Não havia gritos ou risadas escandalosas, palavrões e aglomerações não se ouvia ou via, mas não era nada além do esperado. Os sons das taças e conversas em tom comedido eram suaves e facilmente cobertos pelos cascos que passavam por ali tão rápidos que os cavalos mal podiam ser vistos. Geralt contou. A cada cinco minutos, os dois cavalos ficavam próximos das bancadas luxuosas, um ao lado do outro, revezando os centímetros que os diferenciava entre o ganhador e o perdedor.

— Consegue sentir isso, Geralt? — Jaskier inspirou o ar enquanto apoiava as mãos na cintura. — Pessoas nobres e de boa índole, finalmente!

O bruxo o olhou brevemente e logo balançou a cabeça enquanto voltava a andar em direção dos sons das taças.

— Eu só sinto cheiro de esterco e pelo molhado.

O poeta riu enquanto se apressava para segui-lo.

— Exatamente! — Exclamou ele. — Se andássemos um pouco mais para o sul de Tretogor, o fedor seria diferente; merda pura e pelo sujo. Há uma diferença nos fedores, meu caro amigo.

— Concordo, mas de toda a forma fede, Jaskier.

Ele não gostava daquele clima. Era limpo e menos barulhento, mas se tratando da classe rica, humana ou inumana, o bruxo não esperava coisas simples ou claras. Sempre havia um pano limpo por cima da sujeira, e na maioria das vezes ele era convocado para ficar por baixo. E naquela vila em particular, Geralt foi avisado por Eskel para manter os olhos abertos.

Havia três níveis de bancadas. Os menos abastados, mas que faturavam um pouco mais de um milhão de coroas por ano, ficavam no solo. A poeira entrava, mas havia servos ajoelhados, limpando a todo momento. Na segunda, o pó era bloqueado por um muro decorado com trepadeiras, mas não tinha uma visão tão boa das corridas quanto no terceiro nível, onde ficavam os mais ricos da cidade, cujo os ganhos anuais sequer poderiam ser calculados com tanta simplicidade quanto os outros.

Eles pararam antes que pudessem alcançar menos de um metro de todas aquelas pessoas, e foram recebidos por um sorriso amarelo e olhar que os analisava com cautela. Foi preciso que inclinassem um pouco a cabeça para baixo para que pudessem vê-lo. O homem era muito magro, baixo e careca. Os dedos longos pareciam ansiosos enquanto segurava um rolo de pergaminho.

— Bem-vindos, senhores! — O careca forçou ainda mais o sorriso. — Ainda há tempo para fazerem as suas apostas — ele apontou para a pista enquanto desenrolava o pergaminho. — Temos o garanhão Voador, vindo direto das mãos dos melhores treinadores de Kovir, contra a égua Aenye, criada por elfos; uma guerreira veloz! O que me dizem? Quem ganhará a corrida? Ainda temos três voltas, senhores.

As vestes de Geralt e Jaskier não eram elegantes e estavam desgastadas pela longa viagem, por isso o olhar continuou desconfiado, e havia pouca esperança em conseguir algum dinheiro que valesse a pena, porém, o medalhão sobre o peito denunciou a profissão do de cabelos brancos. Ali corria boatos que os bruxos ganhavam fortunas com seus contratos; ele até mesmo havia presenciado, meses atrás, um membro daquela mesma Guilda dos Lobos se fartar em uma taberna não muito longe dali. A sorte parecia grande em ter um deles na corrida, e por isso o sorriso aumentou enquanto se aproximava, porém, logo foi desfeito com o olhar indiferente em sua direção.

— Hoje não viemos para apostas. Estamos aqui por trabalho — Geralt foi direto, apagando o espírito esperançoso do careca. — Sabe onde podemos encontrar Brastol Vellferdudic?

Os ombros caíram, e o olhar decepcionado não foi disfarçado.

— Oh, o senhor Vellferdudic? Ele está ali em cima — ele apontou para o terceiro nível com um gesto indiferente com a cabeça. — Não vai recebê-los até o fim da corrida. Aenye é uma de suas éguas, ele está trabalhando além de se divertir — o careca os olhou novamente, e o sorriso voltou aos poucos com a ideia que lhe passara pela cabeça. Se o bruxo conhecia aquele nobre, ainda havia esperanças para ele. — Aposto que o senhor Vellferdudic ficaria contente, se recebesse mais uma aposta na bela égua guerreira.

