Bella’s POV

Luz.

Estava bem mais claro do que eu podia esperar do meio da noite. Era possível notar isso ainda de olhos fechados. Abri-os preguiçosamente, apenas para constatar, para minha total surpresa, que já havia amanhecido, embora minha percepção julgasse não haver passado nem uma hora desde o momento em que adormeci.

Pisquei algumas vezes. Um mormaço tímido penetrava o quarto pela fresta da cortina aberta, diretamente no meu olho esquerdo. Virei de lado de forma brusca, sem pensar onde estava ou que horas deviam ser.

Ao meu lado dormia um homem de bruços, com o rosto virado para o outro lado, aparentemente nu até onde o lençol o cobria. Era um corpo bonito, em forma, mas algo me incomodou ali. Algo que eu não havia notado no início.

Eu não conhecia aquelas costas. Eram diferentes das costas que eu esperava encontrar aquela manhã. Não tinham os sinais que eu havia tentado decorar um dia, ao vê-lo tomar banho. O cabelo também não era o mesmo. Era ondulado, mas negro.

A razão veio me tomando aos poucos, e foi junto com ela que o homem começou a se mexer. Foi quando finalmente ele se virou para mim que levantei de imediato, quase caindo da cama. Reparei que eu também estava nua.

- Que porra...

Meu coração batia descompassadamente. Eu não estava entendendo nada, e olhei em volta tentando me localizar.

Aquele quarto também não era o quarto que eu esperava encontrar naquela manhã, simplesmente porque não era o mesmo quarto em que eu havia dormido. Não era a suite da casa dos Cullen. Mas eu conhecia aquele lugar.

Era um lugar com paredes encardidas, sujas. Precisavam de uma pintura. Ao meu lado, uma tv quebrada, algumas roupas em cima dela. O “quarto” em questão dividia o espaço com uma cozinha através de uma bancada. Havia apenas uma lâmpada que pendia do teto, sem lustre. Minhas malas estavam espalhadas pelo chão, na parede à direita, e como um estalo dentro de mim, consegui me localizar.

O apartamento. O apartamento que eu morava. Não era a casa de Edward, nem de seus pais. Também não era a casa de Tanya. Era o lugar para o qual eu havia ido entre esses dois momentos.

Desespero.

Cocei os olhos, tentando enxergar melhor. Tudo parecia muito embaçado. O homem desconhecido ainda estava de bruços no sofá-cama, olhando para mim como quem olha para qualquer animal de circo.

- Não.

Falei em voz alta. Uma vez, duas vezes, repetidas vezes.

- Não, não... Isso não...

Senti falta de ar. Uma dor angustiante comprimiu meu peito como se quisesse esmagá-lo.

- NÃO! NÃO FOI UM SONHO, PORRA!

Mais falta de ar. Meu corpo começou a tremer descontroladamente, de forma ridícula, tentando se manter de pé.

Alcancei o celular e busquei ali o número dele, tentando lutar contra o tremor e apertar as teclas certas.

Não estava lá.

- Por favor, não...

Chorei de desespero. Olhei para os lados, sem saber o que fazer.

Aquilo não podia estar acontecendo.

- Uma puta escandalosa. Escolheu a dedo, Roy.

O homem falou consigo mesmo, e senti um baque no estômago. Encostei na parede tentando respirar. Minha garganta parecia fechada. Ao lado do sofá, duas garrafas de alguma coisa alcoólica e notas de dinheiro.

- Pelo amor de... — Eu falava sozinha. Não sabia se gritava ou implorava. A luta contra o pânico que já me dominava estava chegando ao fim.

Olhei para minha mão direita.

Não havia anel algum ali.

Como um surto de loucura, me belisquei. Bati, arranhei e soquei cada pedaço de pele que podia lembrar, desesperada para provar a mim mesma que aquilo era um pesadelo.

Meu Deus, só podia ser um pesadelo!

- Vai ficar quieta ou quer que eu te amordace?

O homem me encarava de forma divertida, me mostrando e enrolando com as mãos um pedaço de pano.

Solucei, me deixando escorregar pela parede e cair no chão. Sem forças, sem vida.

Sem nada.

Engasguei. Algo me trouxe de volta, me tirando daquele lugar e daquele desespero torturante. Tossi com força, tentando respirar outra vez. Confusão. Não conseguia assimilar nenhuma informação ao certo.

Estava claro. O quarto ainda era invadido timidamente pelo mormaço do lado de fora, mas dessa vez a realidade que chegava aos poucos começava a fazer mais sentido.

- Calma...

Tentei me desvencilhar de braços. Eram braços fortes, e embora a sensação de tê-los ali parecesse conhecida e até reconfortante, lutei contra eles, muito perdida para entender.

Mas eles eram fortes demais até mesmo para o meu pânico.

Tossi mais vezes, e uma náusea súbita me tomou com uma força muito grande para tentar controlá-la.

Estiquei o pescoço para o lado, sem conseguir ver direito, e tudo que estava dentro de mim saiu em um jorro de muitas coisas misturadas e nojentas. Minha garganta ardeu como se pegasse fogo, e pude sentir os braços ao meu redor afrouxarem o aperto e dedos segurarem meus cabelos em um tipo de rabo-de-cavalo improvisado, tentando separar os fios do suor que cobria meu rosto e pescoço.

A náusea vinha em ondas, e cada onda resultava em um novo jorro de algo ruim. Minha cabeça começou a doer instantaneamente, mas aos poucos fui retomando o controle da situação, vomitando cada vez menos, enxergando cada vez mais.

Um chão de madeira escura. Graças a Deus não era carpete.

- Calma, princesa... — A voz atrás de mim saiu hesitante, trêmula.

Meu corpo todo tremia. Vomitei mais. Sem pensar em nada, descolei a mão direita do peito e a estiquei, olhando fixamente para a aliança fina no anelar, pedindo silenciosamente para que ela simplesmente não sumisse diante dos meus olhos. Toquei-a com o polegar, tentando conter o tremor quase epiléptico, querendo senti-la e me certificar de que aquilo — aquilo sim — era real.

Alívio.

Cuspi uma última vez no chão e me deixei cair sem forças no colchão macio. Estava suada de uma forma que não combinava com o clima invernal de Londres. Já não sabia se tremia de frio ou de nervoso. Minha cabeça doía e latejava, e consegui notar que estava chorando assim que abri os olhos.

Eu estava em estado de choque, descabelada e me sentindo imunda. E Edward, como um anjo perfeito e ridiculamente lindo até ao acordar, estava olhando para mim daquela forma, ao meu lado. Eu sabia que devia pedir para que ele parasse e se afastasse, mas estava me sentindo excepcionalmente exausta e fraca naquele momento.

Num ímpeto, me atirei em seu peito, tomando cuidado para não encostar minha boca em sua pele, e me agarrei nele com desespero, querendo senti-lo, querendo ter certeza de que ele também era real.

- Foi só um pesadelo. — Ele falou em uma voz aveludada, enquanto penteava os fios rebeldes que teimavam em grudar no suor da minha testa. — Mas você me assustou.

Ele tocou minhas costas com um dos dedos e eu estremeci. Senti o cobertor ser puxado e nos cobrir, então tudo o que queria era me deixar relaxar grudada nele. Tudo estava bem agora, e o alívio que enchia meu peito como um balão era tão reconfortante que eu poderia até meditar.

- Quer conversar sobre o seu sonho?

- Não. — Minha voz saiu fraca, mas decidida, mesmo se escondendo em seu peito. Imediatamente notei que havia deixado óbvio para Edward que o sonho era, de certa forma, sobre ele.

Fechei os olhos e o ouvi suspirar.

- Foi só um pesadelo... — Ele repetiu. — Um pesadelo idiota.

Fiquei em silêncio, lembrando do desespero daquele sonho, lembrando que aquele não havia sido um pesadelo "idiota", mas sim o pesadelo mais real que eu já havia tido. Dentre tantos outros que me atormentavam.

E sempre eram relacionados a ele, de uma forma ou de outra.

- Você deve ter comido alguma coisa ontem que não fez bem. Vai se sentir melhor depois de um banho quente.

Meu estado deplorável não tinha nada a ver com má digestão, eu sabia disso.

- Preciso limpar isso.

- Você não vai limpar nada. Não está bem pra isso.

- Edward, tem um líquido nojento espalhado no chão do quarto dos seus pais.

- Alguém limpa depois.

- Eu vomitei, eu limpo.

- Por que está insistindo? Você sabe que eu não vou te deixar fazer isso.

Não discuti. Era mesmo inútil insistir em algo que eu sabia que não ia acontecer, mas de qualquer forma, estava feliz por estar tendo uma discussão boba daquelas. Ele estava ali, aquilo era real, e isso era tudo o que importava.

Edward se levantou pelo outro lado da cama e me puxou para poder me pegar nos braços.

- Como está a sua cabeça? — Perguntei, enquanto era carregada nos braços até o banheiro.

- Doendo um pouco. Mas eu estou acostumado com ressaca.

Era uma pena que eu não poderia dizer o mesmo da minha, que agora latejava incomodamente, como se quisesse me lembrar de que aquele dia não havia começado muito bem.

- Espera. Preciso escovar os dentes antes de mais nada. — Falei, enquanto ele me guiava para o box. Edward aceitou meu pedido, me colocando de pé na frente da pia e me olhando como se eu estivesse prestes a ter um ataque fulminante do coração. Tentei ignorar o fato de que estava completamente nua. Quando terminei de escovar os dentes, vi que o chuveiro já estava ligado à minha espera.

Ele lançava um jato incrivelmente forte de água morna. Deixei a força da ducha massagear meu couro cabeludo, fechando os olhos e aproveitando a sensação boa ali por algum tempo. Instintivamente, agarrei meu anel com a outra mão e, como se isso fosse suficiente, permaneci imóvel.

- Você não parece bem. — Ele falou, se juntando a mim dentro do box e me trazendo de volta à realidade.

