Bella’s POV

Não sabia em que momento eu havia deixado de sonhar e finalmente entrei na zona confusa e nebulosa que antecede a consciência. Meus olhos mantiveram-se fechados. Estava me permitindo sentir a realidade outra vez, talvez um pouco mudada pelo sonho recente que ainda lampejava dentro de minha cabeça.

- Eu te amo — Ele disse, e então um milhão de borboletas começaram a voar dentro do meu estômago. Fiquei muito quieta, saboreando a sensação do bater de asas, querendo mais do que tudo acreditar na veracidade daquelas palavras. A alegria começava a me preencher totalmente, mas então tudo ficou estranho de repente, porque em seus olhos eu pude ver um traço de confusão e dúvida.

Engoli o sorriso enquanto o encarava, minha cabeça pesando agora algumas toneladas. Ele me encarava de volta, parecendo querer manter-se estável e sustentar suas palavras, mas seus olhos cor de ocre simplesmente não eram convincentes.

- Você tem certeza?

Ouvi uma voz formular em alto e bom som a pergunta que me machucava, e me surpreendi ao constatar que aquela era minha própria voz, emitida sem que eu sequer movesse os lábios. Mesmo assim, esperei por sua resposta. Por um momento. Por alguns segundos. Por muitos segundos.

Ele não respondeu, e ao invés disso, continuou me encarando com olhos incertos. Senti uma dor aguda ao constatar que agora, além da dúvida, havia um inconfundível traço de pena naquele dourado perfeito. Nós dois ficamos em silêncio. Ele sem saber como dizer a verdade — que havia se enganado, que não era amor o que ele sentia — e eu tentando lidar com a dor insuportável no peito por ter a rápida e quase inexistente esperança arrancada de mim em um piscar de olhos.

A dor era muito forte. Insuportável.

Então, eu acordei.

Agora, de olhos fechados, eu inspirava profundamente, sentindo a angústia dilacerante deixando minha alma aos poucos. Tinha sido apenas um pesadelo, e embora isso não quisesse necessariamente dizer que aquilo era apenas minha imaginação, eu podia me sentir um pouco mais viva.

De repente, fui atingida em cheio pela dúvida sobre quando exatamente meu sonho e minha realidade se separavam. Eu estava acordada, mas desde quando estivera sonhando com Edward? Há poucos minutos? Desde que havia deixado meu apartamento? Desde a noite em que havia voltado para a rua? Talvez ele tivesse surgido apenas em meus sonhos, e então nosso reencontro não fora real. Talvez agora eu tivesse que voltar para minha antiga vida, na qual dia após dia eu reunia forças simplesmente para continuar vivendo um pouco mais.

Com um pouco mais de medo do que eu queria admitir, abri lentamente os olhos, aos poucos me acostumando com a pouca claridade do lugar e com a disposição dos objetos e móveis à minha volta. Era o mesmo quarto presente no sonho que eu havia tido com Edward, onde ele havia me achado, eu havia resolvido confessar a ele meus sentimentos, nós dormimos juntos, ele me levou para morar em sua casa e, finalmente, havia se declarado também.

Então, talvez, tudo tenha mesmo acontecido.

Minha mão pesava livremente ao lado direito do meu corpo, o que me fazia pensar que talvez eu estivesse no limite da cama, a centímetros de cair dela. Olhei para baixo e constatei que estava certa. Virei-me devagar para o lado oposto e dei de cara com Edward, ainda inconsciente, tão próximo a mim que apenas minha metade da cama era ocupada por nós dois, sua cabeça em meu próprio travesseiro, o dele completamente esquecido no enorme espaço desocupado do colchão.

Nossos narizes não se tocavam por uma distância mínima. Ele dormia tranquilamente, seu exercício de expiração e inspiração era perfeito, profundo e hipnótico. Sua expressão era serena, um de seus braços relaxado em cima da minha barriga. Encarei-o por algum tempo, não querendo pensar no que já estava pensando.

Eu estava convicta de que meu sonho não havia sido incoerente. Não que eu não quisesse criar esperanças, apenas estava convencida de que sua declaração da noite anterior não podia ser levada a sério.

Não que ele tivesse mentido. Eu pude ver de perto a intenção em cada palavra que ele havia pronunciado. Mas não havia como deixar de pensar que, ao invés de mentindo, ele estivesse apenas confuso.

Para minha própria sanidade mental, eu tinha que colocar alguns pontos em ordem: Edward NÃO me amava. Embora ele parecesse ter sido sincero, cedo ou tarde sua razão voltaria e ele enxergaria que se enganou. Ele NÃO sentia por mim o que eu sentia por ele. No máximo, algum interesse carnal misturado com um sentimento de culpa um pouco deturpado e com certos exageros. NÃO fazia sentido ele se apaixonar por mim. Edward poderia ter as mulheres que quisesse, em qualquer momento. Talvez todas elas ao mesmo tempo. Quando ele finalmente se desse conta desses fatos, eu acabaria na merda outra vez, tendo apenas um “sinto muito” para me consolar.

Seu sono tranquilo foi interrompido por um suspiro profundo. Seu braço abandonou minha barriga e ele se virou de lado, agora ocupando todo o espaço vazio do seu lado da cama. Continuei encarando-o, tentando imaginar como eu deveria agir, o que exatamente eu deveria fazer. Não pude chegar a conclusão alguma, porque enquanto meu lado racional — e sensato — dizia para que eu saísse de lá o quanto antes e retomasse minha vida antiga, a única coisa que me dava alguma garantia sobre alguma coisa, meu lado completamente apaixonado e ingênuo me mantinha ali, dizendo que de alguma forma as coisas se resolveriam sem que eu tivesse que deixá-lo outra vez.

Mas como essa situação poderia se resolver? As coisas acabariam mal, assim como a primeira vez em que nossas vidas se encontraram. E assim como na primeira vez, eu me via atada, não me restando mais nada a não ser esperar até que tudo ruísse outra vez.

Me levantei com cuidado, não querendo que Edward sentisse alguma mudança e acordasse. Eu não queria ter que lidar com a misteriosa relação que surgiria entre nós a partir daquele dia. Não queria ter que ver em seus olhos a dúvida que eu sabia que, cedo ou tarde, surgiria. Não queria ter que encará-lo outra vez e sentir medo de perder o que, na verdade, eu nunca tive.

Recolhi do chão a calcinha e o casaco que estiveram no meu corpo pelo menos por alguns minutos na noite anterior. Dando uma última olhada para verificar se ele ainda estava dormindo, saí e fechei a porta atrás de mim.

Rumei para o quarto onde estavam meus pertences, ainda empacotados. Procurei por um short confortável e uma calcinha limpa, descartando a que trazia na mão na mochila com as roupas sujas. Peguei também minha escova de dentes e caminhei para o banheiro daquele quarto, feliz por não ter que usar o do quarto onde Edward dormia e correndo o risco de acordá-lo.

Tomei um banho demorado, sentindo o aroma agradável do sabonete e dos shampoos caros que estavam ali. Escovei os dentes e me penteei, tentando ignorar meus hematomas hoje mais visíveis. Ainda assim, sabia que aquela vez tinha sido mais sutil que a anterior, porque eu sentia menos dores e não via nenhuma nova marca pelo corpo. Todas as que estavam lá haviam sido feitas por Edward na noite do nosso reencontro.

Saí do banheiro muito atenta a qualquer barulho que pudesse identificar que eu não era a única pessoa acordada naquela casa. Não escutando nada, segui para a cozinha.

Não queria parecer mal educada ou abusada de alguma forma, mas o fato era que eu estava absurdamente faminta. Durante muito tempo, minha alimentação foi prejudicada pelo meu estado vegetativo, mas eram as últimas horas praticamente em jejum que faziam com que meu estômago estivesse quase se auto-digerindo.

Tentando não mexer em muita coisa, apenas me servi de um copo de leite e fiz um sanduíche que consistia em pão, manteiga e peito de peru. Ao terminar meu café da manhã, notei que nem metade da minha fome havia sido saciada, mas pelo menos eu não desmaiaria por falta de sais minerais no corpo.

