Notas iniciais
Já começo me desculpando por aqui. Enfim, o capítulo 22 postado. Mais comentários ao final do texto.

Edward’s POV

Aquela não parecia ser a garota pela qual eu procurava com tanto desespero, a garota que ultimamente habitava todos os meus sonhos e lembranças. Não parecia ser a garota que eu havia me apaixonado acidentalmente, porque não havia traços da Isabella que eu conheci ali. Não havia resquícios dela, a não ser por uma exceção: aqueles olhos. Eu os reconheceria em qualquer lugar, em qualquer situação.

Era ela. Com alguns quilos a menos, uma maquiagem escura e extremamente inapropriada para o seu tom claro de pele, o que tirava bastante de sua beleza natural. Além disso, trajava um vestido incrivelmente curto e justo, seguindo o padrão de todas as mulheres naquela rua, e saltos altos que a deixavam com muitos centímetros a mais. Sua expressão parecia ser vazia enquanto ela abaixava na janela do carona, mas ao realmente me enxergar ali, sua máscara de indiferença pareceu quebrar imediatamente.

Eu fiquei mudo e imóvel, porque não sabia como agir. Vê-la daquele jeito, naquela situação, despertou em mim uma fúria inexplicável, então eu tive que me forçar a manter a calma. Era de alguma forma irracional, mas não havia como evitar a raiva que eu sentia agora. Raiva de tudo e de todos. Raiva dela.

Ainda assim, foi difícil conciliar essa ira com a sensação de alívio que me assolou. Eu realmente havia conseguido encontrá-la, contra todas as chances. Fosse por milagre ou por sorte, ela estava ali, a poucos centímetros de mim, e se não fosse pela raiva que pulava dentro de mim, eu poderia até sorrir.

Não sei quanto tempo ficamos em silêncio, mas algum tempo depois sua expressão voltou a ser a mesma que eu havia visto no primeiro momento. Enquanto ela voltava a ser completamente indiferente a mim, como se eu fosse só mais um cliente a espera de seu preço, eu tentava buscar alguma coisa para dizer a ela. A única coisa que me vinha à cabeça era um pedido de desculpas, tão sincero e desesperado que teria saído como uma súplica, caso meu arrependimento não estivesse sendo abalado pela minha raiva pulsante. Raiva, porque ela ainda não tinha entrado naquele carro e me xingado de qualquer coisa. Raiva porque ela ainda estava disponível para qualquer cliente que quisesse parar ali e escolhê-la pelo preço maior.

- Cinquenta dólares.

Minha surpresa em ouvir o som da sua voz outra vez, me certificando de que não fazia parte de mais um dos meus inúmeros sonhos com ela, foi substituída imediatamente pelo choque do significado daquela frase. Ela estava cobrando cinquenta dólares pelo programa. Cinquenta míseros dólares para se vender a mim, ou o que era pior, a qualquer um que estivesse no meu lugar. Esse era o preço que ela cobrava para deixar um homem tocá-la e tê-la da forma que quisesse: Cinquenta dólares.

Não sei o tamanho do choque que deixei transparecer em meu rosto, mas não me importei. Aquelas duas palavras haviam me ferido com uma intensidade que eu não imaginava, e me senti ainda pior quando achei ver um sorriso quase imperceptível no canto de sua boca, como se ela quisesse me ferir de verdade com aquilo.

Eu não sabia o que responder. Minha vontade era de gritar com ela, de sacudi-la e perguntar o que diabos ela estava fazendo, e quando abri a boca para falar qualquer coisa, fui imediatamente interrompido por outra voz, que soava ao meu lado, na janela do motorista. Eu não sabia quem era a mulher próxima a mim, porque não me dei ao trabalho de checar se a conhecia ou não, mas parecia que ela agora falava algo diretamente para mim. O que quer que tenha sido, eu não saberia dizer ao certo, porque o choque das palavras de Isabella ainda estava me machucando.

Quando finalmente notei que a pessoa não nos deixaria a sós outra vez, me forcei a desviar os olhos dela, com medo de que simplesmente evaporasse, e me dirigi à mulher ao meu lado.

- Você, cala a boca!

Ela pareceu se indignar com minhas palavras, mas eu não dei a menor importância a isso, porque havia uma outra pessoa ali — a única pessoa que importava — então imediatamente virei-me outra vez para ela, e ainda com o mesmo tom na voz, falei outra vez.

- E você, entra no carro!

Me arrependi imediatamente por falar com ela da mesma forma que havia falado com aquela mulher, e pediria desculpas por isso também mais tarde, mas naquele momento a única coisa na qual eu pensava era tirá-la dali o quanto antes, e mantê-la perto de mim em qualquer lugar longe dos outros. Por isso, nada pude fazer a não ser pisar no acelerador assim que vi Isabella bater a porta do carona ao meu lado.

...

Eu estava nervoso. Muito nervoso. Não sabia se meu nervosismo aparecia em meu semblante, mas imaginei que não, porque se aparecesse, Isabella provavelmente estaria com medo de mim. Mas ela parecia apenas absorta em seus próprios pensamentos, com aquela indiferença irritante em seu rosto e em sua atitude. Aquela indiferença que, mesmo de uma forma irracional, me deixava muito puto.

Eu não queria que ela estivesse indiferente. Preferia ter que aguentar sua ira, preferia que ela me xingasse de nomes baixos e me socasse durante todo o percurso até minha casa, mas ela não fez nada a não ser continuar calmamente em seu banco de carona, olhando para a estrada com uma postura fria e conformada.

Aquilo me deixava puto porque eu não queria que ela aceitasse a situação. Não era para ser assim, aquilo estava muito errado, mas ela não parecia se importar. Vê-la se fantasiar de prostituta de esquina e não dar a menor importância para isso era mais do que eu podia e queria aguentar.

Tentei manter minha atenção na direção, mas não tive muito sucesso. Na pressa de chegar logo em casa, avancei muitos sinais vermelhos e desrespeitei regras de trânsito. Mas não havia motivo para me importar com isso, porque eu estava nervoso com outras coisas.

Uma dessas coisas seria o fato de ter uma conversa cara a cara com ela. Pedir desculpas por tudo o que eu havia feito e dito. Tentar fazer com que ela me perdoasse, mesmo que isso parecesse ser impossível. E eu teria que fazer isso com aquele ódio me consumindo a cada segundo. Um ódio sem explicação, já que eu não poderia exigir que ela não fizesse o que sempre fez. Aliás, eu não podia exigir absolutamente nada.

O problema era que eu não a via daquela forma. Embora minhas últimas palavras naquele fatídico dia tenham deixado claro que eu não achava que ela fosse mais do que uma simples prostituta, a verdade era exatamente o contrário.

Ela não era só uma prostituta. Ela era muito mais do que isso. Muito mais do que alguém algum dia foi para mim. E não adiantava gritar para todo mundo que eu não permitiria a ela ter qualquer poder sobre mim, porque estava óbvio que eu queria apenas me convencer disso, quando na verdade ela já mandava e desmandava em todos os meus pensamentos e na minha própria sanidade.

Estava claro que ela mexia comigo. Muito. Estava claro que ela era importante para mim, que eu não conseguiria mantê-la afastada da minha vida por muito mais tempo. Por uma incrível onda de sorte, eu havia conseguido encontrá-la rapidamente, mas agora eu teria que encarar a situação.

Era incrivelmente reconfortante tê-la ali. Mas era um castigo vê-la daquela forma.

Não notei por quanto tempo rodei pelas ruas até chegar na garagem do meu prédio. Tudo que se passou desde o momento em que saí do carro até entrar no meu quarto havia passado como um borrão, onde eu não poderia definir exatamente os fatos. De repente, voltei a mim quando me dei conta de que deveria dizer alguma coisa, porque ela estava esperando.

Tentei com desespero puxar de algum lugar um pouco da confiança que eu fazia tanta força para demonstrar e parecer mais forte. Mas a verdade era que eu estava com medo. Talvez nunca tivesse tido tanto medo na vida, porque lá estava eu, tendo que enfrentar uma situação incrivelmente difícil e dolorosa por minha única e exclusiva culpa. Eu teria que começar com um pedido de desculpas. Depois, talvez confessar a ela que durante todo esse tempo a ausência dela só fez com que eu me sentisse mais morto a cada dia. Se ela ainda quisesse olhar na minha cara, eu pediria a ela — ou imploraria — para que ela ficasse.

Mas eu sabia que nada seria fácil aquela noite.

Tentando me acalmar, inspirei profundamente e imediatamente senti o perfume enjoativo que vinha dela. O perfume era forte e vulgar, e pela clareza do cheiro eu poderia dizer que ela estava agora mais perto do que antes. Foi impossível não comparar aquele cheiro com o perfume que eu lembrava dela. Aquele perfume que provavelmente havia sido uma das primeiras coisas que fez com que eu me apaixonasse por ela, o perfume com o qual eu sonhei noite após noite, e que eu desejava tão desesperadamente sentir outra vez. Aquele perfume havia sido substituído pelo cheiro da vulgaridade que parecia pertencer à personalidade dela agora, e outra vez a ira irracional tomou conta de mim.

Virei-me de costas para a parede espelhada, evitando propositalmente seu olhar, e antes que pudesse refrear toda a mágoa e acusação na voz, coisas que eu sabia não ter o direito de expressar, as palavras falaram por si só, então ouvi minha própria voz cuspir contra ela todo o ódio que me queimava.

- Tome um banho. Tire essa roupa vulgar e esse perfume de puta barata. Lave o rosto para que eu não sinta nojo de falar com você.

O silêncio que seguiu minhas palavras deixou o ar em meus pulmões tão denso que eu talvez estivesse sufocando agora. Havia muitas coisas que eu tinha que dizer a ela, e nenhuma delas deveria ser um insulto ou uma acusação. Eu estava sendo um monstro, e uma pequena parte de mim mesmo estava ciente disso, mas a maior parte não se desprendia do ódio borbulhante que revirava dentro de mim com aquela imagem dela. De uma puta indiferente e conformada.

A mulher pela qual eu me apaixonei não era assim. E era essa a mulher que eu queria de volta.

Em um momento de fraqueza, procurei seus olhos e imediatamente tive que lidar a consequência disso. Evitá-los tinha um propósito bastante claro, porque nada naquela mulher, da cabeça aos pés, era de quem eu queria que fosse. Nada ali era Isabella, por isso manter a raiva acesa dentro de mim era fácil. Mas seus olhos, aqueles olhos continuavam os mesmos. Era neles que eu via uma antiga lembrança da garota tímida e teimosa que um dia me iluminou de tantas maneiras, e foi quando fitei aquelas esferas marrons, agora desfocadas pelo peso de minhas palavras, que imediatamente senti a dor de causar mal a ela outra vez.

