De Olhos Bem Abertos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Titia pede desculpas pela demora em postar essa história, quebrando levemente o cronograma do desafio, porém probleminhas pessoais acontecem e nóis que e gente grande precisa lidar com os paranauês.
Pra não demorar mais, vamos falar do desafio de hoje: o casal contemplado será MadaHina e a música desse capítulo é a "Say Something", do A Great Big World e Christina Aguilera, mas interpretado pelos Pentatonix.
Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=0dYlvdLdK9w
Espero que curtam o capítulo de hoje! Nos encontramos nas notas finais!

Diga algo, estou desistindo de você...
Eu serei o único, se você me quiser.
Em qualquer lugar, eu teria te seguido...
Diga algo, eu estou desistindo de você!
Japão, 1896. Início da Era Meiji.
— Hinata-sama, onegai, pare de ser tão caprichosa! Você tem que treinar mais suas práticas para ser uma boa esposa!
Atravessando o quintal à passos largos, Hinata ouviu sua ama lhe recriminando. Natsu era uma boa mulher, para ela e sua irmã mais nova, porém era bem enérgica ao seguir à risca as demandas de Hiashi, seu pai.
— Meu pai me incentivava a ser médica até pouco antes de meu primo Neji voltar do exterior. — A herdeira Hyuuga se virou e retrucou. — Já tomei a decisão quanto ao meu futuro. Gomen ne, Natsu-san!
— “...No corpo calça larga para andar, bonezinho e cabelo preso, roupinha de dama e cavalheiro... Oppeke Peppoooo Peppo Poooo...”
Hinata ouviu seu primo mais velho cantando numa das janelas da mansão, olhando para ela de um jeito sorridente e debochado. Essa letra do Oppekepee-Uta era uma crítica a ocidentalização que estava fazendo sucesso nesse início de nova era. Neji era o único filho de Hizashi Hyuuga, irmão gêmeo de Hiashi. Os três homens trabalhavam juntos na clínica médica dos Hyuuga e eram conhecidos por serem os melhores da região.
Neji havia passado uma temporada no exterior para aprender mais sobre os avanços médicos, e foi justamente nessa época que Hinata começou a ajudar ainda mais o pai e o tio durante os atendimentos e tomou gosto pela área da saúde. Hiashi até mesmo chegou a incentivá-la, achando que o sobrinho tomaria gosto pelo mundo afora, mas agora tudo estava voltando ao rumo normal que deveria ter sido.
A jovem Hyuuga fez uma careta para o primo e mostrou-lhe a língua, saindo em disparada para o único lugar onde teria um pouco mais de paz. A livraria de Danzou Uchiha era única mais próxima de casa e, sempre que possível, tinha livros exóticos e internacionais também. Era lá que Hinata se escondia todas as vezes em que seus familiares começavam a enchê-la com esses assuntos de Omiai Kekkon.
As pessoas do vilarejo a cumprimentavam com sorrisos ao rosto e boas intenções, pois a morena realmente era uma boa menina. Num pequeno povoado todos se conhecem, todos sabem de tudo.
Ao chegar na livraria, Hinata percebeu que Danzou não estava sozinho. Ao seu lado estava um homem com um hakama extravagante, cabelos longos soltos de forma rebelde e um olhar concentrado sobre um livro novo. “Comércio Exterior Após a Abertura dos Portos, a Situação Atual da Economia Mundial.”, um livro moderno e difícil. Provavelmente tinha vindo de navio.
E eu estou me sentindo tão pequeno...
Foi muito pra minha cabeça,
Eu não sei absolutamente nada!
Ao virar o rosto para ela, o homem revelou-se Madara Uchiha, um dos filhos de Tajima Uchiha. Tajima era o maior comerciante de tecidos de toda aquela região. Izuna, o filho mais novo dele era como uma sombra do pai, seguindo-o por todos os cantos e aprendendo com ele. Já Madara, que era o primeiro filho, tinha saído às avessas e fazia questão de não ser nem um pouco parecido com o pai.
Conta-se que ainda existe uma briga na família para sucessão da loja e do futuro empreendimento, por isso que Madara passava mais tempo no bairro da Luz Vermelha do que em casa. Todos o olhavam com desprezo e pena, pois achavam que era um futuro promissor sendo desperdiçado com mulheres, brigas e bebida.
No entanto, quando os olhos perolados de Hinata chocaram-se contra os ônix do Uchiha mais velho, seu coração viu ali toda a capacidade e força de vontade para mudar o mundo. Era como um fogo escarlate que queria transformar em cinzas tudo o que era velho, para fazer com que o futuro viesse como uma fênix exuberante, cheia de novos conhecimentos. E aquele sentimento a fez corar como uma menininha e seu coração bateu como um tambor de guerra dentro do peito.
