De Repente, Amor
28 Capítulo 28
Notas iniciais
Bella’s POV
Nossa viagem de Natal estava chegando ao fim. Edward não parava de se desculpar comigo, lamentando sobre a ausência de diversão e farra. Eu tentei convencê-lo de que aquela havia sido a melhor viagem da minha vida, e embora ele parecesse contente com minhas palavras, ainda teimava em dizer que poderia ter sido muito mais interessante.
Eu duvidava.
- Odeio a parte em que todos vocês vão embora!
Esme estava obviamente triste, mas fazia questão de não parecer uma mãe completamente dependente da presença dos filhos. Ela era uma mulher forte, mas muito sentimental. Carlisle permanecia imponente ao seu lado.
- Sempre acabamos voltando, mãe. — Edward tentou confortá-la, dando um beijo carinhoso em sua bochecha.
- Mas demora tanto...
- Não se preocupe. Vou estar de volta na primavera.
- Jura? — Os olhos dela pareceram se iluminar com aquelas palavras.
- Juro.
Esme continuou olhando para o filho, mas agora seu olhar parecia um pouco enigmático. Vi, outra vez, um pouco de Alice ali, como se quisesse lê-lo e saber de alguma coisa não dita.
Ela olhou para mim, a quatro metros de distância dos dois, e imediatamente fingi estar distraída com o nó do meu cachecol.
- Ahm... Vou deixar vocês mais à vontade. — Falei, já caminhando para longe. Não pude ver a reação deles porque não queria encará-los outra vez. Depois de alcançar uma distância que julguei ser razoável, olhei de volta para os três e vi que ela o abraçava com ternura e adoração, sem dizer uma única palavra.
Senti um amor crescente por Esme, simplesmente por saber que ela também amava Edward.
- Nós pensávamos que ele viria sozinho.
Me assustei, mas não tanto, com a voz grave de Emmet ao meu lado. Eu já estava me acostumando a ser pega de surpresa por ele.
- É, eu sei. Gostaria que ele tivesse avisado.
- Acho que ele queria fazer uma surpresa, principalmente pra mamãe. Queria mostrar que agora estava tudo bem.
Encarei-o por algum momento, mas ele pareceu não perceber. Assim como eu há alguns segundos, parecia distraído com as duas figuras que se abraçavam a alguma distância de nós.
- Vocês a conheceram? — Perguntei, pensando em Lauren.
- Infelizmente. Era uma piranha interesseira. Alice nunca foi com a cara dela, era uma pista pro cabeçudo saber que ela não prestava.
- Bom... — Comecei, voltando a encará-los — Ele era apaixonado por ela, isso não seria motivo suficiente...
- É. Ela teve que colocar um par de chifres na cabeça dele pra ele se ligar. E a verdade é que nós estaríamos pouco nos fudendo se ele estivesse pouco se fudendo. O problema é que a vadia acabou com a vida dele.
Senti pena de Edward outra vez. Não sabia em qual estado aquela mulher o tinha deixado, mas se fosse levar em consideração os testemunhos de tantas pessoas à sua volta, ele parecia mesmo ter estado perto de um suicídio.
- Vocês foram pros Estados Unidos quando ele ficou deprimido?
- O estúpido nos proibiu. Disse que se aparecêssemos lá, ele sumiria. Não quisemos arriscar, mas pedimos pra Victoria ficar de olho nele.
- Vocês a conhecem? — Perguntei, um pouco surpresa.
- Conheço Victoria e toda a família dela desde que me entendo por gente. Crescemos todos juntos nos Estados Unidos. Sinceramente, sempre achei que no final Edward acabaria ficando com ela, mas pelo visto não era pra ser dessa forma.
Olhei para as mãos me sentindo um pouco intimidada em imaginar Victoria com Edward.
- Eles já... estiveram juntos? Você sabe, na adolescência, ou há muito tempo atrás?
Ele me olhou e suspirou, fazendo uma cara de quem possui a informação mais valiosa do universo.
- Ok, vou te dizer. Mas você tem que me prometer que nunca, nunca vai dizer pra ninguém que eu te contei. Certo?
Me senti subitamente nervosa, ignorando o frio e começando a criar algumas gotas de suor nas têmporas.
- Pr... Prometo!
- Tudo bem... A verdade é a seguinte... — Ele demorava muito entre um raciocínio e outro. Eu já olhava com desespero para ele, implorando para que cuspisse logo toda a verdade — Victoria e Edward compartilharam um amor tórrido e intenso...
As palavras me machucaram.
Um amor tórrido? E intenso? Edward com Victoria?
- Mas... Mas ele me disse que... Disse que eles eram só amigos...
- Ah, sim, eles são só amigos. Agora. Mas quando se tem sete anos, a vida é uma aventura.
Sete anos?
- Quê? — Perguntei, um pouco confusa.
- HAHAHAHAHAHAHA!
Fiquei encarando-o como uma imbecil, tentando fazer com que as palavras dele fizessem algum sentido dentro da minha cabeça.
- Sua cara estava muito engraçada! — Ele falou, esmurrando o ar enquanto se contorcia em uma gargalhada.
- Quer me explicar...
- A única coisa que Edward teve com Victoria foi um primeiro beijo de fedelhos. Azar o dela que tirou “salada mista”. É claro que língua era uma coisa muito difícil pros dois, então eles ficaram só no selinho mesmo. Hahahaha!
Salada mista? Fedelhos? Selinho?
- Porra, Emmet! — Gritei, dando um soco no braço musculoso do irmão brutamontes enquanto juntava os pedaços de informação — Eu estava levando a sério!
- Ai! Seu soco é mais forte dos que os do Edward. — Ele pontuou sem parar de rir, esfregando o local socado com a mão do outro braço. Eu ainda estava me recobrando do susto, mas só então notei que havia batido em uma pessoa com a qual eu não tinha muita intimidade. Além disso, corria o risco do instinto maternal e protetor de Esme aflorar, fazendo com que eu acabasse arrastada pelos cabelos por agredir fisicamente seu filho.
- Desculpa.
- Tudo bem, eu mereci. — Ele falou, com seu constante bom humor — Mas que a sua cara estava engraçada, isso estava.
Respirei aliviada por saber daquilo. Não que eu tivesse ciúmes de Victoria, mas... Bom, o pensamento dos dois juntos era um pouco angustiante.
- Mas agora, falando sério... — Ele começou, me tirando das minhas divagações — Você está fazendo bem a ele. Dá pra ver que está.
Aquilo não foi uma pergunta, então fiquei na dúvida se deveria ou não responder alguma coisa. Optei por ficar calada, então ele continuou em seu mais novo tom sério. Era estranho ver Emmet falando qualquer coisa que não remetesse a alguma piada.
- Bom... Não sou bom nessas coisas, mas você sabe o que eu quero dizer. Edward é um cara bacana. É bacana até demais. Não é porque sou irmão dele, mas você não vai encontrar alguém legal assim tão fácil.
Eu sabia. Emmet não precisava sequer se esforçar para fazer com que eu entendesse aquilo, simplesmente porque eu já sabia o que ele queria dizer: Eu tinha sorte de ser dele.
- Ele é meio cabeça dura e babaca às vezes, mas isso é coisa de homem... No fim das contas, tudo que ele quer é alguém pra cuidar, alguém com quem ele possa dividir um pouco das merdas e das vitórias da vida dele. Edward sempre foi assim, e se alguma vez pareceu diferente disso é porque estava perdido ou com medo.
Sorri. Por mais absurdas e sem sentido que as palavras dele pudessem parecer, elas faziam um sentido assustador. Entendi, naquele momento, que Emmet talvez fosse a pessoa daquela família que mais conhecia Edward.
- Não estou aqui para machucá-lo. Pelo contrário, quero curar cada ferida que ela deixou. Acredite, você não faz idéia de como seu irmão é importante pra mim.
Ele ficou em silêncio ponderando minhas palavras por algum tempo, e talvez fosse falar alguma coisa, mas no momento seguinte, fomos interrompidos.
- Emmet, que tal arranjar uma namorada e devolver a minha? — Edward falou, já envolvendo um braço possessivo na minha cintura e o deixando ali.
- Ah, merda, justo agora que ia jogar minha melhor cantada. — Ele respondeu, fechando os olhos teatralmente como se estivesse contrariado — Bellinha, fica pra próxima.
Fui abruptamente esmagada em um abraço de Esme, que surgiu do nada dizendo coisas como “Volte logo”, “Você será sempre bem-vinda” e “Obrigada por tudo”. Deixei claro que quem deveria agradecer pela recepção maravilhosa era eu, e me desculpei mais uma vez por ter aparecido sem ser convidada ou sequer anunciada. Carlisle pareceu até um pouco irritado com minhas “desculpas esdrúxulas”, mas no final acabou me esmagando em um abraço de urso também, o que aparentava ser típico de todos os Cullen.
Me senti subitamente triste por deixá-los. Não era como se agora eu fizesse parte de uma família, mas me sentir aceita e bem vinda naquela família em especial fazia com que o fato de que eu tivesse que me despedir partisse meu coração.
- Nos vemos na próxima festa de família, cabeção. — Virei e vi Emmet com Edward no conhecido “abraço de macho” — Cuide-se, e veja se não vai fazer nenhuma merda até lá.
- Pode deixar. Divirta-se com seu Dostoiévski e documentários sobre física quântica.
- Bellinha... — Ele se virou para mim, segurando minhas mãos — Persevere. Todos temos nossos karmas na vida. Edward é muito menos retardado do que parece.
- Vou ter isso em mente. — Falei sorrindo enquanto o abraçava, agradecendo em silêncio por Emmet ter o bom senso de não empregar tanta força no abraço que me dava e correr o risco de quebrar minhas costelas. Fiquei nas pontas dos pés para falar perto do seu ouvido — E não se preocupe. Vou cuidar dele.
- Não estou preocupado. — Ele disse, sorrindo de volta e afrouxando o abraço.
Eram 14:30h agora. O vôo, antes marcado para as 13h, teve que ser adiado pelo telefone por causa do mau tempo, nos dando mais alguns momentos em Londres. Esme parecia radiante por ter mais um pouco do filho ali. O taxi já nos esperava na entrada da casa, com a bagagem devidamente arrumada no porta-malas.
- Temos que ir. — Edward enfim falou, arrancando algumas lágrimas emocionadas de sua mãe — Nos vemos ano que vem.
- Estaremos esperando. — Disse Carlisle, abraçando com ternura sua mulher na tentativa de consolá-la.
Eu não gostava de vê-la chorando.
- Você vem?
Me assustei um pouco ao ouvir a voz de Edward no meu ouvido. Só então notei que estava plantada no chão, sem o menor indício de que iria me mover.
Eu não queria ir embora. Além de ali ser o melhor lugar do mundo com as melhores companhias do mundo, eu não queria tirar Edward de Esme outra vez. Era óbvio o mal que a saudade dos filhos fazia a ela.
- Ah... Sim, claro. — Falei, um pouco contrariada. Segurei sua mão em um ato impensado e caminhamos para o taxi no portão de entrada.
Esme acenava efusivamente. Senti outra vez um aperto no peito por estar partindo e levando Edward junto comigo. A sensação de que ali era o verdadeiro lugar onde ele deveria ficar estava me esmagando aos poucos.