Lavei a louça usada e voltei ao quarto de hóspedes, por fim planejando o que eu faria, pelo menos por hora. Depositei todas as malas e bolsas em cima da cama e as abri, revelando todo o tipo de coisas que trouxera comigo.

Comecei com a mala maior, tirando de lá algumas roupas dobradas e separando uma a uma em duas pilhas: As roupas que eu continuaria usando, e as que não usaria mais. Não que eu soubesse o que aconteceria comigo a partir daquele momento, mas me deixei aproveitar a opção de talvez não precisar mais usar algumas daquelas peças, as quais muitas vezes tive que vestir para o “trabalho”.

Edward havia me dito que eu moraria ali, com ele. O problema era que eu esperava pelo dia em que ele fosse se arrepender e resolvesse se dar conta de que, na verdade, aquela não havia sido uma boa idéia. Por isso, aquelas roupas que agora formavam uma pilha de vestes vulgares e inapropriadas, incluindo lingeries, não seriam exatamente descartadas. Apenas ficariam guarddas no fundo de alguma bolsa.

Outra vez, me lembrei da noite anterior. Suas palavras pareciam tão sinceras, suas declarações aparentavam ser tão verdadeiras, que meu coração se encheu de uma discreta alegria novamente. Mas eu estava cética quanto àquilo, mesmo que desacreditar em suas palavras me machucasse, então além de esperar, eu começava a nutrir uma quase certeza de que um dia ele voltaria a ver que eu nunca havia deixado de ser apenas uma garota de programa.

O pior de tudo era que, mesmo sabendo disso, eu me mantinha ali, ao seu lado. E o motivo disso era simples: Embora eu soubesse que deveria sair dali, não me deixando provar o quão doce seria viver uma vida ao seu lado, eu ainda o amava. O amava demais para me despedir outra vez. Estava precisando demais dele para conseguir deixá-lo justo quando ele se rendia a mim. No desespero de me agarrar a ele, de qualquer forma que fosse, eu me mantinha à mercê de um abandono iminente.

Mas optei por adiar esses pensamentos. Porque eu queria fugir da realidade. Porque eu era fraca. Porque eu não conseguiria lidar com isso.

Eu odiava amá-lo dessa forma.

- O que está fazendo?

Fui pega de surpresa pelo som da sua voz imediatamente atrás de mim. Virei-me para olhá-lo, e sua aparência era tão engraçada que quase não consegui conter o riso. Seus olhos estavam inchados do sono, mas esbugalhados, correndo de mim para as roupas em cima da cama. Seus cabelos estavam selvagemente desalinhados, como se tivesse acabado de sair de uma luta, sua boxer um pouco enrolada nas bordas. Ainda assim, ele estava lindo de tirar o fôlego. Como, Deus, ele conseguia acordar sexy?

Então notei que seus olhos esbugalhados não relaxaram. Ela parecia extremamente inquieto, e levei um certo tempo para entender do que aquilo se tratava.

- Estou arrumando minhas roupas. — Falei secamente, desviando o olhar dele.

Ele veio para o meu lado, e então pude ouvir sua respiração um pouco ofegante. Ao que tudo indicava, Edward havia acordado e, ao notar que eu não estava lá, saiu correndo da cama à minha procura, com medo de que eu pudesse ter partido. Isso explicava a boxer vestida de qualquer jeito e o fato dele não ter se preocupado sequer em se olhar no espelho.

Continuei separando as roupas em duas pilhas, tentando fingir que ele não estava lá.

- Só isso? — Ele falou, e novamente pude identificar o traço inconfundível de pânico e ansiedade em sua voz. Me perguntei quando eu havia começado a ser cruel com o sofrimento dos outros, porque vê-lo daquela forma, por algum motivo, despertou em mim um pequeno prazer.

Voltei a encará-lo, e só então me dei conta do quão próximo ele estava de mim. Edward parecia mais alto e mais quente do que costumava ser no passado.

- Só isso. — Afirmei, não querendo dizer com todas as letras o que ele queria saber. Não era meu objetivo jogar com seus sentimentos, mas eu simplesmente não conseguia deixar de sentir aquela pequena e doce onda de divertimento em vê-lo desesperado com a possibilidade de me perder. Talvez isso estivesse fazendo com que eu me sentisse importante. Algo que nunca aconteceu.

Ele pigarreou e então eu notei que estávamos perigosamente próximos. Voltei minha atenção às roupas, dando as costas propositalmente para ele, e então senti um repentino orgulho de mim mesma por conseguir resistir ao poder que ele exercia sobre mim.

Depois de algum tempo, finalmente ouvi-o suspirar atrás de mim, tão alto que não pude deixar de notar o tamanho de seu alívio. Sem saber por que, sorri, feliz por Edward não poder ver meu rosto.

- Vou deixá-la à vontade, então.

Dizendo isso, ouvi seus passos largos afastando-se de mim aos poucos, até alcançar a porta e fechá-la, dando um fim à situação desconfortável entre nós, na qual nenhum dos dois sabia ao certo como agir.

Ao perceber que estava sozinha, imediatamente desejei que ele estivesse de volta.

Eu havia acabado minha tarefa. Não foi difícil separar tudo que um dia eu odiei das minhas roupas casuais, e no fundo eu sentia um discreto mas inegável alívio em deixar o que não me servia mais no canto mais escuro e esquecido do quarto de hóspedes. O pedido de Edward para que eu não usasse mais nada daquilo foi apenas o gatilho para que eu mesma tivesse a atitude de tentar esquecer de tudo que fez parte da parte mais nojenta da minha vida. Não havia como não ver aquelas coisas como um tipo de uniforme, então era óbvio que nós dois concordávamos com a escolha de deixar no passado tudo que pertencia a ele.

Agora, sem saber o que fazer, eu fitava o teto do quarto sem interesse, deitada de costas na cama, enquanto tentava pôr meus pensamentos em ordem. Me perguntei até quando ficaríamos em silêncio um com o outro, evitando olhares e toques, como se isso pudesse cancelar a carga de sensações que viajava entre nós. Até quando ficaríamos em cômodos diferentes para evitar a presença um do outro, até quando aquele relacionamento — fosse ele o que fosse, eu não saberia dizer — se sustentaria sem nenhum conforto entre as partes.

Eu devia ir embora... Essa situação não vai ficar melhor... Tudo está muito estranho entre nós, talvez isso nunca mude...

- Licença...

Olhei de imediato para a porta ao meu lado, que agora estava aberta revelando um pouco do corredor por trás do corpo largo de Edward. Fitei-o, meu coração repentinamente saltando de nervosismo, esperando pelo que ele tinha a dizer.

- Eu preparei o café da manhã pra gente.

Ah. Isso.

- Eu já comi... — Tive que confessar, sem saber se o fitava nos olhos ou desviava o olhar — Acordei com muita fome, então procurei algo pra comer. Desculpe por fazer isso sem o seu consentimento...

- Não peça desculpas. — Ele falou, de forma fria — Você é livre pra fazer o que quiser nessa casa.

- A casa é sua, eu não tinha o direito de mex...

- A casa é sua também! Você pode mexer no que quiser!

Ele parecia irritado com minhas desculpas, o que não fazia o menor sentido para mim. Mesmo assim, achei melhor não contrariá-lo, porque Edward parecia estar a ponto de gritar para provar seu argumento. Era como se minhas palavras o tivessem incomodado, e eu sequer sabia o que estava fazendo de errado.

Fiquei em silêncio, esperando que ele falasse primeiro.

- O que você comeu?

- Um sanduíche.

Ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos e despenteando-os mais. Relaxei um pouco ao ver que ele agora estava mais calmo.

- Você não comeu praticamente nada nas últimas horas. Eu queria que você provasse o que eu preparei.

Continuei encarando-o, ainda hipnotizada pela mudança do tom da sua voz. Eu não sabia se ele era mesmo bipolar ou se apenas perdia a paciência em certo momento para, no momento seguinte, tentar parecer gentil.

