O dia seguinte seria o ensaio final para a grande estreia do novo número de dança do cabaré The Great Sun. Can-Can acordou cedo, muito bem-disposta e cheia de expectativas. Passou a maior parte da manhã repetindo real e mentalmente a coreografia nos mínimos detalhes. Cada olhar e cada sorriso tinham de ser perfeitos.

Escrevera uma carta em resposta para Weather dizendo a grande novidade, e que estava muito feliz, mesmo sentindo muitas saudades. Precisaria passar em uma agência dos correios no caminho para o cabaré.

Por volta do meio-dia, a eguinha comeu uma generosa salada de preparo rápido, arrumou suas fiéis fitas nos cabelos, colocou os alforjes sobre as costas, carregou-os com a carta para o amigo e com alguns bits para eventualidades e saiu. Ao passar pela agência de correio mais próxima ao Sun, descobriu que a entrega expressa por fogo de dragão custava nada mais, nada menos, que vinte e cinco bits; espantou-se com o preço. Por fim, mandou sua carta numa entrega expressa comum. Weather leria a resposta da amiga, no máximo, dois dias depois.

Can-Can chegou ao Sun animada. Ao passar pela esquina da entrada principal, olhou para o grande letreiro em forma de flanco de princesa. Fez uma breve prece para Celestia, pedindo por um dia de ensaio tranquilo e produtivo. Dirigiu-se para a entrada dos empregados. Ao lado do portão de entrada encontrava-se uma fila de carroças carregadas de caixotes de comida e bebida que eram vigiadas por alguns pôneis robustos e de aparência cansada. A vedete cumprimentou o velho unicórnio porteiro – era um pônei gentil e sempre sorria para quem entrava e saía do cabaré por ali.

A pônei de cristal passou rapidamente pelo jardim lateral e trotou pelo corredor da administração; as portas das salas estavam abertas e Can-Can viu sua antiga chefe, Fräulein Mess, sentada na sala dos faxineiros, arrumando alguns papéis sobre a mesa. A pônei lima reparou que a eguinha rubra a observava e acenou com o casco educadamente.

Ao passar em frente à administração, viu Herr Finesse conversando de forma exaltada com um pônei terrestre que ela não conhecia. “Como assim o vinho não veio? Enlouqueceu? Fazemos encomendas de bebidas com vocês há anos e sempre, sempre pedimos vinho! Acho melhor você me dizer que apesar de o tinto não ter vindo, aquelas carroças estejam carregadas de vinho branco!”, o unicórnio, que geralmente era muito calmo, gritava. O pônei terrestre tentava balbuciar alguma resposta que fizesse sentido, mas não obtinha sucesso frente a figura ameaçadora do intendente chefe irritado. “Vamos, eu quero ver esse carregamento com meus próprios olhos. Se algo mais estiver faltando, você é um pônei morto”, Finesse ameaçou exaltado e trotou esbaforido para fora da sala, seguido de perto pelo outro pônei que engoliu em seco após as palavras do unicórnio. Passaram por Can-Can sem dizer-lhe nada. Herr Finesse era realmente uma figura amedrontadora quando algo dava errado no cabaré; a jovem lembrou-se de uma vez em que, sem querer, deixara uma pilha de papéis cair enquanto varria a sala da administração e, por um acaso, aqueles eram os papéis do imposto de renda da casa, que foram preparados com esmero pelo unicórnio marfim. Apenas pelo olhar que Finesse havia feito antes de juntar os papéis do chão, com magia, Can-Can achou que seria demitida naquele dia; ou que levaria uma surra.

“Como é que vai a minha pequena estrela?”, Rhiannon bradou, tirando a pônei de cristal de seus pensamentos sobre o intendente, ao aparecer no corredor, vinda do mesmo lado pelo qual Finesse havia ido.

“Até onde se pode ver, bem”, Can-Can respondeu simplesmente. Ser chamada de pequena estrela lhe inflara um pouquinho o ego; tinha certeza de que a pégaso rósea não chamava as outras pôneis assim – o que era um engano, pois, para Rhiannon, todas as novatas que instruía eram suas pequenas estrelas.

“Amada, espero que esteja preparada para o ensaio de hoje. Vamos dar duro naquele palco. E mais tarde Silk vai trazer os figurinos para vocês olharem”, a instrutora disse animada. Um sorriso ansioso se plantou nos lábios da eguinha rubra, que acompanhou Rhiannon pelo resto do caminho até o salão principal.

Nightingale, Skylark e Rain estavam sentadas nos pequenos bancos do balcão do bar. As três conversavam contentes, Skylark falava sobre os potrinhos que conhecera no dia anterior.

“Aí ele me disse que o nome dele é Flash Dive e que o sonho dele é virar Wonderbolt. E teve também uma potrinha que disse que eu sou a primeira égua que ela vê com a crina tão curta. Eu disse que tinha uma irmã que tinha o mesmo penteado que o meu, e que na verdade ela era uma versão chata de mim!”, Skylark brincou, e sua irmã fez uma careta desgostosa.

“Não fica assim, mana. Não seja tão chatinha”, Skylark implorou, cheia de ironia, levando seus cascos até as bochechas de Nightingale e fazendo carinho nelas. Gale tentou morder os cascos da irmã, falhou por pouco.

Rain tinha um meio sorriso adorável no rosto por causa de toda aquela situação; ajeitou uma parte da crina para trás da orelha esquerda num movimento formoso de casco que deixou sua face, de expressões finas e graciosas, bem visível. “Vocês sempre brigaram assim?”, perguntou mansamente ao par de éguas beges.

“Não”, retrucou Nightingale.

“Sim”, Skylark contradisse.

“Mas todas as vezes foram por culpa dela”, Gale assegurou.

“Ah, a culpa é minha, agora? Sua...”, Sky começou a dizer, levando a si mesma e sua irmã a mais uma discussão envolvendo xingamentos e culpas. Rain olhava as duas brigarem como uma mãe observa dois filhotes brincando; de repente, reparou na entrada das duas outras pônei no salão. Cumprimentou, ainda de longe, Rhiannon com um aceno de cabeça respeitoso e sorriu para a pônei de cristal. Can-Can deu um pequeno sorriso de volta para a égua manchada.

