“Eu estou preenchendo horários de apresentação pela cidade para o inverno. Fiquei sabendo que o Herr tem uma vaga na noite de quinta-feira e pensei em dar uma olhada no lugar”, Can-Can disse, fingia um sotaque bastante carregado nos erres e simulava um tom de voz um pouco mais fino que o normal. Havia se passado uma semana desde que conversara com Rhiannon; aquele era o segundo dono de taberna com quem conversava naquele dia.

Entrara no “Garanhão de Aço” com uma pose altiva, usava uma peruca loira e um aplique na cauda para esconder seus cabelos prateados. Havia pedido dinheiro emprestado para Fräulein Balance a fim de comprar uma saia – bonitinha e com babados –, para que pudesse esconder sua Marca. Can-Can caminhara até o balcão da taberna e se apresentara para o dono do lugar – um velho pônei manco de pelagem quase que completamente esverdeada entrecortada por fios de cabelo brancos ocasionados pela velhice – como Scarlet String.

“Imagino que você cobra caro...”, o velho retrucou cauteloso, porém não pôde deixar de reparar no corpo da dançarina, seus olhos moveram-se de cima para baixo rapidamente. Scarlet reparou no gesto e aproveitou-se disso. Com um pulo, sentou-se no balcão, cruzou as patas traseiras e olhou por cima do próprio ombro com ar de superioridade para o velho. Alguns rostos de viraram para vê-la.

“É claro que cobro. Mas também garanto que valho cada moeda”, ela assegurou. O velho pônei sentia-se muito constrangido, tentando não olhar o traseiro no balcão a sua frente. Balbuciou palavras pela metade enquanto procurava algo decente para dizer e meneava a cabeça, ponderando. Um burburinho correu entre os clientes nas mesas do lugar; vários deles lançavam olhares discretos para a égua rubra, e algum pônei assoviou sem vergonha. Scarlet sorriu, tinha chamado a atenção dos clientes e isso seria de grande valia; não que desacreditasse em sua estratégia de usar seus atributos, afinal, havia funcionado com o taberneiro com o qual conversara mais cedo.

“Desça daí, vamos”, o velho pônei disse ríspido após pensar bastante. “Não daremos a eles de graça algo pelo qual eles poderiam pagar.” Scarlet desceu do balcão num piscar de olhos. O taberneiro indicou que se sentassem numa mesa no canto do salão para combinarem horários, pagamentos e acompanhamento musical. Ela dançaria ali como Scarlet durante uma hora nas noites de quinta-feira e ganharia trinta bits por show caso fizesse o sucesso esperado. Foi mais fácil do que imaginava que seria, e não esperava que o velho sugerisse um pagamento tão alto.

Muito satisfeita, Can-Can acertou o acordo e saiu da taberna com um trote cheio de rebolado; porém não sem antes deixar escapar, com a voz um pouco mais alta, que dançaria às quintas-feiras à noite. O burburinho feito com aquela informação garantiria casa cheia no dia da apresentação. A égua rubra saiu do estabelecimento. Allegro a esperava do lado de fora; quando a viu perguntou se tudo saíra de acordo com o plano.

“Não podia ter sido melhor”, a vedete sibilou orgulhosa antes de começar a trotar em direção à esquina. Com uma aura mágica marrom clara, o unicórnio que a acompanhava ergueu uma pena e uma prancheta no ar a fim de anotar o horário combinado para o trabalho, além do salário e do nome que Can-Can usaria quando estivesse naquele lugar.

“Scarlet String? Ficou sem opções?”, ele comentou; achara engraçado o fato dela ter usado o nome que pertencia a ele.

Dando de ombros, ela retrucou, “Foi a primeira coisa que me veio na cabeça”. “Então, alguma outra taberna na sua lista?”

Allegro checou as pranchetas e anunciou, “Tem o ‘Alazão’. Fica a uns três quarteirões daqui”.

Can-Can assentiu e disse que deveriam seguir para lá; pretendia preencher pelo menos mais um horário naquele dia.

