De amor e de sangue. Primeira parte
12 A revolução
Notas iniciais
Os sacerdotes alegavam que os Deuses se comunicavam com eles através da oração. E que eles, como fiéis representantes dos Deuses, retransmitiam suas vontades para todos os homens. E nenhuma pessoa se aventurava mais subir a montanha sagrada, e tirar isso a limpo. Todos se perdiam no caminho, pois davam giros regressando sempre ao mesmo lugar de início.
Mas, com Nina ao seu lado, Mário saiu da cidade, e entrou no mato guiado pelas estrelas. Conduzia, enquanto Nina dormia. Quando acordava, Nina tomava o volante e ele dormia. Ao cair à noite, levantavam uma tenda na beirada do caminho, inflavam um colchão e deitavam para um descanso mais longo. Recolhiam frutas e legumes, que encontravam perto, Nina cozinhavam uma sopa no fogo, e tinha vezes que asavam batatas, aipim, ou faziam tortilhas entre as braças.
No dia em que se acabaram as trilhas, em meio à mata fechada, eles dispensaram o carro, colocaram mochila nas costas, e se adentraram na selva se guiando pelas estrelas. Ao anoitecer, dentro dessa barraca mínima, dormiam abraçados depois de muitas horas de beijos e chamegos.
De vez em quando, Mário subia numa árvore para espionar o horizonte, mas nunca ninguém respondeu aos seus sinais de luzes.
Finalmente, um dia chegaram ao muro.
Só que ele havia desaparecido. Desintegrado. Empreenderam a subida seguindo o caminho das bestas, contornando os morros, e depois de muitos descansos para recuperar o fôlego, atingiram o cume.
E receberam uma grande surpresa.
A civilização avançada, que um dia fora cheia de palácios exuberantes e um povo jeitoso, não existia mais. Deixaram para trás as matas, as lavouras, os pomares sem fim, com muitas espécies de bichos como donos absolutos de tudo aquilo.
O grande lago, com suas águas cristalinas esperava-os como uma mãe espera o filho. E caíram nele correndo, rindo, lembrando que fizeram isso, milhares de vezes, em outras encarnações.
Depois do banho levantaram acampamento mais uma vez e depois saíram a procura de tudo aquilo que a natureza estava lhes oferecendo. Descascaram bananas e comeram com gula. Em seguida colheram deliciosos tomates maduros, abacates, batatas e cenouras para o ensopado, verduras para saladas, e cozinharam numa fogueira na beira do lago como dois primitivos.
Dias depois, começaram examinar o que havia ficado naquele lugar.
No fim do vale, imponente e magnífica, estava à pirâmide de pedra sobre pedra, com inscrições externas e internas, onde funcionara a antiga Biblioteca. Desta vez, estava sem livros e sem estantes. Mas, havia inscrições nos muros com mensagens, nos dois idiomas, com algoritmos avançados para inventar coisas fantásticas. Um legado de conhecimento e sabedoria, cujo conteúdo só os gênios saberiam interpretar.
Onde é que eles estavam? Era um mistério, pois não deixaram endereço.
Choraram um pouco, com saudades.
Depois jantaram na beira do lago, dormiram olhando para as estrelas, e adormeceram tristes, pois onde quer que eles estivessem, estariam lá prontos para ajudá-los. Podiam estar soterrados embaixo da terra, no outro lado do planeta, ou, quem sabe numa cidade embaixo do mar. Só faltava saber onde, e como fazer contato.
Longe deles, Tiago e Fernanda olhavam com binóculos as ilhas, atônitos, pois elas também se encontravam desertas. Havia selvas cheias de frutas deliciosas, matagais de cevada, milho, soja, algodão, arroz, que cresciam selvagens, para o deleite dos animais. Nenhuma casa, nem edifício, nem barco, nenhum vestígio de que uma vez houve ali um povo evacuado. Nada. E o mais estranho, estava cheio de cavalos selvagens. Animais que haviam conquistado os homens das cidades, pois eles ajudavam na agricultura puxando carroças, e corriam em Hipódromos, onde os homens faziam apostas sobre o ganhador. Animais que a Paleontologia não sabia explicar sobre sua existência. Não havia consenso de que besta eles haviam evoluído.
