De Pai Para Filho
1 Capítulo 1 - A fuga da cidade (Fugere urbem)
Notas iniciais
-Isso... dó maior, ré maior e depois volta pro lá menor... isso! Viu? Não foi tão difícil assim, foi? Agora você sabe uma música no violão!
—Queria que o Johnny Cash estivesse vivo... esse meu cover de "Hurt" dá de 10 a 0 na música dele! — eu disse. Ah, a propósito, oi! Sou Peter, e tenho 17 anos. Moro com o meu irmão mais velho, Jonas, que me ensinou a música, e meu pai, Carl.
—Vai nessa, Peter, vai nessa... ei, o papai tinha pedido pra um de nós ir buscar as rações na fila que está tendo. Vai você, eu te ensinei a tocar a música, você tá me devendo uma!
—Mas... tá bom, vai.- concordei, contrariado. Eu precisava terminar a maquete da cidade que estava construindo, mas o Jonas não me dá uma trégua. Adoro construir coisas e analisar estruturas, segmentos, construções e tudo mais... se estivéssemos no mundo antigo, papai me disse que eu cursaria algo chamado "engenhafia" ou algo assim.
Coloquei os fones de ouvido e saí de casa, rumo às rações. O exército distribuía uma por membro da família, a cada 2 semanas. Tem gosto de comida velha e gelada, mas dá pro gasto. De vez em quando eu e Jonas saímos da zona de quarentena pra caçar umas coisas melhores para comermos. Teve uma vez que até encontramos uma maçã!
Andando por entre os quarteirões, vi quatro soldados interrogando um casal, que se encontrava de joelhos. Um soldado não fazia questão de esconder o que estava falando, já que ele estava gritando bem alto:
—Vocês estão cansados de saber das regras! Não é permitida a saída não autorizada da quarentena! E além do mais, é estritamente proibida a utilização de qualquer aparelho tecnológico, porém vocês estavam com 2 celulares. O que eu devo fazer com vocês?
—Mas senhor, nós...- disse o moço ajoelhado, com trajes aos farrapos e sujos. Ele parecia bem atordoado, pois gaguejava muito e seus olhos pareciam implorar por misericórdia.
—Silêncio!- disse o soldado, que ouvia uma voz falar com ele no fone em seu ouvido.- Senhor, tem certeza? Mas... tudo bem. Ei, vocês dois. Levantem-se e virem para a parede, mãos nas costas.
O casal obedeceu as ordens do soldado e, quando fizeram, caíram juntos. Os tiros saíram em uníssono, sincronizados, quase um som perfeito. O casal não deve nem ter tido tempo pra raciocinar como seria o fim de sua vida. Em partes, isso era bom. Eu já havia presenciado uma cena parecida, mas isso nunca é agradável de se ver.
Chegando na fila de rações, por algum milagre, não tinha ninguém. Fui direto ao caixa pra solicitar os 3 sacos de comida e, logo quando fui pegar, o celular em meu bolso vibrou bem forte. Estremeci de medo, pensando que o atendente pudesse ter ouvido, mas ele só me entregou a comida e voltou a ler seu jornal. Respirei aliviado e tomei o rumo pra casa.
No caminho, entrei em um beco sem ninguém e puxei o celular pra ver a mensagem da Ellie, minha "amiga". Eu sentia algo a mais por ela, mas não tenho coragem pra dizer isso por agora. Conversávamos por um sistema chamado "Bluetooth", algo bem antigo. Ela me disse que está com medo de algum soldado encontrar o buraco na cerca que usávamos pra escapar da zona de quarentena, mas eu a tranquilizei, já que eu era um mestre do disfarce e escondi o buraco muito bem.
Chegando em casa, recebo outra mensagem da Ellie. Deixo as rações em cima da mesa de jantar e vou pro meu quarto, pra que o Jonas não fique me zoando. Só eu e ele sabíamos desse celular, nosso pai trabalha com o Governo, e ele sabe que a gente sabe que ter celulares é proibido por aqui, então não sabemos qual seria a reação dele se ele descobrisse isso.
Ellie estava me chamando para ir até uma cidadezinha ali perto, 10 km. Para nós não era tanto, já que mantínhamos duas bicicletas na área de fora da zona. Aceitei encontrá-la nas bicicletas daqui meia hora. Avisei o Jonas e ele disse para tomarmos cuidado. Não me preocupo com nosso pai, já que só volta pra casa tarde da noite. Jonas também não tem uma boa relação com ele, pois, segundo Jonas, ele matou nossa mãe porque ela quebrou alguma das leis da zona. Eu não estava vivo, então não posso opinar, não é mesmo? Peguei algumas coisas e parti rumo ao buraco da cerca.
Chegando nas bicicletas, encontro Ellie. Ela é um ano mais velha e puxa, que garota linda. Cabelos castanhos, sedosos, uma pele macia e os olhos da cor do mar. Bem, é o que meu pai me dizia, afinal, nunca vi o mar.
—Oi Peter! -ela me cumprimenta, animada pela "viagem".
—Oi Ellie! -respondo, meio corado- vamos nessa?
Pegamos as bicicletas e fomos em direção à cidade que ela falou. Foi um dia incrível, na cidade tinha um parque de diversões abandonado, então escalamos uma roda gigante, brincamos nos carrinhos, jogamos basquete e tudo mais. E, cara, como a Ellie ficava linda nessa regata preta com jeans branco...
No caminho de volta, conversamos um pouco.
—Gostou de hoje, Ellie?
—Claro! Definitivamente foi um dos melhores dias do meu ano!
—Que bom... -disse, completamente corado- escuta, eu queria te dizer uma coisa. A gente se conhece há um tempo e...
—Olha, borboletas! — Ellie saiu em disparada em direção as borboletas. Fui atrás dela, fitando os lindos insetos.
Depois que ficamos um tempo perseguindo elas, a atenção de Ellie retornou pra mim
—Ah, desculpa Peter, o que você ia dizer?
—Ahn... nada não, deixa pra lá.
Voltamos para a quarentena, deixamos as bicicletas escondidas e íamos entrar de volta na zona. Porém, quando passamos pelo buraco, meu pai estava lá, junto a 3 soldados, todos apontando armas pra mim e pra Ellie.
— Tsc tsc... garoto, você não tem jeito, né? — disse meu pai.
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