De almas sinceras
3 Marco eterno, dominante
Notas iniciais
Londres, 2007
Jem Carstairs estava familiarizado com hospitais. Desde os doze anos de idade, mais ou menos, ele passava muito tempo neles – internações, cirurgias, visitas a amigos que compartilhavam de seu fardo. Ele até se acostumara com o cheiro asséptico e com as paredes bizarramente brancas do local, a ponto de mal notá-los.
Havia algo, porém, com o qual Jem não conseguia se acostumar: a dor no rosto das pessoas que iam visitá-lo. Felizmente, quando ele acordou e viu o rosto de Will pairando sobre seu leito, a expressão dele não era tanto de dor, e sim de preocupação e alívio. Preocupação era ruim e alívio fazia com que Jem quisesse atear fogo em alguma coisa, mas ambos ainda eram melhores que dor.
— Você acordou! – exclamou Will. – Finalmente. Eu estava começando a ficar preocupado.
Jem se sentou, tomando cuidado com o soro colocado em sua mão, e ergueu uma sobrancelha para ele.
— Começando a ficar preocupado? William, eu diria que você nem dormiu.
Era verdade: havia olheiras sob os olhos azuis de Will, e seu cabelo negro estava um desastre. Quando ele se endireitou e se espreguiçou, Jem teve certeza de ouvir a coluna dele estalando, reclamando depois de uma noite passada na cadeira no canto do quarto.
— Besteira. Você não tem permissão para se preocupar comigo agora.
Afinal, não fui eu quem acordou no meio da noite tossindo sangue. Embora Will não fosse dizê-lo, Jem sabia que era nisso que ele estava pensando. Na verdade, refletiu, não era de se estranhar que Will parecesse tão perturbado. Ele estivera dormindo ao lado de Jem quando o ataque de tosse começou, e fora ele quem precisara levá-lo às pressas para o hospital. Uma minúscula mancha de sangue ainda era visível na gola da camisa de pijama dele. Jem evitou olhar para ela.
— Eu vou ficar bem – insistiu. – Quer dizer, você ouviu o médico, certo?
Houve uma pequena hesitação antes da pergunta, a qual Jem torceu para Will não perceber. Na verdade, ele não se lembrava muito bem do que o médico havia dito; toda a noite anterior parecia meio borrada. Mas ele achava que lembrava de tê-lo ouvido dizer que o acesso de tosse fora só uma rápida crise, causada por uma gripe ou algo parecido. Entre outras coisas, uma doença hereditária rara tornava o sistema imunológico de Jem bastante ineficaz, de modo que qualquer resfriado podia alterar sua condição de forma que parecia mais grave do que realmente era.
Will, por sua vez, nunca parecia muito convencido pelas explicações médicas, e daquela vez não seria diferente.
— Eu sei, eu sei. Eu só... – Ele não concluiu a frase, optando por mudar de assunto ao invés disso. – Por sinal, eu deveria ir chamar alguém. Uma enfermeira ou sei lá. Avisar que você acordou.
— E descobrir quando eu vou ter alta – sugeriu Jem.
— É, isso também, mas acho que eles precisam de você consciente para isso.
Não demorou muito para Jem confirmar sua hipótese, ao menos em parte: a tosse fora apenas um resquício de um resfriado que ele pegara algumas semanas antes e que o deixara de cama por um longo tempo, durante o qual ele se recusara a ver um médico. Ele estaria liberado assim que assinasse todos os papéis.
Assim que a enfermeira deixou o quarto, Jem se pôs a repreender Will por ter se precipitado.
— Você não pode surtar e me trazer pro hospital sempre que eu tossir um pouco de sangue – observou ele. – Acontece o tempo todo. É consequência de se ter uma doença genética rara.
Ele esperava que Will ficasse irritado e desse início a uma discussão. Porém, ele apenas sacudiu a cabeça com ar reprovador. Talvez estivesse cansado demais para discutir. Ou aliviado, o que era pior.