O motor foi ligado e Edward acenou de volta pela janela aberta do banco de trás.
- Promete que vamos voltar na primavera? — Perguntei, um pouco angustiada com a despedida.
Ele sorriu de forma tranquila e feliz.
- Pode apostar.
O carro passou pelas grades e virou para a rua branca e gelada.
E de repente me peguei desejando que o “pesadelo de conhecer a família Cullen” não tivesse passado tão rápido.
…
Chegamos em Los Angeles por volta das 18h, o que correspondia às 2h da manhã em Londres. A viagem havia sido silenciosa, principalmente porque eu dormi na maior parte dela. Às vezes Edward me perguntava o que eu havia realmente achado de lá, e não precisei falar muito para que ele entendesse que aquele havia se tornado o meu lugar favorito no mundo.
Por causa de algum engarrafamento que não me preocupei em saber o motivo, chegamos ao prédio dele uma hora depois, às 19h. Embora não fosse tarde, o céu já estava escuro.
- Obrigado, Marcos. — Ouvi-o agradecer ao porteiro que trouxe minha mala para cima. Fiquei parada atrás de Edward, sorrindo debilmente para o homem. Estava muito sonolenta para agradecer também.
- Tenham uma boa noite. — Ele falou sorrindo e se virou para pegar o elevador.
Edward pegou as duas malas e caminhou paro o corredor. O segui mecanicamente. Quando dei por mim, estávamos no quarto dele.
- Minha mala fica no outro quarto. — Falei sem pensar — Pode deixar que eu levo...
- Não — Ele me interrompeu, afastando minha mão — Você dorme aqui, não faz sentido sua mala ficar lá.
- Mas sempre ficou...
- Mas sempre ficou errado. Vou separar o lado direito do closet pra você. Podemos fazer isso juntos amanhã.
Eu não ia discutir. Se ele queria perder espaço no próprio quarto, tudo bem.
- Vou tomar um banho rápido.
Assenti com a cabeça, ainda sonolenta, sentada na cama macia. Ele entrou no banheiro e antes que eu dormisse ali, sentada à sua espera, caminhei para o banheiro do outro quarto — o que não podia ser mais chamado de meu — e tomei um banho quente e rápido. Vesti um conjunto de moletom branco e voltei ao quarto dele, que ainda não tinha saído.
Ainda estava muito cedo, mas mesmo assim eu queria dormir. A diferença de fusos horários estava mexendo com meu relógio biológico, então me sentia constantemente sonolenta. E o edredom macio era tão convidativo...
Sem esperar por ele, me enfiei debaixo das cobertas fofas. Suspirei ao me aquecer ali. O perfume dele estava impregnado em cada tecido que havia naquela cama. Me cobri até o pescoço e enfiei o rosto no travesseiro dele, inspirando repetidamente como uma viciada.
A porta foi aberta e senti uma súbita alegria simplesmente por estar no mesmo ambiente que ele. Quando Edward saiu, parecia ter esquecido alguma coisa.
As roupas.
Suspirei outra vez, olhando os mínimos detalhes de cada centímetro de sua pele exposta. Ele secava com a toalha seus cabelos úmidos, e parecia extremamente confortável em aparecer daquela forma na minha frente. Era claro que àquela altura eu já deveria ter me acostumado em vê-lo nu, mas... Bem, eu não estava.
- Devo fazer algum comentário quanto à ausência de roupas em você? — Perguntei, trazendo o edredom até o rosto e deixando apenas os olhos à mostra, ainda varrendo-o de cima a baixo.
- Depende. Se for algo que vá me ridicularizar, não. Se for pra me chamar de gostoso, então tudo bem. — Ele respondeu com um sorriso cansado mas sincero, enquanto deixava a toalha molhada embolada em uma cadeira próxima e se aproximava de mim como um leopardo se aproxima da presa.
- Hmmmmmpf... — Consegui dizer quando ele puxou o edredom e se deitou em cima de mim.
- Eu costumo dormir assim. Achei que seria melhor deixar esse hábito de lado até você se acostumar. Mas agora já deu tempo, né?
- É... — Respondi desatenta, fazendo que não com a cabeça. Ele riu da minha incoerência — Não está com frio?
- Estou. Quer me esquentar?
Não tive tempo de responder. Edward me beijou calmamente, mas com um fogo que era difícil conter. Suas mãos voaram para minha barriga, por baixo do casaco de moletom. Senti cada centímetro da minha pele arrepiar com o toque, e instintivamente abri as pernas para que ele se acomodasse entre elas. Seus dedos enrolaram o casaco até meu pescoço, e foi só quando senti a falta da língua dele na minha que entendi que estava agora nua da cintura para cima. Não demorou muito até que minha calça fosse removida também, e então tudo se resumia ao seu corpo cobrindo o meu, um edredom macio nos envolvendo e os beijos dele.
Fui virada de repente na cama, ficando agora por cima dele, em seu colo. Era possível já sentir a sua ereção contra a pele da minha barriga, e eu me perguntava se ele poderia bater algum tipo de recorde com a rapidez com que ficava excitado. Suas mãos passeavam pelas minhas costas com gentileza, sem nenhuma pressa, enquanto sua língua fazia um tipo de carinho na minha. Respirei fundo o perfume do sabonete no rosto dele e tive vontade de atacá-lo, mas me contive.
Senti seu braço esquerdo se esticar por um momento, mas não abri os olhos. Não ia interromper aquele momento só porque Edward havia resolvido fazer ginástica — toda vez que ele me beijava eu me negava a prestar atenção em qualquer outra coisa. Quando seu braço voltou para perto de seu corpo, senti a cabeça de seu membro na minha entrada e, como se me pedisse permissão, parou ali. Movi meu corpo devagar contra ele, fazendo-o entrar em mim e me permitindo sentir cada centímetro que me invadia.
- Você confia em mim, né? — Ele perguntou de repente ao pé do meu ouvido, e então fiquei um pouco surpresa.
Do que ele estava falando?
- Confio. — Respondi, um pouco vacilante. Não porque não confiava, mas porque não estava entendendo onde ele queria chegar.
- Eu queria te mostrar uma coisa...
Olhei nos olhos dele, tentando entender do que se tratava aquilo.
- Tudo... bem...
Ele me encarou de volta, e então senti o toque suave do seu indicador em uma parte do meu corpo que não estava acostumada a ser tocada. Uma parte que havia sido tocada uma única vez.
À força.
- Queria te mostrar que pode ser bom...
Pulei de seu colo e me afastei imediatamente, quase caindo ao ficar de pé fora da cama e encostar na parede oposta com um lençol, cobrindo meu corpo exposto.
- Não! — Eu queria falar, mas acabei gritando.
Fiquei parada, encarando-o ainda na cama, sentado com o corpo apoiado em seu antebraço. Ele me olhava com uma expressão indecifrável. Tentei conter o susto, me acalmando para que meu coração parasse de bater rápido. Ele havia me pegado desprevenida. Ao seu lado, um tubo com algum tipo de lubrificante e a gaveta do criado mudo aberta.
Eu não estava pronta para aquilo.
- Por que agiu assim? — Ela falou, em um tom muito sério. Seus olhos estavam frios, ele me encarava como se estivesse ofendido.
- Eu não...
- Por que saiu correndo de mim? E por que está se cobrindo como se eu fosse um qualquer que não pudesse te ver assim?
Ele estava puto. Inconfundivelmente puto. E eu não sabia o que responder a ele. Não sabia o porquê de ter agido daquela forma, fugindo dele como o diabo foge da cruz. Não sabia o porquê de estar evitando que ele olhasse para mim nua, como já havia feito tantas vezes. Não sabia o motivo de estar tão nervosa e até um pouco receosa.
- Você não confia em mim. — Ele falou calmamente, mas em um tom claramente irritado.
- Eu só... Eu não estou pronta...
- Bastava dizer “não” e eu me afastaria. Bastava você negar e eu não tocaria em um fio de cabelo seu.
Eu sabia disso. Eu tinha certeza. Confiava nele, isso era indiscutível. Então por que havia agido daquela forma? Como se ele estivesse tentando me estuprar?
- Me desculpe... Eu... — Eu não sabia o que dizer, mas sabia que tinha que me explicar de alguma forma — Eu só fiquei nervosa... Mas eu confio em você! Só preciso de algum tempo...
- Você tem o tempo que quiser. Mas não diga que confia em mim.
- Mas... Eu confio... — Falei, muito baixo. Ele não ouviu, se levantando abruptmente e pegando uma boxer e uma calça no armário perto da cama. Jogou o lubrificante dentro do criado mudo outra vez e bateu a gaveta com força. Tremi com o barulho.
- Me desc...
- Não peça desculpas. — Ele disse secamente, me interrompendo — E pode voltar a respirar, não vou tocar em você.
Edward passou por mim, saindo do quarto e me deixando sozinha ali, debilmente agarrada a um lençol. Meu corpo tremia, e eu não sabia se era de nervoso ou de frio. Talvez um pouco dos dois. Meu coração ainda estava acelerado.
Por que infernos eu agi daquela forma? Por que fugi dele? Eu não precisava fugir dele, e sabia disso. Edward era a pessoa que eu mais amava e na qual eu mais confiava. Por isso, minha atitude não tinha a menor explicação.
Fui até a cama e vesti minhas roupas outra vez. Sentei, ainda me sentindo culpada, e esperei até que ele voltasse. Mas isso não aconteceu.
Caminhei até a sala e o achei deitado no sofá vendo tv. Algum filme qualquer. Me perguntei se ele havia me visto ali, parada a alguma distância dele. Se viu, não fez nada para me deixar ciente disso. Entendi então que ele não queria ficar perto de mim, e me senti pior.
Queria pedir desculpas pela minha atitude, embora eu não tivesse feito por mal. Queria dizê-lo que confiava nele, e que em momento algum tive medo de que ele passasse dos limites comigo. Mas ele não parecia disposto a ouvir, e eu respeitaria isso.
Com o objetivo de devolver seu espaço, me retirei silenciosamente, caminhando para o meu quarto e ficando por lá pelo resto da noite.
…
Em situações normais, eu não conseguiria dormir sem Edward ao meu lado. Mas aquela não era uma situação normal, simplesmente porque eu me sentia exausta. Por isso, a impressão que tinha era de que haviam passado apenas alguns segundos desde o momento que fechei os olhos, e então já havia amanhecido.
Olhei ao meu lado e constatei que ele não estava lá. Senti um aperto no peito. Tomei coragem para me levantar e me levantei. Depois da higiene matinal feita, me arrumei pelo menos de forma a ficar apresentável, e então saí do quarto à sua procura.
Era domingo. Ele deveria estar em algum lugar, mas eu não o encontrava. Fui até seu quarto, cozinha e sala. Nada. Edward parecia ter simplesmente desaparecido. Procurei-o no resto da casa, na área da piscina, adega, biblioteca e demais salas. Tudo isso para constatar o que eu já sabia: Ele não estava ali.
Me senti mal. Não por estar sozinha, mas porque saber que estávamos daquela forma me angustiava. Eu odiava estar separada dele, fosse pela distância física ou por qualquer barreira entre nós. Naquele momento, eu sabia que Edward estava me evitando porque ainda estava magoado, e isso me fazia muito mal.