Ao lado da dupla, surgiu na calçada um pônei muito magro e sujo, pedindo por moedas. A zona sul fazia com que os pôneis que tinham de passar sempre pelas redondezas se acostumassem com mendigos. Can-Can nem olhou para o pedinte; nunca dava esmolas, pois pensava nos dias em que dançava nas calçadas e em todo o dinheiro que deixara de ganhar por culpa de alguns mendigos que faziam com que a clientela dela se apiedasse deles e esquecesse de que, apesar de saudável e feliz, ela também precisava comer. Seu companheiro, porém, jogou uma moeda no casco erguido do pônei miserável. Allegro reparou no rápido olhar desaprovador que a amiga lhe lançou após o ato de caridade, mas deixou que se afastassem do pedinte por alguns metros antes de perguntar se havia algum problema.

“Não. Apenas não sei por que você deu a moeda”, ela retrucou secamente.

“Ele precisa mais que nós”, o unicórnio rebateu.

“Como você sabe disso?”

“Can-Can, você tem amigos?”

“Claro que tenho, o que isso tem a ver?”

“Amigos de verdade?”

“Sim”, a égua rubra falou impaciente.

“Então você dificilmente vai passar pelo que aquele pônei está passando agora. Ele provavelmente não tem teto, mora num beco escuro e nem deve ter com quem conversar, porque está o dia todo andando por aí pra tentar conseguir umas moedas. Seus amigos jamais deixariam que isso acontecesse com você, não?”

Teimosa, ela relinchou baixinho e virou o rosto para a rua, onde carroças passavam ininterruptamente. Bobagem, pensou. Allegro não gostou nada da reação da amiga, mas se manteve quieto. Ambos trotaram pelos dois quarteirões seguintes em silêncio. Na esquina que levava ao terceiro quarteirão que se interpunha entre eles e a taberna, o unicórnio falou, “Só mais esse e subimos na próxima rua”. Can-Can, distraída até o momento, olhou para a placa que dava o nome da rua que estava prestes a atravessar: travessa Hummingbird. Lembrou-se das palavras que Rhiannon havia dito e ficou curiosa.

“Conhece essa rua?”, perguntou ao amigo.

Allegro abriu a boca para responder, no entanto sua voz não veio. Ele hesitou. Meneou a cabeça, ponderando, e respondeu num sussurro, “Sim”.

Can-Can estranhou o comportamento dele. Virou a esquina em vez de atravessar a rua. “Vamos subir por aqui e dobramos lá em cima”, disse simplesmente, para o constrangimento do amigo. Subiram pela rua por poucos metros até que a vedete reparasse que aquela travessa era muito mais movimentada que o normal. Garanhões de todo o tipo iam e vinham atravessando e percorrendo a rua de um lado a outro. As calçadas dos dois lados eram cheias de estabelecimentos de todos os tamanhos, cheios de luzes de neon vermelho ou roxo que mostravam os nomes dos lugares; o primeiro que Can-Can reparou foi “Velvet Mares”. Na frente do estreito prédio de dois andares, um grupo de éguas muito bem vestidas chamou sua atenção.

“Ei, aquele não é o vestido que foi capa da primeira edição de outono da Cosmare?”, perguntou num misto de descrença e surpresa. “E aquelas outras éguas estão usando roupas iguais às que Sapphire Shores usou na turnê do ano passado!”

E não parou por aí. Para onde quer que Can-Can olhasse, via algum vestido caríssimo no corpo de alguma pônei diferente e muito maquiada. A todo momento algum garanhão chegava perto de uma das éguas em frente aos estabelecimentos, conversava com ela e ambos entravam. Can-Can não parava de encarar todas ao seu redor – estranhava tudo aquilo. Após algum tempo de caminhada, percebeu que um burburinho corria pela rua e as distintas pôneis a encaravam de volta com olhares pouco amistosos. Quando a vedete e o amigo passaram pela frente do Velvet Mares, uma das estranhas murmurou, “Tá muito longe da tua zona, potra”.

Ignorando o que havia escutado, Can-Can caminhou desconfortavelmente por mais alguns metros antes de perguntar ao unicórnio, “O que foi isso?”

“Você não sabe mesmo o que acontece por aqui?”, Allegro retrucou, olhou para os olhos da amiga e levantou as sobrancelhas; aquele gesto foi suficiente e a vedete chamou a si mesma de burra mentalmente, pois não percebera que entrara numa rua cheia de prostíbulos e as pôneis de belos vestidos eram cortesãs. Após os segundos de leve constrangimento, perguntou ao unicórnio por que a prostituta havia falado com ela daquela forma.

