Então aquilo era nosso objetivo, mas o que era aquilo?

Uma miragem?

Eu só via algo que parecia um monte indefinido ao longe, mas o comportamento da Sra. Naga não deixava dúvidas, ali era nosso objetivo, a aldeia perdida das Lâmias!

E logo percebi que deveria me apressar e tentar aumentar o passo, ou ficaria para trás, isso era uma certeza!

Se antes eu era algo de incômodo, algo que ela teria considerado como um capricho Do Um, uma mala sem alça para carregar por aí, mais um sacerdote recém ordenado (sabe de nada infeliz), para lapidar e transformar em algo útil. Agora estava claro que nada a quase nada era esperado de mim, sobreviver, se possível e olhe lá!

Ou seja, ficou claro que para a Sra. Naga eu era somente um fardo a ser arrastado por aí, e que a minha sobrevivência deveria ser minha responsabilidade e não dela.

Se antes ela tentava demonstrar que estava lá, em linha com a ideia de me aceitar para finalizar a minha formação como sacerdote Do Um, agora, claramente, eu era um estorvo!

Ou seja, teria de – mais uma vez – mostrar meu valor, ou ser descartado!

Até aí, nada de novo, ser considerado menos é algo com que já estava acostumado desde a minha outra vida, e nessa também!

Só que desta vez pesava contra mim que não há como escapar deste lugar sem a ajuda de alguém. Pois enfrentar o Mar de Areia sozinho era – certamente – se autocondenar à morte!!!

E agora!

Em que cilada eu me meti!

Será que vou conseguir sobreviver, cumprir com o objetivo que me foi passado? Ser reconhecido como sacerdote Do Um?

Ou simplesmente – que estava começando a achar mais provável — ser descartado assim que a novidade que eu representava deixar de ser interessante.

Para diminuir o meu desespero em se sentir trancafiado nessa prisão a céu aberto, tinha o fato que todos os suprimentos estavam na minha caixa de artigos, não que isso pareça ter alguma importância para aquela Sra. Naga em velocidade 2.5 (ou já estava em 3.8) e aumentando...

De dia eu conseguia me direcionar para o objetivo, já que ele estava cada vez maior no horizonte (insignificantemente maior, diga-se de passagem), mas de noite a coisa toda mudava de figura, e foi nessa hora de desespero que comecei a colocar em prática as primeiras lições de orientação pelas estelas, que tive ainda na carroça, no início da nossa viagem.

E, para minha surpresa estávamos na direção contrária em que começamos essa jornada!

Ou seja, essa maluca paranoica nos fez dar a volta em torno da aldeia para, só depois, ir em direção à ela!!!!

Será que era esse o nível da obsessão dessa mulher?

De qualquer forma, ter essa constatação me fez muito mal, afinal, tinha acabado de verificar que aquele inferno — literalmente falando – estava indo, muito mesmo, além do necessário.

Tipo assim, não podia ter optado por ir numa linha reta? O que custava andar em uma única e curta linha reta? Afinal quem em sã consciência iria nos seguir aqui, literalmente no meio do Mar de Areia?

Vai saber quantos dias de caminhada extra eu tinha suportado em nome dessa paranoia? Será, ou não, que a Sra. Naga tinha alguma consideração pela minha condição, ou capacidade de conseguir fazer essa travessia, que prolongou – desnecessariamente – a jornada, para ver se poderia me descartar no deserto, para poder – sem se sentir culpada — me abandonar ao longo do caminho.

E os pés afundando na areia, e o calor martelando incansavelmente!

O certo é que – nesse momento – eu tinha pouca, a nenhuma capacidade de acreditar nas boas – ou não tão boas — intenções da Sra. Naga. Só sabia que não poderia perdê-la de vista e me arriscar a não conseguir chegar á aquele lugar que – seja como seja – deveria ser melhor que esse Mar de Areia maldito!!!

