Notas iniciais
Com a cabeça entre as mãos, Fabiano disse: — Eu não consigo entender o que saiu errado. Estudamos o futuro ao lado de Pitonisas, de gênios, e cada ação foi escrita com sabedoria no passado. Deixamos-lhes o conhecimento mais inofensivo, cara. Como é que foram inventar o dinheiro, o comércio, os Bancos, e a ganância? De onde surgiu tudo isso? Tiago explicou, com fala mansa: — Culpa da reencarnação! Os assassinos que matamos durante a guerra nasceram de novo, e se apoderaram de tudo que tu e Eloísa lhes deixastes como herança. Hoje, nós sabemos que o conhecimento é mais perigoso do que a ignorância. E, já existe consenso unânime de que esses imbecis um dia vão inventar a bomba atômica.

Nina falou em primeiro lugar:

— Remédios... Vacinas contra peste negra, lepra, tuberculose, sarampo, febre amarela, dengue, doença de Chagas, cólera... Trouxe 30 vidros cujas amostras são os germens mais estranhos e rebeldes, contra os quais não há cura...

Depois, falou Mário:

— O mundo está tão louco, cara, que nem sabemos o que fazer. Têm os palácios banhados em ouro e homens cuja vivenda é um buraco no chão tampado com folhagens.

Temos favelas porcas, sem saneamento, sem cama, sem roupas. Eles trabalham em regime de serviço escravo, com uma comida imunda, que os mata tanto quanto as pestes...

Com a cabeça entre as mãos, Fabiano disse:

— Eu não consigo entender o que saiu errado. Estudamos o futuro ao lado de Pitonisas, de gênios, e cada ação foi escrita com sabedoria no passado. Deixamos-lhes o conhecimento mais inofensivo, cara. Como é que foram inventar o dinheiro, o comércio, os Bancos, e a ganância? De onde surgiu tudo isso?

Tiago explicou, com fala mansa:

— Culpa da reencarnação! Os assassinos que matamos durante a guerra nasceram de novo, e se apoderaram de tudo que tu e Eloísa lhes deixastes como herança. Hoje, nós sabemos que o conhecimento é mais perigoso do que a ignorância. E, já existe consenso unânime de que esses imbecis um dia vão inventar a bomba atômica. Nossa sociedade está em pânico. Estamos estudando a possibilidade de cavar o chão para viver no interior da terra. Vai ser a única forma de sair ileso da radiação.

Eloísa ficou branca de medo:

— Bomba de destruição em massa? Mas, para quê? Quem lança a bomba também morre, ou não?

Fernanda abraçou-a e lhe falou:

— Isso ali. É uma loucura. Mas, ela é possível, sim...

Rosa insistiu:

— Devo ser muito burra, mas o que é que os nossos inimigos ganhariam matando a todos?

Tiago respondeu:

— Condenação no Inferno! Nasceriam no futuro como ratos, ou moscas, ou minhocas. Só que eles não sabem disso. Acham que depois da morte não se reencarna mais. Quem perde tudo, aqui e agora, é o planeta na verdade. Com a explosão da bomba ele ficaria deserto, árido, sem vida, e se converteria numa rocha quente pela eternidade. Na verdade, a luta entre os homens não é para ver quem sobrevive. É para saber quem é que evitará a destruição da terra. Só isso.

Como um silêncio tomou conta, cada um tentando entender o futuro que tinham pela frente, Tiago falou novamente:

— Mas, quem é o rei do sofrimento, no nosso presente?... Os que não têm salvação nenhuma, agora? Os que morrem de fome e inanição?

Mário falou:

— Hum... Reginaldo? Tu sabes mais do que nós, afinal estás convertido num semianalfabeto... Por onde começamos?

Reginaldo levantou os braços em forma engraçada e disse:

— Riam de mim seus mal-agradecidos... Riam... Eu acho que são os mineradores... Tem guris, nas minas, que caem mortos de fome e de cansaço... Esses cadáveres ninguém os vê, pois são lançados no rio durante a noite. Enquanto as suas famílias, elas são esqueletos com pele... A maioria morre de doenças provindas da fome.

