De Repente, Amor
25 Capítulo 25
Bella’s POV
A manhã seguinte começou chuvosa. Só fui capaz de despertar às 9:50h da manhã pelo barulho que algumas gotas faziam contra a janela do meu quarto. Meu corpo ainda se assemelhava um pouco a gelatina mole, fazendo com que minha vontade de levantar da cama fosse nula.
Antes mesmo de checar, eu sabia que estava sozinha. O peso, o cheiro e o calor do corpo dele não estavam ali, eu podia sentir ainda de olhos fechados. Talvez porque eu começava a me acostumar com essas coisas, mas a ausência dele era imediatamente captada por algumas terminações nervosas no meu corpo, e então, inconscientemente, eu sabia que estava sozinha.
Me virei na cama, ainda com preguiça, e encontrei ao meu lado um papel com algumas palavras e uma chave. A curiosidade me despertou imediatamente, então peguei o papel e li a caligrafia perfeita de Edward:
Fui trabalhar. Não quis acordá-la.
Essa chave abre a porta da sala. Ela é sua.
Quer jantar comigo hoje à noite?
Te amo.
Edward
Meus olhos pararam na última frase, como se ali existisse algum significado oculto, como se quisesse entender o que exatamente ele quis dizer com aquilo.
“Te amo”.
“Amo”.
Reli aquelas duas palavras, imaginando as diferentes formas e entonações que ele daria à frase ao dizê-la. Imaginando as palavras saindo da boca dele, enquanto seus olhos me mostravam que aquilo era verdade.
Derreti como uma boba em cima do travesseiro, trazendo o papel perto do rosto e tentando sentir ali o perfume dele, parecendo uma pré-adolescente romântica e apaixonada pelo mais perfeito dos príncipes encantados.
- Eu também te amo. — Falei em voz baixa — Amo muito.
Me perguntei se teria coragem de dizer aquilo em voz alta se estivéssemos cara a cara, como uma resposta à declaração dele ao vivo e a cores. Confessar para mim mesma a mais óbvia das verdades era fácil, até porque não havia mais como tentar me convencer do contrário, mas confessar minha alma a ele era um pouco mais perigoso.
Mas não confessar o quanto eu o amava estava pesando. Não porque ele precisava saber, mas porque uma parte de mim queria gritar isso em plenos pulmões, como se de alguma forma eu pudesse me libertar da minha própria prisão. Infelizmente, a outra parte em mim me mantinha presa aos meus medos e incertezas, acreditando que a “revelação” — não tão surpreendente assim — seria demais para a boa vontade dele.
Eu ainda não era capaz de dizer a ele aquilo. E esse fato era desesperante. E o fato de que eu precisava deixar isso claro era ainda pior.
Me levantei ainda cambaleante, sentindo meu coração ferver com as palavras escritas por Edward e pelo seu voto de confiança. Eu sabia que ele estava receoso com minhas atitudes, e imaginava o quão difícil devia ter sido para ele me dar, de bandeja, a opção de deixá-lo ou não. Me perguntei se, caso eu fosse embora, ele iria atrás de mim.
Imaginei que sim. As palavras do dia em que ele me disse toda a verdade ainda estavam frescas na minha memória, e embora ele parecesse um pouco descompensado naquela ocasião, me pareceu estar sendo bastante verdadeiro e decidido. Então, se eu realmente fosse embora, não ficaria surpresa em tê-lo me perseguindo como algum tipo de predador.
Tomei um banho quente e revigorante. Como sempre, lembrei da noite anterior, mas dessa vez, tive que me ater um pouco mais aos detalhes. Da mesma forma que Edward havia sido o primeiro homem com o qual eu realmente havia sentido prazer, ele agora se tornara o primeiro a me tocar de uma forma tão íntima, e me dar conta disso era maravilhoso.
Me perguntei então no que mais ele seria o primeiro a partir de agora.
Preparei um café da manhã modesto, sem querer tirar muitas coisas do lugar. Como já eram 11:30h, comi pouco para que meu almoço não fosse prejudicado. Me perguntei então onde exatamente eu almoçaria, mas sabia que o resto daquele dia dependia do que eu estava prestes a fazer.
Mais nervosa do que eu gostaria de estar, peguei meu telefone e, com uma anotação na outra mão, disquei o número ali escrito.
- Alô?
No exato momento em que a voz de Edward atendeu no outro lado da linha, senti meu rosto ferver de repente, então eu sabia que devia estar vermelha como um tomate maduro. Tentei não pensar que minha vergonha tinha alguma coisa a ver com as lembranças da nossa noite íntima, porque isso, além de não fazer o menor sentido — já que eu não era nenhuma inocente virgem — fazia com que eu parecesse uma idiota.
- Oi... — Foi tudo que consegui responder.
- Bella?
- É, sou eu.
- O que aconteceu? — Ele perguntou, em um tom de voz preocupado.
- Nada. Está tudo bem... — Enquanto eu falava, sentia meu rosto ferver cada vez mais, e então senti ódio de mim mesma por ser tão incrivelmente imatura — Desculpa te atrapalhar...
- Não está atrapalhando.
- Eu só queria falar com Victoria.
Edward ficou em silêncio, ponderando minhas palavras.
- Victoria?
- É...
- Quer falar com ela? Sobre o quê?
- Bom... É um assunto de mulher... — Respondi, já sentindo a tensão contrair os músculos do meu pescoço.
- Ah... — Ele parecia pensativo, talvez se perguntando qual tipo de assunto feminino eu teria com sua secretária e melhor amiga que, aliás, não gostava de mim — Só um minuto.
Não precisei esperar tanto. Quase imediatamente, do outro lado da linha, uma voz feminina me respondeu.
- Alô?
- Oi Victoria. É a Bella. Desculpe te incomodar, sinto muito, mas eu preciso da sua ajuda. Pensei que talvez nós pudéssemos almoçar juntas, se você não tiver alguma coisa melhor pra fazer, é claro.
Então era assim? Quando eu ficava nervosa com Victoria, agia como uma perfeita tagarela. Quando era Edward quem me deixava nervosa, eu ficava muda.
Minha total falta de sentido começava a me irritar profundamente.
- Ahm...
- É sobre Edward. Preciso de uma opinião sua.
Ela pareceu ponderar.
- Bom, não sei se posso ir. Eu tenho só uma hora de almoço...
Ouvi a voz de Edward ao fundo interrompê-la, dizendo algo incompreensível.
- Tudo bem, posso ir. Meu chefe é muito generoso, você sabe.
Sorri discretamente com a brincadeira dela, principalmente porque ela havia feito uma brincadeira comigo, algo que jamais pensei que fosse acontecer.
- Que ótimo... Podemos nos encontrar em algum restaurante perto da casa de Edward? Eu não conheço nada aqui... — Falei, tentando parecer descontraída e à vontade ao mesmo tempo, mas com as mãos fechadas em punho com tanta força que os nós em meus dedos já estavam dormentes.
- Anote o endereço.
Alcancei rapidamente o papel dobrado em cima do criado mudo e uma caneta, anotando o número e a rua que Victoria me passava.
- Fica a quinze minutos daí. Às 13:30h está bom pra você?
- Está ótimo.
- Certo. Vou anotar seu número dessa ligação. Até lá então.
- Até.
Ouvi quase que imediatamente a voz de Edward na linha, dizendo um “alô” um pouco apressado.
- Ainda estou aqui. — Falei, sorrindo.
- Bom, agora que você e minha secretária andam de segredos pelas minhas costas, tenho motivos pra me preocupar?
- Não. Você ficaria grisalho à toa.
- Tudo bem, vou tentar esquecer a curiosidade mórbida que está me corroendo agora. — Ele falou, dando uma risada discreta, mas suficientemente alta para que eu me sentisse mais aquecida e feliz — Leu meu bilhete?
