De Que É Feito O Amor?
3 Confiança
Notas iniciais
Havia em tempos, nos mares que banhavam aquela imponente cidade costeira, uma jovem e bela sereia. Ruiva, com longos cabelos cacheados, olhar encantador e a cauda graciosa repleta de belíssimas escamas azuis cintilantes, gostava de escutar ao longe as conversas dos marinheiros. Ouvia-os falar sobre as suas futuras navegações enquanto planeava cuidadosamente os seus próximos ataques.
Numa quente e iluminada manhã, avistou um rapaz alto e jovem sentado no areal. Com o olhar focado no horizonte, parecia estar perdido em si mesmo. A bela sereia decidiu divertir-se um pouco e dirigiu-se a nado até perto dele. O rapaz surpreendeu-se assim que a viu aproximar-se, mas limitou-se a observá-la atentamente durante vários segundos. A sereia preparava-se para abrir a boca e dizer algo, quando o rapaz finalmente, apercebendo-se de que a rapariga que via à sua frente não levava nada vestido, questionou:
– O que te aconteceu? Precisas de ajuda com alguma coisa?
A sereia deu uma risada, contemplando a expressão confusa do rapaz. Tinha que estar mesmo muito perdido para não se ter apercebido daquilo que ela era.
– Oh, não te preocupes, não me aconteceu nada. – falou, olhando-o docemente – Estou apenas a nadar um pouco. Está uma bela manhã, não achas?
O rapaz acalmou-se um pouco e voltou a observar o mar com aquele olhar perdido.
– Sim, muito bonita…
A sereia começou a interessar-se naquele humano, e atacou com mais perguntas.
– Como te chamas? És desta cidade?
Este olhou-a deprimente e suspirou.
– Prefiro não falar sobre mim neste momento…
A outra criatura olhou-o novamente, curiosa.
– Oh, estou a ver, problemas pessoais? A praia é um bom lugar para afogar as mágoas... – comentou ela, enquanto nadava um pouco mais em redor da zona onde o rapaz se encontrava.
– É, só resta afogá-las aqui quando não temos mais ninguém em quem confiar... – o jovem suspirou novamente.
– Oh, estou a ver. – a sereia esboçou um terno sorriso – Sabes, podes confiar em mim. Eu não vou contar a ninguém, nem farei nada que te desiluda, garanto!
O rapaz olhou-a um pouco surpreendido. Poderia realmente confiar naquela rapariga desconhecida sobre a qual nada sabia? A verdade é que tinha imensa vontade de desabafar com alguém.
– Vá lá, confia em mim... – a sereia aproximou-se um pouco mais do rapaz e, erguendo ligeiramente o seu corpo, pousou-lhe as mãos sobre o rosto, convidando-o a olhá-la nos olhos.
– Eu… não sei se deveria. – o jovem começava a sentir-se um pouco intimidado com toda aquela situação.
– Claro que deverias. Se me confiares o teu segredo, eu também te confiarei o meu, e assim não estaremos em desigualdade…
O rapaz fechou os olhos e suspirou. De que importava afinal? Contar o que lhe havia sucedido a uma rapariga da praia não poderia deixar a sua situação pior.
– É uma longa história…
– Estou disposta a ouvi-la.
Assim como a sereia, o jovem esboçou um ligeiro sorriso, e procedeu com a sua história. Contou-lhe o que tanto lhe trazia desgostos, falou-lhe das pessoas que haviam traído a sua confiança. Deixou escapar algumas lágrimas ao contar-lhe como tinha sido abandonado por todos. Segurando-lhe nas mãos, confiou àquela criatura todos esses segredos que guardava e que tanto lhe atormentavam a alma naquele momento. E assim que acabou de lhe contar os seus problemas, olhou melancolicamente para a sereia, que lhe retribuiu o olhar com um sorriso.
– E é isso. – o rapaz concluiu, com o mesmo ar perdido e entristecido que levava quando ali chegara.