- Eu estou ótima. — Concluí. Depois de acordar daquele pesadelo, tudo estava ótimo. Mais do que ótimo.

Notei que ele me olhava um pouco contrariado.

- Que foi?

- Eu deixei algumas marcas ontem.

Olhei para mim mesma pela primeira vez e vi algumas manchas escuras e arroxeadas na minha cintura, na parte interna das minhas coxas (exatamente onde os quadris dele batiam), nos meus pulsos e uma mancha vermelha como sangue pisado em um dos meus seios.

- Ah... — Comecei, ainda olhando para os braços — Tudo bem, as roupas cobrem.

- Você tem alguma coisa de gola alta? — Ele perguntou, tocando em alguns pontos do meu pescoço como se quisesse me mostrar que ali a coisa estava feia.

- Tenho cachecol.

Edward suspirou um pouco triste, me encarando por algum tempo, apenas para depois se aproximar de forma perigosa.

- Eu tenho que lembrar de ir com calma com você. — Ele disse, percorrendo a distância segura entre nós dois e me abraçando. Me dei conta de que o calor do corpo dele era muito melhor do que o calor da água aquecida da ducha que agora batia em suas costas. Sua boca, antes apenas próxima ao meu pescoço, agora dava beijos calmos mas molhados pelos prováveis hematomas que se encontravam ali.

Tremi, retribuindo o abraço. Tentei não me agarrar nos cabelos da sua nuca outra vez, mas era involuntário. Eles pareciam estar ali única e exclusivamente para isso. Senti sua boca passear de um lado ao outro do meu pescoço, de forma tranquila e torturante, traçando um caminho de fogo por onde passava. Sua língua descia e subia, perto da minha orelha e nos limites do meu ombro. Eu ia explodir em algum momento, e a culpa seria toda dele.

Lembrei do sonho outra vez, ainda fresco na minha imaginação, o que fez com que aquele momento fosse ainda melhor. O pensamento em perdê-lo, em ter que me afastar dele outra vez, ou o que era pior: ser abandonada por ele, estava me apavorando cada vez mais, justamente porque cada vez mais eu me acostumava em estar perto dele e depender de sua presença. Era possível que eu estivesse desenvolvendo algum tipo de fobia ou síndrome, e talvez eu temesse que ele descobrisse e me achasse estranha demais.

Mas isso não me impedia de alimentar um crescente sentimento possessivo que se tornava preocupante.

- Não precisa ir com calma. Não precisa mudar nada.

Não precisa porque eu amo tudo em você. Amo até as marcas que você deixa no meu corpo, porque são suas. Porque não há nada melhor do que sentir que você é meu, e não há nada melhor do que pertencer só a você.

Não precisa mudar nada. Contanto que você fique comigo.

Senti seu braço se estender e no segundo seguinte a água quente parou de cair. O frio foi completamente esquecido, porque ele ainda brincava com meu pescoço de uma forma tão natural que me dava arrepios, que não tinham nada a ver com o inverno.

Senti algo gelado nas minhas costas e pulei de surpresa. Notei que Edward havia me prensado contra uma das paredes molhadas do box, me prendendo entre os azulejos e seu corpo. Se afastando de meu pescoço, ele agora me olhava com um certo contentamento, como se estivesse começando a se divertir.

- Se você me disser que não preciso ir com calma, vou pegar pesado de verdade. — Ele disse, olhando diretamente dentro dos meus olhos propositalmente. Ele se divertia com esse tipo de coisa, como se me desafiasse a desviar o olhar.

Edward apertou seu corpo contra o meu com força, me fazendo sentir a pressão de algo duro contra minha barriga. Sorri com a sensação. Deslizei minhas mãos pelo seu corpo, saindo dos cabelos e passeando pelos ombros largos, moldando as palmas aos músculos de seu peito e descendo mais, sentindo cada pequeno detalhe e dobra em sua pele. Tateando e acompanhando com os olhos cada caminho, cada centímetro.

Ele era real.

Passeei meu dedos pelas costas firmes, parando na parte inferior e fazendo um pouco mais de pressão ali, tanto para apalpar aquela parte quanto para trazê-lo mais contra meu corpo. Não lembrava se já tinha alguma vez tocado na bunda dele, mas tinha que lembrar de fazer aquilo mais vezes.

Beijei seu peito molhado delicadamente. Era onde meus lábios alcançavam sem precisar levantar a cabeça. Senti as pontas dos meus dedos doendo, e me dei conta de que estava apertando-o com força demais. Inconscientemente. Como se não quisesse largá-lo, como se pretendesse fundi-lo a mim, na esperança de que, nós dois sendo um só, não poderíamos nos separar mais.

Os cabelos da minha nuca foram puxados delicadamente, me fazendo levantar a cabeça por reação, e no segundo seguinte senti sua língua deslizar na minha de forma calma, sensual, intensa. Havia um gosto forte de menta, e me perguntei em que momento ele tinha escovado os dentes. Não me aprofundei na tentativa de descobrir a resposta, porque ele já intensificava um pouco mais o beijo, deslizando suas mãos pelas minhas costas como se quisesse memorizá-las. Ele parou na curva da minha lombar fazendo círculos, como se estivesse me provocando, como se dissesse “eu vou descer, mas só quando eu quiser”. E eu queria tanto que aquelas mãos descessem...

Me equilibrei nas pontas dos pés, tentando forçá-lo a me tocar. Ele entendeu e apenas riu. Trouxe uma de suas mãos à minha nuca outra vez e, com força, me puxou contra ele, pela cabeça e pelos quadris. Permiti que meus lábios deslizassem contra os dele de forma violenta, dando à sua língua passagem para invadir minha boca cada vez mais, sempre tocando em pontos novos e deslizando por ali de formas diferentes. Edward conseguia aplicar tanta pressão ali que meus lábios já doíam um pouco, mas a dor era boa.

Voltei meus dedos para seus cabelos, porque no final das contas, agarrá-lo daquela forma era a maneira de permitir às suas mãos um melhor acesso ao meu próprio corpo. Nossos movimentos não eram mais calmos como no início, mas sim violentos e um pouco rudes. Suas mãos finalmente deslizaram e apertaram minha bunda. Vibrei em silêncio.

Talvez a pele da minha barriga ficasse com marcas também, já que Edward e sua nada discreta excitação estavam me machucando.

- Não sei como você consegue fazer isso... — Ele disse, interrompendo levemente o beijo e tomando fôlego, mas não me permitindo responder ou perguntar “Fazer o quê?”, porque no segundo seguinte sua língua estava deslizando na minha outra vez. Suas mãos criaram um gancho e me levantaram sem dificuldade alguma. Entrelacei instintivamente minhas pernas em seus quadris, ainda prensada entre a parede e o corpo quente dele, agarrada com desespero ao seu pescoço e deixando que ele fizesse o que quisesse comigo.

A coisa dura e incômoda que machucava a pele da minha barriga deixou de ser incômoda e deslizou para dentro de mim sem qualquer problema, arrancando um suspiro involuntário da minha boca. Senti um arrepio forte com a penetração, enrolando os dedos dos pés e das mãos com força, fechando os olhos violentamente.

Ele era meu.

Apertei o laço que minhas pernas faziam em torno dele, enquanto o sentia se mover dentro de mim. Repeti o ato com os braços, quase sufocando-o. Lembrei do sonho, lembrei da sensação de perdê-lo, de estar sem ele. Me arrepiei outra vez.

Ele tinha que ser meu.

Os nós em meus dedos provavelmente doíam, mas eu não sentia. Entre eles, estavam chumaços de cabelo de Edward, então era óbvio que eu o estava machucando também. Mas não conseguia estar ciente disso. Sem a menor explicação, estava sendo tomada outra vez por um pânico irracional de perdê-lo. Era um péssimo momento, mas não estava nas minhas mãos detê-lo ou não.

Aquilo era real. Mas não havia certezas se aquela realidade duraria para sempre.

Os arrepios foram ficando mais fortes. Desde quando eu havia me tornado completamente dependente dele? Bom, talvez a resposta fosse “desde sempre”, e pensar no fato de que Edward era tão importante para mim a ponto de ser indispensável era apavorante.

Era apavorante depender de uma pessoa para ser feliz.

Meu rosto estava enfiado em seu pescoço. Eu estava imóvel, tentando lidar com os sentimentos diametralmente opostos de pânico e prazer. Por isso, fui pega de surpresa ao sentir, mais uma vez, meu cabelos serem puxados. Mas dessa vez, o puxão veio com força, de forma violenta, sem cuidado algum. Senti dor, mas fui calada pela proximidade dos nossos rostos. Sua testa estava encostada na minha, e seu olhar carregava aquela intensidade que existia sempre que ele queria dizer algo muito, muito importante.

- Eu não vou te deixar. — Ele me olhava como se estivesse pontuando a frase com um “Entendeu bem, sua estúpida?” — Que se fodam esses seus pesadelos, são só sonhos idiotas!

Encarei-o espantada, sem mover um músculo. Ele puxou minha mão direita de seus cabelos, trazendo-a para o pequeno espaço entre nós, e sem dizer mais nada, chupou meu anelar, querendo fazer com que eu lembrasse da presença de alguma coisa ali.

Fiquei olhando um pouco abobalhada para aquilo. O aro dourado cintilava diante de meus olhos, como que para provar cada palavra que ele havia dito. Mas eu acreditava na sinceridade dos seus olhos. Não era desconfiança, era apenas medo. Porque era razoável temer pelo inferno quando já se teve uma prova do paraíso.

— Tudo bem... — Falei, mas nem eu mesma ouvi minha voz. Sem pensar em mais nada, fechei os olhos e fui de encontro à sua boca. Eu queria aceitar aquela verdade de forma absoluta, sem pensar em “e se”s e “mas pode ser que”s. Edward estava parado à minha frente, com aqueles olhos dourados tristes tão lindos, confessando suas intenções e quase implorando para que eu acreditasse nelas. E se isso não era o suficiente, nada mais seria.

