De aprendiz de Sacerdote a Sacerdote emAprendizado
1 O início da Jornada
Então subimos na nossa primeira carroça, depois eu saberia que era a primeira de muitas...
Penso que, no começo, a Sra. Naga estava feliz. Feliz não, aliviada, pois a sua viagem tinha chegado ao fim e a minha começado!
Mesmo sendo grande, por ser uma lâmia (metade cobra, metade mulher; como a medusa da mitologia grega), tínhamos a preferência de viajar sobre rodas, pois para a Sra. Naga essa região do Mundo era muito fria, e as estradas não eram adequadas para o deslocamento sob escamas (muitas pedras e degraus).
Assim íamos – entre os muitos sonos que a Sra. Naga tomava nos períodos mais frios do dia – iniciando essa nova fase da minha formação. Pois, mesmo tendo sido ordenado, agora tinha que completar minha educação antes de poder ser considerado um sacerdote em pleno direito.
Pelo que ela me explicou, assim como incontáveis vezes antes, ela vinha sendo responsável pelo polimento dos recém-formados sacerdotes já há bastante tempo, garantindo que aqueles – uma vez recém-ordenados – possam adentrar os segredos da Criação.
Mágica, sim, mágica de verdade, com círculos e encantamentos!
E eu, que achei que já sabia de tudo! Feliz demais com toda a magia e habilidades que eu já usava e dominava, porém, a Sra. Naga me deixou claro que essa era a chamada magia elementar, destinada para uso no dia a dia, e que – por isso – tinha um efeito bem mais restrito. O verdadeiro treinamento começaria agora.
Quando o completasse, receberia o primeiro olho, pois então saberia ver este universo de uma outra forma. Na prática, uma joia seria acrescentada a um dos lados do alfinete que era usado para fechar minha túnica de sacerdote.
Ou seja, como aprendiz de sacerdote, era reconhecido pelo meu manto de sacerdote, só que ele era preso com um broche penannular, ou fíbula celta ou viking, de ferro.
Um semicírculo de metal, com as extremidades mais largas (normalmente achatadas) para não deixar escapar o alfinete, que tinha uma das extremidades presas no anel.
Assim você enfia o alfinete no tecido da túnica, agrupa o tecido e gira o anel para que a ponta do alfinete passe pela abertura do semicírculo, mantendo o manto preso depois que o anel gira, assim prendendo a túnica.
No caso do broche da Sra. Naga, uma das extremidades tinha uma pedra preciosa incrustada, simbolizando que ela já tinha aberto um dos olhos, e por isso podia ver verdades desse mundo que eu não podia, ainda.
A segunda parte da formação, a abertura do segundo olho, seria aproximar-se Do Um e poder exprimir toda a sua força e vontade! Mas isso ficaria para um momento posterior...
Afinal, como sacerdotes, somos as criaturas mais próximas Dele neste planeta e devemos, a todo momento, ser os seus representantes neste mundo. Em verdade, essa parte eu não entendi muito bem, mas – enfim – a primeira parte por si só já parecia legal o suficiente para me animar.
Quem, por mais apelão que seja, não quer ficar mais forte, mais poderoso?
E eu quero, sempre!!!
Afinal, vai saber que tipo de desafio O Um colocaria à minha frente para enfrentar.
Mal sabia eu o quão verdadeira essa profecia seria.
Mas, pelo que sentia, para a Sra. Naga havia algo de triste nessa volta para casa, pois parecia que ela não estava assim tão empolgada quanto eu (claro, afinal, seria mais um fardo para ela). Ou estava só feliz por poder voltar para casa, como se algo a preocupasse no mais fundo de sua alma.
Claro que ela não parecia mostrar nada, além do desejo de ensinar, pois, a todo momento, era hora de aprender algo.
De dia, era tempo de retomar as histórias Do Um e da criação, conhecer e entender as diferenças entre as diferentes tribos. De noite, era hora de entender as constelações do céu, saber quem era quem e a que histórias elas faziam referência nos contos de criação do Mundo.
O que cada uma, ao se revelar ou se esconder no céu noturno, nos dizia sobre as estações do ano. Como era a dança das três irmãs luas no céu noturno. Do porquê o poder Do Um avançava e retrocedia conforme esse balé se desenvolvia.
