De Repente, Amor
20 Capítulo 20
Bella’s POV
Meu corpo doía.
Foi a primeira coisa que pude verificar enquanto, sonolenta, tentava me adaptar com a recém retomada consciência. Sentia meu corpo mais pesado que o normal, o que talvez fosse o fruto de uma noite longa de sono, coisa com a qual eu já havia desacostumado. Ainda que pesasse alguns quilos a mais, eu conseguia sentir com facilidade o nível de relaxamento em que agora me encontrava, e se fosse me deixar levar apenas por esse fato, não teria movido um músculo sequer para mover as pálpebras.
Mas então lembrei do motivo pelo qual eu estava me sentindo daquela forma, e meus olhos abriram imediatamente. Pensei que a luz do dia machucaria meus olhos sensíveis ao sono, porque como bem me lembrava, as cortinas das janelas de vidro estavam recolhidas na noite anterior. Mas, para minha surpresa, isso não aconteceu.
A persiana negra agora estava fechada, fazendo com que o quarto ficasse iluminado apenas por uma luz fraca, vinda de uma grande luminária estilizada do outro lado do cômodo. Estranhei, porque por mais que a claridade exterior estivesse bloqueada, o quarto certamente não estaria com aquela aparência.
Me virei para o lado, ficando agora mais ciente das dores em meu corpo, e constatei que estava sozinha no quarto. O lençol estava todo enrolado em mim, o que podia significar que o ocupante do lado esquerdo da grande cama de casal havia saído de lá há algum tempo. Foi então que reparei no relógio no criado mudo, que mostrava as horas atuais. Meus olhos registraram o número 6:46, mas foram as duas letras posteriores que me fizeram arregalar os olhos.
6:46 p.m.*
- QUÊ?
Levantei rápido, ignorando as dores musculares, e olhei em volta, procurando por outro relógio para me certificar de que NÃO eram quase 19h. Como não achei nenhum, corri para o banheiro e achei sobre a bancada em frente ao espelho um relógio de pulso que agora marcava 18:47h.
- Ah, merda!
Mas onde ele estava, afinal de contas? Por que não me acordou para pedir que eu fosse embora? Por que me deixou dormir quase até as 19h da tarde?
- Merda! Merda!
Levei alguns segundos rodopiando feito barata tonta no mesmo lugar, tentando lembrar onde havia deixado minhas roupas da noite anterior. Finalmente olhei para cima e vi minha calcinha e meu vestido azul pendurados no gancho atrás da porta, a trinta centímetros de mim. Peguei as peças de roupa e me vesti rapidamente, pensando agora em muitas coisas ao mesmo tempo.
Por que ele não havia me chamado assim que acordou e me viu ao lado dele? Eu podia lembrar das poucas vezes em que havia sido permitida dormir na cama de um cliente, e em todas elas eu era acordada às pressas por homens que só queriam que eu fosse embora o mais rápido possível. Aparentemente, essa havia sido a primeira vez em todo esse tempo que isso não havia acontecido.
Onde ele estava? Estávamos em um sábado, e até onde eu sabia, ele só trabalhava de segunda a sexta. Talvez aquele fosse um dia a parte, onde estivesse excepcionalmente ocupado e atarefado. Mas isso não seria coincidência demais? Além do mais, eu tinha minhas convicções que ele não sairia e deixaria uma prostituta sozinha dentro da sua casa. Ele não era imbecil.
Onde quer que ele estivesse, eu tinha uma certeza: Quando o encontrasse, sabia que aquela postura fria e austera estaria lá. Por isso, era bom que eu não começasse a esperar cumprimentos cordiais e palavras doces além de um “Boa tarde, saia da minha casa”.
Esse pensamento só aumentou meu nervosismo em encontrá-lo. Eu queria olhar para ele depois daquela noite, queria vê-lo antes de ter que me despedir outra vez. Poderia ficar fantasiando com aquele beijo, mas eu bem sabia que aquilo não tinha significado nada para ele. Talvez tudo aquilo tivesse sido apenas o resultado de uma possível culpa depois das minhas palavras, ou então algum tipo de alívio pelo seu instinto protetor um tanto quanto estranho comigo, mas não seria nada muito além disso.
Nada que me fizesse ter qualquer tipo de esperança.
Eu precisava de um banho. Podia dizer isso só de lembrar da noite anterior, mas aquilo ficaria para outra hora. Calcei meus sapatos e lavei o rosto apressadamente, bochechando com um enxaguante bucal de menta que estava em cima do balcão e penteando com os dedos meus cabelos, tentando desfazer os nós nas mechas mais próximas à cabeça.
Finalmente me olhei no espelho e me assustei um pouco com meu reflexo. Meus lábios estavam inchados e vermelhos da noite anterior. Meus olhos também estavam inchados e ainda avermelhados, provavelmente pelo choro, e meu pescoço apresentava manchas um pouco escuras. Reparei então que os hematomas se espalhavam pelo resto do corpo, e embora aquilo fosse algo conhecido para mim, não pude deixar de ficar surpresa, já que havia algum tempo desde que a última marca havia desaparecido.
Quando me dei conta de que não ia ficar muito melhor que aquilo, saí já à procura da minha bolsa, que deveria estar em algum lugar do quarto. Encontrei-a pendurada na maçaneta da porta, então me virei novamente e vi uma cama extremamente desarrumada, com lençóis e edredom enrolados e vários travesseiros quadrados e pequenos espalhados pelo chão. Dobrei e arrumei tudo com pressa, colocando cada coisa em seu lugar, e só então pude sair.
Naquele momento, eu não sabia se tentava ser discreta e não fazer barulho até chegar à porta, com um certo receio de ter que encará-lo de novo, ou se ia à sua procura pela casa, podendo usar como desculpa a exigência do pagamento pelo programa da noite anterior.
Optei por caminhar cuidadosamente, tomando cuidado para que os saltos de meus sapatos não fizessem um barulho muito alto e o alertasse de que eu estava prestes a ir embora, onde quer que ele estivesse.
Cheguei até a cozinha olhando apenas para o chão, tendo a porta como meu único objetivo, e foi antes de dar o último passo para girar a maçaneta que ouvi um pigarro atrás de mim.
Virei-me sem muita pressa, finalmente fitando-o nos olhos, enquanto ele se debruçava no balcão com um laptop aberto à sua frente. Eu sabia que não estaria errada em minhas conjecturas, e então vi ali exatamente o que esperava ver: Uma postura fria e dura, embora não fosse completamente indiferente.
