De amor e de sangue. Primeira parte
2 As cobras com inteligência humana
Notas iniciais
Quando o espírito de Nina acordou depois do terrível golpe de seu suicídio, seu corpo fluídico doía tanto, pois ele parecia ser de carne e osso. Fernanda e Tiago colocaram-lhe folhas úmidas e Mário endireitou sua coluna, cujas ajeitadas a fizeram gritar alto. Nina estava morta, mas era como se estivesse viva. Sua pele doía, sentia frio, febre, como um ferido depois de um acidente terrível. Mário a tomou no colo, e os quatro subiram de novo a montanha, só que desta vez o fizeram voando. Afinal, agora eram almas desencarnadas, e livres como os pássaros.
Levou muito tempo para Nina acabar com suas dores. Teve que prometer para Mário e seus amigos que nunca mais ia se suicidar, acontecesse o que fosse. E depois riram em coro, pois em vida foram todos agnósticos e estavam surpresos com a vida após a morte. Custava para acreditar, mas a vida era mesmo interminável como falavam os padres nas igrejas de seu mundo. E começaram a fazer planos com felicidade. Se voassem muito alto, eles poderiam viajar pelo Universo, visitar seu mundo de origem, procurar sobreviventes, enfim. E com calma, começaram a se preparar para a grande jornada.
Fizeram voos ao lado dos pássaros gigantes, cujas asas abertas passavam dos 6 metros, desceram encostas brincando como crianças, e depois rumaram para o espaço infinito.
Mas, lá no alto, havia uma camada de energia elétrica de grande potência, que os enviou de volta para baixo com um tremendo choque, fazendo-os bater contra o chão. Fizeram outras tentativas inúteis, e finalmente foram até o deserto, onde encontraram os espíritos dos antigos soldados de guerra em tentativas tão frustradas quanto às deles. Na verdade, esse mundo não ia deixá-los partir para lugar nenhum. Estavam presos nesse planeta pela eternidade.
E ainda com ideias confusas na cabeça, os quatro sentaram entre os amigos, cujos espíritos peregrinavam havia muitos anos. Assim que Mário, Tiago e suas mulheres deixaram o Oásis, cobras gigantescas, com mais de 100 metros, atravessaram as planícies, e os comeram até não sobrar ninguém. Todos esperavam que Tiago e Mário deixassem descendentes para poder reencarnar. Mas agora não havia nenhum homem vivo sobre a superfície desse mundo para nascerem. Estavam condenados a serem espíritos pela eternidade, ou a nascer de algum bicho, o que dava arrepios só de pensar no fato.
E o tempo começou a se alastrar vagarosamente, com os homens vagando no mundo em busca de uma ideia. Depois se juntavam no Oásis para trocar conversa, desta vez com a certeza de que alguém os havia enviado para esse lugar como castigo. E os palpites do que fazer começaram. Alguns falaram:
— Eu vou nascer, cara. Vou evoluir, e daqui a 200.000 anos já não vou ser mais bicho. Não esqueçam de que somos descendentes diretos dos chimpanzés de nosso mundo. Vamos começar tudo de novo. Vamos tentar os macacos...
— Eu já tentei, cara. Nosso espírito não entra neles...
— Então os ursos, eles são tão lindos...
— Impossível. O cérebro deles é minúsculo... Eu tentei e não deu em nada.
— Um cabrito, vaca, o que mais temos?
— As cobras coloridas de sangue quente. Elas até falam... São inteligentes e dão de mamar aos filhotes, e as criaturinhas nascem pela cloaca, e não através de ovos como as demais espécies...
— Filhotes que morrem engolidas pelas cobras gigantes... Seria como nascer e ser devorado, nascer e ser devorado, infinitamente. Mas que castigo, cara. MERDA! Isto aqui mais parece o Inferno... Onde será que está Satanás?
— O Inferno somos nós mesmos. Olhem para as mulheres, elas nos odeiam a todos. Só Tiago e Mário foram amados de verdade...
— Nossa! Eu vou me esconder numa caverna e dormir pela eternidade...