A sereia deslizou a sua delicada mão pelos cabelos do jovem e dirigiu-lhe novamente aquele olhar doce.
– Agora compreendo-te. Não te preocupes, podes confiar em mim. – sorriu – E agora devo depositar também em ti a minha confiança…
Dito isto, a bela criatura aproximou os lábios do ouvido do rapaz e murmulhou-lhe umas quantas palavras. Assim que se afastou, o jovem ficou a olhá-la, atónito. A sereia de imediato lhe lançou um último sorriso, este um pouco mais forçado, e virou-lhe as costas a nado, voltando para as profundezas do mar.
Dias se passaram. Estava de novo uma manhã solarenga, o mar estava calmo e um grupo de marinheiros preparavam o seu navio para se aventurarem mar adentro. Ao longe, a bela sereia vigiava-os, preparada também ela para uma pequena aventura. Observou como o barco se começava a mover por entre as ondas, e seguiu-o silenciosamente pelo interior da água.
– Está um belo dia para navegar! – comentava com os seus companheiros um dos homens no interior do navio.
Os outros acenavam com a cabeça, felizes, desconhecendo o perigo que se aproximava. A sereia observou-os por um tempo e, quando concluiu que seria a altura certa para atacar, nadou cautelosamente até junto da embarcação.
E foi então que o encanto sucedeu. De súbito, o grupo de marinheiros viu-se cercado pela força delirante da bela voz daquela criatura. Cantava uma canção. Uma canção de letra indecifrável que parecia conduzi-los ao abismo. Enquanto espalhava a sua doce voz pelos oceanos, a sereia observava, deleitada, o sofrimento daqueles homens. Via como se lançavam ao mar desesperados, e como os que procuravam manter a sua sanidade perdiam rapidamente o controlo do barco. Como ela adorava aquilo. Como a satisfazia poder descarregar toda a sua raiva naqueles pobres mortais. Esses homens humanos, egoístas e cruéis. Adorava vê-los perder de vista todos os seus sonhos e esperanças, sem nada poder evitar. Era esse o seu destino, de qualquer forma. Era uma sereia, devia defender a imagem da sua espécie.
O seu deleite não podia ser maior, até ver ao longe um rosto que não esperava encontrar. Era o rapaz do outro dia. Surpreendeu-se, mas logo esboçou um largo sorriso. Aquilo ia ser divertido. Aproximou-se dele. Ainda estava vivo. Passou-lhe as delicadas mãos pela face e forçou-o a abrir os olhos e olhá-la firmemente.
A expressão do rapaz era de ligeira confusão, no entanto este parecia absurdamente calmo, como se já esperasse aquele momento.
– Eu sabia… só podia acabar assim. Aqueles em que confio… acabam sempre por me atraiçoar. – o jovem falou com dificuldade, e antes que a sereia pudesse sequer pensar numa resposta, abriu novamente a boca – Mas suponho que é o destino. É a tua obrigação matar-me, é a minha obrigação morrer assim. E desta forma, não irei revelar o teu segredo a ninguém…
– Não, cala-te! Espera, eu... – a sereia sentia-se confusa. Tinha feito aquilo tantas vezes, mas nunca havia ouvido tais palavras da boca das suas vítimas, nem mesmo dos que se perdiam de amores por ela.
– Não te preocupes, eu confio em ti... – o rapaz esboçou um sorriso. Um último sorriso. A sereia, chocada, empurrou-o para trás e nadou o mais depressa que pôde para longe dali. Lançou-se sobre as ondas violentas, mergulhou até às profundezas. Rompeu cardumes, devastou algas, destroçou corais, na procura do mais fundo, cruel e sombrio local.
E nunca, nas águas misteriosas que banhavam aquela região, voltou a ocorrer tamanha catástrofe. Jamais, desde que há memória, foi avistada alguma bela sereia a nadar nas águas da região. E nenhum dos segredos então guardados se revelou perante a superfície.
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