— Na próxima vez — o bruxo o respondeu sem decoro, sequer o olhou, mantendo a atenção no terceiro nível da torcida. — Obrigado.

O olhar de Geralt só voltou para baixo quando o careca já havia se afastado com baixos xingamentos e indignação. Ele não o ouviu dizer que o bruxo era mão de vaca, muito menos que o bardo era sua meretriz que provavelmente sugava o seu dinheiro, mas escutou com clareza o suspiro indignado de Jaskier, que também alheio aos insultos, cruzou os braços.

— Eu ia apostar, Geralt!

— Quer mesmo apostar sem nem mesmo olhar a égua antes da largada?

Jaskier soltou os braços e deu de ombros.

— Eu nunca olho, de toda a forma. No fim, é um jogo de sorte.

— Não acho — Geralt se virou para ele. Havia muitos no terceiro nível da torcida, e não sabia como era a aparência de Brastol Vellferdudic, então, só lhe restava esperar ao lado do poeta. — O cavalo em melhor condição ganhará; isso não é sorte, é treino e tempo, dinheiro...

— E um pouco de trapaça — Jaskier apontou o indicador para cima quando completou a frase.

O bruxo sorriu fraco.

— Na maioria das vezes, sim, trapaça.

Ambos riram com discrição, assim como a conversa continuou em tom baixo e analítico. Jaskier ouviu com atenção enquanto Geralt lhe explicava como eram feitas as tais trapaças, certo de que na próxima aposta seria mais fácil identificar o ganhador, para sair com os bolsos pesados por moedas. Eles se distraíram com a conversa, a ponto de notar que a corrida já havia encerrado apenas quando os nobres finalmente fizeram barulho de verdade. Muitos comemoravam, enquanto outros saíram das bancadas com as sobrancelhas juntas e murmúrios que, se ditos em voz alta, fariam da festa uma grande algazarra.

Os homens e mulheres desceram aos poucos, tão organizados quanto animados. Geralt os observou com atenção, apurou os ouvidos para poder localizar Vellferdudic, porém, seus sentidos foram atrapalhados quando no meio daquelas pessoas, um homem gordo e barbudo os notou e sorriu largamente. Ele se apressou com afobação e logo já estava próximo de ambos.

— Oh! — Ele exclamou animado, juntando as mãos na larga barriga. — Você é o bruxo Geralt de Rívia.

Em contrapartida, o bruxo não esboçou alegria ou raiva, surpresa ou reconhecimento.

— O senhor me conhece?

— Mas é claro — o sorriso se alargou e o nobre simpático se tornou ainda mais animado quando se virou para o poeta. — E o senhor é o mestre Jaskier; é por ele que o conheço, senhor bruxo. Suas baladas correm o Continente. Eu sou um grande fã! — Ele estendeu a mão para o trovador, que foi contagiado com a recepção calorosa e retribuiu o sorriso e apertou as palmas. — Sou Brastol Vellferdudic, é um prazer. Mas que honra em tê-lo em minha frente. E ouvi que me procura. Parece mais como um sonho!

Vellferdudic demorou para soltar a mão do bardo. Os olhos brilhavam de uma forma diferente quando o olhava diretamente, e nem sempre conseguia mantê-los quietos em Jaskier e desviava para o chão. Aquele era mesmo um fã. Por todos aqueles anos em que viu a popularidade do amigo crescer, ele era tratado daquela forma pelos mais apaixonados por sua arte, e o ego do trovador inflava ainda mais, deixando-o mais irritante do que já era.

— O prazer é todo meu, senhor Vellferdudic — Jaskier tirou o pequeno chapéu de sua cabeça e se curvou levemente quando a mão enfim foi solta. — Ter alguém de tamanha distinção com o meu nome tocando-lhe os lábios é uma honra.

O bruxo respirou fundo enquanto os observava. O homem parecia afobado, se atropelava nas palavras que só tinham elogios e felicidade, o que o fez estreitar os olhos e se tornar ainda mais atento a Brastol Vellferdudic. Geralt não havia escutado sobre sua aparência, porém, o jeito e as palavras que usava foram descritas por Eskel com detalhes, e não era nada parecido com o que via naquele homem que adulava Jaskier como se este fosse o próprio rei da Redania.

No meio de sua análise, Geralt não notou de imediato que havia sido incluído na conversa. Jaskier levantou as sobrancelhas e o cutucou com discrição, e Vellferdudic pareceu sem jeito.