Mas, com o decorrer do tempo, os espectros de todos os soldados começaram a enfraquecer, ao ponto de não serem mais donos de seus movimentos. Além do mais, perderam a forma humana, encolheram, ficaram pequenininhos, e começaram a voar pelo ar com a força do vento. E esse vento foi mexendo com todos eles, levando-os para as colônias das cobras. Depois disso, um a um foram sugados pelos ventres férteis, prontos para procriar. Independentes da vontade de todos, os soldados nasceram dessas cobras, com dois braços minúsculos que não chegavam à boca, e com a cauda partida em duas partes.
Como Tiago, Mário e suas esposas faleceram muitos anos depois daqueles soldados, olharam para o fenômeno extraordinário com coração palpitante, pois eles seriam os últimos a encarnar. E as ideais do que fazer antes de nascer se sucederam uma a uma e acabaram por fazer planos para o futuro.
Mário falou atropeladamente, quase gritando:
— Temos que marcar o caminho para a montanha, cara. Vamos ter que fugir das planícies para não morrer na barriga das cobras gigantes, e desta vez vamos convidar a todos a irem conosco.
Nina perguntou:
— Será que agora, como almas errantes, conseguiremos levantar pedras e marcar uma rota?
Tiago completou a ideia:
— Ou quem sabe soprar sementes, que são leves... Isso... Vamos semear um caminho de frutas até as montanhas...
— Que boa sugestão, cara... Meninas, vamos todos trabalhar antes de nascer?
Fernanda gritou desta vez:
— Vamos! Eu quero procurar mudas de maçãs.
Tiago beijou-a docemente e lhe disse:
— No Oásis ainda existem sacolas com sementes de maçãs, de pêssegos, que você adora... E acho que no outro lado deste planeta deve haver muita coisa boa... Afinal, só conhecemos as montanhas...
Tiago se abraçou em Fernanda, e voaram perto do chão examinando a terra, dando uma volta completa nesse mundo, seguindo para o Oeste. Mário e Nina fizeram o mesmo rumando para o Norte em direção das geleiras eternas. Quando se encontraram novamente traziam entre as roupas sementes de caquis, ananás, graviolas, jacas, mangas, abacates, melancia, melão, e algo novo, a fruta do pão, que os macacos comiam encantados no meio do matagal. Das sacolas trazidas de seu mundo encontraram de tudo, mas o que os deixou mais felizes foram às uvas. Esse Oásis estava cheio de parreiras com cachos de uvas convertido em passas, torradas pelo Sol. Dava para fazer vinho, na próxima encarnação. E o que fez chorar as mulheres, as rosas vermelhas as havia aos milhares, como um manto mágico que crescia entre o verde das palmeiras, das tâmaras, plantadas pelos soldados antes de morrerem.
Enquanto os 4 amigos plantavam o caminho da fuga, os demais soldados nasciam naquele mundo com corpo de cobras e mente de homens, fenômeno que fez os bichos também sofrerem. As cobras fêmeas viam nascerem filhotes que gritavam escandalosamente e sugavam o leite das mamas com força incomum. Elas, é claro, respondiam com mordidas para soltar os seios sangrando com as mordidas dos pequenos. E os meninos, depois de muito apanhar, começaram a sugar com suavidade, aprendendo que ser filho de um animal era bem diferente do ser filho de uma mulher de verdade.
Mas, o pior momento na vida das serpentes aconteceu quando as mães levaram os “soldados encarnados” para as planícies, na época do cio. Ao anoitecer, todas as cobrinhas estavam de volta nos ninhos, chorando de fome. Não adiantou dar-lhes mordidas, pois desta vez elas também possuíam dentes, cujas dentadas impiedosas as faziam sofrerem.
E desconcertadas, as cobras fêmeas tiveram que entrar no cio com um filho que não soltava as tetas. Assim que novas cobrinhas nasceram, eles deixaram as mães em paz, para que não morressem de exaustão. Mesmo assim, os ninhos agora eram um amontoado de filhotes, que se empilhavam com medo quando chegava à escuridão da noite.