Sentei na sala e esperei. Uma hora ele teria que voltar de onde quer que estivesse. Liguei a tv e busquei qualquer canal de desenho, pensando nos vários possíveis lugares em que ele poderia estar. Será que ia demorar? Será que não falaria direito comigo quando chegasse? Será que ele estava sozinho?
O tempo passou e eu não notei. Quando o sono pelo tédio começou a me tomar, fui despertada pelo barulho de chave na fechadura da porta da sala. Me endireitei no sofá, um pouco tensa, pensando em como agir. Queria pedir desculpas por tê-lo feito pensar que eu não confiava nele, mas não queria que minhas desculpas parecessem forçadas ou falsas, como ele havia pensado na noite anterior. Decidi ficar calada e falar apenas quando ele me dirigisse a palavra.
Edward entrou com um conjunto azul marinho e tênis, tudo próprio para corrida. Encarei-o um pouco receosa, não desviando o olhar um minuto sequer.
- Bom dia. — Ele disse, em uma voz que eu ainda não conseguia identificar como hostil ou apenas sem emoção.
- Bom dia. — Respondi baixo.
- Já tomou café da manhã?
Ele não parecia puto, mas também não estava feliz. Edward estava empregando uma certa formalidade na voz que me incomodava.
- Não.
- Quer que eu prepare alguma coisa?
- Não precisa. Eu me viro.
Ele assentiu.
- Bom, vou tomar um banho então.
E assim, de forma simples e um pouco fria, se retirou para o quarto e me deixou ali, eu no sofá e o Scooby Doo na tv.
Pensei que não conseguiríamos manter aquela situação dessa forma pelo resto do dia todo, mas me enganei. O máximo de interação que tivemos foi quando pedi que ele me ajudasse com a arrumação das minhas roupas no closet, lembrando de suas palavras na noite anterior. Fiz isso propositalmente, tentando retomar o ritmo entre nós dois. Ele me ajudou, mas assim que pôde arranjou a desculpa de que tinha muitas coisas do trabalho para fazer para o dia seguinte, “principalmente por ser fim de ano e tudo ter que ser resolvido com urgência”.
Ele não me tratou mal, mas também não fez questão alguma de mostrar que sabia que eu estava ali. A forma como me ignorava e fazia parecer que não estava acontecendo nada entre nós me abalou. Pensei em tocar no assunto da noite anterior, mas sabia que ele me interromperia e não conversaria comigo. Talvez eu estivesse mal acostumada em tê-lo me mimando demais, e sentir um pouco da sua indiferença era algo para o qual eu não estava preparada.
- Posso entrar? — Perguntei baixo, abrindo a porta do seu quarto e esperando uma resposta dele.
- Pode.
Edward estava sentado com as costas nos travesseiros da cabeceira da cama e o laptop em seu colo. Já passavam das 22h.
Caminhei devagar até a cama, esperando que ele desviasse os olhos da tela e olhasse para mim.
- Se incomoda se eu dormir aqui? — Perguntei. Não sabia exatamente o que ele queria, mesmo porque não falava. Mas embora ele continuasse frio comigo, não queria passar outra noite longe dele.
- Claro que não. Essa é a sua cama.
Eu vestia um outro conjunto de moletom, esse escuro. A noite estava fria, por isso corri para debaixo das cobertas e me enrolei como um casulo no edredom preto. Edward permaneceu digitando no laptop, apenas se acostumando com minha presença lá.
Virei de costas para ele e esperei. Pelo quê, eu não sabia. De qualquer forma, nada aconteceu. Por isso, depois de algum tempo, o sono finalmente chegou e eu adormeci, apenas para acordar algumas horas depois, no meio da madrugada, e senti-lo dormindo agarrado a mim com força, como se eu fosse seu urso de pelúcia em tamanho real.
Acordei também quando, às 6h da manhã, ele levantou para ir trabalhar. Fingi continuar dormindo, mas o observava passear pelo quarto de um lado ao outro, enquanto se arrumava para a manhã gelada lá fora. Quando se aproximou para se despedir, fechei os olhos e esperei. Senti-o beijar meu pescoço com carinho e respirar por algum tempo em meus cabelos. Senti vontade de abraçá-lo, mas tinha a sensação de que se o fizesse ele se afastaria. Então me mantive imóvel, simplesmente por querê-lo ali por mais alguns segundos.
Edward finalmente me beijou outra vez e se levantou, caminhando para fora do quarto e me deixando sozinha pelo resto da segunda-feira.
...
Os três dias que se passaram — segunda, terça e quarta-feira — se mostraram incrivelmente vazios. Minhas manhãs e tardes eram solitárias, e quando Edward chegava em casa — muito mais tarde do que o normal — os diálogos eram tão discretos que pareciam estar ali por pura educação. Ele não estava sendo de forma alguma rude, mas estava tão distante que me fazia mal. Tentando não ser egoísta, quis acreditar que seu afastamento se dava porque, como ele mesmo havia dito e mostrado, muitas pendências da empresa teriam que ser fechadas até o final do ano. Isso provavelmente justificava o fato de chegar em casa depois das 22h e, enquanto não dormia, falar ao telefone com algumas pessoas diferentes sobre contratos e outras coisas que eu não entendia.
Ainda assim, era impossível deixar de sentir sua falta. Não era a falta de sexo que me incomodava, mas sim a falta de qualquer tipo de interação entre nós. E eu tinha medo de tomar alguma atitude quanto a isso simplesmente porque tinha medo de ser rejeitada, mesmo que o motivo fosse o trabalho.
Mas quarta-feira a noite, dia 30 de dezembro, o laptop havia finalmente sido deixado de lado.
- Vou ficar sem camisas desse jeito.
Eu havia roubado mais uma de suas camisas sociais. Me sentia à vontade com elas. A que eu vestia agora era vermelho escuro, quase sangue. Eu assumia a culpa de estar me apossando das coisas dele, mas ainda assim não deixei de corar ao ouvir suas palavras. Talvez estivesse mesmo sendo um pouco abusada, mas pelo menos teríamos algo pelo qual discutir.
- Ah... — Ele se pronunciou, me vendo vermelha — Não estou reclamando, de forma nenhuma. Foi só um comentário.
- Tudo bem. Eu deveria ter pedido antes de pegar...
- Não, eu não me importo. E essa ficou melhor em você do que a outra.
Notei que ele me olhava de cima a baixo, avaliando cada detalhe. Me senti feliz não por seus olhares indiscretos, mas porque parecia que, pela primeira vez desde que voltamos de Londres, ele estava realmente me vendo.
- Só porque você gosta de vermelho... — Falei calmamente, indo sentar ao lado dele na cama e me cobrindo rapidamente até os olhos para que o frio passasse.
- Não gosto de vermelho em geral. Gosto de vermelho em você. Fica interessante contrastando com o tom da sua pele. — Ele disse calmamente, agora me encarando nos olhos, já que eram as únicas coisas que o edredom não cobria em mim.
Continuei encarando-o, desejando que ele estivesse mais perto.
- Onde você costuma passar as viradas de ano? — Perguntei de repente.
- Com Victoria. Ela sempre dá uma festa na casa dela.
Assenti com a cabeça sem motivo, apenas para ter algo para fazer.
- Quer ir pra outro lugar? — Ele me perguntou, tentando entender meu silêncio.
- Não... Vão muitas pessoas?
- Só pessoas da família dela e amigos próximos. Ela evita convidar gente babaca pra esse tipo de ocasião.
Sorri contra a coberta que envolvia meu rosto. Continuamos nos encarando por algum tempo, sem dizer uma única palavra. Queria saber no que ele estava pensando, queria poder prever o que ele faria em seguida. Mas me mantive ali, apenas desejando que ele fizesse alguma coisa.
- Quer ver tv? — Edward desviou seus olhos dos meus e se virou para pegar o controle no criado mudo, ligando a televisão logo em seguida.
Arranquei o controle de suas mão com raiva e desliguei outra vez o aparelho.
- Por que está fazendo isso? Por que está me tratando assim desde aquela noite? Você nem me toca!
Ele respirou fundo.
- Não quero forçar a barra.
Barra? Que barra? Que estupidez era aquela?
- Do que infernos você está falando?
- Quero tocar em você quando você estiver realmente à vontade comigo. Quando realmente quiser que eu a toque.
Fiquei encarando-o com cara de "que-porra-é-essa?"
- Você acha que eu não quero? — O tom de incredulidade estava claro e límpido na minha voz, e provavelmente na minha expressão também.
- Desculpa se passei dos limites sábado. — Ele falou, ignorando minha pergunta — Não queria que você ficasse com medo...
- Eu não estava com medo! Só... Eu só não estou preparada...
- Eu sei. Você desenvolveu um trauma, e eu entendo. E também sei que você me conheceu nas mesmas circunstâncias que aquele filho da puta, mas... Eu nunca, nunca faria nada...
Me desvencilhei do edredom que ainda me mantinha embrulhada e, sem pensar, pulei no colo dele.
- Por favor... — Comecei, agarrando seu pescoço e encostando minha testa na dele, prendendo seu olhar no meu propositalmente — Acredite em mim: Eu NUNCA compararia você a ele. É absurdo! Até colocar vocês dois na mesma frase é absurdo. Você é a pessoa que eu mais confio no mundo. Sei que nunca me faria mal por querer, e sei que sempre vai ser assim. Vou querer que você me toque sempre, e nunca soube o que era me sentir à vontade antes de estar com você. Não existe um único lugar no mundo melhor do que os seus braços, porque eu sei que estou segura quando você está tomando conta de mim. Desculpa ter agido daquela forma, foi involuntário. Mas, por favor, tire da cabeça que eu não confio em você. Por favor.
Me calei e então notei que estava tremendo, tanto pelo frio quanto pela carga de emoção. Edward envolveu seus braços quentes nas minhas costas e me puxou pra si, me aquecendo imediatamente com um simples toque. Estremeci ao me dar conta da falta que seu abraço fazia, e de como senti-lo tão próximo mexia com meu coração.
Beijei-o lentamente. Como de costume, meus dedos agarraram involuntariamente os cabelos de sua nuca em um desespero acumulado. Inconscientemente, puxei a barra do casaco que ele vestia, na esperança de que houvesse outro método de tirá-lo sem que tivéssemos que nos afastar. Constatado o óbvio, cessei o beijo e puxei de qualquer jeito seu casaco pelo pescoço, voltando a agarrá-lo logo em seguida e trabalhando agora na calça.
Fui virada abruptamente entre os lençóis e o edredom. Edward se posicionou de joelhos entre as minhas pernas, puxando de qualquer jeito minha calcinha até tirá-la completamente de mim e jogá-la em algum canto do quarto. Ele me olhou como quem pede permissão para alguma coisa, e qualquer que fosse a “coisa” em questão, eu permitiria.
Senti-o abrir botão por botão da camisa que eu usava. Quando suas mãos acabaram, senti um frio congelante contra meu peito exposto, mas meu desconforto foi resolvido logo que ele se deitou sobre mim, aplicando beijos molhados e apaixonados por toda a extensão do meu tronco, fazendo com que cada centímetro da minha pele pegasse fogo. Não consegui controlar os gemidos ao sentir sua língua passeando por todos os lugares acessíveis, suas mãos me tocando em pontos estratégicos e sua barba pouco crescida fazendo um certo tipo de cócegas nada inocentes em regiões sensíveis.