“Muito bem, muito bem, podem parar de xingar a mãe uma da outra porque, afinal, é a mesma égua”, Rhiannon disse em tom brincalhão ao aproximar-se das jovens discutindo. As irmãs se calaram. Skylark sorriu bobamente para a instrutora, Nightingale bufou e deu uma cotovelada na irmã. Antes que Sky pudesse se virar para retribuir o ataque, reparou em Can-Can e disse, “Can-Can! Será que a gente pode ir de novo na sua antiga escola algum dia desses? Eu gostei daqueles potrinhos”. A pônei de cristal assentiu satisfeita.

“Quem sabe no próximo final de semana”, Can-Can sugeriu.

Com um pigarro, Rhiannon interferiu, “Bem, será que podemos terminar com o papo furado e começar a trabalhar aqui? Temos muito o que suar hoje, é o último ensaio!” Skylark deixou escapar um risinho.

“E vou pegar mais pesado com a Sky por causa dessa gracinha”, a instrutora completou. “Vamos, vamos, vamos. Quero vocês naquele palco!”

As dançarinas vedetes se dirigiram obedientemente para o palco. Can-Can foi a primeira a subir, seguida por Rain. Skylark e Nightingale cochichavam distraídas e tiveram de ser apressadas pela pégaso rósea mais uma vez. Por fim, as cinco posicionaram-se em cima do tablado. Rhiannon estava de costas para a plateia, encarava as vedetes que formaram uma fila e devolveram olhares concentrados. A orquestra ainda não havia aparecido, então a instrutora resolveu deixar o momento inicial do ensaio para dar dicas importantes.

“Entrem no palco sorrindo. Mas sem sorrir demais, só o suficiente para que os clientes saibam que não estão ali a contragosto. Mas isso é só no início, a dança de vocês é rápida, feliz, animada, então sorriam o máximo que puderem ao dançar. Tenham sempre em mente suas posições iniciais, Can-Can e Rain ao centro, Sky e Gale nas pontas. Eu não sei quanto a vocês, mas subir num palco para uma apresentação oficial sempre me deu um frio na barriga, então façam o seu melhor para não esquecer suas posições iniciais. Já aconteceu comigo uma vez”, Rhiannon declarou séria. Skylark deu mais um risinho, Nightingale deu outra cotovelada na irmã, mas, no fundo, estava se contendo para não rir também.

“Torço para que isso nunca aconteça com você, Sky”, desejou amargurada a pônei rósea. Estava muito claro que não gostara de ser motivo de chacota. “Outra coisa, não se distraiam. Não olhem para os próprios cascos na hora da dança, nunca! Mas não deixem que olhar a plateia tire a concentração de vocês. Mais uma coisa, nunca cheguem perto demais da ponta do palco, vocês podem acabar caindo. E falando em cair, façam um favor para vocês mesmas, não caiam. Cair no palco do Sun quer dizer estar desempregada no dia seguinte!”

Nightingale engoliu em seco com a possibilidade de perder um emprego por causa de uma eventualidade como aquela.

Can-Can não caía ao dançar desde potrinha, ainda assim, uma pontada preocupação surgiu em sua mente. Eu não vou cair, não vou, ela pensou para se acalmar.

“Torço para que isso não aconteça com você, Sky”, Rhiannon provocou a pônei bege, que ficou desconfiada, perguntando-se se aquilo havia sido algum tipo de ameaça. “Mais uma coisa: quando a música acabar, vocês não ficarão mais do que vinte segundos no palco para receber salvas de cascos, entenderam? O Sun funciona com horários apertados que devem ser cumpridos à risca.”

As vedetes novatas assentiram em uníssono. Rain mantinha-se muito quieta, pois já sabia como as coisas funcionavam no cabaré.

“Após o show de vocês, estão liberadas para ir embora. Não voltem para o salão, Finesse não gosta que as dançarinas ocupem as mesas dos clientes. Mas não se enganem, pode acontecer de alguma de vocês ser convidada a sentar junto a algum pônei que tenha se interessado. Se quiserem saber o que eu acho melhor, procurem formas de recusar convites educadamente, vocês não querem ir por esse caminho”, Rhiannon aconselhou num tom preocupado.

“Eu lembrava dela ser mais divertida”, Nightingale cochichou para a irmã.

“Ela tá parecendo a mamãe”, Skylark cochichou de volta.

“Rhiannon só quer o bem de vocês, ouçam o que ela diz”, Rain interferiu rispidamente em voz baixa. Trabalhava há um ano e meio no cabaré e já havia visto muitas colegas perderem o rumo ao aceitar agrados de pôneis endinheirados. No início era uma maravilha; presentes, bebidas caras, convites para festas, mas, em dado momento as dançarinas se entregariam aos desejos dos ricaços que as usariam de toda a forma e como bem gostariam; umas ficavam grávidas, outras maltratadas e feridas emocionalmente – às vezes fisicamente também. As pôneis que seguiam por esse caminho eram ainda demitidas do cabaré e, sem formas de se sustentar, a maior parte delas passava a vender o corpo para sobreviver.

“Será que podem parar de fofocar por um segundo, amadas?”, Rhiannon falou, havia certa irritação em sua voz.

Often Bass entrou apressado pelo salão, estava dez minutos atrasado. Os músicos já deveriam estar aquecidos e com os instrumentos afinados, no entanto os pôneis da orquestra vinham calmamente atrás dele como se não houvesse problema algum em estarem fora do horário. A visão das éguas no palco fez com que o maestro se apressasse ainda mais e começasse a gritar ordens para os músicos, “Vamos, tomem seus lugares, rápido! Têm cinco minutos para afinar os instrumentos! Rápido”. Os pôneis da orquestra pareceram acordar de seu torpor despreocupado e galoparam para seus lugares debaixo do palco, temendo reprimendas.