Senti meu coração acelerar repentinamente.
- Li...
- Então... Janta comigo?
- Ah, sim... Claro.
- Que bom! — Ele falou, parecendo genuinamente feliz com minha resposta — Passo em casa às 20:30h pra te pegar, vou ficar esperando no carro. Tudo bem?
- Tudo bem. Devo vestir um vestido longo pra ocasião?
Outra vez, ele riu. Outra vez, sorri me sentindo aquecida, e de repente senti um desejo idiota de beijar o telefone.
- Pode se vestir como achar melhor. Acho que um sobretudo quente é o suficiente.
- Ok...
- Até mais então. Um beijo.
- Um... beijo. — A frase saiu mais como um suspiro, e outra vez desejei não agir como idiota quando estivesse falando com ele.
Felizmente, ele não pareceu perceber que minha sanidade estava se desfazendo como algodão doce. No segundo seguinte, o telefone ficou mudo, me informando de que Edward tinha coisas mais importantes a fazer além de me esperar resolver desligar.
Desdobrei distraidamente o papel usado para anotar o endereço do restaurante sugerido por Victoria, e me dei conta de que aquele era o bilhete daquela manhã. Passei o olho mais uma vez pela última frase do papel, e como se não estivesse sozinha, falei em uma voz muito baixa, apenas para sentir a sensação boa das palavras se desprendendo da garganta.
- A propósito: Eu também te amo.
…
Eu pegaria um ônibus se soubesse qual linha me deixaria mais próxima ao endereço anotado. Como esse não era o caso, pedi para que o porteiro chamasse um taxi para mim, e então eu já esperava Victoria em uma mesa para duas pessoas. Embora o lugar fosse ainda bastante elegante — o que eu vinha aceitando com mais frequência, já que nada naquelas redondezas poderia ser barato — parecia ser menos caro do que os dois restaurantes em que já estivera com Edward antes.
Ela chegou pontualmente no horário marcado. Me sentindo mais intimidada do que desejava, tentei parecer o mais alheia possível à sua presença, mas pareci mais um pinto acuado do que qualquer outra coisa.
- Oi... — Comecei, me levantando assim que ela me alcançou. — Obrigada por fazer isso.
- Tudo bem.
- Acho que temos que almoçar logo, já que você tem que voltar...
- Edward me deixou demorar o tempo necessário.
Encarei-a espantada por nunca ter imaginado um chefe tão compreensivo nele.
Como se pudesse ler meus pensamentos, ela se apressou em falar:
- Não pense que ele é sempre assim. É claro que sair com você teve algo a ver com o surto de bondade. Ou isso, ou então é o espírito do Natal.
Ri outra vez, o que pareceu surpreendê-la um pouco, mas ela não foi rude em momento algum. Era claro que não deixaria de lado as formalidades entre nós, já que sequer nos conhecíamos — além do fato de ela não ir com a minha cara — mas eu podia jurar que Victoria estava se esforçando para ser o mais cordial possível comigo.
O restaurante em que nós estávamos era especializado em massas, onde todos os pratos pareciam deliciosos. Como não conhecia o tempero da casa, segui a sugestão dada por ela. Enquanto esperávamos os pratos, me senti obrigada a iniciar o assunto, já que podia notar sua preocupação disfarçada. Então lembrei de que, embora tivesse falado que o assunto era sobre Edward, eu não havia dado mais detalhe algum. Talvez ela estivesse achando que eu planejava matá-lo ou coisa assim.
- É algo simples, acho que eu nem precisava ter tirado você do trabalho... — Comecei, me dando conta pela primeira vez de que havia a atrapalhado à toa e imediatamente corando por isso — Eu só preciso de uma opinião sua sobre o que dar de Natal pra ele.
Ela sorriu despreocupadamente, enquanto olhava para cima.
- Você me tirou de lá pra me perguntar isso? Realmente, não precisava.
Senti meu rosto ferver de vergonha.
- Não, não quis dizer dessa forma! — Ela se apressou em dizer, vendo que eu provavelmente parecia agora um morango gigante — O que eu quis dizer foi que você não precisava ter pedido a minha opinião nisso. Compre qualquer coisa, ele vai adorar.
- Ele gosta de tudo que dão a ele? — Perguntei, me sentindo um pouco menos mal.
- Não. Ele odeia tudo que dão a ele. Nunca acertei um presente sequer. Mas se você der um dvd sobre técnicas de meditação hindu, ele vai adorar.
Me perguntei se era exagero o fato de Victoria frisar meu nome toda vez que se referia a Edward, mas achei melhor não verbalizar a dúvida.
- Ahm... Eu queria dar algo que ele realmente gostasse.
- Como disse, não posso ajudá-la nisso. Eu mesma nunca acertei.
- Ele não está precisando de nada?
Me senti idiota antes mesmo de terminar a frase. Era óbvio que Edward não precisava de nada, porque se precisasse, providenciaria. Ele era o tipo de pessoa que podia se dar a esse luxo.
- Não. — Ela respondeu minha pergunta quase retórica, e agradeci em silêncio por Victoria não rir da minha cara.
- Não sei... O que você vai dar pro seu marido?
Outra vez o arrependimento chegou em mim como um soco mal dado, então imediatamente me odiei por pronunciar aquelas palavras. Victoria me fitou nos olhos, e desejei profundamente que ela não pensasse que eu estava comparando, de alguma maneira, a relação que eu tinha com Edward com a que ela tinha com seu marido.
- Eu não quis dizer... — Comecei, desesperada, mas Victoria me interrompeu.
- Posso te pedir uma coisa? — E sem esperar uma resposta minha, ela continuou — Tente relaxar perto de mim. Seu desconforto está me dando agonia. Eu não mordo, e não estou aqui pra julgar cada palavra que sair da sua boca. Como você vai entender algum dia, eu não sou uma pessoa dada a pré-conceitos.
Não era como se eu pudesse escolher entre ficar ou não nervosa perto dela. Eu simplesmente ficava. Como não consegui fazer o que ela pediu e me acalmar, só me restou continuar encarando-a, esperando que fôssemos interrompidas por qualquer coisa, fosse pelo garçom ou por uma chuva de meteoros em chamas.
Felizmente, fui presenteada com a primeira opção, então ficamos em silêncio por algum tempo, ambas compenetradas em seus próprios pratos. Vez ou outra, Victoria sugeria alguma coisa, mas logo em seguida refutava sua própria idéia, dizendo que “não, talvez outra coisa”. Me senti um pouco mais calma com a rapidez que ela parecia ter esquecido do assunto em questão.
Não chegamos a conclusão alguma. Mesmo que estivesse esperando alguma ajuda por parte dela, não fiquei irritada ou decepcionada. Já que agora eu sabia que agradar Edward era uma tarefa difícil, não poderia culpá-la por isso.
Depois de algum tempo debatendo opções — mais um monólogo de Victoria do que um diálogo dela comigo — saímos do restaurante e caminhamos um pouco por algumas ruas. Embora não tivéssemos muitos assuntos a serem discutidos, fiquei feliz por notar que ambas estavam se esforçando para que aquilo não se tornasse algo desagradável. Como imaginei que grande parte do tempo que passaria com Victoria seria preenchida com um silêncio desagradável, as poucas palavras trocadas entre nós conseguiram me deixar mais animada do que pensei que ficaria.
Chegamos a um edifício imponente, e quando olhei para Victoria notei que ela havia nos guiado para lá.
- Onde estamos?
- Em um shopping.
Não parecia um shopping do lado de fora, mas foi ao entrar que notei a grande variedade de lojas. A diferença desse lugar para o que eu estivera com Edward havia poucos dias era que, aqui, eu não me surpeenderia se visse algum tipo de faixa na entrada com os dizeres "Só entre se tiver muito dinheiro".