Foi a vez de Mário pensar e propor:

— Teríamos que fazer um plano para mudar o cenário social... Empobrecer os culpados de tudo isso... Por onde começaríamos?

Fabiano propôs:

— Vamos assaltar as minas e evacuar todos para às Ilhas mais distantes. A riqueza da sociedade se apoia na mineração e na fabricação de armas para o exército. Os milionários faliriam num passe de mágica... O que acham?

Tiago pensou e respondeu:

— É um bom plano... Temos helicópteros que pode levar 80 pessoas... As ilhas não estão tão distantes assim. Poderíamos marcar um lugar para os helicópteros carregar todos eles. Vocês teriam que os reunir, é claro, e me marcar uma data.

Mário fez cálculos com ligeireza e disse:

— Hum... Cinquenta vezes oitenta dá 4.000 pessoas, numa viagem de 3 horas de ida e 3 horas de volta.

— Surpresa! Além dos helicópteros, temos hidroavião para fazer à travessia mais longa através do mar. A viagem de helicóptero seria só até a costa, que demoraria 20 minutos de ida e 20 minutos no retorno. Uma hora para levar 4.000 pessoas de cada vez. À noite tem 10 horas. Podemos evacuar 40.000 pessoas em surdina, sem que ninguém perceba. Desapareceriam todos da face da terra numa noite só, sem deixar rastos.

Reginaldo, que estava apavorado com essa conversa entre amigos gênios, finalmente sorriu feliz. Depois falou:

— Dá para desocupar as minas de carvão, de diamantes, de ferro, de ouro, incluindo as famílias dos mineradores. Nossa, tem até espaço sobrando, cara... Posso incluir os meus amigos. São 80 jovens, paupérrimos, mas que vão me ajudar no massacre.

Tiago falou:

— Que massacre, que nada, cara! Eu vou despachar pistolas com raio laser. As armas que vou enviar não matam ninguém. Vão apenas desmaiar os guardas por 24 horas. Portanto não serão acusados de assassinato. Quantas armas necessitam?

Reginaldo fez cálculos mentais, e disse:

— Acho que podemos contar com uns 100 valentes...

Mário abraçou Reginaldo e disse:

— Quem diria, cara! Está um guerrilheiro.

E a conversa alastrou-se noite adentro., pois analisar a diferença entre as duas civilizações levou tempo.

Na montanha, as crianças entravam na Escolinha para aprender telepatia e o precógnito, e Fabiano contava para Tiago que os mestres estavam ensinando aos guris a cultivar mudas de algodão, a maior revolução da educação nesse momento. Pior foi comparar o currículo universitário. Um engenheiro das montanhas sabia construir desde um carro até um edifício de 150 andares, e na outra civilização, a engenharia era usada para construir armas. Na montanha, havia sondas espaciais que iam para a Lua, e na outra cultura, a última moda era andar em carretas puxadas por um animal peludo, que fora domesticado durante os últimos 500 anos. Também Fernanda chorava porque suas amigas viveram durante a infância fedorentas, tampadas com farrapos, com piolhos, e dormindo nas ruas da cidade. Quando Rosa falou do dia em que ela e Reginaldo foram expulsos da Escola, Fernanda conseguiu finalmente rir até engasgar.

Antes do amanhecer, Tiago encerrou:

— Bem, eu trouxe de presente 50 microfilmes escondidos dentro de lindas botas, escrito no dialeto de vocês... Vão ter que ler ao microscópio, que também trouxe junto. Fiz um resumo de todas as Ciências, incluindo Filosofia, Sociologia, Psicologia, para mudar o pensamento dos alunos das Escolas... E também trouxe um telefone celular... Só chama para mim e para mais ninguém...

Mário abriu a boca e falou-lhe atônito:

— Que lindo, cara... Como funciona?

— Com antena subterrânea. O som viajará através do chão. Vão ter que cavar e enterrar a antena a 50 cm de profundidade. Depois e só apertar o botão vermelho e dizer alô, alô..

E todos gargalharam com vontade desta vez.

Tiago também prometeu enviar as vacinas, com a listagem dos componentes, cujo lançamento seria desde o ar, direto na carroça, assim que saíssem da mata fechada. Cairiam junto às pistolas de raio laser. Abraçaram-se pela última vez, e chamou o helicóptero pelo celular.