Rhiannon virou-se para o maestro que cruzava o salão e ironizou em voz alta, “Amado, fico tão agradecida que você tenha resolvido nos dar o ar de sua graça”. Often Bass lançou um olhar de poucos amigos para ela, mas, como sabia que a falha havia sido dele mesmo, relevou o comentário.

Can-Can olhava surpresa para a instrutora. “Qual é o problema dela? Ela nunca falou assim com nenhum pônei”, cochichou para as amigas.

“Ela fica nervosa perto dos dias de estreias. Deixa estar, ela melhora assim que descermos do palco na noite de quarta-feira”, Rain assegurou em voz baixa. “Rhiannon só quer que as coisas deem certo.”

A pônei de cristal assentiu. Uma parte de si torcia para que a pégaso rósea voltasse logo ao seu estado normal e bondoso de ser, afinal, sequer conseguia acreditar que Rhiannon pudesse ser daquele jeito. A instrutora deitou na ponta do palco e deixou um de seus cascos balançando sobre a cabeça de Often Bass, que tentava organizar a si mesmo e aos músicos.

“Aposto que Sapphire Shores vai estar dançando aqui em cima antes de alguém aí embaixo tocar um lá”, Rhiannon falou como se estivesse entediada. Algum dos pôneis da orquestra tocou um audível ‘lá’ com um violino. “Parabéns, merece até uma salva de cascos”, a pégaso disse revirando os olhos e bateu os cascos um no outro duas vezes.

Skylark tentava conter um riso. Nightingale cochichou, “Sorte desse pônei ela não ter visto quem foi”. Rain foi obrigada a concordar.

Can-Can disse em tom conciliador, “Tomem suas posições, vamos. Sky, vai para o lado da Rain. Se tentarmos ajudar a acelerar o ensaio talvez ela fique melhor”. Quando já estavam uma ao lado da outra, formando uma pequena fila – da esquerda para a direita: Skylark, Rain, Can-Can e Nightingale –, bateram levemente seus cascos dianteiros direitos no palco uma vez. O som reverberou por todo o salão. Infelizmente, o ato não teve o efeito esperado sobre Rhiannon.

“Ouviu? Minhas pequenas já estão prontas, amado. Será que dá para acelerar aí?”, a égua rosa insistiu. Ainda balançava o casco sobre a cabeça do maestro. Often Bass fazia seu melhor para não ficar irritado; organizava, concentrado, as partituras em seu cavalete. Usou magia para erguer a varinha de reger. As pequenas lufadas de ar sobre sua cabeça e que balançavam levemente sua crina davam-lhe nos nervos.

“Pode parar com isso, por favor?”, o maestro pediu com rispidez. A égua pégaso fingiu não ouvir. Com um movimento preciso e carregado de aborrecimento, a varinha bateu três vezes sobre o cavalete, chamando a atenção dos músicos que cochichavam e ajeitavam seus instrumentos. Um movimento da varinha para a ala direita fez os instrumentos de madeira e cordas produzirem seus sons graciosos; o movimento para a esquerda fez os de metal lançarem suas notas estridentes; o movimento para cima acordou o retumbar da percussão; e um último movimento indicando o fundo trouxe uma escalada de piano. Rhiannon ainda estava deitada sobre as próprias costas, na ponta do palco, fingindo tédio. Seus cabelos negros, longos e ondulados caíam por sobre a cabeça do maestro como se ele estivesse usando um tipo de peruca esquisita.

Often Bass soprou para cima para retirar a crina da égua de perto de seus olhos. Porém, não pôde deixar de sentir o delicioso cheiro de flor de laranjeira nos cabelos dela. “Acho que podemos começar, madame”, ele anunciou com um suspiro. Queria ter dito aquilo de forma irritada, mas não conseguiu. Rhiannon virou para olhá-lo, os cabelos dela ainda estavam perto do rosto dele, de modo que o garanhão apenas podia distinguir um rosto rosado no meio de uma escuridão completa. Ela sorriu e disse com a voz cheia de doçura, “Muito obrigada, amado”. Naquele instante, pareceu bem mais a pônei que todos conheciam e amavam. Com um suspiro de satisfação, ela levantou e encarou suas pequenas estrelas. Bateu o casco dianteiro no chão duas vezes para chamar a atenção das vedetes que haviam se distraído. “Certo, agora o ensaio começa mesmo. Acredito que nesse ponto vocês já devem estar acostumadas com a coreografia, então não vou dar instruções. A música vai começar e eu quero ver vocês fazerem tudo direitinho do início ao fim”, a égua rosa falou – mais parecia uma ordem. Em seguida fez uma contagem de um a três, batendo um casco no tablado para acompanhar os números. Ao som da terceira batida, a música de Turner surgiu de debaixo do palco. As vedetes respiraram fundo e começaram seu show.

Apesar de Can-Can ter criado os movimentos da dança – um tipo de quadrilha –, era Rhiannon quem coordenara a forma de usar os passos, como encadeá-los, para que lado cada dançarina deveria ir, a que distancia ficariam umas das outras, etc. E a pégaso rósea era muito boa no que fazia; os anos dançando tinham-na deixado especialista em matéria de coreografias. Apesar de não mais dançar, praticamente todas as apresentações do Sun tinham um casco dela envolvido, as únicas exceções eram os shows de grupos estrangeiros e de fora da cidade que vinham apresentar-se no cabaré, geralmente a convite de Herr Grandiose. Rhiannon não gostava muito dos pôneis que vinham de fora porque tomavam a atenção das vedetes da casa na maior parte das vezes, o que consequentemente tirava a atenção de seu próprio trabalho; ela torcia para que não houvesse nenhum grupo de fora na noite de quarta-feira.

“Gale, mais para a esquerda!”, a instrutora gritou, sua voz se elevou sobre a música alta e ao som dos cascos batendo com força na madeira. A pônei acenou com a cabeça antes de obedecer ao comando, posicionando-se mais à esquerda. Rhiannon franziu o cenho, não esperava ter de dar ordens no último ensaio. A expressão da pégaso pareceu fazer as vedetes terem mais cuidado e concentrarem-se mais na dança. No fundo, as pôneis (exceto Rain) temiam sofrer algum tipo de reprimenda.