Ele me prensou com mais força contra a parede, mas ignorei os azulejos frios e duros. Relaxei o corpo e a mente para recebê-lo outra vez. Seus braços em volta de mim me davam uma sensação de proteção assustadora. Ainda assim, não consegui deixar de lembrar que essa mesma sensação de proteção era antiga, e existia mesmo antes do momento em que ele havia resolvido me abandonar.

E a lembrança do abandono, a dependência dele e o pavor em perdê-lo insistiam em estar ali.

Por que eu estava tão sensível?

Mais um beijo. Tão furioso que conseguiu calar até meus pensamentos. Algo me dizia que ele estava puto, talvez pela minha própria insegurança. Cheguei a me divertir com essa idéia absurda.

- Acredita em mim? — Ele perguntou, um pouco ofegante, ainda com os olhos tristes. Às vezes se tornava óbvio o sentimento de culpa que ele carregava. Era como se estivesse ciente de uma dívida que tinha comigo, e parecia fazer questão de se lembrar mais do que eu mesma.

Eu acreditava. Acreditava nas suas intenções, acreditava que eu podia fazer bem a ele. Acreditava porque não era possível ver qualquer traço de mentira naqueles olhos. Eu confiava nele, estava pronta para correr o risco outra vez. Mesmo porque era a única coisa que eu podia fazer.

- Acredito.

Encerramos aquela discussão, pelo menos momentaneamente. Parecia errado optar pela preocupação quando tínhamos tantas coisas para desfrutar juntos. Mais do que isso, parecia estúpido. Eu jamais teria a certeza de que ele pertenceria sempre a mim, mas nenhuma mulher no mundo poderia estar certa disso também. Nesse aspecto, minha situação não era diferente da de ninguém.

E que falha seria se eu ficasse me lamentando quando, à minha frente, meu príncipe deixava claro que estava sempre inclinado a me fazer feliz.

Edward me tocou um pouco mais à esquerda, dentro do meu corpo. Em um lugar conhecido, um lugar que pertencia mesmo ao seu toque. Meus olhos rolaram para trás nas órbitas, meu corpo tremendo com a eletricidade que percorria cada célula. Ele sabia onde me tocar; Ele me conhecia como ninguém.

Edward me penetrou repetidamente daquela forma. Não eram necessárias muitas investidas quando ele alcançava aquele ponto particular, e segundos depois eu já estaria explodindo em um orgasmo induzido. Beijei-o com desespero, tornando o ato de respirar um pouco desafiador. Mas não importava.

A onda de prazer veio, como eu previra. Tentei não gritar, abafando os gemidos altos contra sua boca. Os nós dos meus dedos já latejavam, e meus olhos estavam fechados com tanta força que também doíam. Ignorei tudo isso para senti-lo plenamente mais uma vez.

Fiquei muito quieta, analisando a sensação de formigamento nas pontas dos meus dedos. Era interessante. Edward, como eu, parecia um pouco ausente, provavelmente voltando de seu próprio clímax. Esperei em posição de mochila, ainda agarrada ao seu pescoço, não querendo quebrar a troca de calor entre nossos corpos.

Deixei de sentir o frio dos azulejos. O chuveiro foi ligado outra vez e as gotas passaram a cair nas minhas costas. Fazendo algum contorcionismo muito elaborado para que eu entendesse, Edward alcançou o sabonete e o passou por toda a extensão das minhas costas. Estremeci um pouco com a sensação boa, desgrudando de seu pescoço para dar a ele uma melhor mobilidade. Deixei que ele ensaboasse meu corpo todo, apenas para ter a desculpa de fazer a mesma coisa com o dele. Não por luxúria, mas simplesmente porque eu queria senti-lo um pouco mais.

Depois de algum tempo saímos do box. Ele se secou, me secou — fazendo novamente com que eu me sentisse uma inválida e, ao mesmo tempo, não dando a menor importância para isso — e embrulhou a nós dois dentro de uma toalha fofa do tamanho de um lençol. Ele me apertava em um abraço por trás e beijava meu pescoço de cinco em cinco segundos. Não falamos uma palavra sequer durante todo esse tempo. Quando fiz menção de andar, Edward me agarrou pela barriga e me levantou, de forma que meus pés não conseguissem mais tocar o chão, e então caminhou para fora do banheiro, nós dois ainda embrulhados na toalha como sardinhas.

Não consegui deixar de rir. Foi difícil fazer com que ele me largasse, por isso demorei um pouco para escolher uma roupa apropriada na minha mala. Finalmente constatei que havia trazido um suéter preto de gola alta, o que seria perfeito para cobrir minhas marcas. Vesti uma das calças skinny e coloquei a mesma bota que usava quando cheguei em Londres. Antes de vestir o suéter, voltei ao banheiro para passar meu creme para hematomas, e quando entrei no quarto outra vez, o perfume não passou desapercebido para Edward. Cinco minutos depois eu ainda estava lutando para tirá-lo de cima de mim na cama, lembrando-o que tinha que buscar produtos de limpeza para limpar a coisa nojenta que ainda estava do outro lado.

Já no andar de baixo, encontramos com Esme.

- Bom dia, queridos! — Ela falou com um sorriso iluminado, parecendo verdadeiramente feliz em nos ver, enquanto dava em cada um de nós um abraço apertado — Por que acordaram tão cedo?

Eu não sabia que horas eram, e pelo que parecia, Edward também não.

- 07:15h ainda... Parece que madrugamos. — Ele falou, olhando no relógio novo em seu pulso e sorrindo de forma hipnótica para mim.

- Na verdade, Esme... — Comecei, piscando algumas vezes para parar de olhar feito tonta para ele — Aconteceu um acidente lá em cima...

- Mãe, alguma empregada veio hoje? Alguém pode limpar o quarto?

- Três.

- Não precisa mandar ning...

- Ótimo. Bella não acordou muito bem disposta hoje. Acho que metade da ceia de Natal está no chão do nosso quarto.

Corei.

- Não está se sentindo bem? — Esme perguntou com uma expressão preocupada.

- Estou bem agora... Só acordei um pouco estranha. Mas eu realmente posso...

- Não se preocupe, querida. — Ela me interrompeu, já subindo as escadas — Emma está arrumando o meu quarto. Vou pedir pra que ela limpe o de vocês.

- Obrigado, mãe.

Esme acenou, sem olhar. Quando chegou no andar de cima, gritei para que ela ouvisse.

- Peça desculpas à Emma por mim!

Não sei se ela ouviu, mas não respondeu. Edward me olhava com uma expressão neutra, e eu me sentia a cada segundo mais contrariada.

- Odeio dar trabalho às pessoas.

- Elas são pagas pra isso.

- Só porque elas têm que servir vocês, não quer dizer que tenham que ficar com trabalhos desagradáveis.

Edward falou mais meia dúzia de palavras, enquanto me guiava para a cozinha. Ignorei todos os seus argumentos, deixando claro minha birra. É claro que aquilo só o divertiu ainda mais.

Passamos pela sala de estar e encontramos Carlisle sentado em um dos sofás lendo o jornal. Acenei para ele da porta, mas Edward entrou para cumprimentá-lo. Aparentemente, éramos os únicos acordados. A casa de manhã tinha um cheiro ainda mais agradável, e eu nem sabia dizer do que exatamente era. Estava um pouco frio, mas não deixava de ser aconchegante.

Tomei um chá preto com biscoitos, não porque queria seguir os costumes ingleses, mas por causa do meu enjôo matinal. Como não queria dar mais trabalho a ninguém, achei melhor tomar conta de mim.

- Quer dar um passeio?

Fui arrancada de meus devaneios quando Edward falou ao pé do meu ouvido, com certeza notando minha distração mais uma vez e se divertindo ao me despertar.

- Passeio? Onde?

- Por aí.

Dois minutos depois, estávamos andando “por aí” conforme ele havia sugerido. A manhã estava fria, ainda com aquela névoa aparentemente típica de Londres, por isso fiquei grata a Edward por ter me oferecido um sobretudo fofo e quente antes de sairmos. A grama estava muito molhada, não de chuva, mas de orvalho. Todos os cheiros ali eram maravilhosos, e me perguntei se minha adoração a praticamente tudo naquele lugar era psicológico, simplesmente pelo meu bem-estar.

Alcançamos a parte de trás da casa. Se a parte da frente fazia com que o jardim parecesse modesto, essa impressão se dissipava quando se chegava ali. Era uma área enorme, até onde eu conseguia ver. Ao longe, a água de um enorme chafariz desligado parecia estar tão fria que dava a impressão de estar congelada.

Edward parecia meu guia turístico particular, reportando cada pequeno detalhe de cada planta e pedra naquele lugar. Eu ouvia interessada, mas tinha que admitir que estava mais distraída com a presença dele e seu modo de agir despreocupado do que com o que ele falava.

- No último aniversário do meu pai, fizemos uma festa aqui. Estávamos em Abril. — Ele continuou, apontando para os bancos de pedra que percorriam os arbustos altos e as mesas e cadeiras de jardim brancas no estilo vitoriano, várias delas enfileiradas em um campo enorme cercado por árvores de vários tamanhos, um pouco sem vida por causa do frio.

Havia postes de luz por todo o lugar, acompanhados de balizadores e luzes baixas no chão que marcavam os caminhos, próximas aos troncos das árvores. Imaginei como seria uma festa ali, o efeito daquela iluminação em uma noite de primavera. Suspirei.

Alcançamos o chafariz. Olhei hipnotizada para o fundo dele sem motivo algum. A água estava um pouco trêmula por causa do vento. Nem o tempo cinza poderia fazer com que aquele lugar parecesse menos que perfeito.

Edward tirou de dentro do próprio casaco alguns panos, os quais eu não fazia a menor idéia de onde vieram, e colocou-os lado a lado no muro alto do chafariz, cobrindo a pedra mármore molhada de orvalho e fazendo menção para que eu sentasse em cima de um dos panos. Foi o que fiz, e ele repetiu meu ato.

Por algum motivo, fiquei um pouco tensa.

- Está gostando daqui?

