Notas iniciais
Eu sei que ninguém vai ler isso aqui. Então volto a falar nas notas finais do capítulo. :P

Bella"s POV

Eu praticamente não havia dormido aquela noite, ansiosa pela iminente viagem surpresa a qual não só me faria viajar de avião pela primeira vez — o que tinha que admitir, não era o principal motivo do meu pânico — mas também conheceria a família de Edward, esse sim o fato que me preocupava.

Eles devem ser legais.

Eu repetia isso como um mantra dentro de minha própria cabeça, enquanto assistia Edward dormir. Ele estava mergulhado em um sono profundo, mas notei em alguns momentos que ele sonhava. Na maioria das vezes, dizia coisas incompreensíveis, mas quando seu rosto se contorcia em uma expressão de tristeza ou desagrado, ele instintivamente me trazia mais para perto de seu corpo, me apertando com tanta força que eu chegava a duvidar se ele estava mesmo inconsciente.

Me perguntei se ele estaria tendo algum tipo de pesadelo comigo.

Lembrei de todos os que eu havia tido com ele. Felizmente, a insônia trabalhou nisso, me deixando alerta quase a noite toda e impedindo que meus medos viessem me atormentar na forma de sonhos outra vez.

Eram 5h da manhã quando vi o relógio pela última vez e consegui relaxar nos braços de Edward.

Acordei às 10:15h sentindo um pouco de frio. Estava sozinha e com dor de cabeça, por isso tentei dormir mais um pouco, tarefa que se mostrou impossível, já que minha ansiedade não me deixava relaxar.

Tomei um banho quente e demorado, enquanto traçava planos para o resto do meu dia, pelo menos até Edward voltar do trabalho. Me vesti com um conjunto de moletom e meias fofas, peguei uma maçã na cozinha e fui para meu quarto, com o intuito de começar a separar algumas roupas para nossa viagem de Natal. Encontrei três malas grandes e discretas enfileiradas perto da parede, então me perguntei se Edward realmente achava que eu levaria tanta coisa assim. Ignorando as restantes, separei uma única mala para a viagem.

Escolhi as roupas mais novas por uma série de motivos. Primeiro, eram mais bonitas. Segundo, não havia riscos em fazer com que ele ou eu lembrássemos de coisas desagradáveis. Terceiro, eram muito mais elegantes do que minhas antigas peças, e provavelmente seria mais apropriado me vestir dessa forma perto da família de Edward. Mesmo assim, não deixei de colocar alguns casacos velhos e calças de moletom confortáveis, já que não fazia idéia do quão frias as noites de Londres eram.

Me perguntei se seria de bom tom arrumar as malas de Edward também, já que não sabia a que horas ele voltaria para casa, mas logo desisti da idéia porque, além de poder deixá-lo desconfortável comigo tentando mexer em coisas que eram de sua responsabilidade, eu não fazia idéia de que tipos de roupas ele queria levar.

Peguei o presente ainda embrulhado e guardei na bolsa, com medo de que, se deixasse para depois, esquecesse de levá-lo comigo. Coloquei na mala alguns sapatos, meias, peças para inverno como luvas, cachecol e touca, além de roupas íntimas. Lembrei que tinha dois vidros de perfume, mas ambos eram fortes demais. Um, inclusive, era o mesmo perfume que havia usado na noite em que nós nos reencontramos, então imaginei que Edward simplesmente o odiasse. Como única saída, empacotei junto com o restante das coisas meu creme para hematomas — que eu sabia que não o desagradaria — e fechei o zíper.

Demorei mais do que imaginava. Olhei para o relógio, que marcava 12:30h, então pensei no que fazer para o almoço. Como estava sozinha, qualquer coisa congelada estaria de bom tamanho. Preparei no microondas uma lasanha de legumes e comi, tentando não pensar em nada relacionado à viagem e em tudo que poderia dar errado nela.

Terminei de almoçar por volta das 13:15h. Sem muito o que fazer, rumei para o quarto de Edward e liguei a tv. Passei por mais de duzentos canais três vezes, demorando em alguns filmes apenas para ver se me chamavam a atenção, mas não havia algo que me interessasse ou que conseguisse me fazer parar de pensar.

Eles vão me odiar. Vão pensar que eu sou uma interesseira. Vão pensar que eu não presto.

- E por que eles pensariam isso? — Perguntei a mim mesma.

Porque eu não presto.

Não respondi. O pior de tudo não era ter que viver com Edward e fingir que a vida era simples. Era o fato de ter minha própria consciência contra mim que estava me enlouquecendo, e eu tinha certeza que se não revertesse essa situação, por bem ou por mal, acabaria na merda.

Levantei com raiva, sem saber de quem ou do quê, desligando a tv e voltando à cozinha. Pensei em qualquer receita fácil, torcendo para que Edward tivesse todos os ingredientes necessários. Uma rápida busca na despensa e nos armários da cozinha me confirmaram isso, então fiz força para lembrar como se preparava a sobremesa que tinha em mente, tentando esquecer o mundo à minha volta.

Preparei a calda de chocolate com leite condensado e nozes moídas, esperando que esfriasse um pouco para ser levada à geladeira depois. Bati o creme de leite e o chocolate em pó, formando uma pasta homogênea. Joguei lá dentro suspiros picados, bombons, coco ralado e nozes, algumas inteiras e outras trituradas. Mexi bem e coloquei para gelar, levando junto a calda que parecia já estar menos quente. Fui para o quarto e pensei em qual roupa iria para o aeroporto. Como tinha muitas opções, demorei um pouco para achar a melhor combinação — a melhor, porque todas me agradavam — e quando finalmente me decidi por um sobretudo vermelho sangue, blusa básica, calças pretas e botas de cano médio sem salto estilo esquimó, me perguntei se estava fazendo aquilo pelo meu gosto ou pelo de Edward.

Cansada de ziguezaguear pelo quarto e com medo de fazer um furo no chão, fui até a biblioteca, examinando alguns dos exemplares que se mostravam nas estantes dos dois lados do aposento. O quarto não era grande, então eu poderia ler a maioria dos títulos, mas eram muitos. Descobri que Edward era fã de suspenses, tendo belas coleções de Arthur Conan Doyle, Sidney Sheldon e Agatha Christie. Varrendo os olhos continuamente pelas prateleiras, notei que a estante daquele lado do aposento era mais curta que a outra. Ao final dela, uma porta ocupava o restante da parede, então notei que da última vez que estivera ali — com Margarida — eu não havia reparado nela.

Girei a maçaneta sem pensar e notei que não estava trancada. Me perguntei se seria falta de educação entrar sem permissão, mas então lembrei das palavras de Edward ao dizer que eu poderia fazer o que quisesse naquela casa. Além disso, se houvesse algo que ele não quisesse que eu soubesse lá dentro, não deixaria a porta apenas encostada.

Entrei em um aposento pequeno, menor que a biblioteca, com paredes em um tom de vinho e com uma aparência diferente, o chão de madeira coberto por um grande tapete persa escuro. Em cima dele, um piano de cauda em mogno se mostrava imponente no centro da sala, enquanto mais ao lado um banco grande também de madeira percorria quase toda a extensão da parede à direita, embaixo de uma janela com as cortinas fechadas.

E era só isso. Aquela parecia ser a sala de música particular de Edward, simples e discreta, mas aconchegante e misteriosa ao mesmo tempo. Imediatamente imaginei-o ali, tocando, compondo melodias parecidas com aquela que um dia ouvi no rádio de seu carro. Era uma imagem magnífica.

Fiquei ali, por algum tempo, pensando em nada em particular. Aquele lugar me transmitia uma estranha sensação de paz, e ficar ali, mesmo sem fazer nada, era bom. Sentei no banco comprido embaixo da janela e fechei os olhos. O cheiro ali era agradável. Me perguntei se algum dia o veria tocando qualquer coisa que fosse. Talvez eu pedisse a ele.

Não sei quanto tempo se passou. Lembrei da sobremesa, que àquela hora já estaria pronta, então deixei o quarto, sentindo a aura de tranquilidade ficando para trás. Tirei o doce da geladeira juntamente com a calda, entornando-a por cima da massa gelada. A aparência era muito boa, mas eu não sabia se o modo de preparo havia sido feito certo.

Fui até o armário em cima da pia e peguei de lá uma taça para sorvete e duas colheres, tirando um pouco da massa gelada da travessa e me servindo.

Eu havia acertado. Sempre fui muito crítica com as coisas que fazia, mas não havia como negar que aquilo estava mesmo bom. Senti orgulho de mim mesma pelo feito, e desejei profundamente que Edward estivesse ali para que pudesse provar minha receita e, quem sabe, me encher de elogios.

Como água se transformando em vinho, ele milagrosamente surgiu pela porta que dava para a sala. Me assustei com sua aparição quase sobrenatural, embora tivesse ficado feliz, e me perguntei quando ele havia desenvolvido a capacidade de ser silencioso como uma lesma.

Edward vestia um sobretudo, diferente do que usava no dia anterior.Tirava suas luvas devagar, sem pressa alguma, enquanto me encarava silenciosamente. Retribuí o olhar. Ele agora vinha em minha direção, uma expressão tranquila no rosto, desviando seus olhos para a travessa de doce à minha frente em cima do balcão entre nós.

- Você que fez?

- Sim.

- Posso provar uma colherada?