A égua malhada já trabalhara muitas vezes com Rhiannon para saber como lidar com o estado de nervosismo da pégaso, e sabia também que não importava o quanto a coreógrafa parecesse irritada ou prestes a explodir, ela mais facilmente bateria os cascos no chão, frustrada como uma potrinha, do que brigaria de verdade com alguma de suas pequenas estrelas. Pelo menos assim Rain a conhecia; mas já ouvira falar de uma ou duas vezes nas quais a instrutora quase fora para o casco com uma dançarina insolente ou negligente. Normalmente esse tipo de conduta no cabaré seria punida com demissão, mas Rhiannon fora a grande estrela do cabaré em sua época e era muito querida por todos na casa, em especial por Herr Grandiose, que a tratava como se fosse da família.

“Can-Can, sorria! Você precisa sorrir mais”, a pégaso gritou de novo. A pônei de cristal fez um esforço para sorrir mais. A dança era muito cansativa e precisava de concentração, sorrir era mais difícil do que parecia nessas condições.

A pégaso rósea estava quase satisfeita, a primeira repetição da dança foi executada praticamente sem erros. Ao final da música, bateu os cascos um no outro e disse, “Tomem um pouco d’água e voltem para o palco, vamos repetir tudo até ficar perfeito”.

As pôneis desceram do palco e trotaram em direção ao balcão do bar, trocaram palavras brevemente entre si e com um atendente que serviu copos de água gelada para cada uma.

Rhiannon as esperava. “Pode continuar, amado?”, perguntou para Often Bass. O garanhão assentiu em silêncio – ele e a orquestra poderiam repetir a música várias vezes antes de precisarem realmente de uma pausa.

“Então, o que nós vamos fazer depois da nossa estreia?”, Skylark perguntou entre um gole d’água e outro. Nightingale olhou para Can-Can como se esperasse uma resposta. Rain deu de ombros.

“Eu acho que... podíamos ir lá para casa, comer algo e conversar”, a eguinha rubra sugeriu. Foi a primeira coisa veio à sua cabeça.

“Germane precisa mesmo de uma boate”, Gale disse aborrecida.

“Humpf, eu disse que a gente devia ter ido procurar emprego em Baltimare”, Skylark retrucou aborrecida. “Nada contra vocês, garotas.”

Can-Can não ficou ofendida. Olhou para Rain em busca de uma solução. A égua manchada pensou um pouco antes de dizer, “Vamos estar acabadas quando sairmos daquele palco. Eu gostei da ideia da Can-Can. Nós podemos pegar um pouco de comida e uma garrafa de bebida que esteja sobrando com o High. E pronto”. A pônei de cristal concordou prontamente. Gale manteve-se inexpressiva e Sky foi obrigada a aderir ao plano. Rain piscou para Can-Can discretamente.

O som de um casco impaciente batendo no palco repetidas vezes fez as pôneis se darem conta de que já tinham demorado demais. Apressaram-se para voltar a suas posições iniciais de dança.

“Gale, lembre-se de ir mais para a esquerda. Can-Can, quero ver esse seu sorriso. Rain, estava perfeita, mas no final parecia que você estava perdendo o fôlego, respire com calma. Sky... apenas tente não cair”, Rhiannon instruiu seriamente. As pôneis deram risinhos para o conselho que a instrutora dera a Skylark.

“Calem a boca”, Sky retrucou, grosseira.

“Podemos começar?”, a pônei rósea perguntou em voz alta. As vedetes assentiram em uníssono. Can-Can respirou fundo e esperou a música começar.

Com o casco da perna traseira esquerda, Rhiannon bateu três vezes no chão de madeira e disse, “Amado, estamos prontas”. Often Bass silenciou os músicos que cochichavam e bateu três vezes a varinha no cavalete. A orquestra se preparou.

“E um, e dois, e três”, o maestro sussurrou para indicar aos músicos o momento de começar. A música começou e os pôneis debaixo do palco ouviram os sons dos cascos a bater sobre suas cabeças. Often Bass regia contente, adorava a música composta por Turner, a melodia era alegre e contagiante. Uma parte de si sentia uma certa inveja por não ter sido ele mesmo a compor tal música, enquanto outra parte lamentava nunca poder conhecer o criador de Can-Can. Por outro lado, tendo terminado a música inacabada e estando vivo, Often Bass provavelmente ficaria com os louros da glória. Turner não seria reconhecido por sua maior e mais brilhante composição.

Os seis minutos de música eram tocados com afinco e graça; os pôneis da orquestra, no entanto, sequer sabiam o esforço que era dançar aquilo.

Rhiannon sorriu. A coreografia fora executada com perfeição na segunda repetição. Deu uma singela salva de cascos para suas estrelas. Can-Can suava e começava a arfar. Suas amigas não estavam em um estado muito melhor. Rain sentou-se sobre o traseiro no palco para descansar; ajeitou a crina para trás da orelha esquerda mais uma vez. O movimento não passou despercebido pela pônei de cristal, que o achava bastante charmoso.

“Perfeito”, a instrutora declarou satisfeita. “Mas lembrem-se, vocês só terão uma vez para acertar no dia da estreia. Vamos de novo.” Rhiannon bateu mais três vezes com um casco no palco.

Após repetirem a música mais quatro vezes, Can-Can e as amigas já mal conseguiam ficar de pé. Often Bass pediu uma pausa para sua orquestra. As pôneis no palco pararam para descansar. A eguinha rubra deitou-se sobre as costas no tablado e olhou para o teto do Sun. Pensou no pai. De repente, uma cabeça aconchegou-se sobre sua barriga. Surpresa, percebeu que Rain havia deitado também e a estava usando como travesseiro.

“Eu podia dormir aqui”, Rain balbuciou com um leve riso. Can-Can, timidamente, levou um de seus cascos até a crina da égua malhada para fazer carinho. O toque gentil na cabeça fez a pônei sorrir.

