Entrou no Trote Trovejante no meio da tarde. Estava cansada, um pouco suada e arfando. Pegara carona com um grupo de fazendeiros numa carroça para cobrir uma parte do percurso, e depois caminhara por quase quatro horas para chegar em Blight Town.

A pequena cidade era muito limpa, suas ruas de terra batida eram bem cuidadas; as casas de várias cores, formas e tamanhos brilhavam a luz do sol. Apesar de não estar tão distante assim, o clima era mais ameno lá que em Germane. Os pôneis trotavam tranquilos, sem a pressa apresentada pelos habitantes da cidade grande. Tudo era muito mais vivo, colorido e, ainda assim, calmo. Can-Can sequer conseguiu passar despercebida, algumas cabeças se viraram para olhá-la com curiosidade durante seu passeio pelas redondezas ao procurar por uma taberna.

A grande taberna da pequena cidade só não era maior que o prédio da prefeitura. E estava abarrotada de pôneis, grifos, cães-diamante, e alguns búfalos. Era o lugar mais movimentado da cidade.

Can-Can trazia o vestido que havia recebido de Silk num dos alforjes, e no outro algum dinheiro para emergências e uma partitura de Turner. Respirou fundo e trotou até o balcão. Um garanhão verde-abacate, de cabelos loiros, curtos e lisos, estava do outro lado do bar, enchendo alguns copos de sidra que entregou para uma garçonete. Ao ver a pônei de cristal se aproximar, cumprimentou-a amistosamente, tentando não olhar para o olho cego dela.

“Olá. O Herr é o dono da taberna?”, perguntou Can-Can.

Ele fez que sim com a cabeça.

“Vai ter alguma apresentação interessante hoje à noite?”

“Oh, sim! O véio Ilusion vai fazer uns truque pra gente essa noite. Se ocê gostá de mágica, num tem nada mior”, disse o taberneiro, animado. “Si não, bem, sentimo muito, mas num tem nada mais pra hoje.”

“E o Herr estaria interessado em mais alguma apresentação?!”, disparou Can-Can. “Um show que deixaria a clientela bebendo animada por mais tempo essa noite?”

O taberneiro lançou para ela um olhar desconfiado. “O que qué dizê?”

Can-Can fez uma reverência pomposa ao taberneiro – atraindo alguma atenção dos pôneis próximos ao bar – e disse seguramente, “Sou Can-Can, a melhor dançarina de Germane. Ao seu dispor”.

“Eu sô Fences. E num intendo por que a mior dançarina da cidade grande tá aqui”, retrucou o garanhão.

“Estou aqui para propor que me deixe dançar no seu palco. Posso manter essa casa animada e cheia à noite. Em troca de alguns bits, é claro.”

“Óia, moça. Esse foi o jeito mais estranho de pidi emprego que eu já vi.”

“Mas o que me diz?”, perguntou Can-Can, sentando num dos bancos do bar para ficar mais próxima do taberneiro. Aproximou um pouco o rosto do dele.

Ele se afastou um pouco, olhou para ela meio inseguro e disse, apontando para o próprio olho, “Mas e esse...”

Meio ofendida, meio triste, a égua rubra teve de se controlar e recompor para responder direito. “Quando eu estiver ali em cima, tenho certeza que ninguém vai reparar nisso. Tenho coisas melhores para eles olharem”, gabou-se.

“Moça, eu num posso tê certeza disso não”, insistiu Fences.

“Vamos fazer o seguinte: à noite eu venho para fazer o meu show. Se eu conseguir animar seus clientes, e fizer uma boa apresentação, você me deixa passar a noite aqui e amanhã acertamos um pagamento. Se eu não for bem, nem precisa me pagar. De um jeito ou de outro, você ganha uma apresentação a mais para hoje”, propôs Can-Can, disfarçando seu desespero. Precisava daquele emprego.

Fences olhou-a de cima a baixo por trás do balcão. Avaliou suas opções e respondeu, “Tá certo. Mas nem tente me passá pra trás não!”

Ela assentiu rapidamente, balançando a cabeça, aliviada.

“E como eu vou te anunciá pra essa noite, hein? Dançarina da cidade?”

“Muitos viajantes de Germane passam por aqui, não?”

“Alguns.”

“Então diga por aí que uma pônei vermelha vai dançar hoje à noite. Mencione que ela tem pernas fortes”, Can-Can respondeu. Deu um sorriso, virou de lado e ergueu um pouco sua perna traseira esquerda – torneada, de músculos firmes e aparentemente macia – para o taberneiro observar. Ele não entendeu, olhou-a sem jeito e assentiu calado.

*** *** ***

Can-Can contava com as chances de o burburinho causado na taberna que pegara fogo atrair pôneis para sua apresentação daquela noite. Mencionara sua pata para mexer com o taberneiro, mas também tinha esperança de que a fofoca a respeito de seu coice tivesse se espalhado e pudesse atrair alguns curiosos.

Estava atrás da pequena cortina que separava o palco dos bastidores. Esperava sua hora de entrar, já paramentada em seu vestido de dança rosa, com a saia de babados bem leve. Cabia-lhe com perfeição, era confortável e não lhe atrapalhava em nada os movimentos. Suas meias de renda cobriam-lhe as patas dos cascos até a base. Três penas brancas adornavam sua cabeça, assim como o intrincado coque que Balance lhe havia ensinado a fazer. Nervosa, alternava o peso do corpo de uma perna para outra constantemente. Respirou fundo.