Rapidamente, a Hyuuga desviou o olhar sonhador e voltou a se preocupar com o que tinha vindo buscar. Varreu as estantes com um olhar criterioso, porém não encontrou o seu objeto de desejo.
— Sumimassen, Uchiha-san... — Ela se dirigiu ao balcão, ao lado de Madara. — Outro dia tinha aqui um livro sobre as novas ciências médicas. Onegai, onde está?
— Vendi faz dois dias, e não sei se pretendo repor o livro. — Danzou a respondeu, torcendo o nariz e fazendo sua testa enrugar. — Além disso, uma garota não entenderia um livro denso como aquele.
— É que eu pretendo ser médica, então...
— Nee, oji-san... Se restringir seus clientes apenas aqueles que tem o bolso cheio ou aos homens, não levará muito tempo até que feche as portas. — Madara se pronunciou, sorrindo de modo debochado. — Hoje em dia, o conhecimento não se restringe a um gênero ou à idade. Então por que não pega a segunda edição do livro que está lá nos fundos, hein?
— Vire essa boca cheia de pragas para outro lado, meu sobrinho. — Danzou o recriminou e soltou um suspiro cansado. — Dae jobu, vou lá pegar o livro. Negócios são negócios afinal.
Assim que Danzou deixou a frente da loja, Madara pegou o livro que estava lendo e foi sentar-se em uma bancada estofada à frente da janela. Hinata sentiu em seu coração que deveria dizer algo, nem que fosse um simples “obrigada”. Muniu-se de coragem e foi até ele, curvando-se levemente.
— Domo arigatou, Madara-sama. Fiquei feliz pelo seu pronunciamento, pois penso da mesma forma.
— Não há de que. — O Uchiha a mirou longamente antes de continuar. — Hoje os tempos são outros, vivemos uma nova era. O mínimo que se espera é que possamos dizer o que pensamos abertamente, independente de quem sejamos ou quanto tempo de vida tenhamos.
— Hai. — Hinata sorriu agradecida. — Falarei abertamente da próxima vez. — Então, ela se virou para fora da loja ao ouvir o som de um navio atracando. — Parece que o navio mercante chegou, finalmente.
Não demorou para que Danzou viesse entregar o livro de medicina à Hinata e a garota o pagou justamente. Madara reparou em como ela parecia curiosa ao ouvir o trem, por isso instigou-se à perguntar:
— Gostaria de ver o navio que chegou?
Hinata o olhou embasbacada. Não era um convite comum, ainda mais vindo de um homem como aquele. Mas ainda assim, algo à impelia a acreditar em boas coisas vindas dele, por isso, meneou a cabeça e o agraciou com um sorriso.
— Hai.
E eu vou tropeçar e cair...
Eu ainda estou aprendendo a amar,
Apenas começando a engatinhar!
O porto estava cheio de pessoas diferentes, tanto conterrâneos quanto estrangeiros. Havia muita falação, uma infinidade de cheiros e – principalmente – muita novidade.
Andando lado a lado, Madara guiava Hinata e sentia-se fascinado com a expertise da menina. Seu rosto alvo não conseguia conter o sorriso e a admiração por cada nova descoberta e isso o encantou mais do que poderia imaginar. E quando chegaram ao navio, um suspiro sonhador novamente o encorajou a iniciar o diálogo:
— Veja como é gigantesco! Minha família está no ramo de importação desde que o mundo é muito, ao menos, assim parece. — Ele disse, com certo brilho nostálgico no olhar. — Meu irmão ama nosso negócio de tal forma que parece ter nascido unicamente para isso. Sinceramente, espero que ele seja escolhido para herdar tudo.
— Você fala disso com muito respeito e nostalgia, Madara-sama. — Hinata comentou, olhando-o com certa empatia. — No entanto, sinto que sua voz fala de coisas inalcançáveis.
— Peço perdão caso tenha feito minhas palavras as confundirem, Hyuuga-san, porém, sei do meu lugar. — O Uchiha sorriu para ela, tentando mascarar melhor seus anseios.
— Mas você terá de escolher entre navegar e ajudar seu irmão, não é? — E então, um grande sentimento de compreensão se abateu sobre ela. — Acaso achas que seu irmão precisa tanto de você, a ponto de desistir dos próprios sonhos?
Era como se o véu que cobria os olhos ônix de Madara tivessem sido arrancados, pois todas as emoções sombrias transbordaram através dele por um momento.
Porém, por mais indignado que pudesse se sentir, o Uchiha teve ciência de que a moça não falava com leviandade e sim com total empatia. Os olhos brancos dos Hyuuga eram os mais fidedignos de toda a província, diziam até ser os “olhos da verdade”, por poderem enxergar além do que os outros viam e mostrar tudo o que precisavam sem dizer uma só palavra.