— James, nós já falamos sobre isso. Você não pode simplesmente agradecer pela preocupação e deixar que eu cuide de você?
Com dificuldade por causa do soro, Jem se esticou até conseguir beijá-lo na bochecha.
— Obrigado – murmurou. – Vamos para casa.
***
Eles tinham acabado de terminar a faculdade quando Will sugerira que morassem juntos. Ele estivera tão nervoso na ocasião que Jem não tivera escolha senão rir; ele mesmo já havia pensando na possibilidade antes, e ficara mais do que feliz em concordar. A ideia deveria tê-lo deixado no mínimo hesitante, mas eles se conheciam desde os doze anos; Jem sabia que, se não estivesse seguro com Will, não estaria seguro com ninguém.
Alguns anos depois, o apartamento que dividiam havia se tornado uma bagunça familiar, e Jem suspirou com satisfação ao passar pela porta. Ele havia se familiarizado com hospitais, o que não queria dizer que gostasse deles. Sofrer com uma doença genética rara havia feito com que Jem se acostumasse a muitas coisas, mas ele apreciava pouquíssimas delas.
Ele se deixou cair no sofá, fingindo não sentir o olhar preocupado de Will sobre si ao perguntar:
— Bem, você está com fome? Comida de hospital é ruim e soro não enche barriga, então imaginei que a gente podia...
— Tudo bem – interrompeu Jem. – Eu não estou com fome. Só... Cansado.
Will assentiu, como se aquilo fizesse perfeito sentido; afinal, Jem estava quase sempre cansado.
— Ficar na cama assistindo filme? – sugeriu ele.
— Ficar na cama assistindo filme – concordou Jem.
Minutos depois, eles estavam encolhidos sob cobertores, discutindo sobre os filmes no catálogo da Netflix como se nada tivesse acontecido. Jem suspeitava que grande parte do que os mantinha juntos e sãos era sua capacidade de superar pequenas crises – de saúde, existenciais ou no relacionamento – com rapidez, e era grato por isso. Mesmo assim, quando o filme começou, ele não pôde deixar de notar que Will continuava lhe lançando olhares de esguelha. Sem se virar para encará-lo, Jem disse:
— O que foi?
A pergunta pareceu sobressaltar Will.
— O que foi o quê?
Com um suspiro, Jem pausou o filme.
— Will. Você está agindo como se eu fosse desaparecer a qualquer momento. Você não olha para mim assim há anos. A essa altura, você tem que saber que eu não vou a lugar nenhum.
Jem se arrependeu de ter tocado no assunto imediatamente. Ele tinha uma ideia do que Will poderia estar pensando, mas não estava preparado para o lampejo de dor que atravessou o rosto dele.
Ao invés de responder à pergunta diretamente, Will disse:
— Você está com raiva? Por eu ter insistido em ir ao hospital, quer dizer.
— Quê? Não – Jem franziu o cenho. – Eu só não quero que você se preocupe à toa.
Will exalou longamente, como se estivesse prendendo a respiração.
— Certo. Eu só... Você não pode ficar chateado comigo sempre que eu me preocupar com você, tá? Não é justo.
Jem pestanejou. Ele não entendia de onde aquilo estava saindo.
— Eu não fico.
— Ótimo. Porque eu me preocupo.
— Will, eu sei disso – Jem se apoiou nos cotovelos para poder encará-lo. – Qual o problema?
Quando Will estendeu uma mão, Jem a pegou por puro reflexo. Ele estava tremendo. Assim que ele tornou a falar, Jem soube que aquilo era algo em que ele passava muito tempo pensando pela forma ininterrupta como ele o disse, quase sem parar para respirar:
— Eu sei que você acha que seus acessos de tosse não são grande coisa, e na maioria das vezes não são, mas, toda vez que eu acordo no meio da noite e vejo você com sangue escorrendo pelo rosto e manchando o lençol, eu penso que essa pode ser a última vez, que pode ser isso, que o nosso tempo acabou – Ele fez uma pausa, sacudindo a cabeça. – E eu surto. Como eu poderia não surtar?