Podia ouvir os sons da clientela tomando seus lugares, pedindo bebidas e conversando. O trote incessante de garçonetes preenchia o lugar.

Ao lado da dançarina, dois músicos preparavam seus instrumentos: um violão e um tamborete. Não eram os instrumentos ideias para suas melhores danças, mais serviriam ao seu propósito. Do outro lado da cortina, os passos pesados de um garanhão foram ouvidos, e, em seguida, a voz do taberneiro anunciava sua mais nova atração da noite: a misteriosa dançarina vermelha da cidade. Uma salva de cascos, maior e mais barulhenta do que Can-Can esperava, se elevou, retumbando pelas paredes do salão. Ouviu os sons dos cascos do taberneiro se afastando e um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente.

Com um sinal de cabeça, Can-Can indicou aos músicos que deveriam começar. Assim que a primeira nota foi tocada, a dançarina saltitou para fora das cortinas. O que viu a fez parar: a casa estava lotada. Lotada ao ponto de que alguns clientes estavam em pé para assistir ao show, pois não havia mais lugar para sentar. Uma estrondosa salva de cascos e garras, seguida de assovios e cantadas sem-vergonha, a recebeu. Com muito gosto e um largo sorriso no rosto, fez uma reverência para sua plateia. Não demorou para continuar com sua dança. A cada embalo, a cada giro, a cada suingue, a cada pequeno salto, todos que a assistiam vibravam. Quando ela levantava uma perna de maneira mais ousada, então, iam à loucura. Dançou como não dançava há muito tempo. A alegria que sentia por ser tão bem recebida a fez fulgurar.

Os pôneis nas tabernas de Germane compunham uma plateia muito diferente. De modo geral, a maioria era atraída a tabernas para se embriagar e esquecer dos problemas do dia a dia, ou estavam apenas procurando um almoço ou jantar barato. Às vezes nem prestavam atenção ao palco. É claro que Can-Can tinha seu modo de dominar a atenção da clientela, mas fazia isso com esforço e trabalho duro.

Blight Town, porém, por ser um lugarejo pouco conhecido e pouco desenvolvido, recebia uma clientela muito diferente na taberna local. Os habitantes iam até lá para ver as poucas novidades que passavam por sua singela cidade. Além deles, os viajantes cansados buscavam apresentações que os lembrassem de suas terras natais de algum modo; além de procurarem boas camas para descansar, claro. Fato era que a casa estava cheia, e somente por causa de Can-Can.

Ela dançou até seus cascos doerem, naquela noite.

Cantou algumas baladas conhecidas por toda Equestria, também. Durante uma das canções, fez questão de descer do palco e trotar entre algumas mesas, lançando olhares sedutores para pôneis que ficavam abobalhados de imediato. Usou o rabo para acertar o queixo um pônei que não tirava os olhos de seu lombo antes de subir ao palco de novo, para iniciar uma nova música.

A performance de Can-Can durou quase duas horas. Muito mais do que estava acostumada. Ao final do show fez a dança pela qual era conhecida no Sun. A música de Turner foi acompanhada pelos aplausos e gritos do público.

Saiu do palco se sentido muito satisfeita. Voltou aos pequenos bastidores ainda ouvindo as salvas de seus adoradores. Arfava bastante. Os músicos, também cansados, dirigiram a ela olhares amigáveis.

Antes que algum dos três pôneis pudesse dizer algo, Fences entrou nos bastidores, sorrindo. Dispensou os músicos, que saíram calados, e murmurou para a dançarina, “Moça, isso foi incrível! Eles tão pedindo mais!”

Os gritos animados da plateia enchiam o salão da taberna.

“Posso passar a noite, então?”, Can-Can disse esperançosa.

“Oras, mais é claro que pode! Se quisé dançá mais, também, eu num me importo”, o taberneiro replicou.

Arfando um pouco menos, Can-Can juntou forçar para dizer, “Se eu fizer um bis, quero um pagamento extra”.

Fences franziu o cenho. “Um extra?”

“Sim. E amanhã você me paga o show dessa noite, descontando o quarto em que vou dormir. E o jantar, estou morrendo de fome”, ela demandou, irredutível. Respirava fundo, suas patas doíam e o suor já encharcava todo o seu corpo. “Se estiver interessado, posso dançar amanhã também. Acho que a sua clientela vai gostar.”

“Já sei”, Fences bradou. Trotou para o palco e pediu silêncio à plateia. Disse que a dançarina dera tudo de si naquela noite e precisava descansar, mas para que não temessem, pois ela estaria no palco de novo, na noite seguinte. Mais uma magnânima salva de cascos e palmas se ergueu junto com gritos felizes.

O taberneiro voltou aos bastidores e disse, “Feito. Vou te recompensá bem. Eu não faturo assim há uns tempo. Eu podia ter cobrado muito mais pelo seu show. Amanhã, ninguém escapa”.

“Duzentos e cinquenta por hoje, e pode descontar o quarto e a comida. O mesmo preço para a dança de amanhã”, impôs Can-Can, ousada, encarando o taberneiro. E, para sua felicidade e enorme surpresa, ele concordou.