Não era a mesma expressão que ele tinha no dia anterior. Por mais severo que ele parecesse agora, seus olhos me mostravam o contrário. Não era pena, compaixão, raiva ou nojo. Eu não saberia dizer o que era, mas ele não estava completamente indiferente a mim, e por menor que isso fosse, senti um sopro de vida me tomar de repente.
- Por que não me acordou?
Fui pega de surpresa pelo som da minha própria voz, e me perguntei quando havia desenvolvido a constrangedora capacidade de pensar em voz alta.
- Você parecia exausta.
Sua voz também tinha o tom frio e seco de ontem, mas como não esperava nada diferente daquilo, não me importei. Ao invés disso, me esforcei para pensar em uma boa réplica para dar, mas não consegui nenhuma.
- Coma o que quiser. — Ele falou, apontando para o lado, e pela primeira vez pude notar a enorme quantidade e variedade de comida ao lado dele. Pães, biscoitos, frutas, sucos, chás e doces estavam espalhados de forma organizada por cima do balcão, enquanto uma cafeteira esquentava o café.
- Não estou com fome.
Era mentira, eu estava faminta, mas não queria bancar a desesperada na frente dele.
- Quer ter uma crise de pressão baixa ou de hipoglicemia no meio da rua? Sabe há quanto tempo você está sem comer?
Me dei conta de que havia muito, muito tempo desde que tinha comido algo pela última vez. Ele não tinha a menor noção disso ao fazer a pergunta, mas ainda assim, estava certo.
Sem esperar pela minha resposta, ele se levantou e se virou para pegar a cafeteira atrás de si, desviando seu olhar do meu pela primeira vez. Despejou dentro de um copo uma boa quantidade de café e o empurrou discretamente para mim.
- Senta.
Sentei-me em um dos três bancos altos que estavam dispostos pelo comprimento do balcão, ficando de frente para ele enquanto era servida de açúcar.
- Obrigada. — Falei em uma voz muito baixa.
Ele não respondeu, e ao invés disso foi novamente para o lado, sentando-se à frente do laptop e se esquecendo da minha presença ali. Agradeci por isso, ficando mais à vontade sem que ele estivesse me observando. Era óbvio que isso indicava que, para ele, minha presença ali continuava sendo tão importante quanto a de um grão de poeira, mas ao menos ele não havia me expulsado como imaginei que fosse fazer assim que me visse de pé.
Bebi todo o café e comi três torradas sem recheio algum. Não mais que isso. No exato momento em que havia terminado, Edward fechou seu laptop e se levantou, indo de encontro às suas chaves em cima de uma bancada lateral, o que me fez ter a impressão de que, primeiro, estava ansioso para que eu fosse embora, e segundo, esteve prestando atenção em mim o tempo todo.
Me senti mal por ter sido o motivo de tê-lo prendido em casa, atrapalhando qualquer que fosse seu compromisso. Desejei profundamente que ele tivesse me mandado embora, no final das contas, ou que eu tivesse acordado mais cedo. Mas era tarde para ficar me lamentando.
Me virei e encontrei Edward já segurando a porta aberta para mim, então me apressei em deixar a cozinha, tentando lembrar se não havia me esquecido de nada. Relaxei um pouco ao me dar conta de que havia trazido muito pouca coisa para que algo pudesse ser esquecido. Segui-o quando ele entrou no elevador, mantendo minha cabeça baixa durante todo o percurso da cobertura até o térreo. Quando o elevador finalmente parou, notei que agora estávamos na garagem outra vez, e então eu não sabia para onde ir. Só quando ele alcançou a porta do carona e a manteve aberta para mim, me olhando despreocupadamente enquanto esperava que eu me mexesse, me dei conta de que ele me daria uma carona.
É claro. A situação era estranha e desconfortável, mas ele era, antes de mais nada, um cavalheiro. Mesmo com sua quase bipolaridade, eu deveria imaginar que ele seria educado naquela ocasião, já que a hostilidade que eu esperava inicialmente não havia se manifestado.
Mais por reflexo do que qualquer outra coisa, me apressei em sentar no banco do carona, e pouco tempo depois saíamos da garagem outra vez.
Lembrei do dia anterior, quando eu estava naquele mesmo banco e não sabia o que esperar da noite. Agora que tudo havia passado, eu sabia que estava me aproximando da tal despedida que sabia ser necessária. Mesmo que eu tivesse me condicionado a aceitá-la e lidar com ela, eu sabia que não seria assim tão fácil, e só teria a noção exata do estrago que faria em mim quando estivesse vivendo o momento.
Por hora, eu poderia quase dizer que estava confortável ao seu lado, enquanto as árvores e postes das ruas à nossa volta iam ficando para trás. O silêncio, mesmo ainda sendo desagradável, já não era tão sufocante, e não era como se eu quisesse exigir dele uma posição por tudo o que eu havia lhe confessado na noite anterior.
Eu não queria ouvir seus argumentos, porque sabia que eles levariam a uma conclusão dolorosa. Eu poderia estar apaixonada por ele, e ele poderia saber disso agora. Mas eu não esperaria nada mais além daqueles dois simples fatos, então não precisava de uma resposta ou uma opinião sobre o assunto. Ele havia aceitado a verdade aparentemente sem se incomodar, o que já era muito. Mas era hora de cada um seguir com as suas vidas, o que no final acabaria acontecendo de qualquer forma.
Edward se inclinou para frente e ligou o rádio, então pude ouvir uma música calma e suave cuja melodia era desenvolvida apenas por um piano e nada mais além disso. A gravação não parecia ser profissional, podendo-se escutar um leve ruído ao fundo, mas isso não era o suficiente para tirar a beleza da música.
Encostei a cabeça no banco e me deixei levar pela tranquilidade e paz que ela transmitia, enquanto tentava esquecer da dor no peito, agora crescente com a aproximação do momento em que eu teria que aceitar o afastamento dele da minha vida.
- Gosta?
Abri os olhos imediatamente, olhando para ele. Ele continuava compenetrado na estrada, e eu poderia até dizer que ele não estava falando comigo se não fosse pelos fatos de não haver mais ninguém no carro, de ele não estar com um celular no ouvido e de não ser esquizofrênico para falar sozinho.
- Sim. — Respondi depois de alguns segundos me certificando de que a palavra tinha realmente sido dirigida a mim.
- Sou eu.
Continuei encarando-o, sem entender muito bem. Ele me encarou rapidamente, e falou outra vez.
- Tocando. Eu toco piano.
Claro, era do feitio dele saber fazer essas coisas bonitas e que exigiam algum talento especial. Talvez ele também escrevesse poesias ou coisa assim.
- Ah. É lindo.