Tiago e Fernanda terminaram por concluir que os homens da cordilheira arrastaram o povo para outros lugares mais seguros e longínquos, a formar outras culturas. Sociedades inteligentes, onde todos os homens eram iguais, e não havia idade para o amor. Afinal, apenas a quarta parte do planeta era conhecida. Não existiam as viagens ao redor do mundo, pois os sacerdotes predicavam nas igrejas que podiam naufragar, com a fúria dos “Deuses”.
E continuaram a navegar pelo mar. Um dia chegaram num pequeno continente, onde havia uma estação de turismo.
O barco deteve a viagem por dez dias e pernoitaram num hotel magnífico, em cujo lugar as suítes possuíam uma pequena piscina de água morna para banhos e uma sala de sauna a vapor para relaxamentos no fim do dia E ambos se apaixonaram pela Hospedaria.
Eram atendidos como príncipes, pois recebiam comidas na cama, lhes lavavam as roupas, e havia certa liberdade quanto aos horários do dia, a dia. Podia-se repousar o dia todo, sem ser criticado por vigários moralistas. Aliás, não havia nenhuma igreja nesse fim de mundo.
Fernanda pagou um ano adiantado para o hotel, e ficaram nesse paraíso isolado rolando sobre as areias, nadando nas ondas do mar, comendo frutas, mariscos crus, peixes na brasa, desobedecendo a todos os conselhos dos sacerdotes.
E, um dia regressaram para casa. E o reencontro de todos os amigos “recém-casados” foi agitado.
Augusto casara com Filomena, Fabiano com Eloísa, Carlos com Simone, e o resto dos amigos de infância estava em busca do amor, ou, com data marcada para o casório. Rosa e Reginaldo, com o trabalho de treinador, estavam “ricos”. E todos eram unânimes, queriam desfrutar do amor a toda hora, por longos e longos anos, deixando a maternidade para a velhice. Nina falou da vaginite, doença de todas as mulheres desse mundo, e começaram a fazer planos futuros. Vasectomia reversível nos homens, e cirurgia de reversão para as mulheres costuradas na infância. Sem dor com a relação amorosa, sem filho para separar os amantes, o amor eterno viraria vício entre os casados. Riam em coro. Iria ser a revolução do comportamento moralista que agitava esse mundo. Mas, tudo se faria escondido dos vigários, pois violar as Leis religiosas dava cadeia e morte. Não podiam esquecer-se desse detalhe.
Augusto foi o único que engravidou sua esposa durante a Lua de mel, pois Filomena era obediente aos aconselhamentos dos Sacerdotes. Ela seguia a risca os dias férteis, só para gerar filhos. Além do mais, ela chorava de dor. Com um barrigão de grávida, ela entrou na festa de amigos sem imaginar que essas amizades mudariam o destino de sua vida para sempre. Entre o grupo de amigas, Nina conseguiu persuadir Filomena a fazer cirurgia de reversão, pois poderia vir a sangrar no parto até morrer. Assustada, ela acabou aceitando.
Quem fez a cirurgia de Filomena foi Fernanda.
E foi assim que Filomena começou a ser feliz. Augusto abandonou as amantes, e depois do parto carregou o filho nos braços com orgulho. Fez vasectomia, pois desejava namorar com Filomena pela eternidade. Entre os amigos, ria às gargalhadas sobre o futuro, e nunca falou sobre as amantes. Seus primos Carlos e Fabiano eram monógamos fanáticos, e puxar briga com eles estava fora de questão.