E agora valia tudo, magia de fortificação, e de velocidade, e toca acompanhar o rastro daquela serpente, pois agora era somente isso que eu tinha como indicativo, pois ela mesma já tinha sumido de vista.

Por sorte, ou desespero, com o fim do dia, a própria silhueta das montanhas já podia ser vista contra as estrelas e eu pude me orientar mesmo a olho nu, sem depender das estrelas.

Como já estava sem a Sra. Naga, que já tinha – a muito – sumido de vista, aproveitei para ter uma parada e um descanso dignos desse nome!

Sentar na areia, tirar uma comida, comer mastigando e engolindo com calma, acompanhado em uma boa dose de água, sim muita água da MINHA caixa de Artigos!!!

E algum tempo só para reflexão e decidir que linha de ação eu deveria seguir.

Estranho, em um território desconhecido, sem a menor maneira de passar despercebido, afinal, pelo que sei há somente lâmias na aldeia, refúgio, santuário, ou o que quer que seja o nome porque chamem esse lugar.

Claramente, sem ninguém para me apresentar como “não inimigo”, se é que não seria considerado um inimigo de qualquer forma.

A aproximação frontal e aberta já estava descartada, isso é certo. Afinal, quem me trouxe ali, já havia me abandonado, e isso era claro.

A meu favor estava meus suprimentos, se e quando a Sra. Naga viesse a se lembrar deles, se algum dia isso viesse a acontecer. E as minhas habilidades que ainda eram desconhecidas.

Se o lugar que eu estava indo era uma formação rochosa, eu poderia usar isso ao meu favor, pois, pelo tempo que passamos na estrada, havia uma coisa que tinha aprendido sobre as lâmias, elas não pulam!

E eu, nascido e criado na tribo dos Chifres, tive que aprender a pular e saltar na marra, pastoreando aquelas cabras que não tem a concepção do que é gravidade!!!

Ou seja, tudo que ficasse além de um salto, em que não tivesse uma superfície contínua para que as lâmias pudessem rastejar, ou que necessitasse saltar um degrau acima de 1,5 metros (cair, ou saltar para baixo, elas sabiam fazer), seria meu território.

Sendo uma encosta de montanha, desde que eu me mantivesse como o Rei da Montanha, eu estaria seguro e poderia – facilmente – passar despercebido.

Outra coisa que aprendi, ao menos em relação à Sra. Naga, é que eles não têm habilidades de combate ou caça, são mesmos uns nerds. Incluso quando parávamos nas cidades e buscávamos trabalhos nas Guildas, a Sra. Naga ficava somente com as de porções, nada de ir a campo, mesmo coletar as ervas para fabricar as porções ficava comigo.

Enfim, barriga cheia, especialmente de água, a bora ir conhecer aqueles picos e entender o que está se passando para saber porque a Sra. Naga tinha esse comportamento tão paranoico.

Seguindo o rastro, e usando a habilidade de visão aprimorada, para ver se havia alguém de vigia, fui me aproximando, buscando aqui e ali sinais da presença de vigias ou mesmo o início da tal aldeia.

Nada!

E a areia começou a ter umas pedras aqui e ali, e ficou pedra pura e pronto, chegamos na encosta.

A parte boa é que teria sombra!

A ruim é que o rastro da Sra. Naga meio que se perdeu, notei que ela meio que seguiu o leito seco de areia que entra na formação rochosa, formando uma grande abertura entre os picos, mas – para mim que queria fazer uma entrada mais discreta — não era uma opção.

Assim que busquei uma fenda na parede, e bora subir, usando as pernas e braços com as costas contra o outro lado da fenda, assim pude ir subindo, subindo até poder ter uma boa ideia do espaço a frente.

Nada, parece que a tal aldeia ficava mesmo bem dentro do vale formado pelos picos. Parece que é como uma grande cratera de um vulcão extinto, com uma abertura que foi escavada primeiro pela lava do vulcão e depois pela água a muitos e muitos milênios atrás...