Mas o momento foi muito breve, porque ela já havia saído. Meu impulso havia sido de correr atrás dela e abraçá-la, sem saber ao certo o que fazer, enquanto pedia desculpas por mais um ato monstruoso meu. Eu queria curar as feridas dela, que mesmo imperceptíveis, eu sabia terem sido causadas por mim mesmo, mas a porta fechou rápido demais atrás dela, então o máximo que pude fazer foi dar dois ou três passos em direção à porta do banheiro sem que ela tivesse notado.

Voltei para a janela, ainda me remoendo de remorso, tentando ficar calmo para o momento em que ela saísse por aquela porta outra vez. Rezei silenciosamente para que aquele perfume tivesse saído dela, porque minha ira só aumentava com ele. Tentei organizar meus pensamentos, colocando em ordem de prioridade o que deveria ser dito a ela e o que eu tinha que perguntar, mas minha linha de raciocínio se perdia toda vez que eu lembrava do momento em que a encontrei naquela mesma noite, há pouco tempo atrás.

Eu senti uma alegria explosiva. Era ela, eu finalmente a havia encontrado outra vez, e muito de toda aquela felicidade se dava pelo medo que me tomava antes, de talvez não conseguir vê-la outra vez. Eu não saberia dizer se tudo aquilo que sentia podia transparecer no meu rosto. Provavelmente não. De qualquer forma, não pude deixar de encará-la por um bom tempo, me certificando de que era ela. De que ela não estava machucada. Que estava bem.

Mas então, ela quebrou o silêncio. Pronunciou em alto e bom tom seu preço.

Seu preço por uma ou duas horas.

Fui arrancado de meus devaneios pelo clique da porta se abrindo, então meu corpo ficou imediatamente mais tenso. Esperei que ela dissesse algo, desejei que ela se aproximasse, mas ela não fez nada disso. Ao invés disso, esperou pacientemente de pé atrás de mim, e pude ver pela minha visão periférica que ela estava encarando minhas costas.

- Senta. — Falei, surpreendendo a mim mesmo, enquanto tentava disfarçar a mágoa infundada que voltava à minha voz.

Esperei que ela sentasse, então respirei fundo com o máximo de discrição que pude e me virei para encará-la.

Sentada na beirada da minha cama, mal encostando os pés no chão, estava a garota com a qual eu vinha sonhando durante todo esse tempo. Ela sim era Isabella, aquelaIsabella, sem resquícios de maquiagem para tampar o delicado tom de bege de sua pele, sem aquele perfume enjoativo, sem nenhuma máscara de vulgaridade. Lá estavam aqueles olhos, e embora eles fossem a única coisa nela que, desde o início da noite, sempre tivesse estado lá, não pude deixar de ser atingido em cheio pela visão da garota mais linda e meiga que eu já havia conhecido, me encarando com olhos extremamente tristes e cansados, enquanto esperava por alguma atitude minha.

Eu sentia falta dela. E se nada pelo qual eu tivesse passado até agora me indicasse isso, vê-la a poucos centímetros de mim, me observando com tanta calma, conseguia me fazer notar a saudade quase louca e angustiante que me tomava. Mas muita coisa teria que ser dita ainda, e eu não poderia me deixar perder o controle pelo simples fato de olhá-la. Mais como um método de defesa do que qualquer outra coisa, me apressei em falar.

- Por que saiu da casa de Tanya?

- Porque não podia mais continuar lá.

Era a voz dela. Lembrar da voz dela me trazia sensações estranhas, mas ouvi-la falar comigo — sem estar informando seu preço — fez com que meu estômago de repente pesasse mais do que costumava pesar. Era muito bom ouvi-la, era reconfortante, era um alívio maior do que eu poderia expressar. Ainda assim, não pude aproveitar inteiramente todas as sensações que aquele som faria em mim, porque sua voz, embora fosse a mesma, não mostrava um fio de vida sequer.

- Por que não?

- Por que está tão curioso?

Como assim “por que eu estava tão curioso”? Eu sempre fui curioso com qualquer coisa relacionada a ela, como ela pôde ter esquecido?

- Quero saber o que de tão grave assim aconteceu para te fazer sair de lá e preferir fazer programa com qualquer um em qualquer esquina.

Apertei minhas mãos, tentando debilmente manter minha voz firme e disfarçar o nervosismo.

- Preferir? Você acha que eu prefiro? Acha que eu estaria dessa forma se tivesse opção?

Até onde eu sabia, ela tinha opção. Nessa questão ao menos, por menor que fosse, ela poderia optar por estar segura dentro da casa de Tanya. Pelo menos lá, ela não precisaria se vender diretamente para ninguém, e não precisava se vestir daquela forma ou agir daquela maneira. Ou se desvalorizar de uma forma tão irritante.

— Então por que saiu? Por que estava naquela esquina imunda, daquele jeito? Por que se prestou a esse papel?

- Por que eu sou uma puta.

Mais uma vez senti um murro diretamente em meu estômago pelo som das palavras que ela pronunciou. Como um raio, a lembrança de mim mesmo dizendo isso a ela aos berros, na frente de dezenas de pessoas, fez com que eu me sentisse menor do que eu já estava. Pior do que eu imaginava. E se isso não bastasse, somava-se a todo o sofrimento a dor de vê-la pronunciar essas palavras calmamente, como se estivesse me informando as horas. Entender que aquilo não era praticamente nada para ela, que não tinha nenhuma importância, me machucou.

- Você não era assim...

- Eu mudei. — Ela falou imediatamente, ainda muito calma, enquanto me encarava com aqueles olhos tristes.

Onde ela tinha ido parar? Onde estava a minha Isabella?

- Estou vendo.

- Não ouse me julgar.

Meu desespero aumentou consideravelmente ao ver que uma lágrima havia escorrido por seu rosto. O aperto em meu peito atingiu uma intensidade angustiante, e então eu lembrei que vê-la chorar só fazia com que eu me sentisse culpado e impotente. Fiz menção para me mover, e talvez tenha chegado a dar dois passos em sua direção, o que passou desapercebido a ela porque seus olhos encaravam agora o chão, mas parei ao imaginar que ela talvez não me quisesse muito perto.

- Não estou te julgando... Só não quero te ver desse jeito...

Era mentira, julgando era exatamente o que eu estava fazendo. Mas não era como se eu achasse que estivesse certo. Eu sabia que não tinha direito algum de julgá-la pelo que fosse, mas não podia deixar de direcionar grande parte da minha raiva irracional a ela e às suas atitudes recentes.

- Não me venha com essa palhaçada. Você não dá a mínima pra mim, ou pro que eu faço.

Mais um golpe. Não reagi, surpreso com suas palavras. Aquilo era uma calúnia tão grande que por algum tempo nada me veio à cabeça para que eu pudesse ao menos tentar responder à sua acusação, mas depois de algum tempo minha voz saiu com um tom esganiçado que só servia para refletir meu crescente desespero.

- Você não sabe de nada!

- Não, você não sabe de nada. Nada do que eu tive que passar por sua causa. Você não tem o direito de se preocupar comigo, de forma alguma, depois do que fez.

- Não importa se eu tenho ou não o direito, eu me preocupo!

- É mentira.

Minha respiração parecia inconstante, eu começava a sentir falta de ar. Tentei controlar os tremores que voltaram com força ao meu corpo, respirando pausadamente e de forma disciplinada, mas não adiantou. Eu estava começando a entrar em pânico, e não tinha nada a ver com o fato de ela ter me chamado de mentiroso, mas sim com o fato de ela pensar que eu não me importava com ela.

- Não é ment...

- É mentira. Sabe há quanto tempo você desapareceu? Sabe há quanto tempo eu estou por aí, sem ninguém nem saber que eu existo? Como você ousa dizer que se preocupa comigo?

Ela agora deixava muitas lágrimas caírem por seus olhos enquanto encarava o carpete do quarto, e eu já não sabia mais se deveria tentar convencê-la de que ela estava errada. De que aquele tempo todo, dia após dia, eu havia morrido por não tê-la. De que, inconscientemente, eu estava agradecendo a cada minuto ao destino por estar com ela agora. Por tê-la achado, por tê-la trazido para cá.

- Você não sabe das coisas! Não sabe pelo que eu também passei! — Falei, sem nem prestar atenção nas palavras que saíam de minha boca.

Então ela sorriu, e eu estremeci. Não de prazer, mas sim porque o sorriso dela era tão triste que eu não tive como não me sentir triste também. Algo me dizia que tudo aquilo, toda aquela falta de vida nela, era por minha causa. Lembrei-me das palavras de Angela e a certeza de que eu era o culpado aumentou ainda mais, me deixando com mais falta de ar do que antes. Ela continuou sorrindo, fechando agora os olhos com calma para que mais algumas lágrimas caíssem pelas suas bochechas, e ao voltar a abri-los, eu sabia que ela falaria outra vez. O que eu não fazia idéia era que suas palavras mudariam cada pequeno pedaço de mim.

- Você quer saber o que aconteceu comigo? Aconteceu você. Desde que você apareceu na merda da minha vida eu vinha me sentindo melhor, um pouco mais feliz. Você me fez acreditar que era um cara legal, que se importava um pouco comigo. Você me fez querer a sua companhia cada dia mais, e me sentir vazia quando eu não estava com você. Você foi tão adorável e atencioso, mesmo com suas mudanças bruscas de personalidade, que eu não tive como não me apaixonar completamente por você. E eu sabia que não tinha a menor chance de fazer isso dar certo, porque sabia qual era o meu lugar e qual era o seu. Mas então você resolveu frisar isso daquela forma, me humilhando na frente de todo mundo, deixando claro que eu nunca seria nada além do que eu era. Além do que eu sou. E então você sumiu, simplesmente desapareceu, e isso doeu muito, porque além de eu nunca querer ter tido controle algum sobre você, eu acreditei em você quando disse que estaria por perto. Mas você mentiu.

Então eu tive que continuar com a minha vida, mas eu simplesmente não conseguia parar de pensar em você. Por isso não consegui mais fazer nada com ninguém desde que você foi embora. A simples idéia de ter um programa com um homem que não era você me fazia muito mal. Pedi pra Tanya me permitir ficar na casa dela mesmo sem trabalhar. Tive que pagar meus próprios programas, mas era óbvio que eu não poderia ficar muito mais tempo lá.

Aluguei um apartamento e tentei dar um jeito na minha vida. Tentei arrumar qualquer emprego que fosse, mas parece que eu não sirvo pra nada além do que você sabe que eu faço. Não consegui arranjar nada que pagasse meu aluguel, então antes que acabasse não tendo onde morar, resolvi fazer a única coisa que me dava dinheiro. Eu sei que não é uma profissão muito agradável, mas sinceramente, ultimamente não tenho ligado muito pra isso. Hoje foi minha primeira tentativa, mas é claro que você tinha que ser o primeiro a aparecer pra me ver nesse estado.