O amanhecer nunca brilhou tanto como essa vez, quando a máquina voadora parou por cima desse grupo de amigos, com todas as luzes acesas. Fernanda pegou a corda no ar, e subiu primeiro, com os cabelos longos esvoaçando ao vento, como uma fada encantada. Tiago subiu depois, como um Anjo, afinal ambos estavam tão lindos, mas tão lindos, pois as manchas de cobra na pele eram enfeites desta vez, deixando-os fascinantes.

No caminho de regresso, Mário e seu grupo falaram pouco, pois a emoção desse encontro mexeu muito com todos eles. De vez em quando, Nina secava uma lágrima, que escorregava sozinha pela face. Já Rosa se consolava beijando Reginaldo. Fabiano e Eloísa só os olhavam, sem falar nada, ainda atônitos com essa conversa.

Quando alcançaram a carroça, os pacotes da outra civilização já estavam à espera, junto a presentes inesperados. Havia lindos vestidos, saias longas, chapéus e casacos de lã. Também encontraram chocolates em barra, cuja fórmula de fabricação estava detalhada. Outra delícia eram as gomas doces, tortinhas de farinha e ovos, um banquete ao paladar. Comeram sentados ao redor do fogo, riram, e prometeram cozinhar tudo isso, pois Fernanda enviara também as receitas.

De regresso à cidade, Fabiano deixou com os mestres da Escola as botas de presente, em cujo interior havia os microfilmes. Ensinou-lhes a usar o microscópio, e nunca mais os visitou.

Depois disso, dedicou seu tempo para fazer os planos da fuga dos mineradores, ao lado de Mário, Abelardo, Fabiano e Reginaldo, sem envolver as esposas.

Enquanto o marido se dedicava a fazer justiça social, Nina começou a fazer “milagres”. Junto a estagiários, colocaram no herbário do hospital as mudas de 200 plantas carregadas em sacos de farinhas, dando a cada uma seu nome. Afinal, eram árvores que se conheciam através das aulas de Botânica nas Escolas, mas ignorava-se sua utilidade medicinal. Em seguida, começou a extrair a quinina para curar a febre amarela, a extrair óleos medicinais, e a preparar xaropes para deter hemorragias, abaixar febres, sarar do reumatismo, enfim. Depois, ensinou seus colegas como obter os antibióticos, extraídos de fungos.

Em pouco tempo, Nina ficou famosa. Na sala de cirurgia, ela anestesiava com agulhas, afastava tecidos, puxava tumores, e evitava a infecção com gotas milagrosas de óleo extraído da copaíba, ou de toxinas extraídas do curare. Quando chegava uma menina sangrando de um aborto clandestino, Nina limpava-lhe o útero, e depois colocava uma agulha de 15 centímetros na barriga, em busca do baço. Suas enfermeiras corriam então para trazer garrafas com água medicinal. Ligavam essa água a um engenhoso artefato cirúrgico que se encarregava de pingar gota a gota essa água dentro do baço. Pouco a pouco o baço distribuía nas veias os seus bilhões de glóbulos vermelhos através dessa água, evitando a morte por anemia. Em seguida, instruía as enfermeiras no preparo de sucos de beterraba, cenouras, agrião, junto a uma dieta forte de comidas, que a paciente devia engolir a cada 2 horas. Antibióticos como a penicilina só entravam em cena quando havia forte infestação, ou, perigo de morte.

O hospital começou a ficar famoso e passou a ser visitado por homens do governo. Nina mostrava seu herbário, suas garrafadas, a estufa com panelas ardendo com bebidas estranhas, falava da selva com seu poder de cura, e enrolava todo mundo. Mas, o que mais chamava atenção era essa água medicinal. Podia-se ainda enriquecer com substâncias nutritivas, pois o baço se encarregava da distribuição através das veias.

Em pouco tempo, Nina era chamada para salvar a vida de homens abastados, em clínicas particulares. E foi quando ficou endinheirada em tempo recorde. Médicos que curavam ricaços ganhavam uma pequena fortuna. Dinheiro que ela dava para Mário repartir entre seus revolucionários. Para disfarçar e continuar com a cautela, mudou para uma casa maior, bem perto do hospital, e passou também a se vestir com elegância.