No dia em que 78 cobras fêmeas, e com inteligência humana, entraram no cio, houve a primeira matança de machos para disputar essas fêmeas, pois no reino animal a coisa era assim mesmo. Desta vez, existiam milhões de cobras machos ao redor desejando-as. A planície se encheu de cadáveres, na primeira guerra organizada pelos soldados encarnados, que morreram em massa. Sobraram apenas 78 deles, que namoram as guerreiras encarnadas, como quando eram humanos de verdade. Eles também as ajudaram nos partos, as respeitaram nos dias subsequentes, e à medida que as crias cresciam esses pais ajudavam os meninos a comer dando-lhes tudo na boca, ou os ensinavam a morder bananas, ou os incentivavam a comer frutas caídas no chão.
Quando chegou o dia em que Mário, Tiago e suas mulheres deviam encarnar, os quatro nasceram desses casais bem comportados. Depois os quatro amigos cresceram, ficaram adolescentes, e um dia invitaram as famílias a fugir. Formou-se então um grupo de mais ou menos 300 cobras entre adultos e crianças, os quais partiram rastejando em busca de um lugar despovoado. Rumaram para o antigo Oásis, e chegando lá, os adultos se espalharam entre as matas a namorar. Os filhos preferiram entrar no lago para se refrescar, enquanto as crias menores se perdiam, rastejando entre um milharal alto e florido.
Mas, a desgraça veio-lhes ao encontro, quando as cobras gigantes, cujo olfato alcançava longas distâncias, chegaram nesse Oásis de surpresa, abocanhando todo esse grupo de fugitivos. Os filhotes menores se salvaram milagrosamente, escondidos entre matas altas, enrolados nos galhos, olhando o horror de olhos arregalados.
Após a retirada das cobras gigantes, Tiago e Mário contemplaram as montanhas ao longe, e convidaram todos os sobreviventes a fazer a grande travessia. Além do mais, essa senda possuía frutos espalhados num caminho reto e sem fim, como um tapete multicolorido. Alastraram-se lentamente mordendo morangos, melancias abertas, e para dormir subiram nos coqueiros, cujos frutos pequenos pendiam em cascatas. Encontraram bananas aos milhares, maçãs suculentas, e algo estranho que parecia pão.
Finalmente, um dia chegaram ao vale por cima das montanhas, e o lugar mais belo desse planeta os recebeu. As antigas colheitas plantadas por Mário, Tiago e suas esposas haviam-se multiplicado, e uma selva fantástica com frutas, hortaliças e legumes se mostrava na frente deles como um paraíso encantado. Entre as árvores as flores multicoloridas completavam o visual, e borboletas e passarinhos voavam e cantavam enfeitiçando ainda mais o ambiente.
Imediatamente, Tiago e Mario foram tomados pela emoção. Embora a lembrança da vida anterior não estivesse nítida na mente deles, lá no fundo sabiam que esse lugar já lhes era conhecido. Suas namoradas recolheram frutas do chão e comeram com ânsia. Quando seus homens chegaram junto, entrelaçaram os corpos, para dar o primeiro beijo nesse novo mundo.
Tiago e Fernanda iniciaram uma vida em comum com felicidade e naturalidade, pois a forma alongada de seu corpo de cobra tinha várias vantagens. Entre as folhas fartas dessa mata exuberante manter a privacidade para se namorar eram fácil. As manchas do corpo os camuflavam, o vento mexia o vergel, e desta feita se amavam, sem falar nada, pois se comunicavam apenas com grunhidos. Desta maneira, viver trocando as línguas e os beijos era a melhor e mais deliciosa forma de passar o dia e a noite, pois o amor acontecia também dentro da caverna, ou nas águas da lagoa, ou nas encostas da montanha, onde havia caminhos com areias macias, e pequenos buracos nas rochas.
Mário e Nina se divertiam enquanto namoravam.
