo parecia menor, e se forçasse um pouco a vista para o oeste, poderia ver os limites murados dela; e além, grandes campos verdes aos pés de montanhas com os picos nevados. Olhando na direção oposta, viu o porto e um grande navio que zarpava para o mar azul-escuro e espumoso. E conforme voavam, os pôneis que passeavam pelas ruas muitos metros abaixo olhavam para cima, impressionados com o brilho avermelhado que riscava o céu. Can-Can absorvia toda a paisagem, mal reconhecia sua cidade dali. Seus horizontes se expandiam. Um riso breve e espontâneo escapou de seus lábios. Weather virou a cabeça para checar a passageira, sorriu ao ver o brilho que ela irradiava. A potra podia jurar que A Pena e o Lírio possuía uma cena parecida com a que estava vivendo naquele instante – sentiu-se uma princesinha, faltava-lhe ‘apenas’ o vestido e a coroa.
Weather aterrissou em frente à porta da casa de Can-Can no momento em que Turner virava a esquina. O garanhão ficou observando o jovem casal enquanto se aproximava. Suspirou. Estava satisfeito pelos potros cumprirem o horário. O pégaso se despedia da potra rubra quando Turner os alcançou, o potro agradeceu pela confiança brevemente e logo partiu com um adeus respeitoso. O unicórnio olhou a filha mais de perto e assumiu, de repente, uma expressão de estranhamento. Sua pequena estava toda bagunçada, as fitas em sua cauda estavam quase desatadas, os cabelos dela nunca estiveram tão despenteados. O coração do pai acelerou em nervosismo.
“Can-Can, o que vocês andaram fazendo?”, ele perguntou, tenso.
“Papa, você nem imagina!”, ela respondeu contente.
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