Mas, foi assim também que ela soube o que era o cansaço.

Quando Nina chegava a casa, caía na cama com as roupas do dia, e dormia. Mário chegava tarde da noite, e entrava como gato noturno. Deitava junto dela, abraçava-a com delicadeza e só namoravam ao amanhecer com beijos ardentes. Tomavam banho e faziam uma refeição suculenta, e assim que o Sol iluminava sua janela, ela saía correndo. Subia numa carruagem, e chegava ao hospital público a repetir tudo mais uma vez. Depois do almoço, corria para clínicas luxuosas, cujos pacientes padeciam dos mesmos males.

A cura das doenças graves foi atribuída em pouco tempo à “Deusa Ana”.

O povo lotava as igrejas de joelhos todos os dias, agradecendo pela salvação de um parente na beira da morte. Havia desfiles nas ruas, cantando para a Deusa Ana, e Sacerdotes realizavam culto em sua homenagem. Como Nina era obrigada a rezar na capela do hospital todos os dias, ela própria depositava flores e acendia uma vela à Santa por ajudá-la a sarar seus pacientes.

Mário no trabalho foi incumbido de construir um novo templo em homenagem à Deusa Ana., enquanto Abelardo e a sua esposa foram chamados ao palácio do Rei, onde lhes foi pedido à restauração da igreja principal, pois os mosaicos estavam se soltando.

Com Mário e Abelardo trabalhando de Sol a Sol, Reginaldo e Fabiano tiveram que organizar a revolução, sozinhos. Foram apoiados por amigos metalúrgicos, todos jovens, solteiros, sem filhos, dispostos a morrer pelos oprimidos. Afinal, o mundo estava cheio de famílias arrasadas pelo sofrimento, com mulheres cujos maridos e filhos morriam nas Minas.

E pouco a pouco, o plano foi tomando forma e o grande dia foi marcado com entusiasmo. Só faltava avisar do plano os mineradores. E numa reunião de fim de semana, Nina falou:

— Eu posso dar licença de quarentena para quem quiser. Quem vai ficar com febre desta vez?

Reginaldo e Rosa levantaram a mão imediatamente.

Mário falou:

—Reginaldo nem precisa. Ele pode pedir ao Carlos permissão para ir às Minas em busca de pedregulhos. Avisa só para um líder. Eles terão que fazer correr a notícia de boca em boca para todas as Minas. Basta falar-lhes do dia, hora, para que estejam preparados. Nem fala de helicópteros, pois vão se assustar. Só diz que vamos levá-los para longe e vamos desarmar os guardas. Só.

Fabiano comentou:

— No dia da evacuação geral, eu posso estar em quarentena com Eloísa. Mário tem que buscar um pretexto diferente. Reginaldo vai ter que ficar aqui. De preferência numa festa, para ser visto, e não levantar suspeitas... Sei lá...

Mário pensou em voz alta.

— Bem, eu estou levantando uma igreja. Hum... Pedras. Vou buscar pedras, e Abelardo quer ir comigo. Onde mesmo tem pedras?

Todos gargalharam alto.

Reginaldo pegou o mapa e começou a examiná-lo, pois havia um canteiro de mármore num morro bem perto da Mina de carvão. Mário e Abelardo podiam chegar lá sem problemas. E podiam levar algumas bombas de dinamite, pois as Minas teriam que ser inutilizadas. Explodiriam as entradas principais, pois o estrago teria que ser grandioso. Luminoso.

E tudo transcorreu como fora planejado.

Tiago em pessoa fez a evacuação com a pontualidade de uma cultura superior. Os homens subiam no helicóptero correndo, saltavam dele rápido, e depois entravam nos hidroaviões, rumo para um futuro distante, cheios de fé numa vida melhor. Já nas ilhas encontraram roças intermináveis com trigo, milho, legumes, e frutas, para comer pela eternidade, e mulheres lindas prontas para sarar todas as doenças que levavam nos corpos. Homens que mais pareciam deuses encarnados de tão belos que eram.

Antes do raiar do Sol, Fabiano já estava de regresso em casa, cara pintada de manchas vermelhas que nem sarampo.