— Estou aqui pelo contrato — indiferente ao que lhe fora perguntado, o bruxo foi direto. — Não há grandes detalhes no anúncio, mas ouvi que precisa de um bruxo.

— Mas é claro! Os detalhes serão dados apenas por mim, e peço o máximo de discrição, se puderem — ele se tornou sério por um breve momento, mas o sorriso logo retornou quando alguns homens se aproximaram para cumprimentá-lo. Vellferdudic esperou se afastarem novamente para continuar a falar, mas não voltou a seriedade e apontou para a pista, onde sua égua estava sendo cuidada. — Mas não quero tratar de negócios aqui, não este. Aenye ganhou sua primeira corrida e vamos comemorar esta noite. Os convido para jantar em minha casa — ele se curvou levemente, apenas para o trovador. — Mestre Jaskier, espero que possa recebê-lo como merece.

O tom de voz mudou na última frase, e chamou ainda mais a atenção de Geralt. O tratamento entre eles era diferente obviamente, e nem mesmo uma novidade. Ele e Jaskier eram completamente distintos, e vistos de formas diferentes por todas as classes, mas havia algo que incomodava o bruxo, e não era apenas aquele homem ou o trovador.

— Tenho certeza de que será mais do que o suficiente, nobre Vellferdudic — o poeta sorriu de maneira charmosa e colocou o chapeuzinho de volta na cabeça.

— Por favor, me chame de Brastol!

Eskel, será mesmo que conhecemos o mesmo Vellferdudic? O bruxo perguntou internamente, enquanto o via se tornar ainda mais simpático e acolhedor. De todos os contratos comentados por seu irmão de guilda, aquele era o único que ele havia buscado pessoalmente e tinha certeza de que existia. Meses atrás, Eskel visitou Tretogor e a mansão de Brastol Vellferdudic. A descrição do bruxo era a de um homem ranzinza e de cara fechada, que mal o olhou nos olhos e o dispensou logo após saber seu nome. O anuncio pedia por um bruxo, mas segundo Vellferdudic, não para aquele bruxo. Esquisito, fora como Eskel descreveu aquele homem, e avisou Geralt que talvez fosse uma perda de tempo, porém, pelo caminho nenhum outro anúncio foi visto, ou encontrou trabalho em alguma taverna, então o bruxo resolveu arriscar perder alguns dias naquela área.

— Então, nos vemos mais tarde — Geralt se incluiu na conversa que voltou a ser sobre o jantar. — Temos que procurar um lugar para deixarmos os nossos pertences.

— Não há necessidade — Brastol, chacoalhou a cabeça com rapidez. — Insisto que se hospedem em minha casa. Oh, que honra seria, mestre Jaskier! E minha esposa e filha ficariam encantadas com sua presença. Elas também o adoram, sabem todos os seus poemas e baladas decor.

O poeta riu contido, mas com alegria.

— Me sinto lisonjeado, Brastol, e ansioso para conhecer sua família — ele balançou a cabeça. — Nós aceitamos a sua bondade com prazer.

Jaskier olhou para o bruxo, moveu os olhos e a cabeça de forma discreta, indicando que também se pronunciasse, e quase arrancou um pesado suspiro do amigo.

— Certo — Geralt disse simplesmente, curvando apenas o pescoço para frente. — Obrigado.

Vellferdudic se afastou, animado demais para se afetar com a frieza do bruxo, dando ordens para seus homens, para que os levassem até sua mansão com bastante cuidado. Diferente do nobre que faltava saltitar sobre a grama, Jaskier o olhou com repreensão. Geralt não era tão sociável, não era novidade, mas sabia muito bem como se portar em lugares como aquele. A preguiça em seu olhar era clara, o que deixava o poeta indignado.

Houve um breve momento para as reclamações, e Geralt não queimou energias para rebater às palavras. Jaskier não estava completamente errado, e no fundo, o bruxo sabia que o motivo de Vellferdudic acolhê-los tão bem era exclusivamente pelo poeta. Eskel não era o bruxo para aquele trabalho, segundo o nobre, e talvez nem mesmo ele fosse, mas a diferença era que estava na companhia de uma celebridade, e não deixaria de se aproveitar disso, já que no fim, seus bolsos estariam fartos por isso. Aquilo tudo era graças a Jaskier, ele tinha certeza, mas não havia intenção de agradecê-lo ou inflar ainda mais o seu ego, então apenas o ouviu por todo o caminho, indiferente e um pouco menos desconfiado, porém, não totalmente.