Skylark, porém, se jogou sobre a vedete vermelha, deitando a cabeça sobre o peito dela e tirando-lhe o ar. Alguns nomes feios vieram à mente de Can-Can pela amiga ter estragado o momento. Cética, Gale observava as três pôneis no chão – apesar de uma parte de si querer deitar também, não achava muito certo deitarem-se suadas no palco, isso só as deixaria mais sujas, sem falar no próprio palco.

“Garotas, levantem daí, vamos”, Rhiannon disse ao se aproximar. Infelizes, as dançarinas fizeram o esforço de se erguerem. A instrutora indicou que podiam sentar em uma das mesas do salão até os músicos voltarem.

Cada uma das quatro vedetes tomou uma cadeira numa das mesas que ficava próxima ao palco. Rain sentou-se ao lado de Can-Can. Skylark e Nightingale ficaram com os dois lugares no canto oposto da mesa. As irmãs começaram a conversar em voz baixa sobre quem lavaria a louça no apartamento naquela noite.

A égua manchada escorou-se em Can-Can.

“Você tem se saído muito bem, hoje”, Rain atestou vagamente, apenas para quebrar o gelo.

Can-Can agradeceu e retrucou baixinho, “Tem certeza de que não quer ir para outro lugar depois da estreia? Eu andei pensando e acho que não tem muito o que fazer lá em casa mesmo”.

Rain ergueu a cabeça até que sua boca estivesse próxima da orelha de Can-Can e sussurrou, “Da última vez que eu estive lá, me diverti um bocado”. Em seguida, mordiscou de leve a orelha da surpresa pônei de cristal. A sensação foi indescritível. Um tanto constrangida, Can-Can se conteve para não deixar um gemido escapar pela boca.

Nightingale e Skylark fingiram não perceber nada, apesar de uma das irmãs ter um arremedo de sorriso na cara.

Rain parou de mordiscar e sussurrou inocentemente, “Eu gostaria de ter outras noites como aquela”.

A eguinha rubra sentiu a respiração forte da égua malhada em seu rosto. Sentiu também o cheiro daquele corpo suado que se escorou de volta contra seu lado. Tomou um pouco de coragem e, com o focinho, fez um leve carinho na cabeça de Rain.

“Acho que a gente tá sobrando aqui”, Sky cochichou maliciosamente para a irmã.

“Cadê o High quando a gente precisa dele? Aquele unicórnio pateta”, Gale retrucou em tom de brincadeira.

Rhiannon trotou para perto das dançarinas. “Já estão cansadas assim? Ainda temos mais umas duas horas de ensaio”, declarou enérgica. “Vocês vão sair carregadas daqui hoje.”

“Nossa! Que tal você dançar essas duas horas no meu lugar pra saber como é?!”, Skylark desabafou.

“Se eu fizer isso, não temos por que empregá-la aqui, ué”, Rhiannon respondeu num misto de brincadeira e ameaça que confundiu a pônei bege. Sky bufou frustrada.

A instrutora apontou com um casco para Rain. A égua loira estava muito quieta. Can-Can reparou que ela parecia ronronar.

As portas duplas na entrada do salão se abriram de repente, revelando uma pônei unicórnio de pelagem ciano e cabelos verdes claros que trazia com magia uma enorme arara de roupas. Em cabides, quatro sacos pretos balançavam de um lado para o outro. Com um gritinho surpreso, Rhiannon bateu as asas duas vezes e alçou voo em direção à pônei que acabara de chegar. Ansiosas, as irmãs levantaram das cadeiras e seguiram a instrutora.

“Rain, a modista está aqui. Veio nos mostrar os vestidos”, Can-Can sussurrou ao ouvido da égua manchada, a orelha dela balançou maquinalmente em protesto. “Vamos, levante”, a pônei de cristal insistiu, plantando um beijo suave (e impulsivo) na testa de Rain.

“Será que nós não podemos ficar só mais um pouquinho aconchegadas uma na outra, aqui?”, Rain provocou em voz baixa. Can-Can estava inclinada a concordar, logo, não se mexeu nem disse mais nada; manteve o focinho sobre a cabeça da parceira, cheirando-lhe a crina e fazendo pequenas carícias; envolveu os cascos dianteiros ao redor do corpo dela num abraço carinhoso.

“Quem será que tá se aproveitando agora? A que finge dormir ou a que finge que acredita?”, Gale perguntou à irmã após uma rápida olhada para trás enquanto trotava até Silk.

“Ah, isso não importa mais. Sabe que as duas ficam até bonitinhas abraçadas daquele jeito?”, Skylark respondeu com um sorriso bobo no rosto.

Silk Yarn conversava com Rhiannon, “Você não imagina o trabalho que foi achar uma cor para todas elas. No final escolhi tons de rosa”.

“Amada, espero que você tenha desenhado um modelo que não prejudique a mobilidade delas”, Rhiannon falou um tanto preocupada.

“Ah, francamente! Com que você acha que está falando?!”, Silk retrucou ofendida. “Me diga quantos vestidos eu já desenhei para esse cabaré.”

“Uns... trinta?”

“Quarenta e sete. Quarenta e sete figurinos perfeitos para quarenta e sete apresentações diferentes em dois anos. Eu. Não. Brinco. Em. Serviço!”, a modista bradou orgulhosa. “Bom, potras, espero que não tenham engordado desde que a minha estagiária tirou suas medidas. Odeio ter de fazer remendos no meu trabalho.”

Nightingale e Skylark se entreolharam em dúvida. Em seguida olharam para a modista que as encarou de volta com um olhar quase ameaçador. “Não ousem me dizer que andaram comendo besteiras”, Silk alertou.

Ainda afastadas, Can-Can e Rain permaneciam naquele estranho aconchego que tinham uma na outra.

“Eu queria convidar você para ir lá em casa depois do show”, Can-Can confessou em voz baixa. Não soube de onde havia tirado a coragem para dizer aquilo.

“Já combinamos que vamos lá”, Rain sussurrou de volta, se fez de desentendida e sorriu de leve.