Fences acompanhou-a até um dos quartos no andar de cima da taberna. Apontou a porta ao final do corredor como o banheiro. Ao entrar no cômodo, a dançarina observou toda a mobília de madeira boa, e arrumação impecável do local; percebeu que havia um vestíbulo separado, no qual ficava uma banheira. Aquele deveria ser um dos melhores quartos do estabelecimento. O taberneiro disse que mandaria uma criada vir encher a banheira com água morna e saiu.

Exausta e suada, o que Can-Can mais queria era um banho e tirar o vestido ensopado que usava. Começou a despir-se devagar. Retirou as meias e as penas que usava. Começou a baixar sua saia, revelando as coxas, mas a porta do quarto se abriu.

Uma égua púrpura, de cabelos castanhos, presos num coque, usando um avental meio sujo de poeira, trazia um balde cheio d’água na boca.

Um rubor súbito preencheu o rosto da criada e seu olhar cinzento sumiu atrás das pálpebras. Sem querer, deixou o balde cair no chão enquanto se desculpava. “Mil perdões”, repetia sem parar, piscando os olhos de vez em quando para espiar a reação da dançarina.

Can-Can levantou um casco, pedindo silêncio. Estava cansada demais para ficar envergonhada. “Não tem problema. Entre, por favor”, disse. A criada pegou o balde mais uma vez e se dirigiu ao vestíbulo para encher a banheira enquanto Can-Can tirava a saia. Pôneis geralmente não usam roupas, mas despir-se na frente de outro alguém ainda causava constrangimento.

A pônei de cristal deixou sua saia no chão e moveu um casco para retirar o espartilho. Tinha tido alguma ajuda de um dos músicos para amarrá-lo bem, e não conseguiu desatar o nó nas costas. Suspirou frustrada.

“Ahm... qual o seu nome?”, Can-Can perguntou, elevando um pouco a voz, para que a criada a ouvisse.

A pônei terrestre púrpura colocou a cabeça para fora do vestíbulo quase imediatamente e respondeu, “Tulip Choir, Fraülein”.

“Tulip, pode me ajudar aqui, por favor?”, pediu a dançarina, sentando-se no chão, de costas para a Choir. “Não consigo desamarrar.”

“Claro, Fraülein. Aliás, queria dizer que gostei muito de seu show. Foi soberbo!”, respondeu Choir, corando. Trotou até a dançarina e tocou em suas costas, verificando o nó do espartilho; não demorou muito para que fosse capaz de desfazê-lo e libertar Can-Can daquela peça de roupa. “A banheira está cheia. Há um sabonete no canto do vestíbulo e toalhas na gaveta da mesa de cabeceira”, disse a empregada.

Can-Can assentiu. Levantou-se e sentiu uma pontada de dor nas costas. Colocou um casco nelas e gemeu, cansada.

“Eu posso fazer uma massagem, se quiser”, Choir sugeriu, prestativa.

Ignorando o que a égua púrpura havida dito, a pônei de cristal trotou até o vestíbulo e colocou um casco dentro da banheira para checar se a temperatura da água estava agradável.

No quarto, parada onde estava, Choir não sabia ao certo se estava dispensada ou não. Ouviu um barulho de água, provavelmente a hóspede entrando na banheira. De lá, Can-Can pediu que a criada levasse o vestido para lavar, cedo, no dia seguinte.

“Sim, Fraülein”, Choir disse, pegou o vestido do chão e precipitou-se em direção à porta. Abriu-a e estava para sair.

“Mas eu quero sim, a massagem!”, Can-Can exclamou, antes que a outra égua pudesse partir. “Se você não se importar, é claro.”

“De modo algum, Fraülein”, Choir respondeu. Entrou de volta e fechou a porta atrás de si.

*** *** ***

Na manhã seguinte, Can-Can se esticou na cama ao acordar, mas não fez menção de levantar. Tinha a cabeça leve, o corpo relaxado. Dormira muito bem. E agora que todo o furor da noite anterior havia passado, começou a pensar em como faria dali por diante. Se não havia trabalho para ela em Germane por enquanto, pelo menos havia de sobra em tabernas de cidades e vilas vizinhas. Mas parecia perigoso passar alguns dias fora e deixar sua casa. E ainda teria de voltar a tempo de pagar as contas do mês, de modo que sua brilhante ideia já não parecia mais tão brilhante assim. Havia feito seu preço, e o taberneiro aceitara, mas nada garantia que ele continuaria a pagar por suas danças. Teria de procurar outra taberna, mas cidades pequenas não tinham muitas delas. E se tivesse de ir a outra cidade, além de Blight Town, para achar emprego? E se fosse fazer um show, algo desse errado e não tivesse dinheiro suficiente para voltar para casa? E ainda, estava sozinha! Não tinha Allegro para ajudá-la nessa aventura. Aventura, pensou. Justamente, seu plano era muito mais uma aventura que uma solução. Mas ao pensar na plateia que teve na noite anterior, seu corpo tremeu de expectativa. Se pudesse, viveria de aplausos.

Virou de lado no colchão e abraçou os lençóis. Ficou naquela mesma posição por quase uma hora, sentindo o cheiro da roupa de cama. Não sabia muito bem que horas eram, mas sabia que Fences cobraria a mais se ela passasse o dia naquele quarto, de modo que sobraria pouco dinheiro do pagamento. Isso tudo foi uma bobagem, pensou. Ganharia mais dinheiro naquela noite e partiria na manhã seguinte para casa. Permaneceu ali, pensando na noite anterior. Imaginava os pôneis comentando a seu respeito antes de dormirem; imaginou o burburinho no mercado local, vendedores e compradores falando somente sobre Can-Can. Talvez seu nome fosse um dos assuntos mais comentados no vilarejo. Deu-se ao luxo de sorrir com essa ideia.

