De Pesadelo a Sonho
1 Capítulo 1
Nunca esqueci o dia em que consegui fugir do orfanato. Quer dizer, desde o dia em que meu pai assassinou minha família, não consegui esquecer seu rosto e não sei se algum dia eu vou conseguir perdoá-lo. Lembro-me muito bem dos meus últimos dias com a minha família antes de aparecer num orfanato.
Era uma bela tarde de primavera em Seattle, EUA. Estávamos comemorando o aniversário da minha avó. Então, estávamos de passagem, pois morávamos em Los Angeles, CA. E esse dia de sonhos, alegria, harmonia, logo se transformou no nosso pior pesadelo. Meu pai estava desaparecido havia alguns dias e ninguém sabia dele. De repente, escutamos um grito vindo da sala. Era minha irmã Clara. Eu saberia que era ela de longe. Saímos correndo para a sala, pois estávamos na varanda, e vimos seu corpo ensanguentado no chão. Logo gritei e me ajoelhei ao seu lado tentando cobrir o ferimento na garganta, mas já era tarde demais. Minha irmã estava morta.
Olhamos para o ser humano que acabara de assassinar minha irmã, e logo vi que era meu pai. Não acreditei no que estava acontecendo. Não conseguia acreditar no que ele havia feito. Ele acabara de matar a própria filha. Ele estava com a camisa toda ensanguentada, com um estilete na mão. Seu rosto era sombrio e me dava medo. Minha mãe me colocou atrás dela para proteção.
- Roberta, suba para o seu quarto e tranque sua porta. Leve a Mel com você. – minha mãe disse. Mel era a minha prima mais nova.
Peguei no braço de Mel e subi para o quarto, tranquei a porta e esperei a morte. Eu sabia que ele ia matar todos lá embaixo. Então, eu estava mais que preparada para o que vinha na minha direção.
Mel chorava sem parar e eu tentava ao menos confortá-la. Ela tinha apenas cinco anos e eu com 14, já estava na pré-adolescência. Enquanto eu abraçava Mel, uma luz surgiu na janela do meu quarto. Era meu tio.
- Venham meninas, eu tiro vocês daqui. – ele disse sussurrando.
Olhei para Mel e fomos em direção da janela.
- Vamos Mel!
Ela foi a primeira a descer e eu desceria logo atrás. Assim que pulei a janela para começar a descer, meu pai arrombou a porta do meu quarto e veio logo na minha direção. Desci o mais rápido que pude e saí correndo. Meu tio colocou Mel no carro e foi embora. Olhei para trás e não pude mais ver o carro. Desesperada, comecei a gritar:
- TIO! MEL! ONDE ESTÃO VOCÊS? AJUDEM-ME! EU ESTOU SOZINHA AQUI!
Percebi que eu já estava chorando e entrando em desespero. De repente, ouvi a voz do meu pai.
- ROBERTA! VOU TE PEGAR, ROBERTA! NÃO ADIANTA SE ESCONDER!
Meu pai só fazia essas loucuras quando estava bêbado, mas acho que dessa vez, ele bebeu o bar inteiro. Assim que olhei para o lado, eu o vi em meio à neblina. Ele começou a correr na minha direção e eu também corri. Corria o mais rápido que eu podia, então tropecei e. vi tudo ficar preto.
Eu estava morta. Com certeza. Mas, os mortos pensam? Sentem dor? Eles conseguem ouvir alguma coisa quando estão por baixo da terra, dentro de um caixão? Ao longe, ouvi uma voz. Era uma mulher e pensei que era a minha mãe.
- Olhem, ela já está acordando! – disse a voz.
Eu? Acordando? Como assim acordando? Eu tinha acabado de morrer!
Olhei em minha volta e umas 20 pessoas me olhavam. Sentei assustada e perguntei:
- Quem... Quem são vo. Vo. vocês? Onde estou? É claro que não estou em casa...
A mulher que me olhava respondeu:
- Calma querida. Não vamos lhe machucar!
- Onde estou? – perguntei com lágrimas nos olhos.
- Você está num orfanato.
Como? Eu ouvi mesmo ela falando “orfanato”? Ela estava ficando louca.
- Orfanato? Mas quem me trouxe aqui... Ou, como eu vim parar aqui?
- Lupita e Mia estavam colhendo flores no bosque aqui perto, e te acharam no meio da estrada. Você perdeu muito sangue, então as meninas te trouxeram aqui e chamamos um médico. Vai ficar tudo bem! – ela me disse.
- Então, eu não estou morta?
