De Outra Maneira
17 Capítulo XVII
Notas iniciais
POV’S CAUÊ
— Vocês são os parentes de Emanuel Lestranger? – Um médico veio até onde estávamos e perguntou. Fazia algumas horas que estávamos no hospital, esperando por notícias de Emanuel.
— Sim, somos nós! – Eu respondi, tomando a frente do grupo. O médico não estava com uma cara lá muito boa.
— Bom, o caso dele é bem grave. – O doutor continuou. – É um câncer extremamente silencioso que se espalhou por todo o sistema digestório. Ele nunca tinha tido nenhum sintoma de tontura ou desmaio?
— Não, meu tio sempre foi saudável! – Melissa disse, quase chorando.
— Exatamente como eu pensava. — Ele fez algumas anotações em sua prancheta e depois voltou a olhar para nós. – O câncer não demonstrou os sintomas e agora atacou. Não sabemos quanto tempo ele sobreviverá, pode ser algumas horas, dias, semanas, meses ou até anos, mas não temos como saber.
Jacqueline fungou. Seu nariz estava começando a ficar vermelho e seus olhos cheios d’água. O doutor olhou para ela com compaixão e em seguida continuou a falar.
— Ele está muito debilitado, mas insistiu que quer falar com todos vocês. Ele quer ver primeiro a sua sobrinha Melissa.
Melissa rapidamente se manifestou: — Sou eu, doutor.
Ele assentiu e pediu para ela acompanhá-lo. Os dois sumiram no corredor. Ficamos em silêncio, até Sabrina quebrá-lo.
— Eu sou a próxima. – Falsas lágrimas caíam pela sua face. – Eu quero ver meu pai!
— Sabrina, menos! – Eu me estressei. Não estava com paciência para aturar aquela vagabunda. — Ninguém aqui acredita nesse seu choro falso.
Ela me olhou indignada. Puro fingimento.
— Cauê, eu amo meu pai de verdade! – Ela disse com uma voz de choro.
— Do mesmo jeito que você ama a Allana? – Explodi. Meu coração se partia toda vez que eu me lembrava dela e daquela carta. Eu tinha que dar um jeito de me livrar de Sabrina e encontrar o meu amor.
— Cauê, fica calmo. – Lívia colocou a mão do meu ombro e me afastou de Sabrina, que cruzou os braços e fechou a cara, falsamente.
— Lívia, eu não suporto essa garota! Só de me lembrar do que ela fez com a Allana eu tenho vontade de voar no pescoço dela e enforcá-la! – Lágrimas pesadas estavam caindo pelo meu rosto e Lívia me abraçou.
— Fica calmo. – Ela me dizia. – Tudo vai se resolver, no tempo certo.
Quando nos afastamos, Melissa voltou e disse que Emanuel queria ver Jacqueline. Quando ela também voltou, foi a vez de Lívia. Todos estávamos em silêncio, encarando a Sabrina de um jeito ameaçador, mas ela ameaçava a chorar cada vez que olhava para a gente.
— Cauê, é a sua vez. – Lívia disse quando voltou. Sem perder tempo, corri até o quarto em que Emanuel estava.
Ele estava deitado em sua cama, com a cabeça enfaixada e tomando soro mágico na veia. Ele realmente parecia muito fraco e debilitado, mas não economizou um sorriso quando me viu, o que me fez derrubar uma lágrima.
— Cauê! – Emanuel disse, com a voz fraca. – Meu eterno genro!
Aquelas palavras me fizeram desabar em lágrimas de novo.
— Eu sinto tanta falta da Allana!
O sorriso de Emanuel se apagou.
— Cauê, a Allana não vai voltar. Aquela não era a nossa Allana.
— É ela, Emanuel! Tem que ser! – Me controlei para não gritar e surtar.
— Cauê, eu sinto muito, mas não é ela. Eu também gostaria que fosse.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, enquanto eu me recompunha.
— Eu estou morrendo. – Emanuel voltou a falar. – E eu quero que você assume o Reino Bruxo. Quero que você seja o novo governante.
— Mas, Emanuel! – Eu contestei. – Eu não sou nenhum herdeiro!