Durante anos Madara fez questão de tornar-se um homem sem quaisquer bons vínculos, justamente para não se sobressair. Durante sua juventude, percebeu que Izuna era completamente apaixonado por sua profissão e por tudo o que o negócio da família representava. Porém, por ser o filho mais novo, sabia que nunca haveria uma chance de herdar o negócio todo.
Por outro lado, Madara tinha o sonho de viajar o mundo e abrir seu próprio negócio. Algo mais voltado para contabilidade do que o comércio propriamente dito. Seu pai nunca permitiria que ele se ausentasse, então começou a fazer algo que justamente o impossibilitaria de seguir. A família se tornou dividida e a reputação do Uchiha primogênito estava chafurdando na lama.
— Sua sinceridade chega a ser desconcertante, Hyuuga-san. — Ele a respondeu, dando um sorriso de lado e voltando a olhar o navio à sua frente.
— Sumimassen, Madara-sama... — Hinata ficou envergonhada por falar tudo tão francamente. — Não tive intenção de aborrecê-lo.
— Dae jobu. Afinal, fui eu quem lhe disse para ser franca e dizer seus pensamentos abertamente, não é mesmo?
— Hai... — Subitamente, ela voltou a enrubescer. — Assim sendo, Madara-sama, posso lhe pedir uma gentileza?
— Se eu conseguir, estou à disposição. — Ele a encarou novamente.
— Meu nome é Hinata...
E ali estava um sentimento novo. Aquela moça tinha nome, família e um futuro promissor à frente. E ela deliberadamente ignorava todo o resto que sabia sobre o Uchiha, tratando-o como igual diante de seus olhos.
Foi naquele instante que Madara desejou tê-la para si eternamente.
— Ah, isso eu consigo fazer... — Ele sorriu. — Hinata...
E assim, sem que qualquer pessoa pudesse prever, os dois criaram um vínculo. Sentimentos, ideias e planos começaram a se formar naquele momento, guiados pelo sol do novo mundo.
Depois de algum tempo observando o vem e vai dos navios no porto, Madara fez questão de acompanhar Hinata até perto da mansão dos Hyuuga, mas não se atreveu a passar por ali ao seu lado. O que diriam se a vissem acompanhada de alguém como ele? Hinata despediu-se do mais velho com um sorriso agradecido pelas conversas leves e as inspirações que a moveriam a agir diferente para com as pessoas ao seu redor.
Diga algo, eu estou desistindo de você...
Me desculpe por não conseguir chegar até você!
Em qualquer lugar, eu teria te seguido.
Diga algo, eu estou desistindo de você!
Os dias se passaram e logo tornaram-se semanas. Hinata cumpria com seus deveres de filha, irmã e herdeira, treinando os costumes para ser uma boa esposa. Porém, nos períodos em que podia sentir-se livre, corria para a livraria ou para o porto, onde volta e meia encontrava com Madara para novas conversas.
Eram estes momentos que a faziam sentir-se completa. Com ele, podia conversar sobre tudo e qualquer coisa, sejam de seus estudos ou de seus anseios. Ali ela escutava o Uchiha com a paciência de uma mãe que vê o filho descobrindo algo pequeno e empolgante para contar. As coisas que ele lhe dizia pareciam tão surpreendentes que a faziam sonhar com um futuro novo.
E todas as vezes em que eles se encontravam, terminavam seu dia no porto, vendo as águas trazerem as novidades do mundo todo pelos navios mercantes. Todas as vezes ele lhe presenteava com um pequeno ramo de Shibanzakura, apenas para vê-la sorrir e corar. O sentimento entre eles crescia, embora Madara soubesse que nunca poderiam ser vistos com bons olhos pela família dela.
E foi num desses dias que, ao entrar na casa principal, Hinata foi recepcionada por seus familiares e por visitantes que reconheceu ser os Uchiha pelo símbolo de leque vermelho e branco que se permeavam pelas vestes deles.
Sem entender o que estava acontecendo, a morena buscou uma resposta com o pai. Hiashi pareceu incomodado, mas suspirou fundo e então pronunciou.
— Hinata, tomamos algumas decisões sobre o seu futuro. — Ele percebeu quando sua primogênita ficou alerta, os olhos o devorando como o espírito do medo. — Você se casará com Izuna Uchiha, e seu primo Neji cuidará da clínica.
Assombrada com a revelação, Hinata buscou o primo com o olhar. Neji estava sentado no canto com uma expressão que revelava sua tristeza pois, por mais que sempre implicasse com sua priminha, queria tê-la ao seu lado para cuidar das coisas. Sentia-se péssimo por destruir seus sonhos daquela forma, mas não havia nada que pudesse fazer.