“Na verdade, eu queria convidar só você”, a pônei de cristal explicou, meio sem graça. A amiga adorou ouvir aquelas palavras.

“Não quer que a Sky e a Gale vão? Algum problema com elas?”, Rain continuou com seu jogo de inocência. A vedete vermelha sequer desconfiava, estava muito preocupada em dizer o que queria.

“Ah, não é isso. Nenhum problema, adoro as duas. Mas eu achei que nós podíamos passar um tempo juntas... só nós duas”, Can-Can sugeriu. Escolhia cada palavra com cuidado, estava nervosa. Rain ergueu-se devagar, coçou o olho esquerdo com um casco, como se tivesse sono. Cinicamente, bocejou. E com seu focinho a poucos centímetros do focinho da outra vedete, sussurrou de forma provocante, “E o que você tem em mente?”

Can-Can selou os lábios das duas em um beijo muito breve e encarou Rain nos olhos. Não precisava dizer mais nada depois daquilo. A égua loira sorriu formosamente e aproximou-se do ouvido de Can-Can para sussurrar-lhe, “Aceito o convite”. Um frio subiu pela espinha da eguinha rubra ao mesmo tempo em que um tipo de calor fazia o caminho contrário pelo corpo, vindo da orelha.

“As garotas vão estar por lá”, a pônei de cristal disse receosa. “Acho que vai ter que ficar para um outro dia.” Ambas sabiam que sairiam cansadas demais para qualquer coisa do ensaio naquela tarde. Sabiam também que o dia anterior ao da estreia era para descanso absoluto. Rain pensou um pouco, tinha certeza de que sua noite de quarta-feira estava livre, mas não podia afirmar nada sobre o resto da semana. Por fim, disse, “Elas não precisam estar lá”. Can-Can estancou, a égua manchada parecia sugerir que ela deveria desconvidar as amigas. Parecia errado, mas em vista do que estava em jogo, talvez fosse justificável. Afinal, Can-Can não se sentiria confortável em estar com Rain enquanto as pôneis beges estivessem por lá.

“O que eu digo para elas?”, Can-Can perguntou, sentia-se errada.

“A verdade, oras”, Rain retrucou dando de ombros. A pônei de cristal assentiu. No entanto, pensava: vou inventar uma desculpa, minha vida particular não é da conta de ninguém. As duas ficaram em silêncio, Can-Can pensava em alguma boa mentira; Rain tentava adivinhar o que se passava na cabeça da amiga.

Com um pigarro, a égua manchada disse, “Então, que tal darmos uma olhada nos vestidos?” Espiava as outras pôneis – Silk alternava sua fala entre gabar-se de seu trabalho e brigar com as irmãs que tinham comido tortas durante o final de semana.

A vedete vermelha concordou quase que imediatamente e levantou da cadeira. Trotou para perto de Gale e Sky, que ouviam entediadas o monólogo da modista.

“... um! Um único vestido. Eu remendei apenas um único vestido em toda a minha vida. E foi para Twisty Tune! Aquela égua adorava bolos, mas tinha a voz mais bonita que eu já ouvi na minha vida inteirinha. Levei a mamãe para um show dela, uma vez. Mamãe chorou como um potrinha durante toda a apresentação”, Silk contava num misto de nostalgia e reprimenda.

“O que houve?”, Can-Can perguntou em voz baixa para Skylark.

“Ela tá chamando a gente de gordas há uns dez minutos”, a pônei bege respondeu secamente. “Eu acho que a Gale vai pular na cara dela a qualquer momento. E se a mana atacar, eu vou junto.”

Até mesmo Rhiannon parecia estar entediada com o falatório. “Muito bem, amada, eu posso garantir que as minhas dançarinas não estão gordas e vão caber nos seus vestidos”, a instrutora assegurou impaciente.

“Mas eu espero mesmo que sim. Odeio desperdiçar tempo. E imagina o tamanho do desperdício que seria todo esse esforço para a roupa não ficar boa porque alguém não consegue controlar a própria boca!”, Silk comentou histérica. A pônei ciano reparou, finalmente, na presença de Rain entre as dançarinas. Após um gritinho esganiçado de surpresa, falou, “Rain, querida!” E abraçou a pônei malhada que retribuiu com um olhar afável.

“Adoro fazer as roupas da Rain; já fiz um monte dos vestidos de apresentação dela. Conheço todas as medidas dela de cor. E sempre mantém o peso”, a modista disse com um sorriso afetado no rosto. Can-Can olhou para a égua manchada, perguntava-se por que Silk havia sido tão enfática.

“Oh, olá vermelhinha”, a égua ciano cumprimentou de repente.

A pônei de cristal devolveu o cumprimento com um breve aceno de cabeça; torceu o focinho, estranhara a forma como a modista falara com ela. Rain lançou um olhar censurador para Silk; a modista fingiu não perceber.

“Então será que podemos ver os vestidos?”, Gale resmungou.

Silk revirou os olhos e foi até a arara de roupas. As vedetes puderam jurar que os lábios dela se moveram para formar a palavra “novatas” discretamente. As irmãs e Can-Can entreolharam-se indignadas. Era a primeira vez que conversavam com aquela égua e já a achavam uma grande idiota. Perguntaram-se onde deveria ter ido parar a jovem doce que tirara as medidas delas algumas semanas antes. Uma pônei de nome Pommel, pelo que Skylark lembrava.

“Se for pra ficar ouvindo todo esse papo furado e esse jeito dela de falar... prefiro ir pro olho da rua por brigar”, Gale mencionou em voz baixa, venenosa. Rain abriu a boca como se fosse interceder pela pônei unicórnio, mas pensou melhor e deu de ombros.

“Bem, antes de mais nada, eu espero que vocês saibam dançar usando salto alto. Quer dizer, não é necessário mas acrescenta bastante no show. Sei que a Rain consegue. E vocês?”, Silk questionou com seu jeito antipático. E suas contínuas referências à égua manchada começavam a deixar Can-Can aborrecida. A modista levitou uma pequena caixa de papelão para as jovens dançarinas e esperou com um ar de desaprovação.