Quando seus beijos foram descendo, eu sabia onde iriam parar, mas não fiz menção de impedi-lo. Ao invés disso, abri mais as pernas para que ele tivesse um melhor acesso ao lugar que queria provar. Agarrei seus cabelos com força outra vez ao sentir a ponta de sua língua brincar de forma torturante hora em minha entrada, hora no meu clitóris. Fechei as pernas sem querer ao senti-lo me penetrar com a língua, mas Edward abriu-as de volta.
- Não me faça ter que te amarrar.
Um calor de ansiedade percorreu meu corpo com a idéia, então me assustei ao notar que eu adoraria ser amarrada por ele e deixar meu corpo simplesmente entregue ao que quer que ele tivesse em mente.
Revirei os olhos quando, outra vez, senti sua língua entrar em mim, só para segundos depois sair e repetir o movimento. Um gemido alto saiu da minha garganta sem que eu pudesse controlar o volume. Ele me chupava com força, mas o que eu sentia estava longe de ser dolorido ou desagradável.
Reunindo toda a força em meu ser, puxei-o pelos cabelos para cima com uma mão, enquanto com a outra tentava desesperadamente arrancar sua calça. Eu era simplesmente uma negação para despir pessoas, principalmente quando estava louca de tesão.
Beijei-o furiosamente, como nunca tinha feito antes. Nossas línguas não dançavam juntas — elas se agrediam, lutando pelo território alheio. Senti minhas unhas, um pouco crescidas, arranharem sua pele onde a barra da calça estava, e senti um mórbido prazer em machucá-lo daquela forma, marcando-o como meu.
Suas calças finalmente foram, por algum milagre, jogadas para algum canto, e então notei que meus dedos já não pareciam ter cuidado algum com Edward, puxando seus cabelos de um jeito agressivo, apertando e beliscando sua pele nos lugares mais indiscretos, arranhando suas costas e coxas como se ele não sentisse dor. Como resposta, ele pareceu também deixar de lado a cautela que costumava ter comigo, me apertando com tanta força que machucava.
Quando dei por mim, estava sentada outra vez no colo dele. Não pensei duas vezes, e no segundo seguinte sentei em seu membro com tanta força que senti o colo do meu útero ser tocado pela cabeça do pau dele. Ele gemeu um som gutural, apertando minhas coxas com uma força absurda. Edward estava agora me machucando de verdade, mas eu não conseguia sentir desconforto — a dor parecia ser afrodisíaca.
Nossos corpos se moveram juntos de forma agressiva mas ritmada. Suas investidas eram incrivelmente violentas, principalmente porque, ao mesmo tempo que ele se enfiava dentro de mim, eu me forçava contra ele, chocando nossos corpos sem o mínimo medo. Meus lábios já ardiam pelas mordidas, meu couro cabeludo dolorido pelos vários fios de cabelo agressivamente puxados.
Aquilo era sexo selvagem. Violento, agressivo e delicioso.
Me surpreendi com o tempo que aguentamos evitando o clímax. Com a intensidade do ato e a pequena abstinência de alguns dias, era de se imaginar que qualquer coisa fosse o suficiente para nos tirar o controle, mas felizmente isso não aconteceu. Gozei dois segundos depois de Edward, e talvez a simples imagem que se formou na minha cabeça do gozo quente escorrendo por dentro de mim como leite tivesse sido o suficiente para puxar o gatilho e fazer com que eu perdesse a consciência no que achava ser, até então, o melhor orgasmo da minha vida.
Ele não ousou se mexer. Eu nem podia, porque sustentava o peso do corpo dele sobre o meu. Embora ele fosse pesado, isso não incomodava. Meu corpo parecia estranhamente anestesiado, mas ao mesmo tempo começava a ter consciência das dores e machucados daquela noite. Deixei que cada sensação de formigamento e dor chegassem lentamente a cada músculo e as aceitei, me castigando pela falta de controle e rebeldia. Tudo bem, não era um castigo assim tão ruim se fosse levado em conta tudo o que aquela noite foi.
Ele adormeceu exausto algum tempo depois, agarrado ao meu corpo, sem sequer se retirar de dentro de mim. Não me incomodei, e o abracei tão forte quanto as dores musculares me permitiam. Dei graças a Deus pelo edredom de malha grossa ser suficiente para que o frio do inverno não nos atingisse, e me deixando relaxar também, caí no sono.
…
- Argh...
- Está tudo bem.
- Arghhh!
- Edward, respire.
Minha cintura estava decorada em sua totalidade por manchas roxas e vermelhas. A parte superior das minhas coxas, perto da virilha, estava muito dolorida e com manchas verdes nas laterais. Meus antebraços tinham alguns arranhões e pude ver claramente uma trilha de chupões que ia do meu umbigo até meu seio esquerdo.
Eu lembrava um pouco uma girafa albina.
- Pelo menos não tem nada no meu pesc...
- Aaaarrgh...
- Quer parar de gemer? Eu estou bem!
- Não está nada bem! Você parece ter sido espancada! Não vou mais tocar em você...
Levantei uma sobrancelha encarando-o pelo reflexo do espelho enorme do closet, desafiando-o a prometer aquilo.
- Pelo menos até essas manchas sumirem... — Ele se corrigiu rapidamente.
- Sabe quanto tempo mais ou menos elas demoram a desaparecer? Três semanas.
- Merda!
Edward estava puto porque sabia que meus hematomas eram culpa dele. Mas eu achava que talvez já estivesse na hora de superarmos isso, porque era um problema que sempre existiria: Toda vez que ele me tocasse intimamente eu acabaria marcada.
- Você está preocupado comigo porque ainda não viu suas costas.
Ele se virou de costas para o espelho, olhando para trás para ver o reflexo da parte de trás do seu tronco.
- Uau... Parece que um gato amolou as unhas em mim...
E parecia mesmo. Alguns arranhões eram apenas pele empolada, mas outros eram cortes visíveis e vermelhos que rasgavam suas costas da altura dos ombros até a lombar. Ele abaixou um pouco a barra da calça que vestia apenas para se certificar de que os arranhões não paravam por ali, mas continuavam em um caminho muito mais abaixo.
- Viu só? Não sou tão indefesa. — Falei sorrindo, mas um pouco culpada também — Não ardeu no banho?
- Um pouco, mas não dei atenção.
- Temos que passar algum remédio aí...
- Não precisa, as roupas cobrem.
Bem, isso dava a ele uma pequena vantagem sobre mim. Seria difícil achar alguma coisa própria para uma festa de Reveillon e que cobrisse todos os hematomas que contrastavam fortemente com a minha pele clara demais.
Aliás, eu não lembrava sequer se tinha alguma roupa clara para vestir.
- Acho que dei sorte... — Ele disse, saindo do closet e indo para o quarto, me deixando na frente do espelho sozinha por algum tempo. Voltou alguns segundos depois, me entregando um embrulho.
Encarei-o irritada, esperando alguma explicação.
- Que foi? Você precisava de um vestido pro Reveillon...
- Eu duvido que não tenha nada que possa ser vestido no meio daquela tonelada de roupas que você comprou pra mim.
- Mas essa é uma ocasião especial, então eu tive que comprar à parte. Abra.
Continuei encarando-o apenas para deixar claro meu descontentamento. Não queria ser mal educada, mas também queria que ele parasse de fazer aquilo.
Desdobrei o embrulho e surgiu entre meus dedos um vestido branco de mangas até os pulsos e uma saia que, embora justa e não muito comprida, parecia ser do tamanho ideal para cobrir os hematomas especialmente roxos nas minhas pernas. O vestido era lindíssimo e parecia quente e fofo, com alguns brilhos perolados dispostos aleatoriamente pela extensão do tecido. E então eu tive certeza que pareceria um pequeno cisne plumado quando o vestisse.
- É lindo. Obrigada.
- De nada. Acho que cobre toda a merda que eu fiz ontem em você.
Ignorei seu comentário idiota, colocando o vestido na frente do meu corpo e me olhando no espelho, imaginando como ele ficaria em mim.
Como acordamos ambos às 11h da manhã, tivemos que almoçar mais tarde do que de costume. Edward preparou alguma coisa recheada com queijo e ervas finas para o almoço, e embora eu não soubesse exatamente o que era, não podia deixar de admitir que estava maravilhoso.
Às 17h, assim que acabamos de almoçar, a campainha tocou, nos dando um leve susto enquanto eu lavava a louça e Edward tentava me tirar à força da pia.
- Acho que é pra você... — Ele falou olhando no relógio e indo atender a porta. Fiquei um pouco confusa, não vendo como qualquer visita que ele recebesse poderia ser para mim.
A pessoa misteriosa falou alguma coisa e ele respondeu. Não entendi o que foi dito, mas consegui identificar uma voz de mulher. Segundos depois ambos entraram na cozinha enquanto eu secava as mãos em um pano de prato próximo. Edward vinha na frente, seguido de uma moça negra muito bonita, alta e magra com um penteado blackpower para lá de estiloso, argolas douradas e uma bolsa grande nas mãos.
- Olá, minha flor. Eu sou a Michele. — Ela disse, avançando para mim e me dando dois beijos em cada lado do rosto, enquanto mostrava um sorriso largo e sincero — Que bom, acho que não vou ter quase trabalho nenhum com você.
- Oi... Bella, prazer. — Respondi mecanicamente, olhando para Edward com uma interrogação na testa.
- Vocês mulheres gostam dessas coisas de maquiagem, unhas e tal, não? Pensei que você fosse querer pra festa de virada de ano, então chamei ela.
- Vou te deixar ainda mais linda, chuchu. — Ela disse, piscando para mim. — Acho que seu cabelo deve ir solto mesmo. Nada a acrescentar. Uma maquiagem e esmalte claros e você vai estar pronta pra conquistar o mundo hoje à noite.
- Ah, sim... — Comecei, sem saber o que dizer. Os gastos de Edward comigo continuavam crescendo, e isso continuava me incomodando — É, tudo claro, por favor. Nada de coisas escuras...
- Nem combina, flor. Vou só dar uma iluminada no seu olhar, e o gato aqui vai ter trabalho com os gaviões de plantão. — Ela finalizou, apontando para Edward e piscando para mim outra vez.
- Ei! — Ele respondeu, fazendo uma careta para o comentário de Michele — Não é esse o objetivo!
Ela me puxou pela mão, nos levando para fora da cozinha, enquanto ria da reação dele.
- Ela é minha o resto da tarde, gato.
...
Michele falava muito. Devia fazer parte do seu trabalho falar sobre besteiras com clientes, mas como eu gostava de ouvir, não me incomodei. Em duas horas, ela havia contado tanto da sua vida que talvez eu pudesse dizer que a conhecia melhor do que qualquer pessoa no mundo.
Minhas unhas já estavam feitas em um esmalte claro e discreto, combinando com o pouco comprimento delas. Meu cabelo já havia sido minimamente produzido depois do banho, apenas penteado para dar um melhor volume. A maquiagem recém terminada foi, como prometido, apenas o suficiente para iluminar meus olhos e torná-los um pouco mais fortes. Uma mistura bem dosada de sombras prateada e rosa dava o toque final que combinava com o que eu vestiria aquela noite: Vestido branco perolado e sapatos vermelhos. O delineador e rímel tornavam meu olhar mais sedutor, mas ainda discreto. O blush dava uma coloração muito suave ao meu rosto, e o batom, também muito suave, dava apenas um pouco mais de cor aos meus lábios.