Ou seja, rota livre para que eu possa ir circundando a cratera até poder avistar o povoamento, mantendo uma visão privilegiada ao mesmo tempo que não podia ser visto. Afinal nem esperado eu era, certo?

Lá pelo meio da noite pude vislumbrar o interior da cratera.

Era mesmo enorme, e parece que teve algumas outras erupções menores, assim que tinham outras sub crateras no seu interior, com uma em especial, na parte mais Norte do vale, a mais fresca, com um laguinho, e algumas plantações ao redor, arvores e algumas palmeiras.

Porém, tudo parecia deserto!

Que decepção! Então essa era a aldeia perdida das Lâmias?

Perecei mais um terrário abandonado, uma fazenda de formigas, mas sem as formigas.

Furos nas encostas, caminhos aqui e ali, mas tudo sem vida, sem gente, abandonada, desolada!

Será que cheguei tarde demais, e as Lâmias já morreram todas, e não tem mais ninguém para salvar?

Será que a tribo era somente mais uma ideia que só existia na mente paranoica daquela cobra louca?

E foi aí que me lembrei que tão letárgica e sonolenta ficava a Sra. Naga, quando a temperatura caia.

Sendo um deserto, quente feito o inferno de dia, mas frio à noite, todos deveriam estar dentro de algum buraco tentando manter algum calor corporal para não entrar em hibernação.

Que bom para mim!!!

Muita calma nessa hora.

Vamos baixar um pouco e entender por onde passam essas lâmias e qual o tamanho da área ocupada por essa comunidade.

Foi quase como se estivesse mesmo em uma cidade fantasma. Olhando de longe, as outras áreas pareciam ainda mais desabitadas, a cidade fantasma das Lâmias...

Nenhum som, além do pouco vento que chegava no interior da cratera, nenhum sinal de que alguém morava por ali.

Imaginava que teria alguma comoção com a volta da sacerdotisa da aldeia, mas nada. Parece que havia sido um dia como outro qualquer, que estranho!

Será que a Sra. Naga chegou mesmo, ou – como eu – preferiu fazer uma entrada mais discreta e saber o que aconteceu durante sua ausência?

Será que a comunidade estava tão instável a esse ponto, ou será que ela, a Sacerdotisa, não era exatamente bem quista pelo pessoal da aldeia?

Bom conhecendo essa sacerdotisa em especial, eu não acharia estranho...

Quando mais eu andava por aquele lugar desolado, maiores iam ficando minhas dúvidas...

Bem, meus ossos já estavam pressentindo o nascer do Sol, sentindo o quanto aquele calor iria me sufocar.

Hora de voltar para os picos, e encontrar um lugar para passar o dia escondido e que, mesmo assim, me permitisse ter uma ideia da dinâmica do local.

Dito e feito, conforme subia pelo lado Sul, o sol ia iluminando o lado Norte, e – a medida que ia esquentando as rochas – parecia que o tempo voltava a correr e – pouco a pouco – elas começavam e emergir de seus buracos na encosta...

Sim, saindo de suas tocas e ficando paradas no Sol, como carros querendo esquentar os motores num dia frio, antes de poder tentar se arriscar a algum passo além da segurança de seus esconderijos.

Quando o Sol atingiu o fundo do vale, as lâmias já estavam indo de lá para cá cuidando da horta, algumas cantavam uma música para embalar os trabalhos manuais (acho que era para lavar a roupa, no que pensei que a minha deveria já estar fedendo – e muito).

E assim encontrei uma pequena saliência na rocha onde poderia ficar na sombra, e – ainda assim – observar a vida lá embaixo.

Interessante poder olhar as lâmias, como se tivesse num zoológico, nós aqui e os animais exóticos ali, separados por uma distância segura.

Para um povo que era quase mítico, de tanto que não eram vistos, ter tantas delas aqui reunidas, era como ver algo – realmente – assombroso.