Foram as únicas palavras que consegui dizer, antes de parar de encará-lo como uma psicopata e desviar os olhos dele, voltando à minha posição original.
- Obrigado. — Falou cordialmente.
Aquilo foi o máximo de interação que houve entre durante todo o percurso. O caminho de volta poderia parecer mais longo se eu levasse em consideração que, agora, ele não corria como um louco, costurando o trânsito como fizera na noite anterior. Mas como eu queria estar na sua presença pelo máximo de tempo possível, não pareceu demorar muito até que finalmente tivéssemos chegado ao meu bairro.
- Me guie.
Eu não queria que ele soubesse onde eu morava, mas imaginei que meus esforços para convencê-lo a me deixar em qualquer lugar próximo seriam em vão. Por isso, dei algumas poucas instruções a ele, e antes que pudesse me arrepender, já estávamos na minha rua.
- É aqui, obrigada.
- Você mora em um galpão? — Ele falou, apontando de forma debochada para o portão à nossa frente, no início da rua.
- Não, é no final da rua. Mas eu vou andando.
Antes que eu pudesse abrir a porta e sair, ele já havia andado com o carro outra vez. Teria sido mais fácil falar que sim, eu morava em um galpão.
- Aqui? — Falou, enquanto parava no último prédio antes da esquina.
- Sim.
Ouvi o carro sendo desligado, então senti um baque no estômago, mas fiz força para não deixar transparecer. Aquilo seria tanto estranho quanto triste, porque além de não saber como me despedir dele, eu não queria. Mas de qualquer forma, poucas coisas na minha vida haviam sido do jeito que eu queria, então não deveria ser tão difícil a tarefa de deixá-lo.
Não deveria ser tão difícil, exceto pelo fato de que era. Não apenas difícil, mas insuportavelmente doloroso.
Enquanto eu pensava em algo para dizer, mesmo algo inútil que só servisse como uma última palavra, ele saiu do carro. Aparentemente, tudo que ele faria aquele dia me pegaria desprevenida, então fiquei outra vez surpresa com sua atitude, saindo imediatamente do carro para entender o que ele estava fazendo.
Me dei conta de que havia escurecido quase completamente agora, enquanto o seguia para as escadas do prédio em que eu morava. A essa altura, eu já havia parado de tentar prever suas próximas atitudes, porque nenhuma delas condizia com o que eu imaginava. Passei por ele enquanto segurava a porta para que eu entrasse, então parei ao pé das escadas, virando-me novamente para encará-lo.
- Certo...
- Qual é o andar?
Afinal de contas, o que ele queria? Subir até o meu apartamento?
- Sexto.
- Estou logo atrás de você.
Era exatamente isso que ele queria.
Mesmo que aquilo fosse diretamente contra a minha vontade, eu estava me deixando levar por uma esperança de que talvez ele resolvesse dizer mais alguma coisa caso eu o desse mais tempo ali. Era uma esperança patética, mas ainda assim, virei outra vez para as escadas e comecei a subir, permitindo-o ficar um pouco mais. Mesmo que no final das contas isso só tornasse tudo pior.
Eu subia cada lance de escada pensando no que exatamente ele faria ao chegar no meu apartamento. Ele não parecia muito curioso na noite passada com meu modo de vida, então não havia como imaginar o que ele queria de mim.
Chegamos no sexto andar e andamos um pouco pelo corredor feio e escuro, até chegarmos na porta de madeira que dava para o meu apartamento. Precisei de algum tempo para conseguir abrir a porta, porque estava muito distraída tentando evitar seu olhar enquanto sabia que ele estava me encarando o tempo todo. Quando finalmente achei as chaves dentro da bolsa, hesitei um pouco ao abrir a porta para deixá-lo entrar.
- Olha... Está uma bagunça.
- Ok.
Ok. A frieza dele não ajudava muito no meu nervosismo, mas de qualquer forma, eu jamais esperei um Edward fofo e receptivo e todo “ah, relaxa, nem vou reparar”.
O apartamento estava mesmo uma bagunça na medida do possível. O lugar não poderia estar completamente zoneado porque eu não tinha tantas coisas assim, e também não havia muito espaço pelo qual eu poderia espalhar as coisas. Minha bagunça resumia-se a algumas roupas empilhadas no sofá-cama, ainda desfeito, e outra pilha em cima da tv quebrada. Minhas malas, bolsas e mochila estavam agrupadas em um canto, algumas abertas, e os poucos sapatos que estavam do lado de fora encontravam-se enfileirados pela extensão da parede.
Eu o teria convidado a se sentar se a situação pedisse as boas maneiras, mas ambos sabíamos que aquela não era uma visita casual. Na verdade, só ele sabia do que se tratava aquilo, porque em todo o tempo, ele fazia questão de me deixar confusa e não mover um músculo sequer para começar a explicar o que queria ali.
Uma vez que estávamos nós dois lá dentro, fechei a porta já seguindo-o com os olhos, porque era óbvio que ele já havia escolhido sua próxima ação aleatória. Sem se preocupar em olhar para mim ou me perguntar se poderia, ele se dirigiu até uma das minhas malas e, debruçando-se sobre ela, tirou de lá uma calça jeans e uma blusa branca comum. Ao se levantar, me estendeu as roupas escolhidas enquanto usava sua recente mania de me olhar nos olhos toda vez que me dirigia a palavra.
- Tire esse vestido. Por favor.
Foi aí que notei a mudança na sua atitude. Ele ainda se mantinha frio e distante, mas diferente da noite passada, ele estava resignado. Ontem ele achava que tinha o direito de me tratar daquela forma, como se mandasse em mim. Hoje ele parecia arrependido disso, mesmo que sua postura continuasse dura.
Aceitei as roupas que ele me oferecia, encarando de volta seus olhos, e imediatamente passei por ele, indo também de encontro às minhas malas. De uma delas, tirei uma calcinha limpa e, com as três peças na mão, rumei para o banheiro.
Eu precisava de um banho, o que podia ser uma boa forma de dar a nós dois a oportunidade de nos separarmos de uma forma simples. Se ele também não sabia como ir embora sem que me machucasse — e se ele estava preocupado com isso — então poderia simplesmente partir enquanto eu estava trancada ali. Não haveria drama ou desconforto, então quem sabe assim não fosse o melhor final para nós dois?
Entrei debaixo do chuveiro, sentindo a água gelada machucar minha pele, e me permiti demorar mais do que o normal ali. Ao contrário do que imaginei, eu não estava ansiosa para sair logo e me certificar de que ele ainda estava no meu apartamento. Eu estava calma de alguma forma, talvez porque tivesse aceitado a situação. Isso não significava que a dor no meu peito tivesse diminuído em nada, mas era a hora de lidar com ela, afinal de contas.
