De Outra Maneira
9 Capítulo IX
Notas iniciais
Passei o dia todo me preparando para o Ritual. As garotas me ajudaram a tomar um banho com pétalas de rosas roxas e escolheram o vestido branco que cada uma usaria. O meu era um pouco curto, chegava até a metade das minhas coxas. Suas mangas eram da mesma altura do decote do vestido, formando uma renda. Ele estava no guarda-roupa da minha outra eu, que pelo jeito adorava usar vestidos. Lívia me mostrou uma foto em que ela estava junto de Melissa, Jacqueline, Sabrina e o meu eu do passado. Não tinha como negar, aquela garota era igualzinha a mim.
– Nunca poderíamos imaginar que a Sabrina faria isso com você! – Lívia exclamou, enquanto eu me deliciava na banheira de águas perfumadas.
– Fique tranquila. – Eu disse. – Logo eu serei uma bruxa de novo!
Todas abriram um largo sorriso.
– Mas tudo bem para você se os voluntários forem nós três e o Cauê, Lana? – Melissa me perguntou. – E se o Henry auxiliar seu pai no decorrer do ritual?
– Claro! – Eu respondi. – Mas para que servem os voluntários?
– Você verá no Ritual. – Melissa piscou para mim.
***
Depois de terminar o meu banho e vestir meu vestido, desci as escadarias até a sala de estar. Eu estava descalça, pois o ritual teria que ser celebrado assim. O chão estava um tanto quanto gelado, mas foi agradável, pois estava uma noite muito quente. Melissa, Lívia e Jacqueline usavam vestidos brancos e curtos também, mas bem diferentes dos meus. Cauê, Henry e o meu pai usavam túnicas brancas idênticas. Henry segurava o Rituais Bruxos, as velas e um pote de tinta vermelha. Assim que me aproximei deles, Cauê segurou em minhas mãos.
– Você está tão linda! – Ele disse com um largo sorriso. Eu também sorri e o abracei. Em seguida fui ao encontro do meu pai.
– Allana. – Ele disse, com lágrimas nos olhos. – Sei que não somos nada íntimos ainda, mas quero que você saiba que seremos muito felizes nesta casa!
– Eu sei! – Eu respondi. – Mas saiba que eu já te considero como um pai!
Nos abraçamos fortemente.
– Emanuel, a lua está linda lá fora. – Disse Henry. – Podemos começar.
– Ótimo! – Ele pareceu feliz. — Vamos começar!
Nos dirigimos para fora. Haviam alguns pedaços de lenha no gramado, provavelmente para fazer a fogueira. Lívia, Jacqueline, Melissa e Cauê se distribuíram em um círculo em volta da lenha, com uma vela nas mãos. Eu fiquei parada no meio dele, perto dos pedaços de madeira e Henry e meu pai, que segurava a tinta, ficaram para fora do círculo.
Após alguns segundos, Henry abriu o Rituais Bruxos em uma página e segurou-o de um modo que meu pai conseguisse ler e repetir as palavras:
– Nesta noite de Lua Cheia, estamos reunidos aqui para um Ritual de magia na vida de nossa querida bruxa adormecida Allana! – Sua voz era forte e autoritária. – E com o poder da Lua Cheia sob nossas cabeças, a testa de Allana será ungida com o poder da tinta vermelha de acordar a parte que está adormecida dentro dela!
Emanuel pegou o livro das mãos de Henry e lhe entregou o pote de tinta vermelha. Ele caminhou em minha direção e parou bem na frente dos pedaços de lenha. Molhou seu dedo indicador no pote e o levou até minha testa, fazendo um risco vertical que ia da raiz de meus cabelos até o vão de minhas sobrancelhas. Depois, se dirigiu de volta ao meu pai, pegando o livro e lhe devolvendo a tinta.
– Que a luz branca ilumine a tinta vermelha e traga de volta os poderes de Allana! – Todos ajoelharam e eu fiz o mesmo. Emanuel continuou. – Que a bruxa que existe dentro dela se manifeste no meio de nós!
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu não fazia ideia se estava dando certo, não me sentia diferente e não sei como usar nenhum poder, eu estava morrendo de vontade de tentar voar ou algo do tipo, mas não sabia se isso era possível. Logo, Emanuel e Henry se levantaram, mas os voluntários permaneceram ajoelhados e eu fiquei assim também.
– Que as velas presentes na cerimônia, se acendam! – Imediatamente, as velas que estavam nas mãos dos voluntários se acenderam e iluminaram o local com sua chama vermelha. — Agora é a vez de vocês, voluntários, abençoarem Allana com as sábias palavras que vierem em vossos corações. Comecem pelo grau de proximidade!
Cauê se levantou lentamente. Ele caminhou em minha direção e colocou a mão livre sob minha cabeça e segurava a vela com a outra. Seu olhar era lindo, um olhar de amor, de quem ama de verdade.
– Allana, — Ele disse. Sua voz era de amor também. – eu te abençoo com o amor mais puro que existe, o amor verdadeiro e eterno que existe em meu coração.
Ele se virou e voltou ao seu lugar, ajoelhando-se novamente. Jacque imediatamente se levantou e repetiu o ato de Cauê.
– Allana, eu te abençoo com a sabedoria de sua prima mais velha, que você sempre saiba qual é o melhor a se fazer.
Então foi a vez de Melissa.
– Allana, eu te abençoo com a inocência de sua prima mais nova, que você sempre leve um sorriso no rosto e leveza em seu peito em todas as situações de sua nova vida.
Por último, Lívia se aproximou de mim e também colocou sua mão em minha cabeça.
– Allana, eu te abençoo com a simpatia de sua amiga muito querida, que você sempre possa ser a mesma pessoa que você é, mesmo vivendo de outra maneira.
Assim que ela voltou para o seu lugar, quem veio na minha direção foi Emanuel. Como ele não estava segurando nada, Henry segurava o livro e o pote de tinta, ele colocou as duas mãos em minha cabeça.
– Allana, — Ele disse com o mesmo tom forte e autoritário de voz. – como seu pai, eu ordeno que você tenha seus poderes restaurados!
Um silêncio percorreu o jardim até meu pai voltar para perto de Henry e começar a ler outro trecho do livro.
– Agora, nossa querida Allana é uma bruxa! A benção de todos agirá dentro dela e farão seus poderes despertarem! Sob a ação da Lua Cheia, ela ordenará o fogo se acender na sua frente, dizendo as seguintes palavras com a mão direita entendida sob a lenha: “Eu, Allana, ordeno que esse fogo se acenda com o meu poder!”.
Me levantei e olhei ao meu redor. Todos estavam olhando para mim, confiantes. Eu já era uma bruxa e iria conseguir! Fiz o que meu pai pediu. Estendi minha mão direita sob a fogueira e repeti as palavras:
– Eu, Allana, ordeno que esse fogo se acenda com o meu poder!
Nada aconteceu. Eu esperei alguns segundos, todos me olhavam confusos, pude até ver a decepção nos olhos de Emanuel.
– Tente de novo! – Cauê me disse, suplicante.
Repeti o ato e as palavras. Nada.
– O que está acontecendo? – Eu perguntei, assustada. – Porque não estou conseguindo?
Meu pai demorou um pouco para responder. Todos estavam ansiosos pela resposta, olhando atenciosamente para ele, que após alguns segundos, disse com um olhar triste:
– Só tem uma explicação para esse ritual ter dado errado. – Estremeci. No fundo, eu estava com medo de saber a resposta. – Você é a garota errada, Allana.
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