De laços e fitas
2 Capítulo 2
Na manhã seguinte, Can-Can acordou tarde e um tanto frustrada. Os melhores sonhos sempre eram os mais reais e acordar deles era sempre uma pequena tristeza. Desceu da cama e olhou pela janela do quarto. A rua ao lado de casa estava deserta e era coberta por uma fina camada de gelo. Felizmente não nevava, e o sol parecia ter resolvido aparecer por entre as nuvens e aquecer um pouco a cidade. Pegou seu cachecol na pequena estante e passou-o pelo pescoço. Saiu do quarto, e na sala, Turner roncava baixinho no sofá.
A filha trotou pelo recinto tentando fazer o mínimo de barulho. Pegou o cachecol e a flauta do pai, colocou-os sobre ele e preparou-se. Se o pai ainda estava dormindo, já haviam perdido o horário de sair e talvez não tivessem tempo para arrecadar o dinheiro para o almoço na rua. Por sorte, sobrara bastante do ensopado.
Can-Can posicionou-se ao lado do pai adormecido, pegou impulso e pulou para cima; quando seus cascos voltaram a bater estrondosamente no chão, a potrinha gritava, “Papa! Papa! É hora de acordar!” Fez com que o garanhão acordasse em pânico, temendo que a casa estivesse pegando fogo. Em seu susto, ele caiu do sofá, tirando uma risada alegre da pequena.
Tossindo, ele protestou, “Can-Can, não faça isso! Podia ter me matado!”
A pequena parou de rir e olhou-o arrependida – tinha o péssimo costume de esquecer o quão frágil era a saúde de seu pai. O garanhão levou um breve momento para dar-se conta do que havia dito. Jogado no chão da sala, esticou um casco em direção à filha e puxou-a para perto, dando-lhe um abraço carinhoso e um beijo no rosto. “Perdão, papa...”, ela sussurrou.
“Não, eu não devia ter dito aquilo. Está tudo bem, filhinha”, acalmou-a. “Ainda não decidi para qual praça iremos hoje, que tal você escolher?”
Pensando sobre o assunto, a potrinha decidia para onde gostaria de ir naquele dia. Uma ideia passou rapidamente por sua cabeça, e resolveu que valia a pena tentar. Disse encabulada, “Platz der Künstler?!”, na esperança de que o pai aceitasse. Fazia tempo que não iam até lá. Turner olhou para a filha por um tempo, sabia que ela queria ir até a praça do artista porque tinha feito alguns amigos por aquelas redondezas. Ele sabia que a filha usaria o tempo de pausa para brincar com outros potros e dificilmente lembraria de voltar ao trabalho.
Com um suspiro, respondeu, “Certo, que seja Platz der Künstler então”.
Os lábios de Can-Can se abriram em um largo sorriso. Seus pelos reluziam, ofuscando de leve a visão do pai. “Então vamos logo!”, ela disse animada.
“Espere, mein liebe, vamos comer alguma coisa primeiro”, ele murmurou, ergueu-se do chão e foi em direção à panela de ensopado que ficara em cima do fogão. Serviu o que restou do ensopado em duas tigelas, e enquanto faziam o desjejum, Turner estava feliz, pensando em como aquele seria um dia de descanso e brincadeira para sua pequena dançarina.
*** *** ***
De todas as praças de Germane, a do artista era a que Turner menos gostava. Ela não possuía aquele nome por acaso: era o segundo – às vezes o único – lar de muitos artistas de rua. Situada na zona oeste da cidade, onde se concentravam a maior parte dos bancos e lojas da região, a praça atraía todo tipo de visitantes, desde os mais pobres aos mais ricos, a movimentação de pôneis era muito grande; e aqueles com algum talento para apresentar pelas ruas se amontoavam pela extensão circular de granito que compunha a praça. Em meio a barracas de lanches e vendedores ambulantes, tocadores de instrumentos variados, cantores, atores, dançarinas e todo tipo de pantomimeiro disputavam entre cascos e dentes a atenção dos transeuntes.