Lavei os cabelos e me ensaboei várias vezes, sentindo com isso dores em alguns lugares do meu corpo. Então lembrei do creme que eu usava em situações assim, que ainda estava guardado dentro do armário com espelho em cima da pia, e imaginei qual seria a reação dele se eu decidisse usá-lo. Pelo que me lembrava, aquele perfume fazia coisas estranhas com ele, mas meu objetivo não era tornar as coisas mais difíceis para ninguém. Muito pelo contrário.
Me sequei e vesti as roupas limpas. Penteei os cabelos molhados e peguei as roupas que usava antes, emboladas agora em meus braços, então destranquei a porta e saí.
Minha razão tentava me convencer que ele não estaria mais ali. Meu lado sentimental torcia para que ele estivesse me esperando debruçado no pequeno balcão que separava a sala da quase-cozinha. O fato era que essas eram as duas únicas opções que eu pensava ter, mas ao entrar novamente na pequena sala, fui, mais uma vez, pega de surpresa pelas mudanças no ambiente.
Ele estava lá, sentado no sofá. Minhas malas, roupas e sapatos, não.
Além dele, as únicas coisas que ainda permaneciam na sala eram minha mochila, agora aberta e vazia ao lado dele, e meu par de tênis verde ao lado da porta, que passaria desapercebido se não fosse um verde-limão tão pouco discreto.
Fiquei imóvel, dando tempo ao meu cérebro para encontrar uma explicação para aquilo. Antes que isso pudesse acontecer, Edward se levantou e veio em minha direção, tirando das minhas mãos a bola de roupas sujas e enfiando na mochila. Calmamente, passou por mim e entrou no banheiro, então pude ouvir o barulho de muitas outras coisas sendo jogadas dentro da mochila, o que eu tinha certeza serem os poucos produtos que estavam guardados no armário.
Quando ele voltou para a sala, tentava empacotar junto com as outras coisas a toalha úmida que eu acabara de usar. Quando meu cérebro finalmente conseguiu processar uma possível explicação para tudo aquilo, meu corpo começou a tremer de uma forma violenta e involuntária, enquanto ele agora me olhava e tentava fechar o zíper da mochila em suas mãos.
- Tem alguma coisa na geladeira?
Não consegui responder, mas fiz que não com a cabeça.
Meu corpo estava completamente tomado por uma descarga elétrica muito forte para que eu conseguisse me acalmar. Aquilo que eu estava pensando era uma explicação, e embora fosse aceitável e até plausível, eu lutava comigo mesma para desacreditar nela, enquanto me mantinha na mesma posição desde que havia entrado naquele cômodo. Não era aquilo, simplesmente não podia ser aquilo.
Ele veio para minha frente e novamente me olhou nos olhos, sem nunca deixar de lado sua postura rígida.
- Vem.
Senti sua mão segurar com firmeza a minha, a firmeza que meu corpo agora não tinha. Meus tremores ficaram ainda mais óbvios depois de sentir seu toque quase despreocupado em mim, como se fosse algo tão banal, e eu quase poderia estar envergonhada da minha patética falta de controle se estivesse me importando minimamente com isso.
Não podia ser aquilo.
Sua mão me puxou para a porta, onde meus tênis me esperavam, então senti meu corpo no tão conhecido piloto automático segui-lo para onde ele me guiava. Calcei os tênis sem esforço e saí, completamente atordoada, enquanto esperava que ele trancasse a porta com minhas chaves. Vários lances de escadas depois, eu estava na porta do prédio, me preparando para descer as escadas, enquanto Edward continuava me guiando com uma mão espalmada em minhas costas.
- Fica aqui. — Ele começou, depois de fechar a porta do carona comigo já sentada — Onde mora a dona do seu apartamento?
Fiz um pouco de esforço para raciocinar e lembrar o número do apartamento dela. Depois de algum tempo, consegui dar a informação a ele, ainda muito atordoda para fingir que estava tudo bem.
- Eu já volto.
Ao dizer isso, ele acionou o segredo de trancas no carro, me prendendo, literalmente, dentro dele. Como meus pensamentos pareciam correr em câmera lenta, momentos depois ele já estava de volta sem que eu conseguisse pensar em um motivo para aquilo.
Tudo estava estranho demais.
Por que nenhuma das ações dele faziam o menor sentido para mim? O que ele queria com aquilo? Não, minhas suposições NÃO estavam certas, e eu queria me convencer disso. Mas então, o que diabos estava acontecendo?
O caminho de volta — outra vez — havia sido rápido, e tudo o que eu pude processar do passeio era o rumo que tomávamos a cada quilômetro percorrido, enquanto tentava tomar partido na guerra declarada entre meu lado racional, que insistia em querer me fazer desacreditar no rumo que as coisas tomavam, e meu lado emocional, que me mostrava pouco a pouco que sim, era exatamente aquilo.
Mas não podia ser, porque não fazia sentido. E enquanto eu ficava correndo atrás do próprio rabo com essas divagações, Edward parecia agora com uma postura ainda mais forte e decidida, sem trocar uma só palavra comigo durante o percurso todo.
Finalmente, depois de sabe-se lá quanto tempo, chegamos no lugar fechado no qual eu já estivera há pouco menos de uma hora atrás. Edward parou o carro e saiu, pegando a mochila do banco traseiro e dando instruções a um empregado do prédio, oferecendo-lhe as chaves do veículo.
Permaneci imóvel, sentada e pensando o que eu deveria fazer agora. Meu corpo não havia parado de tremer um segundo sequer até então, e eu rezava para que ele não tivesse notado meu estado de nervos, embora achasse difícil isso não ter acontecido.
A porta ao meu lado abriu repentinamente, me pegando de surpresa e fazendo com que eu pulasse discretamente no assento.
- Vamos.
Automaticamente, segui suas palavras e me levantei, saindo do carro e indo com ele rumo ao elevador, que nos esperava porque o empregado segurava a porta para nós.
- Toque a campainha quando trouxer tudo, por favor.
- Sim senhor. — Respondeu o homem, enquanto fechava cordialmente a porta do elevador, nos trancando lá dentro.
Silêncio.
Eu já estava me acostumando a ficar sempre em silêncio perto dele, a ter sempre medo de ser a primeira a falar, ter medo de a ser hostilizada caso o fizesse. Mas eu nunca havia tido tantas dúvidas na vida, e nunca havia sido privada de tantas explicações. Era como se ele me deixasse cheia de dúvidas propositalmente, e gostasse de me ver completamente confusa e perdida.