Estávamos trancadas no quarto de hóspedes, já que Michele se irritava com “interrupções de homens ansiosos”.
- Pode me ajudar com o vestido? Não quero estragar as unhas.
- Claro, coração.
Sem pensar, desabotoei a blusa e chutei a calça para longe, ficando apenas de calcinha e sutiã. Imediatamente, lembrei de um detalhe importante, mas então já era tarde.
Me virei para encará-la e, como imaginava, a encontrei me olhando como se eu estivesse sangrando por cada buraco do meu corpo.
- Você... Está bem? — Ela perguntou, assustada e séria, percorrendo com os olhos meus vários hematomas.
- Estou, isso não é nada. — Falei, tentando tranquilizá-la.
- Ele... Foi ele quem fez isso em você? — Ela perguntou, apontando para a porta se referindo a Edward.
Ah, merda! Como eu ia explicar aquela situação?
- Foi, mas... Não é o que você está pensando. Nós... tivemos uma reconciliação ontem à noite...
Ela parou de encarar meus machucados e me olhou nos olhos. De repente, sorriu de forma maliciosa, entendendo aos poucos o que eu estava querendo explicar.
- Isso foi sexo?
Senti meu rosto ferver mais uma vez.
- Foi...
Michele gargalhou.
- A noite deve ter sido uma delícia, hein chuchu?
Não respondi, mas minha tonalidade vermelho-camarão respondeu por mim.
- Vocês ainda estão vivas aí dentro?
Me assustei com o berro de Edward do outro lado da porta.
- Paciência é uma virtude! — Michele gritou de volta.
- Devolva minha namorada!
Ela me ajudou a passar o creme para os machucados e depois me ajudou com a roupa, passando com cuidado as partes mais justas do vestido pelo meu corpo. Calcei meus sapatos altos vermelhos e dei uma última olhada no espelho.
Eu estava realmente linda.
- Não é por nada não, mas eu mando muito bem. — Ela falou atrás de mim, olhando para o meu reflexo e piscando.
Sorri de seu comentário, agradecendo o quase-elogio.
Quando abrimos a porta, levamos outra vez um susto ao dar de cara com Edward apoiado na parede com cara de cachorro abandonado. Ele vestia uma calça jeans e uma camisa social branca dobrada até os cotovelos, ainda aberta. Aparentemente, a ansiedade em me ver não o deixou terminar de se arrumar.
Ele me encarou com os olhos muito abertos, sem dizer uma única palavra, e ficou assim durante algum tempo. Me perguntei se ele poderia estar dormindo e ter esquecido de fechar os olhos.
- E então? — Michele quebrou o silêncio — Valeu a pena a espera, sr. Impaciência?
Ele continuou me encarando, como se ninguém tivesse dito nada. Então comecei a considerar a possibilidade de que talvez ele não estivesse muito contente com a minha aparência.
- Se não gostou de alguma coisa... — Comecei.
- Você está perfeita. — Ele me interrompeu, ainda me olhando de cima a baixo. Não senti vergonha por um único motivo: os olhares dele não eram indiscretos ou inapropriados. Ele estava apenas me admirando, de forma verdadeira e até inocente.
- Obrigada. — Sorri.
- Pombinhos... — Michele interrompeu nosso flerte — Tenho que ir, me preparar pro meu Reveillon.
E então me dei conta de que eram 19h da noite do último dia do ano, e que provavelmente não havia cabeleireiras/maquiadores/manicures disponíveis a essa altura do campeonato. Isso deveria significar que ela tinha que ser muito bem paga para estar ali até aquela hora.
- Michele... — Comecei — Você pode me dizer quant...
- Não, ela não pode. — Edward me interrompeu outra vez, virando-se para ela e entregando-lhe o cheque que trazia nas mãos — Obrigado, acho que isso cobre o seu trabalho.
Ela leu o valor e tentou ser discreta, mas consegui notar que seus olhos se esbugalharam um pouco.
- Cobre três trabalhos meus.
Olhei-o de forma assassina.
- Então, boa virada de ano pra você e pra sua família. — Ele concluiu, apertando sua mão de maneira educada e ignorando meu olhar fuzilante.
- Ah, pra vocês também. — Ela respondeu, com um sorriso radiante no rosto — Mas pega leve na comemoração depois, chuchu. A gata aqui é muito clarinha.
Abaixei a cabeça, me amaldiçoando por não conseguir parar de sentir vergonha.
- É, eu sei. — Foi a única coisa que Edward respondeu.
Depois de levá-la até a saída, ele voltou ao quarto de hóspedes, onde eu procurava algum perfume para usar aquela noite. Pensei que quisesse dizer alguma coisa, mas tudo o que fez foi ficar me encarando da porta, ainda com a camisa desabotoada e sem os sapatos.
- Eu já te pedi algumas vezes... — Comecei.
- Eu sei.
Encarei-o tentando buscar as palavras certas para impedir que aquela discussão se tornasse mais uma vez cíclica, fazendo com que não chegássemos a lugar algum.
- Eu vou te ajudar a conseguir um emprego. Você vai poder gastar tudo que ganhar comigo, se quiser se vingar. Mas, por favor, me deixe cuidar de você do meu jeito. É só isso que estou pedindo.
Eu não sabia quantas vezes mais discutiria sobre gastos com ele. Mas independente do número, tinha certeza que nunca concordaríamos. Não por achar que o que ele fazia era absurdo — não era, e não havia problemas naquilo. Meus pais viveram daquele jeito, os pais dele viviam daquele jeito, e muitos casais do mundo sabiam lidar com aquilo — mas o fato era que ao mesmo tempo que eu não me sentia bem, ele adorava fazer aquilo.
Não era dos presentes que eu não gostava — porque eu gostava de todos — mas sim da situação de receber tudo e não poder dar o equivalente em troca.
Suspirei.
- Só por favor me diga que você acabou de gastar um valor de menos de quatro dígitos.
- Ah, sim. Foram menos de quatro dígitos. Um pouco menos, mas...
Gemi alto.
- Vá terminar de se vestir. — Falei, colocando um ponto final no assunto, pelo menos momentaneamente, e querendo esquecer daquilo.
Quando Edward finalmente estava pronto, pude analisar seu conjunto completo. As calças jeans eram justas, muito diferente dos sacos de batatas que os homens costumavam usar naqueles dias. A camisa social branca estava finalmente abotoada, com as mangas enroladas pelo antebraço de qualquer jeito. Ele calçava um tênis meio branco meio azul, e os cabelos como sempre rebeldes terminavam de dar um ar incrivelmente despojado para um executivo cujo uniforme era invariavelmente ternos caríssimos.
- Estou bonito? — Ele perguntou de bom humor, dando uma volta completa para que eu pudesse vê-lo de cada ângulo.
Suspirei. Eu suspirava muito quando ele estava por perto.
- Sempre. — Respondi, observando-o melhor de frente — Seus olhos estão mais claros...
- É, não sei porquê isso acontece. Às vezes eles resolvem clarear.
Eu também não sabia o motivo, mas não me importava. O que importava era que, aquela noite, ele conseguia estar mais bonito do que qualquer dia em que eu já tinha o visto. Por isso, preparando as últimas coisas para irmos embora, eu me pegava admirando-o sem motivo, apenas para olhá-lo e lembrar a mim mesma de que ele era meu. Mas se minha indiscrição era visível, não era comparável à indiscrição de Edward, que parecia entrar em algum estado de autismo toda vez que olhava para mim.
Em um desses momentos, o celular dele tocou dentro do bolso.
- Alô?
- Onde vocês estão, porra?
Victoria falava tão alto, tentando sobrepor sua voz à bagunça do ambiente onde estava, que eu podia escutar até a alguns metros de distância de Edward.
- Estamos indo! — Ele respondeu, desligando logo em seguida. Edward correu até a adega, escolhendo algum vinho e trazendo a garrafa consigo, provavelmente para levar à festa. Eu fui atrás da minha bolsa e do meu sobretudo vermelho, e quando cheguei na sala outra vez ele já segurava a porta para mim, vestindo seu próprio sobretudo bege e me encarando daquele jeito apaixonado. Sem dizer nada, o segui até a garagem e relaxei na viagem para a virada de ano, aliviada por ter sido incluída na pergunta de Victoria — o que queria dizer que, dessa vez, eu não apareceria de surpresa como uma penetra de festa.
...
- Até que enfim!
Victoria nos atendeu com uma taça de vinho na mão, o que achei ser o motivo de vê-la mais sorridente nessa ocasião do que na última em que estivemos juntas.
Edward entrou primeiro, dando um beijo e um abraço nela, enquanto entregava o vinho trazido e pedia desculpas pelo atraso. Ela pareceu não se importar. Quando me viu, não mudou em nada sua expressão simpática, indo me dar dois beijos de boas-vindas.
- Edward conhece a casa, ele mostra o resto pra você. Mas essa é a minha sala.
Tive tempo de dar uma olhada rápida em volta. O apartamento era muito grande — muito maior do que o que uma secretária poderia manter. O lugar estava cheio de gente que conversava de forma descontraída e ria de piadas soltas.
Um grupo de homens gritou alguma coisa ao ver Edward, o que pensei ser também um urro de “olá”. Ele não se mexeu, mas sorriu de forma sincera de volta, e então me perguntei se o motivo de ter ficado imóvel era porque eu estava agarrando sua camisa por trás.
- Como vai, Edward? — Um deles disse, se aproximando e cumprimentando-o com alegria.
- Tudo bem, Josh. E com você?
- Bem, como sempre.
O homem era negro. Não muito escuro, mas o suficiente para não ser considerado mulato. Ele tinha as feições incrivelmente fortes, mas muitíssimo belas. Seus lábios eram cheios e perfeitamente desenhados, as sobrancelhas muito escuras, cabelo muito rente à cabeça e olhos cor de mel, o que tornava seu olhar ainda mais intenso. Ele era tão alto quanto Edward, e era possível ver que também era forte através do casaco branco justo que vestia. Seu sorriso era belíssimo.
- Essa é Isabella. Bella, esse é Joshua, marido de Victoria.
- Ah! Oi! — Falei surpresa, estendendo a mão para ele. Joshua sorriu abertamente para mim.
- Encantado, Isabella. Estou acostumado com uma leve surpresa nas feições das pessoas para as quais sou apresentado como marido da minha mulher. Acho que ninguém me imagina assim.
Ele estava certo, eu definitivamente não o imaginava assim. E o pior era que eu sequer sabia se isso poderia ser classificado como preconceito.
- Me chame de Bella, por favor.
- Chamo se você me chamar de Josh.
De repente, senti alguém passar entre mim e Edward e agarrá-lo com força. Olhei na altura de sua barriga e vi que ele retribuía o abraço em uma menina com um vestido branco, cabelos compridos muito cacheados e ruivos e sardas claras: Exatamente como Victoria, exceto pelos olhos, que tinham a mesmíssima tonalidade mel dos de Josh. Ela devia ter no máximo uns oito anos, e parecia muito com uma linda boneca de porcelana.
- Você demora a vir me ver. — A boneca falou.
- Eu sou um homem ocupado, Julia. Pode perguntar pra sua mãe, ela sabe melhor do que ninguém.