Me apressei em buscar no fundo da taça um pedaço maior de bombom molhado, mas estava sendo um desafio imenso trazê-lo com a colher para cima. Talvez isso se devesse ao fato de que aquela era uma tarefa que exigia um mínimo de coordenação motora, e se eu já era péssima naquilo normalmente, minha incompetência triplicava quando Edward estava me encarando tão de perto.

Um pouco desesperada, soltei a colher e peguei o bombom com o indicador e o polegar, levando até sua boca. Ele me encarou com uma expressão indecifrável, mas antes que a gota de chocolate que se formava ali pudesse cair, Edward mordeu o doce. Quando fiz menção de afastar minha mão, ele segurou meu pulso com força, e ainda me encarando, chupou meus dois dedos, um de cada vez, deixando-os limpos da calda que escorria ali.

Fiquei encarando feito uma débil mental seus lábios correndo pelos meus dedos. Percebi que estava de boca aberta, então fechei-a abruptamente, desejando com todas as forças que eu parasse de agir de forma constrangedora toda vez que ele fizesse alguma coisa provocante.

- Uau... — Ele começou, dando uma pausa para engolir — Isso está perfeito.

- Obrigada. — Sorri, feliz com seu comentário, torcendo para que ele estivesse falando a verdade.

- Posso comer isso com você algum dia?

Era uma pergunta boba de se fazer. Por que ele pediria permissão para comer qualquer coisa comigo?

- Claro. Me deixa pegar uma taça pra você, comemos juntos...

Fiz menção de me levantar, mas ele segurou meu pulso outra vez, me impedindo de sair do lugar.

- Acho que não fui claro. Vou reformular a frase: Posso comervocê com isso algum dia?

Eu estava fazendo aquela cara de idiota outra vez, eu sabia. Mesmo sem estar na frente de um espelho, sabia também que meu rosto poderia ser facilmente confundido com um tomate maduro, porque minha cabeça estava fervendo de vergonha. Ele estava fazendo aquilo de propósito, eu tinha certeza.

- Você... Eu acho... Ha... É, eu... — Foi a brilhante frase que consegui pronunciar, enquanto encarava nervosa o doce na travessa à minha frente.

Ouvi seu riso abafado enquanto ele ainda me encarava.

- Você tem sorte por ter um balcão entre nós dois. Toda vez que a sua pele fica dessa cor eu tenho uma vontade quase incontrolável de te abraçar até te asfixiar.

Ele sorria despreocupado. Ver Edward tão à vontade dessa maneira era bom porque fazia com que eu achasse que não havia nada com o que me preocupar. E então, ele era apenas um bobo engraçadinho que adorava me provocar. Sem situações desconfortáveis, sem momentos de um silêncio desagradável.

Éramos só nós dois. Sem problemas.

- Ainda vou descobrir um jeito de te deixar sem graça também, bonitão.

- Bom, contanto que você não diga pra minha mãe que eu sou bom de cama...

Soltei uma risada abafada, me concentrando para fazer meu rosto parar de queimar. Tentei mudar de assunto, na esperança que aquilo acontecesse logo.

- Você tem que arrumar suas malas.

- Ah, sim. Por falar nisso, esqueci de te perguntar uma coisa: Você tem passaporte?

Congelei.

Eu não tinha passaporte.

Como diabos eu não havia lembrado disso?

Não precisei falar nada, minha expressão já dizia tudo por mim. Então era isso: Por mais uma imbecilidade minha, agora Edward viajaria sozinho para Londres e eu passaria o Natal ali, longe dele.

- Imaginei que não. — Ele respondeu à minha resposta não dita, com uma calma que só fazia com que eu ficasse mais nervosa — Bom, ainda bem que eu sou rico.

Olhei-o confusa, ainda arrasada.

- Nós vamos em um avião particular. O vôo é às 22h, ninguém vai pedir seu passaporte.

Encarei-o com os olhos esbugalhados, sem saber o que dizer.

- Quantas pessoas você teve que subornar pra isso?

- Nenhuma. O avião é meu.

A partir daquele momento, desisti de conversar com Edward. Ele sempre me surpreenderia de alguma forma e me deixaria com cara de besta — se não fosse pela sua personalidade, seria pelo seu poder — então apenas deixei que ele nos guiasse o resto do dia.

Usei mais maquiagem do que estava acostumada, o que não queria dizer muita coisa: Apenas um delineador discreto nos olhos e um blush suave. O sobretudo vermelho em mim pareceu deslumbrá-lo, fazendo-o repetir mais de cinco vezes — e me fazendo corar em todas elas — o quanto eu estava linda.

Ele repetiu minha sobremesa duas vezes, enquanto fazia sua mala. Edward não parecia se importar com que roupas levaria, colocando lá dentro as primeiras peças que alcançava em seu closet.

Foi a primeira vez que ficamos juntos naquele apartamento sem fazer nada relacionado a sexo. Eu estava nervosa, e ele pareceu notar isso, por isso respeitou meu espaço e minha ansiedade, por vezes me perguntando se estava tudo bem, e repetindo algumas vezes que “daqui a pouco estamos indo”.

Tentei não reparar em nada ao meu redor, porque isso faria com que eu tivesse alguma noção de tempo. Pensei em tomar algum calmante para relaxar, mas lembrei que não tinha nenhum na bolsa, e estava fora de questão pedir um comprimido a ele.

De fato, eu havia me desligado, utilizando o já conhecido piloto automático. Entrei em algum estado de coma, e no que parecia o minuto seguinte, já estávamos em um campo aberto e pouco iluminado, um avião de pequeno porte parado à nossa frente e nossas malas sendo levadas por dois homens que eu nunca havia visto na vida.

- Boa noite, senhor Cullen. Boa noite, senhorita.

Levantei a cabeça e sorri um sorriso nervoso para o homem.

- Boa noite, Arthur. Estamos prontos?

- Quando o senhor quiser.

A noite estava fria. O vento era gelado, sendo mais intenso naquela área de campo aberto e vasto. Cruzei os braços no peito, apertando mais o nó que fechava meu sobretudo, e abaixei a cabeça. Senti um braço passando pelas minhas costas e uma mão firme em minha cintura. Como eu bem sabia a quem ela pertencia, deixei que me guiasse.

Subi as escadas que ligava o asfalto à porta do avião, sentindo meu nervosismo aumentar a cada degrau pisado. Finalmente meus ouvidos deixaram de ouvir o ruído alto que o vento forte fazia, me indicando que agora eu já me encontrava dentro do nosso meio de transporte. Levantei a cabeça e notei que estava em um ambiente pequeno mas bastante luxuoso e iluminado, onde tudo, do chão até os móveis, parecia derivar de tons de marfim, bege e caramelo.

Virei-me para trás, tentando me certificar de que não estava sozinha. Encontrei Edward perto da entrada conversando com o homem que, ao que tudo indicava, seria o nosso piloto, e o que parecia ser um tipo de co-piloto. Eles tagarelavam coisas nas quais eu não prestei atenção. Voltei os olhos para o ambiente claro, com oito poltronas distribuídas em quatro pares (que pareciam ser mais confortáveis do que todas as camas que eu já tive na vida), um pequeno bar aos fundos rodeado de espelhos e uma porta aberta que, até onde eu podia ver, dava para um corredor que nos ligava com o resto do avião.

Fiquei encarando aquilo com uma expressão que eu sabia ser de incredulidade. Nesse momento, senti duas mãos cheias de dedos se fecharem em minha cintura e um corpo grande e quente encostrar no meu por trás, enquanto uma voz rouca e linda falava ao pé do meu ouvido.

- Você nunca andou de avião, né?

Fiz que não com a cabeça, ainda um pouco impressionada com tudo aquilo.

- É possível que o vôo seja um pouquinho conturbado por causa do vento forte. Mas turbulência é algo normal, não precisa ficar com medo. Arthur é um piloto extremamente competente.

Eu me preocuparia em ter medo depois. No momento, ainda estava deslumbrada com tudo aquilo.

- Vem, nós vamos levantar vôo.

Edward me puxou para uma das cadeiras enormes e fofas cor de marfim, então me sentei ao lado da minúscula janela, enquanto ele sentava imediatamente ao meu lado. Observei-o colocar o cinto e repeti seu ato mecanicamente, então esperei.

- É muito bonito aqui.

- Assim que pudermos levantar, vou mostrar o resto do lugar pra você. — Ele falou, sorrindo de forma simples para mim, enquanto trazia sua mão esquerda até minha perna direita e a deixava lá. Sem pensar, fechei os olhos e cobri sua pele com a minha recostando na poltrona, apenas deixando-me sentir o contato entre nós.

O avião começou a andar. Pouco tempo depois passou a correr, e então, sem nenhum aviso, simplesmente levantou, cessando o contato das rodas com o asfalto áspero. Senti uma pequena pressão na cabeça me puxar para trás, mas não me incomodei. Olhei pela janela, observando as luzes da noite se distanciarem cada vez mais. Edward não deixou de me tocar nem por um segundo, por vezes fazendo carinho como um tipo de conforto na minha coxa.

- Pronto. — Ele começou depois de algum tempo, me fazendo despertar do meu momento autista — Vem comigo.

Soltei o cinto de segurança que ainda me prendia à poltrona e segurei a mão que ele oferecia para mim, deixando que me guiasse e me mostrasse o que quisesse. Fui apresentada no próximo aposento a uma sala com poltronas, cadeiras e sofás dispostos em volta de uma grande televisão. Era uma pequena sala de estar elegante. Passamos por um banheiro estreito que dividia a última sala com a próxima, um tipo de cozinha com bancadas finas e armários compridos, com compartimento para bebidas geladas e uma prateleira de biscoitos e enlatados. Finalmente no último cômodo, o corredor se dividia em quatro portas, duas de cada lado.