- O que está acontecendo?
Era o que eu queria perguntar, e era no que eu vinha pensando durante todo aquele tempo, desde o momento em que não vi minhas coisas no lugar onde elas deveriam estar. Mas foi novamente minha incrível capacidade de falar em voz alta o que eu pensava que me fez elaborar a frase em alto e bom som, quebrando de uma só vez o silêncio do elevador.
Ele me encarou, e no mesmo momento o cubículo em que estávamos parou de subir, enquanto as portas se abriam, indicando que havíamos chegado ao nosso destino.
- Você sabe o que está acontecendo. — Ele disse, ainda de forma fria, enquanto pisava no corredor e segurava a porta para que eu também o fizesse.
Não respondi. Caminhei para seu lado e esperei que ele abrisse a porta. Segundos depois, entrávamos outra vez em seu apartamento. Sem sequer se preocupar em olhar para mim, Edward seguiu para o corredor estreito e escuro, entrando no quarto ao final, e eu automaticamente fui atrás dele. Estava odiando o fato de parecer uma cachorrinha atrás do dono, mas eu simplesmente não fazia a menor idéia de como agir.
Ele finalmente jogou a mochila em cima da cama e, sem dizer mais nada, saiu.
Eu ainda podia ouvi-lo andando de um lado para o outro enquanto permanecia no quarto, sentada na cama baixa, esperando para que meu cérebro conseguisse pensar em alguma coisa para fazer. Olhei em volta e reparei que esse quarto era menor e mais simples que o dele, mas não deixava de ser charmoso. Um quarto de hóspedes.
Depois de algum tempo, ouvi a campainha ser tocada e passos firmes indo para a porta da sala. Dois homens trocaram duas ou três palavras, e momentos depois a porta era fechada novamente.
Edward entrou no quarto que eu estava outra vez, então vi minhas malas e bolsas antes desaparecidas. Ele as depositou no chão com um baque surdo, no canto mais distante, e novamente sem me encarar, saiu do quarto, me deixando sozinha outra vez.
Não me movi por um bom tempo, mas quando meu corpo cansou da mesma posição, me deixei cair de costas no colchão, encarando agora o teto e pensando.
Os fatos eram simples. Edward havia me levado para sua casa sem nem me comunicar a respeito. Eu não sabia qual havia sido o momento exato que ele tivera essa brilhante idéia, mas agora, sozinha naquele quarto sem sua presença para tirar minha concentração, eu tentava imaginar o motivo daquilo.
Se ele estava se sentindo sozinho, um animal de estimação seria uma boa saída, além de ser uma opção mais fácil e menos trabalhosa. Por que ele havia decidido trazer para sua própria casa uma garota de programa que acabara de assumir seus sentimentos totalmente inapropriados por ele?
Talvez, depois de tudo que eu havia dito, o peso da culpa o tivesse atingido de uma forma mais intensa do que eu esperava. Se fosse dessa forma, era apenas uma questão de tempo até que esse sentimento fosse se esvaindo aos poucos, fazendo com que, ao final de um mês, no máximo, ele se arrependesse.
E no final das contas, eu acabaria na merda outra vez.
Bem, talvez fosse melhor se eu resolvesse me impor e simplesmente sair dali. Ele não iria ficar sozinho por muito tempo, porque eu tinha certeza que não era a única opção de companhia para um homem lindo, rico e solteiro.
Na verdade, eu era a pior de todas as opções.
Então por que diabos ele havia me escolhido?
Não fazia sentido.
De repente, me peguei desejando que ele não tivesse feito aquilo. Era claro que sua companhia ainda surtia um efeito impressionante em mim, mas eu não queria morar de favor na casa dele. Ele não era responsável por mim, e seria extremamente desconfortável viver dia a dia com a pessoa que aparentemente havia resolvido começar a me ignorar.
E se o simples fato de ser ignorada por alguém não fosse o suficiente, talvez eu devesse considerar o fato de que ser ignorada pela pessoa que eu amava era. Mais que suficiente, era um pouco além do que eu poderia suportar.
Ele poderia me ignorar longe de mim, então por que escolheu me trancar perto dele para fazê-lo? O que infernos ele queria com isso? Me machucar ainda mais? Me fazer ter sua companhia e, ao mesmo tempo, me sentir sozinha e descartável?
Não fazia sentido, porque ele nunca havia sido cruel.
Mas, fosse como fosse, eu não poderia aguentar aquilo. Se tudo pelo que eu passei até aquele momento não havia sido o suficiante para me derrubar de vez, aquilo certamente seria.
O relógio do criado mudo marcava agora 21:30h, e me espantei por não ter visto as horas passarem. Reunindo toda a força de vontade e coragem que me restavam, levantei da cama e rumei para seu quarto.
Todas as luzes da casa pareciam estar apagadas. Talvez ele já estivesse dormindo. Caminhei devagar pelo corredor, testando meu controle a cada passo. Fui silenciosa, porque não queria que ele pensasse que eu estava perambulando pela casa que não era minha. Cheguei em seu quarto e empurrei lentamente a porta encostada.
Edward estava outra vez de pé, em frente à grande parede de vidro, encarando os carros que passavam muito abaixo de nós. Ele trajava um pijama branco, e parecia pensativo. Ao constatar que eu estava agora dentro do seu quarto, ele virou-se para mim, me encarando com uma expressão satisfeita, e não acusatória por estar invadindo seu espaço como pensei que seria.
- Está com fome?
- Não. — Respondi depois de testar minha respiração algumas vezes.
- Você precisa comer alguma coisa.
- Não preciso de nada.
Ele continuou me encarando, pronunciando cada palavra em um tom de voz tão calmo que chegava a ser invejável.
- Eu posso preparar alguma coisa pra você.
- Por que está me tratando como a sua boneca?
Ele me encarou surpreso.
- Eu não estou...
- Por que me trouxe pra cá?
- Não é óbvio?
- Não, não é.
Eu fazia força para que os tremores no meu corpo não afetassem minha voz, já que eu queria passar um mínimo de segurança.
- Eu quero que você fique aqui.
- Por quê? Pra tornar a brincadeira de me ignorar mais divertida?
- Não.
- Então por quê?
- Porque você tem que ficar aqui.
- Por que você não me dá motivos?
Ele suspirou.
- Eu preciso falar com você.
- Sobre o quê?
- Sobre mim.
Não, eu não fazia idéia do que ele tinha para dizer, mas o que quer que fosse, devia ser algo importante. Só pelo fato de Edward se prestar a manter uma conversa comigo, coisa que ele parecia tentar evitar a qualquer custo nas últimas horas, eu poderia dizer que suas palavras deviam ser dignas de atenção.