Embora sempre pronta a responder minhas perguntas e a falar sobre o conhecimento, quando se tratava dela mesma, a Sra. Naga nunca falava, preferindo o silêncio e a solidão das matas à companhia das demais pessoas.
Nas idas e vindas, acabamos por definir a nossa dinâmica, nossa rotina de interação. Diferente do Mestre, que gostava de compartilhar uma refeição, contando os causos do dia e querendo saber quem fez o quê, a Sra. Naga era “mais na dela”, e assim ficamos.
Eu assumi a interação com os outros membros da nossa viagem, que mudavam a cada cidade em que parávamos, para trocar de carroça e tomar uma nova condução em direção ao próximo destino, que somente a Sra. Naga sabia indicar.
Como a recepção que tínhamos a cada cidade era diferente, dependendo se eram mais humanas ou mais fera, ou seja, mais próximas da igreja dos heróis, e também como uma forma de preservar a roupa feita com a própria lã do Mestre e dos aldeões, guardei minha túnica e passei a usar a minha roupa de caçador. Assim, poderia ter uma interação mais tranquila com os moradores, ou seja atuando junto às guildas das cidades que encontrávamos.
Para todos os fins e direitos, eu era como guarda-costas de Naga, a Silenciosa, como ficou conhecida entre os nossos companheiros de viagem. Em parte, ela não tinha muita culpa. Sendo uma lâmia, quer dizer, meio cobra, ela era pecilotérmica; ou seja, incapaz de regular a sua temperatura interna. Assim, ela ficava mais ativa conforme a temperatura do dia ia subindo e parecia terrivelmente cansada conforme a temperatura baixava, e – invariavelmente o dia todo – estava tão coberta quanto possível para evitar perder o pouco calor que conseguia absorver.
As regiões por onde passávamos eram, para ela, um suplício. À medida que nos aproximávamos do Norte, ela parecia se sentir pouco a pouco mais revigorada. Dava até para ver sua língua bifurcada vibrar cada vez mais rápido conforme subíamos rumo ao Norte.
Ainda assim, ela passava muito tempo dormindo – ou eu diria hibernando – enrolada em uma espessa camada de cobertores e casacos, saindo só para o necessário: comer, trocar de condução, entrar e sair das pousadas (quando tínhamos que aguardar a saída da próxima condução).
Nessas ocasiões, e em parte para poder melhorar os nossos fundos de viagem, eu ia à Guilda local e pegava alguns serviços para levantar materiais e fundos para continuar a nossa viagem.
E assim fomos, sempre em direção ao Norte!
Lá pela terceira semana de nossa viagem, enquanto os membros da caravana dormiam sob a vigilância do turno da noite, Ele veio nos visitar.
— Olá, pequeno Garn. Olá, Naga. A felicito por ter conseguido completar a primeira parte de sua missão; sei como tem sido difícil para você vencer esse frio todo! Agradeço por cuidar das futuras gerações de sacerdotes. Mais uma vez, coloco em suas capazes mãos um dos nossos companheiros. Penso que esse, em particular, você vai achar diferente dos demais. Acredito que ele será particularmente útil na solução do seu problema, que eu sinto muito ter colocado nas suas mãos.
— Para você, sacerdote Garn! Eu lhe peço, salve o meu querido povo das escamas silenciosas! Assim como guiou aquela cidade para uma nova era de luz e bonança, quero que você salve as últimas das minhas queridas lâmias. Salve a última aldeia de lâmias que estão no Mar de Areia! Faça delas, mais uma vez, uma luz que brilhe e ilumine o mundo com a minha luz em todos os cantos que forem, e eu quero que elas possam ir aonde queiram, e não mais se escondam na sombra e no medo.
— Para você, minha querida Naga, que tanto já pedi no passado e que continuo pedindo, sugiro que busque confiar neste aqui, que agora se torna seu colega de caminhada. Pois acho, acho não, tenho certeza, pelo que viu nessa cidade caída, o seu potencial de encontrar soluções onde outros só veem problemas.
— Desejo aos dois uma rápida e segura travessia de volta para o Mar de Areia, e que possam – juntos – enfrentar e encontrar uma solução para essa situação que parece tão sem esperança. Deixo-os para que possam dormir e descansar para o resto da viagem.
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