O barulho das dobradiças enferrujadas antecipou a entrada de Choir no quarto. Ela trazia o vestido de Can-Can dobrado dentro de uma sacola transparente que carregava sobre as costas. Sorriu ao ver a dançarina acordada.

“Bom dia. Trouxe seu vestido.”

Sentando-se na cama, a pônei de cristal cumprimentou-a sorrindo e depois perguntou, “Quanto cobraram na lavanderia?”

“Oh, não. Eu mesma lavei e passei. Não se preocupe”, Choir replicou, com doçura em seu tom servil. “Não houve nenhum gasto.”

“Mas você não precisava...”

“Eu insisto. Considere como um agradecimento por ontem. Não tivemos tanta animação na cidade há tempos! Eu não tive tanta animação por aqui há tempos”, a égua púrpura disse, sem jeito.

“Então vou cantar e dançar uma música especial para você, hoje à noite”, disse a dançarina, sorrindo.

“Vai dizer meu nome no palco, pra eu saber que música vai ser pra mim?”, brincou a criada, com um pequeno sorriso no rosto.

“Você vai ter que estar lá para saber”, Can-Can respondeu, dando de ombros levemente.

“Pode apostar que estarei”, Choir riu. “E outra coisa: o almoço já foi servido há uma hora, mas pedi ao cozinheiro que guardasse algo para você. É comida requentada, mas não vai ter de pagar a mais por ela.”

“Obrigada.”

“Preciso ir, tenho que terminar a faxina nos outros quartos. Até mais”, despediu-se a pônei terrestre; deixou o vestido na ponta da cama e saiu, trotando tranquila.

Can-Can deitou de novo. De costas contra o colchão, olhou o teto e relaxou. Pensou que seria muito bom ser tratada tão bem por todo pônei do qual animasse a vida num vilarejo qualquer; mesmo sabendo que era uma esperança vaga, e que havia sido sorte encontrar Tulip Choir. Muita sorte, de certo modo. Enrolou-se de novo nos lençóis para cheirá-los. Algum tempo depois, adormeceu.

*** *** ***

O show da noite foi um sucesso. Durou menos que o da anterior, mas a taberna não estava menos cheia. Can-Can cantou uma balada romântica d’A Pena e o Lírio para Tulip no meio da apresentação. Os olhos da égua púrpura brilharam quando a dançarina falou que a dedicava aquela música. Para fechar a noite, Can-Can deixou o palco ao som de Olhar 43, música de uma antiga banda chamada RPM; e para uma versão acústica acompanhada de violão e tamborete, se saiu até bem.

Jantou no quarto, junto de Choir. Conversaram animadamente noite adentro. Pela manhã, arrumou seus alforjes e contou seus bits: 231. Fences havia superfaturado nos preços da comida e do quarto da dançarina. Ela, porém, não se importou. Só pensava em voltar para casa. Sua despedida do taberneiro foi breve e impessoal. Ao despedir-se de Choir, deu-lhe um abraço caloroso, um beijo no rosto e deixou a promessa de voltar quando pudesse. Partiu antes do almoço.

*** *** ***

Entrar em Germane, ao final da tarde, pareceu estranho. Ao atravessar o portão sul, foi como se todas as cores que Can-Can vira fora da cidade se transformassem em tons gélidos e cinzentos. Quis estar de volta a Blight Town assim que seu primeiro casco encostou numa das ruas de pedra.

Caminhar pelas calçadas movimentadas, ignorar os mendigos e desviar dos passantes era incômodo. Coisa incomum, pois nunca havia se importado com aquilo.

Trotou de cabeça baixa até chegar em casa. Antes de abrir a porta, alguém esbarrou em seu flanco com força, levando-a ao chão. Era Skylark, que a abraçou quase com violência.

“Sua maluca! Onde esteve?”, gritou a pônei terrestre, suas palavras se atropelavam. “Todo mundo ficou doido atrás de você! A Fraülein Balance veio aqui ver você e você tinha sumido e a gente chamou a polícia e ninguém te encontrava e agora você chega com essa cara deslavada e vai entrando aí como se nada tivesse acontecido!”

A égua rubra piscou os olhos, surpresa. A boca aberta, sem saber ao certo como prosseguir. “Eu estava... trabalhando”, disse insegura.

“Filha da mãe!”, Skylark xingou e levantou-se, saindo de cima da amiga. “Pode já entrar e ficar aí dentro. Eu vou avisar que você tá bem. E se der um passo pra fora de casa, é bom torcer pra eu não te encontrar primeiro.”

Can-Can ficou parada na porta de casa, olhando a amiga se afastar a galope. Sequer passara por sua cabeça avisar alguém que passaria uns dias fora. Havia preocupado a todos por uma bobagem. Entrou e trancou a porta. Deixou seus alforjes no chão do quarto e voltou para a sala. Havia dois envelopes jogados no chão. Contas. Bufou frustrada e sentou no sofá.