- Troque de roupa. Jeans não são confortáveis para dormir.
- Eu não estou com sono. Você me deixou dormir demais.
Outra vez, ele suspirou.
- Por favor?
Continuei encarando-o por algum tempo, mas finalmente tomei a iniciativa de atender ao seu pedido. Virei-me pronta para ir até meu quarto e pegar alguma peça de roupa, mas ele interrompeu meus movimentos quando se dirigiu novamente a mim.
- Não, não quero que você use aquelas roupas.
Encarei-o outra vez.
- Então o que quer que eu use?
Como resposta, ele tirou a parte de cima do seu conjunto e me estendeu o casaco, tão grande quanto o que eu havia vestido na noite anterior. O perfume era o mesmo, o que fez com que meu coração desse um discreto pulo fora de compasso.
Sem mais delongas, entrei no banheiro do quarto e fiz a troca de roupas mais rápido do que o normal. Pendurei minha blusa e minhas calças atrás da porta e saí, encontrando-o novamente virado para a janela, e a semelhança da cena me trouxe a lembrança fresca da noite passada na memória. Fui me sentar na cama e esperei que ele se aproximasse. Quando finalmente se sentou ao meu lado e de frente para mim, mais próximo do que meu auto-controle poderia lidar, as palavras que eu vinha tentando formular saíram de minha boca sem que eu pudesse tentar segurá-las.
- Eu não vou ficar aqui. — Comecei — Não sei o que você pretende com esse jogo, mas é melhor eu ir embora antes que...
- Você não vai a lugar nenhum.
Sua postura ficou imediatamente tensa, e tanto seus olhos quanto seu tom de voz acusavam que aquilo não era um pedido, mas sim uma ordem. Olhei-o espantada, pensando na resposta que daria a ele.
- Se eu for embora, o que você vai fazer? — Instiguei-o.
- Eu vou atrás de você outra vez, e juro que te acho.
Me calei. Ele iria atrás de mim outra vez? Outra vez? Quando havia sido a primeira vez, para início de conversa?
Depois de um longo silêncio, ele começou.
- Eu devia ter deixado isso claro ontem a noite, mas eu não vou mais pagar pra ter você. Sempre que eu quiser estar com você outra vez, não vai haver dinheiro algum envolvido nisso. Negue-me se quiser, você tem o direito, mas não ouse cobrar um centavo. Eu não me importo se isso vai contra a sua vontade. Se a vida que você pretendia seguir era essa, tenho que informá-la de que isso não vai acontecer. A partir de agora, você vai ficar nessa casa, vai dormir nesse quarto, mas não tem o direito de ir embora. Se você tentar qualquer coisa desse tipo, eu vou atrás de você e... te prendo aqui! Juro por Deus que faço isso!
Suas palavras saíam em um jorro, como se ele estivesse confessando pecados íntimos e dolorosos demais. Como se toda a dor que ele sentisse desse a ele o direito de se impor e de dar ordens, de ter seus desejos obrigatoriamente atendidos.
Eu poderia me sentir ofendida de estar recebendo ordens, se não fosse pelo claro e quase gritante desespero que havia em cada sílaba que saía de sua boca. Seu tom de voz tornava-se mais histérico e descontrolado a cada segundo, e talvez ele estivesse enlouquecendo ou simplesmente deixando-se ruir. O que quer que estivesse acontecendo, eu podia dizer que aquele não era Edward em suas perfeitas condições. Ele estava deixando-se levar por algum tipo de medo ou desespero para se impor daquela forma, e sua respiração parecia tão difícil e pesada que eu podia jurar que era uma questão de segundos até que ele caísse aos prantos nos meus braços.
Sua postura fria estava desmoronando, até o ponto em que tudo o que parecia restar à minha frente era um homem tão inseguro e perdido que eu pude sentir algo que jamais pensei poder sentir quando se tratava dele: Pena.
- Ed...
Ele me olhou diretamente nos olhos, e eu vi um medo tão profundo que podia beirar à insanidade.
- Você vai ficar comigo, porque não há outra maneira. Eu já fiquei tempo suficiente sem você pra saber o quanto dói. Eu já passei por muitos infernos pra tentar me afastar de você, mas você me marcou de um jeito tão fundo que eu não consigo... Simplesmente não consigo viver sem você. Mesmo que eu quisesse não sentir por você tudo aquilo, mesmo sendo covarde a ponto de fugir de você pra não acabar iludido outra vez... Eu tentei te esquecer e quase morri. De saudade, de desespero, de preocupação, de um vazio tão intenso que eu nem sabia que podia existir.
Eu tentei me afastar pra tentar esquecer o fato de estar nas suas mãos, porque isso estava me matando. Saber que você controlava tudo em mim me fez ter tanto medo que eu fugi, mas estar longe de você só fez com que eu sangrasse mais rápido. E foi tentando afastar a sua lembrança que ela se tornava mais forte. Eu quase enlouqueci, e sei que merecia. Por tudo o que eu fiz e falei, eu sei que mereço sofrer mil vezes mais.
Tudo isso foi porque você era uma garota de programa, eu admito. Admito que entrei em pânico quando me dei conta de que estava apaixonado por você, e fui tão estúpido que não notei que não adiantava mais correr. Eu admito que fui um covarde, um fraco, um imbecil, mas eu preciso que você fique comigo... Eu... Eu exijo que você fique comigo! Não dá pra te esquecer, e eu ainda não sei lidar com isso, mas não pense que eu te ignoro. Eu não poderia te ignorar, nunca. Você é importante demais pra isso.
Quando te vi naquela esquina imunda, daquele jeito, fiquei com tanta raiva que não consegui raciocinar. Eu sei que foi por minha culpa, mas ainda assim, te ver se oferecendo por míseros $ 50,00... Você vale tão mais do que isso, tão mais do que qualquer quantia... E eu preciso te mostrar o quanto você vale, o quanto é importante. Eu queria ter sabido mostrar o quanto me importava com você, queria saber mostrar o quanto lamento por tudo o que eu fiz. Mas eu não consigo, e tudo o que eu posso fazer é te dizer que você é essencial, que você é única.
Não me importo se você me acha louco ou idiota, contanto que fique comigo. Que prometa que não vai me deixar. Eu preciso de você... Tanto que chega a doer. Porque nada na merda da minha vida faz sentido se você não está nela. Você me pediu pra te deixar em paz, mas eu simplesmente não consigo. Porque eu posso tentar te esquecer mil vezes, mas mil vezes eu vou falhar.
