De Outra Maneira
15 Capítulo XV
Notas iniciais
POV’S ALLANA
Não consegui dormir nem um pouco. Fiquei o tempo todo pensando no que havia acontecido e na merda que eu havia feito ao fugir da casa de Emanuel. Se eu tivesse ficado lá e seguido o plano de Cauê, ainda poderíamos ficar juntos. E mais! Eu sou a Allana verdadeira, uma hora ou outra a verdade apareceria. Mas agora eu estou aqui, nessa cabana, com um futuro miserável traçado ao lado de Henry, e Sabrina ocuparia o meu lugar.
Houve uma batida na porta. Acho que aquilo não era um pedido para entrar e sim um aviso, pois Henry nem esperou a minha resposta e já abriu a porta. Ele segurava uma bandeja com um bule, provavelmente contendo chá, biscoitos, pão, frutas, geleia e manteiga. Eu sentei na cama e abracei o travesseiro.
— Calma! – Ele disse, na defensiva. – Não vou te fazer mal.
Henry colocou a bandeja na minha frente e se sentou na cama.
— Vamos, coma alguma coisa. – Ele disse, gentilmente.
Mas eu não estava com fome. Eu estava com vontade de chorar e ir embora. Henry ficou me encarando, esperando alguma reação de minha parte. E eu precisava de muitas respostas ainda.
— Henry! – Minha voz estava baixa e um pouco trêmula. – Eu preciso te fazer algumas perguntas.
Ele pareceu um pouco nervoso. Olhou para baixo e não disse nada. Então eu continuei.
— Eu não sei se você sabe da minha história, mas eu fui parar naquele reformatório porque minha melhor amiga pegou fogo...
— Eu sei. — Ele me interrompeu. – O fogo fez um rastro até a sua amiga e a queimou viva. – Os olhos deles pareceram um pouco molhados, mas talvez seja só impressão minha.
— Exatamente. – Eu fiz uma pequena pausa. – Como eu fiz aquilo?
Henry suspirou. Não era impressão, realmente uma lágrima caiu de seus olhos.
— Não foi você. – Aquelas palavras me fizeram franzir o cenho e ficar confusa. – Fui eu.
Eu congelei. Outra lágrima escorreu do rosto de Henry e eu fiquei com medo. Abracei mais forte o travesseiro.
— Foi tudo um plano de Sabrina. – Ele continuou a me contar. – Como eu te disse, eu sempre fui apaixonado por você, e quando encontrei seu corpo naquele bosque, eu tive vontade de matar Sabrina. Mas naquele momento eu não sei o que houve comigo, eu não consegui fazer nada a não ser aceitar aquele acordo dela. A minha vontade de te ter era e ainda e muito grande, mas antes mesmo de você reencarnar, eu me arrependi.
Ele fez uma pequena pausa, colocou um pouco do chá que estava no bule da bandeja em uma xícara e tomou. Percebi que suas mãos tremiam. Eu permaneci em silêncio.
— Eu tentei romper com Sabrina. – Continuou, após ter terminado de tomar seu chá. – Disse que não queria mais fazer parte daquele plano. Percebi que não seria justo com você, com Cauê, com a Mel e nem com ninguém. Eu admito que não amava Melissa quando fiquei noivo dela, mas depois que você se foi, eu passei a amá-la, ver seu jeito maravilhoso de ser e eu me apeguei. – Outra lágrima escorreu pelo seu rosto. – Mas agora eu a perdi.
Henry fez outra pausa, provavelmente para segurar o choro que estava por vir. Então eu lhe perguntei, com a voz ainda baixa e trêmula:
— Porque você não conseguiu romper com a Sabrina?
Ele me olhou fixamente. Mas dessa vez não tive medo. Sentia que Henry estava falando a verdade.
— Sabrina é uma vadia manipuladora. – Ele respondeu. – Ela ameaçou matar a Melissa, caso eu desistisse do acordo. E eu não me perdoaria se algo acontecesse com ela.