- Por favor? — Ele falou, e eu poderia estar ficando louca, mas jurava que havia visto um “bico” de “por-favooooor” quase imperceptível. Então, pela primeira vez, e eu não sabia por que exatamente havia demorado tanto para notar isso, reparei que a boca dele era simplesmente linda.

Linda. De morrer.

Eu ainda estou morrendo de fome. Edward está fazendo manha para mim, me pedindo por favor que eu prove o que quer que ele tenha preparado.

Eu vou provar o que quer que ele tenha preparado.

Levantei-me devagar, no processo penteando com os dedos os cabelos ainda úmidos. Ele suspirou audivelmente, então sorriu, ainda me encarando, um sorriso tímido mas sincero. Era como se cada pequena coisa que ele me convencesse a fazer fosse uma vitória épica, digna de um troféu ou coisa assim. Então eu quase, quase retribuí o sorriso, mas me mantive séria ao lembrar que, embora ele parecesse querer nos convencer do contrário, não estava tudo bem.

Minha seriedade não foi suficiente para abalar seu repentino bom humor, então pude notar que ele continuou me encarando e sorrindo enquanto abria caminho para que eu fosse na frente. Caminhamos até a cozinha, então me sentei na cadeira da mesa quadrada sem esperar por um convite. Ele não pareceu se importar, indo para trás do balcão e preparando os pratos.

Quando voltou, trazia em uma das mãos uma jarra com suco de laranja e na outra um prato com ovos mexidos, torradas, salsicha, queijo e, ao que tudo indicava, molho de ervas. O cheiro maravilhoso de toda aquela mistura fez com que eu sentisse o peso da fome em meu estômago mais uma vez, mas ainda assim tentei parecer indiferente.

Ele se sentou à minha frente, e então me encarou. Isso fez com que um arrepio varresse meu corpo de cima a baixo, então imaginei o quão bom seria quando finalmente eu me acostumasse ao seu olhar e deixasse de ter esse tipo de reação.

- Onde está o seu prato? — Falei, querendo cortar o silêncio, talvez para despistar meu nervosismo.

- Eu já comi. Enquanto estava preparando o seu café. — Ele falou, com muita naturalidade — Belisquei algumas coisas.

Continuei encarando-o, querendo dizer que ele devia comer direito, porque estava muito mais magro do que costumava ser. Mesmo assim, continuei calada, tentando sustentar seu olhar. Imaginei que talvez ele estivesse esperando que eu me servisse de alguma coisa no prato à minha frente, mas eu definitivamente não queria que ele ficasse me assistindo enquanto eu devorava feito uma troglodita faminta tudo que ele havia preparado para mim.

- Eu preciso de uma opinião. Nunca cozinhei pra ninguém, então talvez você possa me dizer se eu faço isso direito...

Edward era o tipo de pessoa que parecia saber fazer qualquer coisa direito, desde comida a números de acrobacia. Se isso não fosse o suficiente, contava também o fato de que o cheiro do café da manhã que ele havia preparado estava simplesmente divino. Além disso, como amante de uma boa culinária, eu tinha minhas convicções de que se ele havia se proposto a cozinhar, então era porque sabia. Por isso, eu sequer precisava de uma garfada nos ovos ou na salsicha para dizer que aquilo estava muito bom.

Mas, por algum motivo, aquilo parecia ser importante para ele. Então, mesmo não gostando de ter que fazer aquilo enquanto ele me assistia, levei à boca uma boa quantidade do que havia em meu prato, enquanto ele me encarava como quem espera o resultado de um exame de gravidez. Encarei-o de volta, mastigando com uma lentidão exagerada, e de certa forma me divertindo com sua preocupação e seu ar tenso. Eu nunca havia visto esse lado dependente e ironicamente inseguro de Edward.

- Uma delícia. — Enfim falei, decidindo que já era hora de parar de torturá-lo.

Ele sorriu, um sorriso largo e absurdamente lindo, um sorriso de alívio e alegria. Fiquei um pouco distraída com a luz que aquele sorriso trouxe ao ambiente de repente, e eu mesma senti vontade de retribuí-lo. Mas outra vez, assim como antes, me forcei a continuar séria.

Uma garfada após a outra, fui terminando meu enorme café da manhã com Edward à minha frente, analisando cada movimento meu com um meio-sorriso no rosto. Eu tentava ignorar sua presença ali, mas ele não deixava, sempre me servindo de mais suco quando meu copo esvaziava ou, quando só podia olhar, suspirava sem motivo.

- Quer que eu faça mais? — Ele perguntou no momento em que coloquei o último pedaço de salsicha na boca.

- Não. Estou satisfeita, obrigada.

Ele continuou me encarando, sorrindo de uma forma muito discreta, e então me perguntei onde toda aquela postura fria dos dois dias anteriores estava. Edward agora parecia quase inofensivo, alguém extremamente doce e bondoso que só fazia sorrir de uma forma tão singela para mim. E então, eu não estava entendendo mais nada.

- Nós vamos sair hoje. Tudo bem?

Encarei-o por um momento, me perguntando mentalmente onde ele queria me levar.

- Por quê?

- Bom... Pensei em almoçar em algum lugar, e depois sairmos pra fazer umas compras.

Não respondi, tentando entender que tipo de compras Edward gostaria de fazer comigo. Como se entendesse minha dúvida, ele se apressou em explicar.

- Você precisa de um novo guarda-roupas.

Roupas. Era isso. Ele queria sair pra comprar roupas para mim. Talvez isso fosse normal na relação de um casal — e aqui eu me forcei a pensar dessa forma, apenas para concluir o pensamento — mas eu deixaria que ele fizesse isso, então? Deixaria que ele comprasse tudo para mim a partir de agora? Que ele me sustentasse?

- Eu não quero que você compre essas coisas pra mim. — Falei antes de me dar conta de que tinha formulado uma frase.

Vi seu sorriso discreto deixar seu rosto lentamente, transformando-se em uma expressão contrariada.

- Por quê?

- Por que não quero que você fique me sustentando. Isso faz com que eu me sinta mal. E inútil.

Encarei agora o prato vazio, evitando seu olhar. Ele ficou algum tempo em silêncio, até falar outra vez.

- Não estou te sustentando.

- E do que chama isso, então? Me fazer morar de favor aqui, comprar roupas pra mim, me levar pra almoçar e pagar todas as despesas que eu dou?

Voltei a encará-lo, então vi em seus olhos aquela intensidade que só podia notar quando ele estava carregado de alguma emoção. Sua postura voltava a ser firme, mas não fria. Ele parecia, ao invés de irritado, apenas triste pelas minhas palavras.

- Estou fazendo o que um homem faz quando gosta de uma mulher. Estou fazendo o que seu pai fazia com a sua mãe. Não estou sustentando você. Estou cuidando de você.

Pensei em alguma réplica inteligente, mas não obtive sucesso. Ele usou um exemplo impossível de refutar, porque era a mais absoluta verdade. Meu pai não sustentava minha mãe, jamais havia sido assim. Ele cuidava dela , ele a protegia, e estava claro que aquilo não era algo que ele tomava como obrigação, mas fazia simplesmente porque a amava. E se o que Edward estava fazendo fosse, de alguma forma, remotamente comparável àquilo, não havia como reprimi-lo.

Talvez eu até devesse me sentir lisonjeada, feliz, protegida. Mas, de alguma forma, eu ainda me sentia mal. Provavelmente porque o que nós tínhamos não era um relacionamento dentro dos padrões, como o de meus pais. O que nós tínhamos era diferente, e o fato desse relacionamento sempre ter sido baseado em Edward pagando para ter minha companhia talvez contribuísse para que eu me sentisse sendo comprada em cada pequeno detalhe.

- Mesmo assim, — Comecei, um pouco sem graça, voltando a evitar seu olhar — eu preferiria pagar minhas cois...

- Eu quero te dar de presente.

Fechei os olhos, tentando manter nossa conversa em um nível tranquilo, sem gritos ou palavras rudes.