- Os quartos. Infelizmente, todos são de solteiro.

Havia uma cama fina encostada na parede. O quarto era pequeno e apertado, mas extremamente confortável, limpo e de bom gosto. Ao levar em consideração que estávamos dentro de um avião, aquilo era o equivalente a uma suíte presidencial de qualquer hotel cinco estrelas.

- Você vai dormir no quarto da frente?

- Vou.

Senti uma pontada de decepção, mas Edward não notou, dizendo que iria falar com o piloto e que já voltava. Fiquei ali, me acostumando àquele lugar e aceitando o fato de que nós dormiríamos separados aquela noite. Era uma noite em que eu realmente precisava dele comigo, porque minha ansiedade crescia a cada minuto. Não que ele pudesse fazer muita coisa, mas só sua presença já ajudava a acalmar meus nervos.

Algumas horas depois Edward me entregou um pijama fofo de moletom, e me perguntei quando ele havia pegado aquilo das minhas coisas sem eu me dar conta. Finalmente me desejou boa noite, perguntando se eu ficaria bem. Respondi que sim, sabendo que ele achava que meu nervosismo estava relacionado com a turbulência, e não com a expectativa de conhecer sua família. Deixei que ele acreditasse nisso, desejando-lhe boa noite e finalmente indo me deitar.

Uma hora se passou e eu não conseguia dormir. Duas horas se passaram e meus olhos ainda estavam abertos, encarando o teto enquanto minha cabeça não parava de trabalhar em inúmeras situações hipotéticas onde alguma coisa sempre dava errado quando eu me imaginava conhecendo a família de Edward. Três horas se passaram e ouvi a porta do meu quarto ser aberta.

Ele entrou sem pedir licença, com os olhos inchados, a camisa amarrotada e os cabelos completamente em pé. Lindo, obviamente. Sem dar qualquer explicação, Edward deitou em cima de mim, repousando o rosto na curvatura do meu pescoço, enquanto puxava o edredom para criar um casulo em volta de nós dois.

- Não reclame. A culpa é sua. Não consigo dormir sem sentir você perto de mim.

Sorri com vontade de sua espontaneidade. Eu amava aquela espontaneidade.

Abracei-o apaixonadamente, apertando-o um pouco mais contra mim.

Cinco minutos se passaram, e eu já havia adormecido.

Londres era frio. Mais frio que Los Angeles. Foi a primeira coisa que notei ao pisar fora do avião, observando em volta e reparando que o lugar em que estávamos se assemelhava bastante ao pátio de asfalto aberto em que o avião esperava por nós para levantar vôo.

Edward parecia satisfeito, olhando em volta com um ar de nostalgia que beirava a um "nada como estar em casa". Mas ele não era natural da Inglaterra, pelo menos até onde eu sabia. Seu rosto parecia saudável, descansado da noite turbulenta no avião, e só pude perguntar se ele realmente tinha dormido bem havia poucos minutos, quando o encontrei sentado nas poltronas de viagem, já que, ao acordar, ele não estava ao meu lado.

A paisagem era branca, gelada e nublada, mas ainda assim bonita. Havia um tipo de névoa natural que deixava tudo um pouco mais parecido com um sonho. Fiquei feliz por estar usando uma roupa que me protegesse do frio, porque havia neve ali. Minhas mãos, desprotegidas de luvas, estavam enfiadas nos bolsos do sobretudo quente, e Edward estava quase grudado em mim, ou porque queria me aquecer, ou porque estava perdendo a noção de espaço.

Mas obviamente, não reclamei.

- Que horas são? — Ele perguntou ao piloto.

- Faltam alguns minutos para as 17h.

- 17h? — Edward pareceu se espantar — Não foram menos de onze horas de vôo?

- Deve ter a ver com o fuso horário. — Falei sem pensar, me metendo na conversa dos dois.

- Ah... É óbvio. — Ele pareceu envergonhado por não considerar a diferença de oito horas entre Los Angeles e Londres. Eram coisas desse tipo que o deixavam sem graça? Edward definitivamente não fazia sentido.

Um táxi já estava à nossa espera. Depois de organizar as malas no porta-malas, nos despedimos dos dois homens que nos acompanharam na viagem e sentamos no banco traseiro do carro. Edward ditou o endereço e assim partimos para o meu pesadelo.

...

Eu esperava um castelo antigo de pedra, com mais de trinta janelas e árvores altas por toda a extensão do território. Por algum motivo besta, sempre relacionei a Inglaterra à Idade Média, construções medievais e coisas que lembravam cavaleiros e masmorras. Assim, fiquei surpresa quando chegamos à casa dos pais de Edward, que não parecia em nada com a imagem que eu tinha na cabeça. Embora não fosse tão grande quanto as construções que esperava encontrar, a casa era grande. Enorme. Certo, era uma mansão, mas não algo escandaloso, de vinte quartos e quatro andares, piscina, quadra de vôlei e pôneis passeando por aí.

A casa era larga. Tinha dois andares e um jardim lindo e enorme, sem flores por causa da estação do ano. A construção era no estilo clássico, em um tom pêssego extremamente agradável e limpo e detalhes brancos. O céu já começava a dar sinais da noite que chegava, por isso era possível ver através das janelas grandes que algumas luzes já se encontravam acesas lá dentro.

Edward pressionou levemente uma das mãos em minhas costas, com o objetivo de me fazer andar. As malas foram deixadas pelo taxista na varanda, e a corrida já estava paga.

Estremeci. Não pelo frio, mas pela ansiedade.

Subimos os degraus que davam até a grande porta branca de madeira entalhada. Eu rezava silenciosamente para não ter uma recepção cheia de olhos em mim, mas a aparência imponente daquela porta me fazia pensar que a campainha seria, no mínimo, algo semelhante a um sino de igreja. E então teríamos uma recepção digna de um príncipe: O príncipe Edward e sua acompanhantezinha intrometida.

O vi mexer no bolso do sobretudo e tirar de lá alguma coisa.

- Vamos ver se eles trocaram a fechadura.

Ele tem a chave! Graças a Deus!

Entramos no salão de recepção largo e quente, Edward confortável e eu nas pontas dos pés. Ele pareceu notar meu desconforto, então bateu a porta com delicadeza, sem fazer barulho, e finalmente caminhou para a direita. Segui-o sem dizer nada, temendo que, junto com a primeira palavra, meu coração fosse cuspido também.

Edward caminhava na direção de uma porta mais ao fundo, mas antes que pudesse alcançá-la, uma voz alegre e bela soou de lá de dentro.

- Alguém chegou!

Antes mesmo que nós pudéssemos alcançá-la, ela saiu da cozinha com uma expressão esperançosa. Ao olhá-lo, seu rosto se iluminou de uma forma que fez com que eu mesma me sentisse feliz. Calmamente, ela ficou nas pontas dos pés para envolver seus braços no pescoço dele, que retribuiu o abraço.

Eu não acreditaria que aquela mulher fosse a mãe de Edward, simplesmente porque parecia ser jovem demais. Mas ao olhar para suas feições incrivelmente belas, não havia como restar dúvidas: Eram quase que exatamente as mesmas feições perfeitas do homem que eu amava. Os olhos, tanto no formato quanto na cor, eram absolutamente os mesmos.

- Querido! Que saudade!

- Oi, mãe. Como tem andado?

- Como sempre. — Ela sorriu, mas sua expressão de repente se tornou um pouco mais séria, embora discreta. Suas mãos ainda estavam em volta do pescoço dele. — Como você está?

- Estou bem.

- Mesmo? — Ela perguntou, sua expressão agora mostrando uma inconfundível preocupação materna.

- Mesmo. — Ele respondeu de forma simples, e então apontou com a cabeça para onde eu estava.

A mulher pareceu se dar conta do resto da casa pela primeira vez desde que o havia visto ali. Seus olhos fitaram diretamente os meus, e então senti os músculos do meu rosto relaxarem, voltando para uma expressão séria e ansiosa. Só aí percebi que estivera sorrindo o tempo todo.

Ela me olhou por algum tempo, provavelmente menos do que pareceu na minha cabeça, sem fazer ou dizer nada. Quando finalmente se deu conta de que havia uma estranha dentro de sua casa, seu rosto se alargou vagarosamente em um sorriso lindo. Tão genuíno que tive vontade de retribuí-lo.

As reações dela me faziam bem.

- Mãe, essa é Isabella. Bella, minha mãe, Esme.

Ela se soltou do abraço do filho, vindo ao meu encontro. Então era dali que Edward tinha tirado tanta beleza.

- Seja bem-vinda, Isabella.

- Bella. — Me apressei em corrigi-la.

Esme me deu um beijo no rosto, um beijo carinhoso, e um abraço apertado. Retribuí o ato mais por reflexo, porque ela tinha me pegado de surpresa.

- Bella. Tanto seu nome quanto seu apelido são lindos.

- Obrigada. — Sorri, olhando rapidamente para Edward, e pela expressão de contentamento em seu rosto, eu sabia que estava vermelho-camarão outra vez.

- Filho, por que não avisou que viria acompanhado?

Olhei para ele com um olhar assassino. Edward não havia informado aos seus pais que me levaria junto? Ele tinha merda na cabeça?

- Me desculpe, eu não sabia que ele não... — Comecei, um pouco desesperada, mas Esme tentou me tranquilizar com seu jeito naturalmente gentil.