— Mas Sabrina é. Cauê, eu quero que você se case com ela.
Aquelas palavras foram como um soco no meu estômago. Como Emanuel queria que eu me casasse com a assassina da sua filha, a assassina da Allana, da minha noiva e amor? Ele só podia estar maluco.
— Eu não posso fazer isso, Emanuel! Me perdoe, mas...
— Cauê, por favor! – Ele me interrompeu. – É meu último pedido, eu não sei o que será do Reino se a Sabrina assumir o poder sozinha, quero que você governe. Faça isso por mim, é meu último pedido a você.
Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e eu não sabia o que fazer. Eu não queria me casar, isso é fato! Mas não podia deixar Sabrina fazer o que quisesse com o Reino. Me arrependendo a cada segundo por ter dito aquilo, eu disse a Emanuel:
— Tudo bem. Eu me caso com Sabrina.
Emanuel abriu um largo sorriso, que ia de orelha a orelha.
— Muito obrigada, Cauê. Agora chame a Sabrina aqui, quero dar a notícia a ela.
Eu assenti e me virei para sair do quarto. Novas lágrimas embaçaram a minha visão. Não importa o que acontecesse daqui para frente, eu nunca desistiria da minha Allana.
POV’S SABRINA
Aquelas três palhaças estavam me encarando o tempo todo. Eu fiquei afastada, fingindo estar quase chorando. Quando eu já não aguentava mais, Cauê surgiu do final do corredor e parou bem na minha frente.
— Emanuel quer falar com você. – Foram suas únicas palavras. Ele se afastou e eu corri pelo corredor, até o quarto do meu pai.
Ele estava um horror, deitado naquela cama e tomando soro mágico. Sua cabeça estava enfaixada e o velho sorriu quando me viu.
— Sabrina! – Sua voz estava fraca. Ele tossiu algumas vezes antes de continuar. – Fico tão feliz que você tenha se arrependido e voltado para a sua família!
Forcei algumas lágrimas saírem de meus olhos.
— Eu senti tanto a sua falta, pai!
Outra crise de tosse começou. Realmente, meu pai estava à beira da morte. Eu não me surpreenderia se ele morresse agora mesmo.
— Filha, eu estou morrendo aos poucos! – Ele continuou quando a tosse parou. – E você será minha herdeira!
Admito que me animei quando ouvi a palavra “herdeira”. Mas tinha que fazer meu papel de filhinha triste.
— Não diga isso, papai! – Eu disse, chorosa. – Agora que eu voltei, vamos viver muito juntos!
— Ah, filha... Como eu gostaria! De ter você e a Allana de volta! Mas tenho uma boa notícia. Como você é a herdeira, propus para que Cauê se casasse com você e ele aceitou.
Meu coração deu um salto! Como assim eu me casaria com Cauê? Meus planos estavam dando mais certo do que o esperado. Ou será que aquele velho estava caducando?
— Papai, o Cauê disse que se casaria comigo? – Perguntei, de um modo inocente.
— Sim, filha! – Ele respondeu, sorrindo. – Ele me garantiu isso.
Essas foram as últimas palavras do meu pai antes de um grande ataque de tosse e de ele vomitar quase todo o sangue que havia no seu corpo. Assim que ele terminou, também estava sentindo muita falta de ar.
— Sabrina! – Ele disse, entre uma puxada de ar e outra. – Tente encontrar sua irmã!
Percebi que o meu pai estava morrendo. E como sou uma boa filha, não deixaria que ele morresse enganado, não é verdade?
— Ora, papai... – Dei um sorriso um tanto quanto malicioso. – Eu já encontrei.
Ele arregalou os olhos e tentou falar algo, mas eu o interrompi.
— Aquela garota que você acusou de falsa, é a verdadeira! E eu tenho como provar. Agora ela está comigo, e o Henry vai levar ela bem para longe daqui!
Emanuel começou a se debater. Ele estava tendo mais faltas de ar ainda.
— Sabrina, você... – Ele conseguiu dizer antes do seu último suspiro.
Meu pai estava morto. Dei um leve sorrisinho antes de começar a gritar por um médico.
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