Eles foram levados até a mansão dos Vellferdudic em uma carruagem. Geralt recusou no início, alegando que os seguiria junto de Plotka, porém, Jaskier não permitiu que negasse uma segunda vez. O poeta estava claramente eufórico com a ideia de finalmente ter bastante conforto, que não era possível há tanto tempo. As adulações de Brastol também massageavam seu ego, e de maneira alguma queria demonstrar um lado deselegante, tanto dele quanto de sua companhia, que pensando apenas no contrato e na recompensa, entrou na carruagem completamente mudo e saiu dela da mesma forma.

A mansão não era a mais exuberante que Jaskier já havia visto, mas isto não era uma falha ou sinal de que Brastol não era tão rico quanto diziam; a realidade era que o poeta frequentara muitas residências em sua vida, de todas as classes, que iam de uma barraca no meio da floresta de Sodden até um imenso castelo em Toussaint. Se tratando do luxo, pouco impressionava o bardo, mas tudo o inspirava, e não foi difícil arrancar elogios e ideias de sua cabeça enquanto andava entre os móveis antigos dos Vellferdudic, estes sim bastante exuberantes, combinando perfeitamente com os quadros famosos que se misturavam com os retratos dos membros atuais e os passados da família.

— Este foi o meu pai — Brastol sorriu com orgulho quando notou o interesse de Jaskier em uma moldura robusta pendurada sobre a lareira da grande sala. — Ele dobrou os ganhos de meu avô, nos trouxe prosperidade e as melhores éguas do Continente. É uma pena ter sido levado pela peste. Ele, mais do que qualquer um desta família, adoraria este exato momento e os que estão por vir.

O sorriso se alargou enquanto encarava o homem pintado com um grosso bigode. Jaskier fazia o mesmo, por isso não notou totalmente a alegria de Brastol, mas o bruxo, que não tirava o olhar do dono da mansão, se sentiu incomodado; não pelo sorriso ou a maneira com que pesou a mão sobre o ombro do poeta. Em seu olhar, havia uma estranha expectativa, que o deixou alerta a todo o caminho até a sala de refeições, e acabou o fazendo se sentir tolo após conhecerem a senhora Vellferdudic e sua filha. Elas eram animadas como Brastol, mas havia clara elegância e vibrações comedidas que o senhor daquela mansão não tinha.

O bruxo pensou em declinar o chá da tarde; parecia íntimo demais com apenas os cinco, e o jantar já seria o máximo que poderia aguentar na presença de tantos nobres, porém, desta vez bastou um olhar de Jaskier para entender que não poderia recusar nada naquele lugar.

Ele se sentou à mesa, completamente desconfortável, e com o tempo, se tornou entediado. As conversas eram sobre poesia e pinturas, mas se tornou um pouco interessante quando as éguas foram mencionadas.

— Bem, mas isto é um assunto para mim e o bruxo — Brastol avisou enquanto se levantava, enfim trazendo alívio para Geralt. — Se puder me acompanhar até o meu escritório, poderemos falar sobre o contrato.

Ele não hesitou para se levantar enquanto assentia, e foi naquele instante que a sensação de tolice o tomou. O olhar diferente de Brastol retornou para Jaskier, e se estendeu para a filha, Lastitia, que desviou a atenção para a xícara na mesa. Os Vellferdudic se agitaram por um breve e quase imperceptível momento. A mãe forçou o sorriso para o bruxo, incentivando-o a acompanhar seu marido, enquanto a filha continuava a abaixar a cabeça, parecendo cogitar colocá-la entre as pernas. E quanto a Jaskier... Ah, o poeta continuou com seu sorriso fácil e feição de idiota, sem ter uma pista do que se passava ali, quando o bruxo passou a ter uma ideia, que o fazia ficar sem saber se deveria se sentir aliviado ou incomodado pela alta possibilidade de aquela família amar um pouco demais o trovador.

O escritório de Vellferdudic não ficava muito longe da sala principal. Era grande e as paredes estavam cobertas de livros que seu dono não chegara a folhear nem mesmo a metade. Brastol não era um estudioso ou alguém que apreciava a leitura como uma forma de entretenimento; sua felicidade estava nas éguas e no estabulo maior que sua própria mansão, e era exatamente por este motivo que convidara o bruxo para se sentar na cadeira forrada com veludo escuro em frente à que se acomodou. As mãos entrelaçaram sobre a mesa que os separavam, enquanto terminava de contar seu estilo de vida que não fora questionado, mas foi escutado com bastante atenção.