Talvez sua aventura em Blight Town não tivesse sido assim uma ideia tão ruim. Quando esteve lá, se divertiu, dançou com toda a vontade e foi recompensada monetária e espiritualmente. Germane parecia cada vez mais uma cidade fria e pouco amistosa. A jovem Can-Can teria dito à adulta Can-Can que ela estava apenas sendo boba; não tinha motivos para ver a cidade daquela forma, sempre morou ali e gostou. Conhecia a maior parte das ruas, já havia caminhado por quase todas as calçadas, tinha amigos, conhecidos, alguns fãs e desavenças. Sua vida era Germane. Mas por que será que nada parece certo agora, perguntou a si mesma. Passara apenas dois dias fora e se sentia uma estranha ali. Não, já se sentia uma estranha antes mesmo de partir; sentia como se a cidade estivesse contra ela. Pior ainda, sentia que não tinha lugar lá. Fora sua casa e as dos pôneis que lhe eram próximos, não achava que pertencia a outros lugares de Germane. As tabernas da zona sul não a queriam – pelo menos até a desconfiança e o burburinho acabarem –; o Sun não a queria de volta caolha e com uma perna que quebrou; tinha medo das praças – dos pôneis que podiam tentar se aproveitar dela dançando sozinha na rua. E em anos de trabalho, uma plateia da cidade nunca havia sido tão calorosa e próxima como a plateia do vilarejo que visitara.

Deitou-se no sofá, abraçou o próprio corpo e esperou. Skylark não demorou muito para voltar acompanhada de Balance. A professora atirou-se em Can-Can, prendendo-a num abraço preocupado. Depois começou a repreendê-la.

“Desculpe, Fraülein. Desculpe”, repetiu a dançarina, várias vezes.

“Onde você esteve?”, Balance inquiriu.

“Fui até Blight Town.”

“O que foi fazer lá?!”

“Procurar trabalho.”

“Procurar trabalho? Mas como procurar trabalho?”

Can-Can relinchou aborrecida. “Fui pedir emprego na taberna local.”

“Por quê?”

“Porque ninguém me dá emprego nessa maldita cidade!”, vociferou a dançarina para as paredes.

“Mas... isso não importa agora. Por que não avisou ninguém?”

“Porque eu sou uma égua feita e não devo satisfações para nenhum de vocês”, Can-Can replicou de mau humor. Logo se deu conta do que havia dito, mas antes que pudesse se desculpar, Balance largou o abraço e a encarou. Seus olhos tinham uma profunda expressão de mágoa.

“É assim que você trata a nossa preocupação?”

“Não! Me desculpe, Fraülein, por favor. Eu não queria ter dito isso. É só que... eu estou passando por um momento conturbado agora”, explicou Can-Can, muito arrependida. Skylark permanecia impassível, no canto da sala, observando.

“Eu acho que preciso ficar sozinha. Pensar um pouco”, Can-Can pediu.

Balance olhou para Skylark, como se pedisse ajuda.

“Pode ir, Fraülein. Eu fico aqui com ela. E não se preocupe, ela só sai dessa casa por cima do meu cadáver”, prometeu Skylark, expressando uma seriedade incomum demais para a pônei brincalhona que Can-Can conhecia. A professora se despediu e saiu de lá ainda magoada.

Skylark trotou até ficar na frente de Can-Can e sentou-se no chão, suas patas dianteiras cruzadas na frente do corpo. Estava brava. “Não devia ter falado daquele jeito com ela. Você nem sabe como ela ficou quando viu que você tinha sumido”, censurou.

“Sky, por favor. Eu não tenho cabeça para levar bronca agora”, Can-Can respondeu, deitando no sofá. Massageava as têmporas devagar.

“Amanhã você vai pedir desculpas pra ela, de novo”, ordenou Skylark, irredutível.

“Eu vou, prometo”, balbuciou a pônei de cristal.

“Agora me conta porque você fugiu”, Sky exigiu.

“Eu não fugi. Já falei, fui procurar trabalho numa cidadezinha na estrada que vai para o sul. O pessoal das tabernas não quer me ver nem pintada de ouro; Finesse não vai me devolver o emprego. Eu não quero voltar a fazer faxina”, Can-Can explicou com amargura. “Eu não vou voltar a fazer faxina.”

“O que pretende fazer agora?”

Can-Can suspirou, pensou por um tempo, e respondeu, “Acho que eu devia seguir com o plano, talvez devesse viajar uns tempos. Acho que conseguiria ir de cidade em cidade, nas mais próximas, pelo menos. Mas tenho receio de ficar dias fora e deixar a casa abandonada”.

“Eu jurava que a Rain tinha te ensinado a se desprender das coisas”, Skylark escarneceu. “Não pode ser só por isso. Se for o caso, é só deixar alguém cuidando da casa pra você. O que mais?”

“Não sei”, a dançarina vermelha sussurrou. Quanto mais pensava, menos sentia que queria ficar ali e deixar que sua vida passasse toda entre as muralhas e as calçadas daquela cidade fria. Ao mesmo tempo, sentia que sair para viajar sozinha era como pular de um penhasco para dentro de um vale escuro e profundo. “O que você faria no meu lugar?”

“Eu nasci em Manehattan, meus pais queriam que eu fosse dentista, ou advogada. Olha onde eu estou e o que eu sou hoje. O que acha que eu faria no seu lugar? Seguiria meu coração.”

“Você seguiu a sua irmã”, Can-Can retrucou em voz baixa.