- Edward me disse que você prometeu a ele que algum dia compraria as roupas que ele queria.
Aquele calculista!
- Ele te mandou me trazer aqui?
- Não. Mas me pediu pra que te ajudasse. Só, pelo amor de Deus, não me diga que vou ter que escolher lingeries ou coisas do tipo.
Ela fechou os olhos tentando afastar o pensamento, e eu tive que rir com sua reação.
- Não... Ele só quer comprar roupas caras. Queria entender essa tara por gastar...
- Não é tara, acredite. Ele não é consumista, e nem um pouco materialista. Edward só tem a mania de querer cuidar em excesso das mulheres que ele gosta. Por isso parece um pouco obcecado às vezes.
- Ele fazia isso com ela?
Victoria me olhou surpresa.
- “Ela”?
- Lauren.
- Você sabe dela?
- Sei. ele me contou, há algum tempo atrás.
Ela suspirou.
- Sim, ele fazia isso com ela.
Ela desviou o olhar, e eu fiz o mesmo. Estava claro que Victoria também não gostava de Lauren, e estava claro que tinha motivos para isso.
- Bom... — Comecei, querendo mudar o assunto — Não posso comprar nada aqui, nem que eu quisesse. Acho que vou acabar gastando quase tudo o que tenho no presente dele.
- Ah, sim... — Ela falou, se lembrando de alguma coisa e mexendo em sua bolsa. Quando tirou sua carteira e a abriu, me entregou um cartão e um papel pequeno. — Edward pediu para que eu entregasse isso a você. A senha está anotada nesse papel.
- Eu ganhei um cartão de crédito?
- Ele pediu pra que tudo que você comprasse fosse pago nesse cartão.
- Não vou usar isso. Eu só quero comprar um presente pra ele.
- Se você voltar sem nada eu corro o risco de ser demitida.
Olhei-a espantada.
- Isso é sério?
- Bom, não. Mas ele vai mesmo ficar irritado.
Suspirei.
Como não tinha nada em mente, aceitei olhar algumas lojas de roupas femininas enquanto tentava ter alguma idéia do que dar a Edward. Era bastante difícil pensar em alguma coisa, já que o presente em questão deveria ser dado a alguém que realmente já tinha de tudo.
Victoria parecia me manipular a comprar coisas, dizendo que ela mesma precisava de roupas, mas só não saindo das lojas de mãos vazias porque carregava algumas das minhas sacolas. Comprei vestidos mais elegantes — me perguntando qual seria a maldita ocasião em que iria usá-los — além de alguns pares de sapatos, duas bolsas e mais casacos para o inverno. Jurei para mim mesma que xingaria Edward até a morte quando o encontrasse.
- Isso é ridículo. — Concluí.
- Isso é exatamente como Edward é. — Disse Victoria, pagando ela mesma as compras com o cartão que agora era meu — Qualquer uma na sua posição aproveitaria a situação com um sorriso de orelha a orelha. Pelo menos eu aproveitaria.
Eu sabia disso, mas não deixaria claro a ela que o motivo pelo qual eu não aproveitava a situação se dava pelo meu desconforto em, mais uma vez, parecer uma usurpadora ao lado de Edward. Além disso, tínhamos todo um passado que envolvia gastos dele comigo, e talvez por algum trauma ou fosse o que fosse, vê-lo gastar rios de dinheiro por minha causa como se eu fosse seu fardo era um pouco humilhante.
- Isso já é o suficiente. Se ele disser que eu deveria ter comprado mais coisas, vou fazê-lo engolir um desses sapatos.
Victoria riu despreocupada, e sempre que ela fazia isso eu me sentia automaticamente mais leve.
- Você age de uma forma diferente da que eu pensei que agiria.
Achei melhor não tentar entender o que ela quis dizer com aquilo. Como parecia não ser algo ruim, deixei para lá, me focando agora na primeira loja que vi à minha frente.
Era uma relojoaria exclusiva para homens. Olhei interrogativamente para Victoria, como se pedisse um consentimento.
- Já disse que pode comprar qualquer coisa. E não estou exagerando quando digo isso.
Entramos no lugar, analisando cada um dos relógios nas prateleiras de vidro. A variedade de modelos era tão grande que dificultou o processo de seleção. Me foquei então em apenas uma parte da prateleira lateral, decidida a sair dali com alguma coisa.
Quando finalmente nós duas chegamos a um consenso sobre qual daqueles modelos era o mais interessante (mesmo não sendo o presente ideal), me dirigi à vendedora lhe informando da escolha. Quando fui pagar, Victoria me estendeu o maldito cartão para que eu o pegasse.
- Não vou pagar com o cartão dele. — Falei, olhando debilmente para suas mãos.
- O cartão é seu. E Edward disse...
- Eu falo com ele depois. Vou deixar claro que a culpa disso foi minha. Desculpe, mas não tem o menor cabimento pagar o presente dele com esse cartão.
Ela parecia concordar, mesmo calada.
Finalmente, paguei o presente — com o meu dinheiro, não o dele — e me vi perto da falência. Victoria tentou me animar, dizendo que havia sido uma ótima escolha e que ele adoraria, mas ainda assim me sentia um pouco insegura quanto àquilo.
- Vamos ver se agora ele chega na hora certa ao trabalho. — Ela falou, bem humorada, então notei na gradual e discreta mudança de atitude dela quanto a mim. Se no dia em que nos conhecemos Victoria parecia duvidosa a meu respeito, hoje sua simplicidade em falar comigo e me acompanhar me diziam que, talvez, ela não me odiasse como eu pensava.
Sorri de volta, e queria que ela entendesse a gratidão que eu sentia naquele momento.
- Acho que você precisa ir embora agora. — Ela disse, olhando no relógio — Se bem me lembro, você tem um encontro hoje.
- Que horas são?
- 19:30h
- Merda! — Falei, ajeitando as sacolas que caíam dos meus ombros e já fazendo sinal para um táxi que passava e que não parou.
- Eu estou de carro. Te dou uma carona.
- Ah... Obrigada. Não vou atrapalhar?
- Não. É caminho pra onde eu vou.
Seguimos andando para o lugar onde o carro dela estava estacionado — Victoria caminhando e eu quase correndo. Joguei tudo no banco traseiro, com exceção do relógio que se mantinha bem embrulhado e protegido no meu colo, e sentei no banco do carona.
O percurso de volta à casa de Edward foi mais silencioso do que qualquer momento que passei com Victoria aquela tarde. Ela parecia pensar muito, e eu não quis interromper, nem para agradecer pela companhia. Assim que deixei de prestar atenção, nós chegamos ao meu destino.
Ela saltou do carro, me ajudando com as compras e com as várias combinações de posições das alças. Quando finalmente consegui ficar de pé, sem o cabelo nos olhos e com as sacolas temporariamente firmes, me voltei para ela.
- Muito obrigada por fazer isso comigo. E desculpe se atrapalhei seu trabalho.
- Bom, na verdade você atrapalhou o trabalho de Edward. Ele teve que se virar sem mim. — Ela falou, com um sorriso maléfico no canto da boca — Não se surpreenda se ele estiver com dor de cabeça ou de mau humor.
- Tudo bem. — Falei, retribuindo o sorriso, mesmo sabendo que não era para mim — Vou me desculpar com ele depois. Obrigada mais uma vez.
Ela continuou me olhando, e notei que sua expressão começou a tomar um ar extremamente sério aos poucos. Inconscientemente, me senti ameaçada, então virei-me para entrar no prédio rápido demais, mas a fuga não seria fácil.
- Bella?