Pelo que pareceu um longo tempo, Jem apenas o encarou. Tudo que conseguiu dizer foi:
— Por que nós nunca falamos sobre isso antes?
Will riu, e o som fez o coração de Jem se partir.
— Porque não ajuda em nada. Não é bom pra moral. Você já tem coisa demais com que se preocupar.
Houve um longo momento de silêncio. Por fim, o olhar fixo nas mãos entrelaçadas dos dois, Jem disse:
— Eu não sou tão egoísta assim.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei – Ele deu um sorriso triste. – Você quis dizer que tem medo de ficar sozinho.
Will não respondeu imediatamente. Ele levou a mão de Jem aos lábios e fechou os olhos antes de corrigir:
— Eu tenho medo de perder você.
Certa vez, mais de dez anos atrás, Jem havia esbarrado em um menino atormentado por coisas que não conseguia explicar, que acordava gritando no meio da noite e que lhe implorara para não ir embora. Jem não saíra de perto dele desde então. Ele percebeu, sem surpresa, que o homem ao seu lado ainda tinha muito daquele menino dentro de si.
Mais porque era o que Will precisava ouvir do que porque era verdade, Jem disse:
— Você não vai me perder.
— Eu tenho medo de quem eu seria sem você – confessou Will, ainda de olhos fechados. Ele falava baixo, como se contasse um segredo. – Eu não acho que esse Will já tenha existido em algum lugar, em algum momento. Não lembro dele.
Jem sorriu. Com a mão livre, ele ergueu o queixo de Will, fazendo-o abrir os olhos, e beijou-o suavemente nos lábios.
— Você é um bom homem, Will – garantiu, porque era a única coisa que podia afirmar com certeza. E depois, porque desejava muito que fosse certo: — E eu não vou a lugar nenhum.
Contudo, naquela noite, Jem ficou acordado muito tempo depois de a respiração de Will ter se tornado regular e profunda. Ele tinha uma política de não permitir relógios nos cômodos do apartamento, mas ainda tinha a impressão de ouvir o barulho de um. Ele sabia que o tempo estava acabando.
***
Demorou um mês, mais do que Jem estava esperando. Dessa vez, ao acordar cuspindo sangue e sem fôlego, ele não discutiu quando Will quis levá-lo até o hospital mais próximo. Parecia que alguém havia ateado fogo em seus pulmões, e, pela quantidade de sangue expelida, dava para ver que algo estava errado.
Jem pediu para ver o médico sozinho, o que não fazia desde que era adolescente. O olhar magoado de Will não foi nada comparado ao diagnóstico. Dessa vez, não era apenas efeito colateral de um resfriado. Era uma infecção. Jem tivera várias infecções ao longo dos anos, mas nunca um pressentimento tão ruim com relação a nenhuma delas. Ele precisaria ficar internado por alguns dias.
— Quanto tempo? – perguntou. O médico apenas olhou para ele. Jem suspirou. – Obrigado. Pode pedir ao Will para entrar quando estiver saindo?
Will não fez nenhuma pergunta, apenas esperou que Jem lhe passasse as informações que desejasse.
— Eu vou ficar aqui por alguns dias – Foi tudo que Jem disse.
— Quer que eu vá buscar as suas coisas?
Jem assentiu. Ambos conheciam o procedimento padrão; já haviam passado por aquilo antes, repetidas vezes.
Will estava prestes a deixar o quarto quando se virou e disse:
— Você vai ficar bem.
Não era uma pergunta, e deveria ter sido. Aquilo não era um bom sinal. Jem forçou um sorriso.
— Até daqui a pouco.