“E não me arrependo disso. Apesar de que eu vou ter que aprender a me desapegar um pouco mais dela”, Sky falou, sua voz falhou ao final da frase.

Surpresa, e de olhos esbugalhados, Can-Can exclamou, “Ela vai, então?!”

Skylark assentiu. Seu rosto se fechou em dor. Porém, falou, “Ainda assim, eu não me arrependo, sabe? Ela me ensinou um monte de coisas, a gente viajou pra um monte de lugares; por causa dela eu vivi de verdade”.

Can-Can sentou no sofá, encarou a amiga e sussurrou, “Não sei se quero passar a vida toda entre essas paredes. Mas também não sei se estou querendo partir só porque ainda não soube lidar direito com tudo o que aconteceu no mês passado”.

“Se arrisca, ué. Você sempre vai ter um lugar pra voltar, não vai?”, Skylark falou como se fosse a coisa mais simples de todas. De fato, era simples. E Can-Can era o tipo de égua que se arriscava. Arriscava-se a comprar verduras num mercado no qual devia dinheiro para os vendedores, quando pequena; arriscava-se a matar aulas para se divertir; arriscava-se a namorar potras, apesar de ser algo estranho ao olhar da maioria; arriscava-se a trocar partituras e estragar um ensaio, para que pudesse ouvir uma música que o pai havia feito; arriscava-se a dançar em praças sozinha; arriscava-se a lidar com taberneiros de caráter reprovável; arriscara-se a vida toda, a seu modo.

“Tem razão”, concluiu a pônei de cristal. “O que eu tenho a perder?”

“Sozinha, nas estradas, à noite? Eu diria ‘a sua inocência’, mas você conheceu a Rain, então...”, Skylark brincou, agora parecendo muito mais a pônei que Can-Can conhecia e amava.

A égua rubra riu e empurrou a amiga pela piada infame.

*** *** ***

Tarde, naquela noite, Can-Can havia acendido uma vela no quarto e se perguntava o que escrever para Weather. Tinha papel e lápis, no chão, ao seu lado. Skylark dormia um sono bastante pesado na sala; tinha chorado um pouco antes de dormir, pois conversaram a respeito da partida de Gale, que iria em algumas semanas. Fizera seu melhor para consolar a pônei bege, mas não obtivera o resultado desejado. Agora, porém, Can-Can tentava colocar suas ideias no lugar. Escreveu:

“Clean,

Eu acho que estou ficando maluca, mas depois de todas essas coisas que aconteceram comigo, eu sinto uma estranha necessidade de sair de Germane. Não tenho emprego, e não quero qualquer um, você deve imaginar. A questão é que descobri que posso dançar em outras cidades, e na verdade essa me parece a melhor ideia até agora. Tenho o apoio da Sky, mas queria muito saber o que você acha. Eu vou sair por aí, sozinha, desprotegida e sem garantias, para ver até onde a minha dança pode me levar. E boa parte de mim nem acredita que estou mesmo falando sério.

Com amor, Can-Can.”

Olhou o bilhete com ansiedade. Tentou dormir logo após escrevê-lo. E na primeira luz de sol da manhã, galopou aos correios para enviar o envelope por fogo de dragão. Voltou para casa e Skylark ainda dormia no sofá.

Aguardou ansiosa por uma resposta. Mais tarde, já próximo ao horário do almoço, um brilho purpúreo de fogo e o cheiro característico de enxofre no sofá fizeram a pônei terrestre acordar gritando e implorando por sua vida. Sky caiu do sofá. Can-Can correu para a sala a tempo de ver um pequeno pedaço de papel cair no assento do sofá. Ignorando a amiga desnorteada no chão, Can-Can adiantou-se e pegou o bilhete entre os cascos.

“Eu devia ter apostado que um dia você ia acabar entendo que não quer passar a vida inteira no mesmo lugar. Não é coisa de pégaso, sua boba.

Eu dou o maior apoio, e se algum dia estiver numa cidadezinha por perto de Cloudsdale, é só mandar uma carta aqui pra cima que eu desço pra te dar um abraço bem apertado. Só toma cuidado e não para de me escrever! Vai lá, aposto que a sua dança te leva longe.

Sempre seu, Clean Weather.”

Can-Can largou o bilhete e sorriu. Agora estava muito mais motivada para ir. Mas tinha de acertar algumas coisas antes. “Sky. Eu vou. Mas preciso que você faça um favor para mim”, disse.

“O quê?”

“Preciso que você elimine qualquer cópia da partitura da música de papa que haja no Sun. Não quero que ela toque de novo ali. Sem elas, as chances de ser tocada de novo diminuem, não é?”

“Se nenhum dos músicos se lembrar das notas certas, ou Often Bass, talvez”, retrucou Skylark, já armando um plano.

“Faz isso por mim?”

Skylark assentiu.

“Certo. Agora preciso falar com a Fraülein”, disse a pônei de cristal. “Explicar tudo isso.”

“E pedir desculpas”, Sky acrescentou.

“E pedir desculpas. Sim”, Can-Can concordou, levantou no sofá e deu um pulo em direção à porta. Saiu de casa e galopou até o quarteirão vizinho. Parou na porta do casarão da professora, respirou fundo e bateu três vezes. Esperou nervosa até que a maçaneta girou e a pégaso negra espiou pela fresta entre a porta e o batente. Ela fechou a porta de novo para retirar o trinco e recebeu Can-Can com um olhar cansado; estivera corrigindo provas.