Parei no quarto degrau e olhei de volta para Victoria, ao lado do carro estacionado. O tom sério que vi em seus olhos misturado com uma insegurança inédita foi o suficiente para me fazer ter certeza de que suas próximas palavras, fossem elas quais fossem, mostrariam que ela não estava brincando.
- Não o magoe. Ele não aguentaria.
Não era uma ameaça. Era um pedido, e por mais que sua voz soasse firme, isso ficou bastante claro. Victoria não estava dando um aviso, mas sim mostrando, sem máscara alguma, um medo que eu não vira antes. Medo de ver seu melhor amigo sangrar outra vez.
- Não vou fazer isso.
Minha voz saiu séria, firme, como há algum tempo eu não ouvia. Mas não me surpreendi, porque essa era uma certeza tão absoluta que não havia como hesitar. Ainda assim, me perguntei se Victoria podia sentir isso.
Ela continuou me olhando com aqueles olhos azuis sérios, mas ao mesmo tempo inseguros, fazendo uma análise completa do meu caráter. Eu não ficaria surpresa se soubesse que ela tinha poderes psíquicos ou coisa parecida. Era impressionante a intensidade que seus olhos transmitiam, e se eu tivesse alguma dúvida do que sentia, poderia até ficar intimidada.
Mas eu não estava.
- Por algum motivo, eu acredito em você.
Nossos olhos ainda mantinham contato, mas Victoria pareceu se dar conta de que não havia qualquer traço de mentira em mim. Então pela primeira vez desde que a conheci, pude sentir nela algum tipo de cumplicidade. E, para piorar, eu não sabia explicar como ou por que sentia isso, mas sabia que era uma sensação suficientemente forte para não conseguir ignorá-la.
Quando me dei conta, Victoria já havia entrado no carro e dado a partida, sumindo pela rua comprida e gelada à minha frente.
…
Demorei algum tempo para conseguir parar de pensar na atitude de Victoria, mas tive que fazê-lo porque já estava atrasada. O relógio agora marcava 20:10, e não só eu ainda não tinha tomado banho, como também não sabia qual roupa usaria ou como me prepararia para aquela noite. Embora Edward e eu estivéssemos nos entendendo aos poucos, a convivência entre nós dois ainda não tinha se tornado tão simples como acontecia com a maioria dos casais. E pensar nele e em mim como um casal, embora me deixasse radiante, ainda me fazia ficar nervosa.
Tomei um banho rápido, indo contra minha vontade de demorar debaixo da água quente e me perfumar bastante para ele. Mas, como meu tempo era curto e a última coisa que eu queria era mostrá-lo que eu não era pontual, me apressei em fazer tudo. Assim, em menos de vinte minutos eu já estava de banho tomado, cabelos penteados, uma maquiagem tão discreta que poderia passar desapercebida e vestida propriamente para a temperatura invernal do lado de fora. Queria ter me produzido mais, mas isso significaria fazê-lo esperar. Por isso, desci às 20:34h, já esbaforida, usando um guarda-roupas todo novo: calça jeans skinny simples, botas pretas de cano longo por cima dela, uma blusa vermelha fina de lã com gola em “v” e um sobretudo preto bastante quente e fofo.
Antes de descer, contudo, me certifiquei de tirar todas as etiquetas das roupas que eu nunca havia usado, além de dar uma rápida olhada no espelho grande que ficava dentro do closet do quarto de Edward.
Me surpreendi comigo mesma. Eu não estava um espetáculo aos olhos masculinos, mas estava bonita. Não linda, mas bela, de uma forma simples. Minha expressão parecia mais viva, meus olhos não estavam tão tristes. Meus lábios, sem batom, estavam até mais cheios de cor, e então me perguntei se aquilo tudo tinha a ver com meu novo estado de espírito.
Era óbvio que tinha.
Segui para a garagem procurando por ele, mas sua vaga estava vazia. Caminhei depressa para o enorme saguão de entrada do prédio, tanto para chegar rápido quanto para me aquecer. Alcancei as escadas que davam para a calçada e fui quase nocauteada por um vento estupidamente gelado, mas antes que pudesse pensar, avistei um Volvo prata apagado e parado um pouco a direita. Quando me virei para encará-lo, os faróis piscaram para mim, avisando que aquele era o carro certo.
Minha pulsação, para variar, começou a acelerar. Antes, eu não estava acostumada a sentir isso toda vez que me via prestes a me aproximar de alguém, mas ultimamente me sentir mais adolescente estava se tornando um hábito. Eu não podia evitar, era involuntário: Sempre que me dava conta de que Edward estava a menos de dez metros de mim, meu coração insistia em querer sair pela boca. Era assim mesmo.
Cruzei os braços no peito para me proteger do frio e corri até ele. A porta do carona se abriu para mim, então no segundo seguinte eu já estava sentada e trancada no interior do carro junto com ele.
Fiquei encarando o painel luminoso do Volvo à minha frente como uma imbecil. Eu sabia que ele me olhava sem nem tentar disfarçar, o que estava fazendo com que meu rosto ficasse mais e mais quente a cada segundo decorrido.
- Você está vermelha. — Sua voz saiu em um tom divertido.
- Estou? — Me fiz de burra, ainda sem tirar os olhos do painel.
- Está com vergonha?
Edward estava prestes a gargalhar na minha cara, eu podia sentir sem nem mesmo precisar olhá-lo. Me convenci de que, se ele o fizesse, teria toda a razão: Eu era patética, e ficar sem jeito de encará-lo só porque nossa noite juntos havia sido um pouco “diferente” era tão lamentável que me envergonhava até de sentir vergonha. E o pior de tudo era que eu tinha quase certeza de que ele sabia que esse era o motivo.
- Já disse que você fica linda envergonhada? — Ele falou ainda se divertindo com minha falta de resposta, então deu a partida no carro e nos colocou em movimento na estrada.
- Obrigada. — Foi o que consegui dizer. Tê-lo frisando o fato de que eu estava sem graça só fazia com que eu sentisse mais vergonha, mas eu bem sabia que ele adorava fazer isso.
O trajeto foi curto e silencioso. Não perguntei a Edward para onde iríamos ou como havia sido seu dia, mas ele pareceu não se importar, embora eu tivesse certeza de que se desse a ele uma oportunidade de conversar comigo, ele falaria durante todo o percurso.
Depois de algum tempo, chegamos em um restaurante bem iluminado e pequeno, com uma decoração discreta e clara. O garçom nos guiou até uma pequena mesa para duas pessoas, nos entregando o cardápio e se retirando assim que pedimos bebidas, para que ficássemos à vontade.
Retirei o sobretudo e deixei-o no meu colo. Edward parecia acompanhar cada movimento que eu fazia, o que me deixava cada vez mais nervosa e me fazia corar violentamente sem nenhum motivo. Ele pareceu prestar ainda mais atenção na minha blusa, então lembrei de como ele gostava de ver essa cor em mim.
- Está com fome?
- Na verdade, não. Desculpa. Eu não costumo jantar, você sabe...
- Eu sei. Também não estou com fome.
Ele me olhava com ternura e cansaço, e a cada segundo eu me sentia mais derretida por aquele olhar.
- Então... — Ele começou — Vai me dizer o que você e minha secretária estão tramando?
Sorri com a idéia de um Edward curioso.
- Você vai saber em poucos dias. — Assegurei-o — Mas não precisa se preocupar, não vou mais tirá-la de perto de você.
- Bom, contanto que ela não comece a tirar você de perto de mim...
Eu poderia informá-lo de que nada nem ninguém eram importantes o suficiente para conseguir me tirar dele, mas preferi ser objetiva.
- Ela não vai fazer isso.
- Promete? Nem se ela te chamar pra um fondue e eu estiver doente e com febre na cama? — Ele falou, inventando qualquer situação mirabolante e fazendo cara de cachorro abandonado.