E durante todo esse tempo, tive que lidar com o fato de estar completamente sozinha, e com a sua maldita lembrança que insistia em me atormentar a cada merda de dia. E sabe o que é o mais triste? Que mesmo agora eu não consigo deixar de gostar de você. E mesmo que eu me arrependa depois, mesmo que minha vida piore consideravelmente depois dessa noite, ainda assim está sendo melhor estar aqui te contando isso do que se eu simplesmente tivesse me negado a vir com você. E isso me torna patética.

A verdade é que você me fez ver o quão patética e fraca eu era, e eu posso até me odiar por gostar de você, por ainda estar apaixonada por você do mesmo jeito, senão mais, mas não há nada que eu possa fazer. Porque se eu não consegui te esquecer em tantos meses na sua ausência, não vai ser agora que vou ter algum sucesso.

Então, você passou por maus momentos durante esse tempo? Não sei o que aconteceu, mas posso apostar que você não esteve pior que eu. Posso apostar que a minha vida está muito mais difícil que a sua, porque você nunca vai saber como é se sentir da forma que eu me sinto agora. Nunca vai se sentir tão ridículo, tão digno de pena.

Mas se você quiser fazer algo por mim, termine logo com isso. Você me trouxe aqui por um motivo, então vamos logo ao assunto, pra que eu possa ir embora de uma vez. E por favor, por favor, me deixe em paz depois disso. Eu tenho que arrancar você da minha vida, nem que seja à força, antes que eu enlouqueça de uma forma irreversível.

Ela se calou. O quarto mergulhou em um silêncio pesado, frio. Um silêncio que refletia o fim das explicações dela e meu pequeno estado de choque. Ela ainda olhava para o chão, na certa esperando que eu comentasse algo a respeito de tudo aquilo. Mas eu não podia.
Eu tinha muito para dizer a ela. Muito mais do que eu imaginava. Eram palavras que se misturavam entre desculpas, explicações, agradecimentos e declarações, mas eu simplesmente não conseguia formular frase alguma, porque tudo o que ela tinha acabado de dizer estava ainda suspenso no ar, assim como minha respiração, palavra por palavra me tomando à força.

Eu a tinha machucado. A tinha feito sofrer. Foi por minha causa que ela estava naquela esquina, o modo como estava vestida e como agia eram culpa minha. A vida dela se tornou ainda mais difícil porque eu fui o grande imbecil covarde que não soube como lidar com o que sentia, e que fugiu feito um rato do poder que ela tinha sobre mim. Ela teve que pagar para não ter que se vender para outros homens, e tudo isso foi por minha causa. Eu havia feito aquilo a ela, então toda aquela tristeza que eu via em seus olhos eram de minha responsabilidade.

Mas ela disse que estava apaixonada por mim. Que ainda estava apaixonada por mim. Do mesmo jeito. Senão mais.

Ser o responsável pela sua falta de vida me esmagava em uma dor latejante, mas saber que ela sentia algo por mim — algo que não era raiva ou indiferença — enchia meu coração de uma esperança e alegria tão quentes que eu pude senti-lo começar a bater muito mais rápido do que antes. Como se tivesse voltado a respirar outra vez. E enquanto a culpa e a alegria travavam uma luta dentro do meu próprio peito, minha cabeça, antes simplesmente vazia, voltava à uma total consciência.

Eu não pensei. Não pensei se era razoável ou apropriado, não pensei o que aconteceria ou se minha atitude era arrogante de alguma forma. Não importavam as consequências, porque no momento seguinte, mesmo sem saber como, eu estava perto dela. Nossas testas se tocavam e seus olhos avermelhados fitavam os meus com surpresa, o rosto ainda molhado pelas lágrimas. Senti a respiração dela se chocar contra o meu rosto, e não pela primeira vez, a vontade de beijá-la me chicoteou com força. Mas dessa vez, eu não me importei com nada.

Não importava o que ela era, além da garota que eu adorava. Não importava o que ela fazia, não importava o que ela já fez. Não importava se ela havia sido de tantos outros, e não importava que ela tenha cobrado por isso. Naquele momento, ela era simplesmente ela.

Beijei-a com força, invadindo sua boca sem pedir permissão. Novamente, não importavam as consequências. Se ela se afastasse de mim ou me agredisse, eu lidaria com isso depois. Era uma chance, um risco a ser corrido, mas que não importava. No final das contas, acabar com um olho roxo era muito pouco se comparado à satisfação de sentir o gosto da boca dela.

Deixei que meu corpo pesasse em cima dela, enquanto deitávamos no colchão. Me permiti não pensar em nada, não me concentrar em nada a não ser naquele beijo. Por isso, a dor da rejeição ao sentir que não era correspondido foi mais intensa.

Por favor... Por favor...

Eu tentava fazer com que ela respondesse ao meu toque, mas aparentemente, Isabella estava decidida a se manter imóvel. Forcei com mais desespero minha língua de encontro à dela, enquanto prendia nossos lábios em um beijo urgente, mas era como se eu não estivesse fazendo nada. Derrotado, beijei-a lentamente, enquanto separava nossos lábios e olhava fundo em seus olhos. Eles estavam abertos em pânico, me encarando sem saber como agir. Foi em alguns décimos de segundo que vi o foco voltar aos olhos dela, como se ela finalmente se desse conta do que estava acontecendo. Como se meus olhos a tivessem trazido de volta, de onde quer que ela estivesse, senti suas mãos agarrarem com força meus cabelos, servindo como apoio para que Isabella agora tomasse a iniciativa do segundo beijo.

Eu não precisava pensar. Retribuí o beijo com urgência, como se eu dependesse dele para continuar vivendo. Meu corpo repentinamente pareceu arder em chamas invisíveis, queimando por ela, desejando-a com uma loucura talvez perigosa. A sincronia de nossas línguas me fazia estremecer e apertá-la contra mim com violência, a intensidade do momento não me permitindo pensar nos machucados que eu deixaria em sua pele.

Aquele beijo. Eu sonhara muitas vezes com aquele beijo, e sequer precisava estar dormindo para isso. Os pensamentos sobre aquele beijo sempre fizeram com que meu corpo reagisse de formas bastante inapropriadas, então eu deveria imaginar o que viver aquele momento e toda a sua fúria seria capaz de fazer comigo.

Eu estava pronto para ela. Era como se aquele corpo me chamasse, me convidasse a possuí-lo. Não era só desejo, porque desejo algum teria a força e a urgência do que eu sentia. Era bem mais do que tesão reprimido, bem mais do que o resultado de uma abstinência duradoura. Era uma necessidade de sentir sua pele, de sentir seu perfume, sentir seu gosto e o calor de seu corpo. Era uma urgência de olhar em seus olhos e tentar falar através deles o quanto eu a adorava, o quanto ela me fazia bem. Era algo que mexia não só com o meu corpo, mas com todas as minhas emoções.

Prendi seus pulsos com uma das minhas mãos logo acima de sua cabeça, enquanto, com a outra, tentava reconhecer seu corpo da forma como eu me lembrava ser. Sua pele ainda era muito macia, agora um pouco fria pelo banho recém tomado, o que tornou a garota embaixo de mim ainda mais convidativa. Migrei minha boca para seu pescoço, sentindo ali o perfume dela — não o doce enjoativo que exalava estava ali há algum tempo atrás, nem o característico das noites em que eu a encontrava na casa de Tanya, mas o verdadeiro perfume da sua pele — e senti meu membro latejar já dolorosamente.

Quando voltei a colar meus lábios nos dela, Isabella parecia ainda mais receptiva do que antes. Movi minha mão livre para um de seus seios, e os fios de cabelo em minha nuca se eriçaram ao senti-lo pequeno mas excitado na palma da minha mão. Querendo também senti-la livre e confortável, deixei de lado meu lado momentaneamente dominador e soltei seus pulsos.

Ela imediatamente procurou o botão da minha calça com as mãos, tentando abri-lo de qualquer jeito junto com o ziper. Como não estava obtendo sucesso e eu estava com pressa, tirei todas as peças de roupa mais rápido e com mais habilidade do que imaginei ser possível, sem com isso quebrar a conexão entre nossas bocas.

Puxei-a outra vez contra meu corpo. Talvez notando meu desespero, Isabella pulou em meu colo e, outra vez, agarrou meus cabelos com força. Essa era uma nova mania que ela parecia ter desenvolvido, e embora meu couro cabeludo já estivesse doído, eu estava adorando aquele jeito dela. Não simplesmente porque ela estava respondendo aos meus estímulos, mas porque ela parecia confortável o suficiente para, mesmo que timidamente, tentar me dominar e me fazer parecer pertencer a ela.

E eu queria pertencer a ela.

Rolei o casaco que ela vestia para cima, e agradeci ao sentir seus braços desfazerem o laço em volta de meu pescoço, para que meu objetivo fosse alcançado. Ela parecia contrariada em cessar o beijo, e fiquei feliz como uma criança ao constatar que ela sentia o mesmo que eu. Puxei o tecido para cima, retirando-o pela sua cabeça, e ao olhar para ela outra vez, não tive como não parar para admirá-la.

Ela mantinha os olhos fechados, ainda ofegante, enquanto esperava que eu a beijasse outra vez. Seu corpo estava inclinado para mim e alguns fios de seus cabelos estavam em seu rosto. Ela estava muito corada e muito, muito linda.

Tirei os fios de seu rosto, penteando-os para trás com meus dedos, e levei a outra mão à sua nuca. Esperei, fitando-a a centímetros de seu rosto, que ela abrisse os olhos outra vez. Quando ela finalmente o fez, senti novamente um arrepio percorrer minha espinha de cima a baixo ao estabelecer uma conexão intensa entre nossos olhares.

Sem desprender meus olhos dos dela, invadi-a outra vez em um beijo forte, depois outra vez, e depois outra. Fiquei grato por ela sustentar meu olhar, e então desejei que tudo que eu estava sentindo naquele momento pudesse ser passado a ela por aquela conexão. Eu queria mostrá-la que aquilo era tudo o que eu queria, que era tudo pelo qual eu buscava há algum tempo. Queria que ela entendesse que tê-la daquela forma ultrapassava qualquer prazer que eu viesse a ter, porque era ela. Porque ela estava ali.

Meu corpo já estava completamente carregado. O desejo agora vinha em ondas lentas e intensas, e eu poderia sentir a eletricidade que emanavam dela e entrava em mim, fazendo com que eu me arrepiasse da cabeça aos pés. O beijo dela era muito melhor do que eu pude imaginar um dia, sua pele fresca e macia estava me deixando louco, literalmente talvez. Minhas mãos espalmadas exploravam as curvas do corpo dela com vontade, e já estava óbvio que eu não conseguiria suportar aquilo por muito mais tempo.

Inclinei-me para a gaveta do criado mudo, tirando de lá um preservativo que consegui achar por milagre. Isabella notou meu movimento e assim que viu a embalagem em minhas mãos, tratou de tomá-la de mim e abri-la. Fitei-a, enquanto suas mãos trêmulas e suadas escorregavam na embalagem plástica, fazendo com que ela se desesperasse um pouco mais a cada tentativa fracassada de agilizar as coisas. Quando finalmente conseguiu rasgar o plástico com os dentes e retirar o preservativo de lá, tentando colocá-lo em mim, uma nova onda de desejo me tomou, e mais uma vez beijei-a com força e urgência.