- Não se preocupe, querida. Acredite, eu estou muito feliz que você esteja aqui. Só disse isso porque poderia ter preparado uma ceia melhor.

- É mentira. Não tem como melhorar. — Edward interrompeu de forma divertida, usando aquele sorriso torto que resultava com frequência na minha morte, mas eu ainda queria socá-lo.

- Eu concordo. — Disse uma voz ao nosso lado, e então vi um homem loiro tão alto quanto Edward ir ao encontro dele, apertando-o em um típico “abraço de macho”, com socos e tapas nas costas. A beleza dele também não passava desapercebida: Ele tinha olhos azuis, costas largas e uma postura muito rígida. Dele, o filho havia puxado o corpo, e ver o “patriarca Cullen” de costas era como estar olhando para Edward de peruca.

Me perguntei por que todas as pessoas que o rodeavam tinham que ser parecidos com deuses ou anjos. Isso só fazia com que eu me sentisse cada vez menos interessante.

- Como tem passado, filho?

- Firme e forte, chefe.

- É o que parece.

Esme pigarreou ao meu lado, e então lembrei que ela estava ali. Não só isso, mas agora se mantinha em uma postura muito reta, com o braço esquerdo entrelaçado ao meu direito.

Quando ela havia feito aquilo?

- Ora, temos visitas!

O senhor Cullen olhou para mim pela primeira vez, certamente se perguntando quem seria a menina magricela ao lado de sua bela esposa. Seus olhos eram muito intensos, mas foi quando ele sorriu, um sorriso esplêndido, que eu perdi o fio do pensamento.

Era o mesmo sorriso torto de Edward. O meu sorriso torto.

- E quem estou tendo o prazer de conhecer? — Ele falou de forma muito gentil, segurando delicadamente minha mão entre as suas.

- Isabella. — Edward falou às suas costas.

- Bella. — Corrigi.

- Encantado, Bella. — Ouvi Edward bufar — Eu me chamo Carlisle. Sou pai desse rabugento aqui atrás. Espero que você goste do nosso Natal.

- Já estou gostando. — Falei abertamente.

- Acho que vocês querem um banho e algum descanso da viagem. — Esme falou, desfazendo o nó em nossos braços enquanto caminhava para a porta da entrada.

- Não estamos cansados. Viemos no meu avião, dormimos de noite.

- Por quê? Você não costuma fazer isso... — Carlisle começou, mas Edward foi rápido na mentira.

- Os aeroportos nos Estados Unidos estão fechando toda hora por causa do mau tempo. Achei melhor não arriscar.

Olhei para trás, procurando Esme, que dava instruções a um empregado para levar nossas malas até algum lugar no segundo andar.

- Mas gostei da idéia do banho. Quais quartos ainda estão vagos? — Ouvi-o conversar com o pai.

- Todos. Você foi o primeiro a chegar.

- Vamos. — Esme chamou nossa atenção ao pé da escada. Segui Edward quando ele foi se juntar à mãe, e nós três subimos os degraus juntos enquanto Carlisle ficava pela cozinha.

- A cama já está feita. — Ela falou, enquanto empurrava a porta de um dos quartos e a mantinha aberta para que nós entrássemos.

O quarto era grande e escuro, todo ele em um tom de madeira. As paredes eram cor vinho, as luminárias emitiam uma luz amarelada, dando um ar mais quente ao local, os armários na cor mogno. A cama era gigantesca, maior ainda do que a que Edward tinha em seu apartamento, e os cobertores pareciam incrivelmente macios. A janela era grande, mas estava coberta por persianas. O chão também era escuro, e de repente me senti incrivelmente aquecida — com calor até.

- Gostou? — Edward me perguntou, me tirando dos meus devaneios.

- Eu vou ficar aqui?

- Sim. Comigo. Essa é a idéia.

Olhei para ele, pedindo silenciosamente que me entendesse. Ele não entendeu. Me voltei para Esme, que ainda sorria atrás de nós.

- Sra. Cullen...

- Por favor, me chame de Esme. Me sinto menos velha assim. — Ela riu.

- Esme, eu posso ficar em outro quarto.

- Quê? — Ouvi Edward exclamar atrás de mim.

- Não quero desrespeitá-la, já foi horrível vir até a sua casa sem ser anunciada...

Eu não sabia até onde os costumes morais da família de Edward iam, mas eu sabia que não queria passar dos limites em nada. Era claro que Esme não acreditava que seu filho fosse virgem, mas uma coisa era saber que ele fazia o que quisesse na casa dele. Outra coisa era forçar a barra debaixo de seu próprio teto.

- Do que você está falando? — Edward se intrometeu, indignado — Você vai dormir comigo!

Fuzilei-o com os olhos.

- Querida, não se preocupe. Não há problema algum nisso.

- Eu realmente não quero parecer... — Comecei.

- Por que não quer dormir comigo?

- Edward, não é isso! — Falei, um pouco irritada.

- Crianças, acalmem-se.

Olhei-a novamente, ignorando Edward e sua incrível incapacidade de me entender.

- Bella, dou-lhe minha palavra de que está tudo bem. É melhor que você durma aqui, mesmo porque o outro quarto vago teria que ter as roupas de cama trocadas. Além disso, acho que Edward teria uma síncope.

Ambas olhamos para ele, que parecia um pouco magoado.

- Ok... — Falei, um pouco a contragosto.

- Bom, vou descer para ver como estão os pratos para a ceia. Bella, sinta-se em casa.

Esme sorriu cordialmente, fechando a porta atrás de si e deixando Edward e eu sozinhos no quarto enorme.

Me sentei na cama, tirando o sobretudo e dando um profundo suspiro.

- O que foi aquilo? — Ele começou.

- Você realmente não consegue entender?

- Você acha que minha mãe é uma freira?

- Eu só não queria parecer...

- Não queria parecer minha namorada?

Fiquei calada por alguns segundos. Era isso que eu era? Nunca havia pensado em títulos quanto à nossa relação, mas aquela não era a questão no momento.

- Não queria desrespeitar seus pais.

- E como exatamente você faria isso? Tirando minha virtude?

- Não seja irônico.

- Eu sou irônico quando estou puto.

- E por que exatamente você está puto?

- Porque você queria dormir longe de mim!

- Eu só queria que seus pais não me achassem uma vadia!

Edward congelou ao ouvir minhas palavras. Eu imaginei que ele fosse responder alguma coisa, mas tudo que fez por um bom tempo foi ficar ali, me encarando com uma expressão indecifrável.

Só depois de muito tempo ele voltou a falar outra vez.

- Sua idéia de moralidade é muito deturpada.

Talvez ele estivesse certo. Mas se fosse esse o caso, nós dois sabíamos o motivo.

- Não importa o que eu acho. Importa o que a sua família...

- Minha mãe ficou grávida de Emmet com quinze anos. Ela e meu pai tiveram que antecipar o casamento por causa disso. Você acha que ela é uma vadia?

- Meus Deus, é claro que não!

- E você ainda acha que alguém aqui te acharia uma vadia?

- Eu... Não.

- Ótimo.

Me calei, olhando tristemente para as próprias mãos. Pensei em pedir desculpas, mas me dei conta de que não havia feito nada de errado além de ser boba.

Talvez eu estivesse mesmo exagerando.

- Estou chegando! Parem com a promiscuidade!

Antes que eu pudesse entender de onde vinha a voz desconhecida, a porta do quarto se escancarou e mostrou um homem que eu não conhecia. Ele era alto como Edward, mas muito mais musculoso. E moreno.

E, é claro, bonito.

- Ora se não é a bicha do meu irmão! — Ele gritou, com um sorriso de orelha a orelha, abrindo os braços para Edward e esmagando-o em um abraço efusivo.

- Ora se não é o gênio da família!

- Vá à merda, pequeno andrógino. — Ele respondeu, dando um soco no braço de Edward e gargalhando.

Finalmente, o brutamontes olhou para mim, e então eu temi pela minha vida.

- Não acreditei quando mamãe disse que você estava acompanhado. Quem nesse mundo te aguentaria?

- Bella, esse é Emmet. Meu irmão mais velho. Emmet...

- Bella, sua azarada! — Ele concluiu.

- O nome dela é Isabella.

Emmet pareceu ignorá-lo, andando até mim com um olhar assassino, e então desejei por tudo no mundo que ele não me abraçasse da mesma forma que havia abraçado Edward. Felizmente, ele parecia ter noção, então apenas me cumprimentou com dois beijos no rosto.

- Então. Qual foi o crime que você cometeu pra ter que aturá-lo?

- Na verdade, nenhum. — Respondi, rindo de seu bom humor — O escolhi por livre e espontânea vontade.

- Edward, pare de drogá-la.

- Emmet, deixe seu irmão em paz!

Ouvi a voz de Esme ecoar no andar de baixo.

- Por que mamãe acha que você me odeia? — Emmet perguntou, olhando para o irmão.

- Porque eu disse a ela.

Ambos riram da piada, e então senti uma enorme cumplicidade entre eles.

- Vou tomar um banho e descer pra ajudar os Cullen. Bella, prazer em conhecer você.

- Igualmente. — Respondi com sinceridade.

Novamente, estávamos sozinhos no quarto.

- Acho que devíamos descer e ajudar seus pais também. — Falei, tentando empregar um tom casual na voz e fazer com que nossa pequena discussão fosse esquecida. — Você vai tomar banho agora?

- Pode ir na frente.

Concordei, me levantando e indo até minha mala, escolher uma roupa apropriada para passar a véspera de Natal.