Como mágica, Victoria apareceu ao meu lado, segurando no colo uma outra menina muito pequena. Mas essa era completamente diferente da irmã, e se não tivesse acabado de conhecer o pai, poderia dizer que a criança havia provavelmente sido adotada. Ela sim ela mulata, com uma tonalidade de pele mais clara que a de Josh, mas bem mais escura que a da mãe. Seu cabelo era idêntico ao da irmã, a não ser por ser um pouco mais curto e negro. Quando ela se virou, me deparei com os olhos mais azuis que já tinha visto até então — mais azuis até mesmo que os de Victoria.
A menina era incrivelmente fofa e linda.
Ela se jogou para o colo de Edward assim que o viu. Victoria deixou que ele a pegasse, nos informando que a manha excessiva vinha do sono.
Me permiti apenas observar a cena. Edward já era lindo de tirar o fôlego, mas por algum motivo, vê-lo com uma criança no colo fez com que sua beleza triplicasse. Meus olhos agora provavelmente brilhavam: Ele seria um pai incrivelmente sexy, e de repente desejei estar grávida.
- Ei Lilly, precisa ficar acordada até a meia-noite. — Ele disse.
Ela simplesmente negou com a cabeça, enfiando o rosto no pescoço de Edward e se aconchegando ali.
- Ela é muito criança pra isso. — Julia falou, debochando da irmã.
Lilly olhou para ela com um olhar de ódio e, de pirraça, arregalou os olhos, se forçando a acordar.
- Não sou!
- É sim.
- Não briguem. — Josh falou, e as duas pararam.
- Bella, essas são minhas filhas. Julia tem sete anos e Lilly tem três.
Me dei conta de que aquela era, provavelmente, a família mais linda que eu já havia visto na vida. Não consegui deixar de sorrir para as meninas. Julia me olhou um pouco desconfiada, e depois de algum tempo se virou para Edward.
- Ela é sua namorada?
- É sim. — Ele respondeu.
- Sabia que estava mentindo quando disse que eu era a sua namorada.
Ele riu, tentando se equilibrar com Lilly em seu colo, que permanecia lutando contra o sono só para contra-argumentar a irmã.
- Mas você é. Só que é diferente.
- Aham — Ela falou, cética e debochada, e então reparei que Julia era uma miniatura perfeita de Victoria.
Fiquei com medo de começar a ser odiada por uma criança, e só então me dei conta do quão imatura eu realmente era.
Victoria tinha vários primos e primas, todos lá. A família de Josh também estava presente, tornando o local uma mistura de etnias incrivelmente forte e contrastante. Conheci amigos de infância e de trabalho, que conversavam animadamente sobre assuntos aleatórios. Queria ter sido apresentada somente às pessoas com as quais Edward falava e conhecia, mas alguns ali eram novos até para ele, apesar de saberem perfeitamente quem ele era. Por isso, me senti um pouco incomodada com alguns olhares de "Ganhou na loteria" que recebi. Ainda assim, a maioria daquelas pessoas pareciam ter o poder de fazer com que eu me sentisse à vontade.
- Quer jogar videogame?
Senti a barra do meu vestido ser puxada por trás e me virei. Era Julia.
- Ah, eu nunca joguei videogame... — Respondi de forma sincera.
- Tudo bem, eu te ensino. — Ela falou, me puxando pela mão.
- Ei... — Edward falou, se virando assim que sentiu minhas mãos saírem de sua camisa. Com um sorriso no rosto, olhou para a menina e brincou — Vai devolvê-la depois?
- Só se ela quiser voltar. — Julia provocou sorrindo, e me perguntei se aquela capacidade de responder à altura de forma inteligente era normal para uma criança de sete anos.
Ele chegou perto de mim, falando ao meu ouvido.
- Quer ir?
- Sim. Volto mais tard... — Não consegui terminar, já sendo puxada pela mão por entre as pessoas do local.
Chegamos a uma pequena sala aconchegante, com alguns sofás e puffs, uma tv grande e algo que deveria ser algum videogame. Julia saltitou até os aparelhos e os ligou, manuseando rapidamente os controles.
- Aqui, esse é o seu. Esse botão pula, esse anda e aquele bate.
Sentei e tentei lembrar de tudo que ela havia me informado. Era um pouco complicado, mas se uma criança de sete anos conseguia fazer, talvez eu conseguisse também.
Ela acionou um jogo com princesas e magias, em que, juntas, tínhamos que bater e derrotar monstros e outras coisas esquisitas. Julia quicava no sofá ao meu lado toda vez que matava algum monstro, e eu ria. Ela era mesmo uma graça. Tentei imitar o movimento de seus dedos no controle, e até consegui algumas proezas.
Algum tempo depois, quando eu já havia melhorado de forma considerável, vi Lilly entrar na sala sonolenta e caminhar a passinhos minúsculos, esfregando os olhos e bocejando. Quando nos viu, veio em nossa direção, fazendo uma força imensa para subir no sofá e sentar ao meu outro lado.
Ela ficou ali, apenas observando tudo o que acontecia na tv. Tentei prestar atenção no videogame, e não nela, por isso suspirei quando senti seu rosto no meu braço esquerdo e, ao olhá-la, vê-la completamente adormecida enquanto se apoiava em mim.
Julia parecia alheia à irmã, muito compenetrada no jogo. Eu sabia que teria que enfrentar sua fúria caso perdêssemos àquela altura do campeonato, então me concentrei em fazer os movimentos certos enquanto tentava não me mexer muito, com medo de acordar Lilly que agora já ressonava tranquila no meu colo, chupando o dedo.
- Nunca consegui passar dessa fase... — Julia falou, já sussurrando, e então notei que, embora eu achasse que não, ela estava bastante ciente da irmã ali.
- Até agora. — Falei, animando-a e aceitando o desafio.
A fase era mesmo difícil. Impedi que a personagem dela morresse umas três vezes, o que seria um grande mérito se ela não tivesse feito a mesma coisa comigo dezesseis vezes. Demoramos um pouco ali, tentando nos esquivar de vilões e conseguindo moedas, corações e outras coisas espalhadas por ali.
Quando finalmente conseguimos passar pelo último desafio, Julia pulou do sofá e deu um urro de felicidade um pouco alto demais. Lilly tremeu um pouco no meu colo e se mexeu, pronta para acordar. Deslizei meus dedos suavemente entre seus cabelos, tentando tranquilizá-la de novo, com pena de que seu sono fosse interrompido.
Ouvi uma respiração que não pertencia nem a mim, nem a Julia e nem a Lilly. Olhei rapidamente para o lado e encontrei Edward encostado na moldura da porta, com as mãos nos bolsos, observando nós três.
- Há quanto tempo está aí? — Perguntei.
- Há algum. — Ele respondeu de forma simples. Seus olhos brilhavam com alguma coisa.
- Ah, sabia que ela estava dormindo em algum lugar. — Josh irrompeu pela sala, pegando Lilly nos braços sem esforço algum e levando-a para a cama — Desculpe por isso.
- Não, tudo bem... — Falei, desejando sinceramente que ele não tivesse a tirado de mim.
- Ei, Julia — Edward falou, chamando minha atenção de novo — Posso levar Bella de volta?
- Mas a gente ia jogar outro jogo agora... — Ela respondeu, fazendo cara de abandono. Então senti uma vontade imensa de não abandoná-la.
- Eu fico mais um pouco. — Me intrometi, fazendo com que a expressão de tristeza sumisse e desse lugar a um sorriso lindo. Virei-me outra vez para Edward, pedindo que ele me entendesse — Mais alguns minutos e eu volto pra festa.
Ele suspirou.
- Tudo bem. Vou estar esperando.
E dando um sorriso muito discreto para mim, se retirou e nos deixou sozinhas outra vez.
...
Josh achou que já era hora de Julia comer alguma coisa e “sair da frente daquele videogame”. Eu concordava, já sentindo tanto minha cabeça quanto meus dedos doerem, e fui eternamente grata a ele por isso.
Saí à procura de Edward e demorei um pouco até encontrá-lo. Quando finalmente o avistei, a um canto da sala lotada de gente, ele parecia entretido em uma conversa com uma morena alta e muito bonita, que parecia exageradamente contente em estar falando com ele.
Então, de repente, senti meu sangue ferver.
Edward's POV
Aquela era Nicole. Eu não a via havia algum tempo, mas ainda lembrava de suas indiretas nada discretas para cima de mim. Ela era uma das primas de Victoria, e uma das coisas que me lembro na adolescência era que ela sempre deixava claro que estaria disposta a me dar a qualquer momento do dia. Tive que aturar piadas quanto à minha sexualidade por sempre negá-la. De fato, era esquisito que alguém não a desejasse, porque Nicole era mesmo muito bonita.
Mesmo completamente diferente de Victoria, ela sempre chamou a atenção por sua pele morena, altura imponente e olhos sedutores. Mas minha consciência nunca deixou que eu me aproveitasse de uma mulher da família da minha melhor amiga. Além disso, eu sabia que mesmo que decidisse usá-la, ela grudaria em mim como chiclete e jamais me deixaria em paz de novo.
- Você deveria aparecer mais vezes. — Ela falou, limpando alguma coisa do meu ombro que não pude ver. Talvez fosse uma sujeira imaginária, porque Nicole estava sempre arranjando algum jeito de tocar em mim.
- Vida ocupada. — Respondi cordialmente.
- Não seja idiota. Todos temos tempo para os amigos de infância quando queremos.
Ela sempre falava se insinuando para mim, não importava qual era o assunto em questão. Por algum motivo, eu achava isso engraçado.
- Como vai a vida? — Perguntei de forma aleatória.
- Vai ótima. Melhor agora que nos encontramos de novo.
A mão dela, antes no meu ombro, passou para meu peito sem a menor explicação.
- A minha também anda ótima. — Me apressei em esclarecer — Estou namorando.
- Ah, sério? E onde está a Sra. Cullen? Te deixou sozinho no Reveillon? — Ela provocou.
- Está aqui, em algum lugar. E se ela vir você me tocando assim, acho que vai ficar meio puta.
- Ela não sabe lidar com um pouco de concorrência?
Eu estava pronto para dizer a ela que não havia concorrência alguma, mas as palavras não puderam sair da minha boca porque, no segundo seguinte, alguém minúsculo se enfiou entre nós.
Isabella estava puta. Ela não precisou dizer uma palavra sequer para que eu notasse isso. Olhei para baixo e vi seu rosto contorcido em uma expressão de raiva inédita para mim. Suas mãos pequenas estavam fechadas em punhos, e ela exalava com força. Tive a estranha sensação de estar encarando um pequeno gatinho irritado.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ela não me dirigiu a palavra, virando-se e ficando de frente para Nicole. Os rostos das duas estavam a mais ou menos dois centímetros de distância um do outro. Mesmo Isabella sendo muito mais baixa que Nicole, que tinha quase a minha altura, ela não pareceu intimidada em momento algum. Por isso, me assustei ao vê-las se encarando de igual para igual, Nicole com um sorriso debochado no rosto e Isabella com um olhar assassino.
- Estava observando de longe, e me pareceu que você estava excessivamente próxima ao meu namorado. Espero que não se importe se eu ficar aqui.
- Meu bem... — A outra respondeu, chegando ainda mais próximo a ela — Eu conheço seu namorado há muito tempo. E acredite, tenho estado próxima a ele antes mesmo de você aparecer.