— Eu falo um pouco demais. Peço desculpas por isso, mestre bruxo — Brastol riu sem jeito, mas relaxou quando o viu balançar a cabeça de forma discreta. — Mas fique tranquilo, sobre o trabalho, serei o mais direto e objetivo que puder.

— Não há necessidade de desculpas — o bruxo acenou com a cabeça novamente. — Se realmente precisa de um bruxo para resolver o problema, então prefiro que me dê todos os detalhes.

— Como queira, senhor bruxo — Brastol sorriu novamente, mas desta vez a seriedade o tomou rapidamente. Ele apoiou os braços sobre a mesa e abaixou o tom de voz. — Bem, a história é a seguinte: há meses, os meus homens vêm notando situações estranhas no estábulo.

Brastol respirou fundo e se recostou na cadeira. Ele narrou o acontecimento desde o início. Começou com portas abertas durante a madrugada, depois, até mesmo algumas éguas fora de suas baias. A família e os empregados acharam que fosse uma brincadeira de alguém, e Brastol deixou o acontecimento passar, até a gozação ir longe demais. Uma das éguas acabou sumindo, e logo ele relacionou isso a um roubo.

— Mas, não foi isso que eliminou totalmente o pensamento de que era uma brincadeira, senhor bruxo — informou Brastol, enquanto a cabeça balançava de um lado para o outro. — Contratei homens para vigiar durante a noite, por segurança. Eu não poderia perder outra égua, elas custam muito ao longo dos anos, até ficarem prontas para competir.

Geralt assentiu. Ele entendia o quanto era preciso para manter uma égua comum, e uma para corridas como as que Brastol participava, só podia imaginar a fortuna gasta. Então, não foi surpresa saber que a segurança havia sido aumentada, porém, logo também soube que não adiantou de muita coisa. Na primeira noite com seguranças, não apenas outra égua sumiu, mas também dois dos homens que vigiavam a área.

— Que dor de cabeça foi tentar explicar o que aconteceu — Brastol continuou a contar. — A guarda de Tretogor foi avisada, mas ninguém encontrou pista alguma, nem mesmo os homens que estavam com eles naquela noite souberam dizer o que houve. Eles simplesmente sumiram!

Foi tudo bastante estranho, segundo Brastol, e não parou por aí. Seus homens ficaram determinados, querendo respostas do desaparecimento. Eram todos amigos. Continuaram a trabalhar para a família Vellferdudic, até outro homem desaparecer misteriosamente, mas não foi de forma silenciosa desta vez. Houve gritos que até mesmo Brastol pôde ouvir do conforto de sua mansão.

— Ele parecia desesperado, assim como as minhas pobres éguas. Foi horrível — ele abaixou o olhar para as mãos sobre a mesa. Os dedos se moviam inquietos. — Quando cheguei, o rapaz já havia sumido, mas a minha Mirla, minha pobre égua Mirla, uma das mais velozes, estava morta. Tinha tanto sangue, mestre bruxo. Os rapazes a analisaram e disseram que parte dela havia sido devorada, como se uma besta tivesse arrancado suas patas traseiras com os dentes — ele levantou o olhar novamente, e Geralt viu ansiedade nele. — Não tive coragem de me aproximar dela, nem mesmo de Fada, ela se foi da mesma forma, no começo desta semana.

A história de Brastol era de fato estranha. Geralt tinha algumas criaturas em mente, mas não havia apenas uma em cada teoria criada enquanto o ouvia. Como o esperado, apenas o relato não seria o suficiente.

— Mais algum homem desapareceu? — Ele perguntou e Vellferdudic balançou a cabeça de um lado para o outro.

— Depois de Mirla, eles finalmente se acovardaram. Abandonaram o trabalho.

Compreensível, pensou o bruxo. Um homem comum, mesmo o mais corajoso, tinha limites e seus medos pessoais. Sim, poderia ser medo, como Brastol dissera, porém, ele também não descartou o envolvimento deles na estranha situação.

— As portas, elas foram arrombadas quando as éguas foram mortas?