- Eu tenho uma coisa pra te dar. Gostaria que você vestisse hoje a noite.

Ele já estava abrindo sua própria mala e tirando de lá uma sacola. Me senti discretamente animada ao ganhar um presente de Natal dele, sem nem ao menos me importar com o que exatamente ele havia me dado. Peguei o embrulho de suas mãos e abri-o com cuidado. Ao desdobrar o tecido, pendia de minhas mãos um vestido vermelho sangue de mangas compridas e gola em V um pouco aberta. O vestido era justo, mas estava longe de ser vulgar. Também não era chique em excesso, mas sim elegante, e fique feliz por Edward não me pedir para usar algo que fizesse com que eu me sentisse desconfortável na frente de sua família.

Mais tarde eu retribuiria o presente.

- É lindo. — Concluí, olhando para ele.

Ele sorriu, um pouco triste. Imaginei que ainda estivesse chateado pela recente discussão, e desejei que isso passasse logo. Eu não gostava de vê-lo daquela forma.

Tentando agir naturalmente, me aproximei dele com a peça nas mãos e, ficando nas pontas dos pés, depositei delicadamente um selinho no canto de seus lábios.

- Obrigada.

Ele fechou os olhos, parecendo querer saborear o momento que já havia passado.

- De nada.

Vi sua boca se curvar em um sorriso discreto, então tive a certeza de que estávamos bem outra vez.

...

Saí do banheiro já vestida, pronta para ver a reação de Edward, mas ele já não estava lá. As roupas em sua mala pareciam um pouco remexidas, então imaginei que ele tivesse ido tomar banho em um dos vários de banheiros espalhados por aquela casa.

Penteei meus cabelos e mexi um pouco nos fios aletoriamente com os dedos, tentando deixá-los mais rebeldes, cheios e ondulados. Peguei minha antiga caixa de maquiagem e escolhi algumas cores claras e apropriadas para a ocasião.

Terminei a produção esguichando um pouco de spray fixador no cabelo, um tipo de laquê. No rosto, optei por uma linha fina preta com um delineador escuro, uma sombra levemente prateada muito discreta, blush rosado que parecia combinar com meu tom de pele e gloss incolor, não exgerando na cor dos meus lábios que já eram naturalmente corados.

Olhei para meu pescoço e notei algumas marcas claras que permaneciam ali, embora antigas. Passei camadas finas do creme para hematomas e, logo em seguida, um pouco de maquiagem para apagá-los.

Calcei um par de sapatos altos fechados e me olhei no espelho. Constatei que estava bonita. Realmente bonita, e até um pouco sedutora. Pela primeira vez, não me senti deslocada em estar no meio da família de Edward e toda aquela beleza irritante. Pela primeira vez, me senti a altura dele.

Joguei tudo de volta na mala e me virei, pronta para ir à procura do desaparecido, mas levei um susto ao vê-lo ali, parado ao lado da porta aberta como um fantasma, vestindo uma calça jeans escura, camisa social em um tom que derivava de amarelo mostarda e que, coincidentemente ou não, combinava lindamente com seus olhos, as mangas dobradas de qualquer jeito até seus cotovelos, além de um sapato preto comum. Os cabelos estavam rebeldes, perfeitos.

- Pelo amor de Deus, faça algum barulho quando chegar.

Ele continuou olhando para mim, sua expressão lembrando um lêmure, e então, passado um susto, tive vontade de rir.

- O vestido ficou perfeito. Obrigada. — Falei, tentando tirá-lo de seu estado catatônico.

- Estou vendo.

Eu estava bela, e me sentia muito bem com isso. Mas ver aquela expressão em Edward era algo que não tinha preço.

- Como acertou nas medidas? Pediu ajuda à Victoria?

Eu sabia que mulheres eram melhores nesse tipo de detalhes do que homens, então imaginei que ele pudesse ter recorrido à amiga nessa tarefa.

- Não. Eu conheço o seu corpo.

Ah, sim, ele conhecia muito bem. Eu lembrava das noites de “estudo”, e me arrepiava toda vez que elas surgiam na minha cabeça. Mas eu não sabia que ele conhecia tão bem assim.

- Seu puto, quer vir logo e ajud... Nossa, Bella!

Aquilo de aparecer como mágica era coisa de família. Assim como Edward, Emmet também tinha essa mania.

- Emmet, você está manjando a minha namorada?

- Claro que não. Só estou deixando claro que ela está muito bonita.

- Obrigada, Emmet. — Agradeci, lisonjeada.

- Sabe, você é grande, mas eu tenho um taco de baseball. — Edward falava de forma calma e psicopata, mas notei que ele estava brincando.

- Ok, senhor Síndrome de Otelo. Deixa de ser um filho inútil e vem ajudar seus pais com a ceia.

Emmet saiu do quarto, descendo as escadas e nos deixando nas mesmas posições.

Edward continuou olhando para mim, com uma expressão perigosa no rosto, e então imaginei que um de nós dois teria que falar primeiro.

- Bom, vamos? Caminhei em direção à saída, mas no momento em que eu cruzaria a soleira para o corredor, Edward empurrou a porta à minha frente, nos prendendo dentro do quarto.

Olhei para ele sentindo um certo frio na barriga.

- Posso fazer uma coisa?

Depende do que você quer fazer.

- Pode.

Ele me agarrou de forma possessiva, quase desesperada, encostando minhas costas na porta agora fechada e me beijando furiosamente. Senti sua língua forçar a entrada de meus lábios, então tudo o que pude fazer foi abri-los para dar passagem a ele. Suas mãos me puxavam mais para perto, meus dedos já despenteavam ainda mais os fios rebeldes de seus cabelos. Ele me agarrou por trás, sem pudor algum, me levantando do chão e forçando minhas costas ainda mais contra a porta. Enlacei minhas pernas em sua cintura, já sentindo a barra do vestido ir parar na altura do meu umbigo. Senti uma saliência rígida contra minha calcinha, e eu sabia que aquilo vinha de dentro das calças de Edward.

Beijei-o com desespero, me agarrando ao seu pescoço e deixando um calor alucinante tomar conta do meu corpo, que tremia descontroladamente.

- EDWARD, SEU INÚTIL!

- Juro por Deus que vou matar Emmet... — Ele começou, separando nossas línguas e ofegando contra meus lábios.

Sorri contra sua boca, já sentindo minha roupa íntima encharcada e a vontade de ser possuída ali mesmo, naquele momento. Mas o irmão brutamontes estava certo: O mínimo que podíamos fazer era ajudar com os preparativos para o Natal.

Suspirei contra seu rosto, desfazendo o laço que prendia minhas pernas aos seus quadris e pisando novamente no chão.

- Vamos descer. Só lave o rosto antes. Tem gloss espalhado pelo seu rosto todo.

Edward suspirou frustrado, então caminhou para o banheiro.

Alguns minutos depois, tempo suficiente para que ele estivesse mais “calmo”, entramos na cozinha gigantesca, com um balcão em “U” enorme e vários armários pelas paredes. Encontramos Esme e Carlisle curvados sobre algum prato no forno. Emmet mexia no celular, sentado à mesa.

- Por que ficou berrando pra que eu descesse e ajudasse se você mesmo não está fazendo porra nenhuma? — Edward começou, dando um tapa na cabeça do irmão.

- Você sabe que eu sou uma merda nessas coisas. Você que é a moça que cozinha.

- Vocês poderiam falar menos palavrões, por favor? — Esme pediu, revirando os olhos.

- Mãe, a culpa é sua por ter parido essa bicha. — Emmet concluiu.

- Ele não é bicha! — Falei, entrando na brincadeira.

- Há! — Edward exclamou, triunfante.

- Os dois são mocinhas, e vou quebrar vocês na porrada se não respeitarem as damas presentes aqui!

Viramos todos juntos para a porta da cozinha, e então tive a visão de uma fadinha minúscula e linda, os cabelos escuros picotados em um corte extremamente estiloso, os olhos do mesmo dourado brilhante dos de Edward e um sorriso de orelha a orelha.

- Filha! — Esme exclamou em um gritinho agudo. A borboletinha saltitou até ela e Carlisle, toda feliz, e os abraçou com vontade.

- Desculpem a demora! Perdemos o vôo. Weeeeeeee! — Voltou-se para Edward, abraçando-o na altura da barriga com seus braços minúsculos e espremendo-o com uma força que não condizia com seu tamanho. Ele retribuiu o abraço, dando um beijo demorado e carinhoso no topo de sua cabeça.

- Minha anã preferida! — Emmet abriu os braços e a fadinha foi dançando de forma serelepe ao seu encontro. Eles se abraçaram e então ela olhou para mim, me dirigindo a palavra.

- Você é nova! Meu nome é Alice, sou irmã dos dois ogros aqui!

- Alice, essa é Isabella. — Edward falou.

- Encantada, Bella. — Ela me apertou em um abraço, e constatei que ela conseguia ser ainda menor do que eu — Posso te chamar assim, né?

- Claro. — Sorri.

- É sua namorada, Edward? Ela é muito bonita pra você. — Falou em um tom de brincadeira, e eu pude ver que embora ela quisesse provocar o irmão, parecia verdadeiramente feliz ao encará-lo.

- Eu também acho. — O irmão musculoso comentou.

- Emmet, eu vou te enfiar a porrada!

- JASPER, CADÊ VOCÊ?

Alice gritou de repente, me dando um susto, e eu ri.