Depois de algum tempo, finalmente senti meu membro coberto pela proteção, então não esperei mais. Como ela era muito pequena e leve, não foi difícil trazê-la para meu colo. Ela não se opôs ao meu movimento, então senti sua mão me envolver com força, me posicionando em sua entrada. Talvez eu devesse ter dado algum tempo a ela, mas eu a desejava tanto que não fui capaz de raciocinar direito.

Com uma investida forte e rápida, deslizei facilmente para dentro dela, sentindo cada centímetro do meu corpo arder mais do que nunca aquela noite. Ela deixou escapar um gemido que foi abafado pela minha boca pressionada contra a sua, e mesmo esse som fez com que eu sentisse mais prazer. Era maravilhoso lembrar como o corpo dela era pequeno se comparado com o meu, o quão delicada e macia ela era. Era incrível a sensação de seu corpo envolvendo o meu, e era até difícil imaginar que um dia nós pudéssemos não ter sido compatíveis. Agora, nós nos encaixávamos como peças perfeitas de um quebra-cabeças, e cada vez que meu corpo entrava no dela outra vez só fazia com que o encaixe se tornasse ainda mais perfeito e prazeroso.

Ela retribuiu a cada beijo meu e a cada investida minha, tentando moldar nossos corpos com movimentos lentos e sensuais. De repente, seu corpo pareceu relaxar e então a senti completamente leve e entregue a mim, apenas deixando-se apoiar em meu abraço apertado em volta dela, como se me permitisse tomar as rédeas daquele momento. Isabella repousou sua cabeça no meu ombro, e eu não sabia explicar como ela conseguia me fazer arder de desejo e ao mesmo tempo achá-la tão meiga e fofa. Eram sentimentos muito distantes, mas que não se anulavam de forma alguma quando eu estava com ela. Ao contrário, só fazia com que a vontade de tê-la o mais perto possível fosse cada vez maior.

Se ela queria daquela forma, seria daquela forma. Eu não estava em posição de questioná-la, nem de contrariá-la. Na verdade, imaginei se algum dia poderia ir contra qualquer vontade dela sobre esse assunto, e cheguei à conclusão que independente do que eu quisesse, no final das contas seria ela quem ganharia de qualquer forma. Minha submissão quase instantânea a ela era algo que eu não poderia controlar, simplesmente porque eu era fraco demais para não fazer algo que ela quisesse.

Não sei quando atingi meu primeiro orgasmo, mas sei que foi depois do primeiro orgasmo dela. Como parecia cansada, deitei-a de costas no colchão e fiz menção de me afastar dela, mas ela rapidamente me prendeu outra vez entre suas pernas, me tomando em mais um beijo. Aos poucos, mesmo sonolenta, ela conseguiu reacender o fogo que tinha acalmado dentro de mim, e pela segunda vez naquela noite nós transamos. Como meu desejo reprimido foi aliviado, pude me concentrar em tornar o ato mais leve e calmo dessa vez, o que me permitiu machucá-la menos.

- Bella... — Comecei muito baixo, tentando falar em um tom que não a pressionasse.

Vi seu rosto cansado se contorcer em um sorriso leve, mas de tirar o fôlego, enquanto seus olhos permaneciam fechados. Me perguntei se o motivo daquele sorriso foi a simples menção de seu nome. Se fosse, eu teria que repeti-lo mais vezes.

Tentei manter os movimentos que fazia dentro dela suaves, mas eu já estava começando a me agitar outra vez. Ela não parecia se preocupar com a velocidade do ato, apenas me dando total liberdade para decidir como fazê-lo.

- Diz que você é minha... — Sussurrei em seu ouvido, tentando não parecer arrogante ou exigente demais. Eu queria tanto ouvi-la dizer que ela pertencia a mim da mesma forma que eu pertencia a ela, mas era como se ela não estivesse escutando. — Diz que vai me dar uma chance... Diz que me desculpa por eu ser um idiota, e faz de conta que eu te mereço.

Os olhos dela permaneciam fechados, e se não fosse por suas mãos apertando meus cabelos e sua respiração ofegante, eu poderia dizer que ela estava quase dormindo.

- Por favor...

Tive que aceitar seu silêncio. Não sabia dizer se ela não queria falar ou se não estava consciente para fazê-lo, mas de qualquer forma, tê-la ali já era mais do que eu poderia sonhar, e muito mais do que eu merecia, por isso não foi difícil me conformar. Pela segunda vez, consegui fazer com que ela tivesse um orgasmo, e quase um minuto depois foi minha vez de chegar ao meu segundo clímax, juntamente com um terceiro dela.

Deixei meu corpo pesar moderadamente sobre o dela, e quando o cansaço também me tomou, rolei nós dois na cama, de forma que ficássemos deitados de lado mas de frente um apara o outro. Puxei-a para perto de mim, prendendo-a em meu peito, e ela não pareceu se incomodar. Trouxe seu rosto delicadamente para cima, de encontro ao meu, e então a beijei com calma.

- Só pra você saber... — Comecei, mais em um monólogo do que qualquer outra coisa, pois sabia que ela não devia estar escutando — Eu sou seu. Se você quiser, eu sou só seu.

Ela sorriu outra vez, mesmo inconsciente, e me beijou com ternura. Retribuí seu ato, já sentindo seus lábios levemente inchados, e deixei que minha boca apenas se mantivesse encostada na dela. Finalmente, permiti que o sono dominasse a nós dois, enquanto me preparava para o resto de uma noite de sonhos bons.

O relógio do criado mudo marcava 11:00 h. Não me lembrava de acordar tão tarde assim há muito tempo, mas imaginei que isso se desse pela minha atual exaustão. Não somente pela noite anterior, mas por todos esses meses.

Tentando não me mexer com muita força, me virei para o lado e encontrei Isabella dormindo profundamente, os cabelos um pouco bagunçados espalhados pelo travesseiro. Os lençóis em volta dela estavam quase lisos, o que me fez imaginar que ela praticamente não tivesse se mexido durante a noite. Sua boca estava consideravelmente inchada e vermelha, o que me fez lembrar imediatamente da noite anterior.

Eu era o responsável por aquilo. A lembrança de tomá-la com força em meus braços e beijá-la violentamente em quase todos os momentos daquela noite estava fresca em minha memória, então todos os hematomas que trilhavam o corpo dela estavam lá única e exclusivamente por minha causa. Seu pescoço, principalmente, estava bastante marcado, assim como seus pulsos e as partes internas de suas coxas: justamente os lugares onde meu corpo esteve a maior parte do tempo em contato com o dela.

Continuei analisando-a, procurando por hematomas menos evidentes, mas no geral pude ver que ela não estava muito machucada. Isso não fez com que eu me sentisse menos culpado, mas pelo menos pude respirar um pouco mais aliviado.

Levantei-me lentamente, sem fazer muito barulho, e rumei para o banheiro. Torci para que o barulho do chuveiro ligando não a acordasse, e ao voltar ao quarto fique grato por isso não ter acontecido. Ela continuava tranquila e linda sobre os lençóis brancos, sua respiração profunda e lenta, e uma expressão de paz em seu rosto que fez com que eu me sentisse repentinamente bem.

Fiquei algum tempo apenas olhando para ela, sem sequer pensar em nada específico. Inconscientemente, estava agradecendo em silêncio por tê-la achado aquela noite e por tê-la comigo agora. Ela realmente muito mais do que eu merecia.

Quando finalmente consegui parar de admirá-la, procurei no closet uma calça e uma blusa informais, vestindo-as e deixando Isabella aproveitar um pouco mais de seu sono tranquilo.

Fui para a cozinha preparar o café para nós dois. Estava faminto, e foi procurando por variedades que descobri que minha despensa estava vazia, fruto da depressão dos meses passados. Senti-me imediatmente feliz ao me dar conta de que até ontem, minha vida estava uma merda. Hoje, por contraste, eu estava no céu.

Escrevi em um papel as coisas mais urgentes que estavam em falta, como pão, café, leite, bolo, biscoitos, sucos, chás, frutas e tudo o mais que fazia parte de um bom café da manhã. Interfonei para Marcos e pedi que ele encontrasse alguém na portaria que pudesse fazer o grande favor de ir até um supermercado e comprar aquelas coisas para mim. Dei a ele um cheque que com certeza cobriria aquela despesa e pedi para que, quando chegasse, ele trouxesse tudo para cima, sem tocar a campainha. Eu estaria atento a qualquer barulho.

O motivo para que eu mesmo não fosse lá era simples: Estava fora de questão deixar Isabella sozinha ali. Não tinha absolutamente nada a ver com a minha confiança nela, mas sim com meu medo de que ela simplesmente acordasse e resolvesse desaparecer, transformando minha vida no antigo inferno que era. Eu não poderia permitir que ela fosse embora outra vez, porque se isso acontecesse, eu tenho certeza que enlouqueceria.

Eram aproximadamente 12:10h quando finalmente as compras chegaram. Agradeci muito a Marcos e tratei de colocar tudo para dentro, guardando a maioria das coisas nos armários e deixando o que serviria de café da manhã para Isabella em cima da bancada. Comi bastante e, depois de me sentir satisfeito, fui verificar se ela já tinha acordado, mas ao chegar no quarto constatei de que ela ainda dormia, na mesma posição de antes.

Senti um calafrio ao imaginar o motivo de toda sua exaustão. Lembrei das muitas coisas que ela havia confessado a mim na noite anterior, mais especificamente das noites mal dormidas durante esses meses, e me senti um monstro novamente: Outra vez, minha culpa.

Tentei afastar toda aquela carga de responsabilidade da cabeça. Liguei o laptop e chequei meus e-mails. Havia, como sempre, vários recados sobre a empresa, mas era claro que eu não leria. Não estava com cabeça e nem com vontade para aquilo, por isso marquei todos para serem lidos depois e me deparei com um e-mail de Victoria, enviado naquele mesmo dia, às 9h.

Já ligou seu celular? Victoria.

Fui à procura do aparelho que poderia estar jogado em qualquer canto daquela casa, mas não demorei a encontrá-lo na biblioteca, sem bateria. Liguei-o ao cabo do carregador na tomada e esperei alguns minutos até que o telefone pudesse ser ligado outra vez. Quando o fiz, recebi um número exorbitante de mensagens de ligações perdidas. Não me incomodei em ver de quem eram, discando imediatamente o número de Victoria.

- Boa tarde, Edward. Fico feliz em saber que você ainda está vivo. de novo.

- Oi...

- Tentei te ligar ontem de noite e hoje de manhã, mas até meio minuto atrás eu pensava que seu celular simplesmente não ligasse mais.

- Eu não sabia onde ele estava. Quando achei, liguei pra você.