***
Quando Will retornou ao hospital, Jem havia adormecido. Ele se sentou na poltrona ao lado da cama, decidido a ficar ali o máximo que pudesse. Não era que Jem não tivesse outras pessoas para acompanha-lo; era só que Will se recusava a deixá-lo e perder o pouco tempo que tinha ao seu lado.
Havia um livro aberto sobre o colo de Will, mas ele não estava prestando atenção nele. Ele estava distraído pela forma como Jem parecia frágil em meio a todos aqueles aparelhos, os cabelos claros espalhados sobre o travesseiro, o rosto encovado e amaciado por uma vida inteira na beira de um precipício. Ele parecia pelo menos cinco anos mais jovem, e, de certa forma, ele estava envelhecendo muito rápido.
Will o via em seus sonhos daquele jeito, às vezes. Quando isso acontecia, ele acordava assustado e procurava pela mão de Jem no escuro, para se certificar de que ele ainda estava ali. Se Jem acordava com o movimento súbito, costumava murmurar para ele voltar a dormir, sem saber do que se tratava a agitação, e Will nunca contara a ele. Jem nunca falava sobre sua doença e todas as consequências subentendidas dela, mas Will sabia que ele já sofria o suficiente sem ter que se preocupar com aquilo.
Eventualmente, o horário permitido para visitantes passou, e Will precisou ir embora. Ele não queria acordar Jem, então apenas se inclinou para tocar sua testa com os lábios suavemente.
— Fique comigo – sussurrou.
Apesar da intenção de Will, as pálpebras de Jem estremeceram.
— Volte a dormir, William – murmurou ele em resposta.
Will sorriu. Em seu peito, seu coração estava em pedaços.
— Até amanhã, James.
Ele só podia torcer para que o amanhã realmente chegasse.
***
O amanhã chegou, mas logo ficou claro que as próximas vezes em que isso aconteceria estavam contadas. Jem não explicara o que estava acontecendo, e o médico se mostrava evasivo sempre que Will perguntava a respeito, mas ele não era nenhum idiota. Ele sabia que alguma coisa estava errada pelas manchas escuras sob os olhos de Jem e pela forma como a voz dele ficava mais frágil à medida em que as tosses se tornavam mais frequentes.
Parte de Will estava irritada por Jem não ter compartilhado as informações médicas com ele, mas havia uma parte vergonhosa e culpada que estava agradecida, motivo pelo qual ele não o confrontou a respeito do assunto; a simples ideia de falar daquilo era insuportável. Ao invés disso, eles se ocupavam em fingir que nada fora do normal estava acontecendo, uma proeza difícil em um quarto de hospital, mas não impossível.
A primeira e última vez em que eles falaram sobre a nuvem negra que pairava sobre suas vidas foi, surpreendentemente, por causa de uma terceira pessoa.
Os pais de Jem haviam morrido havia muito tempo, mas ele formara uma pequena família de amigos e parentes distantes ao longo da vida, e todos eles haviam ido visitá-lo ao menos uma vez durante sua estadia no hospital. Quem aparecia com mais frequência era definitivamente Tessa Gray, a melhor amiga de Jem – sem contar Will, é claro. Ela e Will tinham um histórico, mas Jem nunca parecera se importar com isso.
Em uma das visitas de Tessa, Will foi até o final do corredor para buscar café, porque sabia que ela adorava. Ao voltar, um impulso fez com que ele parasse em frente à porta ainda fechada. Jem havia tomado uma dose forte de medicamentos naquele dia; sua voz dentro do quarto era quase inaudível, e sua fala, imprecisa, mas Will ainda conseguiu distinguir as palavras.
— ...Eu me preocupo com ele – Jem estava dizendo. – Eu não quero deixá-lo sozinho.
— Ele não vai estar sozinho – Essa era Tessa, calma e assertiva, a voz ligeiramente mais alta. – Ele ainda tem a nós.
O coração de Will deu um nó quando ele percebeu de quem eles estavam falando. Ele foi assaltado por uma onda de amor tão grande que precisou estender um braço para se apoiar na parede ao lado da porta, e notou que seus dedos estavam trêmulos.