“Acho que é por causa da roupa que você está usando”, ele respondeu num sussurro.

“O que que tem a minha saia?”

“É que... tem umas outras... ‘éguas do ramo’ que atendem nos becos do porto. E elas se vestem mais ou menos como você está agora, então... talvez elas estejam achando que você é concorrência de outro bairro”, o unicórnio explicou, visivelmente constrangido. Ele não encarou a amiga sequer por um segundo ao falar. Can-Can quase perguntou como ele sabia daquilo, mas a resposta apareceu em sua mente logo de cara.

Mais adiante, uma égua que usava um outro vestido que havia sido capa da Cosmare se aproximou da dupla.

“All, querido! Espero que não esteja procurando a Honeymoon. Ela voltou pra Hollow Shades faz umas duas semanas”, a pônei terrestre disse amavelmente. Era alta, de pelagem verde bebê e cabelos marrons. Seus olhos grandes e azuis pareciam reluzir, contentes.

O rosto do unicórnio foi tomado de um rubor forte. “Não, não. Só estou de passagem, Grace. Obrigado”, ele respondeu hesitante.

“Oh! Então também espero que não esteja trocando a gente por isso aí”, Grace rebateu, sua voz transformara-se num lamurio agressivo.

“Vocês entenderam errado. Esta aqui é Can-Can, uma amiga minha. Ela é dançarina, trabalhamos juntos”, Allegro explicou.

Uma expressão de entendimento tomou conta do rosto da égua, que sorriu e despediu-se do unicórnio com um beijo no rosto e um sussurro ao ouvido. Partiu para cochichar com algumas colegas do outro lado da rua.

“Então todos os estabelecimentos dessa rua são...”, Can-Can deixou as palavras no ar. Allegro assentiu e mencionou que os preços dos lugares variavam dos mais baratos, no início da rua, aos mais caros, no final dela.

“Nunca tinha ouvido falar dos serviços da travessa Hummingbird antes? Mesmo?”

“Não. Eu comecei a trotar por essa parte da cidade há algumas semanas, não fazia ideia de que isso aqui existia”, a vedete afirmou.

O unicórnio demonstrou certa surpresa no olhar, ninguém que passava pela zona sul deixava de ouvir falar das potras da Hummingbird. Por fim, os dois continuaram a subir a rua sem maiores surpresas. Can-Can comentou achar que as éguas que trabalhavam ali deviam ganhar muito, pois se vestiam muito bem. De repente reparou que uma das potras usava um vestido igual a um que ela mesma usara numa apresentação no Sun.

“Como elas conseguem esses vestidos?!”

“Eles não são originais, oras”, Allegro respondeu como se fosse óbvio.

“O que quer dizer?”

“A maior parte das meninas por aqui tem uma ou outra amiga que costura. Basta escolher o vestido e comprar um tecido mais barato.”

“Certo. E como você sabe disso?!”

“Uma amiga minha costumava trabalhar aqui. Ela me apresentou os lugares.”

“Hum... entendi”, Can-Can murmurou. “Mas porque ela trabalhava aqui?”

“Ela gostava, oras”, Allegro contou. A surpresa que tomou conta da égua rubra lhe fez cair o queixo. “O que foi? Acha que não existe cortesã que gosta do trabalho de cortesã?”

Can-Can nunca havia pensado que uma égua podia se vender porque queria, era bem mais fácil acreditar que era por necessidade; e mesmo por necessidade, uma égua podia até mesmo tentar ser artista de rua antes de puta. O silêncio da amiga foi o suficiente para que o unicórnio imaginasse a opinião dela acerca daquilo, pois disse, “Algumas gostam. Não estou brincando”.

Assentindo, a vedete achou o comentário do pianista desnecessário e preferiu encerrar logo o assunto. Perguntou se já estavam perto do Alazão. O unicórnio respondeu que assim que dobrassem na próxima rua, já poderiam ver a taberna na esquina oposta. Deixaram Hummingbird e suas potras para trás não muito tempo depois. Can-Can viu a placa de madeira do estabelecimento ao longe, nela havia a silhueta de um garanhão galopando por uma planície e o nome da taberna.