Mário adorava enrolar a cauda dupla, nos galhos das árvores, e se pendurar no ar, cabeça para baixo, como um palhaço. Nina ficava em pé, tentando o alcançar, e ele se esquivava, sempre tentando rir. Poderia se dizer que nesse vale encantado a atividade humana se reduziu, durante uma existência de 50 anos, a comer, dormir, fazer amor e ser feliz. Afinal, havia sempre uma fêmea para cada macho nascido, que após completar 10 anos de idade se acasalavam em relacionamentos eternos.
Nunca houve uma briga por causa de ciúmes, nem lance de infidelidade, nem casos de crimes, nada. As almas nascidas aprendiam na tenra idade que o amor era uma união indissolúvel, e que cada macho só tinha uma responsabilidade na vida, fazer feliz sua fêmea escolhida. Enquanto isso as mães ensinavam com gestos e mímicas as artes do amor, para as meninas, pois um marido muito amado e mimado virava escravo para toda uma vida.
No dia em que os quatro amigos morreram, foi de amor, e sem deixar nenhuma descendência, pois novamente Fernanda e Nina não tiveram filho algum. Os outros casais, pelo contrário, tiveram muitos filhotes, inundando de crias o vale da montanha.
Após a morte, já não eram os mesmos espectros humanos de antigamente, pois estavam com manchas na pele, olhos puxados, pescoço mais longo, pernas mais finas, e os homens haviam crescido deixando-os mais elegantes. Todos eles eram carecas. Riram em coro com as mudanças, e antes de tentar de novo a fuga desse mundo, foram espionar as outras colônias de cobras. Queriam ver seus antigos amigos soldados, e saber das experiências vividas por todos eles.
Mas, as barbaridades foram aparecendo como num pesadelo, pois a vida nas colônias das cobras havia se transformado num verdadeiro Inferno.
As brigas pelas fêmeas haviam se tornado uma rotina, pois o número de machos era em proporção de 300 homens para cada fêmea.
As serpentes gigantes de cem metros preferiam comer cadáveres desta vez, sem dar-se o trabalho de asfixiar as vítimas, pois as cobras se matavam entre si, todos os dias. A média de vida dessa população era de treze anos, cuja morte não acontecia de velhice, e muito menos de amor. Era por assassinato.
Mas, coisas piores estavam ocorrendo.
No meio do mato, encontraram um macho enrolado numa macaca bem pequenina, e ele não estava comendo-a, não. O macho estava estuprando-a sem piedade, enquanto a macaquinha berrava de maneira arrepiante. A manada de macacos, em meio a gritos apavorantes, lançava pedradas contra o monstro. Mas, a grossa pele de cobra era o suficientemente escorregadia para amortecer os golpes e as pedradas o excitava ainda mais. Quando a macaquinha morreu, a cobra enterrou os dentes no seu pescoço sugando o sangue como um vampiro sedento e depois dormiu enrolado numa árvore, satisfeito em todos os sentidos.
Mário lembrou-se de uma vez que fizera a mesma coisa com uma adolescente, durante a guerra, e caiu de joelho no chão, chorando desesperado, escondendo o rosto entre as mãos.
Tiago fizera mais ou menos igual, pois ele havia compartilhado várias mulheres com 20 soldados de seu pelotão, e uma delas morrera de hemorragia interna.
Já Nina foi uma mulher promíscua. Namorara com 10 homens num acampamento militar, enquanto faziam simulação de guerra. E jamais sentiu culpa nem vergonha por causa disso. Na verdade, ela adorou ter 100 maridos. Aliás, ela só seguira Mário nessa escapada, pois ficara enfeitiçada pela sua postura e masculinidade, e porque sua beleza era fora do comum. O amor que Mário despertou nela com passar do tempo foi algo totalmente inesperado.
Nesse instante, Fernanda era a única vítima de experiências passadas. Ela havia sido abusada por um amante de sua mãe, aos 15 anos, e sua mãe nunca denunciou o infeliz à polícia. Apenas levou-a para viver com sua avó para protegê-la. Quando foi assaltada por 100 homens naquele planeta, como se fosse um pedaço de carne sem alma, ela só queria morrer.