Edward, meu querido. Tudo o que eu mais quero é ficar sozinha agarrada com você em uma cama.
- Prometo.
Ele sorriu. Um sorriso lindo, lindo, mas cansado.
- Não devíamos ter vindo. Eu poderia preparar alguma coisa na sua casa...
- Na nossa casa.
- … pro jantar. Você parece precisar descansar. — Tentei não pensar no que ele disse.
- O dia foi longo. Victoria realmente me salva todos os dias. Eu percebo isso quando tenho que lidar com as coisas sem ela por um dia só.
- Devíamos ter deixado pra outro dia.
- Não, eu preciso falar com você hoje.
Então era disso que se tratava o “jantar”?
- Poderíamos ter conversado em casa.
- Não, não poderíamos. — Ele parou aí, então me perguntei se não poderíamos porque ele dormiria assim que chegasse em casa ou porque, até hoje, não conseguimos fazer nada além de sexo em praticamente todo o tempo que estivemos sozinhos. Dada sua aparência de exaustão, eu acreditava na primeira opção, mas o jeito como ele me encarava teimava em me fazer pensar o contrário.
- Ok... O que foi?
Ele suspirou, se endireitando na cadeira e entrelaçando as mãos em cima da mesa.
- Bom... Você sabe que dia é hoje?
- Sei.
- Então sabe que estamos perto do Natal.
Ah. O Natal.
Um arrepio percorreu minha espinha, mas não estremeci.
- Você sabe que o Natal é, tradicionalmente, uma festa em família.
- Sei... — Não foi uma pergunta, mas ainda assim eu respondi.
- E você entende que... Bem, eu tenho que passar o Natal com a minha. Já não os vejo durante o ano todo...
Edward me fitava com olhos cautelosos, como se estivesse abordando um assunto muito delicado.
Mas eu entendia.
- Eles devem sentir a sua falta. Sim, você tem que ir.
Ele continuou me olhando, agora um pouco em dúvida.
- Então... Tudo bem por você?
- Claro. — Eu disse, aparentando mais segurança do que realmente havia em mim, e sentindo minhas palavras de compreensão distanciando-o ainda mais. Mesmo assim, não era uma opção pedir para que ele ficasse. Eu não era a pessoa mais altruísta do mundo, mas também não era tão egoísta a ponto de tentar fazê-lo ficar só porque eu precisava dele.
Edward sorriu abertamente, ainda me encarando, e então, como se fizesse isso todo dia, ele estendeu sua mão e tocou a minha, também em cima da mesa. O ato havia sido instintivo, eu podia imaginar, mas seu toque ainda tinha aquele cuidado que mantínhamos entre nós. Seus dedos tocavam com muita delicadeza as costas da minha mão, e o caminho trilhado era seguido por um certo formigamento um pouco quente.
Fiquei imóvel, apreciando o toque.
- Eu pensei que você não fosse aceitar. Obrigado.
Eu não tinha o que aceitar ou deixar de aceitar. Era a vida dele, e eu não tinha o direito de me meter nisso.
- Não me agradeça por isso. — Falei, sem graça, acompanhando com o olhar os caminhos que o dedo dele ainda fazia na minha pele.
- Eu te agradeço por tudo. — Voltei meus olhos para os seus e vi que ele estava sério — Eu sei que você ainda tem mágoas comigo...
Eu não queria falar sobre aquilo. Era verdade, eu tinha mágoas, muitas mágoas guardadas. Mas aquele não era o momento de voltar ao passado e lembrar do que me machucou ou deixou de me machucar. Não quando eu tinha decidido deixar de lado minhas dúvidas. Não quando ele estava me tocando.
- Você vai amanhã? — Perguntei, querendo desviar a conversa para outro caminho. Um caminho menos difícil de lidar.
Ele continuou me olhando por algum tempo, sem dizer nada. Me perguntei se ele tinha ouvido, ou se tinha entendido a pergunta.
- Por que você insiste em se excluir de todas as sentenças que me incluem?
- Como? — Perguntei, confusa.
- Nós vamos amanhã.
Permaneci encarando-o, sem realmente processar a informação.
Nesse momento, o garçom voltou trazendo nossas bebidas e o couvert. Edward agradeceu e o dispensou, voltando-se para mim outra vez, ainda na mesma posição.
- Você entendeu que você viria junto quando disse que visitaria minha família, não é?
Eu não havia exatamente considerado essa possibilidade. Embora já tivesse pensado nela, aquilo foi mais um desejo do que qualquer outra coisa. Estava fora de questão Edward querer me levar para conhecer sua família. Para começar, porque só estávamos juntos havia alguns dias — menos de uma semana para ser exata.
Tossi de forma suave para limpar a garganta, tentando parecer normal.
- Eu não tinha entendido...
- Bom, você entendeu agora, certo? Eu vou, e você vai comigo.
Eu queria que ele me convidasse a acompanhá-lo. Na verdade, queria muito, porque isso significava muitas coisas. Primeiro, que eu não teria que me afastar dele, temendo pela minha própria saúde. Segundo, que eu conheceria mais sobre a vida de Edward e as pessoas que fazem parte dela. Terceiro, porque vê-lo querer minha companhia fazia com que eu pensasse que era importante.
E esse pensamento crescia a cada dia. E, junto com ele, crescia também meu ânimo, minha alegria, e muitas outras coisas boas escondidas tão fundo dentro de mim que pareciam não existir mais.
- Vou tentar comprar as passagens amanhã de manhã pro vôo das 23h. Creio que seja um pouco mais de dez horas de viagem, então às 9h da manhã, mais ou menos, chegamos a Londres.
- Lon... dres?
- Londres. Meus pais moram lá.
Ok. Eu passaria o Natal com Edward. Em Londres. Com a família dele.
Tinha como ficar mais apavorada e feliz?
- Eu não... Eu...
Eu não sabia o que dizer. Mas sabia que tinha que dizer alguma coisa, porque da forma que Edward me olhava, eu provavelmente parecia estar muito perto de uma crise de pânico.
Seus dedos, antes trilhando suavemente as costas da minha mão, agora se fecharam nela como se me pedissem confiança. Olhei novamente para a mão dele, agora cobrindo a minha de forma delicada mas firme, e por mais simples que aquele ato fosse, eu queria memorizar cada pequeno detalhe dele.
- Não precisa se preocupar. Eu vou ficar por perto o tempo todo.
Fitei seus olhos rapidamente, minha reação sendo mais rápida do que a capacidade de bloquear o pensamento que surgiu em minha mente como um raio. Eu não queria pensar naquilo, não queria ter lembrado, mas Deus estava sendo cruel comigo outra vez.
Foi o que você disse da última vez.
Eu sabia que não tinha falado em voz alta. Sabia que havia conseguido guardar aquela demonstração de rancor para mim mesma, e agradeci em silêncio por conseguir fazê-lo. Eu não queria jogar aquilo na cara dele, como se lembrá-lo do que ele fez fosse me fazer sentir melhor. Ainda assim, pela simples mudança em sua expressão e seus olhos, eu pude notar que, mesmo sem a minha ajuda, Edward pensou exatamente na mesma coisa que eu.
- Eu prometo... — Sua voz saiu fraca. Seus olhos vacilaram, como se ele estivesse profundamente envergonhado pela lembrança, e no segundo seguinte senti sua mão se afastar da minha.
Eu queria dizer que acreditava nele. Queria dizer que sabia que ele cuidaria de mim, e que não deixaria que ninguém soubesse do nosso segredo. Queria dizer que sabia que ele se empenharia em me deixar à vontade com sua família, talvez até me fazendo sentir parte dela, mas, acima de tudo, queria que ele voltasse a me tocar.