Rhiannon olhava da modista para as vedetes e das vedetes para a modista, seu olhar alternava entre preocupação e desgosto. A instrutora muito bem sabia que a modista era, além de insuportável, intocável, pois era filha de uma das primas de Herr Grandiose e provavelmente não seria demitida, não importava o quão idiota fosse; aliada a isso, existia a capacidade de Silk de estragar as apresentações que quisesse sem que pudesse ser culpada. Rhiannon já vira, certa vez, a costura dos vestidos de duas pôneis que tinham enfrentado a modista se desfazerem durante um show. A culpa caíra sobre as próprias dançarinas que, como de praxe, foram demitidas.

Can-Can, que nunca havia usado sapatos em toda a sua vida, ao ver os saltos dentro da caixa pensou que seria impossível para ela trotar usando aquilo. Dançar então, nem pensar. Apesar disso, ficou admirada com a beleza dos saltos, negros como ébano e mesmo assim lustrosos de modo que pareciam quase refletir o brilho natural de seu corpo. São lindos, ela pensou. Queria muito usá-los para ver como ficariam, mas o medo de levar um tombo na frente das outras pôneis era maior que a vontade de experimentar. Nightingale, ao seu lado, já experimentava os sapatos, estava um pouco mais alta que o normal e tinha um trote muito elegante ao usá-los; ergueu o casco dianteiro direto elegantemente para olhar a ponta dos calçados e encheu Can-Can de inveja naquele instante.

Rain reparou no olhar desconsolado da potra rubra para os sapatos e murmurou, “Silk, querida, não queremos saltos para nossa dança. Ainda não. Ela é difícil e nós precisaríamos de muito ensaio para fazê-la com os sapatos. Poderíamos cair”.

A eguinha rubra deixou um leve suspiro aliviado escapar de seus lábios. As irmãs entreolharam-se e deram de ombros. Rhiannon tinha uma expressão resignada no rosto.

Silk fez uma expressão compreensiva. Sequer parecia a pônei antipática de segundos antes. “Mas é claro! Me desculpe, erro meu. É verdade, você está certíssima. Onde eu estava com a cabeça?”, disse. Recolheu as caixas com os sapatos sem tirar os olhos de Rain. Deu-se conta de que uma das caixas estava mais leve que as outras e reparou que os saltos de Gale ainda estavam em seus cascos; em vez de pedir para que a pônei bege os retirasse, simplesmente usou sua magia para erguer a vedete no ar, retirar-lhe os saltos e jogá-la de volta ao chão sem nenhum cuidado. Nightingale caiu sobre o próprio traseiro; a pônei bege serrou os dentes, raivosa. Skylark tomava as dores da irmã para si e fuzilava Silk com o olhar. A égua modista pouco parecia se importar, voltou a encarar Rain e, com uma piscadela, disse, “Pronto, querida. Eu sei que você deveria estar apenas pensando em suas coleguinhas, porque sei que você não cairia”.

Can-Can tinha o cenho franzido em desgosto, não sabia por que Silk era tão gentil apenas com Rain. E quando pensou em possíveis respostas para esse questionamento, teve vontade de vomitar.

A égua malhada, incomodada com toda a situação, desviou seu olhar da modista lisonjeira para encontrar uma Can-Can visivelmente brava ao lado. Observando além, reparou nas irmãs, que tinham caras menos contentes ainda. “Oh... muito obrigada, Silk. Agora, por que não nos mostra os vestidos?”, Rain disse envergonhada.

“É pra já, querida”, a modista respondeu excitada. Seu chifre se acendeu em uma aura de magia semitransparente e um dos sacos pretos que guardavam vestidos veio flutuando para cima de uma das mesas do salão. “Eu andei pensando, que tal se nós saíssemos para comemorar mais uma de suas maravilhosas estreias?!”, a modista sugeriu como quem não quer nada. Can-Can mordeu o próprio lábio, não acreditava no que acabara de ouvir; para seu alivio (e grande satisfação), Rain declinou, “Sinto muito, querida. Já tenho uns planos para depois do show que não podem ser mudados”.

“Oh, claro. Eu entendo”, Silk retrucou com uma voz doce. Em seguida, lançou um olhar de víbora para a pônei de cristal. Os olhos carmesim da égua ciano pareciam pegar fogo. Ela é louca, Can-Can pensou. Com um pigarro, a modista apontou para o saco na mesa e disse secamente, “Vermelhinha, venha ver, esse é o seu”.

Can-Can trotou cautelosa até a mesa, manteve uma distância segura de Silk. Todas as outras pôneis as seguiram de perto. Nightingale e Skylark cochichavam uma para a outra.

“Sério. Eu não fazia ideia de que ela é assim. Falei com ela só uma vez, e não troquei mais que dez palavras com ela”, Sky disse.

“Eu juro que se algum dia ela usar magia em mim de novo, eu quebro a cara dela”, Gale retrucou.

Rhiannon não dizia nada, mas seu olhar compartilhava do sentimento generalizado de desgosto que as dançarinas nutriam por aquela pônei. A instrutora torcia para que nada desse errado. Onde está Often Bass quando precisamos dele, ela pensou. Se o maestro já tivesse voltado com a orquestra, era provável que teriam pulado todo o papo furado de Silk para poderem olhar as roupas por um breve momento e voltar a dançar.

Rain silenciosamente torcia para que Silk deixasse de ser tão inconveniente. E tinha esperança de que ela parasse de chamar Can-Can de vermelhinha; odiara aquilo. De todas as pôneis ali, era quem mais se sentia mal com toda aquela encenação de antipatia. Queria fazer algo a respeito, mas não sabia o quê. Respirou fundo algumas vezes para se acalmar.

Silk sentou-se numa das cadeiras em volta da mesa e disse, “Espero que goste”. Mas usou um tom que fez a frase parecer uma ordem. A vedete vermelha se aproximou. “ Mas não encoste em nada, dá para sentir de longe que você está chegando”, a modista de língua afiada complementou.