Por um instante, ninguém disse mais nada. Will estava prestes a entrar no quarto e interromper a conversa quando Jem disse, em tom pensativo e distante:
— Se há alguma maneira de cuidar dele do outro lado, eu vou encontrá-la – Não era uma promessa; era apenas uma afirmação, um fato do qual ele estava certo. – Se existir um jeito, eu vou conseguir.
Ele fez uma pausa. Tessa disse:
— Jem...
Ela deixou a frase no ar. Pela sua voz, dava para saber que ela estava à beira das lágrimas. Will sentiu um nó na própria garganta em solidariedade.
Jem prosseguiu como se ela não tivesse falado.
— Mas , se não houver uma maneira, Tessa, eu preciso que você cuide dele por mim.
Tessa emitiu um ruído engasgado, como se ele tivesse acabado de esmagar seu coração. Will conhecia o sentimento. Ele mal conseguiu evitar derrubar o café.
— Pode me prometer isso, Tessa? – pediu Jem, suavemente. Depois de um momento, ela disse:
— Eu prometo. Jem, não fale assim...
— Ah, querida – Jem suspirou. Will se perguntou se os medicamentos o estavam fazendo soar tão desconectado da realidade, ou se era apenas a doença. – Você é uma menina de ouro, Theresa Gray, mas não pode parar o tempo.
Um momento depois, a porta do quarto se abriu subitamente, sobressaltando Will. Todo seu esforço para não derramar o café se tornou inútil quando Tessa jogou os braços em torno de seu pescoço, apertando-o contra si com força.
— Will, eu sinto tanto – murmurava ela sem parar.
Sem reação, Will não pôde fazer nada além de abraçá-la em resposta, mudo, se perguntando como ainda estava de pé. Tessa se afastou, segurando o rosto dele entre as mãos, e os dois se olharam em silêncio por um instante; então, ela se afastou apressadamente, os ombros sacudindo com soluços.
Will a observou até que ela desaparecesse na curva do corredor. Em seguida, passou um longo instante fitando o café derramado, tentando organizar os sentimentos e falhando miseravelmente, seu corpo inteiro gritando em negação de algo que ele nem sabia direito como definir. Quando desistiu de tentar racionalizar a sensação, ele se virou e entrou no quarto, meio esperando, meio temendo que Jem ainda estivesse consciente.
Ele estava. Quando Will se aproximou da cama, Jem lhe ofereceu um sorriso fraco.
— Oi.
Will pegou a mão dele. Estava fria, mas ele ainda conseguia sentir um pulso, e se agarrou a isso ferrenhamente.
— Oi.
Nenhum dos dois disse nada por um instante; parecia errado simplesmente jogar no ar a conversa que entreouvira, então Will esperou que Jem falasse primeiro. Demorou algum tempo, mas ele finalmente disse:
— Você ouviu tudo, não ouviu?
Will apenas assentiu. Ele não confiava na própria voz para falar muita coisa.
Jem soltou um longo suspiro. Não parecia irritado, mas talvez os medicamentos o deixassem leve demais para isso.
— Bem – Ele fez uma pausa. – Acho que você sabe tudo, então. Tudo o que tem para saber.
A frase parecia terrivelmente conclusiva. Will apertou a mão dele com mais força, na esperança de ancorá-lo.
— Eu não acredito – disse, com a voz fraca. – que você está preocupado comigo.
Apesar da situação, sorriso de Jem era despreocupado. Will sentiu as pernas fraquejarem. Se Jem fechasse os olhos naquele instante, ele não sabia se teria forças para evitar cair de joelhos e implorar para que ele os abrisse novamente.
— Eu estou sempre preocupado com você, William.
Will lembrou da conversa que os dois haviam tido semanas antes, quando confessara que estava com medo. Ao invés de tentar tranquilizar Jem, ele disse:
— Eu não sei como existir sem você.