Sem pensar, me inclinei um pouco para frente e alcancei sua mão, com um pouco mais de força do que desejava. Envolvi meus dedos nela, apertando com vontade sua pele e me acalmando um pouco ao sentir, novamente, o contato entre nós dois.
Era curioso como o toque dele me acalmava em certos momentos, e em outros me acendia. Mas eu não queria filosofar sobre aquilo.
Edward pareceu se iluminar um pouco com meu ato, e eu sabia o porquê. Era a primeira vez que a atitude de procurá-lo, de diminuir a distância entre nós, havia partido de mim e não dele. Era a primeira vez que eu não esperava passivamente pelas suas decisões, e principalmente, era a primeira vez que eu demonstrava o que sentia por ele.
- Me fala sobre a sua família.
Os papéis haviam se invertido. Agora, era eu quem tentava passar confiança a ele. Era eu quem tentava conseguir dele alguma reação, alguma interação, mas ele, diferentemente de mim, me deu o que eu pedia.
Edward falou das pessoas que eu conheceria. Contou que cada um deles estavam espalhados pelo mundo, representando e tomando conta, em diferentes países, das empresas de seu pai. Pelo que ele deu a entender, passaríamos o Natal em uma festa pequena que incluía seus pais, uma irmã e seu marido, um irmão solteiro e nós dois, o que me fez ficar animada com o fato de que não haveria uma enorme quantidade de pessoas para me julgar como a mais nova biscate caça-fortunas da família.
Enquanto ele falava, seus dedos voltaram a passear de forma suave pela minha mão, correndo pelas costas dela em pontos especificamente agradáveis, pela palma em círculos perfeitos, chegando ao pulso e parte interna do meu antebraço. Eu estava atenta a tudo que ele dizia, mas seu toque começou a tirar minha concentração assim que aceitei tomar uma (e só uma!) taça de algum vinho escolhido por ele.
Não entendia o motivo daquilo, porque seus movimentos não eram fortes ou insinuantes. Era óbvio que grande parte daquelas sensações me assolavam por causa do pouco de vinho ingerido, suficiente para fazer com que eu me "soltasse", mas era como se Edward remetesse ao ato de fazer amor através de simples toques, estimulando cada nó dos meus dedos, cada fio desencapado por baixo da minha pele, desenhando metodicamente em mim formas estranhas mas, ao mesmo tempo, incrivelmente sensuais.
Comecei a sentir uma excitação crescente, e me dei conta de que tudo o que ele havia feito se resumia a tocar na porra da minha mão.
Cheguei à conclusão de que estava mais perdida do que imaginava.
…
Era um pouco antes das 23h quando finalmente chegamos ao apartamento dele. Durante todo o percurso do restaurante até o prédio, não deixei de pensar um segundo sequer em como diabos Edward havia conseguido, com um carinho inocente na mão, me deixar completamente acesa de uma forma que ele mesmo parecia não saber. Fitei-o pelo canto do olho cada vez que parávamos em um cruzamento, encontrando-o descansando a cabeça no encosto de seu assento com os olhos fechados, então me dei conta de que ele devia estar realmente exausto e nem um pouco interessado em sexo aquela noite.
Merda.
- Primeiro as damas.
Entrei no apartamento escuro, tateando em busca do interruptor. Edward o encontrou primeiro, acendendo as luzes e evitando que eu desse com o nariz na parede. Caminhei para o quarto onde estavam minhas coisas e ele me seguiu.
- Você não tem outras malas, né? — Ele perguntou, olhando para as várias bolsas e sacolas deixadas no canto do quarto.
- Não.
- Te empresto algumas minhas.
Ele disse isso enquanto tirava o sobretudo despreocupadamente, bocejando sem perceber e ficando, ao mesmo tempo, fofo e gostoso, algo que eu jamais achei ser possível. Continuei encarando-o como uma ninfomaníaca no cio, desejando mais do que tudo que aqueles dedos estivessem me tocando agora em lugares muito mais íntimos do que antes.
- Banho. — Ele disse enquanto apontava com o dedo para seu quarto, aparentemente muito cansado para formular uma frase completa. Assisti o pedaço de mau caminho sair do meu quarto e caminhar pelo corredor enquanto tentava manter os olhos abertos. Como, Deus, ele conseguia ser tão... tão... ele?
E o que estava acontecendo comigo, afinal de contas? Desde quando eu era dada a explodir em hormônios perto de um homem? Está certo, não era “um homem”, era ele. Mas mesmo assim, aquele simples toque, da forma polida e educada como foi, não devia ser o suficiente para ter me deixado em chamas.
Eu estava com muito calor.
- Ei! — Falei, alcançando-o em seu quarto antes que ele entrasse no banho — Posso usar aquela camisa?
- Ela é sua. Fica mesmo muito melhor em você.
Ele estava sem camisa, apenas de calça social, recolhendo uma calça e um casaco de moletom para vestir depois.
Gostoso.
Ele entrou no banheiro, encostando a porta atrás de si. Voltei ao meu quarto e tirei todos os agasalhos, vestindo a camisa que era minha agora. Escovei os dentes e me olhei no espelho por algum tempo, na dúvida se tentaria seduzir Edward ou se o deixaria descansar. Sem chegar à conclusão alguma, joguei um pouco de água no rosto e voltei para o quarto dele. As paredes e objetos rodavam um pouco à minha volta, o que constatei ser o efeito do álcool no meu organismo desacostumado, mas não me importei.
A porta do banheiro ainda estava encostada. Fui tomada por uma mistura de sensações — um pouco de curiosidade e muito de promiscuidade — então sem nem me dar conta, já estava dentro do enorme banheiro de azulejos brancos e pretos.
Edward não notou minha presença. Eu lembrava que o box era espelhado por dentro, fazendo com que quem estivesse dentro dele não enxergasse nada além de seu próprio reflexo, por isso só tive que tomar cuidado em não fazer nenhum tipo de ruído.
Sentei muito quieta na tampa fechada do vaso sanitário, abraçando minhas pernas enquanto me encolhia em cima dele e apoiava o queixo nos joelhos, pela primeira vez admirando Edward de verdade.
Ele era lindo. Não lindo do tipo “claro que dormiria com ele”, mas sim do tipo “por favor, por favor, me coma”. Tudo nele — cada músculo, cada sinal, cada pêlo — era milimetricamente perfeito, e o efeito da água e do vapor naquela cena, juntamente com a percentagem de álcool que passeava pela minha corrente sanguínea, fazia com que ele parecesse um sonho. Um sonho erótico.
Gostoso!
Observei cada movimento, como se quisesse decorá-los. Seus dedos passeando em seus cabelos, suas mãos ensaboando seu peito, costas, barriga... Descendo... Descendo mais...
Deus!
O pescoço, a linha do maxilar, ombros, braços, mãos... Barriga, costas, coxas... Que inferno, os joelhos dele conseguiam ser bonitos! E durante todo esse tempo, eu permaneci quieta, imóvel, apenas admirando-o.
Senti uma dor no joelho esquerdo, então me dei conta de que estava me mordendo. Ignorei.
O chuveiro foi desligado. Esse era o momento de me levantar às pressas e dar uma de Bella, pisando no azulejo molhado pelo vapor e dar com os dentes na bancada. Mas por algum motivo obscuro, me mantive ali, ainda imóvel, ainda mordendo meu joelho, que começaria a sangrar em algum momento.
Edward abriu o box para puxar a toalha do segurador, se deparando com uma voyeur de joelho esfolado sentada no seu vaso sanitário feito uma imbecil.
- Opa!
Ele pareceu surpreso, mas não desesperado em se cobrir. Aliás, ele não se cobriu, simplesmente alcançando a toalha e se secando como se estivesse perfeitamente sozinho. Isso significava que eu ainda estava vendo — e encarando — tudo: Cada lindo e glorioso centímetro.