- Tentando trazer pra dentro as suas quatro malas, amor. — Um loiro com olhos acinzentados e ar de mistério se juntou a nós na cozinha, olhando para Alice como se quisesse fuzilá-la.

- Como eu estava dizendo, Edward — Emmet aumentou sua voz para que ela ficasse clara — Eu acho que todo francês é meio boiola.

- Emmet, qual é a dessa sua tara por homossexuais? — Alice alfinetou.

- Caro cunhado, não responderei à altura porque sua massa muscular é muito maior que a minha.

Depois de falar com todos os Cullen, Jasper veio até mim.

- Amor, essa é a Bella. Ela é namorada do Edward. — A fadinha se apressou em dizer.

- Muito prazer, Bella. Meu nome é Jasper, e apesar das calúnias que você ouviu sobre minha sexualidade, sou marido de Alice.

Apertei sua mão de forma cordial, tentando buscar algum sotaque em sua fala, mas não encontrando nada.

- Mãe, vamos tomar um banho e nos arrumar. Descemos logo pra ajudar vocês.

O casal saiu das nossas vistas — Jasper duro feito uma pedra sendo carregado pela mão por Alice, que saltitava feito uma gazela — e me apressei em me aproximar de Esme e Carlisle.

- Posso ajudar em alguma coisa?

- Não precisa, meu bem. Está tudo praticamente pronto.

- Tem certeza? Nenhum detalhe...

- Mãe, Bella sabe fazer uma sobremesa espetacular. — Edward me interrompeu, e eu corei.

- Realmente, não precisa ter trabalho à toa, querida.

- Não é trabalho! — Falei de uma vez — Eu gosto de cozinhar.

- Porra, vocês se merecem. — Emmet disse, levantando da cadeira e indo para a sala.

Esme pegou os ingredientes que eu precisava e então repeti a receita preparada no dia anterior, no apartamento de Edward.

Carlisle pediu licença para se retirar, indo se juntar a Emmet na grande sala de estar. Esme parecia muito interessada no modo de preparo da minha sobremesa, então expliquei tudo nos mínimos detalhes para que ela decorasse. Quando o forno apitou com um dos pratos da ceia dentro, ela se afastou de mim.

Eu estava esfarelando os suspiros quando senti a respiração leve no meu pescoço.

- Vou conversar com meu pai sobre alguns assuntos relacionados à empresa. Vai ficar bem aqui?

- Vou. — Suspirei, já sentindo a pele de meu pescoço arrepiada pela aproximação. Ele também sentiu, e no momento seguinte beijou suavemente o lugar arrepiado, se afastando em seguida e me deixando sozinha na cozinha com Esme.

Não demorou muito até que Alice chegasse outra vez, agora vestindo um vestido azul curto e com babados combinando com sandálias muito delicadas. Ela toda lembrava uma borboleta.

- Alice, você tem algo pra dizer? — Esme perguntou de forma simples, enquanto regava o pernil com molho de abacaxi.

- Mãe, essa sua percepção exagerada estraga com todas as minhas surpresas.

- Bom, não precisa falar agora. Só queria saber se realmente tinha alguma coisa.

- Você sabe que tem.

Observei as duas conversarem, e me perguntei se Esme e Alice tinham algum tipo de comunicação por telepatia.

Minha sobremesa foi levada à geladeira, e então fui ajudar Alice com os talheres, copos e pratos. Ela foi organizando a grande mesa da sala de jantar de um lado enquanto eu a imitava do outro. Depois que todos os magníficos pratos enfeitavam toda a extensão da mesa, Esme foi informar ao resto dos Cullen que a ceia de Natal estava pronta, e segundos depois todos já estavam se sentando em seus lugares.

Me sentei na frente de Edward, nos assentos posicionados no meio da mesa. O jantar foi tranquilo e divertido, sendo recheado por vários contos de Emmet sobre assuntos aleatórios. A cada palavrão, Esme o repreendia. Alice o chamava de troglodita e Edward só ria. Todos pareceram gostar da minha sobremesa, e no final tive que recitar a receita também para Alice. A família conversava entre si, então fiquei sabendo um pouco sobre cada um dos membros Cullen.

Carlisle era o poderoso chefão. As empresas espalhadas pelo mundo eram dele, e talvez fosse isso que ajudava a dar aquele ar de poder a ele. Construiu sua família com Esme nos Estados Unidos, e quando todos já estavam criados e bem de vida, decidiu se mudar para a Inglaterra. Emmet se mudou para a Alemanha, ficando responsável pela principal filial da empresa de seu pai por lá. Alice havia conhecido Jasper ainda nos Estados Unidos quando tinha dezoito anos, e dois anos depois, ao se casar com ele, se mudou para o país de origem do marido, desempenhando na França o mesmo papel que Emmet. Edward, como eu já sabia, havia ficado por Los Angeles. Esme era a dona de casa que tinha que lidar com a pressão de ser a sra. Cullen, mesmo sem entender absolutamente nada de publicidade.

Eles eram uma família normal, feliz e bela. De repente, mesmo me sentindo um pouco deslocada por estar ali, desbalanceando o equilíbrio perfeito que todos tinham entre si, parecia que fazer parte daquela família era fácil.

Eu gostava de todos eles. Sem exceção.

Quando todos estavam satisfeitos, a sala de jantar ficou vazia, enquanto a sala de estar enchia de Cullens. Me candidatei para tirar a mesa e lavar a louça, mas Edward praticamente me carregou nos ombros e me fez sentar no sofá ao seu lado no outro aposento. Carlisle enchia pequenos copos com um licor de menta, mas Alice e eu fomos veementes em negar a oferta.

- Temos vinho. Quer? — Edward perguntou propositalmente, rindo da minha cara e me fazendo corar com a lembrança da última vez que aceitei a bebida.

- Não. — Olhei-o, querendo beliscá-lo — Estou bem, obrigada.

- Então... — Falou alto Emmet, querendo chamar a atenção de todos — Descobri coisas muito fodas relacionadas aos campos fora do espectro eletromagnético...

- Não é possível. — Interrompeu Alice — Fala a verdade, você fica fazendo pesquisas nas páginas aleatórias da Wikipedia, né?

Emmet olhou-a como se ela fosse um filhote de gambá subnutrido.

- Pequena ignorante, eu estou estudando isso.

- Você estuda eletromagnetismo em alemão? — Não me contive, e quando me dei conta já os tinha interrompido.

- Legal, né? — Emmet concluiu, com um sorriso gigante nos lábios.

- Não é legal. — Alice falou, se divertindo em contrariá-lo — Ninguém entende o que você diz.

Emmet a xingou, e Esme reprimiu-o outra vez. Edward chegou perto do meu ouvido enquanto seus dois irmãos se agrediam verbalmente.

- Emmet tem o QI consideravelmente acima da média. Se quiser vê-lo puto, chame-o de gênio. É engraçado, nós fazemos isso quando queremos tirá-lo do sério.

- Querida irmã pigméia, eu te desafio a falar algo mais interessante.

- Ah, desafia, é?

Alice de repente ganhou uma inconfundível expressão de vitória, levantando-se da poltrona e arrumando o vestido, como se estivesse prestes a fazer um pronunciamento.

E estava mesmo.

- Tenho um comunicado a fazer. — Ela pausou, um sorriso sincero tomando seu rosto aos poucos — Eu estou grávida.

...

Depois de alguns minutos de muita bagunça, os ânimos se acalmaram na sala de estar. Carlisle estava radiante, seu sorriso maravilhoso iluminando a casa toda. Esme estava com o rosto inchado pelas lágrimas de emoção, e Emmet estava feliz feito uma criança. Edward ainda parecia um pouco chocado, mas não conseguia para de rir.

- Até que enfim um pirralho nessa família! — Emmet disse, rindo do próprio senso de humor.

- Não chame meu filho de pirralho, seu idiota! — Alice falou, o socando com força no braço, mas sem conseguir machucá-lo.

- Viu só, Edward! Nossa irmãzinha mandando ver! É muito mais rápida que você! — E olhando para mim, concluiu — Bella, tem certeza que ele não é bicha?

- Você é o mais velho, seu cretino. — Edward se defendeu.

- Eu não tenho uma namorada, seu lerdo.

- Calem a boca! — Gritou Alice — Não estraguem meu momento!

- Parabéns, querida! Você vai ser uma mãe excelente. — Esme falou, ainda emocionada. — E você um ótimo pai, Jasper!

- Acho que isso merece uma comemoração. — Carlisle falou, sobrepondo sua voz às dos outros. — Whisky!

Em menos de um minuto, estava sobre a pequena mesa uma garrafa bonita com um líquido um pouco escuro dentro, além de alguns copos largos e baixos. Notei que Esme havia deixado a sala para, logo em seguida, voltar com uma caixa de suco de laranja em uma das mão e, na outra, uma garrafa de vinho tinto. No final, brindamos com quatro copos cheios de whisky, um de vinho para Esme e dois de suco, um para Alice que não podia beber e outro para mim, que não podia me deixar embebedar.

- Ei... — Ele chegou perto de mim, tentando falar baixo para que só eu ouvisse — Se importa se eu beber essa noite?

Emmet ouviu a pergunta do irmão e imitou o barulho de um chicote com a boca. Ignorei-o.

- Claro que não! Você tem que comemorar! — Falei, um pouco mais animada do que pensei que ficaria com aquela notícia.