A casa de Fernanda era na verdade uma mansão de 8 suítes, com salas de jogos, jardins internos, e o lugar de encontro do grupo. Todo fim de semana apareciam os amigos a comentar as últimas notícias da cidade. Eles invadiam o ambiente trazendo caixas de bebidas, salgadinhos para acompanhar, e havia vezes que Fernanda preparava comida para 100 pessoas. Sem jamais reclamar, pois tudo era alegria, e a riqueza de seu pai cobria qualquer gasto. Além do que, ele e sua mãe eram sempre os primeiros a chegar, trazendo pacotes de guloseimas e presentes lindos para ela. De vez em quando, um parente pobre de Tiago dava as caras. Geralmente a pedir favores. E Tiago lhes dava de tudo, roupas, dinheiro, e os encaminhava para o dentista ou a um médico quando doentes. E aos menores imediatamente os colocava numa escola em sistema de internato.
Marlene, como mãe de Fernanda, era nesta vida uma mulher consumista.
Adorava “comprar coisas”, entrava em lojas e escolhia sedas e brocados para fazer roupas lindas, comprava tapetes, almofadas, perfumes, acompanhada das outras filhas, que nunca se interessaram em estudar. Elas eram as mulheres mais bem-vestidas, perfumadas, e Marlene obrigava Fernanda a seguir o exemplo. E Fernanda era obediente. Perfumava-se, fazia penteados de princesa, vestia roupas maravilhosas, pois Tiago não resistia à miragem. Arrastava-a para um lugar ermo assim que ela aparecia em frente dele vestida de rainha. E namoravam até que alguém começava a procurar por eles.
E a vida nunca foi tão maravilhosa.
Todos concordavam que essa era a existência da felicidade. E enquanto suas esposas lhes preparavam verdadeiros banquetes, os homens pouco a pouco trocavam ideias revolucionárias. Havia que fazer um plano para iniciar as mudanças sociais, e as palavras eram sempre as primeiras peças de uma revolução. Os homens liam sobre liberdade e um dia tentavam fazer disso uma realidade. Só não sabiam ainda por onde começar a ser instigante.
Fabiano estava fazendo uma pesquisa sobre genética. Havia chegado a estatísticas interessantes, cujos dados apontavam que 99,2% dos gêneses das cobras e dos homens eram exatamente iguais. Escrevera um livro de 200 páginas sobre o assunto, mas o governo se negava autorizar sua publicação, pois tudo isso contrariava as crenças religiosas.
Carlos e Simone estavam escrevendo uma tese, que iria mudar o pensamento das pessoas. Todos ali eram unânimes que enquanto o povo acreditasse que tudo tinha “origem divina”, o sofrimento seria aceito como castigo. E a maior crueldade era fazer o povo crescer sem amor, pois a sensualidade tinha virado vilã. A juventude sequer sabia o que era dar um beijo, não dançava, faziam esportes com roupas que tampavam o corpo, pois mostrar as pernas também havia virado iniquidade. Agora, trabalhar de Sol a Sol, ser analfabeto, não ter onde dormir, morrer de fome, não ter acesso a uma saúde digna de um ser humano, não era crueldade, não. Os pobres pediam aos Deuses por “milagres” nas igrejas, em vez de pedir para o Rei Franco o fim da miséria, ou, maior liberdade para fazer amor.
E entre aleivosia e troca de informação, o mistério do desaparecimento da civilização da cordilheira, e dos homens das ilhas, começou também a ser analisada. Nos livros de História, se falava dos montes como a morada dos “Deuses”, e ninguém imaginava que esses Deuses fossem pessoas vivas. Todos achavam que eram espíritos protetores. Apenas isso. E Mário, que estivesse nessas alturas, estava a fim de escrever um livro, contando a verdade da vida nas montanhas, para mostrar à humanidade como funciona uma civilização superior. Um lugar da terra onde sempre, durante milênios, todos os homens foram iguais. Sem pobres e sem ricos, sem miseráveis e sem milionários. E ele ia mais longe, pois agora todos eram ricos. Comprariam uma impressora, e instalariam uma gráfica para imprimir folhas. Essas folhas podiam ser distribuídas nas ruas. Pronto.