Era um lugar difícil de se trabalhar, pois apesar da maior quantidade de espectadores, havia muita concorrência. Pai e filha passaram pouco mais de vinte minutos procurando um lugar no qual pudessem se apresentar com algum destaque. Estando numa distância razoável dos outros artistas e com algum espaço para que Can-Can dançasse livremente, iniciaram o show. Não demorou muito para que começassem a ganhar alguns bits, mas não poderiam contar com a sorte por ali, precisavam chamar muita atenção. Logo, Turner tocava apenas as músicas mais alegres que conhecia, fazendo a pequena dançar muito rapidamente, os pelos dela brilhavam mais quando dançava algo bastante animado. E poucas coisas chamavam tanta atenção na praça quanto uma pônei de cristal dançando. Mas sempre haveria aqueles que tocavam músicas num volume maior, ou éguas que seduziriam os espectadores. No entanto, Turner havia aceito ir lá apenas para fazer uma vontade da filha e era isso o que importava. Talvez precisasse contrair mais uma dívida no mercado para pagar o jantar, ou, se tivesse sorte, conseguiria o suficiente para comprar algo bem barato para comerem durante a noite. Após dançar dez músicas para o pai, Can-Can recebeu sua merecida pausa e uma surpresa.
“Não precisa voltar tão cedo, apenas esteja aqui antes do pôr do sol, está bem?”, o garanhão disse com carinho, em seguida recebeu um abraço apertado da filha, que logo se afastava pela praça, trotando entre os vários pôneis que iam apressados para resolverem suas vidas.
Can-Can havia feito alguns amigos durante as poucas idas que havia feito àquela região. A maioria eram outros filhos de artistas. Alguns eram filhos dos donos dos estabelecimentos que ficavam próximos à praça. A potra rubra foi em direção ao lugar onde residia uma de suas amigas, que vivia em uma bela e pequena padaria numa esquina a dois quarteirões de onde a dançarina havia deixado o pai tocando flauta. No segundo pavimento do estabelecimento, morava uma jovem pônei terrestre chamada Bread Sticks. Uma potra de pelagem marrom, com crina e cauda de um laranja claro, que ainda não possuía sua Marca. Os olhos verdes de Sticks brilharam ao ver a amiga chamá-la do meio da rua.
“Princesa?!”, gritava Can-Can.
A potra era chamada de princesa pelos poucos amigos que possuía por alguns simples motivos: era a única entre eles que tinha uma boa janta todas as noites, ia a uma escola de verdade e tinha brinquedos com os quais brincar. E apesar de estar muito longe da riqueza, o pequeno grupo de pôneis miseráveis que eram seus amigos a achavam a potra mais nobre que conheciam.
Can-Can e Sticks haviam se conhecido por acaso na praça do artista. A pônei terrestre ficara observando a potra rubra dançar até fazer sua pausa, para que pudesse pedir para que a pequena dançarina lhe ensinasse alguns movimentos, e, como todas as amizades da infância são extremamente naturais e leves, ainda naquele dia eram melhores amigas uma da outra. Viam-se pouco, afinal, Can-Can sabia que aquela não era uma das melhores praças para se arrecadar dinheiro, então não pedia para ir até lá com frequência; mesmo assim, a amizade se mantinha, e a cada vez que se reencontravam, parecia que nada havia mudado, como se ainda vivessem aquele mesmo dia em que se conheceram, o dia no qual se tornaram próximas como irmãs.
A pequena princesa desceu as escadas em alta velocidade e quase caiu no processo. Esquivou-se da mãe que ficava no balcão da padaria atendendo clientes. Despediu-se do pai que tirava pães quentinhos do forno naquele minuto. E de repente, estava na rua, galopando em direção a Can-Can e dando-lhe um grande abraço de saudades, que foi retribuído de forma igualmente forte.
“O que andou fazendo?”, Sticks perguntou, apesar de saber a resposta.
“Trabalhando. E às vezes canto também, tenho praticado”, Can-Can respondeu olhando para o rosto da amiga.
“Tem ido às aulas?”
“Ah, claro”, a potra rubra mentiu.
No bairro no qual a pequena dançarina vivia, morava também uma professora, chamava-se Mind Balance. Durante a semana, Fraülein Balance, como era chamada por seus alunos, lecionava numa das escolas mais ilustres de Germane, onde estudavam somente os filhos dos pôneis mais ricos e nobres da cidade, alguns eram até mesmo filhos de nobres de outros países, que vinham até a Akademie der Erleuchtung por ouvirem falar de seu bom ensino, tanto científico quanto moral para os jovens. E durante os finais de semana, a professora abria as portas da própria casa aos potros da vizinhança, para ensiná-los a ler, escrever, e fazer os cálculos mais básicos. Can-Can adorava a professora, mas muitas vezes se via tendo que escolher entre um dia de aulas, ou um dia brincando com alguns de seus vizinhos; e como trabalhava muito, quase sempre decidia dar a si mesma uma folga, afinal, já sabia ler e escrever; os cálculos ainda a confundiam vez ou outra, o que fazia com que chamasse a si mesma de burra, tanto por não saber fazê-los direito, como por saber que se tivesse faltado menos às aulas, provavelmente eles não seriam um problema.