- Muito. — Falei de forma sincera, sorrindo. — É mais ou menos como um sonho se parece.

Ele sorriu de volta, mas seu sorriso foi sumindo aos poucos.

- Por falar em sonho... Queria saber do que se tratava o seu hoje de manhã.

Parei de sorrir também.

- “Foi só um pesadelo”, lembra?

- Lembro. Mas eu quero saber.

- Por que quer saber?

- Porque eu sei que tenho a ver com ele.

Eu sabia que ele sabia. Ele sabia inclusive qual era a essência do sonho, se eu tomasse como referência suas palavras no banheiro.

- Bem, você não estava nele.

- Ainda assim...

- Eu acordei do lado de um homem que não conhecia. Era um cliente. Era como se você não tivesse voltado aquele dia.

Um silêncio pesado pairou sobre nós, como eu sabia que aconteceria. Edward continuou me olhando com uma expressão neutra, como se estivesse processando cada palavra minha.

- Você sabe que esses sonhos só acontecem porque você tem esse medo, não é?

Ele parecia calmo, como se estivéssemos conversando sobre o Natal. Isso fez com que eu também me acalmasse.

- Sei.

- Então, você pode pelo menos tentar...

- Tentar não ter medo? Isso não está nas minhas mãos.

Ficamos em silêncio outra vez, e notei que pela primeira vez estávamos conversando sobre aquele assunto delicado. Era o assunto que evitávamos de todas as maneiras, mas agora lá estava ele, tomando aquele momento como se a conversa fosse banal. E embora não fosse nada banal, embora estivesse sendo difícil conversar sobre aquilo, também não estava sendo completamente ruim. Algo me dizia que eu sairia dali com alguns quilos a menos nas costas.

- Eu não vou te deixar de novo.

- Você já disse...

- Vou repetir até que você acredite em mim. — Ele parecia levemente exaltado.

- Eu acredito.

- Não acredita. Se acreditasse...

- Eu acredito, mas não consigo mandar na minha insegurança. Desculpa se isso te deixa puto...

A voz dele subiu uma oitava.

- Me deixa puto saber que você não confia em mim!

- Se não confiasse eu não estaria aqui. Não depois do que você me fez. — Respondi na mesma oitava.

Ele pareceu perder o fio do pensamento.

- Você... você não...

- Você confia em mim?

- Claro que confio! — Ele disse, parecendo ofendido com a pergunta.

- Então que merda foi aquela de me prender na sua casa se eu decidisse ir embora?

- Aquilo foi no início! Eu já te dei a chave do apartamento, você pode sair quando quiser! — E como se estivesse se apressando a adicionar um detalhe importante à conversa, interrompeu minha resposta — Mas se você fizer isso, eu vou mesmo atrás de você.

- Se confiasse em mim não haveria esse “se” na sua frase.

Edward me olhou com desespero, aquele desespero de derrota aceita. Ele sabia que meu argumento era válido.

Sem muito mais o que falar, ele olhou para as mãos em seu colo e suspirou sem vida. Fiquei um pouco triste em vê-lo daquela forma, então fui eu a quebrar o silêncio.

- Você acha que eu consideraria a possibilidade de te deixar? O que eu ganharia com isso?

Ele sabia que eu não ganharia nada. Sabia que eu só tinha a perder. Mas ainda assim, hesitava.

- Você disse que iria embora aquele dia...

- Eu não sabia o que você queria comigo aquele dia. Parecia querer brincar com a porra da minha dor.

- Eu não queria! Eu só não sabia como lidar com aquilo! Eu não sabia...

- Eu sei disso. Agora.

Ele abaixou a cabeça outra vez, e eu poderia até dizer que estava se fazendo de coitado de propósito se não o conhecesse bem. Mas Edward, no fundo, era mesmo uma criança que precisava de confirmações e certezas.

- Você nunca deixou claro que não iria...

- Edward. — Segurei seu queixo de maneira firme e fiz com que ele olhasse para mim — Eu não vou a lugar nenhum.

Seu queixo era muito grande para minha mão pequena. Ele poderia se desvencilhar do meu aperto com facilidade, mas não o fez. Ao invés disso, ficou me encarando com aqueles olhos dourados tristes, brilhantes, lindos.

Meu Deus, eu queria ter um filho com aqueles mesmos olhos um dia.

Ele piscou algumas vezes, seu rosto muito próximo ao meu. Sem pensar, deixei que meu corpo agisse por vontade própria e me aproximei de sua boca, beijando-o apaixonadamente, com calma. Ele retribuiu, me puxando gentilmente para mais perto dele, e quando me dei conta, já estava sentada em seu colo, sem nenhum esforço.

Não era um beijo furioso ou desesperado. Era uma demonstração de carinho simples, confortável, algo que raramente acontecia conosco. Era um momento no qual ambos nos permitíamos desfrutar da companhia um do outro sem compromisso, sem exigências.

Era simplesmente um dos momentos mais perfeitos da minha vida.

- Acredita em mim? — Perguntei, ainda contra sua boca.

- Acredito.

Ele beijou meu queixo, minha orelha e toda a extensão do meu rosto. Tentou beijar meu pescoço, mas se enrolou com a gola alta do meu suéter e, derrotado, bufou. Eu ri sem motivo.

- Eu amo o seu perfume. Sempre amei.

- Sempre? — Falei, olhando-o de forma a desafiá-lo a lembrar que eu usava aquele “perfume” havia muito tempo.

- Sempre. Desde o primeiro dia que senti.

Ele falava enquanto inspirava e expirava na pele do meu rosto, em todos os lugares que conseguia alcançar. Os arrepios que se formavam ali não tinham nada a ver com o vento frio do jardim.

- Posso te perguntar uma coisa? — Falei, um pouco tímida. Eu estava curiosa. Ele havia me deixado curiosa.

- Claro.

- Desde quando você gosta de mim?

A pergunta saiu baixa até mesmo para nossa mínima distância. Ele não pareceu se abalar de forma alguma, e continuou trilhando beijos suaves pela linha do meu queixo.

- Não sei...

- Você disse ontem pra sua família que foi no dia em que nos encontramos na praça perto da sua casa...

- Não, aquilo foi invenção. — Ele falou calmamente, voltando à minha boca e pontuando cada frase com um selinho — Eu gostava de você antes daquilo. Só não estava ciente.

- E quando ficou ciente?

- Um pouco antes do seu aniversário.

- E quando admitiu?

Eram perguntas diferentes, e ele sabia disso. Seus olhos, de volta aos meus com aquela intensidade, confirmavam esse detalhe.

- Quando fui embora.

Embora eu tivesse medo de lembrar desses detalhes com Edward, não estava triste. Talvez a crescente liberdade entre nós estivesse deixando tudo mais confortável, pelo menos para mim. E eu queria que ele estivesse tão confortável quanto eu.

Abracei-o pelo pescoço como costumava fazer e o beijei no rosto. Ele sorriu um pouco triste.

- Mais alguma dúvida? — Ele perguntou, brincando com uma mecha do meu cabelo.

- Na verdade, sim. — Respondi, me lembrando de repente de uma coisa — Aquela citação no papel do buquê.

- Que citação?

- De Gandhi. Em lápis, no verso do papel com as flores.

- Hmmm... — Ele pareceu pensativo, tentando se lembrar — Acho que aquilo fui eu bêbado. Eu costumo ser sincero quando bebo. Acho que você já notou isso.

- Já.

- Pensei que tivesse apagado antes de entregar a você, mas eu estava mesmo bêbado. Aquele era o meu dilema. Eu não queria assumir, mas ao mesmo tempo queria que você soubesse de alguma forma.

- Eu não tinha entendido. Mas resolvi guardar o papel pro caso de você querer explicar algum dia.

- E já descobriu sua flor favorita?

- Você me fez gostar de camélias. — Sorri.

- Se estivéssemos na primavera, você estaria rodeada delas agora.

- Bom... — Comecei, um pouco sem graça — Talvez...

- Sim. — Ele me interrompeu — Você vai estar aqui na próxima primavera.

- E qual vai ser a ocasião? — Perguntei sem muita curiosidade.

- Você vai ver. — Ele falou com um ar misterioso propositalmente exagerado.

Então me perguntei como ele me traria assim, sem mais nem menos, sem ter que largar suas obrigações. Diferente de mim, Edward tinha coisas para fazer.

- Você vem comigo, né? — Perguntei antes que pudesse raciocinar e chegar à conclusão que aquela pergunta era idiota.

Ele riu.

- Claro.

- Não vai atrapalhar as suas coisas na empresa?

- Não. Sem problemas. — Ele respondeu de forma simples, sorrindo e me dando um outro selinho.

Aquele assunto me fez lembrar de algo que martelava na minha cabeça havia algum tempo. Era um pedido de ajuda, e por mais que não houvesse problema algum, eu me sentia um pouco envergonhada em falar disso com ele.

- Hm... Eu queria te pedir uma coisa...

- Qualquer coisa.

- Qualquer coisa? Promete?

Ele hesitou por um momento, talvez considerando a possibilidade de que eu pedisse algo completamente esdrúxulo. Mas, por fim, consentiu.

- Diga.

- Eu queria a sua ajuda... Você é uma pessoa que normalmente consegue as coisas que quer, certo?

- Normalmente... — Ele estava desconfiado.

- Eu só queria que você, sabe... Conseguisse uma coisa pra mim.

Ele continuou em silêncio, esperando que eu explicasse.

- Não que eu esteja te usando, mas é que eu já tentei...

- Estou ouvindo.

Ele estava ficando um pouco tenso, e eu podia notar isso.

- É que eu queria que você me ajudasse... A conseguir um emprego. — Me calei, mas como o silêncio parecia incômodo, me apressei em falar outra vez — Eu sei que não sou qualificada pra nada, mas não estou pedindo uma coisa muito elaborada. Só queria trabalhar em alguma coisa, qualquer coisa, pra ocupar o meu tempo e pra pagar pelo menos um pouco das despesas que eu já dei...