Minha concentração foi abalada pelo toque do celular de Edward. Quando abri os olhos outra vez, ele já havia se levantado, falando na sala com alguém. Não pude ouvir o que ele dizia, apenas palavras avulsas, mas pela forma como falava, parecia ser com uma mulher.

Quando finalmente desligou e voltou à cozinha, encarei-o novamente.

- Você vai conhecer uma amiga minha. Ela está vindo pra cá daqui a pouco.

Então, eu conheceria Victoria.

Pelo pouco que ouvira falar, ela parecia ser uma mulher boa. Essencialmente boa. Ao que me lembrava, havia sido ela que, na época de crise de Edward, se dispôs a ajudá-lo. Por causa dela, ele havia saído de uma depressão profunda, e com a ajuda dela ele havia se reerguido. De certa forma, eu já gostava dela simplesmente por ajudá-lo e por se preocupar com ele. Ironicamente, era justamente por se preocupar com Edward que Victoria provavelmente já não gostava de mim.

Ele havia contado tudo a ela, e tudo se resumia no fato de que eu era uma prostituta pela qual ele pagava algumas noites. Era óbvio que ela devia achá-lo um idiota por me colocar morando ali, e era igualmente óbvio que me julgaria assim que colocasse os olhos em mim. O pior disso tudo era que eu sequer poderia culpá-la.

Eu também julgaria qualquer prostituta caso ela estivesse se aproveitando de um momento de confusão do meu melhor amigo. Também a odiaria por continuar ao seu lado, porque afinal de contas ele merecia alguém melhor. Torceria para que ela simplesmente sumisse da vida dele, fazendo o grande favor de deixá-lo viver sua vida com quem ele merecesse.

Mas eu não podia deixá-lo. Não agora, não quando precisava tanto dele.

Não ainda.

Por isso, teria que enfrentar aquela situação, teria que enfrentar a forma como Victoria lidaria comigo. Eu era a intrusa ali, então nada mais normal do que ser julgada sob todos os aspectos. Isso não melhorava em nada meu nervosismo, então, pela terceira vez, eu lavava meu rosto no banheiro do quarto de hóspedes, encarando-me no espelho como quem busca por alguma força, algum ânimo. Mas a expectativa de lidar com uma melhor amiga furiosa não estava nos meus planos para aquele dia, e ser pega de surpresa também não era minha especialidade.

Enxuguei o rosto e notei que meus hematomas agora começavam a ficar esverdeados. Isso definitivamente não era algo agradável aos olhos, por isso tentei escondê-los com algumas mechas de meus cabelos. Não ocultava tudo, mas ao menos disfarçava um pouco a impressão de que eu havia sido espancada recentemente. Também por esse motivo, optei por vestir meu casaco de gola vermelho por cima da camiseta, além de jeans que cobrissem toda a extensão das minhas pernas e meias.

Sem saber direito como proceder naquela situação, fechei a porta atrás de mim e me dirigi para a sala. Edward disse que ela chegaria dentro de minutos, e que apenas queria que nós nos conhecêssemos. Me perguntei em silêncio se, em uma situação hipotética onde Victoria partiria para cima de mim com insultos e verdades inconvenientes, Edward me defenderia, se colocando contra uma pessoa que ele conhecia há muito mais tempo. Um pouco mais do que isso, algo de egoísta e mesquinho dentro de mim fez com que eu me perguntasse a quem ele escolheria, se tivesse que fazê-lo: A ela ou a mim.

De qualquer forma, constatar a triste resposta para essa pergunta fez com que eu pagasse o preço do meu egoísmo.

Cheguei à sala e imediatamente notei que não poderia me dar ao luxo de qualquer tipo de preparação, porque já sentada, com um copo de água nas mãos, estava uma mulher ruiva, cabelos cacheados e muito cheios, olhos incrivelmente azuis, uma brilhante aura angelical e excepcionalmente bonita. Ao seu lado, de pé, Edward parecia não saber direito se caminhava ou ficava parado no mesmo lugar.

Ela me olhava com uma expressão indecifrável. Não era uma postura confortante ou amigável de nenhuma forma, mas tampouco era acusatória ou hostil. Ela simplesmente estava aceitando minha presença ali, por hora sem fazer pré-julgamentos. Seria bastante agradável se nosso encontro se resumisse a isso, mas infelizmente ela pareceu, depois de alguns segundos, se dar conta dos meus hematomas, então vi sua expressão de choque quase disfarçada sob um semblante bondoso. Isso não tirou, de forma alguma, sua beleza.

- Muito prazer... — Minha recente mania em falar simplesmente para tentar diminuir o tempo de um silencioso mal-estar estava fugindo do meu controle, mas não me importei. Agora, eu estendia a mão para ela e esperava que ela a tomasse.

Victoria se levantou com calma, estendendo a mão em resposta e segurando a minha, sacudindo com suavidade. O aperto não era forte, mas sim firme. A atitude de uma dama, de uma mulher definitivamente segura.

- Olá.

Eu não esperava que ela disesse que sentia algum prazer em me ver. Victoria não parecia ser o tipo de mulher falsa ou que mentia sem nenhum motivo aparente, então era exatamente esse tipo de resposta que eu esperava dela. O que eu não esperava era me sentir tão incrivelmente intimidada por ela, fosse por sua postura firme ou por sua beleza, que fazia com que minha auto-estima quisesse cometer suicídio.

- Você é linda.

O som de minha própria voz ecoava de novo, e pelo riso baixo que Edward deu, havia ecoado fora da minha cabeça. Então eu havia dito aquilo em voz alta, sem nenhum motivo aparente, sem nenhuma explicação. Sequer se encaixava no momento, mas por alguma razão que só Deus saberia dizer, eu pronunciei aquelas palavras, e me perguntei se ela me acharia forçadamente simpática ou algum tipo de puxa-saco.

Tudo nela parecia ser forte, e eu tive essa impressão principalmente pelo olhar que ela sustentava enquanto me encarava. Seus olhos eram firmes, mantinham uma ligação direta com os meus, e se eu fosse um pouco mais paranóica, poderia dizer que Victoria estava tentando me ler, desvendar minhas supostas mentiras e me analisar, certificando-se do quão boa ou ruim eu era para estar por perto de Edward.

- Obrigada. — Ela enfim falou, e como se tivessem terminado a “leitura”, seus olhos pareceram se suavizar um pouco, quase imperceptivelmente, mas se mantendo diretamente ligados aos meus. — Eu me chamo Victoria. Você é Isabella, não é?

- Bella. — Apressei-me em corrigi-la — Me chame de Bella.

- Ei!

Edward finalmente deu algum sinal de vida, interagindo conosco pela primeira vez. Victoria e eu olhamos ao mesmo tempo para ele, tentando entender o motivo da exclamação. Ele parecia indignado comigo, me encarando com um olhar de “como-você-pôde?”

- Pensei que só eu podia te chamar assim!

Victoria rolou os olhos quase que teatralmente.

- Não seja mimado. Ela se apresenta como quiser.

- Ela se apresentou pra mim como Isabella. Eu tive que pedir pra chamá-la de outra forma!

Encarei-o em silêncio, não sabendo como responder àquilo. Se meus olhos conseguissem transmitir a ele o que eu queria, Edward se lembraria da ocasião em que nos conhecemos, entendendo que eu não poderia ter me apresentado de outra forma, e se calaria instantaneamente, evitando um constrangimento maior entre nós dois. Não sei se obtive sucesso, mas ele pareceu deixar o assunto momentaneamente de lado, enquanto ainda me encarava com uma expressão genuinamente ofendida no rosto. Será que ele realmente estava chateado comigo por causa disso?

- Ok. Discuta seus termos de exclusividade depois, porque dentro de uma hora eu tenho que estar de volta pra minha família.

- Certo. — Ele falou, desviando seu olhar de mim para Victoria — O que você sugere?

- Como eu sei que você vai acabar pagando, mesmo que eu te ameace de morte, fica à sua escolha.

- Perfeito. — Finalizou Edward, já pegando suas chaves e colocando-as no bolso da calça, enquanto Victoria colocava nos ombros a bolsa que trouxera consigo. Quando ele veio até mim, parando alguns centímetros à minha frente e falando baixo e pausadamente, como quem fala com um doente em estado terminal, por um momento voltei a lembrar da nossa atual dificuldade de comunicação.