“Então, naquele dia em que sua amiga morreu, eu fui me encontrar com Sabrina. Ela é muito esperta, consegue passar despercebida pelos lugares. Nem parece que é humana. E olha que sair do reformatório não é nada fácil se você não é um bruxo. Nós nos encontrávamos sempre fora de lá, para que ninguém nos visse, e ela me disse que sabia onde você estava naquela noite, num tipo de acampamento com seus amigos. Ela sabia tudo sobre você. O nome da sua melhor amiga, por quem você era apaixonada, suas notas na escola, tudo. E precisávamos que você fosse parar no reformatório.
“Assim, Sabrina ordenou que eu controlasse a mente da sua paixonite, o Tobias, e da sua melhor amiga, Luíza, para que os dois se beijassem e você ficasse com raiva dela. Eles nunca se amaram e Luíza nunca trairia você. Eles fizeram isso porque estavam sob a minha influência.
“Também fui eu quem induziu o fogo a queimá-la viva. Você é sim uma bruxa, Allana. Mas seus poderes não estão apurados o suficiente para você influenciar aquele fogo, você precisa de treinamento. Eu fiz aquilo para que você fosse mandada para o reformatório.
Henry estava chorando e muito. Ele realmente estava arrependido, eu percebi que ele não me faria mal nenhum. Larguei aquele travesseiro e o abracei. Ele pareceu surpreso. Assim que nos afastamos, ele segurou nas minhas mãos e disse em um tom meio desesperado:
— Allana, eu não vou te fazer nada de ruim. Eu quero te ajudar, quero derrotar Sabrina e te devolver inteira para a sua família. Eu sei que o que eu fiz com Melissa não tem perdão, eu não terei ela de volta. Mas quero te ajudar a recuperar tudo o que você perdeu.
Agora quem ficou surpresa foi eu. Ele iria mesmo me ajudar? Talvez Henry não fosse tão mal assim, apenas incompreendido.
— Henry, — Eu respondi, sem me soltar de suas mãos. – eu vou aceitar sua ajuda. – Ele abriu um sorriso enorme, que me pareceu bem sincero. – Mas eu quero saber de uma coisa. — Ele me encarou, sério. – Como foi que você, o Cauê, a Mel, a Lívia, a Jacque e a Sabrina foram parar naquele reformatório?
Henry demorou alguns segundos para responder. Ele estava sério e não chorava mais.
— Eu vou te contar, Allana. Exatamente como aconteceu.
POV’S SABRINA
Finalmente, eu estava ali. Aquela casa era a minha casa. Fiquei um tempo parada, observando os detalhes, lembrando da minha infância, de como a Allana sempre tinha tudo a mais... Mais atenção de meu pai, os melhores brinquedos e até os melhores namorados. Mas agora tudo seria meu, por direito! Eu recuperaria tudo!
Toquei a campainha e esperei. Alguns segundos depois, a idiota da Jacqueline apareceu na janela da sala. Ela me olhou com os olhos semicerrados e voltou para dentro. Se a vaca acha que vai me impedir, está muito enganada. Nem um minuto depois, Emanuel abriu a porta. Sim, o meu pai! Ele veio caminhando lentamente na minha direção e eu imediatamente comecei o meu show. Deixei lágrimas rolarem pelo meu rosto e ele imediatamente chorou também.
— Papai! – Eu disse quando ele chegou mais perto. – Me perdoe, por favor!
Ele não disse nada por alguns segundos, apenas me encarou com olhos cheios de lágrimas. Quando ele falou, sua voz estava meio rouca e muito fraca.
— Sabrina, minha filha! Porque você fez isso com a sua irmã? Agora não conseguimos mais encontrá-la!