Schlämpe, Can-Can pensou.

A magia de Silk envolveu o saco e o retirou por cima do cabide que o segurara na arara de roupas. Os olhos da eguinha rubra brilharam maravilhados ao ver o figurino: o corpete, com seus enlaces magnificamente trabalhados, a grande saia de babados, belas meias de renda, penas para usar na cabeça; as cores variavam tons de rosa. Silk deixou todas as peças no ar em volta da jovem por alguns instantes. Can-Can levantou um casco para encostar na saia, amava aqueles tipos de babados.

As peças se afastaram do toque e foram levitadas de volta à mesa. Silk arrumou-as como estavam antes, recolocou sobre elas o saco preto e pendurou o figurino de volta de onde tinha vindo. “Vou fazer um corte nas meias para deixar os cascos de vocês à mostra, já que não vão usar sapatos. As roupas são iguais, então não tem por que ficar mostrando todas. Vou deixá-las no camarim de vocês mais tarde”, disse secamente. “Gostariam de dizer algo?”

Apesar do impulso de desferir palavras não amistosas contra a modista, Nightingale e Skylark não disseram nada.

“Aquela saia é linda”, Can-Can murmurou. Não queria ser gentil com Silk, tampouco elogiar o trabalho dela, mas não podia deixar de reconhecer que tinha gostado demais do figurino. Silk não respondeu, deu um sorriso cheio de cinismo para Can-Can e esperou receber mais algum elogio.

Rhiannon fez as honras, mencionando que aquele havia sido um dos melhores trabalhos da modista e que parecia casar perfeitamente com a música e com a dança que propunham na apresentação. Rain comentou que as penas para usar na cabeça tinham dado um toque especial e único ao conjunto.

Regozijando-se nos elogios, Silk se pôs a gabar-se sobre seu trabalho. Nightingale aproveitou um momento de distração da pônei ciano para levar um casco até a boca e fazer um sinal de como se estivesse encostando na própria goela para poder vomitar. Skylark, surpreendentemente, não riu, apenas encarou a irmã e concordou com um movimento de cabeça. Can-Can revirou os olhos, entediada.

Rhiannon olhava a pônei unicórnio nos olhos e fingia interesse no que ela contava. Fazia pequenos movimentos de concordância com a cabeça, de vez em quando.

Rain tinha no olhar uma mistura de tristeza e enjoo.

“Ah, mas eu acho que você deveria se apressar com as meias, amada. São muitas para fazer os cortes e colocar pequenas bainhas. Claro, a não ser que você pretenda deixar que as garotas dancem com meias que foram clara e simplesmente passadas na tesoura”, Rhiannon insinuou fingindo preocupação.

“Mas é claro que eu não cometeria um erro desses; convenhamos”, Silk retrucou indignada. “De qualquer forma, tem razão. É melhor que eu vá ajeitar logo essas meias.”

Um alívio imediato tomou conta das dançarinas raivosas ao ouvirem aquelas palavras. Não muito tempo depois, Rhiannon acompanhava Silk até a porta do salão; nenhuma das outras pôneis foi com elas. Com a troca de despedidas mais breve e educada que conseguira pensar, a instrutora despachou a modista.

“Aquilo não é um pônei, é uma manticora”, Skylark disse furiosa. “A criatura mais venenosa e repugnante que eu já vi!”

“Você ainda não viu a nossa plateia, poderia ficar chocada”, Rain mencionou em voz baixa, para a surpresa das amigas.

“Não me venha com essa. Não tem como ser mais horrível que aquilo”, Gale intrometeu-se. Can-Can olhava para as amigas e concordava com tudo o que diziam a respeito de Silk.

“E por que fica defendendo ela?”, Sky questionou acaloradamente.

“Não estou defendendo ela.”

“Tá sim. Toda vez que alguma de nós diz algo sobre ela, você tenta mudar o assunto!”

Rain bufou e trotou para longe, em direção ao bar. Can-Can olhava de uma amiga para outra sem saber o que deveria fazer. Por fim, disse, “Por que você falou assim com ela? A Rain não fez nada demais”. Sky revirou os olhos. Nightingale lançou um olhar de censura para a irmã. Can-Can trotou até a égua manchada.

A pônei terrestre estava sentada num dos bancos do bar. De alguma forma tirara um copo d’água do outro lado do balcão e entornava-o. “Ei...”, Can-Can chamou ao se aproximar. Não houve resposta. Sentou-se no banco ao lado do de Rain.

“A Sky não fez por mal. Você sabe que ela jamais gritaria com você daquele jeito... é que aquela pônei nos deixou com os nervos à flor da pele”, Can-Can explicou em tom conciliador.

“Eu sei que ela não fez por mal. Eu só queria respirar um pouquinho, em paz”, Rain respondeu, não havia tristeza em sua voz. Seu rosto revelava uma expressão pensativa. Can-Can pôs, carinhosamente, um casco em cima dos cascos dianteiros da égua malhada, que estavam apoiados sobre o balcão. Rain sorriu e disse, “Maluquice, né? Tudo isso”. A pônei de cristal não teve muita certeza se ela se referia a toda a situação desde que Silk entrara no salão, mas concordou mesmo assim.

Um pigarro chamou a atenção das duas. Era Skylark vindo se desculpar por ordem de Nightingale, que observava a cena de longe.

“A mana disse que eu tenho que pedir desculpas... e eu nem sei por que eu vim. Ela nem é mais velha que eu”, Sky teimou como uma potrinha.

“É assim que você pede desculpas?”, Rain provocou e sentiu Can-Can bater em seu ombro logo depois.

Skylark apenas esperava alguma resposta.

A égua loira deixou um riso escapar e desculpou a amiga.

As grandes portas do salão se abriram para revelar o maestro e os músicos; voltavam do intervalo. “Amado, fico tão feliz que tenha resolvido nos dar o ar de sua graça, de novo!”, Rhiannon gritou do palco para Often Bass, ninguém a tinha visto ir para lá.