— Não. Isso também é estranho, senhor bruxo, pois era como se a criatura soubesse o que estava fazendo. Não há cadeados, mas as portas são fechadas com madeira, para impedir apenas a fuga das éguas — ele parou por um momento, quando notou as sobrancelhas do bruxo se moverem por breves segundos. — A propriedade inteira é minha e sempre acreditei que nenhum individuo passaria pelos portões principais, quem dirá alguma criatura, ao menos não sem ser vista — explicou devagar e cauteloso. — Eu temo por minhas éguas, e principalmente, por minha família e empregados. Todos estão apavorados, alguns mal se aproximam do estábulo; apenas os veterinários e os treinadores, mas tremem como loucos e saem com pressa. Isso também é ruim para os negócios, é por isso que preciso urgentemente de um bruxo.

Por fora, Geralt não demonstrou alteração desta vez, porém, internamente ficou alerta. Se era tão importante e urgente resolver aquele problema, porque era ele e não Eskel quem escutara toda a história?

— Isso parece estar acontecendo há algum tempo — ele disse. A voz soou neutra, enquanto os olhos permaneceram quietos na direção de Brastol. — Nenhum outro bruxo tentou pegar o contrato?

O olhar do dono daquelas terras desviou novamente, e as mãos sobre a mesa recuaram. Geralt o notou desconfortável enquanto se remexia na cadeira. Demorou um tempo considerável até vê-lo abrir a boca novamente.

— Na verdade, sim, houve outro — Brastol enfim o respondeu, porém, o olhar continuou baixo. — Mas... o mandei embora. Me perdoe, mas depois de tudo, não consigo confiar tão facilmente em qualquer um que não seja humano — os olhos castanhos se mostraram receosos quando voltou a olhá-lo. — Nem mesmo tive coragem de colocar essa história no contrato. Ninguém, fora os empregados e alguns guardas, sabem o que vem acontecendo, e espero que mantenha assim.

Brastol vinha tentando expandir os negócios. As corridas lhe rendiam não apenas dinheiro, mas também popularidade e convites; pedidos para que os cavalos de outros fossem treinados e cuidados ali começaram a surgir. Mais uma vez, Geralt achou compreensível todo aquele temor, assim como ainda estranhava muito de seu jeito de agir. Ao mesmo tempo que muito fazia sentido, nada parecia certo.

— E por que confia a sua história a mim? — Ele não pôde deixar de perguntar. — Eu sou um bruxo, como o outro que esteve aqui.

— Eu não acho — Brastol balançou a cabeça com seriedade, mas logo forçou um fraco sorriso. — Eu ouvi as histórias, você é o amigo mais próximo do Mestre Jaskier, logo não vejo por que me preocupar.

E lá estava Jaskier na ponta da língua de Vellferdudic novamente. O olhar de sua filha sobre o bardo inesperadamente foi lembrado naquele momento. O incômodo que o bruxo sentia aumentou.

— Você também não conhecia Jaskier, até hoje — Geralt se inclinou para a frente, podendo olhar a expressão de Brastol um pouco mais de perto. — Eu até mesmo venho me perguntando como o reconheceu tão facilmente.

Ele não tinha grandes motivos para desconfiar ou ficar nervoso, mas era como se sentia naquele instante, e o jeito de agir naturalmente saiu do controle. O olhar sério era desnecessário, e fez o dono daquela mansão se arrepiar com intensidade. O sorriso que antes já era forçado tremeu, até que soltasse um suspiro longo e nada aliviado.

— Geralt, você nunca foi um grande fã de nada, não é mesmo? — Ele riu com nervosismo. O bruxo notou as mãos inquietas nos braços da cadeira, e como pela primeira vez que estava naquela sala, foi chamado somente pelo nome. — Há quadros com imagens de Jaskier, dos quais fiz questão de comprar para a minha filha Lastitia. E sobre não conhecê-lo, o senhor está enganado — de repente, Brastol pareceu relaxar um pouco. — A arte dele diz muito sobre quem é. Eu o conheço muito bem. Mas, não estamos aqui pelo meu fanatismo pela arte — ele afirmou, voltando a seriedade de antes. — Eu preciso salvar as minhas éguas, bruxo, e gostaria de saber se tem interesse em me ajudar. Tome o tempo necessário, irei acolhê-los com prazer, desde que encontre essa criatura e descubra o que houve com os meus homens desaparecidos, mesmo que já tenha uma terrível ideia.