Ele continuou me olhando calmamente, aparentemente mais aliviado pelo simples fato de não estar mais sendo enrolado. Mas ainda estava sério.

- Você sabe que não precisa trabalhar.

Era óbvio que eu sabia disso. Se fosse levar em conta o quanto Edward ganhava, sabia também que ele conseguiria sustentar talvez umas vinte famílias sem esforço nenhum.

- Eu quero.

- Por quê?

- Já te disse... — Comecei, tentando parecer menos envergonhada — Essa situação me deixa mal.

- Que situação?

- Você sabe qual situação. Eu não quero ganhar tanto como você, nem sonho com isso. Meu salário pode ser o que você costuma dar de gorjeta. Só quero ganhar alguma coisa. Não quero ser um peso morto...

- Ainda se acha um peso morto? Depois de todo esse tempo? Você escutou alguma palavra que eu te disse até hoje?

Apesar de contrariado, ele estava calmo. Isso era bom.

- Eu sei... — Me aproximei de seu rosto, sem nenhum motivo em particular — Eu só quero colaborar com alguma coisa também. E sei que não precisa, mas eu me sentiria melhor. Muito melhor. E não estaria te pedindo se conseguisse sozinha.

Ele continuou me olhando, outra vez querendo que eu continuasse sem que ele precisasse pedir.

- Você tentou?

Resolvi ser sincera e falar exatamente o que me veio à cabeça, mesmo que aquilo parecesse inapropriado.

- Sim. Passei algum tempo tentando, mas não consegui. Aí dei o azar de um cara se lembrar de mim... E eu surtei. Foi quando você me achou.

Eu sabia que ele tinha entendido. Não que Edward tivesse demonstrado de alguma forma, mas eu simplesmente sabia.

Ele suspirou.

- Tudo bem. Não vai ser difícil.

Me senti debilmente vitoriosa.

- Eu já sei a resposta... — Ele começou, interrompendo minha comemoração silenciosa — Mas não custa nada perguntar: Você quer trabalhar na minha empresa?

- Não!

Eram vários os motivos para aquela resposta. Primeiro, eu não queria ficar lá só por causa do meu relacionamento com Edward. Além disso, estava ciente de que não saberia fazer nada, nem mesmo desempenhar um papel decente de secretária. Dessa forma, não só eu estaria ali por ser “a namorada inútil do chefe”, mas também ganharia um salário bom (eu tinha certeza que ele se encarregaria disso) sem fazer absolutamente nada de útil.

Além de tudo isso, quanto menos eu tivesse contato com empresários, melhor. Não estava em uma posição tão confortável para me dar ao luxo de correr riscos e arruinar com a minha vida, que finalmente parecia começar a melhorar.

E Edward entendia todas essas razões.

- Imaginei.

- Qualquer coisa simples está bom. De verdade...

- Não se preocupe. Se você vai ficar feliz com isso, vai ser feito do seu modo.

Suspirei outra vez, encostando nossas testas e nossos narizes.

- Obrigada.

Ele sorriu, e então senti vontade de agarrá-lo. Felizmente, antes que acabássemos os dois dentro do chafariz gelado, ouvimos uma voz ecoando ao longe pelo campo aberto. Era Esme, fazendo algum tipo de sinal para que voltássemos.

- Essa família me ama. — Ele concluiu, me tirando de seu colo e nos colocando de pé, enquanto pegava os panos de cima da mureta do chafariz.

“E quem não ama?” pensei, enquanto ajeitava despreocupadamente meu sobretudo, apertando mais o nó na altura da cintura para me manter aquecida. Eu estava leve e feliz. Estava com ele, e começava a me dar conta de que esse simples fato acabava sempre tornando tudo muito melhor.

Levantei a cabeça outra vez e vi que Edward me encarava com uma expressão um pouco surpresa, um leve sorriso nos lábios e uma alegria contida no olhar. Imediatamente entendi o que tinha acontecido.

Eu havia “pensado” em voz alta.

Senti meu rosto corar violentamente, fervendo de vergonha.

- Ahm... Vamos? — Falei, tentando escapar daquele momento constrangedor.

Mas era óbvio que ele não me deixaria escapar ilesa. Por isso, segundos depois aceitei o fato de ser agarrada e tomada em um beijo brutal, me deixando sem defesa, exatamente como os beijos arrebatadores de cinema. Edward finalmente me largou naquele estado gelatinoso que eu costumava ficar quando ele parava de me tocar.

- Linda.

- Certo. — Tossi, limpando a garganta e sorrindo de forma idiota — Vamos...

Saí andando na frente. Ele riu com minha atitude envergonhada, e logo me alcançou com suas passadas largas. Sem dizer uma só palavra, entrelaçou seus dedos nos meus, girando um pouco o anel com seu polegar. Meu rosto foi esfriando e voltando ao normal a medida que nos aproximávamos da casa. O relógio agora marcava 08:30h da manhã.

- Nossa, amor. É o seu quinto pedaço de bolo.

- Se você quiser ter um filho gordo e saudável, me deixe comer em paz.

Mais uma vez o assunto estava na gravidez de Alice. Chegamos à cozinha e a encontramos com Jasper ao seu lado no café da manhã. Esme estava sentada na cabeceira da mesa, observando a filha comer perto dela.

- Ora se não é meu irmão desnaturado que finalmente vem me ver antes que eu vá embora. — Alice pontuou, ainda comendo o pedaço do bolo em suas mãos, provocando Edward.

- Você vai embora hoje? — Ele perguntou um pouco espantado, enquanto sentávamos nas cadeiras à frente dela e de Jasper.

- Vamos passar o dia de Natal com a família de Jasper como sempre, cabeção.

- Mas pela quantidade de malas, pensei que ia ficar pelo menos por uma semana dessa vez.

- Só aumentei a quantidade de malas pra aumentar as opções.

Jasper olhou para nós com uma cara extremamente puta de “e sobra pra mim”.

- Vá se acostumando. — Disse Alice em um tom de bronca ao ver a expressão do marido — Meu guarda-roupa vai ficar ainda maior com as roupas de grávida.

- Você já tem algum sintoma? — Perguntei, um pouco curiosa.

- Não muitos. Há uma semana atrás tive vontade de comer quiabo com chantily, mas acho que foi só isso.

- Bacana! — Edward exclamou, achando graça.

- Não foi bacana. — Jasper concluiu — Ela vomitou uma gosma verde-bebê na manhã seguinte.

- Uau! Grávidas não são o máximo? — Edward falou de novo, dessa vez gargalhando abertamente.

- Grávidas são uma bomba armada, cara. — Emmet entrou na conversa, rompendo pela cozinha de robe preto, com Carlisle atrás dele — De repente, boom! Sai uma coisa de dentro delas chorando e esperneando.

- Essa “coisa” a qual você se refere é seu sobrinho, seu troglodita insensível. — Alice falou, não dando realmente muita importância para Emmet.

- Querido, vista uma roupa. Temos alguém novo na família. — Esme falou, de forma gentil mas repreendedora.

- Ah, mãe, a Bella não vai ficar me manjando. Ela prefere bichas magrelas e esquisitas.

Um pão de forma voou na cara de Emmet.

- Edward, não brinque com a comida.

- É, Edward. — Falou Alice, calmamente — Taca o copo.

- Por que vocês gostam de tacar coisas? — Carlisle perguntou de forma retórica.

- Bem vinda à loucura da minha família. — Esme falou ao meu ouvido.

Sorri. Não havia como negar que eu amava aquela loucura. Ria de todos eles e da dinâmica maravilhosa que acontecia ali. Senti uma pitada de inveja de Edward por ter uma família tão linda, e de repente a saudade dos meus pais me atingiu em cheio.

Perdi a concentração no que os Cullen diziam por um momento. Não em lamentações, mas apenas no desejo de ter Renée e Charlie ainda comigo, para que eu pudesse apresentar Edward a eles. Tinha certeza que se dariam bem. Então me peguei imaginando se eu teria o conhecido caso meus pais não tivessem falecido. No final das contas, foi por isso que tomei aquele rumo, e foi dessa forma que ele entrou na minha vida.

Eu não sabia a resposta para aquela pergunta.

Foi só quando o ambiente ficou estranhamente silencioso de repente que despertei, vendo-os outra vez à minha frente. Carlisle olhava com uma expressão satisfeita para Edward, e Emmet parecia orgulhoso com alguma coisa ou alguém. Esme estava agindo discretamente, embora eu não entendesse do que exatamente se tratava sua discrição, dobrando guardanapos à sua frente e sorrindo um pouco abobalhada. Jasper também lançava olhares estranhos para Edward, e Alice, como sempre diferente dos outros, olhava diretamente para mim, com um sorriso e um olhar provocativos.

Eu havia perdido alguma coisa, mas não sabia o quê.

- Anel bonito, Bella.

As palavras da irmã minúscula de Edward tiveram o efeito que ela certamente queria. Se fosse possível alguém morrer de vergonha, meu cadáver já estaria frio. Deixei que minha mão fosse parar embaixo da mesa, escondendo o foco da atenção de todos ali. Durante todo aquele tempo, eu ouvia a discussão com a mão direita no queixo, e sem notar, a manga do casaco que eu vestia escorregou pelo antebraço, revelando ali o aro dourado que havia ganhado de Natal.

Minha falta de atenção era quase um “Edward me deu uma aliança! Olhem como brilha!”. Eu estava prestes a responder alguma coisa. Provavelmente algo como “Hmpf... É...Anh...” mas graças a Deus fui interrompida por uma voz alta e grave. Eu sequer sabia de onde ela tinha vindo, mas a obedeci imediatamente.

- Saiam da minha cozinha! AGORA! Preciso cozinhar!

Não só eu, mas todos que estavam sentados pularam de suas cadeiras com o susto. Só quando estava quase na porta que notei que a ordem havia vindo de uma mulher gordinha e idosa, provavelmente a cozinheira, alguém que constatei não ter um dos melhores humores. Mas Esme ainda sorria ao seu lado, então talvez ela fosse sempre daquela forma “efusiva”.