— Você não vai precisar – garantiu Jem. – Se houver uma maneira de estar aqui, eu estarei aqui.
Em sua mente, Will ouviu o som do próprio coração se despedaçando, e, em seu peito, sentiu cada fragmento individual caindo no chão, um por um. Então é isso, pensou, vagamente. É isso. É assim que termina.
— E se não houver uma maneira? – perguntou ele.
Jem o puxou para um abraço desajeitado, de forma que a cabeça de Will encostasse em seu peito. Will conseguia ouvir os batimentos cardíacos dele, estáveis, mas fracos.
— Então, eu vou te encontrar do outro lado – respondeu, como se fosse a coisa mais simples do mundo. A voz dele era suave, tranquila. – Em qualquer lugar, em qualquer momento. Você não acha que é assim que as coisas vão ser?
Will fechou os olhos, sentindo o cheiro familiar de Jem, muito mais forte do que qualquer odor hospitalar.
— Eu sei que sim – murmurou. – Não importa o que aconteça, James Carstairs, eu sempre vou encontrar o caminho até você.
— Sempre – repetiu Jem. Dava para ouvir o sorriso na voz dele. Seus dedos brincavam com o cabelo de Will, um último toque íntimo e familiar. – Viu? Vai ficar tudo bem.
Will percebeu o exato momento em que Jem perdeu a consciência, mas um medo paralisante o impediu de se mover até que ele percebeu que os batimentos sob seu ouvido não haviam parado, e, portanto, seu próprio coração tinha permissão para voltar a bater.
Soltando a respiração, ele se levantou, desvencilhando-se de Jem cuidadosamente. Dessa vez, depois de beijá-lo na testa, Will não falou sobre o amanhã. Ao invés disso, ele disse:
— Eu te amo.
Naquela noite, Will não dormiu quase nada. O rosto pálido de Jem estava gravado no interior de suas pálpebras.
Ele não estava lá para vê-lo partir, mas soube imediatamente quando aconteceu.
Na manhã seguinte, Will tentou lembrar da conversa que tivera com Jem. Ele esperava que aquilo o ajudasse a ver as coisas sob outro ângulo: não o dia em que o amanhã não chegara, e sim o dia em que o amanhã fora adiado. O fato de ele não saber por quanto tempo não ajudava, e tampouco o peso de seu coração; Will sentia que tinha um mundo inteiro dentro do peito, arrastando-o para baixo.
Apesar disso, Jem Carstairs lhe dissera que o encontraria em qualquer lugar. Will sempre sabia quando Jem estava mentindo, e ele não mentira com relação àquilo. Assim, Will tinha o dever e o direito de tentar acreditar nele.
Ele pensou no que dissera a Jem. Eu não sei como existir sem você.
Agora, pelo menos por um tempo, ele teria que descobrir.
Will estava com medo.
***
Naquela noite, Will subiu até o telhado do prédio em que morara com Jem – a ideia de dormir na cama que dividira com ele fazia com que ele quisesse rastejar para fora da própria pele – e se deitou no concreto duro. O ar estava frio, mas ele mal sentiu. Ele se sentia desconectado do próprio corpo, um turbilhão de sentimentos incorpóreos que devorara a própria carne. Ele não queria de um corpo. Ele precisava apenas da alma.
De onde estava deitado, tudo o que Will conseguia ver eram as estrelas. Elas deveriam estar eclipsadas pela poluição da cidade, mas pareciam brilhantes o suficiente para Will enquanto ele se perguntava sobre vidas após a morte, reencarnação e quanta solidão alguém pode suportar antes que isso o mate.
Há uma maneira, James? Você pode me ver? Você está em algum lugar aí em cima?
Ele não chegou a nenhuma conclusão. As lágrimas começaram a encher seus olhos, e, pela primeira vez desde que conhecera James Carstairs, Will Herondale chorou sozinho.
Fale com o autor