Minha primeira constatação é que sim, elas tinham gênero, sendo que as mulheres, além de um quadril mais largo, ombros mais estreitos – mas com um busto avantajado – tinham as cabeças mais triangulares, e as suas escamas eram mesmo diferentes, digo menores, mais compridas que largas, sendo mais finas se comparadas com as dos homens.

Os homens por sua vez, tinham os ombros mais largos e iam afinando até o fim da cauda, as cabeças eram mais quadradas, se você tentar descrever e as escamas era não só maiores, mas mais quadradas, como não tinham a mesma aparência de fluidez das fêmeas, eu diria que os homens lâmias pareciam mais quadrados mesmos (tanto nas escamas quanto na cabeça).

Em ambos, as escamas da Barriga – que neles ficavam no peito – eram mais largas nos homens e mais estreitas nas mulheres, mas em ambos se dividiam na altura do peito para acomodar os músculos peitorais.

E assim passei um tempo “apreciando” aquela visão tão única, não que eu tivesse pressa de me fazer conhecer, mas as atitudes da Sra. Naga e meu recente abandono me fizeram repensar o que eu poderia esperar desse lugar.

Ainda mais notando que ninguém tinha pelos, e eu – enfim – era só pelos. Como havia imaginado, sem chance de passar desapercebido numa comunidade só de lâmias.

Nesse particular, eu fiquei mesmo surpreso com tantas corres!

Eu que esperava um bando de variações de Naga, maiores, menores, mais altas, gordas, magras, mas essencialmente todas clones de um padrão areia com manchas castanhas (como era a Naga que eu conhecia, perfeitamente adaptada para desaparecer na areia do mar de Areia).

Porém não! Verdes, coloridas (como a cobra coral, com seus anéis de vermelho preto e branco), pretas como a sussuarana. Nossa, Pelo Um, quantas cores!

Ou seja, eu não tinha mesmo nem ideia do que me esperava, ingênuo de tomar uma Lâmia como exemplo de uma comunidade inteira! O certo aqui é que tinha de nada a ainda menos de conhecimento da situação!

Assim que era melhor ir devagar antes de me comprometer, ou pior de me ver envolvido em alguma situação em que não pudesse encontrar uma saída inteligente.

O primeiro dia transcorreu calmamente – ao menos para mim – com as pessoas indo e vindo – e sim, somente lâmias, eu definitivamente não conseguiria ser discreto aqui, tanto quanto a Sra. Naga fora daqui, no “meu mundo”, se você quiser chamar desta forma.

Pois ela chamava a atenção — quer quisera ou não — em qualquer lugar que estivesse, menos aqui. Pois aqui seria apenas uma lâmia a mais, uma grande lâmia, mas somente mais uma habitante do vilarejo.

Consigo entender o quanto isso poder ter sido reconfortante para as lâmias que iam chegando, vindo de perseguições, entrar na vila e poder, finalmente, respirarem aliviadas.

Porém, eu me pergunto, cadê a tal da Sra. Naga que eu não a vejo em nenhum lugar?

Tem uns caras grandes, com uma bandana no braço, que parece estarem controlando o perímetro, mas é isso aí, tinha uns porretes e era isso o sistema de alarme e defesa da comunidade!

Para quem tinha fugido de uma perseguição que levou à quase extinção, era uma vigilância meio mixuruca, e se você prestasse atenção eles olhavam mais para dentro do Vale do que para fora.

Sim, eles pareciam mais os carcereiros do povo, do que guardas protetores!

Isso sim, seria uma razão para a Sra. Naga voltar rápido e fazer de uma forma sorrateira, a sua volta!!!

E se ela, que era sacerdote desse pessoal aí, tava nessa vibe de não se deixar conhecer, quem sou eu para dar a cara a tapa e ir entrando de peito aberto?

Nem que a vaca tussa, o boi cuspa e acerte no alvo! Nem a pau Juvenal!

Eu ia é me aboletar aqui em cima até que pudesse entender o que estava acontecendo lá em embaixo....