- O que mostra seu grau de incompetência por não ter conseguido tê-lo pra você.
O sorriso de deboche sumiu de seu rosto imediatamente. Eu mesmo levei um choque com aquela resposta. Como Nicole não tinha uma réplica a altura, Isabella deu seu golpe final.
- Vamos deixar as coisas claras: Sua mão no peito dele outra vez significa a minha mão na sua cara. Combinado?
Embora ela parecesse um gatinho irritado, inexplicavelmente temi pela vida de Nicole. Ela também pareceu temerosa, e alguém que chegasse naquele momento jamais entenderia como uma mulher daquele tamanho podia estar visivelmente com medo de uma miniatura.
Sempre pensei que, em situações desse tipo, algum escândalo teria que ser formado. Por isso, me surpreendi com a discrição de Isabella ao dizer claramente que enfiaria a mão na cara de outra mulher através de um quase gentil sussurro. Olhei em volta e ninguém parecia notar o que estava acontecendo entre nós três.
- Edward... — Nicole tentou se recompor da ameaça, piscando algumas vezes e voltando a me enxergar ali — Nos falamos depois.
Sem dizer mais nada, caminhou para trás no meio das várias pessoas que se divertiam.
E então, Isabella se voltou para mim. E imediatamente temi pela minha vida.
- Eu não estava dando mole pra ela. Eu juro...
- Ela estava alisando o seu peito. — Ela falou, entre dentes. Senti um ciúme borbulhante em cada palavra que dizia, seus olhos pareciam querer me esquartejar.
- Ela sempre foi assim. Sempre se atirou pra mim...
- E por que você não se afastou, porra?
- Nós só estávamos conversando! Eu juro que não falei nada...
- Não interessa o que falou ou deixou de falar! Não passou pela sua cabeça que talvez eu não gostasse de alguém te alisando? Você pode achar divertido, mas o que pensaria se me visse dando condição pra um cara que estivesse me comendo com os olhos?
Parei por um momento, tentando processar tudo o que ela disse, e então me senti um idiota.
Era claro que ela estava certa.
- Eu não tinha pensado...
- Claro que não. — Ela falou, e então me deu as costas, com o objetivo de se afastar. Segurei em sua cintura com o máximo de delicadeza possível, impedindo que ela fosse imediatamente.
- Me desculpa... Eu não pensei que fosse te magoar assim. — Falei ao pé do seu ouvido.
- Sabe como podemos ter uma idéia se vamos ou não magoar alguém? É só nos colocarmos na situação inversa. Como você se sentiria?
Eu ficaria extremamente puto. Claro que ficaria. Claro que ela estava certa.
Afrouxei o aperto em sua cintura, dando a ela a opção de se afastar de mim.
E ela foi.
...
Eu queria dar um tempo para Isabella. Sabia que tinha sido um idiota, e me irritava o fato de que ela tivesse precisado me mostrar isso. Sabia que ela deveria estar agora em algum lugar da casa com Julia. Na verdade, era isso que eu esperava.
Aproveitei o tempo para ligar para Londres, França e Alemanha, desejando feliz ano novo para minha família. Todos perguntaram por Isabella, por isso tive que inventar qualquer desculpa para não ter que passar o telefone para ela. Mesmo não falando sobre o que havia acontecido, minha mãe deduziu que algo estava errado comigo. Alice, por sua vez, deixou claro saber que, o que quer que tivesse acontecido, a culpa era minha.
Deixei que algumas pessoas viessem falar comigo sobre assuntos sem importância. Vez ou outra, espiava para trás, procurando-a ao redor da sala. Não a encontrei em momento algum.
Algumas pessoas vieram falar sobre como eu parecia bem agora, e até me parabenizaram pela "linda namorada". A maioria parecia verdadeira, mas alguns só queriam saber mais sobre a minha vida. Eu agradecia de forma genuína pelas congratulações, respondendo coisas como "Sou um cara de sorte", mas cada vez que tocavam no nome dela eu sentia uma pequena angústia e tristeza em saber da sua mágoa comigo.
Olhei para o relógio e constatei que 45 minutos haviam se passado desde que Isabella havia me deixado sozinho.
- Victoria... — Chamei-a quando ela passou por mim.
- Tenho que arrumar as coisas, estamos chegando perto da meia-noite... — Ela respondeu, distraída com uma mesa lateral de frios.
- Onde está Julia? Ela está roubando a minha namorada.
- Não está não. Julia está dormindo.
Encarei-a um pouco ansioso.
- Bella não está com ela?
- Não. Por que ela não está com você? — Victoria perguntou, deixando de lado a mesa e colocando as mãos na cintura, me encarando com um olhar de "O que você fez dessa vez?"
- Ela ficou puta porque sua prima estava me alisando...
- E por que você deixou que ela te alisasse?
- Porque eu sou um idiota. Vou procurá-la.
Não esperei por uma resposta, saindo imediatamente e pedindo licença pela festa.
A casa de Victoria era muito grande, o que dificultou minha busca, por isso me amaldiçoei por ter insistido em pagar excessivamente bem à Victoria. Era claro que uma secretária não poderia bancar uma casa daquelas, mas como ela cuidava da minha empresa muito melhor do que eu, era o mínimo que eu poderia fazer mesmo.
Entrei em todos os quartos e pequenas salas. Havia pessoas em todos os lugares, por isso achá-la se tornou um desafio. Ela não estava em nenhum lugar. Esperei do lado de fora do banheiro para que a porta abrisse, apenas para constatar que a pessoa dentro dele não era ela. A cozinha estava abarrotada de gente também, mas nenhuma delas era a que eu queria.
Perguntei para algumas pessoas se a tinham visto, mas ninguém sabia me dizer onde Isabella estava. Encontrei Joshua conversando com alguns amigos perto da escada que dava para o andar subterrâneo.
- Josh, viu Bella?
- Vi. Está lá embaixo, no bar.
"O bar" era o porão transformado completamente numa sala, toda em tom de madeira, com uma iluminação fraca. A idéia deles era fazer com que aquilo parecesse, no final das contas, um pub com um pequeno bar, uma mesa de sinuca, tv e som. Era um lugar do qual eu sempre tive inveja naquela casa.
- Ela está sozinha? — Perguntei, já colocando o pé no primeiro degrau.
- A última vez que fui lá, estava. Faz uns 40 minutos, desci pra pegar mais whisky. Ela estava sentada perto da bancada. Parecia um pouco triste, então me pediu uma dose de alguma coisa.
Encarei-o um pouco perturbado. Victoria apareceu atrás dele nesse momento.
- Você deu alguma coisa pra ela beber? — Falei, torcendo para que sua resposta fosse negativa.
- Deixei uma garrafa de vinho tinto com ela. Fiz mal?
Fechei os olhos.
Isabella era fraca para bebida como uma criança de cinco anos, estava com o estômago vazio e tinha uma garrafa de vinho inteira nas mãos.
Era claro que aquilo ia acabar em merda.
Victoria e Josh pareceram entender minha súbita preocupação, então quando cheguei no andar de baixo, ambos estavam atrás de mim.
Ela estava ainda na bancada, como Joshua havia dito. Caminhei até ela, tocando-a gentilmente no braço esquerdo. Sua cabeça estava virada para o outro lado, apoiada na mão. Os cabelos escondiam seu rosto. Na frente dela estavam uma garrafa de vinho quase pela metade e uma taça vazia. Pela altura do líquido na garrafa, calculei que Isabella provavelmente havia tomado três doses. Ou mais.
- Bella?
Ela se virou para mim um pouco devagar. Seu olhar estava desfocado, vermelho e úmido, seu rosto molhado. Fui pego de surpresa ao constatar que ela olhava para mim com ternura, e não de forma hostil como imaginei que fosse ser.
Me odiei imediatamente por tê-la magoado.
- Você não devia ter bebido... — Balbuciei, enquanto tirava alguns fios rebeldes ainda em seu rosto. — Vem, vou levar você pra casa.
Ela continuou me olhando carinhosamente, ainda quieta.
- Não vão ficar pra virada? — Victoria exclamou decepcionada — Faltam só quinze minutos!
- Melhor não — Respondi, me virando para ela e olhando-a de forma sugestiva, torcendo para que me entendesse — Ela não está acostumada a beber. Pode se comportar de forma imprevisível.
Victoria entendeu. Isabella e eu vivíamos à base de um segredo muito bem guardado, e agir de forma “imprevisível” significava talvez colocar em risco esse segredo.
Ela não reclamou, obviamente concordando com a minha cautela. Eu sabia que ela não havia contado meu segredo nem mesmo para Joshua, e mais uma vez senti uma gratidão enorme por sua discrição. Durante esse tempo, tudo que Isabella fazia era me olhar com aqueles olhos chorosos. De repente me peguei pensando na possibilidade de não merecê-la.
- Vem, minha linda... — Falei, puxando-a pela cintura suavemente.
- Eu preciso dizer um coisa.
A voz dela saiu mais alta do que o normal. Ela estava bêbada, e eu sabia disso antes de sentir o cheiro de vinho no hálito dela.
Os músculos do meu pescoço se enrijecerm.
- Você me diz em casa. Vem... — Forcei um pouco mais seu corpo contra o meu, na esperança de fazê-la caminhar.
- Não, eu preciso falar! — Ela gritou, se livrando dos meus braços e cambaleando um pouco para trás.
- Bella... — Supliquei, mas era difícil pedir a compreensão de alguém que sequer estava em suas condições normais. Olhei para trás e vi Joshua assistindo tudo. Victoria compartilhava um pouco do meu pânico.
- Não aguento mais isso, não aguento... — Ela falou, recomeçando a chorar copiosamente.
Eu não sabia o que ela falaria. Não sabia o quanto falaria.
- Vamos deixá-los à vontade... — Victoria disse, empurrando Joshua para a saída, mas antes que pudessem sair, a voz de Isabella cortou o silêncio.
- Eu amo você.
Virei para ela outra vez. As lágrimas escorriam livremente por seu rosto. Ela me olhava de forma intensa, embora seu olhar ainda parecesse um pouco desfocado.
Mas, mesmo bêbada. ela estava muito ciente da minha presença ali.
- Eu amo... você. — Ela repetiu, não porque achava que eu não havia escutado, mas sim porque aquelas palavras pareciam sair dela como a confissão de um pecado. Como se a fizessem se sentir mais leve, mais importante. — Amo você demais. E tenho que dizer isso, mesmo que sinta medo. Porque acho que talvez essa seja a única coisa certa na minha vida. É a única coisa da qual não me arrependo. A única coisa nobre em mim. E tenho que dizer isso porque é desesperante saber que estou sendo julgada constantemente mesmo te amando desse jeito.
Tudo que eu podia fazer era encará-la, tentando reunir os pedaços de informação. Senti uma presença atrás de mim, e então entendi que Victoria e Joshua ainda estavam lá, ouvindo tudo.
Ela continuou, fechando os olhos como se quisesse se concentrar na difícil tarefa de cuspir toda uma angústia acumulada.