- Claro que não. Pode ficar conosco o tempo que precisar. Sinta-se em casa.
Ela me parecia uma boa pessoa. Mas, estava traumatizada com as cenas que presenciei em minha própria casa. Vai ser difícil esquecer cenas daquele tipo. Desde aquele dia, eu percebi que nenhum lugar é seguro, nem mesmo a sua própria casa.
Os dias foram passando e novas crianças e adolescentes foram surgindo no orfanato. Eu estava me acostumando com a rotina e já tinha amigas. Lupita, Mía e agora uma garota chamada Jose.
Dois anos depois...
O tempo foi passando rápido. Hoje é meu aniversário de 17 anos. Ainda não estava acreditando que no próximo ano, eu alcançaria a maioridade. Então, as meninas estavam preparando uma festa para mim. Eu estava na cozinha ajudando com os preparativos. Alguém bate na porta.
- Roberta, por favor, você pode ver quem é? – perguntou-me Carolina.
- Claro. Eu já volto!
- Obrigada.
Abri a porta e por trás dela tinha o garoto mais bonito que já vi. Seu cabelo ela enrolado, seus olhos eram de um castanho maravilhoso e sua pele era branca como se fosse porcelana. Voltei a realidade.
- Pois não?
- Boa tarde, eu me perdi da minha família e gostaria de saber se posso ficar.
Estava nevando em Seattle naquela época. Eu o vi congelando lá fora e logo o coloquei para dentro.
- Claro, entre! Espere aqui. – saí correndo e chamei Carolina. – Carol, vem depressa, tem um garoto na sala que se perdeu da família.
Logo Carolina já estava na sala trazendo um cobertor.
- Coloque isto, vai lhe aquecer.
- Obrigado!
- Como é seu nome? – perguntei.
- Diego.
- Diego do que? – perguntou ela.
- Bustamante. – respondeu ele.
Carolina me olhou e eu retribuí o olhar.
- Filho do chefe de governo? – perguntei assustada.
- Sim.
- Mas, espera, você se perdeu ou te abandonaram? – perguntou Carolina.
Ele olhou para Carolina e depois para mim, porém com lagrimas nos olhos.
- Roberta, fique aqui com ele que eu vou preparar um chá para ver se ele se acalma.
- Tudo bem.
Ele me olhava e eu retribuía o olhar.
- Ei, não chore. Não se preocupe, aqui você está seguro. Eu perdi minha família há dois anos. – eu disse com lágrimas a ponto de cair.
- Você também foi abandonada? – perguntou-me ele.
Eu o olhei, já chorando.
- Não, muito pelo contrário. Meu pai ... – não consegui continuar, eu chorava muito.
- O que houve? Ele morreu?
- Não, ele .. ele matou a minha família.
- Como?
- Só sobrou eu, minha priminha e meu tio. Mas, não sei onde eles estão. Então, Mia e Lupita me encontraram e me trouxeram para cá.
- Nossa... que triste!
- Bom, a Carolina já deve estar vindo com o chá. Me desculpe, tenho que ir ... – eu disse, deixando ele sozinho na sala.
Cheguei no meu quarto chorando. Mia e Lupita foram até mim.
- O que foi, Roberta? – perguntou Mia.
- O que houve? – perguntou Lupita.
- Nada, só lembrei da minha família.
- Ai Roberta, não fica assim. Me conta, quem tocou no assunto? – perguntou Mia.
- O menino novo.
Lupita olhou para Mia.
- Mas, que menino?
- Ele chegou faz um tempo. Eu estava com ele lá embaixo. Ele estava na neve e estava congelando. Então a Carol foi fazer um chá para ele, porque foi abandonado pela família.
- Nossa, Roberta, que horror.
De repente, ouvimos uma batida na porta. Era Carolina.
- Roberta, está tudo bem?
- Sim, Carol. Estou melhor.
- Que bom. Lupita, Mia, vocês poderiam me ajudar na cozinha?
- Claro Carol. Até mais tarde, Roberta.
Assim que elas saíram, Carolina olhou para mim e depois para fora do quarto. Ela sorriu e eu estranhei. Olhou para mim novamente e Diego entrou.
Sequei minhas lagrimas enquanto ele vinha na minha direção.
- Oi. – disse ele.
- Oi. – eu disse sorrindo.
- Olha, me desculpe.
- Desculpas? Porque? – perguntei
- Porque eu fiz você tocar no assunto da sua família e você ficou triste.
- Está tudo bem. Já se passaram dois anos. Desculpas aceitas. – sorri.
- Que bom. Obrigado. – ele disse me dando um abraço.
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