Mário e Abelardo regressaram caindo de um helicóptero silencioso deixou-os cair como uma pena no ar, antes do dia começar. Reginaldo passara a noite num bar junto com 5 amigos.

E a seguir, nunca houve um dia tão negro para os donos do poder.

Os mercadores que chegaram às Minas, ao amanhecer, em busca dos pedregulhos de todos os dias, encontraram os guardas estendidos no chão, dormindo, aliás, tinha os que roncavam, sem nenhum rasto dos mineradores. As Minas estavam com a entrada cheia de pedras, e as que eram subterrâneas haviam despencado no vazio. Um buraco gigante estava na frente, sem que ninguém se explicasse de que maneira haviam sucumbido. Já outras estavam inundadas de água, depredadas, pois todo o ouro havia desaparecido, junto com as carruagens.

Nas vilas em redor das Minas, não havia ninguém. Sequer um cão havia ficado para trás. Os miseráveis haviam carregado com roupas, panelas, deixando apenas as marcas de pés correndo pelo chão.

Mas, o que é que havia acontecido?

Por cúmulo, os guardas noturnos não haviam visto nada. Dormiram um a um, sem saber como, nem porque motivo.

O desespero do governo e dos donos das Minas foi unânime, pois tudo parecia sobrenatural. Ninguém entendia o que é que havia acontecido. Os rastos desapareciam ali mesmo. Era como se tivessem voado como os pássaros para o céu. E para ter uma luz, as investigações começaram com uma viagem para as ilhas. Todos os barcos do reinado partiram cheios de soldados armados, pois era além do mar que se escondia o segredo.

Mas os barcos naufragaram, e os soldados faleceram afogados entre ondas gigantes, numa borrasca nunca vista.

Os homens mais ricos e influentes, junto com os governantes, se reuniram para discutir longamente sobre o acontecido. Havia espiões enviados pelos “Deuses”, ou, os próprios Deuses haviam descido da montanha a fazer justiça. Além do mais, havia gente desaparecida dentro da cidade. Falava-se que 80 jovens partiram numa excursão para o mato, mas nenhuma patrulha os encontrara. Havia que fazer a lista dos amigos desses jovens, e dos amigos dos amigos, até encontrar um culpado. Uma cabeça. Um líder. E principalmente saber o que é que fizeram durante essa noite, conferir se eram amigos entre eles, enfim.

Rosa e Reginaldo foram presos, em primeiro lugar.

Dias depois foram Mário, Abelardo, e uns quarenta amigos deles, todos suspeitos. Os homens foram chicoteados em praça pública, para se declarar culpados, e em seguida levados para celas junto a outros criminosos. Presidiários que fizeram barbaridades com eles ainda piores.

Rosa foi colocada numa cela com 20 homens que a torturaram de todas as formas e morreu de hemorragia. Reginaldo, numa outra cela, foi esfaqueado e morreu ao amanhecer.

Abelardo, junto a uns 40 amigos, foram pendurados pelo pescoço, frente ao povo.

Mário foi devolvido à esposa, pois ela fez greve no hospital, e não atendeu nenhum paciente durante os dias em que ele esteve na cadeia.

No dia que Mário foi entregue, ele era um farrapo humano, à beira da morte. Nina, em estado de choque, viu seus colegas correndo com ele para cirurgia, a cauterizar feridas, abaixar a febre, e deter a hemorragia. Depois, ficou ao lado dele, chorando baixinho. Mário morreu nos braços de Nina, de infecção generalizada, e ela, que havia jurado nunca se suicidar, rompeu o juramento, tomou uma dose mortal de beladona, e dormiu ao lado de seu homem o sono eterno.

Marlene suicidou-se igual a Nina, com a mesma medicação, entregue pela sua amiga.

Um mês depois, Carlos apareceu morto, estendido na rua ao amanhecer. Sua esposa Simone sobreviveu dois anos à morte dele. Morreu de revolta, pois o governo confiscou toda sua fortuna, e teve que sobreviver limpando o chão de gente rica.

E Eloísa, bem, ela viveu alguns anos a mais. Trabalhou como professora e ajudou a decifrar livros escritos em letras miúdas, que ficaram na “Escola de Caridade” como única lembrança de sua existência.