- Obrigada pela consideração.

- Não é você quem tem que agradecer aqui. Obrigado pela preocupação comigo. Você foi um anjo. Fico te devendo mais uma vida.

- Não seja bobo.

- Não estou sendo.

Victoria ficou em silêncio por alguns segundos.

- E então? Você a encontrou?

Suspirei de alívio por poder responder o que responderia.

- Sim.

- Falou com ela? Sobre aquilo?

- Não disse a ela o que eu sinto.

- E não pretende falar?

- Pretendo. Mas ontem... Eu não consegui... Eu tenho algumas coisas pra te contar.

- Por exemplo?

- Ela está aqui.

Victoria ficou em silêncio mais algum tempo, e quando ia perguntar se ela ainda estava na linha, ela resolveu falar outra vez.

- Na sua casa? Ela está na sua casa agora?

- Sim. Mas eu quis dizer que ela vai ficar aqui.

Mais silêncio.

- Edward... Pelo amor de Deus...

- Eu não estou sendo um idiota. Juro que não estou. Você vai entender quando conversarmos. É que... Eu fiz mais mal a ela do que imaginava.

Senti um aperto no peito com a verdade em minhas palavras.

- Como você fez mal a ela?

- Eu vou te contar. Mas não hoje.

- Eu vou te pedir uma coisa, mesmo sendo inútil. Por favor, tente ser racional. Pelo menos na medida do possível. Não deixe que ela faça mal a você.

Continuei calado, tentando imaginar se poderia ser minimamente racional quando o assunto se tratava de Isabella. Mas o que Victoria não sabia era que não deixá-la me fazer mal resumia-se em não permitir que ela saísse da minha vida outra vez.

- Eu vou tentar, Victoria. Posso te prometer isso.

Ficamos outra vez em silêncio, sem saber ao certo como terminar aquilo.

- Tenha um bom sábado, Edward. Cuide-se.

- Pode deixar. Acho que as coisas vão finalmente começar a ficar certas.

- Eu torço pra que você esteja certo. Vou torcer pra que você fique bem.

- Obrigado.

Ela finalmente desligou, me deixando no silêncio que ecoava nas paredes da minha casa outra vez.

Olhei para o relógio em meu pulso e constatei que eram 13:15h. Lembrei de Isabella em meu quarto e fui, mais uma vez, ver se ela já havia acordado.

Ao abrir a porta, me deparei com ela ainda na mesma posição, como se não tivesse se passado nem um minutos desde que a vi pela última vez. Eu começaria a me preocupar com a possibilidade de ela estar morta, se não fosse sua respiração tranquila e pesada, indicando que ela ainda dormia profundamente. Aquele som me trouxe um pouco de paz momentânea, então sem saber direito o motivo, deitei ao seu lado e fiquei assistindo-a dormir.

Ela parecia feliz. Não que estivesse sorrindo, mas a serenidade em seu rosto dava a ela uma aparência muito melhor do que na noite anterior, quando eu podia ver a tristeza em seus olhos. Agora, vendo-a daquela forma, ela parecia estar simplesmente bem, e isso fez com que eu me sentisse repentinamente feliz.

Não sei por quanto tempo fiquei ali, de lado, olhando para ela. Não tentei me concentrar em nada específico, mas me peguei atento ao som baixo do ar que ela respirava, no movimento leve de seu peito subindo e descendo, de suas pálpebras muito quietas, provando que ela não sonhava. Sem me dar conta, minha mão esquerda foi parar em seus cabelos, tocando sua cabeça com muita suavidade e deixando os longos fios passarem por entre os dedos. Pela primeira vez, pude vê-la reagir timidamente a algum agente externo à sua inconsciência, suspirando profundamente e voltando a dormir profundamente segundos depois.

Eu não sabia como lidar com aquilo. Não sabia como reagir à situação atual. Ela havia me confessado o que sentia por mim, e eu deveria fazer o mesmo. Eu faria o mesmo, isso já estava decidido, mas será que tudo ficaria realmente bem depois disso? Nossa história nunca havia sido um conto de fadas, Isabella ainda guardava muitas mágoas. Eu mesmo estava machucado também, pelo passado e pelo medo de me jogar de cabeça em um relacionamento. Como se não bastasse, esse relacionamento, em particular, parecia ser bem mais complicado do que outros. Eu poderia sair machucado de alguma forma, ela também, e para reforçar minha insegurança, Victoria parecia temerosa também.

De qualquer forma, minha decisão havia sido tomada. Eu entraria naquilo, nem que fosse correr o risco de acabar ferido. Se não havia como viver sem ela, então eu teria que aguentar consequências desagradáveis caso elas viessem. Eu agiria ainda naquele dia. Era só ela acordar.

Isabella finalmente se mexeu na cama, se aproximando mais de mim, encostando sua cabeça em meu peito. Me perguntei se ela havia, mesmo que inconscientemente, percebido minha presença ali. Talvez tivesse sentido o calor de mais um corpo ao seu lado, então quis ficar mais confortável perto dele. O que quer que tenha sido, fiquei muito parado para não acordá-la, mantendo-a em um abraço suave perto de mim, enquanto ela voltava à tranquilidade inicial de seu sono.

Não sei por quanto tempo fiquei ali, e não fazia questão de saber. Estar com ela era tão bom que todos os pensamentos sobre inseguranças e medos foram apagados instantaneamente da minha cabeça, e então me permiti saborear o momento, tendo-a junto a mim, em meus braços, tranquila e bem. No final das contas, eu não poderia querer nada além disso.

Isabella se mexeu novamente. Dessa vez, para o lado oposto, se afastando de mim e saindo de meus braços. Eu havia cochilado sem perceber, e seu movimento fez com que eu despertasse. Quando finalmente consegui me situar, olhei para meu relógio de pulso e vi que agora já passavam das 17h. O que havia de errado com ela? Seria possível estar assim tão cansada?

Encostei em sua testa para verificar se ela estava com febre. Não estava. Observei-a por mais algum tempo, como se pudesse ver algo que me indicasse que ela não estava bem. Mas ela continuava dormindo tranquilamente, então tive que chegar a conclusão de que aquilo só poderia ser cansaço mesmo.

Com cuidado, levantei da cama e acendi uma luminária do lado oposto do quarto, porque o dia já começava a escurecer. Saí do quarto, ainda incomodado com o fato de ela estar assim tão exausta. Quantas noites ela havia ficado sem dormir? Pelas olheiras que pude ver na noite anterior, pareciam ser muitas. Será que ela estava se alimentando direito? Não, não estava, do contrário não estaria tantos quilos mais magra, parecendo ainda mais frágil e quebrável.

Eu queria perguntá-la se ela estava bem, mas ela parecia estar tão confortável ali que eu não tinha coragem de acordá-la e tirá-la daquela paz. Então me conformei e esperei.

Voltei à cozinha com meu laptop. Abri meus e-mails e comecei a lê-los. respondi alguns e ignorei outros, li alguns documentos “urgentes” e tentei me informar das decisões tomadas enquanto estava afastado da empresa. Nada parecia ter mudado muito, e eu devia à Victoria o contínuo andamento dos negócios.

Me aprofundei na leitura, mesmo que constantemente eu perdesse o fio da meada e voltasse a lembrar da garota em meu quarto. Da noite que passamos juntos, dos dias que viriam a partir de agora. Não sei por quanto tempo fiquei ali, quando finalmente ouvi um barulho.

Só podia ser ela. Olhei para o relógio, que marcava quase 19h. Tudo bem, pelo menos agora eu tinha certeza de que ela não estava em coma ou coisa assim. Quase que imediatamente, ela surgiu na cozinha, andando com muito cuidado sem nem perceber minha presença ali.

Meu corpo ficou imediatamente tenso. Senti o nervosismo repentino me tomando pelo simples fato de vê-la ali. Embora nós tivéssemos passado a noite juntos, a presença dela ainda me deixava nervoso, de uma forma que eu não sabia como controlar.

Engoli em seco e tentei manter minha respiração constante, mas fui tomado outra vez por uma raiva incoerente ao ver aquele maldito vestido justo e aquele salto agulha nela. A lembrança da noite anterior me machucou novamente. Seus lábios com um batom berrante me dizendo seu preço pelo programa. Sua indiferença em se assumir como prostituta. Suas feições escondidas por uma maquiagem vulgar e chamativa.

Me apressei em tentar parar de remoer tudo aquilo, mesmo porque agora eu notava o que ela estava fazendo: Como quem não quer ser notado, ela caminhava cautelosamente para a saída. Era isso que ela tinha em mente? Ir embora e me deixar ali?

Não. Ela não iria embora.

Tossi de maneira educada, unicamente para alertá-la de minha presença ali. Ela ouviu, e então parou imediatamente. Não sei se ela fez aquilo de propósito, mas para mim pareceu ser em câmera lenta o jeito como ela se virou para me encarar de frente. Talvez tudo não passasse da minha imaginação, mas quando nossos olhares finalmente se encontraram, senti uma conhecida onda de calor percorrer meu corpo do último fio de cabelo até os pés. Fiz força para parecer calmo, mas devia estar falhando miseravelmente.

- Por que não me acordou?

Ultimamente, sempre que ela quebrava o silêncio, eu era pego de surpresa. Dessa vez não foi diferente.

- Você parecia exausta.

Ela não respondeu, me olhando como quem pensa em uma resposta boa para dar. Fitei-a por algum tempo, me dando conta agora de seus hematomas expostos em seus braços, pescoço e pernas. Sua boca ainda estava muito inchada, e mesmo que nada daquilo a deixasse menos bonita, me amaldiçoei por ser o responsável por todas aquelas marcas, como sabia que faria assim que a visse direito.

Lembrei de que agora passavam das 19h, e que ela não havia comido nada ainda.

- Coma o que quiser. — Falei, apontando para a bancada ao meu lado, ainda com tudo o que havia deixado para o café da manhã dela.

- Não estou com fome.

Ela não estava com fome? Como era possível? De qualquer forma, estava fora de cogitação deixá-la sair sem comer nada. Eu sequer sabia há quanto tempo ela estava sem nada no estômago, mas só o tempo que Isbella estava na minha casa já era bastante.

- Quer ter uma crise de pressão baixa ou de hipoglicemia no meio da rua? Sabe há quanto tempo você está sem comer?

Eu não queria que parecesse que eu estava dando ordens, mas ela tinha mesmo que comer alguma coisa. Será que ela tinha desenvolvido a mania de não comer? Por isso estava magra daquela forma? Eu não poderia permitir isso, porque cedo ou tarde ela acabaria doente.

Virei para pegar o café, ainda quente na cafeteira, e o servi em um copo grande, empurrando para ela em seguida.

- Senta.

Ela fez o que pedi, indo se sentar em um dos bancos do balcão e ficando agora muito próxima a mim. Senti outra vez meu corpo ficar tenso por sua aproximação, mas me forcei a agir normalmente, oferecendo a ela o açúcar.