Vi uma única e solitária lágrima cair de um dos seus olhos, então ele pigarreou e respirou algumas vezes repetidas para retomar o controle que havia deixado escapar, enquanto olhava agora para suas mãos.
Continuei encarando-o sem dar o menor sinal de que estava viva, porque a essa altura, minha respiração já estava suspensa há muito tempo, meus olhos estavam ressecados já que eu não piscava, e meu coração... bom, meu coração não devia estar mais funcionando, de qualquer forma.
Esse era o momento que eu poderia dizer qualquer coisa, xingá-lo pela dor que ele me fez sentir, pela sua fraqueza ou pelo seu preconceito. Era o momento que eu poderia agredi-lo por manter a verdade tão longe de mim por tanto tempo, me fazendo pensar que eu era praticamente nada para ele. Era o momento que eu poderia deixar as lágrimas presas na garganta rolarem livremente, fazendo-me sentir mais livre.
Mas eu simplesmente não reagi.
Apaixonado por mim... Eu era importante... Ele precisava de mim...
Aquilo era impossível. Simplesmente impossível. Era muito bom, muito perfeito, um final muito feliz para ser verdade. Finais felizes não aconteciam assim tão facilimente.
Mas por que ele mentiria? E se fosse mesmo verdade? E se eu realmente não fosse só uma puta pra ele? E se ele... Se ele...
Edward’s POV
- Eu queria merecer você. Sei que te devo muitos pedidos de perdão, e sei que não mereço ser perdoado em nenhum deles. — Eu comecei, enquanto tentava ficar um pouco mais calmo ao insistir para mim mesmo que ela não fugiria de mim — Mas você tem que ser minha... Só minha...
Eu sabia que estava sendo um babaca por não parar de dar ordens, sendo que eu não tinha direito nenhum disso, mas não era como se eu estivesse tentando mandar nela. Isabella sempre teria escolha comigo, em qualquer que fosse a questão. Eu me impunha daquela forma não por abuso, mas sim por desespero. Era como se meu instinto de sobrevivência falasse mais alto, e por isso mesmo eu tinha que parecer forte e decidido. Se ela me deixasse, se eu tivesse que tentar viver sem ela outra vez, seria como ter arrancado de mim uma parte vital, que me mantinha de pé. Eu não podia permitir que arrancassem meu próprio coração.
Não era como se eu estivesse lutando por algo que eu desejava. Embora eu a desejasse, era mais do que isso. Havia a necessidade de tê-la comigo. Eu simplesmente não seria forte o suficiente para vê-la se afastar de mim, porque esses meses me mostraram o quanto eu precisava dela. Me mostraram que minhas tentativas de simplesmente ficar longe dela eram tão inúteis e dolorosas quanto as próprias tentativas de deixar de sentir o que eu sentia.
Era verdade, eu não sabia lidar com aquilo. Meu orgulho, por assim dizer, ainda estava ferido. Algo dentro de mim ainda fazia com que eu me irritasse com o fato de ter visto a mulher que eu agora admitia precisar se oferecendo para qualquer um. Era verdade que aquilo era minha culpa, mas meu lado irracional simplesmente odiava vê-la tão disponível a outros homens.
Ela tinha que ser minha. Só minha. Eu a faria feliz e satisfeita sozinho. Eu podia fazer isso, ela não teria que se prestar àquilo outra vez. Eu cuidaria dela, como nunca cuidei de ninguém, e faria suas vontades. E acataria as suas decisões, porque no final das contas, eu sempre estive submisso a ela. Ela sempre me teve nas mãos, e era incrível como nunca se deu conta disso.
- Eu prometo que vou fazer de tudo pra merecer as suas desculpas. Só queria que você soubesse que eu me arrependo, de todo coração, por cada segundo que fiquei longe de você. Me arrependo porque eu acabei me matando aos poucos, mas agora me arrependo o dobro por saber que te fiz sofrer também. Eu sei que faltei com a minha palavra quando disse que ficaria por perto, e eu sinto tanto... Mas, por favor... Você tem que me dar uma outra chance pra estar com você. Sempre.
Eu imploraria, se fosse preciso. A essa altura, orgulho era um luxo que eu não podia me dar, e se ela simplesmente se negasse a ficar, se decidisse sumir da minha vida, eu pediria de joelhos. Não importava até onde eu me rebaixaria, se fosse fazer com que ela me desse uma chance, a chance que eu precisava para mostrar que eu não era um infeliz insensível, eu faria qualquer coisa.
Qualquer coisa. Por ela. Para ela.
Isabella agora mantinha uma expressão tão neutra, tão vazia, que eu cheguei a me perguntar se ela ainda estaria viva. Minhas dúvidas foram respondidas quando ela começou a balbuciar palavras desconexas, em voz baixa.
- Por que... Por que está dizendo essas... O que você quer com...
Embora sua expressão ainda continuasse vazia e seus olhos estivessem um pouco fora de foco, mesmo fitando diretamente os meus, fui pego de surpresa ao constatar que uma quantidade considerável de lágrimas começava a se acumular lentamente neles. Como reação a isso, me movi rapidamente para frente, tomando seu rosto em minhas mãos e falando muito próximo a ela.
- Por favor, não chora...
- O que você quer?
Era tarde. O pequeno lago, antes em seus olhos, agora escorriam livremente pelas suas bochechas, dando imediatamente um tom avermelhado ao seu nariz e olhos. Merda, como eu odiava vê-la chorando.
- Eu quero a sua companhia. Quero a sua pele, o seu olhar. Quero as suas imperfeições e cada pedaço do que te faz ser você. Quero o seu mau humor, a sua teimosia e a sua timidez ao meu lado todo dia, toda hora. Quero o seu sorriso e a sua confiança, mesmo que isso leve algum tempo. Eu espero.
Ela ainda me encarava com aquele rosto lindo, mesmo sem transparecer emoções, e eu continuava encarando-a com todo o amor que transbordava de mim. Eu ainda mantinha seu rosto preso entre minhas mãos, de uma forma suave, e era impressionante como aquele simples toque já fazia com que eu me sentisse tão melhor.
Fui tomado outra vez por uma quase incontrolável vontade de beijá-la, enquanto tentava secar com meus polegares as lágrimas que ainda escorriam por seu rosto. Eu queria simplesmente poder encostar meus lábios nos dela, mas temia sua reação. Isabella não parecia muito ciente do que estava acontecendo, ainda olhando para mim de uma forma distraída, então eu tinha que me certificar de que ela não reagiria de forma inesperada com o beijo.
- Bella...