- Eu nunca, nunca estaria com você por outra coisa que não fosse isso. Não quero a porra do seu dinheiro, não preciso da porra do seu nome pra conseguir status em nada. Eu simplesmente amo você. Amo tanto que acho que seria capaz de matar alguém se estivesse a ponto de te perder. Porque eu preciso de você. Eu preciso de você. — Ela soluçou, agora chorando tão compulsivamente que talvez precisasse de algum socorro — Não é justo ser vista como uma vagabunda interesseira... Eu não sou. Preciso que você saiba disso... Preciso que entendam isso pelo menos uma vez...
Isabella deu dois passos rápidos na minha direção e me abraçou pela cintura, enfiando o rosto no meu peito e chorando com força ali, enquanto repetia “eu te amo” com uma voz abafada contra minha roupa. E cada vez que ela repetia aquelas palavras meu coração se enchia de uma alegria tão simples e verdadeira que mal podia conter a vontade de gargalhar.
Ela nunca havia dito aquilo. Não que eu precisasse ouvir aquela confissão para acreditar que seus sentimentos eram verdadeiros, mas foi só então que eu realmente soube da intensidade do que ela sentia.
Ela não gostava de mim. Ela não estava apaixonada por mim. Era mais do que isso.
Ela me amava.
E, de repente, tudo no mundo pareceu um pouco melhor.
- Estamos subindo pra preparação da virada. — Victoria falou, me fazendo lembrar que ela e Joshua ainda estavam lá — Pode ficar por aqui se quiser. Eu não vou me importar.
- Obrigado... — Foi tudo o que consegui dizer, ainda sendo apertado por Isabella em um abraço pequeno mas forte.
Eles saíram, nos deixando sozinhos no bar. Ouvi-a fungar baixo contra minha camisa, e senti uma enorme vontade de confortá-la. Sem muito esforço, levantei-a nos braços e a levei para um dos sofás perto da tv, deitando-a lá. Ela já parecia bastante sonolenta, piscando de forma incrivelmente lenta e deixando as últimas lágrimas escorrerem sem compromisso pelo canto do olho.
Fiquei olhando para ela, e durante algum tempo tudo o que fez foi me encarar de volta. Quando a última piscada pareceu pesada demais, ela não voltou a abrir os olhos, então ajoelhei ao seu lado e tudo o que me permiti fazer foi admirá-la.
Linda. Ela era linda. E era minha.
Era tudo de que eu precisava, e não havia nenhum exagero nesse pensamento. Eu poderia perder tudo o que tinha, menos ela. Porque, no final das contas, ela era a pessoa pela qual eu havia procurado a vida toda. Era por ela que eu faria qualquer coisa, era nela que eu me basearia para ter a noção do certo e do errado. Ela era a inspiração do que quer que eu viesse a fazer, e mesmo que todos esses pensamentos parecessem melosos demais, eram tão verdadeiros que não havia como negá-los.
Deixei que o tempo passasse, ouvindo o barulho de excitação do andar de cima. As pessoas falavam animadamente, fazendo planos para o ano que estava por vir. O champagne já devia estar preparado, as taças prontas para serem cheias, os amigos e as famílias prontos para se abraçarem e desejarem coisas boas uns aos outros.
E eu permanecia ali. Porque se meu ano tivesse que começar com uma única pessoa, essa pessoa era ela.
Sem a menor sombra de dúvidas.
- Como foi que você se tornou isso tudo pra mim em tão pouco tempo? — Falei em um tom muito baixo, enquanto afagava seus cabelos e a admirava.
Ela não respondeu, absorta em seu sono. Sorri sem motivo algum.
Ouvi as vozes aumentarem no andar de cima. Esperei. Seria o meu cronômetro naquela ocasião. Senti uma estranha paz tomar conta de mim enquanto a observava dormir no sofá de couro.
A contagem regressiva no andar de cima começou. Segurei uma de suas mãos, engatinhando até ficar o mais próximo possível dela. Seus olhos se abriram lentamente, piscando algumas vezes com dificuldade, como se ela estivesse esperando pelo momento certo.
Encarei a poucos centímetros do meu rosto aqueles olhos de chocolate, e tive a súbita certeza de que morreria por eles.
- FELIZ ANO NOVO! — Um mar de vozes explodiu no andar de cima, gritando e fazendo um barulho ensurdecedor.
Sem o menor aviso, Isabella se jogou para cima, envolvendo seus braços no meu pescoço e me beijando com ternura. Senti os pêlos na minha nuca se arrepiarem.
- Feliz ano novo, meu amor... — Ela respondeu, separando seus lábios dos meus e sorrindo abobalhada por causa do álcool.
Encostei minha testa na dela, apenas admirando seu sorriso.
Ela estava ali. Era mais do que o suficiente.
- Feliz ano novo, minha rainha.
Seus olhos brilharam. O silêncio ali contrastava fortemente com a algazarra da festa que acontecia acima de nós, mas o som chegava um pouco abafado aos meus ouvidos — eu não estava realmente prestando atenção nele.
Porque ela estava ali.
O ano não poderia ter começado melhor.
...
- Está em condições de dirigir? — Victoria perguntou, me encarando ao lado do carro como se fosse minha mãe.
- Não bebi nada. — Respondi, dizendo a verdade. Eu sabia que teria que voltar dirigindo para casa, e não estava nos meus planos começar o ano com a cara enfiada em um poste.
Ela olhou para o banco do carona, onde Isabella dormia tranquilamente. Observei-a também.
- Ela vai ficar bem? — Perguntou.
- Acho que sim. Só com um pouco de dor de cabeça quando acordar.
Notei que Victoria encarava Isabella com pena.
- Ela tem um problema sério em relação ao passado, não é? Nunca vi alguém tão desesperado pra esclarecer alguma coisa...
- É... — Concordei — Preciso trabalhar nisso. Acho que ela tem muitos traumas.
- Eu imagino.
Ficamos em silêncio de novo, observando-a dormir.
- Josh me mandou pedir mil desculpas, ele não sabia...
- Está tudo bem. Mas agora vocês já sabem que ela fica um pouco louca quando bebe. — Dei uma risada, sem tirar os olhos dela.
- E sincera. — Victoria completou. Encarei-a outra vez, e vi que ela me olhava com interesse — Não sei quem mais precisa cuidar e ser cuidado nessa relação de vocês.
- Eu também não... — Concluí.
- Por isso que acho que vocês vão dar certo. — Ela estendeu as chaves do carro para mim — Dirija com cuidado.
Isabella passou toda a viagem de volta inconsciente. Quando chegamos na garagem do nosso prédio, não fiz menção em acordá-la, mesmo porque eu imaginava que caminhar poderia ser uma tarefa difícil para ela naquelas condições. Ao invés disso, peguei-a no colo e a levei para o apartamento. Ela pareceu acordar, mas ainda estava sonolenta e mantinha os olhos fechados.
- Chegamos. — Sussurrei no seu ouvido enquanto fechava a porta da sala com um chute.
- Hhhhmmm... — Ela respondeu contra o meu pescoço.
Deitei-a suavemente na cama e esperei. Por nada em especial, apenas para ficar admirando-a um pouco mais. Passei meus dedos pelos cabelos de Isabella e ela se mexeu um pouco, enfiando o rosto no edredom.
Liguei o aquecedor e voltei para ela. Tirei seus sapatos, querendo que ela ficasse mais à vontade. Minhas mãos, como sempre com vontade própria, passearam de forma suave pelos seus tornozelos, subindo devagar para as panturrilhas e joelhos. A pele dela parecia mais macia a cada vez que eu a tocava, mesmo arrepiada ao meu toque. Quando cheguei em suas coxas, ela se mexeu outra vez e murmurou um “não” abafado.
Aceitei sua vontade, mesmo porque não planejava mesmo transar com ela naquele estado. Seria esquisito tentar alguma coisa sem que ela estivesse consciente para dizer se queria ou não. Mas se ela quisesse...
Afastei aquele pensamento, procurando o zíper do seu vestido e descendo-o para tirá-lo dela, mas outra vez ela se mexeu, se afastando de mim.
- Não! Ummmpppff...
- Calma, amor. Não vou fazer nada. Só quero te deixar confortável pra dormir. — Sussurrei em seu ouvido, e ela pareceu se acalmar por um momento. Mas assim que retomei o ziper em minhas mãos e abri mais um pouco o vestido, ela se afastou outra vez, dessa vez me empurrando.
- Não toca em mim, porrrrrra... Meu namorado vai te dar uma surrrrrra...
Não consegui segurar o riso.
- Bella? Sou eu. — Falei enquanto prendia seu rosto entre minhas mãos e esperava que os olhos dela se abrissem. Quando isso aconteceu, o foco voltou a eles em alguns segundos e quando se deu conta da minha presença ali, sorriu de forma doce.
- Oiii... — Ela piscou algumas vezes, passando um braço pelo meu pescoço.
- Oi. Posso tirar seu vestido?
- Cllllllaro que pode... — Ela respondeu ainda sorrindo, levantando os braços acima de sua cabeça como se me dissesse para puxar a roupa por eles.
Fiz isso e imediatamente vi sua pele e os vários hematomas que minha falta de cuidado deixaram nela. Me perguntei se seria válido tentar passar o creme de amêndoas nas marcas, mas imediatamente descartei essa idéia por não saber se conseguiria manter o controle com ela naquele estado. Sua pele começou a se arrepiar; provavelmente o aquecedor ainda não havia deixado o ambiente quente o suficiente. Puxei o edredom do outro lado da cama e a cobri, enrolando Isabella até o pescoço e prendendo as pontas embaixo do corpo dela.
Ela suspirou tranquila, um pouco dormindo e outro pouco acordada. Recolhi seus sapatos e vestido e os levei para o closet. Procurei em alguma gaveta um pijama e me virei para ir tomar um banho, mas me surpreendi com Isabella passando por mim correndo na direção do banheiro.
Fui rapidamente atrás dela e a encontrei curvada em cima do vaso sanitário, vomitando jatos de um líquido rosa vivo. O vinho que seu organismo não conseguia digerir estava sendo expelido à força, e de repente senti pena pela ressaca que eu sabia que ela teria que enfrentar mais tarde.
Ajoelhei atrás dela e prendi seus cabelos em um rabo de cavalo com uma das mãos. A cada ânsia que vinha, ela jogava a cabeça para frente sem nenhum cuidado, provavelmente por causa da embriaguez, então me apressei em segurar sua testa para que não batesse na louça. Quando pareceu já estar melhor, ajudei-a a levantar e a segurei com firmeza enquanto ela escovava os dentes e lavava o rosto, removendo a maquiagem.
- Melhor? — Perguntei, colocando-a na cama e a cobrindo outra vez.
- Sim... — Ela respondeu em voz baixa, se aconchegando entre os travesseiros — Gostaria que você não estivesse por perto sempre que eu vomitasse.
- Está brincando? É bom que eu esteja por perto. Você parece ter tendências um pouco suicidas quando vomita.
Ela riu, fechando os olhos e suspirando.
- Deita aqui comigo.
Aquele era o tipo de pedido que não tinha como ser negado. Tudo bem: Eu não fazia tanta questão do banho de qualquer forma.Tirei minhas roupas e me enfiei debaixo do edredom, me agarrando a ela sem dizer nada. Esperei que ela dormisse outra vez, o que não demorou muito. Quando isso aconteceu, me aproximei de seu ouvido e falei em uma voz baixa, tentando não acordá-la.
- Também te amo, minha linda. E espero que você aceite os planos que eu tenho pra nós dois.
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