Deixamos que ela trabalhasse. Fiz menção de ir para o quarto e passar o resto do dia escondida ali — meu rosto ainda fervia de vergonha. Mas Edward me arrastou para a sala de estar, agora vazia, e nos jogamos no sofá de frente para a lareira acesa — ele sentado e eu deitada em seu colo. Ficamos em silêncio. A casa estava mais fria que a noite anterior. Emmet se juntou a nós um pouco depois, agora vestindo roupas próprias para o inverno.

- Então, vocês ficam aqui até amanhã? — Ele perguntou, e pela primeira vez o que ouvi saindo de sua boca não era uma piada.

- Sim. Vamos embora às 13h amanhã. — Edward respondeu, mexendo de forma despreocupada nos meus cabelos, e eu comecei a sentir sono outra vez.

- É, eu também. Vou embora algumas horas depois.

Eles ficaram em silêncio por algum tempo, enquanto eu encarava a lareira. Me permiti ficar de fora da conversa dos dois, apenas de ouvinte.

- Cara, reparou como a mamãe está feliz?

- Claro. Ela vai ser avó...

- Não é só isso.

Eles se calaram outra vez. Senti os dedos de Edward se moverem de novo nos meus cabelos. Minhas pálpebras, a essa altura, já pesavam algumas toneladas, e cada piscada parecia uma eternidade. O fogo dançava calmamente diante dos meus olhos, o calor da sala era reconfortante. Tudo ali estava me embalando.

- Eu disse que tudo ia dar certo... — Ouvi a voz de Emmet ao longe. Ele parecia se divertir com alguma coisa.

- É. Eu deveria ter acreditado.

- Claro que deveria. Eu estou sempre certo.

A partir daí, optei por ignorar toda e qualquer conversa que eles mantivessem, me permitindo retomar meu sono interrompido daquela manhã.

Edward me acordou quando o almoço foi servido. Briguei com ele por não ter me acordado antes, para que eu pudesse ter ajudado com a mesa. Ele me ignorou.

Esme mandou prepararem um prato leve especialmente para mim por causa do mal estar matinal. Disse a ela que não precisava ter se preocupado, mas ela também pareceu me ignorar. Comemos rápido, já que dali a uma hora Alice e Jasper estariam de partida. Carlisle ainda fez mais algumas perguntas quanto à gravidez, como a data prevista para o parto e quando e onde seria o chá de bebê. Quando terminamos, ajudei a tirar a mesa, embora parecesse ter uma empregada exclusivamente para aquele trabalho. Edward mais uma vez tentou me arrastar dali, então o ameacei de morte caso não me deixasse fazer aquilo. Ele concordou.

E então, mais rápido do que eu mesma queria, a hora de ver a irmã-borboleta de Edward e seu marido partirem chegou. Eu gostava deles, embora não entendesse o timing das piadas de Jasper e as esquisitices de Alice. Mas simplesmente não havia como desgostar deles.

- Ei, Bella... Estamos bem, não é?

Jasper se despediu de todos, aparentemente me deixando por último de propósito.

- Claro. — Respondi, empregando um tom casual na voz.

- Espero que você não tenha mesmo me achado um babaca. Aquela brincadeira, realmente não foi por mal...

- Tudo bem, eu entendo...

- Entende porque é legal. — Alice interrompeu, olhando outra vez de forma fuzilante para o marido — Se fosse comigo, eu dava um chute no meio das pernas dele.

Jasper fez cara de dor e eu ri.

- Bella, adorei conhecer você. Se quiser passear pela França algum dia desses, peça ao Edward o nosso endereço. Vou amar te mostrar Paris.

- Vou ter isso em mente pra um possível surto de loucura. — Falei, rindo da sua idéia absurda de um “passeio” em outro país.

Ela me deu um abraço apertado, mais apertado do que os que eu estava acostumada a receber. Mas antes de se afastar, ouvi sua voz suave como sinos no meu ouvido, e tive certeza que só eu pude ouvir o que ela disse naquele momento.

- Cuide dele.

Alice se afastou ainda me encarando, e então percebi que só uma pessoa poderia me olhar de forma mais intensa e misteriosa do que Edward: Sua irmã. E mesmo que ela fosse esquisita daquela forma, mesmo que eu não entendesse metade das coisas que ela queria dizer quando me olhava, minha intuição insistia em trabalhar na idéia de que eu poderia confiar nela.

Me arrepiei.

A ligação entre nossos olhares foi cortada assim, de repente, quando ela resolveu se desviar de mim e dar um último abraço em Esme, Carlisle e Emmet, um pouco à minha frente nos degraus da escada.

- Au revoir! — Finalizou, se curvando de forma graciosa e dando uma pirueta no lugar para sair saltitando feito uma bailarina, sempre linda, para o taxi onde Edward e Jasper tentavam ajeitar as malas.


Edward’s POV

- Parabéns mais uma vez, cara. — Falei a Jasper, abraçando-o e desejando-lhe uma boa viagem depois de fechar a mala da taxi.

- Obrigado. Estou torcendo por uma menina, mas vamos ver. — Ele disse, animado, mas então voltou a ficar com a expressão um pouco séria quando repetiu as desculpas sobre a piada que tinha feito e a forma como deixou Bella sem graça. Tentei convencê-lo de que estava tudo bem, e então Alice chegou até nós.

- Amor, fala pro motorista deixar o taxímetro rodando. Vou estar dentro do carro dentro de três minutos.

Quando Alice falava daquela forma, nós entendíamos. Era simples assim. Então Jasper consentiu e entrou no taxi, fechando a porta e nos deixando a sós para conversar.

Eu já esperava por aquilo.

- Estou feliz por você. — Ela começou, de forma gentil.

Eu agradeci.

Ficamos nos encarando por algum tempo.

- Você sabe que eu sei que tem alguma coisa. E sei que não tem a ver com você propriamente, mas sim com ela.

Eu sabia. Alice era estranha, sempre havia sido. Ela era muito sensitiva; Tinha puxado isso da nossa mãe, mas nela parecia acontecer com mais força. Alguns amigos chamavam de telepatia, outros mais espirituais diziam que era coisa de energia ou algo assim. Fosse o que fosse, éramos sempre surpreendidos com sua capacidade de simplesmente saber das coisas, e por isso nunca conseguimos esconder nada, nem dela, nem da nossa mãe.

Mas Alice chegava a dar medo.

- E sei que é algo sério.

- Eu estranharia se você não soubesse.

Ela continuou me encarando. Se eu não soubesse que Alice de fato não podia ler meus pensamentos, letra por letra, estaria agora desconfortável com o jeito que me olhava, em pânico por pensar que meus segredos estariam sendo revelados ali, diante de meus olhos, sem que eu pudesse fazer nada.

Suspirei.

- Se vocês optaram por manter um segredo, não é da minha conta. — Ela recomeçou, segurando minha mão — Mas só não é da minha conta se você me prometer que, independente do que for, sua felicidade não vai estar em risco.

Apertei suas mãos, querendo passar toda a firmeza e certeza que eu sentia ao falar aquelas palavras. Mas não precisava: Ela sabia que era verdade.

- Prometo a você que nunca estive tão feliz.

Ela sorriu. Era um sorriso de alívio, de conforto, de cumplicidade. Era o sorriso que Alice costumava dar quando chegava à conclusão que, no final das contas, não havia nada de errado.

- Você está bem. — Ela falou, com toda aquela sabedoria que não era comum em irmãs caçulas — E se você está bem, então não faz diferença.

Aquela coisa minúscula me abraçou pela cintura e levantou a cabeça como uma criança que pede por um beijo. Abaixei o máximo que pude para dar um selinho carinhoso nela, abraçando-a com todo o amor que meu lado irmão guardava.

- Cuide-se. Quero um sobrinho rechonchudo e rosado pra mimar. — Falei, já sentindo uma pontada de tristeza em deixá-la ir.

- Quando ele começar a se sentir sozinho, vou exigir um priminho. — Ela falou, saltintando até o carro enquanto sorria. — Avise isso à Bella.

Alice abriu a porta e sentou no banco de trás, mas antes de fechá-la, pareceu lembrar de uma última coisa e colocou a cabeça para fora de novo, apenas para dizer o que faltava.

- Ah: Realmente gostei dela.

Ela sorriu e bateu a porta do carro, que rumou para fora do jardim logo em seguida. Ficamos todos seguindo o táxi com os olhos, até que ele virasse na entrada e sumisse para a rua. O portão automático fechou e eu caminhei de volta para as escadas da casa. Meu pai abraçava carinhosamente minha mãe, e Emmet apenas olhava para o horizonte com as mãos nos bolsos. Isabella optou por ficar atrás deles, próxima à porta, e parecia estar deslocada.

- EU VOU SER AVÓ! — Minha mãe gritou de repente, com as mãos para o alto, assustando a todos que estavam ali. Só tive tempo de ver Isabella tremer da cabeça aos pés e começar a rir depois. Não me contive, rindo também, e meu pai nos seguiu.

- Componha-se, mulher! — Emmet gritou, com a mão no peito, mas também estava rindo.

O grito dela foi seguido por uma dancinha da vitória ridícula, e então me dei conta de quem eu tinha puxado o jeito horrível de dançar.

- Estou tão feliz! — Ela continuou, como uma menina de quinze anos, e vi um pouco do jeito serelepe de Alice nela aflorando.

- Querida, seremos os avós mais jovens e atraentes da Inglaterra. — Meu pai brincou, apertando sua bochecha.

- Isso é verdade. — Isabella disse sem nem se dar conta, e notei que ela tinha pensado em voz alta outra vez.

- Espero que seja um garotão. E espero que Jasper não o torne um francês afrescalhado. — Emmet falou de forma distraída.

- Querido, pare de criticar a sexualidade dos outros e arranje uma namorada.

- Porra, mãe! Eu tenho sentimentos!