Eu pediria permissão para beijá-la, embora segurar a vontade de simplesmente invadi-la com a minha língua fosse quase impossível. Meus lábios já roçavam levemente nos dela, enquanto seu nome saía de minha boca, mas não foi necessário esperar muito mais, porque no segundo seguinte ela moldava seus lábios nos meus, sem pressa, sem desespero.
Senti a força da urgência e do desejo me tomando lentamente, mas lutava contra isso para manter aquele beijo do jeito que ela quisesse. Não era difícil beijá-la com ternura, sentindo o doce e lento movimento que sua língua fazia na minha. O problema era desejá-la tão desesperadamente que a tarefa de não atacá-la como um animal no cio tornava-se a cada segundo mais difícil.
Para minha felicidade, o fogo que queimava em mim parecia agora queimá-la também, e seus movimentos ficaram mais urgentes e sensuais. Como se tudo nela me convidasse. Como se nada além dela existisse.
Mas nada além dela existia.
Apertei-a com força contra meu corpo, enquanto a abraçava de uma forma possessiva e a trazia para cima do meu colo. Ela não tentou me impedir, e eu agradeci aos céus por tê-la retribuindo meu beijo e meu abraço com tanta vontade, enquanto eu deixava cada faísca de desejo me consumir aos poucos. Lembrei que deveria estar sendo mais cuidadoso e gentil, porque eu sentia seus lábios levemente inchados da noite anterior e lembrava que havia deixado muitas marcas por toda a extensão de seu corpo. Mas como diabos eu poderia manter meu controle naquele momento? Como poderia resistir minimamente a ela?
Puxei seu casado — meu casaco — para cima, deixando-a parcialmente exposta. Minha boca migrou automaticamente para um de seus seios, enquanto puxava-a contra mim com cada vez mais força. Me concentrei no calor que emanava do corpo dela e se chocava contra o meu, e desejei tê-la ali, daquela forma, para sempre.
Ela voltou a me beijar, agarrando-se em meus cabelos agora com mais desejo do que antes, então me permiti também perder o controle e tocá-la da forma que eu queria. Deslizei uma de minhas mãos para dentro da única peça de roupa que restava nela, e minha respiração tornou-se inconstante quando senti que ela já estava completamente pronta e úmida para mim.
Eu gostava de preliminares, mas como já estava quase a ponto de explodir, qualquer jogo de sedução ficaria para depois.
Virei-a na cama, deitando-a de costas no colchão, e sem cerimônias deslizei para baixo a calcinha que ela usava, enquanto admirava deslumbrado cada centímetro do corpo dela.
- Tira...
Fui pego de surpresa pelo som fraco de sua voz, e só depois de alguns segundos me dei conta do que ela estava falando. Sem muito jeito, tirei com pressa a calça do meu pijama, e voltei a me deitar sobre ela, que se mostrava completamente receptiva a mim. Tomei-a em outro beijo furioso, e depois de algum tempo notei que nossos corpos já faziam, juntos, movimentos ritmados e ondulados, o que me despertou outra vez para o fato de que nenhum dos dois poderia aguentar aquela situação por mais tempo.
Ela havia sido mais rápida do que eu, e quando me dei conta, Isabella já tinha aberto minha gaveta e tirado de lá um preservativo. Fui pego de surpresa por sua força quando ela conseguiu nos girar na cama, ficando em cima de mim enquanto abria a embalagem do preservativo e o desenrolava em meu membro já inchado e latejante. Não demorou quase nada, e com uma descida rápida e decidida, seu corpo envolveu o meu de maneira quase brusca.
Me contorci com aquele movimento. Ela ficou imóvel por algum tempo, enquanto fazia com que nossos corpos se acostumassem melhor com o recente encaixe. Segundos depois, ela começou a se movimentar de forma lenta e ritmada, tentando me moldar a ela, e durante todo esse tempo a única coisa que eu conseguia fazer era observar seus movimentos precisos. Embora toda aquela perfeição me fizesse lembrar o motivo pelo qual Isabella era tão boa naquilo, não havia como negar a beleza da cena. Ela era perfeita em cada movimento.
Quando consegui voltar a mim, segurei cuidadosamente com uma das mãos seus quadris, tentanto não marcá-la mais ainda, e com a outra me apoiei no colchão, trazendo meu corpo mais perto do dela, enquanto me mantinha sentado. Ela agarrou meus cabelos automaticamente, e por um momento odiei ver que algumas lágrimas ainda insistiam em cair pelo seu rosto, mesmo ela parecendo não se dar conta disso.
- Eu odeio você. — Ela falou de repente, encostando seus lábios nos meus. Antes que aquelas palavras me atingissem com a força que eu sabia que atingiriam, ela continuou — Odeio você, por tudo que me fez passar. Por ser covarde, por ser egoísta, por me fazer querer morrer sem você. Odeio você por não conseguir te negar, por não ser forte a ponto de ignorá-lo. Odeio precisar de você, odeio adorar me render a você. Eu odeio... Odeio você...
- Eu te amo.
Foi tudo o que consegui responder. Era a mais pura verdade, e eu esperava que ela acreditasse em mim, porque nunca na vida me permiti ser tão sincero, nunca me permiti estar tão submisso a alguém. Mas estar submisso a ela não era um castigo. Não era errado. Era tudo o que eu queria.
Nossos movimentos ficaram fortes e bruscos, mas foi quando senti a urgência da sua língua na minha outra vez que me permiti parar de ser cuidadoso e me entregar a ela. Eu não queria machucá-la, mas era humanamente impossível não desejá-la de uma forma quase selvagem. Eu sabia que me arrependeria no dia seguinte pela minha falta de cuidado. Ela estaria mais machucada, e a culpa seria toda minha.
Mas ela não parecia se importar, e toda vez que eu tentava tornar mais fraco o aperto que minhas mãos faziam em seu corpo, ela apertava a si mesma com mais força contra mim. Não era aceitável, mas meu lado egoísta e possessivo me permitiu sentir prazer com o fato de que todas as marcas em seu corpo agora pertenciam a mim, e a mais ninguém. Eu ainda me odiava por feri-la, mas saber que homem algum a tocaria outra vez me fazia sentir um horrível homem das cavernas feliz.
A noite passou como muitas noites haviam passado nos meus sonhos, mas era maravilhoso saber — ou acreditar — que aquele momento era real. Ela estava ali. Comigo. Ela me daria outra chance, e eu não precisava de nada além disso. Não seria fácil retomar sua confiança, e eu não podia julgá-la por isso. Mas se iria me dispor a morrer tentando por alguma coisa, seria para ganhá-la de volta.
Seria como deveria ter sido desde o início.
Seria por ela.
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