- Obrigada.

Optei por não responder, porque se o fizesse, minha voz sairia trêmula, entregando todo o nervosismo que eu tentava esconder. Voltei a sentar à frente do meu laptop aberto, fingindo ler com atenção o que quer que estivesse na tela. Eu não saberia nem dizer se o computador estava ligado, porque toda minha atenção estava nela. Isabella não pareceu notar que eu a observava pelo canto do olho, e quase protestei ao notar que ela não estava comendo quase nada. Mas não queria deixá-la pouco à vontade com minha intromissão, então achei melhor ficar calado.

Quando ela bebeu o último gole de café e limpou sua boca com o guardanapo, me apressei em levantar e pegar as chaves do carro. Já estava escuro, e eu queria já ter feito o que tinha em mente ainda de dia.

Segurei a porta para que ela saísse, e notei que ela não sabia ao certo o que fazer. Ainda tentando manter meu nervosismo para mim mesmo, optei por continuar calado, enquanto entrávamos no elevador.

A descida até a garagem foi silenciosa. Isabella encarava o chão, obviamente evitando meu olhar. Fitei-a durante todo o percurso, e a vontade de abraçá-la e beijá-la já estava começando a me dominar, até que minha atenção foi chamada pela nossa chegada.

Segui para o carro, tentando apressar as coisas o máximo possível. Abri a porta para que ela entrasse, então notei que ela estava longe, olhando para os lados como quem procura a saída. Quando finalmente me encarou, ela pareceu entender o que estava acontecendo, então entrou no carro e eu dei a partida, nos tirando de dentro do prédio.

Mesmo com pressa, dirigi com calma pelas ruas um pouco movimentadas. Queria tirar a impressão que provavelmente havia passado a ela de que eu era um louco dirigindo, por isso tentei me concentrar nos sinais e nos cruzamentos, mesmo que minha atenção estivesse na garota ao meu lado.

Estávamos em silêncio outra vez. Na verdade, tudo parecia mais fácil quando eu não tinha que dirigir a palavra a ela ou olhar dentro de seus olhos. Ainda assim, a ausência de palavras entre nós estava me incomodando. Diferente do silêncio que antigamente eu podia manter entre mim e ela, agora parecia que nós estávamos nos evitando unicamente porque não sabíamos como agir. Essa era uma situação pouco confortável, principalmente porque eu sabia que não deveria me sentir assim ao lado dela.

Me inclinei para frente, alcançando o aparelho de som no painel e colocando para tocar a música pausada. Após algum tempo, Isabella encostou sua cabeça no banco e fechou os olhos, suspirando com força. Parei em um sinal e fiquei observando-a por um bom tempo. Ela parecia nervosa, mas ao mesmo tempo eu tinha a impressão de que ela estava se acalmando aos poucos. Com a música talvez.

Voltei a colocar o carro em movimento, olhando para frente enquanto tomava coragem para dirigir a palavra a ela outra vez.

- Gosta?

Notei pela minha visão periférica que ela havia aberto os olhos e me encarado. Depois de algum tempo, olhou para trás como que para se certificar de que não havia alguém no banco de trás esse tempo todo e ela não houvesse notado. Esperou mais um tempo em silêncio, então finalmente decidiu me responder.

- Sim.

- Sou eu.

Continuei encarando a estrada à nossa frente, mas ainda pelo canto do olho pude notar que ela continuava me encarando como se eu estivesse me transformando em algo nojento e verde. Olhei rapidamente para ela, mas desviei outra vez meus olhos para a estrada.

- Tocando. — Continuei — Eu toco piano.

Eu nem sabia o motivo de estar falando aquilo. Nunca quis me gabar de qualquer habilidade que eu tivesse, mas eu queria parecer talentoso para ela.

- Ah. É lindo.

Ela falou e logo depois deixou escapar um riso baixo. Fiquei imaginando se ela relmente havia gostado. Eu queria que ela tivesse gostado.

- Obrigado. — Falei cordialmente, e então me calei. Como ela não puxou nenhum outro assunto, presumi que talvez o melhor realmente fosse ficar em silêncio.

Dirigi mais alguns quilômetros, tentando me lembrar dos caminhos pelos quais havia passado na noite anterior, e pouco tempo depois já havia reconhecido o lugar.

- Me guie. — Disse a ela, querendo saber onde exatamente ela estava morando.

Ela me deu algumas intruções, então chegamos à uma rua bastante estreita e feia.

- É aqui, obrigada.

- Você mora em um galpão? — Tentei parecer brincalhão enquanto falava olhando para um portão de ferro descascado do lado da janela de Isabella.

- Não, é no final da rua. Mas eu vou andando.

Não escutei suas últimas palavras, e já andava um pouco mais com o carro até chegar na esquina do outro lado da rua.

- Aqui? — Perguntei.

- Sim.

Então desliguei o carro, tirei o cinto e saltei. Subi os poucos andares que separavam a calçada do interior do prédio, e alcancei a porta, mantendo-a aberta para ela. Isabella passou por mim um pouco confusa, então acionei a segurança do carro e segui atrás dela.

Quando ela chegou à escada, se virou para mim e, olhando nos meus olhos, me dirigiu a palavra.

- Certo...

- Qual é o andar? — Perguntei imediatamente.

Ela ponderou por um momento se deveria dizer, mas ao final, falou.

- Sexto.

- Estou logo atrás de você.

Ela continuou me encarando, então por um momento eu me perdi naqueles olhos outra vez. Para nossa sorte, ela não parecia estar tão compenetrada naquela ligação quanto eu, talvez preocupada ou surpresa com minha atitude, então se virou lentamente de costas e começou a subir. Fiquei feliz com sua atitude de não me proibir ir atrás dela.

Subimos os seis andares, então ela parou à frente da porta para procurar suas chaves dentro da bolsa que carregava. Mais uma vez, fiquei observando-a sem a menor discrição, e não me importei em achar que isso estava fazendo com que ela ficasse nervosa ou pouco à vontade.

- Olha... Está uma bagunça.

- Ok. — Eu deveria dizer a ela que o estado do seu apartamento agora era a coisa que menos me importava no mundo?

Ela abriu a porta e nós dois entramos. Me vi em um apartamento apertado e com paredes encardidas, um único sofá-cama ainda desfeito com uma pilha de roupas na frente de uma TV muito antiga, que também servia como prateleira para mais uma pilha de roupas. Ambos estavam no meio da sala, e no canto oposto pude notar algumas bolsas e malas.

Me senti mal sabendo que ela estava morando em um lugar tão pouco confortável, mas tentei me manter neutro. Sem pedir permissão, caminhei até uma das malas abertas do lado oposto da sala e tirei de lá uma camisa branca e uma calça jeans comum, estendendo a ela logo em seguida.

- Tire esse vestido. — Eu não queria que ela achasse que era uma ordem, por isso me apressei em ser educado — Por favor.

Ela continuava olhando diretamente para meus olhos, e por muito pouco não me senti derreter e partir para cima dela. Mas Isabella cortou meus pensamentos, caminhando em minha direção. Meu coração provavelmente começou a bater alto, então ela pegou de minhas mãos o conjunto que eu a oferecia e desviou de mim, indo até a mala aberta e tirando de lá uma calcinha limpa, caminhando para o banheiro com as três peças de roupa na mão logo em seguida.

Ouvi o clique da porta sendo trancada e então suspirei. Tentei retomar minhas forças, e então comecei a fazer o que tinha que fazer.

De uma só vez, peguei a pequena pilha de roupas em cima da tv e coloquei-as dentro da mala já aberta no chão. Fechei-a, pegando outra mais vazia e coloquei a outra pilha de roupas dentro, tirando também os lençós do sofá-cama e guardando na mesma mala.

Recolhi os pares de sapatos e a bolsa de mão que estava com ela, colocando tudo em uma bolsa e deixando um par de tênis verdes para que ela calçasse quando saísse do banho. Olhei em volta e me certifique de que tudo estava guardado, então transferi o conteúdo de uma mochila pouco ocupada para outra bolsa e deixei-a vazia sobre o sofá.

Fiz duas viagens de escada para levar toda a bagagem até a mala do carro. Coloquei o par de tênis perto da porta e desarmei a cama, transformando-a novamente em um sofá. Então, sem mais nada a fazer, sentei e esperei que Isabella terminasse seu banho.

Algum tempo depois, que me pareceu longo, ela finalmente saiu. Permaneci sentado, enquanto sua figura entrava no meu campo de visão. Blusa branca comum, jeans rasgados, os cabelos molhados e descalça. Não era a primeira vez que eu tinha a impressão de sentir o frescor da sua pele recém enxugada só de olhar para ela, e embora ela estivesse vestindo roupas casuais e nem um pouco atraentes, por pouco não sorri ao vê-la daquela forma. Ela ainda conseguia estar linda, até mesmo com aquelas roupas, e fiquei grato por não estar mais usando aquele vestido abominável e aqueles saltos ridículos.

Tomei fôlego e me levantei, indo de encontro a ela, e pela primeira vez pude notar o ar de surpresa em seu rosto. Tirei de suas mãos o bolo de roupas sujas e coloquei dentro da mochila vazia sem olhar. Passei por ela e abri o armário do banheiro, empacotando sem prestar atenção todos os produtos ali. Alcancei a sandália de salto e guardei-a, peguei a toalha e chequei uma última vez para me certificar de que nada havia sido esquecido. Então, saí do banheiro, tentando guardar na mochila já cheia a toalha molhada.

Finalmente consegui fechar o ziper, então encarei-a outra vez, e ela continuava na mesma posição de antes. Pela primeira vez me dei conta de que eu não havia dito a ela do que se tratava aquilo tudo, e que ela devia estar muito confusa. Eu estava tão concentrado na minha estratégia que esqueci de esclarecer as coisas para ela.

Bem, de qualquer forma, agora ela provavelmente havia se dado conta do que estava acontecendo. Eu não precisava explicar nada.

- Tem alguma coisa na geladeira?

Ela negou com a cabeça, ainda muda, com os olhos levemente esbugalhados fitando nenhum ponto específico em minha barriga. Notei que ela tremia, e imediatamente me senti um idiota outra vez.

- Vem.

Querendo que ela se sentisse melhor, me apressei em chegar mais perto dela, então peguei sua mão com firmeza, tentando passar um pouco de confiança e apoio. O que eu tinha em mente não aconteceu, primeiro porque Isabella pareceu começar a tremer com ainda mais violência, segundo porque eu mesmo vacilei com o choque resultante de nosso contato.

Ainda assim, tentei parecer firme, apertando com o máximo de cuidado e delicadeza sua mão. Guiei-a para a saída. Ela calçou o tênis que a esperava na porta e então nós saímos. Tranquei o apartamento com as chaves dela e a acompanhei pelas escadas. Quando chegamos ao carro, ela ainda parecia um pouco atordoada. Abri a porta do carona e ela se acomodou no banco.