E ele bebeu. Não só ele, como Carlisle, Emmet e Jasper. Esme lembrou a todos da troca de presentes, já que, afinal de contas, era Natal. Ainda assim, ninguém estava interessado nessa parte da noite. Toda a atenção estava voltada para Alice, Jasper e a novidade deles. Por isso, me senti mais confortável quando a família se presenteou rapidamente e logo o assunto voltou a ser o novo herdeiro Cullen.

- Está com quantos meses, Alice? — Edward perguntou, e eu já começava a perceber as palavras mais arrastadas saindo de sua boca.

- Dois. Daqui a pouco posso até saber o sexo do bebê.

- Tem que ser homem! — Emmet falou, animado — De mulher nessa família já basta a mamãe, você e o Edward.

Uma almofada voou a distância entre um sofá e outro, atingindo Emmet em cheio no rosto.

- Já tem idéia de nomes? — Perguntei, ignorando as duas crianças que se agrediam com travesseiros e cobertores.

- Ashley se for mulher, Jackson se for homem. — Jasper anunciou.

- Foi planejado? Como você ficou sabendo? Como contou a Jasper?

Esme estava tagarela, talvez por causa do vinho. Todos se divertiam fazendo perguntas aleatórias a Alice, às vezes repetidas. Toda vez que olhava para Edward, ele estava com uma nova dose de whisky na mão, e aquilo começou a me preocupar. Ainda assim, não falei nada, porque não queria estragar a comemoração de ninguém.

E ele seria tio. Isso era grande.

A conversa passava de um assunto a outro, mas sempre acabava voltando à gravidez. Carlisle ficava brincando com a idéia de ser avô, Emmet ironicamente estava mais sério a medida que ia ficando mais bêbado, e Edward não parava de me tocar.

Graças a Deus, seus toques não eram inapropriados.

- Então, Bella... — Começou Alice, um pouco de saco cheio com as infindáveis perguntas que faziam a ela — O que você faz?

Senti um solavanco dentro de mim, imaginando que talvez meu coração tivesse despencado. Prendi a respiração, tentando raciocinar e dar uma resposta a tempo de fazer com que ninguém ali notasse meu pânico.

- Ela é bibliotecária.

Edward estava bêbado, isso estava claro. Ainda assim, ele conseguia ser mais rápido e inteligente do que eu, até mesmo nas mentiras que contava.

- Gosta de ler? — Jasper perguntou, enquanto se servia de mais uma dose de whisky.

- S-sim.

Eu ainda estava abalada por ter sido pega desprevenida. Me perguntei por que Edward e eu não treinamos alguns desses diálogos antes da viagem. Era óbvio que sua família iria querer saber mais de mim, até mesmo para se certificarem de que eu não ia arruinar com a vida de um dos membros.

- E como se conheceram? — Foi a vez de Esme perguntar, e então eu estava oficialmente começando a ter uma crise de pânico.

- Hahahahaha, querem mesmo saber como nos conhecemos? — Edward perguntou em uma voz muito alta, e isso fez com que eu estremecesse ainda mais. Ele estava bêbado, e eu não sabia até onde sua noção iria. — Bom, eu vou contar.

Ele se ajeitou no sofá, e Esme pareceu se interessar pela história que viria. Agarrei seu braço em pânico. Eu sabia que estava vermelha, não de vergonha, mas de desespero.

- Edward... — Falei baixo, minha boca muito próxima a ele — Você está um pouco alterado...

- Não quer que eu conte a história? — Ele falou alto, e todos ouviram — Ora, não precisa ficar com vergonha, minha linda! É tão bonita...

Ele tocou no meu rosto, e eu entendi que não adiantava: Ele ia contar sua história. O que exatamente ele diria, eu não sabia. Respirei fundo uma vez. Duas vezes. Olhei para Alice, tentando segurar o pânico que me consumia lentamente. Me surpreendi ao vê-la me encarando com uma expressão estranha. Ela havia notado que tinha algo de muito errado ali.

- Eu conheci a Bella que vocês conhecem há alguns meses. Ela estava sentada numa praça perto da minha casa, lendo. Estava chovendo muito, e eu corri pra lá pra me proteger. A vi compenetrada na leitura, e como a simples imagem dela chamou minha atenção, fui ao seu encontro. Sentei ao lado dela e ficamos conversando. Fiquei feliz por ela não ter me dispensado tão fácil. E então, eu me apaixonei por ela naquele dia.

Eu não estava respirando, prestando atenção em cada palavra que ele dizia. Quando ele se calou, notei que absolutamente nada do que havia falado era mentira. Aquele foi o dia em que ele realmente me conheceu, que realmente conversou sobre a minha vida e passou a saber que já fazia parte dela.

A Bella que ele havia conhecido antes desse dia não era a mesma Bella de agora.

E só a Bella de agora importava.

Mas então, havia sido naquele dia que ele...

- E então você pediu ela em namoro? — Esme perguntou, ainda sorrindo pela história e me tirando de meus devaneios.

- Não. Depois ficamos amigos, mas eu já não conseguia deixar de pensar nela. Então minha vida virou um inferno porque eu tentei me afastar... — E aqui, Edward parou, olhando envergonhado para o copo em suas mãos e suspirando — E descobri que não tinha como ficar sem ela.

Todo mundo ficou em silêncio. Alice continuava olhando de mim para Edward de forma um pouco esquisita. Eu, pelo menos, já conseguia respirar. Jasper não olhava para ninguém em particular, e Esme encarava Edward com uma expressão de pena.

- Bom. — A voz de Emmet cortou o silêncio — No final das contas, vocês se pegaram. O saldo foi positivo então.

Carlisle riu, fazendo com que Esme relaxasse um pouco também. Alice desviou o olhar de mim, e eu começava a ter medo dela.

- Então você é a nova interesseira da família, Bella.

Olhei espantada para Jasper. Por que ele havia dito aquilo?

- Eu não... Não estou com ele por causa disso...

- Jasper — Alice olhou-o um pouco irritada — Faça suas piadas com quem já conhece você.

- Querida, Jasper tem um senso de humor um pouco gélido. Ele só estava brincando. Às vezes é difícil notar. — Esme apressou-se em dizer, enquanto eu sentia meu rosto ferver.

Só então ele pareceu entender que sua “piada” não havia saído como o planejado.

- É, é brincadeira! Eu só disse isso porque, até então, o interesseiro era eu. Mas eu estava brincando, sei que você não é.

- Uau, ela está um tomate gigante. — Ouvi Emmet dizer.

- Desculpa, era só brincadeira! — Jasper repetiu, já parecendo um pouco desesperado.

- Tudo bem... — Falei numa voz baixa, e rezei para que eles parassem de olhar para mim.

Edward levantou-se, cambaleando um pouco quando o fez.

- Vamos dormir. — Ele falou, me estendendo a mão, que agarrei sem pensar. Eu queria sair dali, queria sair da vista de todo mundo. — Mãe, por acaso sobrou alguma coisa daquele doce que a Bella fez?

Lembrei de idéia que ele tivera com relação àquela sobremesa quando estávamos em seu apartamento em Los Angeles, e me perguntei se seria possível ficar mais vermelha do que estava agora. Talvez eu tivesse me camuflado com a cor do meu próprio vestido.

- Não, filho. Comi o último pedaço, se eu soubesse que você queria...

- Não se preocupe, mãe. — Alice falou, com um sorriso sarcástico no rosto, se levantando também e olhando para Edward, como se mantivessem uma conversa por telepatia — Ele só queria lambuzar a Bella com aquela calda. Seu pervertido.

- Alice, não seja esquisita. — Emmet falou.

Mas Alice não estava sendo esquisita. Como diabos ela sabia daquilo?

Edward gargalhou e pronunciou um “boa noite” em voz alta, me puxando atrás de si. Me despedi olhando cada uma das pessoas que permaneceram na sala, e então já estávamos ao pé da escada.

Pensei que ele teria problemas com aquele obstáculo, mas me enganei. Embora Edward estivesse claramente alcoolizado, não chegava a estar assim tão mal. Ele abriu a porta do quarto e me deixou entrar primeiro, trancando-a em seguida. Eram 01:45h da manhã.

Sentei na cama, tentando me recompor de tudo que havia acontecido nos últimos minutos. Suspirei profundamente, sentindo a vida voltar às minhas veias agora que estava sozinha ali com Edward.

Olhei-o e ele parecia concentrado em alguma batalha interna. Seus olhos estavam fechados, seu rosto sério e austero. Poderia até dizer que ele estava prestes a fazer um comunicado de vital importância para a Inglaterra inteira. Assim, quando ele abriu a boca, tive que rir.

- Preciso mijar.

Edward rumou para o banheiro, um pouco trôpego, bastante alcoolizado, enquanto tirava seus sapatos no caminho e desabotoava os primeiros botões de sua camisa amarrotada.

Continuei olhando para o lugar onde ele estava. Sorri outra vez. Lembrei do que estava guardado e escondido dentro de minha bolsa, então me levantei indo de encontro a ela e tirando de lá o presente dele.

Ele voltou ao quarto com a camisa já completamente desabotoada, os olhos fora de foco e os cabelos, como sempre, desgrenhados.

Suspirei.

- Eu tenho uma coisa pra você. — Comecei, sem saber direito como fazer aquilo.

Ele me encarou, curioso.

- Pra mim?

- É. Um presente de Natal. — E dizendo isso, estendi o embrulho para ele.

A expressão de Edward foi se transformando lentamente em um sorriso de compreensão. Ao final de sua metamorfose, ele estava tão lindo e parecia tão feliz que por muito pouco não me atirei no colo dele e o enchi de beijos. Era como se ele fosse uma criança e eu tivesse acabado de lhe dar uma loja de doces.