“Que nome vai usar aqui?”, Allegro perguntou, sua prancheta já flutuava perto do rosto.

“Não sei, tem alguma sugestão?”

“Red Viper.”

“Que nome... instigante”, Can-Can falou maliciosa. Ambos sorriram. “Vou usar esse mesmo.” Seguiram até a esquina do Alazão. O prédio de três andares era tão grande que mal parecia uma taberna. Após conversarem um pouco, Allegro usou uma simples magia de transfiguração que deixou os cabelos da égua negros.

Ela respirou fundo e entrou no local com a cabeça erguida. Não fez estardalhaço ao entrar, mas não passou despercebida. Algumas cabeças se viraram e comentavam a respeito dela. “Nunca vi essa daí na Hummingbird. É bem carne nova”, um garanhão comentou com um amigo, que retrucou, “Me empresta um dinheiro. Eu queria ter uma conversinha com uma égua dessas agora”. Continuaram discutindo, suas palavras desciam o nível quanto mais falavam.

“Por Celestia!”, uma vaca, sentada numa mesa de canto do salão, exclamou. Can-Can não soube se ela fizera por desgosto ou por admiração. Até então já havia entendido que todos ali tinham certeza de que uma das potras da rua ao lado acabara de entrar. Sentiu-se um pouco ofendida por ser confundida com uma égua da vida, mas manteve seu ritmo controlado até o balcão.

O maior garanhão que a vedete já vira (exceto por Herr Grandiose) limpava uma caneca de cerveja usando um trapo velho. Os ombros largos e os músculos rijos davam a impressão de que ele poderia quebrar a caneca a qualquer instante; sua cabeça se estendia mais alta que o resto dos pôneis na taberna. Seu corpo maciço cor de cobre se moveu com rapidez e precisão para colocar o objeto de volta no lugar de costume, na parte inferior do balcão. O corte de cabelo militar, castanho claro, realçava o olhar acinzentado, penetrante e severo do pônei. Can-Can teve vontade de dar meia-volta e sair quando ele olhou para ela.

“Se tá procurando um dos teus clientes, os quartos que tão ocupados são o 11 e o 27, a escada fica ali no canto”, ele disse com uma voz gutural que fez as pernas dela vacilarem, com medo. “Aliás, se tá pensando que vai fazer atendimento aqui dentro e não pagar nada para a casa, acho bom repensar.”

A vedete ficou intimidada, mas sussurrou, “Não sou dessas éguas”. O garanhão levantou uma sobrancelha ao avaliá-la de cima a baixo. Ele apoiou as patas dianteiras sobre o balcão e olhou-a mais de perto. Can-Can conteve o impulso de se afastar e disse, “Não sou o que o Herr está pensando. Sou uma dançarina procurando trabalho”.

“Jura?”

Can-Can assentiu.

“Que pena, estava considerando te deixar sem ter de pagar para a casa”, ele mencionou de um jeito esquisito, como quem tenta ser bonzinho mas tem segundas intenções. Can-Can não gostou nada da forma como ele falara, gostava menos ainda do modo como ele a olhava; um olhar perscrutador e profundo. “Qual é o teu nome mesmo?”

“Red... Viper”, ela respondeu receosa, não conseguia mais encará-lo.

Ao ouvi-la, um sorriso se expandiu de orelha a orelha naquele rosto grosseiro.

“Pois bem, Frau Viper, me fala da tua experiência profissional. Tô disposto a pagar bem por uma boa égua”, ele gracejou – parecia tentar ser amigável, mas só conseguiu enojar mais a vedete.

“Trabalhei por dois anos no balé principal do Grand Theatre, mas...”, ela começou a contar a primeira mentira que conseguiu pensar, mas foi interrompida pelo garanhão. “Se tivesse trabalhado na companhia de balé do teatro, jamais se rebaixaria a pedir emprego em taberna. Nem precisaria. Conta outra história”.

Can-Can estancou. Ser pega mentindo assim era novidade. E o grande pônei parecia cada vez mais próximo; ele apoiava o rosto com um dos cascos e sorria para ela. “Conta outra história”, ele repetiu. “Uma mais acreditável.”