“Você não tem ido às aulas”, Sticks disse, causando um grande constrangimento à potra rubra, que procurou, de forma vã, palavras para se defender da acusação.
“Não conte para o papa, por favor”, insistiu a pequena matadora de aulas após perceber que seria incapaz de mentir para a amiga. “Se ele souber, não vou poder sair de casa sozinha nem para o quarteirão vizinho!”
“Você bem que merecia um castigo desses, sabia?! Eu preciso contar”, a potra amarronzada ameaçou somente para ver a expressão desesperada no rosto de Can-Can. Sticks não aguentou a farsa por muito tempo, caiu na gargalhada por botar medo na potra rubra, que lhe deu um soco no ombro, muito ofendida.
“Não devia fazer esse tipo de brincadeira!”, disse Can-Can, carrancuda.
“E você não devia faltar às aulas”, Sticks retrucou em tom de reprimenda, devolvendo o soco no ombro da amiga logo em seguida.
As duas se entreolhavam, paradas no meio da calçada em frente à padaria, pôneis iam e vinham sem dar-lhes atenção alguma. Can-Can permanecia levemente irritada e Sticks sentia-se quase superior por dar uma bronca na amiga; bobas, abraçaram-se de novo. “Princesa cabeçuda, senti sua falta”, a potra rubra desabafou ao ouvido da pônei terrestre.
“Dançarina cabeça-oca, eu também senti sua falta; ao invés de matar aula com aqueles potros bobos do seu bairro, você podia passar por aqui de vez em quando. Ou podia ir à aula mesmo, ia fazer muito bem a você”, Sticks respondeu dando risinhos, afastando-se do abraço e batendo de leve com um casco na testa da amiga.
“Você... está me chamando de burra?!”, Can-Can inquiriu de forma raivosa, conseguindo em resposta um sorriso brincalhão no rosto da potrinha à sua frente.
“Burra”, a pequena marrom disse num tom quase cantado enquanto se afastava saltitando. “Burra, burra, burra.”
Can-Can, de novo carrancuda, olhava a amiga saltitar; pensava em alguma palavra para xingá-la, mas Sticks não era burra, tampouco idiota ou imbecil, e a pequena rubra não usaria uma das palavras que aprendera com os vizinhos contra sua melhor amiga. Por fim, decidiu, “Vou pegar você!”, e saiu a galope atrás da outra potra. As duas potrinhas corriam pela calçada num jogo de gato e rato que era, acima de tudo, alegre. A pônei rubra realmente não gostava de ser chamada de burra, mas sua amizade com a filha do padeiro era sincera e cheia de um carinho inocente e muito honesto, de forma que brigavam e perdoavam uma a outra com frequência. Há quem diga que pequenas brigas como essa somente fortalecem uma amizade, no caso das duas, dizer isso era acertado. Can-Can sabia que deveria estudar mais, e se Sticks a chamava de burra, era apenas para fazê-la ter vontade de ir às aulas para que não fosse mais chamada daquilo.
As duas continuavam a galopar pela calçada. Can-Can era muito mais ágil que a amiga e não demorou para que a alcançasse. “Agora você é o Katz!”, anunciou confiante após tocar um casco no flanco da amiga e inverter os papéis. Alguns potrinhos do outro lado da rua observavam as duas correndo. Eram filhos de alguns dos artistas que se apresentavam na praça; buscavam algo para fazer durante a tarde. Um jovem unicórnio cochichou para os amigos, “Ei! Não é a Can-Can? E a princesa!”, e foi respondido com um pequeno burburinho de concordância dos companheiros.
Um deles gritou para as duas potras que brincavam, “Katz und Maus?!”
“Katz und Maus!”, Can-Can gritou de volta, ainda correndo na direção oposta à de Sticks. Logo, a rua era tomada por um alvoroço de potros em disparada.
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