- Nós vamos almoçar. Preciso conversar com Victoria sobre algumas coisas da empresa. Sei que faz pouco tempo desde seu café da manhã, mas vou pedir que você venha com a gente.

Senti o toque suave de sua mão na minha, e instantaneamente fui atingida pela corrente elétrica que se estabeleceu entre nossas peles. Se não fosse a mulher agora parada à porta, esperando por nós dois, eu já estaria entregue a ele, assim, fácil desse jeito. Por isso, esse era mais um motivo pelo qual eu era grata à Victoria.

...

A viagem até o restaurante foi silenciosa. Por um momento, cheguei a pensar que Edward me perguntaria o que eu havia achado de minha nova conhecida, que nos seguia em seu carro logo atrás, mas ele não o fez. Assim, a curta viagem foi como as tradicionais viagens que nós constumávamos fazer: Sem qualquer tipo de comunicação, o que mais uma vez fez com que eu lembrasse da nossa atual situação, como “casal”. Um casal de conhecidos. De desconhecidos, talvez. Nada mais do que isso.

Chegamos em um restaurante ao qual não dei muita atenção até que tivesse entrado. No momento em que atravessei a porta, me dei conta de que estava em um lugar provavelmente muito, muito caro, tanto pelo ambiente em si como pelas pessoas ali presentes. Me senti estúpida e completamente deslocada, lembrando que minhas roupas eram apropriadas para, no máximo, um passeio no shopping, e sentindo minha cabeça ferver aos poucos, enquanto me dirigia à mesa tentando me esconder atrás de Edward.

Senti raiva de sua atitude, primeiro por sequer cogitar a possibilidade em me informar que iríamos a um lugar daquele tipo. Depois, por não me alertar sobre minha aparência. O fato de me sentir completamente fora de lugar era culpa unicamente dele, mas Edward parecia não se importar.

Depois de muito tempo, escolhemos os pratos sugeridos pelo maitre e, a partir daí, ele e Victoria passaram a conversar entre si, ambos se esquecendo completamente da minha presença. Ao invés de me incomodar, esse fato serviu para que eu ficasse um pouco mais à vontade, completamente sozinha em meu espaço enquanto, calada, observava o uso correto dos muitos talheres por parte de meus acompanhantes, tentando imediatamente repetir as ações de forma certa e memorizá-las para uma próxima ocasião.

Victoria falou sobre novos contratos, empregados da empresa, reuniões, festas de praxe e algo relacionado a arranjos de viagem. Edward parecia entretido, respondendo com vivacidade a qualquer comentário, enquanto eu me mantinha calada e ignorante a qualquer assunto que eles discutiam. Algumas vezes, pude ver pela minha visão periférica que Edward olhava para mim, mas depois voltava-se para Victoria, apenas como se quisesse checar se eu ainda estava viva.

Por aquele momento, me permiti simplesmente viver o pouco do que estava acontecendo. Então éramos só nós três, eu, Edward e sua melhor amiga, sentados em uma mesa enquanto eles conversavam sobre trabalho, e simplesmente me deixei levar pela simplicidade da situação. Como um espectador, eu assistia à minha própria vida, ao menos naquele momento, sem complicações ou pendências, e por mais que essa paz me enganasse sobre o que realmente eu tinha que enfrentar, era bom estar daquela forma.

E então, a presença de Edward ao meu lado, sua postura firme e protetora, seu calor e sua voz me faziam bem. Era como se eu tivesse que estar ali, como se não houvesse outro lugar no mundo em que eu devesse estar. Mesmo que tudo fosse muito mais complicado do que isso. Por isso, me permiti prestar atenção apenas nele, mesmo sem realmente escutar suas palavras, mesmo sem tocá-lo, mesmo sem olhar para ele.

Sua presença agia sobre mim, sem a menor necessidade de interação.

- Vamos?

Com o susto, meu corpo pulou discretamente no assento, agora encarando Edward como se ele tivesse acabado de aparecer ali.

- Você já pagou? — Perguntei, confusa.

- Acabei de pagar. Você não viu? — Ele respondeu me olhando preocupado, como se eu estivesse verde.

- Estava distraída. — Murmurei, e dando uma rápida olhada em Victoria, me aproximei dele para falar em seu ouvido. Como o ambiente era excessivamente silencioso, talvez por causa da maldita educação de toda aquela gente rica em quase não falar, eu duvidava que minhas palavras tivessem saído em um volume audível apenas para Edward — Pode me dizer quanto foi?

Ele se afastou de mim, outra vez com expressão de quem acabara de ser agredido verbalmente. Seu rosto, antes suave, agora se contorcia em uma careta de raiva. Por fim, falou em um tom extremamente rude.

- É falta de educação perguntar isso.

Senti meu rosto ferver imediatamente pelas suas palavras, então tive a certeza de que eu agora parecia uma pimenta. Extremamente envergonhada, dei mais uma vez uma rápida olhada em Victoria, que nos encarava com uma curiosidade genuína.

- Desculpe. — comecei, encarando-o outra vez — Não queria soar grosseira, só queria saber quanto eu te devo.

- Nada. — Ele respondeu, ficando de pé, Victoria imitando seu ato — Não me deve nada.

Como se quisesse compensar sua atitude um pouco ofensiva, Edward estendeu sua mão para que eu a pegasse, me ajudando a levantar. Olhei para seu gesto por algum tempo, pensando na sua simplicidade e, ao mesmo tempo, no tamanho de seu significado.

- Podemos conversar sobre isso depois? — Falei, agora encarando seus olhos dourados.

Ele não se mexeu, sua mão ainda estendida para que eu a tomasse. De alguma forma, entendi que aquilo não era um “não”, então aceitei sua ajuda, segurando firme sua palma. Mais uma vez, a pequena corrente elétrica percorreu minha pele no lugar onde estava encostada a pele dele, e então me permiti aproveitar e me acostumar com aquela sensação.

Quando Victoria deixou a mesa, antes de nós dois, senti os dedos dele se fecharem e apertarem minha mão com força, não me machucando, mas sim passando algum tipo de mensagem como “não, não quero soltar”. E então esse pequeno gesto fez com que meu coração começasse a bater freneticamente, como se eu fosse uma pré-adolescente descobrindo que seu amor platônico na verdade era correspondido. Só voltei a notar outra vez o mundo à nossa volta quando Victoria se manifestou. Já estávamos na rua, na outra calçada, e eu não me lembrava de como fomos parar lá. Instintivamente, quando ela se virou, me forcei a soltar a mão de Edward, que pareceu irritado com minha atitude.

- Vai trabalhar amanhã? — Victoria o encarou, interrogativa.

Ele pareceu ponderar por algum tempo, e eu me perguntei o motivo da dúvida dela. “Amanhã” era segunda-feira, por que ele não iria trabalhar?

- Vou. — Ele respondeu, e ela pareceu se iluminar com sua simples resposta.

- Vou estar esperando.

Então tive a impressão que Victoria não se despediu adequadamente de Edward porque, se o fizesse, teria que se despedir de mim também. Por isso, um “até logo” pontuou sua frase direcionada para nós dois, e a última coisa que pude ver foi ela entrando em seu carro, dando a partida e sumindo pelo final da rua pouco movimentada.

- Por que soltou minha mão? — Ele quebrou o silêncio, me encarando com um olhar acusatório.

- Porque Victoria não ia gostar de nos ver... — Comecei, mas logo fui interrompida.

- E por que você se importa com o que ela gosta ou deixa de gostar?

- Não quero que ela goste menos de mim.

Ele recebeu minha explicação calado, e depois de me encarar por algum tempo, o que constatei ser mais uma profunda e minuciosa análise, finalmente acionou o segredo do carro e abriu a porta do carona para que eu entrasse.

- Onde vamos? — Perguntei com o carro já em movimento, grata a mim mesma por notar que estava desenvolvendo a capacidade de quebrar o silêncio entre nós dois com mais facilidade a cada dia.