- Você comprou um presente pra mim? Uau!

Ele parecia realmente surpreso, abrindo de qualquer jeito a embalagem e tirando de lá a caixa com o relógio dentro. Ao ver do que se tratava, seu sorriso conseguiu ficar ainda mais largo.

- Uau! — Ele repetia muito isso — É demais!

- Gostou? — Analisei sua expressão na esperança de encontrar traços de mentira ali. Mas todas as reações dele pareciam ser genuínas.

- Muito! — Ele falou, e de forma inocente puxou a manga esquerda da camisa para cima, revelando naquele pulso um relógio maravilhoso, muito mais interessante e, aparentemente, muito mais caro do que aquele que eu havia comprado para ele. Inclusive, lembrei de uma vez ter visto as horas naquele mesmo relógio: no dia em que eu havia acordado no quarto dele pela primeira vez.

Murchei na hora. Como infernos eu nunca havia reparado que ele já usava uma porra de um relógio de pulso? Como eu não havia lembrado? Como eu não vi isso aquela mesma noite?

Eu era uma ameba, e me sentia como uma criança de sete anos dando de “presente” um desenho idiota feito com guache e caneta hidrocor.

- Uau. — Aquela expressão, antes me fazendo sentir bem, agora já estava me irritando. Ele não tinha motivos para ficar daquela forma. Foi uma idéia idiota. — Como ficou?

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Ele deixou o pulso amostra, agora com o relógio que eu havia dado.

- O outro ficava melhor. — Falei, amargurada e puta.

- Claro que não! Esse é muito mais interessante!

- Não é. Não minta.

- Não estou mentindo! Eu gostei muito!

- Que seja... — Falei baixo, pegando a embalagem rasgada, amassando tudo com raiva e formando uma bola de papéis nas mãos.

Me virei para jogar tudo aquilo no lixo, mas fui surpreendida por um abraço, e então a próxima coisa da qual eu estava ciente era o rosto de Edward enfiado em meu pescoço enquanto seus braços me prendiam perto de seu corpo, cruzados em minhas costas e não me permitindo sair dali.

- Obrigado. Você não faz idéia do quanto eu gostei.

Retribuí o abraço, sentindo sua respiração pesada no meu pescoço. Lembrei de Victoria me dizendo que independente do que eu desse a ele, ele gostaria. Quase que imediatamente, lembrei do meu aniversário, quando meros marca-páginas tinham me proporcionado uma alegria inexplicável, e então entendi que, se Edward estivesse sentindo a mesma coisa que eu naquele dia, aquele momento provavelmente estaria sendo de fato precioso.

- De nada. — Respondi baixo, retribuindo o abraço e sentindo as já conhecidas ondas de eletricidade entre meu corpo e o dele.

Ficamos daquela forma por algum tempo, então me dei conta de que, se demorasse um pouco mais, Edward acabaria dormindo no meu ombro, dado seu estado alcoolizado. Me afastei dele e puxei o edredom que cobria a cama.

- Você vai acordar com um pouco de dor de cabeça amanhã, então aproveite enquanto consegue dormir. — Falei, afofando o travesseiro e apontando para os lençóis. — Vem.

Ele caminhou até sua mala sem me dar atenção e tirou de lá de dentro alguma coisa pequena, que cabia na palma fechada de sua mão. Sem dizer nada, me guiou pela cintura até a beirada da cama, me fazendo sentar ali.

- É a vez do meu presente.

- Você já me deu o seu presente. — Lembrei-o, imaginando sobre mais o que ele esquecia quando bebia.

- Não dei.

- Eu estou vestindo ele. — Levantei o pulso, mostrando pacientemente o tecido do vestido vermelho sangue.

- Esse não é o meu presente.

Ele suspirou. Seus dedos passearam um pouco trêmulos pelos cabelos acobreados, me encarando de forma misteriosa. Edward parecia nervoso, e eu podia ver isso até mesmo com as várias doses de whisky que o faziam parecer com sono.

- Tudo bem? — Perguntei, ficando um pouco mais incomodada a cada segundo que ele permanecia em silêncio.

- Tudo bem. — Ele respondeu, se ajoelhando à minha frente em cima do tapete felpudo ao lado da cama, e me olhando com algum tipo de veneração. Eu não sabia o motivo, mas a forma como ele agia estava me deixando ansiosa.

- Eu queria saber fazer isso sóbrio... — Ele começou — Mas acho que exigiria uma coragem que eu não tenho. Me desculpa se isso não sair do jeito que eu queria, ou do jeito que você queria, mas eu preciso dizer que te amo.

O som daquelas palavras fizeram com que qualquer ruído desaparecesse. Era como se a única pessoa que existisse fosse ele, como se os únicos sons que importassem fossem sua respiração e sua voz, como se as únicas sensações do mundo fosse sua pele na minha e as ondas que se chocavam no curto espaço entre nós dois. Seus olhos não estavam desfocados, o que provava que ele sabia o que estava dizendo. E eu só podia ouvir.

- Eu sei que estamos juntos há poucos dias, mas foi o tempo suficiente pra que você notasse que eu sou um idiota e que eu notasse que você é perfeita.

Edward abriu a mão que escondia uma caixa azul-marinho pequena. Fiquei encarando aquilo, tentando não pensar no que poderia ser antes que ele a abrisse.

- Eu não sei quais são os termos que definem a nossa relação, mas sei que preciso de você. Acho que não tenho o direito de dar títulos ao que existe entre nós, mas...

A caixa se abriu, mostrando um anel dourado e fino encaixado na diagonal.

- Uma coisa pra você... Lembrar de mim. Fica à sua escolha chamar isso de pedido de namoro, noivado, casamento, não importa. Contanto que você aceite.

Ele segurou a aliança pequena entre seus dedos e envolveu minha mão direita suavemente, trazendo-a de encontro ao aro.

- Mas o que eu realmente estou pedindo aqui é... Fica comigo pra sempre?

A aliança deslizou pelo anelar e se encaixou perfeitamente na espessura daquele dedo. Ele afastou suas mãos da minha, e nós dois ficamos olhando para meu mais novo adereço.

- Eu prometo... — Ele olhou nos meus olhos outra vez, e eu o encarei de volta — Prometo tentar todos os dias te fazer tão bem quanto você me faz. E prometo tentar fazer com que você não se arrependa de ser minha.

Alguma coisa quente escorreu pelas minhas duas bochechas, mas não me importei.

- Embora você mereça alguém melhor... — Ele adicionou, secando meu rosto — Mas ninguém vai te admirar tanto quanto eu. Ninguém vai te querer tanto quanto eu quero, e tenho quase certeza que você não vai fazer tão bem a outro homem quanto faz a mim.

Era provável que ele tivesse mais algo para dizer. Infelizmente, meu corpo agiu por vontade própria, e então eu havia me atirado nele sem o menor cuidado, indo parar no chão em cima do tapete felpudo e beijando-o inconscientemente.

Meu anelar estava quente. Talvez fosse psicológico. Não importava. Eu era dele, com ou sem aliança, mas tê-la ali era uma prova. Provava que eu era importante. Provava que ele queria que eu fosse dele, e da mesma forma, provava que ele também era meu.

Meu.

Agora eu sabia que chorava compulsivamente. Tanto que chegava a soluçar. Edward, embora bêbado, pareceu entender que aquilo era um “sim, sou sua e sempre fui”, e então me senti completamente entregue às suas mãos que já trabalhavam em meu vestido, não de forma desesperada, mas cuidadosa.

Não lembrei da cama. O tapete parecia suficiente para amenizar o atrito de nossos corpos com o chão. Não estava frio nem quente. Estava perfeito. Ele me beijava de forma apaixonada enquanto me possuía, deixando de lado a cautela e me apertando contra seu corpo de forma possessiva. Eu era dele, e ele sabia disso.

Não sabia dizer se meus gemidos foram altos. Deixaria para me preocupar no dia seguinte, assim como as mordidas e chupões que Edward aplicava aleatoriamente pela extensão do meu corpo. Imaginei que precisaria de mais maquiagem do que nunca, mas já que isso não mudaria de qualquer forma, me permiti aproveitar todas as sensações daquele momento.

O cansaço veio, mas não fez com que o desejo que me consumia fosse embora de imediato. Ele parecia arder da mesma forma, então passamos uma boa parte da noite enrolados e encaixados, tentando ao mesmo tempo sentir e proporcionar prazer um ao outro. Quando ambos parecíamos satisfeitos, deixei que o sono me embalasse, sentindo o calor da pele dele me aquecer.

Em algum momento daquela noite acordei de repente e constatei que estava deitada confortavelmente na grande cama ao lado de um anjo. Ele não dormia, mas me observava com mais paixão do que jamais havia visto em alguém. Levantei a mão direita para checar se meu presente ainda estava ali. Como se precisasse me certificar de que aquilo não havia sido um sonho.

Relaxei. O aro dourado estava lá.

E se dependesse de mim, ficaria ali para sempre.

Notas finais
Sendo rápida, porque tem no mínimo 5 leitoras acordadas no twitter esperando esse cap sair!Obrigada pelas reviews! Vocês são demais!Espero que curtam esse capítulo. Foi divertido de escrever.Eu colocaria links nos textos pra facilitar a leitura, mas não sei mexer nesse novo Nyah. Então, só consegui colocar comentários em algumas palavras.Espero que gostem desse aqui. Demorou, mas saiu. Desculpem pelo atraso.Bjos, Mel