— Ottou-sama... — Hinata murmurou, saindo do transe. — E meus estudos? O senhor permitiu que eu estudasse para ser médica. Eu deveria...
— Seu noivo foi escolhido formalmente, Hinata. — Hiashi foi sucinto, sem conseguir sustentar o olhar da filha por muito tempo. — Agora, você deve se concentrar em estudar apenas para ser uma boa esposa. Acabaram-se os tempos de capricho.
Desamparada, a herdeira Hyuuga vacilou alguns passos para trás e olhou bem para todos os presentes na sala. Natsu e Hanabi a olhavam com pesar, Tajima e Izuna Uchiha pareciam estar alheios a tudo, encarando a situação com seriedade.
Então a única reação que a morena teve foi a de correr. Largando o livro recém comprado no chão, Hinata firmou as pernas e correu o mais rápido que pode. Seus olhos estavam cheios de lágrimas para embaçar a vista, seus parentes gritavam por ela, mas nada naquele mundo a faria voltar. Não importava para onde, tudo o que ela queria era fugir daqueles que lhe roubavam o destino tão ansiado.
E eu vou engolir meu orgulho...
Você é o único que eu amo,
E eu estou dizendo adeus...
Correu por entre as ruas e vielas, sem ter ideia de onde ir. E quando se percebeu sozinha num pátio escuro, a Hyuuga deixou-se cair ao chão, chorando copiosamente. Amaldiçoava-se por viver em uma época em que seus ideais e suas paixões deveriam ser esquecidas em nome de um homem. Ainda mais um que nunca amaria como amava... Madara!
Por mais que soubesse que alguém como ele nunca olharia para alguém como ela com seriedade, no fundo, seu coração só queria amar e ser amado por ele. Alguém que a compreendia e a incentivava. Nunca compreendeu como as pessoas o julgaram como alguém ruim, sendo que seu coração era tão bondoso.
Perdida em seus devaneios e lágrimas, Hinata não percebeu que estava sendo observada até que fosse tarde demais.
— Oe, vejam lá... Não é a tal menina que vive atrás do Uchiha? — Hinata ouviu alguém dizer com a voz carregada de malícia. — Ela pode ser algo valoroso pra ele!
— Hai! Vamos pegá-la! — Disse outro alguém, rindo-se. — Madara não vai ter coragem de tentar nada contra nós se ver que estamos com sua preciosidade nas mãos!
— Q-quem são vocês? — Ela ousou perguntar, virando-se para os homens mau encarados.
— Ninguém que você precise saber, Hime. Agora, seja uma boa garota e fique quietinha!
Antes que Hinata pudesse fazer qualquer coisa, os dois homens se sobrepujaram sobre ela e a amordaçaram, amarrando seus punhos para trás do corpo e a jogando por cima de um ombro, como se não pesasse mais que um saco de batatas.
Eles a guiaram por entre as ruas escuras até a periferia do vilarejo, uma das zonas de meretrício e assassinatos. Embora estivesse com muito medo, a Hyuuga tentava encontrar um meio de pensar racionalmente em como fugir daqueles homens. Não era possível que não conseguisse se safar sozinha! Recusava-se a perder a liberdade e a vida no mesmo dia!
Quando os homens chegaram ao local esperado, adentraram o jardim e a jogaram no chão sem qualquer cuidado. Prepararam suas armas e um deles gritou à plenos pulmões.
— Oe, Madara! Apareça! Queremos uma reparação pela perda no jogo de ontem!
— Isso mesmo! Apareça logo ou então cortaremos fora o braço dessa mocinha aqui.
Não demorou muito para que as portas de correr se abrissem e revelassem um Madara de torso nu e calças de hakama folgadas. Atrás dele vieram duas concubinas, com seus quimonos semiabertos e rostos assustados.
Então era aquele o Madara Uchiha que todos recriminavam e condenavam. O choque da realidade foi grande para Hinara, mas nada a preparou para vislumbrar o Demônio Uchiha que todos falavam. Os olhos ônix dele pareciam ter sido envoltos por fogo escarlate, e sua expressão era a de quem não tinha medo nenhum de quem ou o que quer que fosse.
— Espero que tenham vivido uma boa vida, vermes... — Sua voz pareceu nem ser a mesma de todas as vezes, seu sorriso tornara-se macabro. — Pois hoje a morte sorri para vocês.
Diga algo, eu estou desistindo de você...
Me desculpe por não conseguir chegar até você!
Em qualquer lugar, eu teria te seguido!
Diga algo, eu estou desistindo de você...
Diga alguma coisa...
Notas finais
Juro que vou tentar terminar ainda hoje e postar a segunda parte. Torçam pela titia aqui!
Bjus mil,
Arê!
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