- Comprar algumas roupas pra você. Como hoje é domingo, a maioria das lojas que eu queria dar uma olhada estão fechadas, então vamos ter que ir no shopping.

Me senti contrariada outra vez com a lembrança da idéia de Edward. Tossi para que minha voz soasse mais convincente e mais segura.

- Eu não quero...

Edward parou em um sinal vermelho e me encarou outra vez, com uma expressão de “me escute” que me fez parar de falar para ouvir o que ele iria dizer.

- Você se dá conta de que sobraram poucas roupas... “usáveis” na sua mala?

- Sim...

- E que, cedo ou tarde, vai precisar de mais roupas além daquelas?

- Eu sei...

- Isso significa que se não comprarmos mais peças, algum dia você vai acabar tendo que andar nua dentro de casa.

Outra vez, senti meu rosto ferver instantaneamente com os milhares de significados ocultos que eu sabia que ele havia, propositalmente, empregado naquela frase.

- Eu só não quero que você gaste ainda mais comigo! — Me apressei em falar, tentando sentir menos vergonha.

- Quer que eu banque o esnobe e fique te falando o tempo todo que eu posso gastar a quantidade que eu quiser?

- Não, só quero pagar as minhas coisas.

- Por mim você podia queimar todo aquele seu dinheiro, não te faria falta alguma. — Ele começou, empregando veneno à sua voz, e pude notar que não havia sido de propósito, não para me atingir: Edward só lembrava de onde vinha o pouco dinheiro que eu tinha guardado, e simplesmente odiava isso. — Além do mais, sou eu que quero te dar alguns presentes. Portanto, sou eu que devo pagar.

- Você não deve pagar nada pra mim. — Comecei, um pouco mais exaltada do que o normal.

- Qual o seu problema com isso? Por que é tão aversa à idéia?

- Porque eu odeio o fato de que, desde o primeiro momento em que nos conhecemos, tudo o que você fez foi gastar dinheiro comigo.

Pontuei a frase já sentindo o peso que ela deixaria em cima das nossas cabeças. Essa era a mais pura verdade, mas talvez fosse razoável considerar a possibilidade de não mencioná-la daquela forma. Infelizmente, as palavras saíram mais rápido do que meu bom senso, e então todo aquele significado pairava no ar entre nós, tornando o silêncio bastante desagradável.

Ele ficou quieto por muito tempo, apenas olhando para frente e evitando bater contra um poste. Eu sabia que ele devia estar muito puto agora, e desejei que ele soubesse que minhas palavras não foram propositais. Ainda assim, me mantive calada, recolhida no meu canto, esperando por sua reação.

- Eu não estou querendo te comprar. Estou fazendo isso porque me sinto responsável pelo seu bem estar. E se você não entende isso, então nós temos um problema bastante sério aqui.

Continuei calada, absorvendo sua fúria disfarçada pela suavidade de sua voz, mas depois de algum tempo, o que parecia suficiente para que ele já estivesse menos irritado, voltei a falar, em voz baixa.

- Só queria que você me deixasse participar disso também. Nem que fosse só um pouco. Nem que fosse pra me sentir um pouco melhor.

Ele suspirou, e então tive novamente a sensação de que aquilo não havia sido um “não”. Me senti um pouco mais animada com a idéia de que Edward parecia ficar cada vez mais maleável com relação às suas decisões, e então deixei que o resto da viagem fosse preenchido pela melodia do piano que tocava no CD do carro.

Nossa ida ao shopping poderia ter sido considerada um pequeno pesadelo se ele não estivesse lá.

A primeira coisa com a qual tive que me preocupar eram as pessoas. Tomada por um pânico crescente à medida que caminhava pelos corredores, eu mantinha a cabeça sempre abaixada e os olhos no chão, com receio de que no momento em que olhasse para algum rosto, o reconheceria como um antigo cliente. Para piorar as coisas, nós estávamos em um shopping daquela região, onde todos eram da classe alta, aumentando minhas chances de ser identificada.

E uma coisa era ser reconhecida como uma puta estando sozinha. Outra coisa era ser reconhecida como uma puta com Edward ao meu lado, o que provavelmente faria com que eu desejasse morrer de forma rápida e indolor.

Felizmente, isso não aconteceu.

No início, Edward fez menção de entrar em determinadas lojas que eu sabia serem absurdamente caras, só de olhar para a vitrine e para as caras das atendentes, que me olhavam de cima a baixo como se eu fosse algum animal de esgoto. Para cada uma das lojas, eu tentava dar uma desculpa e desviá-lo de seu caminho, mas foi quando eu disse, na sua terceira tentativa, que não queria entrar porque parecia frio lá dentro, que ele entendeu minha tática.

Pedi pelo amor de todos os deuses para que fôssemos em uma simples loja de departamentos, e obviamente ouvi reclamações de Edward. Ele parecia decidido a comprar coisas com preços exorbitantes, então quando notei que meus pedidos não estavam surtindo efeito, garanti a ele que algum dia poderíamos voltar e escolher as lojas que ele quisesse, contanto que aquele dia fosse meu.

Ele acabou aceitando, a contragosto, então fomos parar em uma Macy’s. Como queria ir embora logo, escolhi aleatoriamente peças de roupas de diferentes estilos e cores. Não experimentei nada, alegando que qualquer coisa do tamanho P serviria em mim. Por vezes, tentei me separar dele para poder pesquisar preços, mas quando ele me encontrava, já nervoso com o receio de que eu pudesse ter fugido dele, ficava mais furioso ainda quando me via olhando as etiquetas.

Quando decidi que já havia coisas demais, informei-o de minhas escolhas, mas ele não reagiu como o esperado. Parecendo decidido, Edward me avisou de que não sairíamos dali sem, no mínimo, o triplo de peças que eu havia escolhido, e então eu quase quis agredi-lo.

Já era de noite quando chegamos ao apartamento dele. O porteiro foi, mais uma vez, incumbido de levar todas as dezenas de sacolas para cima, provavelmente pensando que eu era algum tipo de aproveitadora barata, me beneficiando da ingenuidade de Edward. Quando o elevador chegou ao último andar, imediatamente voltei aos meus dilemas e preocupações.

Bastou passar pela porta para que eu me lembrasse de me perguntar como seria aquela noite — mais uma noite ao lado dele. Era o segundo dia completo que eu passava na sua companhia, e ainda assim as coisa pareciam estranhas. Felizmente, a quase casualidade daquela tarde de compras no shopping fez com que um pouco do gelo que existia entre nós fosse derretendo, mas o bloco gelado, maciço e invisível ainda estava lá.

Nós não éramos um casal normal, de namorados ou amantes. Éramos duas pessoas vivendo no mesmo ambiente e sem ter idéia de como fazer essa coexistência funcionar confortavelmente. Éramos duas pessoas com muito medo de causar dor uma a outra, de dizer coisas que pudessem ser tomadas como insultos. Éramos pessoas em constante tensão, quando juntas. Em constante agonia de não saber como agir, como olhar, como tocar, como sorrir direito.

- Fome?

Me assustei com sua voz grave me tirando de meus devaneios. Não sabia quanto tempo havia se passado desde que chegamos ali. Notei que estava sentada na cama do quarto de hóspedes, já podendo considerá-lo como meu por me sentir tão mais à vontade ali, sozinha, do que no quarto de Edward, em sua companhia. O que não significava necessariamente que eu me sentisse melhor.

- Não. Não costumo jantar.

Notei que sua expressão parecia levemente decepcionada, mas antes que pudesse dizer a ele que eu não estava negando tudo que ele me oferecia de propósito, Edward falou outra vez.

- Ah... Tudo bem então. Se mudar de idéia, me avise. Eu preparo alguma coisa. Tem frutas na geladeira também.

- Ok. — Falei de forma simples.

- Ok... — Ele começou, com aparência cansada — Eu vou tomar um banho e me deitar, então. Não estou acostumado a ficar andando por tanto tempo em um shopping. Acho que só as mulheres têm esse dom.