“Olá”, disse a professora.

Fraülein, eu preciso muito conversar com você. E preciso pedir desculpas por ter falado daquele jeito. Eu não queria, juro! Estava meio estressada e disse aquilo da boca para fora”, disparou Can-Can, entrando na casa. Balance não disse nada. Fechou a porta e trotou para a cozinha, onde uma pilha de redações a esperava em cima da mesa. Sentou numa cadeira e voltou a ler um dos textos. Circulou uma palavra, com sua caneta de tinta vermelha e esperou.

Can-Can contou sua história em Blight Town com mais calma, pontuando sua ideia de partir para viajar por um período indeterminado. Balance escutou tudo em silêncio. Corrigia as redações, mas parecia consternada com o que lhe era dito. Quando a pônei de cristal parou de falar, a professor não sabia o que deveria dizer.

“Bem, eu preciso que alguém cuide da casa para mim. Se a Fraülein pudesse me fazer esse favor... Prometo mandar dinheiro todo fim de mês, e se quiser, pode alugar a casa, eu não vou estar lá mesmo”, Can-Can sugeriu, sem jeito. Sentia que estava colocando um fardo sobre as costas da professora.

“Eu juro que não quero soar como o seu papa, mas você tem certeza de que quer mesmo fazer isso?”, Balance perguntou, preocupada.

Can-Can riu. “Para soar como papa, a Fraülein ia precisar dizer que não ia me deixar dar um passo para fora do quarto”, disse brincalhona.

Balance não achou graça. “Tem certeza mesmo?”, insistiu a professora.

A pônei de cristal assentiu com vigor. Estava decidida.

Ficou acertado que a pégaso negra cuidaria da casa da dançarina enquanto esta estivesse viajando. Receberia a correspondência, contrataria uma diarista de confiança para varrer o chão e manter tudo arrumado, e faria visitas frequentes para avaliar o estado da propriedade. Sequer cogitou a ideia de alugar a casinha da pônei de cristal. Balance se dedicaria a cuidar daquele espaço como se ele pertencesse a uma filha – pois era assim que amava a ex-aluna. Mesmo após tudo combinado, Balance torcia para que a égua rubra mudasse de ideia a qualquer instante e desistisse daquela aventura ridícula. Pensou em vários argumentos para contrariar Can-Can, mas não teve a ousadia necessária para usar nem mesmo um. A vedete já era uma égua crescida e não devia nada a ninguém; e se Balance se recusasse a cooperar – coisa que não gostaria de fazer – a pônei de cristal poderia simplesmente pedir auxílio para outro alguém.

“Mas eu tenho uma condição: você precisa me escrever sempre. Me dizer onde está e para onde vai”, disse Balance, em seu tom mais mandatório.

“Vou escrever”, prometeu Can-Can.

“Então está bem. Só não esqueça de me avisar quando vai partir. E me dê algum tempo para organizar tudo.”

Can-Can concordou. Despediu-se rapidamente da professora e voltou para casa, a fim de se preparar. Skylark ainda estava lá; comia pedacinhos de uma cenoura que acabara de fritar. Olhou a anfitriã e ofereceu um pedaço.

“Não, obrigada”, a dançarina recusou, trotando em direção ao quarto. Prometera não partir de imediato, mas pretendia avaliar o que deveria levar ou não consigo. Levaria a partitura de sua música, algum dinheiro, o vestido de dança que ganhara de Silk, seu estojo de maquiagem e um par de brincos de prata – que ganhara de Gale pelo dia da Lareira.

Quando tomou a flauta do pai entre os cascos, ficou na dúvida. Não tinha utilidade nenhuma para o instrumento, Turner nunca a tinha ensinado a tocar; mas Can-Can gostava de ter a flauta por perto para lembrar do pai. Balançou a cabeça negativamente e colocou a flauta de volta ao seu lugar cativo na estante. É melhor deixar com a Fraülein, pensou.

Skylark olhava a amiga arrumar os alforjes. “Primeiro minha irmã, agora você, e a Rain só quer saber de namorar. Quem vai sair comigo agora?”, disse, inexpressiva. Queria ter feito piada da situação, mas estava apreensiva. Apoiava as loucuras de Can-Can e Nightingale porque as amava bastante, mas sentia que estava sendo deixada sozinha.

Can-Can parou de revirar o quarto para encarar a amiga. Trotou até ela e deu-lhe um abraço apertado. “Você escolheu justo agora para ficar toda emotiva?”, sussurrou.

“Tô achando uma pena que a gente nunca mais vai dançar junto”, replicou Sky, a voz falhando.

“Vamos dançar juntas de novo, sim. É só uma questão de tempo. Podemos escolher um feriado e nos reunir como uma família de novo, vai ser divertido”, Can-Can assegurou.

“Tá bom, tá bom, agora me larga, senão eu choro”, pediu Sky, dando tapinhas nas costas da pônei de cristal. “Não queria que você já tivesse indo.”

“Eu não estou indo agora, só estava arrumando minhas coisas. Vou ficar mais uns dias; a Fraülein pediu.”

“O quê?! Então eu fiquei toda emotiva por nada?”, Skylark escarneceu enquanto usava um casco para esfregar os olhos marejados.