Gostoso! GOSTOSO!
- Sabia que isso dá cadeia em alguns lugares do mundo? — Ele começou.
- Estamos quites agora.
Ele demorou um pouco, mas finalmente pareceu lembrar da ocasião a qual eu me referia.
- Eu não entrei no seu banheiro. — Falou, abrindo um sorriso simples e dando dois passos em minha direção — Você que saiu nua toda serelepe pro quarto sem prestar atenção.
- Mesmo assim... — Respondi, vendo-o dar mais alguns passos lentos.
- Não. O que você fez foi muito pior. Agora eu estou em desvantagem.
Ele deixou a frase solta no ar, como se não tivesse intenção em explicar o que queria dizer. Eu também não fazia questão de entrar em explicações, porque ele estava parado à minha frente, deliciosamente nu — que Deus o abençoe — ainda úmido e quente do banho escaldante recém tomado, e na altura perfeita...
Ou ele estava muito cansado e lento, ou eu fui rápida demais. Por impulso, segurei com firmeza seu membro, já não muito relaxado, e coloquei-o por inteiro dentro da boca, sentindo o perfume do sabonete caro e a maciez da pele dele, ainda não enrijecida completamente. Mas não levou muito tempo até que já não conseguisse acomodá-lo completamente lá dentro. Ele havia crescido bastante, então tive que relaxar a garganta para fazê-lo entrar um pouco mais.
A toalha caiu no chão ao seu lado, então senti suas mãos pousarem na minha cabeça delicadamente. Puxei-o mais para perto de mim, agarrando-o por trás, e em pouco tempo pude sentir suas pernas tremerem mais do que eu estava acostumada a sentir. Lembrei que isso devia ser consequência de seu cansaço, mas só pude torcer para que ele se mantivesse de pé, porque eu não ia parar.
Eu não queria parar.
Mesmo lutando para se controlar, os movimentos de Edward foram ficando cada vez mais bruscos, agora investindo ele mesmo contra minha boca. Seus dedos ainda seguravam meus cabelos de forma gentil, deixando claro que ele não queria me machucar.
Levantei o rosto, olhando-o pela primeira vez. Ele me encarava com mais intensidade do que nunca, e no momento em que seus olhos encontraram os meus, senti uma vontade insana de beijá-lo.
- Você vai tirar essa blusa ou quer que eu rasgue?
Na verdade, eu queria que ele rasgasse. É claro que me arrependeria depois, porque estava começando a amar aquela camisa, mas adorei o pensamento de Edward tirando minha roupa de forma selvagem e me possuindo com toda a fúria animalesca que existia dentro dele.
Álcool realmente fazia com que eu virasse uma depravada.
Ignorei o fogo que me consumia agora com mais força, e tentando acelerar as coisas antes que ele mudasse de idéia, me afastei um pouco e comecei a desabotoar minha camisa. Queria fazer aquilo rápido, mas como estava um pouco tonta e nervosa, meus dedos só conseguiram se livrar do primeiro botão depois de algum tempo.
Fui socorrida por Edward em questão de segundos. Obviamente vendo meu estado deplorável, ele me levantou e trabalhou nos botões com uma rapidez fantástica, me desnorteando com um beijo intenso e molhado. Fechei os olhos, deixando que ele terminasse o serviço e simplesmente acabasse comigo.
- Devo levar em consideração seu estado alterado e parar por aqui? — Ele perguntou ofegante em meu ouvido, e tudo o que podia sentir eram suas mãos passeando pelo meu corpo de forma faminta.
- Se você não me comer agora, juro que te capo com os dentes enquanto você dorme!
Ele soltou uma gargalhada sonora e forçou minhas pernas a se enlaçarem em seus quadris. No segundo seguinte, já estávamos dentro do box. Edward me sentou no banco de mármore que havia ali, seguindo todo o comprimento da parede lateral, e se ajoelhou à minha frente enquanto deixava suas mãos deslizarem pelas minhas coxas.
- Quer saber como foi meu dia hoje?
Eu não queria saber. Por mais que adorasse ouvi-lo conversando banalidades comigo, por mais que me importasse com ele, naquele momento eu só queria que ele calasse a boca e se enfiasse dentro de mim com tudo.
Mas eu não respondi, então ele continuou.
- Meu dia foi difícil. — Ele falou, e então me beijou novamente — Tive que fazer muita força pra não ir com Victoria ver você. — Outro beijo — E acabei saindo mais cedo da empresa do que queria, porque estava ansioso pra te ver, então tive que ficar esperando até que você resolvesse descer. — Lambidas no meu pescoço — E tudo porque eu não consegui parar de pensar nessa coisa linda que você tem entre as pernas. — Ele parou nos meus seios — E no seu gosto. — Mordidas na minha barriga.
Eu já ofegava como se estivesse me afogando no meu próprio desejo, agarrada aos cabelos molhados de Edward e escorregando pelo azulejo molhado como mel.
- Sabe o que eu acho? — Ele falou, finalmente sentando em seus calcanhares e abrindo com força minhas pernas — Acho que vou precisar fazer isso todo dia, pra que você não sinta mais vergonha de mim.
Isso, Edward. Acaba comigo de uma vez.
Senti sua língua quente me invadir de repente, e soltei um gemido de prazer que se tornou ainda mais alto pelo eco do banheiro. Ele me pegou pelos quadris com força e me puxou mais para perto de si, posicionando estrategicamente meus pés em seus ombros.
Estava tentando me controlar, porque sabia que no momento em que baixasse a guarda, meu orgasmo chegaria. Por isso, a idéia de olhar para Edward não foi nada inteligente. A cada lambida que ele dava, se demorava um pouco parado me olhando como um leão olha para um javali fresco temperado com barbecue, um sorriso torto assassino nos lábios e o contentamento de uma criança de dez anos ao se dar conta de que podia voar.
Ele estava tão compenetrado que não notou quando mordeu meu clitóris com mais força do que devia, me provocando uma pequena e momentânea dor.
- Ai! — Eu pulei para longe dele, dando um puxão rápido e violento em seus cabelos para afastar seu rosto de mim — Não faz isso!
Só então notei que havia sido rude, e de novo culpei o álcool pelo meu comportamento não habitual. Edward pareceu um pouco chocado com a forma como eu falei e com a agressão física, mas seus olhos pareciam brilhar com alguma coisa.
- Desculpa... — Ele deu um beijo simples e fofo no lugar onde havia me machucado, ainda me fitando nos olhos — O que quer que eu faça?
- Que me chupe direito.
A resposta saiu objetiva, outra vez rude e ditadora. Os olhos dele brilharam mais, seu semblante quase se transformando em um sorriso. No segundo seguinte, ele me tocou novamente com a ponta de sua língua, testando com cuidado os pontos onde eu reagia mais aos seus estímulos.
- Assim está bom?
Eu havia perdido algum detalhe ou Edward realmente parecia gostar que eu mandasse nele?
- Mais forte.
Ele obedeceu imediatamente, pressionando com mais força sua língua contra minha entrada e arrancando gemidos engasgados da minha garganta. Por algum tempo, me deixei aproveitar aquela sensação — provavelmente a melhor sensação do mundo — mas assim que senti meu orgasmo se aproximar, o interrompi.
- Pára!
Ele parou, encostando o rosto em uma de minhas coxas e me encarando com curiosidade, como se esperasse pela próxima instrução. Trabalhei um pouco minha respiração, tornando-a menos inconstante, então falei outra vez.
- Sobe aqui.