Geralt não desviou o olhar por nenhum segundo, o que claramente intimidava Brastol, e explicava os picos de insegurança enquanto se expressava. Ele gostava de saber claramente com quem se envolvia, não era novidade, porém, precisou se repreender antes de voltar a descansar as costas na cadeira. Não podia se deixar levar por sentimentos, principalmente quando não havia provas para tê-los. Aquilo era trabalho.

— Vamos falar sobre a recompensa.

— É claro — Brastol se acalmou, e aos poucos voltou a abrir um sorriso que para o bruxo pareceu vitorioso. — Eu ofereço quinhentas coroas pelo serviço e adiciono um bônus de trezentas, as que adianto agora — ele abriu uma gaveta ao lado, e com cuidado colocou três bolsas pequenas sobre a mesa. — Um agradecimento por sua discrição. Assim parece bom para o senhor?

O que poderia dar de errado? Muitas coisas, ele pensou consigo mesmo, mas, ainda assim, se inclinou para pegar as bolsas pesadas. Era raro receber adiantado, e como quando aceitou o convite para o jantar, reforçou a ideia de aproveitar as regalias que a companhia do bardo trazia desta vez.

— Sim, parece bom. Estamos acertados então — ele se levantou junto de Brastol, que assentiu. — Peço que me permita andar pela região livremente.

— Já era o esperado. Fique à vontade — o sorriso se alargou. — Ah, como eu disse, esta região toda é minha, tenho bastante terreno. Se andar demais, o que imagino que irá, deixarei avisado de que pode se estabelecer em qualquer casa durante a noite ou dia, é só mostrar o meu selo, e meus homens irão acolhê-lo e servi-lo.

Brastol era bastante receptivo, o que deixou o bruxo um pouco sem jeito sobre os próprios pensamentos e desconfianças. Tudo não havia sumido magicamente com aquelas palavras gentis, mas Geralt precisou reconhecer que talvez ele estivesse sendo duro demais.

— Eu agradeço. Por isto e pela hospedagem em sua mansão — ele o acompanhou até a porta. — São poucos que me acolhem desta forma.

Brastol fez um gesto relaxado com a mão.

— Não há necessidade de agradecimento. Para mim, é um prazer — ele abriu a porta, mas assim que Geralt saiu do escritório, o fez parar com um chamado. — Nós iremos jantar com mais convidados mais tarde — avisou Brastol. — Um bom banho e vestes novas estarão à espera de ambos no andar de cima. Em alguns instantes, os quartos para os senhores também estarão prontos para o uso.

O sorriso do homem ainda estava ali, relaxado enquanto oferecia mais uma gentileza, porém, ainda assim Geralt não conseguiu frear o tolo sentimento que o balançou novamente.

— Nós dividiremos o mesmo quarto — avisou sem rodeios, e não sentiu vontade de recuar quando as sobrancelhas de Brastol se ergueram.

— Não há motivos para isso, mestre bruxo — ele riu sem jeito. — Tenho muitos quartos a disposição, e também nenhum deles tem duas camas, então...

— Não se preocupe conosco — Geralt o cortou —, podemos dividir uma cama sem problemas.

— Oh... — Brastol hesitou. Em sua expressão o bruxo pôde ver mais de um sentimento. — Certo, certo — ele desviou o olhar enquanto fechava a porta do escritório para se juntar a Geralt, que finalmente notou que suas palavras poderiam ser interpretadas de uma maneira um pouco estranha.

Ele pensou em voltar atrás ou se explicar de alguma forma, mas sequer abriu a boca enquanto caminhava ao lado de Brastol. Aquilo havia sido vergonhoso, ele nem mesmo hesitou para falar, mas, de alguma forma, o bruxo se sentiu satisfeito. Ele estava ao lado de Jaskier e não sairia dali, e a estranha necessidade de deixar isso claro o fez aceitar os olhares estranhos de Brastol Vellferdudic.

Apesar de ter tudo esclarecido, ele ainda não se sentia confortável naquele lugar. Os pertences de ambos foram levados para cima, enquanto Plotka descansava no estábulo. Jaskier não comentou quando um empregado os deixou a sós em um único quarto com apenas uma cama, mas seus lábios se separaram e as sobrancelhas foram erguidas quando viu o bruxo amontoar as bolsas em um canto. Ele indicou que deixaria as nos estábulos, e aconselhou o bardo a manter o alaúde por perto, se não quisesse perdê-lo.

— Vai me contar qual é o problema? — Jaskier perguntou enquanto o seguia com o olhar. Os braços se cruzaram quando Geralt afastou o alaúde deixado sobre a cama e se sentou com estranha cautela.