Vi um sorriso tímido se formar em seus lábios, como se estivesse tentando me mostrar que tinha acabado de tentar ser engraçado. Continuei séria, não com o intuito de magoá-lo, mas porque eu não conseguia sorrir de forma verdadeira. Não ainda.

Ele voltou a ficar sério ao ver que sua brincadeira não surtiu efeito em mim, e quando falou outra vez, pude notar em seu nervosismo evidente que tudo o que havia dito até agora era só uma desculpa que levaria o tempo necessário para que ele me sondasse.

- Você vem? Quero dizer, agora ou depois?

Ele tinha receio que eu quisesse dormir no “meu” quarto, por isso se apressou em me dar apenas uma opção: Não se, mas quando. Sem o menor motivo, estava cada vez mais evidente agora que vê-lo nervoso e inseguro me divertia de certa forma, por mais cruel que aquilo pudesse parecer. Era como se me consolasse o fato de saber que ele também tinha suas fraquezas, e que, principalmente, sua maior fraqueza era eu mesma. Era como se, de repente, eu não me sentisse tão pequena, tão diminuída perto dele. Era como se eu fosse um pouco mais importante do que eu sempre imaginei ser. Ser valorizada por um homem era uma sensação desconhecida para mim, mas ser valorizada pelo homem que eu amava, se era isso que estava acontecendo, era melhor do que qualquer coisa.

— Não sei. — Me esforcei para dar a resposta mais ambígua possível — Acho que também preciso de um banho. — E, dizendo isso, olhei para o banheiro à minha frente.

- Claro... — Ele começou, um pouco distraído — Vou deixá-la à vontade... Edward permaneceu no lugar, me encarando sem dizer nada, mas seus olhos eram expressivos, e de repente quase pude ouvi-los pedir para que eu não o negasse. Não sabia quando havia adquirido a capacidade de lê-lo com tanta clareza, mas o fato era que eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

Finalmente, ele se deu conta de que estava demorando mais do que o normal ali, então se retirou do quarto, me deixando sozinha outra vez.

Então, eu me perguntei: Até onde iria o meu contentamento? Até onde eu chegaria para vê-lo perder o controle?

Edward’s POV

Já era a terceira vez que eu passava pelo canal 107 da minha tv. Cada canal demorava precisamente um segundo diante de meus olhos, talvez por uma lógica inconsciente que me fazia contar, através do clique no controle remoto, o tempo que Isabella estava demorando.

Aquela noite estava anormalmente quente, por isso eu estava sentado na cama, olhando pateticamente para a enorme tv plana à minha frente, apenas vestindo uma calça de moletom cinza, não prestando atenção em absolutamente nenhum programa que passava rapidamente pelos meus olhos.

Por que ela estava demorando? Talvez fosse melhor verificar. Mas e se Isabella tivesse decidido não dormir aqui? Ela viria me avisar?

Canal 201. 202. 210. De volta ao canal 1. Canal 2. Canal 25.

Meu dedo parou em cima do botão “próximo” quando ouvi a porta sendo aberta ao meu lado. Imediatamente, olhei para o lugar e a vi fechando a porta atrás de si, me encarando com simplicidade.

Ela tinha os cabelos molhados, caindo em ondas pelos ombros magros, que contrastavam com seu tom de pele pálido e combinavam com suas sardas claras. As únicas peças de roupa que vestia eram uma calcinha preta confortável e uma camiseta justa branca, que delineava perfeitamente sua cintura e seus seios, fazendo com que ela parecesse ainda mais magra e menor. Os hematomas por toda a extensão do seu corpo eram evidentes, esverdeados e amarelados, e então me perguntei se ela havia feito aquilo de propósito, para me lembrar do animal descuidado que eu era.

Meu coração começou a bater de forma descompassada por uma série de motivos. Primeiro, ela estava ali. Ela não havia se negado a vir até mim, e isso era tudo o que eu queria. Segundo, ela estava absurdamente linda com aquelas roupas simples e com aquela expressão calma, o que fez com que meu corpo reagisse instantaneamente, e então apertei um pouco as pernas para não deixar evidente o início de uma ereção.

Mas foi pelo terceiro motivo que senti minha cabeça girar um pouco e meu nervosismo atingir um nível alarmante, a ponto de me fazer pensar que talvez pudesse ter um ataque cardíaco ou algo similar. No exato momento em que ela fechou a porta, por algum motivo sobrenatural talvez, uma lufada de vento me trouxe um perfume que há muito tempo eu não sentia. E foi exatamente aquele perfume que fez com que meu corpo subitamente parecesse gelatina derretendo.

Fechei os olhos e inspirei uma vez. Duas vezes. Três vezes, testando meu auto-controle e principalmente minha sanidade. Quatro vezes, e o perfume parecia cada vez mais forte. Cinco vezes. Seis vezes, e então tudo que eu podia sentir era aquilo, como um tapa na cara, como a lembrança desesperante de um vício adormecido, e que voltava para me atormentar com uma força assustadora.

Abri os olhos e a vi ali, à minha frente, alguns centímetros de mim, me observando calmamente, mas com um leve toque de preocupação ou curiosidade. Sem dizer nada, ela tirou o controle remoto das minhas mãos e apontou para a tv às suas costas, sem nem ao menos olhar, desligando o aparelho e nos deixando em um quase total silêncio, que era comprometido unicamente pela minha respiração pesada e desesperada.

- Eu sei que você não quer lembrar de nada do passado. — Ela começou, e eu não conseguia fazer mais nada além de ouvir — Mas o creme melhora as minhas marcas. Você sabe disso.

Eu sabia disso, mas não conseguia confirmar. Momentaneamente temi que todos os músculos do meu corpo tivessem sofrido algum tipo de choque e que não funcionassem mais. Mas minhas suspeitas foram descartadas assim que comecei a sentir meu membro latejar de excitação, e talvez ele estivesse até se mexendo, o que seria dolorosamente vergonhoso, mas eu não conseguia me importar.

Não parecendo notar nesse detalhe, ela continuou:

- Prefere que eu tire?

- Não! — Minha voz saiu fraca, mas convincente. Então, afinal de contas, eu conseguia ter alguma reação — Pelo amor de Deus, não...

Ela continuou me encarando, os olhos muito vivos e talvez querendo esconder um delicioso contentamento. De repente, me perguntei se não era exatamente esse seu objetivo: Me ter completamente perdido e descontrolado em suas mãos, entregue e submisso a ela de uma forma constrangedora.

Se esse fosse o caso, eu não poderia me importar menos.

Se era assim que ela me queria, era assim que ela me teria. Não porque eu concordaria com aquilo — apesar de que sim, eu concordaria — mas porque, no momento, não havia a menor possibilidade de lutar contra o poder que ela tinha sobre mim. Aquele poder era grande demais para que eu conseguisse evitar. Sempre foi, sempre seria.

Talvez com o objetivo de finalmente me matar, ela colocou cada uma de suas pernas ao lado das minhas e sentou no meu colo, sem quebrar a ligação entre nossos olhares, e então começou a brincar com seus dedos em mim, trilhando caminhos entre meu peito e minha barriga sem nenhum motivo aparente, e fazendo com que os pêlos da minha nuca se eriçassem todos ao mesmo tempo. Como era inútil tentar esconder a rigidez evidente entre minhas pernas, até porque ela agora estava sentada ali, não me mexi, apenas reunindo o mínimo da força necessária para formular uma frase.

- Está fazendo de propósito?

- Estou.

Claro que sim. Ela sabia do poder que tinha sobre mim. Qualquer idiota poderia dizer isso olhando para meu estado quando ela estava por perto. Fui tomado pelo antigo pânico de saber que ela tinha total convicção da minha dependência, e que, por consequência, poderia fazer qualquer coisa comigo. Mas dessa vez, eu não deixaria que esse medo me abalasse, então eu sabia que Isabella me tinha nas mãos, mas não me restava nada a não ser aceitar essa verdade.

Além do mais, de certa forma, eu estava amando aquilo.