- Fica aqui. — Eu comecei, fechando a porta do carona — Onde mora a dona do seu apartamento?

Ela demorou um pouco, mas finalmente pareceu lembrar o número do apartamento da mulher.

- Eu já volto.

Como não sabia o que estava passando pela cabeça dela naquele momento, achei muito arriscado deixá-la sozinha dentro do carro e simplesmente sumir dali. Eu não sabia o que ela estava arquitetando. Talvez imaginar que ela estava tramando uma fuga enquanto eu subia as escadas do prédio fosse fruto da minha cabeça doente ou do meu pavor em perdê-la outra vez, então antes que pudesse raciocinar com um mínimo de razão, tranquei-a dentro do carro e entrei no prédio novamente.

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Bati no número que Isabella havia me informado, e não demorou muito até que uma mulher baixinha e enfezada abrisse a porta.

- Boa noite. — Comecei, não querendo perder tempo — A senhora deve estar lembrada da Isabella, do 611. Houve um imprevisto e ela está indo embora. Aqui estão as chaves do apartamento.

Ela me olhava com curiosidade, mas eu não me importei. Tirei do bolso o talão de cheques e o preenchi com um valor que eu sabia que cobriria o mês de aluguel incompleto.

- Aqui. Provavelmente ainda não completou um novo mês do aluguel, então isso é para que ninguém saia perdendo. Muito obrigado, tenha uma boa semana.

Virei de costas e desci as escadas, deixando a mulher inspecionando o cheque em uma das mãos e com as chaves na outra. Entrei no carro sem olhar para trás, dando a partida e nos tirando daquele lugar horrível o mais rápido possível. Isabella olhava para frente com a expressão ainda confusa, mas parecia não ver realmente. Eu queria perguntar se estava tudo bem, mas temi que minha pergunta fizesse com que ela reagisse de forma inesperada. Eu não duvidava completamente que ela pudesse simplesmente começar a me agredir, ou o que era pior, cair no choro.

Optei por ficar em silêncio. Dirigi o caminho inteiro tenso por notar que ela não parava de tremer. Vez ou outra eu olhava para ela, sem fazer questão de disfarçar, mas ela parecia não notar. Então guiei o carro em uma velocidade um pouco maior do que o normal, para que chegássemos logo ao nosso destino e ela pudesse ficar confortável.

Pouco tempo depois, estacionei na garagem e saí do carro, pegando do banco traseiro a mochila, entregando imediatamente as chaves para Marcos e dando-lhe algumas poucas instruções. Fui até a porta do carona e a abri, oferecendo a ela ajuda e apoio para sair.

- Vamos.

Ela se levantou ignorando minha mão estendida, então senti um frio na barriga. Eu não ficaria surpreso se ela começasse a ser hostil, mas isso com certeza acabaria comigo.

Voltei-me para Marcos, que ainda esperava o resto das instruções enquanto mantinha a porta do elevador aberta para nós.

- Toque a campainha quando trouxer tudo, por favor.

- Sim senhor.

A porta se fechou, então mais uma vez éramos só nós dois com nosso silêncio. O elevador subiu vagarosamente, enquanto Isabella franzia a testa, talvez tentando formular perguntas. Eu a observava de perto, mas ela também não reparou nisso.

- O que está acontecendo?

Ainda que eu estivesse olhando para ela, sua repentina pergunta me pegou de surpresa. Ela agora olhava para mim, então tive que lembrar que o elevador havia chegado ao meu andar e que nós deveríamos sair para o apartamento. Demorei um pouco para voltar de minha distração, mas por fim consegui fazê-lo, já segurando a porta para que ela passasse.

- Você sabe o que está acontecendo.

Esperei que ela saísse, então parei à frente da porta do meu apartamento e a abri, deixando que ela entrasse primeiro. Nos tranquei lá dentro e segui para o corredor que dava para os quartos. Entrei no primeiro quarto de hóspede e joguei em cima da cama a mochila que eu carregava. Virei de costas e saí, para deixá-la um pouco mais à vontade. Talvez ela precisasse de um tempo sozinha.

Esperando que o resto de suas malas chegassem, tentei arrumar a cozinha, guardando o que sobrou do café da manhã dela que ainda estava em cima do balcão. Deixei meu laptop em meu quarto e tomei um copo d’água para tentar me tranquilizar. Não pareceu funcionar.

Caminhei em círculos pela sala, já impaciente, então a campainha tocou e eu fui atender Marcos, com as coisas de Isabella. Ele me ajudou a colocar tudo para dentro e então foi embora. Peguei todas as malas de uma vez e entrei no quarto de hóspedes onde ela estava. Buscando ainda dar privcidade a ela, deixei as bolsas no canto e saí sem encará-la. Eu daria a ela tempo para pensar, tempo para aceitar que eu não poderia deixá-la ir embora.

Eu não queria pensar que a estava forçando a ficar. Torcia que ela quisesse a minha companhia também, mesmo depois do idiota que eu fui, ou que pelo menos aceitasse morar sob o mesmo teto que eu. O que eu realmente não queria era que ela quisesse ir embora, que ela decidisse me deixar.

Só de pensar que ela estava ali, a alguns metros de mim, já fazia com que eu me sentisse melhor. Eu queria que ela saísse daquele quarto, para que nós pudéssemos conversar, mas entendia que talvez eram muitas mudanças para lidar. Eu daria esse tempo para ela aceitar, e tudo que eu pedia em troca era que ela realmente aceitasse.

Fui tomar banho na tentativa de esfriar a cabeça e melhorar minha ansiedade, mas não adiantou. Agora que ela finalmente estava ali, eu tinha muitas coisas a dizer. Sabia que simples pedidos de desculpas não seriam suficientes, talvez nunca fossem, mas eu precisava começar por algum lugar.

Mas, e se ela não acreditasse em mim? Lembrei de sua reação ao me ouvir dizer que eu me preocupava com ela, e se ela realmente achasse que aquilo era mentira, então meu problema era maior do que imaginava. Como fazê-la entender que eu me arrependi? Como fazê-la acreditar que eu estava morrendo sem ela? E se ela não quisesse ficar?

Quando dei por mim, já estava tomado por um pânico dominante. Respirei fundo algumas vezes debaixo da ducha fria, tentando organizar os pensamentos, mas não obtive muito sucesso. Tentei convencer a mim mesmo que bastava contar tudo pelo que passei sem ela, mas lembrei do que ela havia passado sem mim, e se a situação dela era realmente pior que a minha, essa não era uma forma de tentar fazer com que Isabella tivesse pelo menos um pouco de pena de mim.

Saí do chuveiro mais perdido e com mais medo do que antes. Vesti um pijama novo e, ainda sem saber o que fazer, fiquei observando os carros na rua muito abaixo de mim através da parede de vidro. Talvez tenha ficado lá por muito tempo, então senti uma presença atrás de mim e me virei, sem lembrar que só podia ser ela.

A rápida surpresa fez com que eu sentisse uma repentina alegria em vê-la ali. Ela finalmente havia tido o tempo que precisava para pensar, para encarar a situação. Agora ela estava calma, e nós ficaríamos bem, como deveria ter sido há muito tempo, não fosse minha covardia nojenta.

Lembrei que devia estar tarde, embora eu não soubesse que horas eram exatamente, mas era de se esperar que ela estivesse com fome, já que havia se alimentado pessimamente.

- Está com fome?

- Não. — Ela respondeu, me encarando diretamente nos olhos. Eu já havia desistido de resistir ao poder que eles tinham sobre mim toda vez que ela olhava para mim, então me permiti ficar ali, apenas aproveitando aquela conexão.

- Você precisa comer alguma coisa. — Disse mais para continuar falando do que qualquer outra coisa.

- Não preciso de nada.

- Eu posso preparar alguma coisa pra você.

- Por que está me tratando como a sua boneca?

Me surpeendi com seu tom de voz. Saindo um pouco do transe, comecei a notar que ela parecia hostil, então um medo sensato tomou conta de mim outra vez.

- Eu não estou... — Comecei, mas fui interrompido.

- Por que me trouxe pra cá?

- Não é óbvio? — Perguntei, ainda surpreso que ela não tivesse chegado à conclusão evidente.

- Não, não é.

Observei-a melhor e pude notar que ela tremia um pouco. Eu não queria vê-la nervosa, queria que ela se sentisse bem perto de mim. Queria que ela se sentisse confortável...

- Eu quero que você fique aqui.

- Por quê? Pra tornar a brincadeira de me ignorar mais divertida?

Ignorá-la? Era isso que ela achava que eu queria fazer? Ignorá-la? Como ela podia dizer aquilo? Era óbvio que não sabia o quão importante ela era, porque eu jamais conseguiria fazer isso. Aliás, se eu tivesse conseguido ignorá-la quando tentei, muitos problemas teriam sido evitados.

- Não!

- Então por quê?

Por que ela não entendia? Como ela podia não entender? Era algo tão fácil...

- Porque você tem que ficar aqui.

- Por que você não me dá motivos?

Suspirei, agora encarando a realidade de que eu teria que contar tudo a ela. Que tinha que falar tudo que não foi dito, para que eu mesmo me sentisse menos pior.

- Eu preciso falar com você.

- Sobre o quê?

- Sobre mim.

Ela pareceu hesitar, enquanto pensava em alguma coisa para dizer. Como não encontrou nada, continuou em silêncio me encarando.

- Troque de roupa. Jeans não são confortáveis para dormir. — Falei, tentando quebrar a tensão do ambiente.

- Eu não estou com sono. Você me deixou dormir demais.

Ela não queria tornar as coisas fáceis para mim, e isso estava claro no seu tom de voz. Eu não a culpava, porque sabia que merecia uma reação muito pior dela. Por isso, tentei falar da forma mais doce que consegui, mesmo porque eu não queria deixá-la mais nervosa do que ela já estava.

- Por favor?

Ela não desviou os olhos de mim, e por um momento pensei que Isabella fosse simplesmente ignorar meu pedido e continuar ali, esperando por uma explicação minha. Mas então ela resolveu ceder, se virando para sair. Imaginei o que ela ia fazer e me apressei em falar.

- Não, não quero que você use aquelas roupas.

Ela voltou a olhar para mim surpresa, e eu desejei que ela entendesse o porquê daquilo. Eu não queria vê-la com aquelas roupas porque não queria que ela usasse nada do passado, nada que a fizesse — ou me fizesse — lembrar do tempo que eu queria esquecer. Eu compraria roupas novas para ela, não havia problema algum nisso, mas desejava do fundo do coração que ela abandonasse qualquer lembrança daquela época.

Se ela deixasse, eu tacaria fogo naquele vestido azul.

- Então o que quer que eu use?