“Trabalhei no Sun por seis meses”, Can-Can admitiu simplesmente. Contou com a fama do cabaré para tentar causar alguma boa impressão.

“Mesmo?!”, o taberneiro fez-se surpreso. “Interessante... e quanto pretende me cobrar pelos teus serviços, hein?”

“Cinquenta. Por dança”, a vedete respondeu de imediato, sem pensar muito.

Se fosse possível, jurou que viu o grande sorriso do garanhão ficar ainda maior. “Tinhosa, tu. Assim que eu gosto. Quando elas têm atitude fica sempre mais interessante”, ele sussurrou perto do rosto da égua rubra.

Can-Can afastou-o com um casco e se distanciou dois passos. Que absurdo, que nojo desse pônei, pensou. Murmurou que ia embora e começou a se afastar, mas foi interrompida por um toque no ombro e uma voz, “Calma, calma, calma, garota. O que tá pensando? Eu tenho esposa”. Logo, o garanhão apontou para uma égua muita magra e de aparência assustada que servia mesas pela taberna sempre olhando para os próprios cascos no chão – ao ouvir a menção feita pelo marido, as orelhas dela se levantaram em atenção imediata e ela olhou na direção do brutamontes como se esperasse alguma ordem. Ele balançou um casco, indicando-a a voltar ao serviço. Em seguida, passou o casco que estava no ombro de Can-Can por trás do pescoço dela e prendeu-a num tipo de abraço que não a permitia seguir caminho; a proximidade dele a deixava em pânico – sequer havia visto ele atravessar o balcão que os separava!

Estava prestes a gritar por Allegro, tinha esperanças que ele pudesse ouvi-la do lado de fora da taberna, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o taberneiro encostou um casco no focinho dela e disse, “Sabe que cinquenta é um preço bastante alto, né? E eu nem sei se tu vale a pena”. O garanhão baixou o casco para o beiço da jovem dançarina.

A taberna estava lotada, mas ninguém prestava atenção ou se importava com o que o dono do lugar fazia com a suposta puta que entrara há algum tempo.

Can-Can mordeu o casco do garanhão o mais forte que conseguiu, surpreendendo-o ao rasgar um pedaço superficial da pele dele com os dentes. O taberneiro a soltou com um gemido de dor. Ele xingou e olhou-a com tanto ódio que pareceu que poderia matá-la naquele instante; no entanto o olhar de ódio foi substituído rapidamente para um de estranho interesse.

“Gostei de ti”, o taberneiro disse entredentes. Fez menção a se aproximar de novo, mas foi interrompido pela esposa que passava e vira o machucado no casco do marido. “Steel, meu amor. Seu casco”, ela disse preocupada, tomando a pata do garanhão entre as dela. Can-Can aproveitou a oportunidade para fugir dali. Galopou o mais rápido que pôde, entre clientes e garçonetes, para fora da taberna. Allegro tomou um susto ao vê-la passar a toda velocidade, gritando para correrem. A égua rubra não olhou para trás nem para ver se o amigo a seguia ou não; concentrava-se apenas em guiar-se para longe de lá. Atravessou Hummingbird num piscar de olhos e a rua seguinte no mesmo ritmo. Virou à direita na terceira rua, para sair da reta que vinha desde a taberna, e parou para respirar somente quando chegou ao quinto quarteirão.

Ao longe o unicórnio gritava pela amiga. Can-Can espiou pela esquina em que tinha vindo e sinalizou para o amigo com um casco. “Você enlouqueceu?! Não corro assim desde potro”, Allegro gaguejou ao alcançá-la. O pianista arfava bastante.

“Você conhecia aquela taberna? Alguma vez tinha entrado lá? Sabia que o dono daquele lugar é o pônei mais nojento de toda Equestria?! Por Celestia! No que você me meteu!”, a pônei de cristal disparou como se o músico fosse culpado pelo comportamento do taberneiro. Deixou-o atônito ao relatar tudo o que sucedera dentro do estabelecimento. Allegro mal tinha palavras para dizer o quanto se arrependia de não ter pensado em outra taberna, mesmo que a culpa não fosse sua. “Devíamos chamar a polícia.”

“O quê?”, Can-Can retrucou descrente.