Enquanto os quatro se abraçavam chorando, e lembravam os horrores das vidas anteriores, um espírito, cuja luz cegava os olhos, chegou perto deles e os abraçou com doçura.
Mário perguntou-lhe:
— Quem é você?
— Anjo Miguel. Cheguei há pouco, com uma missão de 500.000 anos. Vamos conversar? Vamos fazer um trato de homem para homem?
— Nossa! Pensei que havia dito que era Anjo...
— E também sou homem. Minha esposa está perto daqui, espionando as cobras gigantes. Vamos eliminá-las para que as “Cobras Sapiens” evoluam e se multipliquem. Estamos precisando de ajuda. Nossa missão vai ser realizada no plano espiritual e necessitamos de alguém que trabalhe na vida material. Nós não podemos encarnar aqui, infelizmente.
— Fazendo o quê?
— Por enquanto, é bem pouca coisa. Nascer, levar os amigos para as montanhas e construir uma sociedade superior. Vamos cuidar para que sobrevivam e consigam fazer essa viagem em segurança.
Tiago falou cinicamente, com um leve sorriso na boca:
— Mas, já fizemos isso duas vezes...
— Mas desta vez vai ser diferente. Vocês não vão encarnar ao mesmo tempo das outras cobras, cuja encarnação acontecerá a cada duzentos anos. Além do que, existe um milhão de bichos para encarnar e evoluir, no ventre de apenas 78 mulheres com inteligência humana. Vocês quatro vão nascer novamente daqui a 150.000 anos, quando as “Cobras Sapiens” começarão a falar. Na encarnação seguinte, será após 30.000 anos quando inventarem os rabiscos nas paredes das cavernas. Depois vai ser de mil em mil anos, e finalmente de 300 em 300 anos, ou, 200, tudo vai depender da velocidade dos tempos civilizados...
— E até quando?
— Bem, até o dia em que este mundo se salve. Vocês devem pressupor que os assassinos desta terra vão se multiplicar, e no futuro vão inventar a bomba atômica pela segunda vez. Quer que eu continue explicando?
Mário interveio:
— Não precisa... E se tudo der certo, qual vai ser a nossa recompensa? Vamos para o paraíso eterno?
— Isso quem vai decidir é meu patrão, que se encontra no centro do Universo. Ele condecorará a todos por meio de estrelas, as quais marcará o mundo para o qual irão...
Fernanda perguntou assustada:
— Foi ELE que nos enviou para cá? Foi o dito Deus?
— Não... “Quem condena os homens são os próprios homens”. Um Comandante Estelar lhes deu o “Grande castigo cármico”, e o pior de todos, que é renascer de novo num animal, para começar tudo de novo. Além do que, esse Comandante Estelar salvou o planeta de vocês. O ar estava envenenado, vocês sabem disso e o planeta agonizava em meio ao aquecimento global.
Mário interveio:
— Mas nós éramos guerreiros sob as ordens de alguém. Tínhamos que obedecer aos generais, aos líderes que fizeram a guerra.
— E a palavra NÃO? Ela existe para ser usada. Obedecer a uma ordem de matar, numa guerra insana, que exterminou “8 bilhões de pessoas” não tem perdão. O crime contra toda a humanidade não tem absolvição. Não existe clemência para isso.
Como os quatro ficaram mudos de vergonha, o Anjo Miguel continuou a falar:
— Mas, sempre há exceções. Fernanda tem minha permissão para voltar. Minha esposa a acompanhará numa viagem de volta e nascerá novamente lá. Nossa! Esse mundo está ficando maravilhoso. Os extraterrestres levantaram uma cidade na selva, cuidaram das crianças sobreviventes, e lhes estão ensinando coisas fantásticas.
Tiago ficou petrificado.
Ele imaginou seu futuro com outras mulheres, promíscuas, péssimas mães, infiéis, briguentas, e fechou os olhos, pois pedir para Fernanda ficar nesse lugar era um castigo que ela não merecia.