Tirei o casaco do pijama que usava e estendi a ela. Fiquei grato por sua atitude quando ela aceitou minha oferta e seguiu para o banheiro, fazendo o que eu tinha pedido. Era claro que eu poderia dizer a ela para simplesmente ficar com a blusa que vestia, mas havia alguns pontos que eu sabia serem problemáticos. Primeiro, eu tinha minhas convicções de que Isabella não se sentiria bem vestindo apenas aquela peça de roupa. Eu adoraria vê-la confortável na minha presença de qualquer forma, mas nossa relação não estava exatamente cem por cento para que isso acontecesse. Segundo, por algum motivo, vê-la usando uma peça de roupa minha era bastante interessante. Ela ficava simplesmente linda. Mais linda do que de costume.

Não demorou muito, então ouvi a porta do banheiro sendo aberta outra vez. Sem esperar pelo meu convite, ela foi se sentar na beirada da cama, no mesmo lugar da noite anterior, então fui para perto dela.

Sentei à sua frente, encarando-a diretamente nos olhos e deixando aquele fogo que eu conhecia tão bem me queimar sem restrições. Eu tinha que me acostumar com esse poder que ela tinha sobre mim, e para ser sincero, me entregar a ele não era nenhum sacrifício.

Então, ela falou.

- Eu não vou ficar aqui. Não sei o que você pretende com esse jogo, mas é melhor eu ir embora antes que...

Congelei.

Era isso. Ela não tinha aceitado, ela não queria ficar. Era toda a verdade, e de repente vi todos os meus medos se tornando realidade: Ela não queria ficar comigo. Ela queria me deixar. Ela não me perdoaria, e eu teria que viver para sempre com a culpa de tê-la afastado de mim. Com a culpa de ter arrancado meu próprio coração do peito. Como eu pude ser tão estúpido?

- Você não vai a lugar nenhum. — Falei rispidamente. Em condições normais, eu teria me preocupado em ter sido indelicado, teria me arrependido por ter parecido arrogante ou petulante, mas naquele momento meu medo era maior do que qualquer coisa.

Ela não podia me deixar, e tudo se resumia nisso.

- Se eu for embora, o que você vai fazer?

Desejei que ela não me provocasse daquele jeito. Era claro que ela não entendia meu desespero, o pânico que eu sentia e a urgência da situação. Mas não era possível que ela não estivesse vendo pelo menos um pouco do meu pavor.

- Eu vou atrás de você outra vez, e juro que te acho. — Falei com angústia, e me senti um pouco menos esmagado pela dor quando ela não respondeu a isso.

Aproveitando seu silêncio, comecei a falar um pouco do muito que tinha a dizer.

- Eu devia ter deixado isso claro ontem a noite, mas eu não vou mais pagar pra ter você. Sempre que eu quiser estar com você outra vez, não vai haver dinheiro algum envolvido nisso. Negue-me se quiser, você tem o direito, mas não ouse cobrar um centavo. Eu não me importo se isso vai contra a sua vontade. Se a vida que você pretendia seguir era essa, tenho que informá-la de que isso não vai acontecer. — Eu não sabia o motivo daquelas palavras, já que eu sabia que aquela não era a verdade. Mas como não estava raciocinando direito, continuei — A partir de agora, você vai ficar nessa casa, vai dormir nesse quarto, mas não tem o direito de ir embora. Se você tentar qualquer coisa desse tipo, eu vou atrás de você e... te prendo aqui! Juro por Deus que faço isso!

Eu tinha notado que as palavras tomavam um tom cada vez mais estridente conforme eu falava, mas não me importei. Se mostrar a ela meu desespero era uma forma de fazê-la ficar comigo, mesmo que por piedade, então valeria a pena. Eu já estava completamente tomado por uma falta de ar angustiante, mas não quis dar sinais disso. Tentei respirar fundo e conter a dor no peito, que aumentava conforme eu me conscientizava mais e mais de que ela não me queria. De que ela não me perdoaria, e de que cedo ou tarde ela poderia achar alguém que a merecesse.

- Ed...

Encarei seus olhos mais uma vez, e então senti uma dor aguda em simplesmente imaginar perdê-los. Estava fora de questão deixar que ela fosse embora, estava fora de questão deixar que ela se afastasse de mim sem lutar por ela. Como um flash, veio à minha cabeça tudo o que eu seria capaz de fazer para ficar com ela, e então comecei a sentir um pouco de medo da minha própria insanidade.

- Você vai ficar comigo, porque não há outra maneira. — Comecei, sem nem pensar direito. Eu sabia que teria que usar as palavras certas quando declarasse toda a verdade a ela, mas naquele momento eu não conseguia raciocinar. Como se quisesse me livrar de toda a dor e medo que eu sentia, simplesmente falei o que refletia minha própria alma, sem preparações ou ensaios. — Eu já fiquei tempo suficiente sem você pra saber o quanto dói. Eu já passei por muitos infernos pra tentar me afastar de você, mas você me marcou de um jeito tão fundo que eu não consigo... Simplesmente não consigo viver sem você. Mesmo que eu quisesse não sentir por você tudo aquilo, mesmo sendo covarde a ponto de fugir de você pra não acabar iludido outra vez... Eu tentei te esquecer e quase morri. De saudade, de desespero, de preocupação, de um vazio tão intenso que eu nem sabia que podia existir.

Eu tentei me afastar pra tentar esquecer o fato de estar nas suas mãos, porque isso estava me matando. Saber que você controlava tudo em mim me fez ter tanto medo que eu fugi, mas estar longe de você só fez com que eu sangrasse mais rápido. E foi tentando afastar a sua lembrança que ela se tornava mais forte. Eu quase enlouqueci, e sei que merecia. Por tudo o que eu fiz e falei, eu sei que mereço sofrer mil vezes mais.

Tudo isso foi porque você era uma garota de programa, eu admito. Admito que entrei em pânico quando me dei conta de que estava apaixonado por você, e fui tão estúpido que não notei que não adiantava mais correr. Eu admito que fui um covarde, um fraco, um imbecil, mas eu preciso que você fique comigo... Eu... Eu exijo que você fique comigo! Não dá pra te esquecer, e eu ainda não sei lidar com isso, mas não pense que eu te ignoro. Eu não poderia te ignorar, nunca. Você é importante demais pra isso.

Quando te vi naquela esquina imunda, daquele jeito, fiquei com tanta raiva que não consegui raciocinar. Eu sei que foi por minha culpa, mas ainda assim, te ver se oferecendo por míseros $ 50,00... Você vale tão mais do que isso, tão mais do que qualquer quantia... E eu preciso te mostrar o quanto você vale, o quanto é importante. Eu queria ter sabido mostrar o quanto me importava com você, queria saber mostrar o quanto lamento por tudo o que eu fiz. Mas eu não consigo, e tudo o que eu posso fazer é te dizer que você é essencial, que você é única.

Não me importo se você me acha louco ou idiota, contanto que fique comigo. Que prometa que não vai me deixar. Eu preciso de você... Tanto que chega a doer. Porque nada na merda da minha vida faz sentido se você não está nela. Você me pediu pra te deixar em paz, mas eu simplesmente não consigo. Porque eu posso tentar te esquecer mil vezes, mas mil vezes eu vou falhar.

A sinceridade em minhas palavras era tão grande que havia me atingido em cheio, e antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo, senti uma lágrima escorrer pelo rosto. Eu não lembrava quando havia sido a última vez em que isso tinha acontecido, não me lembrava de chorar nem nos piores momentos da minha vida. O problema era que aquele poderia ser, facilmente, o pior momento da minha vida. O momento no qual eu me senti mais frágil, que senti mais medo. E toda essa fragilidade e pavor só poderiam ser acalmados pela mulher à minha frente. Justamente a mulher que parecia me dizer adeus, a mesma pela qual eu morreria para não deixar ir.

Ela me encarava com um expressão de choque, e talvez fosse impressão minha, mas eu via um traço de incredulidade. Será que ela realmente podia duvidar de alguma coisa que eu disse? Será que ela realmente não via cada parte do meu coração nas palavras que falei? Ela não podia sentir o quão desarmado, o quão indefeso e entregue eu estava a ela?

- Eu queria merecer você. Sei que te devo muitos pedidos de perdão, e sei que não mereço ser perdoado em nenhum deles. Mas você tem que ser minha... Só minha...

Eu prometo que vou fazer de tudo pra merecer as suas desculpas. Só queria que você soubesse que eu me arrependo, de todo coração, por cada segundo que fiquei longe de você. Me arrependo porque eu acabei me matando aos poucos, mas agora me arrependo o dobro por saber que te fiz sofrer também. Eu sei que faltei com a minha palavra quando disse que ficaria por perto, e eu sinto tanto... Mas, por favor... Você tem que me dar uma outra chance pra estar com você. Sempre.

Ela parecia confusa e incrédula. Parecia perdida, e mais frágil do que o normal. Tive que vê-la chorar outra vez, algo que eu simplesmente abominava, mas por algum milagre, ao final da noite, eu a tive em meus braços.

...

Agora, deitado ao lado dela, observando seu sono, eu tinha total convicção de que precisaria fazer muito mais para conquistá-la outra vez. Eu soube das consequências que minhas atitudes tiveram, consequências muito mais graves do que eu imaginava. Era difícil aceitar que eu havia a machucado tão profundamente, a ponto de mudar sua essência. Era difícil vê-la confessar todo o sofrimento pelo qual teve que passar por minha causa, e tê-la se entregando a mim e me dando outra chance depois de tudo o que causei a ela só me fazia entender que era minha obrigação fazê-la feliz.

Ela ressonou ao meu lado, apertando com mais força meu dedo que estava preso em uma de suas mãos, e então voltou a dormir profundamente. Continuei encarando-a, deixando que uma enxurrada de pensamentos me varresse. A manhã que nos esperava seria difícil. Difícil porque ela ainda estava muito machucada para fingir que tudo estava bem, para fazer com que nossa relação fosse simples e confortável. Eu sabia que precisaria de tempo para vê-la à vontade e retomar sua confiança, mas esse era meu desafio pessoal.

Eu estava em dívida com ela.

E sabia que seria muito difícil pagar o que devia.

Notas finais
Eu sei, eu sei. Demorei muito pra postar esse aqui.
Mas tem vários motivos. Primeiro, a falta de tempo. Como tinha dito antes, a falta de tempo tá complicando minha vida. Depois, tive que viajar há duas semanas atrás, o que ajudou a atrasar. Ainda, Robsten no Brasil. Tive que surtar, e quando surto com Robsten, não consigo pensar em mais NADA. Pra completar, esse capítulo seria bem maior que o normal, como deu pra ver, né? E como se não bastasse, eu não conseguia achar as palavras certas pra postar o POV do Edward, então complicou. :/
Peço a vocês minhas sinceras desculpas. Mas aí está, o capítulo 22.
Corri um bocado pra postar no meio da semana (eu tinha dito que ficaria pronto só no fds)

Enfim, é isso. Capítulo que vem a história segue: A manhã depois de toda a verdade dita entre eles. Ainda não decidi se vai ser POV Bella ou Edward.

É isso então.
Bjos a todas, muito obrigada pelas reviews, de coração!

Mel