Can-Can riu e disse com carinho, “Boba. Também vou escrever para você sempre, prometo. Aliás, repara a Fraülein para mim? Se ela precisar de alguma coisa, ou ficar doente, ou qualquer coisa mesmo, eu preciso que você me mande uma carta; eu volto correndo”.

A pônei bege assentiu, ainda esfregando os olhos.

*** *** ***

Uma semana se passou.

Can-Can carregava alforjes novos. Eram feitos de um material mais resistente. Poderia encarar um temporal sem medo de que suas coisas molhassem, e uma ventania sem medo de que eles pudessem se partir. O aparato havia sido um presente de despedida de Skylark e Rain. As duas despediram-se da amiga em casa. Conversaram bem pouco, cedo de manhã, para não chorarem. Ao entregar as chaves de casa para Sky e partir em direção à saída sul de Germane, Can-Can se deu conta de que estava agora num lugar semelhante ao de Weather, quando foi embora. E percebeu que ir era tão difícil quanto ficar. Preferiu não fazer desvios em seu caminho ao portão sul, pois, se desviasse o caminho para alguma praça, ia se entristecer. Tinha ido visitar o túmulo do pai no dia anterior e já havia sido difícil o suficiente.

Trotou com calma, perguntando-se se as amigas já teriam aberto alguma das cartas de despedida que deixara com Rain logo antes de sair. Can-Can tinha escrito cartas para todos (até mesmo para Sticks), desejando que ficassem bem e prometendo que não deixaria de mandar-lhes notícias.

Germane parecia um borrão a sua volta. Queria olhar os cascos enquanto seguia insegura, mas sempre que fazia isso lembrava do pai lhe dando uma bronca, logo, ergueu o rosto e manteve-se concentrada no caminho que tinha pela frente. Nenhum dos pôneis pelos quais passou eram conhecidos e encarava-os sem interesse. Alguns devolviam olhares frios, sem vida, inexpressivos; outros, mais ternos, olhavam-na com espanto ou dó do olho cego. Nisso, atravessou a cidade sem perceber.

Passou pelo grande portão, disputando espaço entre o fluxo de viajantes, carroças e todo tipo de criatura que iam ou vinham. Andou quase duzentos metros antes de parar para olhar os altos muros de Germane atrás de si. Alternou o olhar entre as pedras cinzentas que muravam a cidade e os limpos campos de vegetação rasteira de tons terrosos que ficavam do lado de fora e se estendiam até onde seus olhos podiam alcançar. A grande estrada de terra na qual estava agora desaparecia no horizonte. Muito ao oeste, podia ver os picos de altas montanhas, sabia que para lá dos montes nevados ficavam as famosas Rainbow Falls. Passara tanto tempo estudando o mapa de Equestria que sabia exatamente o caminho que deveria percorrer se quisesse chegar lá – uma estreita, esquecida e perigosa estrada de túneis nas montanhas. No entanto, seu objetivo era ir para o sul. Iria de novo até Blight Town, e de lá decidiria seu próximo destino. Equestria era uma terra grande e havia dezenas de pequenas cidades que poderia visitar antes de chegar a uma outra cidade grande; a mais próxima de Germane era Manehattan. Havia visto apenas o cais da metrópole quando viajara para Baltimare de barco com as amigas.

Can-Can respirou fundo e voltou a trotar para longe de sua cidade natal. A cada passo dado, sentia-se um pouco mais corajosa. Havia feito esse mesmo percurso alguns dias antes e não sentira nenhum receio, mas por saber que voltaria logo. Colocou na cabeça que dessa vez não voltaria logo, mas não deixaria de voltar.

Caminhou com mais confiança a partir dali.

Andou por horas, sem diminuir o ritmo e sem deixar-se desanimar. Quanto mais se distanciava, sentia como se o clima ficasse mais ameno, o vento menos castigador e a grama mais verde. Grama! Já havia percorrido o suficiente para que a vegetação rasteira do entorno da cidade começasse a ser substituída por grama mais alta, verdinha e viva! Can-Can não sabia se reparava nessas coisas porque eram verdadeiras ou porque tinha se alegrado com a ideia da aventura que acabara de começar. Acabara de subir um barranco e de lá olhou parte do caminho que havia feito; já não podia ver Germane, a cidade estava escondida atrás dos muitos declives e pequenos bosques pelos quais havia passado. Olhou para o caminha a sua frente, a estrada fazia várias pequenas curvas, descendo o barranco como uma serpente. Para ganhar tempo, Can-Can pulou, de pouco a pouco, caminho abaixo.

No cruzamento ao pé do barranco, parou para observar um poste de madeira com placas que indicavam os destinos a serem seguidos. A placa que apontava para o Sul mostrava o nome de Blight Town. A placa que dava para o Oeste apontava as montanhas. E a do Leste mostrava o nome Fisherman’s Grove, uma pequena vila de pescadores que era ainda menor que Blight Town. A égua rubra continuou seu caminho; se fosse rápida o suficiente, talvez chegasse a tempo de se apresentar naquela noite. E torcia para que Tulip Choir a recebesse com um grande copo d’água.

Can-Can sorriu, pensando que poderia ficar famosa um dia e ser conhecida por toda Equestria. Os viajantes comentariam sobre sua dança de taberna em taberna. De Germane para Blight Town e de Blight Town para o mundo, pensou a égua rubra.

Apertou o passo, afinal, tinha toda uma vida de espetáculos ainda pela frente.

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