Gargalhei da cara de Emmet, que parecia realmente magoado. Ele me deu um soco, mas eu não esperava menos. Nossa mãe já não o escutava, saltitando para dentro de casa enquanto gritava outra vez, deixando todos os empregados ali cientes também, caso algum deles ainda não soubesse.

- VOU SER AVÓ! CHAMPAGNE!

Aquela tarde passou voando.

Passamos, meu pai, Emmet e eu, uma boa parte dela discutindo mais assuntos sobre as empresas. Me senti um pouco culpado por deixar Isabella sozinha, e rezava o tempo todo para que minha mãe não estivesse em algum canto da casa de conversa com ela sobre mais detalhes do seu passado. Assim que um tópico do nosso assunto esfriava, eu pedia licença e ia à sua procura. Encontrei-a pela primeira vez e todas as cinco vezes seguintes no mesmo lugar: Na sala de tv assistindo canais de desenho. Minha mãe havia bebido em mais uma comemoração pelo neto, e como não a achei em canto algum, presumi que tivesse passado a tarde inteira dormindo.

Eu não gostava de ficar conversando horas sobre a empresa — embora ultimamente pudesse dizer que desgostava menos — mas a coisa se tornava realmente insuportável de aturar quando competia com Isabella em um sofá fofo e um edredom quente embrulhado até os olhos, vendo Bob Esponja.

- Pai, já conversamos o suficiente. Vamos parar por aqui — Emmet falou de repente, enquanto nosso pai começava mais um “Bom...” — Se Edward sair dessa sala e voltar com cara de criança com doce roubado mais uma vez eu acho que me mato.

Não pensei que aquele argumento fosse funcionar, mas funcionou. Saí da sala de estar e fui me juntar a ela ao anoitecer, abrindo uma fenda no edredom e me embrulhando com ela ali. Constatei que minha chegada a havia acordado de outro cochilo.

- Fique acordada! — Falei sem motivo nenhum, apenas para puxar assunto.

- É... Acho que não vou querer dormir essa noite.

Olhei-a com esperança de que aquilo tivesse sido uma provocação ou alguma brincadeira que indicasse, de alguma forma, que eu teria que passar a noite acordado com ela também. Ou seja, sexo.

- Que foi? — Ela falou de forma doce, me encarando de volta e se perguntando o porquê do meu sorriso depravado no rosto, então notei que seu comentário havia sido mesmo inocente. Merda.

Me aconcheguei mais a ela, encostando a cabeça em seu ombro e enfiando meu rosto no pescoço dela como havia feito tantas vezes. O perfume de amêndoas estava fraco, o que foi bom para ajudar a me manter calmo. Minha mão esquerda correu embaixo da coberta, tateando e procurando a direita dela. Girei com o dedo a aliança ali, involuntariamente, e não sabia se aquela minha nova mania era porque eu queria ter certeza de que o anel permanecia ali ou porque queria lembrar a mim mesmo da sua simples existência. Era uma lembrança do “sim” dela.

Ficamos ali por um bom tempo sem fazer nada além de olhar para a tv. Ela parecia se divertir com piadas nas quais eu não prestava atenção, porque sua risada baixa, rouca e incrivelmente fofa era muito mais interessante do que qualquer coisa naquele aposento.

Me dei conta de que havia me apaixonado completamente pelo som da gargalhada dela. Fiquei prestando atenção cada vez que ela ria. Passei horas me concentrando apenas nisso, até que em algum momento Emmet apareceu como uma assombração.

- Crianças, vou dormir.

- Emmet, são 21h. — Falei, olhando para o relógio.

- Eu sei, mas estou um caco. Não consegui dormir direito essa noite. E a culpa foi da sua namorada.

- O que eu fiz? — Ela perguntou, um pouco constrangida.

- Bom, não vou entrar em detalhes, mas as paredes dos quartos não têm isolamento acústico. Ei, Edward, tragam umas placas de isopor ou caixas de ovos da próxima vez que resolverem se divertir a duas portas de mim durante metade da noite.

Isabella se transformou em um tomate gigante ao meu lado.

- Emmet, não seja idiota. — Falei calmamente. Eu sabia que ele não estava falando sério.

Ele gargalhou alto.

- Eu só estava tirando um sarro, mas agora tive a certeza de que vocês transaram mesmo. Bella, você é um perigo!

- Alguém aqui tinha que transar, Einstein. — Provoquei.

- Você e a mamãe brincam com a minha solidão. — Ele fingiu secar uma lágrima no canto do olho — Mas você eu posso mandar ir à merda.

Desviei da almofada que ele lançou em cima de mim. Quando finalmente resolveu nos deixar a sós de novo, me voltei para Isabella.

- Desculpa. Só tem babaca na minha família.

- Não fale besteira. Sua família é maravilhosa.

Era verdade, e eu sabia disso. Mas se a brincadeira idiota de Emmet resultasse em falta de sexo aquela noite, ele acordaria na manhã seguinte sem as mãos.

- Quer ver tv no quarto? — Perguntei de forma cínica, beijando delicadamente sua orelha. — Lá ninguém vai encher o nosso saco.

Pensei que me ignoraria, mas quando ela respondeu “tudo bem”, me coloquei de pé prontamente para ir embora dali. Desliguei a tv sem prestar muita atenção e deixei que ela fosse na frente, com os braços cruzados no peito para se aquecer.

- Vão querer jantar? — Minha mãe perguntou quando nos encontrou no hall.

- Não jantamos, mãe, obrigado. Vamos ver tv lá em cima.

- Bom, se tiverem fome de noite, tem muita coisa na geladeira.

Chegamos no quarto que apresentava agora um inconfundível perfume de limpeza. Tranquei a porta atrás de mim, arquitetando planos para aquela noite. Na verdade, não eram planos mirabolantes: No final, tudo se resumia a conseguir tê-la mais uma vez.

- Vou tomar um banho. — Falei, esperando um pouco por sua resposta. Mas ela só consentiu com a cabeça, sem dizer uma palavra. Por isso, insisti com um sorriso culpado no rosto — Quer me acompanhar?

- Não... — Ela riu, achando graça — Vai na frente. Eu vou depois.

Emmet realmente me pagaria.

Peguei um conjunto de moletom na mala e caminhei um pouco contrariado para o banheiro. Tomei um banho caprichado. Usei o melhor shampoo que estava ali — pelo menos o que eu achava melhor. Me ensaboei duas vezes e fiz a barba depois do banho. Escovei os dentes e passei uma colônia suave agradável. Pensei em tirar a parte de cima do conjunto, mas a noite estava realmente fria.

Entrei no quarto e a encontrei debaixo das cobertas, olhando para o teto. Quando notou minha presença ali, se desfez rapidamente do edredom enrolado em seu corpo e caminhou para o banheiro depois de pegar alguma peça de roupa em sua mala.

Liguei a tv e esperei pacientemente, passando pelos canais de forma distraída. Aumentei o aquecedor do quarto, pensando no desconforto que Isabella sentiria ao sair de um banho quente e se chocar com um ambiente frio demais. Peguei um cobertor extra no armário e deixei ao pé da cama. Voltei a sentar no meio dos travesseiros fofos, aumentando cada vez mais a sequência de canais. Cheguei ao ponto dos canais pornográficos, e me perguntei por que diabos minha mãe ainda não os tinha bloqueado. Eu queria acreditar que Emmet não teria coragem de pedir para que ela os mantivesse ali.

No próximo canal, um filme mostrava um convento. Algumas freiras passeavam para lá e para cá, e a cena cortou para algum diálogo entre uma delas e um padre. Eles falavam muito sobre castigos divinos e tentação, mas a conversa não fazia muito sentido.

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Foi no exato momento em que Isabella saiu do banheiro que a freira na tv resolveu, de repente, mostrar os peitos.

Arregalei os olhos, me dando conta só então que aquilo também era um filme pornô. Aparentemente, eu tinha pegado o início da “história”.

Olhei para ela de forma inocente, com um sorriso amarelo e idiota no rosto, falando qualquer merda para quebrar o silêncio.

- Esses caras vão pro inferno, né?

Ela me encarou em tom de reprovação.

- Eu não sabia, juro por Deus. — Falei, com vontade de rir da situação esdrúxula.

- Não fale de Deus enquanto vê um filme pornô com freiras.

Olhei outra vez pra tv e agora tinham três delas, nuas, se esfregando no padre.

- Porra, como são rápidas...

Ela ficou em silêncio por pouco tempo, mas logo falou outra vez.

- O padre é um gato...

- Ei! — Exclamei, indignado.

- Que foi?

- Eu estou bem aqui!

- E daí? — Ela falava com um sorriso cínico, fingindo ingenuidade.

- E daí que não quero te ver manjando outros homens...

- Você estava aí manjando três mulheres.

- Não estava! Nem sabia que isso era pornô!

Ela revirou os olhos, tomando o controle da minha mão e desligando a tv.

- Certo.

Ela não acreditava em mim, e em condições normais eu lutaria pelo meu argumento, tentando convencê-la até a morte da minha inocência. Mas eu não estava em condições normais, primeiro porque tinha acabado de notar o que ela vestia: minha camisa social, que agora era dela; Segundo porque, em um segundo momento, reconheci um frasco cor creme em uma de suas mãos.

- Você pode voltar a se divertir com seu filme xxx depois — Ela subiu na cama e sentou em seus calcanhares de costas para mim — Mas antes, queria que passasse isso nas minhas costas.

Isabella estendeu o frasco para mim, dando um nó em forma de coque em seus cabelos. Devagar — tão devagar que chegava a ser torturante — ela foi abrindo, um por um, os botões da camisa, e tudo que consegui fazer foi ficar feito uma estátua assistindo-a por trás. Quando finalmente desceu a camisa até a altura de sua cintura, mantendo as mangas vestidas, eu já ofegava como um asmático.

Ela esperou. Eu fiquei parado, sentindo meu membro latejar de desejo, olhando para suas costas e seu pescoço ainda marcado. Eu gostava quando ela usava coque. Me dava uma visão privilegiada daquela área.

- Edward?