— Pai, eu me arrependi muito! Só agora percebi o quanto a Allana era importante para mim, minha companheira, irmã fiel! Eu estava louca na época, perturbada! Eu nunca quis fazer aquilo de verdade! – Me ajoelhei em frente ao portão e segurei nas grades dele. – Me perdoa, por favor!
Eu estava soluçando, soluçando mesmo! E percebi que o meu pai estava querendo ceder, mas antes dele falar alguma coisa, aquelas idiotas da Melissa, Lívia e Jacqueline apareceram atrás dele.
— Tio, — A ridícula da Jacque começou a falar. Tentei soluçar mais alto para ela calar a boca, mas não adiantou. – a Sabrina matou a Allana. Nós a encontramos, mas ela sumiu! Sabrina deve ter capturado!
— Aquela Allana não era a minha Allana. – Meu pai disse, de um modo meio triste.
— Eu nem sei onde ela está! – Lágrimas continuaram a escorrer do meu rosto. Lívia me encarou com desprezo, prestes a dizer alguma coisa, mas nesse momento Emanuel cambaleou para trás e Jacqueline a segurou.
— Tio! – Melissa disse com aquela voz enjoada. – Já é a terceira vez que você se sente tonto hoje!
— Só deixem minha filha entrar! – Ele disse, ainda nos braços de Jacqueline.
Elas hesitaram um pouco. Mas como meu pai tinha ficado tonto sei lá porque, Lívia abriu o portão com um toque de magia. Eu me levantei, mas antes de conseguir entrar senti alguém segurar fortemente o meu braço. Quando me virei, vi Cauê, me olhando de um jeito bravo e ameaçador, que me dava vontade de avançar nos lábios dele.
— O que é que está acontecendo aqui? – Ele perguntou olhando para mim, mas quem respondeu foi Lívia.
— Cauê, Emanuel teve de novo aquela tontura, ele quer que ela entre.
Hesitante, ele me soltou, mas permaneceu perto, caso eu tentasse algo com alguém. Porra, porque ninguém confiava em mim? Eu estava arrependida do que eu fiz com a minha irmãzinha, claro que estava. Papai estava acreditando nisso, porque ele saiu dos braços de Jacque e me abraçou. Correspondi fortemente o abraço.
— Filha, me mostre que você mudou! Eu senti tanto a sua falta e a da Allana, me mostre que você mudou e que se arrependeu! – Ele disse sem me soltar.
— Claro, meu pai! – Eu respondi. – Farei de tudo pelo senhor!
Ele se afastou de mim, mas sem me soltar. Olhou nos meus olhos e limpou uma lágrima que estava na minha bochecha.
— Me ajude a entrar na casa.
Eu o abracei pela cintura, e com passos lentos, ajudei meu pai a entrar na casa. Os outros nos seguiam, desconfiados.
Quando entrei naquela sala de novo, me senti muito bem. Eu já estava dentro da casa, agora seria muito mais fácil colocar meu plano em ação!
Meu pai quis se soltar de mim, e todos formamos uma rodinha em torno dele. Eu fiquei ao seu lado, para bancar a filha preocupada. Seria bem mais fácil conseguir seu perdão assim.
— Todos teremos que acolher Sabrina nessa casa de novo. – Emanuel disse. As vadias e o meu Cauê olharam espantados para ele, como se não estivessem acreditando. Eu tive que me controlar para não abrir um sorriso de orelha a orelha. – Ela nos provará que mudou e teremos que aceitá-la de volta!
Silêncio.
— Me perdoem! – Eu disse, bem baixinho, mas alto o suficiente para eles ouvirem. As palavras seguintes, que foram ditas por Melissa, não foram para mim, e sim para meu pai.
— Tio, o que é isso no seu nariz?
Olhei rapidamente para ele, que colocou a mão em seu nariz e olhou para ela. Tinha sangue escorrendo no nariz do meu pai. Não demorou muito para ele se sentir tonto novamente e cair no chão, com uma poça de sangue se formando no lugar que estava sua cabeça.
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