Reginaldo chegou à conclusão de que todos seus amigos estavam loucos.
Assim que alguém publicasse, seja livro, seja o que fosse, iriam todos para o presídio, culpados de “heresia” ou coisa ainda pior. Seriam chicoteados, condenados à forca, como acontecera com uns amigos dele. Melhor era depor o Rei e depois divulgar teses de doutorado sem medo de perseguição. Além do que, tomar o Castelo, substituir o Rei Franco e tomar posse, não era tão difícil assim.
E essa ideia foi crescendo, amadurecendo, pois Abelardo assegurava que todos os homens ricos estavam cansados de pagar “taxas, impostos e juros” e eram tão escravos do poder tanto quanto os pobres. Quem sustentava hospitais e clínicas decentes eram os endinheirados. As boas escolas eram sustentadas pelos donos de Banco, donos de lojas comerciais, e pelos pais dos alunos, que pagavam caro pelo estudo. A “Escola pública para pobres” era uma piada, e o ensino era tão ruim, que os moleques desistiam do estudo aos milhares. Na verdade, o reinado não construía nada. Era apenas uma máquina administrativa sedenta de riquezas, e acabar com isso era o sonho de muita gente.
Escreveram-se listas de simpatizantes ao golpe, foram compradas espadas afiadas, guardadas em subterrâneos, e se prepararam para a luta. Mário, Reginaldo e Fabiano formaram um esquadrão de revolucionários, repartiram armas, deram instruções precisas, até chegar o dia em que só faltava escolher o sucessor do Rei Franco.
O nome de Augusto surgiu com aprovação geral, pois ele era inteligente, amoroso com todo mundo, caridoso, pois acompanhava Filomena para dar comida aos pobres, era simpático, carismático e sua esposa era a mulher mais bela, elegante, e mais rica da cidade. Conquistá-la havia sido um desafio. Cinquenta homens a disputavam desde a infância. Ele só levou vantagem porque o pai de Filomena era íntimo de Abelardo, da mesma forma que Augusto era primo de Carlos e Fabiano e amigo de infância de Tiago, Mário, e Reginaldo.
A tomada do Castelo, onde viviam o Rei Franco com sua esposa, seus conselheiros e uns 100 empregados, foi planejada com cuidado.
Reginaldo preparou a tropa de assalto, Fabiano, Mário e Tiago se prepararam na retaguarda contra os soldados que chegassem ao lugar, enquanto Carlos e Augusto incitariam o povo com gritos e desfile de ruas.
Abelardo organizou os amigos ricos, para apoiar os rebeldes e reconhecê-los no poder, assim que o golpe terminasse.
E numa noite só, a revolução aconteceu.
Reginaldo escalou os muros altos, como fez uma vez em outro muro no passado, numa outra civilização, com menos dificuldades. As pedras não escorregavam, e as cordas desta vez eram firmes, com ferros curvos nas pontas. Subiram até o cimo, desarmaram os vigias, cercaram os donos do poder, enquanto os demais amigos desarmavam os guardas.
Algumas pessoas morreram.
Soldados chegaram às pressas, armados de espada e de bestas. Os confrontos só pararam, quando Reginaldo saiu para a rua com o Rei enlaçado, e o obrigou a abdicar do poder, a viva voz. Os soldados se renderam, entregaram as armas, e por segurança, Tiago e Mário os levaram para a prisão.
O Rei Franco foi levado com a família para uma Ilha, com todos os seus assessores, a viver uma humilde vida de fazendeiro, e os empregados desse castelo enviados à procura de outro trabalho. O castelo ficou vazio, para que o novo governante ocupasse com honras.
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