No outro lado do mundo, Tiago entrou num templo a falar com as almas através do “espelho falante”.

Fazia longos anos que a comunicação com o lado invisível era coisa corriqueira. Pais falavam com seus filhos desde o além, para trocar conversa e matar saudades, enquanto os anjos falavam com os anciãos como grandes conselheiros. E esse conhecimento extra-sensorial ensinava-se na escolinha a todas as crianças desde o primeiro ano de estudos.

E o Anjo Miguel, em pessoa, deu-lhe a Tiago um relatório de tudo que acontecera com Mário e seus amigos, enquanto ele soluçava ajoelhado no chão que nem guri.

Para sua surpresa, Mário e Nina apareceram como espíritos junto ao Anjo, sorriram para ele, acenaram com a mão, e falaram: — “Até a próxima, amigo”-. Depois esfumaçaram no ar.

Fernanda ouviu tudo em casa, em meio de soluços.

E para se consolar pediu a Tiago uma viagem para as Ilhas, para conhecer os famintos pelos quais seus amigos deram a vida. Ele limpou-lhe suas lágrimas, e abraçados subiram num helicóptero, e já em alto mar num hidroavião. E chegaram às ilhas, onde 50.000 pessoas eram atendidas em barracas de lona, em sistema de acampamentos. Os mais fortes trabalhavam nas colheitas, e os mais fracos dormiam embaixo de árvores frondosas, atendidos por 1.000 voluntários, cujas profissões variavam entre médicos, nutricionistas, professores, dentistas, construtores, todos jovens universitários fazendo estágio.

De regresso a casa, Tiago estava impotente. Sentia-se derrotado. E se culpava de inúmeras maneiras:

— Eu deveria saber que isso ia acontecer. Eles deveriam estar nas ilhas, vivos, e agora aqui, conosco...

— O futuro sempre tem duas probabilidades, dois caminhos, meu amor. Não se esqueça disso... Não estamos sozinhos, nossos inimigos nos caçam como ratos desde os tempos da Pré-história, e eles às vezes ganham...

— Mas isso tem que terminar...

— Mas, como?

— Construiremos uma sociedade em outro lugar, e deixaremos os criminosos cada vez mais isolados...

— Vamos... Ou, em outro planeta? Já imaginou?

— Já! Se os voos dão certo, em pouco tempo, estaremos viajando entre estrelas...

— Isso! É assim que se fala...

— O que é que eu faria sem você?

— Hum... Outra mulher?

— Palhaça! Sabe que sem você não consigo sequer respirar...

— E eu? Seria a tristeza ambulante pela eternidade...

Finalmente, foram se sentindo mais leves.

Anos depois eles estavam estudando na Escola de Aeronáutica. Nos anos seguintes, eles saíram para uma viagem interestelar, com mais quatro aeronautas, numa excursão até a Lua mais próxima. Eles desceram com uma máscara de oxigênio, uniforme grosso termo isolante, e deram saltos nessa superfície, enterrando os pés num chão solto que soltava poeira.

Anos depois, chegaram até o mundo de “W”, baixaram sem máscaras, e foram recebidos por homens peludos, que os abraçaram falando uma língua estranha, e os convidaram a um banquete de frutas deliciosas. Ao anoitecer, Tiago, e sua tripulação, se acomodou ao redor de uma fogueira para ver os cabeludos cantar, dançar, numa festa que durou até o amanhecer.

No dia em que Tiago e Fernanda morreram os astronautas já conheciam 20 planetas diferentes, e muitos jovens se inscreviam com entusiasmo para vasculhar o espaço, em viagens cada vez mais distantes. De repente, não havia mais empecilhos de conquistar o Universo. Eles finalmente, estavam convertidos em Deuses verdadeiros.

Notas finais
Finalmente, foram se sentindo mais leves. Anos depois eles estavam estudando na Escola de Aeronáutica. Nos anos seguintes, eles saíram para uma viagem interestelar, com mais quatro aeronautas, numa excursão até a Lua mais próxima. Eles desceram com uma máscara de oxigênio, uniforme grosso termo isolante, e deram saltos nessa superfície, enterrando os pés num chão solto que soltava poeira.