Nina preferiu se abraçar com Fernanda chorando desesperada, pois nunca mais haveria de ter uma amiga de verdade.
Mário preferiu abraçar Tiago, pois ele estava a ponto de desmaiar.
Fernanda soltou-se do abraço de Nina, olhou para Tiago, cujos olhos estavam cheios de lágrimas, e caiu de joelhos frente ao Anjo chorando, e jurou que ela preferia se queimar no inferno a deixar Tiago, o único homem que lhe dera amor e felicidade.
O Anjo Miguel falou-lhe:
— Calma, calma!... Eu não vou fazer nada que vocês não queiram fazer. “O livre arbítrio” é a segunda lei do Carma, e ela é muito mais importante que as decisões de um Anjo!
Mário perguntou-lhe:
— E qual é a primeira?
— “A prática do amor”... E vocês já exercitaram bastante, sabiam? Por acaso gostariam de casar, pela eternidade das existências, vividas e morridas?
E em coro os quatro gritaram ao mesmo tempo: — “Queremos”.
Imediatamente, o Anjo os envolveu em uma luz rosada.
Em seguida, um laço prateado se enroscou nos corpos de Tiago e Fernanda fundindo seus espíritos num só. Enquanto isso, Mário e Nina passaram pelo mesmo fenômeno, cujos corpos pareciam ser de uma pessoa de quatro braços e quatro pernas. Quando a luz cor de rosa desapareceu, o Anjo os abraçou, deu parabéns aos recém-casados, e prometeu avisá-los da próxima encarnação. Como presente de casamento lhes deu o “amor cósmico”, quer dizer, poderiam namorar como espíritos.
Em seguida, o Anjo Miguel perdeu-se nas alturas e juntou-se a outro espírito luminoso, cujos cabelos, longos e loiros como o Sol, se agitavam no espaço. Era Francisca, a esposa de Miguel. E ela perguntou-lhe:
— Cadê a Fernanda?
— Preferiu comer capim e rastejar junto a seu homem... Igualzinho a você faz um bilhão de anos atrás...
— Então ela é das minhas... Vou cuidar dela, pessoalmente... Ah, as cobras de 100 metros estão mortinhas... Enviei-lhes um vírus mortal.
— Matadora! Temos umas férias de 150.000 anos. E agora desejo que me mate de amor... Onde gostaria de me torturar?
— Nos braços ardentes do Sol... E qual foi seu presente de casamento, meu amor?
— Dei nosso prazer para eles... Acha que fiz bem?
— Muito bem...
Miguel levantou sua capa, e envolveu seus corpos com ela. Parecia um casulo com duas cabeças grudadas num longo beijo. Em seguida, o casulo viajou como um cometa, para cair nas areias quentes do Sol.
Tiago e Fernanda rumaram para o Oeste, cuja geografia mostrava ilhas paradisíacas, pois queriam inaugurar o “Amor Cósmico” nas praias maravilhosas. Mário e Nina viajaram para o Sul, cujo continente gelado estava cheio de pinguins elegantes, focas, baleias gigantes, para fazer uma maratona aquática. Afinal, agora eram espíritos, que não sentem frio, nem calor.
E foi desta forma que os quatro amigos viveram durante 150.000 anos no mundo invisível. Desfrutando do prazer do namoro sem fim, que os envolvia como mágica divina. Ou, dançavam entre nuvens, abraçados, terminando com beijos ardentes.
Nunca mais seriam tão felizardos, durante tanto tempo.
De vez em quando, os quatro amigos se chamavam mutuamente, pois suas vozes cruzavam o espaço sem dificuldades, de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Os quatro passeavam pelo mundo fazendo corridas, competição de natação, de saltos, sempre rindo às gargalhadas.
O dia em que apareceu o Anjo Miguel com Francisca, os quatro souberam que a felicidade tinha começo, meio e fim. E ficaram esperando instruções, como quatro soldados que se preparam para ir à guerra.
Uma batalha diferente, que começaria assim que aspirassem seu primeiro sopro de vida.
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