De forma provocadora, mas ainda me encarando com olhos inocentes — uma característica dela que me enlouquecia — ela escorregou seus dedos outra vez para baixo, atingindo meu umbigo, mas dessa vez não parou aí. Com uma calma que me fazia ter vergonha de meu próprio descontrole, ela puxou o elástico da minha calça, envolvendo, sem nenhuma cerimônia, meu membro extremamente duro entre suas mãos pequenas, e sem ter tempo para pensar em mais nada, senti seus lábios tocando os meus.

Não era um beijo grosseiro ou desesperado. Era um beijo suave, lento, molhado, mas com um erotismo e uma intensidade que fizeram com que meu corpo, já completamente em chamas, começasse a tremer de prazer, literalmente. Nossos lábios se moviam devagar, sincronizados, deslizando de uma forma incrivelmente prazerosa, como jamais pensei que um beijo pudesse ser. Sua língua invadia minha boca lentamente, como se quisesse explorar cada centímetro dela, como se quisesse encontrar diferentes formas de encaixe, e esse movimento estava em uma perfeita e hipnótica sincronia com suas mãos em meu membro. Toda aquela mistura de sensações fez com que eu tivesse a certeza que, em algum momento daquela noite, de alguma forma, eu acabaria perdendo o controle.

Eu precisava de mais oxigênio do que conseguia inspirar, por isso minha respiração era alta. Sem o menor cuidado, envolvi meus braços no corpo fino dela e a puxei o mais perto possível. Nosso beijo se intensificou, parecendo mais urgente, mais sensual, e as únicas coisas que me impediam de entrar em combustão eram sua pele fria do banho e seus cabelos, ainda úmidos.

E somado a tudo isso, aquele perfume.

O que se seguiu depois disso foi muito rápido, pelo menos para a velocidade do meu raciocínio naquele momento, então as próximas coisas das quais eu tinha ciência eram meus dedos puxando para o lado com violência o tecido do meio de suas pernas e, por causa de sua excitação, meu membro deslizando com uma incrível facilidade para dentro dela, se enterrando completamente lá.

Fiquei imóvel, concentrado naquela nova sensação. Ela conseguia ser mais quente e mais macia do que eu costumava sentir, por isso precisaria de muito menos para chegar a um orgasmo agora. Movi seu corpo lentamanete para cima e para baixo uma vez, duas vezes, três vezes, me acostumando com o encaixe de nossos corpos e com a incrível sensação de senti-la plenamente, sem nenhum obstáculo.

Sem nenhum obstáculo. Sem nenhuma proteção.

Só então me dei conta de que, no calor do momento, havia perdido completamente a cabeça e a penetrado sem preservativo. E o mais estranho era que, embora devesse estar muito preocupado com isso, eu não conseguia voltar a mim. Devia me preocupar porque, mesmo querendo esquecer seu passado, não podia deixar de lembrar que como uma garota de programa, ela podia ter alguma coisa... Eu não sabia...

- Não se preocupe. — Ela falou, me olhando nos olhos e, pela primeira vez, mostrando sinais de vulnerabilidade.

Continuei encarando-a, sem mover um músculo sequer, e me perguntei se ela realmente tinha noção do dilema em que eu me encontrava.

- Eu quero... Não sei se eu posso... — Comecei, mas logo entendi que sim, ela sabia exatamente pelo que eu estava passando. Suavemente, Isabella encostou seus lábios nos meus e falou, uma voz muito baixa:

- Estou limpa... Eu prometo...

Eu acreditei nela, porque seus olhos eram um tipo de espelho de sua alma. De alguma forma, eu sabia que ela estava falando a verdade. Mas em todo o caso, mesmo que Isabella tivesse alguma doença, já era tarde, porque não havia nenhuma chance de me afastar dela agora, de parar o que já havia começado.

Agarrei seus cabelos com força e a puxei para mim novamente, tomando-a em um beijo, ao contrário de antes, furioso e urgente. Ela reagiu à minha atitude retribuindo o beijo e se agarrando aos meus cabelos, enquanto se movia metodicamente, fazendo com que meu pau saísse e entrasse em seu corpo cada vez mais fundo. Cada descida que ela dava arrancava um gemido meu, abafado por sua língua na minha, e tão rápido quando pensei que seria, senti o primeiro orgasmo chegando com força.

Tentando evitar meu clímax, rapidamente mudei nossas posições, colocando-a deitada no colchão e me posicionando em cima dela. Tratei de tirar de uma vez sua calcinha e sua blusa, e chutei para longe minha própria calça. Sem esperar, meti nela outra vez, enquanto deixava meu rosto apoiado em seu pescoço e inspirava profundamente o perfume de amêndoas.

Cada vez que sentia uma nova onda explosiva de desejo se aproximando, eu fazia com que nós mudássemos de posição. Com o tempo, essa sensação foi surgindo sempre com mais frequência, e em determinado ponto eu já não conseguia mais segurar o que tinha que sair. No último segundo, saí dela com muita rapidez e deixei que o líquido branco esguichasse em sua barriga, enquanto, um pouco zonzo, eu voltava de um maravilhoso estado de inconsciência.

Mas eu não estava satisfeito, ela muito menos. Depois de uma rápida busca, usei sua blusa branca para enxugar os resquícios de sêmen e, poucos minutos depois, já pronto outra vez, eu recomecei nossa noite. Então, dessa vez, eu pude aproveitar cada sensação de como era possuí-la de muitas maneiras, em muitas posições, sem o risco de um iminente orgasmo instantâneo.

Quando nossa noite chegou próxima do fim, eu estava exausto. Isabella parecia prestes a dormir a qualquer momento, e quando se deu conta disso, apressou-se em levantar e rumou para o banheiro, em busca de um banho. Quando ouvi o chuveiro sendo ligado, sem saber muito bem se minha repentina idéia seria bem vinda ou não, fui me juntar a ela debaixo da ducha morna. Como ela se mostrou novamente receptiva a mim, fizemos sexo mais uma vez, e eu me perguntei se seria capaz de parar com aquilo caso ela nunca me negasse.

Provavelmente não.

Quando voltamos para o quarto, vesti minha calça cinza e notei que suas roupas — tanto a blusa quando a calcinha — estavam em estado de calamidade pública. Ela pareceu entender isso antes de mim, e foi resmungando, já sonolenta, para seu lado da cama, deixando-se cair ali e cobrindo-se com o lençol, sem se importar em vestir qualquer outra coisa.

Sorri de sua personalidade rabugenta que nunca havia conhecido, então deixei no cesto de roupas para lavar as duas peças encharcadas e fui me juntar a ela na cama. Já quase inconsciente, me agarrei ao seu corpo automaticamente, e ao sentir um resquício do perfume que, eu suspeitava, um dia seria a causa da minha morte, comecei a sentir um início de ereção outra vez.

Ri de minha reação inapropriada, embora involuntária, e me contentei com o fato de que aquilo não era culpa minha, mas sim dela. Assim como tudo que eu sentia ultimamente. Meus medos, meu descontrole, meu nervosismo, minha alegria.

Era tudo culpa dela.

Notas finais
AVISO

Chegamos em Dezembro, e fim de ano, como todo mundo sabe, é só correria.
E se essa é uma verdade indiscutível pra todo mundo, imaginem pra mim, que tenho 4 pessoas da família fazendo aniversário esse mês? :D
Dois são no meio dessa semana que entra agora, e logo depois disso, teremos o Natal. E todo mundo sabe que depois do Natal, a única coisa que todo mundo pensa é no Ano Novo. :D

Por que eu tô enrolando assim? Pra trazer uma notícia que algumas pessoas não vão gostar, mas que eu espero que entendam: Esse é o último capítulo da fic que será postado em 2010. Simplesmente não vou ter tempo de escrever, revisar e postar o próximo nesse fim de ano, porque minha vida tá corrida, ainda mais agora, por isso espero que vocês entendam e não fiquem muito tristes comigo.
Ano que vem tem o resto, então espero vocês lá! :P

Obrigada pelas reviews, pelas críticas, pelas idéias e pelas indicações da fic! *-*

Um beijo grande, lindonas.
Mel