“É isso mesmo. Foi assédio, isso é crime!”

“All, quem vai acreditar em mim? Eu sou dançarina de taberna, e era dançarina de cabaré, e se tiver alguma sorte voltarei a ser; a maior parte dos pôneis não sabe diferenciar isso de prostituta. Que policial vai acreditar na minha história?”

“E você vai deixar por isso mesmo?”

“É claro que não!”

“O que vai fazer, então?”

“Nunca mais vou passar por aquele quarteirão”, Can-Can disse como se fosse uma grande solução, apesar de não ter certeza disso.

Allegro preferiu a não dizer que achava a forma da amiga de lidar com a situação muito infantil; olhou-a com desaprovação. “Acho que você devia ir para casa agora”, falou finalmente.

Can-Can concordou sem pensar muito. Sentia que precisava de um bom banho; um frio subia por sua espinha quando lembrava que ele passara um casco pelas costas dela e tocara em seus lábios. Cuspiu na calçada, pois pensou no momento em que mordera aquele garanhão.

*** *** ***

“Que horror!”, Skylark falou alto. Havia se passado dois finais de semana desde o dia em que Can-Can começara a procurar variadas tabernas para trabalhar. Foi quando reuniu as amigas em casa para conversar sobre o que acontecia em sua vida.

“Você devia ter metido um coice na cara dele”, Nightingale disse secamente. “Ou nas bolas.”

“Ele tinha pelo menos o dobro do meu tamanho, que chances eu tinha?”, a vedete vermelha perguntou de imediato.

“Can-Can, depois que você acerta onde dói de verdade, eles não passam de uns potrinhos”, Gale explicou. E sua irmã acrescentou, em seu jeito de brincadeira, “A mana escoiceava muitos potrinhos quando a gente era pequena”. As duas éguas beges estavam sentadas no sofá. Can-Can trotava de um canto ao outro da sala. Pensava no quanto havia sido estúpida ao colocar uma saia no quadril e tentar seduzir taberneiros em busca de emprego. Conseguira preencher a grande maioria de seus horários, mas não deixava de imaginar que o que acontecera no Alazão podia ter acontecido de novo em qualquer uma das outras tabernas. Rain estava em frente ao fogão, tinha uma concha na boca e mexia, raivosa, uma panela de sopa de feijão. A égua malhada respirava fundo e com força, tentando, ao máximo, não perder o controle, pois queria muito ela mesma escoicear o garanhão assediador.

“Eu sinto tanto”, Allegro lamentou de novo. O pobre músico repetia isso para a pônei de cristal todos os dias. Ele estava encolhido no canto da sala. Fingia mexer na pilha de discos próxima a vitrola. A pônei loira parou de mexer a sopa por um instante, apenas para murmurar, “E deve sentir mesmo”. Rain culpava-o pelo ocorrido; não entendia por que ele não entrara na taberna para acompanhar a amiga. Triste, o unicórnio nem tentara explicar que se distraíra conversando com Grace, que os seguira de longe até o Alazão.

“Também não é como se fosse fazer muita diferença, né? Até você é mais garanhão que ele, Rain”, Gale comentou, dando de ombros. A égua no fogão olhou de esguelha para a amiga e relinchou enfezada.

“Pelo menos o pior não aconteceu...”, Sky disse, incerta. Tentava amenizar o clima do lugar.

“Graças a Celestia”, Can-Can exclamou irrequieta.

“E como vai fazer agora? Andar sozinha por aí? De noite?”, Gale questionou preocupada.

“Já falei com a maior parte dos meus empregadores; disse a eles que tenho um músico que sabe todo o meu repertório e toca por um preço acessível”, a pônei de cristal assegurou às amigas. Sky e Gale assentiram em uníssono.

Rain, porém, não ficou satisfeita e disse entredentes, “Grande segurança que você vai ter, hein?” Allegro abriu a boca para protestar, mas decidiu não fazer. No fundo sentia que a pônei terrestre tinha lá sua razão.

“Não fala assim, por favor. Já passou”, Can-Can intercedeu, cheia de pena, pelo amigo. A égua malhada relinchou baixo e voltou a mexer a sopa.