Ele se levantou rapidamente em seus joelhos assim que tirou minhas pernas de seus ombros e as colocou com delicadeza no chão. Seu rosto ficou quase da mesma altura que o meu agora, seu corpo inclinado para mim e sua boca muito próxima a minha enquanto seus olhos me olhavam com submissão e amor, seu membro incrivelmente rígido para quem não estava sendo estimulado de forma alguma.
Ora, ora. Então o poderoso Edward também gostava de ser dominado.
Tudo bem, meu querido. Eu posso passar minha vida inteira te dominando.
Suspirei, sentindo todo o poder do vinho na minha cabeça enquanto olhava dentro de seus olhos dourados, um pouco mais escuros do que o normal agora. Esperei, não por falta de coragem em dizer o que ia dizer, mas porque queria esperar o momento certo. Quando ele finalmente chegou, ordenei em um tom de voz macio e baixo.
- Me fode de uma vez.
No segundo seguinte, eu estava no colo de Edward, de joelhos no banco molhado, ele sentado onde eu estava antes. Me agarrei em seu pescoço para não cair, porque o movimento rápido fez com que eu ficasse mais tonta, mas não tinha o que temer, porque seus braços me prenderam na conhecida gaiola que ele fazia ao meu redor quando estávamos naquela posição. Fui atingida por um beijo invasivo, violento, e mesmo ficando um pouco perdida, correspondi. Me senti ser minimamente erguida para, logo em seguida, encaixar no corpo dele, centímetro por centímetro, de forma perfeita, e de repente minha noite se tornou um pequeno paraíso.
Eu precisava inventar novas palavras para poder expressar a forma como me sentia com ele, como o queria. Ou não, não precisava explicar nada. O fato era que eu o queria tanto, tão mais do que jamais pensei querer alguém, que minha sanidade mental cedo ou tarde seria afetada de alguma forma.
Eu não podia perdê-lo. Era mais sério do que parecia ser.
Consegue sentir o quanto eu te amo? Consegue sentir o quanto eu preciso de você?Não suma da minha vida de novo, por favor.
Por favor...
- Bella...
Abri os olhos outra vez e encontrei seu nariz encostado no meu. Ele me encarava como se quisesse me fazer sentir, pedaço por pedaço, todo o carinho e paixão que tinha por mim. Levei minha mão direita ao seu rosto, seguindo a linha do maxilar e tentando conter os saltos que as investidas dele dentro de mim faziam. Ele fechou os olhos com meu toque e me beijou outra vez, um beijo lento e apaixonado, sem ser interrompido nem mesmo quando ele voltou a falar.
- Minha.
Eu era dele. De quem mais seria? Não tinha como contestar aquilo, e também não havia necessidade. Embora tivesse praticamente saído em um sussurro, o tom de voz acusava que aquilo não havia sido uma pergunta ou um pedido de confirmação. Era uma verdade, um fato já aceitado tanto por ele quanto por mim.
Estávamos de acordo, e isso bastava.
Edward começou um terremoto onde nossos corpos estavam ligados, metendo em mim com tanta força que alguma coisa lá dentro acabaria machucada. Então me senti ser apertada por seus braços com tanta força que cheguei a temer pelas minhas costelas. Mas não senti dor porque ele havia, mais uma vez, tocado em um lugarzinho mágico próximo ao meu útero.
Gemi alto, sem medo de ser feliz, provavelmente reproduzindo com perfeição o audio de um filme pornô amador. Surpreendentemente, ele pareceu se excitar com o que, para mim, pareciam ser engasgos agudos, e embora não conseguisse entender, fiquei feliz em saber que todas as minhas esquisitices o agradavam.
O orgasmo chegou logo, porque Edward havia conseguido a proeza de tocar com exatidão e de forma repetida o pequeno ponto-paraíso que deixava meu corpo em ebulição. Meu desejo era gritar palavras promíscuas, mas não o fiz porque pareceria vulgar. Assim, quando a onda de calor percorreu meu corpo em uma explosão de sensações, suspirei a única coisa que me parecia caber no momento.
- Sua.
Eu não saberia dizer se ele havia escutado, porque podia sentir seu estado de torpor, voltando de seu próprio orgasmo. Alisei os cabelos dele com os dedos, massageando levemente seu couro cabeludo que provavelmente doía pelos puxões que eu dava. Enfiei o rosto no pescoço dele e por ali fiquei, sentindo as batidas do coração dele desacelerarem lentamente de encontro ao meu peito e sua respiração se tornar mais calma.
O silêncio era bom, principalmente quando ele estava perto de mim. Principalmente quando ele estava me abraçando, acariciando com as mãos espalmadas minhas costas, respirando na pele sensível do meu pescoço. Estava tão tranquila que um sonho começava a se formar dentro da minha cabeça, quando o senti levantar comigo ainda em seu colo.
Edward ligou o chuveiro, mas não me mexi. Agarrada a ele como ímã de geladeira, deixei que a água morna escorresse pelas minhas costas, me acordando um pouco. Quando finalmente tomar banho se tornou uma tarefa muito complicada na posição em que nos encontrávamos, fui obrigada a me soltar dele.
Nenhum de nós dois falou. O silêncio ainda era agradável, como se a primeira palavra que fosse dita quebrasse a sensação de romance e magia que flutuava sobre as nossas cabeças. Ele me secou outra vez, então me perguntei se aparentava ser incapaz de fazer isso por mim mesma. Mas não reclamei, porque tê-lo me tratando cheia de mimos era algo pelo qual eu sabia que muitas mulheres morreriam.
Nos vestimos rapidamente. Eu tentava não encará-lo, então não sabia se ele estava me observando ou não. Saí sem avisá-lo, rumo ao meu quarto para pegar uma calcinha e uma calça de pano fofa para a noite fria.
Quando voltei, encontrei-o esparramado na cama de barriga para cima, entre almofadas e várias camadas de lençol, edredom e cobertor. Me senti imediatamente culpada, odiando meu egoísmo e falta de cuidado em não pensar no cansaço que ele sentia.
Escalei a montanha de panos e almofadas, tentando não fazer com que o colchão se movesse muito, o que foi uma tarefa difícil já que dormir na cama de Edward era quase como dormir em cima de uma gelatina gigante. Sentei com cuidado ao seu lado e fiquei observando por algum tempo sua expressão serena, de olhos fechados e respiração calma.
Como se não fosse suficientemente cara-de-pau, ele abriu um dos olhos, mantendo o outro fechado, espiando para verificar se eu ainda estava viva, e fechando-o no momento em que me viu.
- Eu ainda estou dormindo. Pode me beijar. Eu sei que você ia fazer isso.
Sorri com sinceridade e, como uma debilóide, tive vontade de apertá-lo até seus olhos saltarem das órbitas por ser tão incrivelmente fofo.
Sem responder, me inclinei para mais perto dele e o beijei de forma suave no canto da boca.
- Eu esperava línguas e arranhões, mas posso me contentar com isso.
Bobo.
Mas gostoso.
- Durma. Eu já tomei muito do seu descanso.
- Não foi nenhum sacrifício. Se quiser, pode abusar sexualmente de mim enquanto eu durmo.
- Vou pensar nisso.
- Não vai me capar, não é?
Sorri outra vez.
- Não.
- Que bom.
Ao dizer isso, Edward me virou na cama e me abraçou na nossa conhecida — e preferida — posição de concha. Meu sono agora já me tomava rapidamente, então me deixei levar mais uma vez pela sensação de tê-lo ali comigo, e me permiti relaxar. Antes de começar a sonhar, porém, pude ouvir uma voz distante e conhecida, com o característico tom brincalhão, mas que tinha lá seu fundo de verdade.
- Vou me lembrar de oferecer vinho mais vezes a você.
Notas finais
Outra vez, obrigada pelo apoio, pelos reviews, pelas indicações e pelos comentários!
Bjos, Mel
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