Corri de joelhos pelo colchão e parei atrás dela. Sem saber ao certo o que estava fazendo, espremi um pouco do líquido cremoso em uma das palmas e o espalhei em círculos com as duas mãos por uma mancha clara e grande.

- Fui eu que fiz isso? — Foi minha primeira tentativa de interação desde que havia perdido a concentração. Até que me saí bem.

- Deve ter sido o atrito com o chão. Ou com o azulejo do banheiro. — Ouvi-a responder em uma voz baixa.

- Desculpa.

Ela não respondeu. Continuei espalhando o creme — não porque ainda pecisasse ser espalhado, mas sim porque eu queria continuar tocando nela — tentando me acostumar com o perfume que agora já tomava o quarto inteiro. Passeei minhas mãos de cima a baixo na parte de trás do seu tronco, sentindo cada vértebra e cada músculo ali. Cheguei na altura dos ombros e, com a ajuda do creme, fiz massagem naquela área. Ela gemeu baixo, e meu pau se mexeu por conta própria.

- Você faz massagem muito bem...

- Faço? — Perguntei retoricamente em seu ouvido. A pele dela cheirava a sabonete de lavanda, seus cabelos a shampoo de frutas. A mistura de perfumes nela sempre me fazia ficar meio tonto, e talvez isso nunca mudasse, não importava quantas vezes eu a teria daquela forma.

Voltei a deslizar minhas mãos para baixo em suas costas, mas dessa vez as trouxe para a frente no corpo dela, acariciando sua barriga com delicadeza. Inconscientemente, beijei sua orelha e seu pescoço, respirando por mais algum tempo ali. Puxei-a mais contra o meu corpo, sem me preocupar com o fato de que ela sentiria minha ereção. Isabella tinha conhecimento do que fazia comigo de qualquer forma.

Fiz uma trilha com a língua de um lado ao outro do pescoço dela, e outra vez fiquei contente porque ela estava usando um coque. Uma de minhas mãos subiu, apalpando com delicadeza seu seio, sentindo-o duro de excitação. A outra desceu, tocando-a onde eu mais queria. Sem pensar, deslizei um dedo para dentro dela e me surpreendi com a facilidade com que consegui fazer aquilo. Ela começou a ofegar como eu, e lembrei que poucos sons eram tão agradáveis quanto aquele.

Retirei meu dedo de dentro dela, trazendo-o até mim e chupando-o, juntamente com um segundo. Ela soltou um gemido abafado, claramente tentando não fazer barulho. Deslizei os dois dedos molhados para dentro outra vez, ainda sem dificuldades. Movimentei-os por algum tempo, mas depois trouxe-os de novo até minha boca, chupando agora três dedos e tentando logo em seguida deslizá-los para dentro dela.

- Por que você vai aumentando às prestações? Por que não mete uma coisa realmente grossa de uma só vez aqui?

Ela sussurrou no meu ouvido, e então resolvi não esperar nem mais um segundo. Com uma das mãos, puxei sem cuidado minhas calças apenas para tornar livre minha enorme ereção. Com a outra, agarrei-a pela cintura e trouxe-a para cima do meu colo.

- Grosso assim? — Perguntei de forma provocante, enquanto empurrava e puxava seu corpo de encontro ao meu, deslizando para dentro e para fora dela com uma facilidade maravilhosa.

- É... — Ela ofegou — Grosso assim...

Agarrei-a com os dois braços e fiz com que ela pulasse contra meu corpo de forma violenta. Senti a cabeça do meu pau tocá-la até o final, mas como não ouvi reclamações, não parei.

- Ahhh, isso... — Gemi sem notar.

Senti uma grande decepção quando ela se levantou de repente, virando de frente para mim e falando próximo ao meu rosto em um tom de voz bem baixo.

- Não quero dar chance pro seu irmão ouvir alguma coisa e vir tirar sarro com a minha cara outra vez amanhã. Vamos fazer isso baixo, tá?

- Ele não vai ouvir...

Ela segurou meu pau com uma das mãos e o guiou para sua entrada, abaixando devagar até estar completamente sentada e confortável ali outra vez.

Rolei os olhos para trás, contendo um gemido que queria rasgar minha garganta.

- Viu só? Não é difícil. — Ela pontuou com a voz rouca, embargada de desejo, lambendo de forma sensual meus lábios e rebolando no meu pau de um jeito enlouquecedor.

- É difícil pra caralho...

Ela não respondeu, puxando de qualquer jeito o casaco que eu vestia pela minha cabeça. Aproveitei pra chutar da melhor maneira que podia as calças que permaneciam presas nas minhas pernas, tomando cuidado para não sair de dentro dela.

Abracei-a outra vez. Isabella era tão fina que eu tinha a impressão que poderia quebrá-la a qualquer aperto mais forte. Meus braços pareciam dar quase duas voltas no seu tronco, mas ela se movia com a agilidade nada própria para alguém frágil.

Seus dedos agarraram os cabelos da minha nuca, como sempre faziam. Procurei seus lábios de olhos fechados, encontrando-os logo à minha frente. Beijei-a efusivamente, sentindo-a por dentro quente e úmida tanto com a língua quando com meu pau. Me agarrei à barra da blusa aberta que ela ainda vestia, fazendo um esforço sobre-humano para não gemer alto.

- Porra, Bella...

- Shhhhh... — Ela interrompeu minha objeção, se afastando da minha língua e indo para minha orelha, aos sussurros — É bom que aprendemos a ter disciplina.

- Foda-se a disciplina! Só quero te comer direito...

- Você está me comendo direito, pode ter certeza.

Ela riu, de repente se jogando para trás e deitando na cama com os braços acima da cabeça, seu corpo fazendo um arco perfeito em um ângulo impressionante com o colchão. Nossos corpos estavam em contato apenas pela penetração, e a visão dela completamente aberta e entregue a mim era simplesmente delirante.

- Puta que pariu...

Envolvi meus braços em sua cintura minúscula e me prendi a ela, estocando com tanta força que achava impossível não estar machucando-a. Sua respiração cansada saía entrecortada pelo movimento dos nossos corpos. Eu a desejava de forma doentia, psicopata, de um jeito que não era normal.

Me posicionei melhor, fazendo com que a cabeça do meu membro alcançasse um ponto mais à esquerda nela, um ponto que eu sabia ser especial. Ela abriu a boca e revirou os olhos instantaneamente, ofeganto entre uma palavra sussurrada e outra.

- Seu... filho... da... puta...

Era óbvio que ela sabia que eu tinha feito aquilo por querer. Conseguindo agarrar um dos travesseiros, Isabella trouxe-o até a altura de sua cabeça e o mordeu, deixando ali gemidos abafados e roucos. Continuei tocando-a naquele ponto propositalmente, agora mais rápido e com mais força. Minhas coxas ficaram dormentes com o movimento repetitivo, mas não diminuí o ritmo. Queria desafiá-la a gozar sem gemer alto, jogando o feitiço contra o próprio feiticeiro.

Por isso, me senti debilmente feliz quando seu orgasmo veio com uma força explosiva, arrancando dela um genuíno grito de prazer.

Seu corpo se fechava e se abria em volta do meu membro em maravilhosos espasmos, provocando uma sensação alucinante. Não era difícil entender porque meus orgasmos sempre explodiam naquele momento, já que meu estímulo vinha de seus próprios movimentos involuntários.

- Ahhhh... — Gemi baixo, embora tivesse o direito de gritar também, mas sabia que ela já estaria suficientemente puta comigo sem aquilo. Dessa forma, meti nela uma última vez, deixando meu desejo escorrer por dentro do seu corpo como se pertencesse a ele. Respirei fundo algumas vezes, tentando recobrar o fôlego há muito tempo perdido. Me curvei para frente, encostando minha testa em sua barriga e depositando ali beijos suaves, calmos. Fui subindo, percorrendo seu tronco lentamente, chegando ao seu seio machucado e beijando-o gentilmente. Senti sua mão migrar para meus cabelos outra vez e sorri.

Saí dela, esticando minhas pernas e deixando meu corpo repousar por cima do seu. Recostei meu rosto em seu pescoço e respirei, como se só ali pudesse encontrar meu oxigênio particular.

- Você vai me pagar por isso. — Ela enfim falou.

Continuei calado como uma criança ciente da própria culpa.

Isabella também não voltou a falar, mas seus dedos deslizando pelos fios do meu cabelo me diziam que ela não estava realmente falando sério. Suspirei aliviado: Dependendo da vingança que ela tinha em mente, eu poderia acabar realmente na merda. Simplesmente porque eu sempre estive e sempre estaria em suas mãos.

Fechei os olhos. O frio da noite se chocava contra as minhas costas, mas o calor do corpo dela compensava. Alcancei sua mão direita outra vez, unicamente para sentir meu anel ali. Girei-o despreocupadamente, deixando que meu cérebro associasse aquele toque ao perfume que invadia meus sentidos. Depositei vários beijos na pele do seu pescoço, deixando que o cansaço fosse me tomando aos poucos.

Adormeci.

Acordei apenas quando senti seu corpo tentando se desvencilhar do meu. Agarrei-a instintivamente, ainda meio desorientado.

- Banho. — Ela sussurrou no meu ouvido, então achei razoável deixá-la ir.

Esperei pacientemente que ela voltasse. Era inútil tentar dormir sem ela ao meu lado: Simplesmente não funcionava.

Quando ela voltou, senti outra vez o perfume de lavanda se aproximar. Notei que estava deitado ao contrário na cama, então me arrastei até ela, perto da cabeceira. Tentei timidamente me aproximar, com um dos braços repousados em sua barriga. Ela cheirava a banho, eu a sexo. Torci para que não me rejeitasse, com muito sono para me dirigir ao banheiro outra vez.

Ela virou de lado e se aconchegou no meu peito, de costas para mim, enquanto puxava meu braço para contornar sua cintura.

Vibrei em silêncio.

Me agarrei a ela como um ímã e segundos depois mergulhei na inconsciência outra vez.