“A Rain tá tão chata hoje, caramba!”, Skylark exclamou. “Por que você não pega toda essa sua chatice e vai bater um papo com a Silk?”

“Ou podia pelo menos terminar de preparar o almoço, eu tô com fome”, Nightingale completou. A vedete vermelha parou de caminhar e olhou para a pônei em frente ao fogão.

Skylark percebeu o movimento como um pescador que vê um peixe pegar uma isca; sibilou, “As duas parecem conversar bastante lá no Sun ultimamente, sabia?”

Can-Can levantou uma sobrancelha lentamente, encarava Rain esperando algum tipo de confirmação do que acabara de ouvir.

A dançarina manchada meneou a cabeça e murmurou, “Ela é minha amiga. E daí?”

Franzindo o cenho por um segundo, Can-Can desviou o olhar e fingiu não se importar. Não tinha um relacionamento sério com Rain, nem procurava saber com quem ela saía nas horas vagas, mas não havia gostado nem um pouco de saber que sua amiga estava conversando “bastante” com a modista. Sky e Gale cochichavam no sofá e pareciam se divertir com a situação criada.

“Calma, Can-Can. Não esquenta, eu vou vigiar essa safada pra ter certeza de que nenhum pônei encoste nela”, Skylark bradou, havia se levantado do sofá e deu um tapinha no flanco de Rain.

Nightingale gargalhou ao ver a égua manchada fuzilar sua irmã com o olhar. A pônei rubra não pôde controlar uma risada enquanto Rain brigava com as irmãs, falando que era uma égua livre e que não era propriedade de ninguém.

Aproximando-se do fogão, Can-Can olhou o conteúdo da panela, extinguiu o fogo e murmurou, “Relaxa, vai. Elas só estão brincando”. Virou-se para as amigas no sofá e concluiu esnobando, “Até mesmo porque eu também não estou presa, nem sou propriedade de ninguém”.

Skylark gritou em desafio para Rain e Gale continuou a rir.

Allegro sorria timidamente no canto da sala.

“Mas convenhamos que sem mim você não conheceria nenhum pônei interessante pra sair”, Rain retrucou, em tom de vitória. Ignorou o rápido grito de discordância feito por Sky e continuou, “Pense em todas as vezes que conheceu alguém legal em uma festa que eu dei ou que te levei”.

“E daí? Fico devendo por isso?”, Can-Can replicou.

Skylark e Nightngale assistiam a discussão como se fosse um filme.

“Fica devendo sim... Alguma exclusividade pra mim”, Rain disse numa mistura de malícia e doçura; fungou de leve no pescoço de Can-Can, que riu. As irmãs não ficaram satisfeitas, esperavam ver uma briguinha divertida.

“Ah, que droga! Vocês nunca discutem?!”, Sky lamentou.

“Justo essas brigas de casal que são legais. Um conta os podres do outro”, Gale acrescentou.

“Ah, mas vocês querem podres da Can-Can?”, Rain falou de súbito, com um largo sorriso no rosto. “Sabem que uma vez, quando eu fui escovar os dentes pela manhã, vi que tinha uma cinta-liga no canto do banheiro dela?!” A pônei de cristal arregalou os olhos e, em desespero, calou a boca de Rain com os cascos antes que ela pudesse dizer algo mais. As irmãs tinham largos sorrisos em seus rostos.

“Can-Can já usou cinta-liga?!”, Skylark sibilou, seus pensamentos cheios de lascívia.

“Ou será que alguém esqueceu aí?”, Gale supôs. As duas encararam a pônei de cristal; praticamente imploravam por respostas.

“Isso não é da conta de vocês”, Can-Can censurou, severa. As amigas riam enquanto a égua rubra protestava sem sucesso e Rain – que se libertara dos cascos da amiga – acrescentava seus próprios palpites.

A maior parte da preocupação desaparecera por causa das risadas proporcionadas à custa das intimidades de Can-Can que Rain fizera questão de pontuar pelo resto do dia. Lembraram-se do que havia acontecido com a pônei de cristal somente ao despedirem-se à noite e lhe desejarem que tivesse cuidado. A égua manchada não mencionou ficar para dormir e a vedete vermelha não fez o convite. Porém despediram-se uma da outra com um abraço forte e carinhoso.