— Quando eu souber qual é o problema, vou dizer — disse ele enquanto analisava o quarto com o olhar, até parar na face confusa do poeta à sua frente. — Eu não sei, algo não me cheira bem nesta casa — Geralt suspirou impaciente, porém, seu olhar relaxou aos poucos. — Desculpe. Sei que queria ter um lugar mais confortável, depois de tanto tempo dormindo em qualquer lugar.

Ele mal conseguia se lembrar da última vez em que haviam dormido em uma cama. Desde Flotsam, economizar foi um acordo de ambos, e acostumados a estrada, folhas secas, e fogueiras enquanto revezavam a vigia durante a noite, eles viajaram até a Redania. O máximo de conforto que tiveram naquele tempo fora sentar em bancos duros de uma taberna em uma rápida parada em Rinde, para uma refeição que enfim não havia sido caçada pelo próprio Geralt. Jaskier não era um mal cozinheiro, mas os dois concordaram que valia a pena voltar a gastar ao menos com a comida; a sopa de peixe era muito melhor quando feita em um lugar apropriado, e a cerveja era deliciosamente gelada.

— Bem, não é a primeira vez que dividimos uma cama — Jaskier deu de ombros. — E eu acho mais confortável quando está comigo.

Ele se deteve antes de continuar a falar o que simplesmente estava em sua cabeça. A expressão envergonhada foi breve, para ambas as partes, ainda que o bruxo também tivesse se mostrado surpreso com o que ouvira, e o poeta pigarreou enquanto tentava pensar se deveria se mover dali ou não.

— Enfim, eu acho que está exagerando um pouco. Nós mal chegamos — ele continuou, ainda confuso sobre o que fazer com o próprio corpo e mais envergonhado por ter gaguejado no início da frase. — Não me faça passar vergonha, Geralt. Ele é um homem com influência e é um fã!

As sobrancelhas do bruxo se juntaram por um breve momento.

— Deveria dividir a cama com ele, então, já que confia tanto em quem acabou de conhecer — o tom foi sério enquanto se levantava, e não querendo se irritar ainda mais, parou diante da janela, evitando olhar diretamente para o bardo. Porém, o sentimento não sumiu, até mesmo cresceu um pouco mais, chegando a causar uma leve dor no peito. — Ou talvez com a filha dele, ela parece que não teria objeções.

Geralt fechou os olhos e respirou fundo, mas logo os abriu. Lá em baixo, os criados da família Vellferdudic trabalhavam apressados por conta dos convidados que receberiam mais tarde, enquanto ele mal conseguia enxergá-los com os sentimentos tão pesados e indesejados que o abraçavam.

Jaskier se surpreendeu imediatamente. Ele não podia ver a expressão do bruxo, mas o tom de sua voz e a maneira com que apertava os braços sobre o peito fizeram seu coração se agitar, e devagar, um largo sorriso se abriu. Diferente de Geralt, o que sentia era um leve calor agradável, e devagar, também andou até a janela.

— Você se sentiria solitário — o poeta disse. Sua voz era melodiosa e carregada de um novo bom-humor. — E não é confortável com ninguém além de você.

Ele encostou o ombro na parede da janela e enfim pôde ver a expressão emburrada de Geralt. Como pode um bruxo sanguinário ser tão adorável? Jaskier se perguntou enquanto ria em tom baixo. O sorriso se alargou quando o som chamou a atenção dos olhos amarelos, e o coração acelerou um pouco mais. As palavras soaram como uma provocação tola, mas Jaskier manteve o olhar no outro, desta vez não querendo esconder o verdadeiro significado por trás de sua voz. Ele havia pensado sobre aquilo durante toda a viagem. Parecia arriscado e até mesmo perigoso, mas o poeta decidiu que não podia mais esconder de Geralt certas partes de si mesmo. Eles eram melhores amigos, afinal, e o coração de Jaskier há muito esperava que pudessem ser um pouco mais que isso.

— Jaskier... — Geralt hesitou, mas se virou completamente para ele. Os braços se soltaram e os lábios se separaram novamente. Havia certa tensão no bruxo, mas os olhos esperançosos e sedutores do bardo traziam um ar tentador, que o fez dar um passo para se aproximar um pouco mais, porém, um suave toque na porta o interrompeu.

Os olhares desviaram um do outro, envergonhados por motivos que preferiram fingir que não conheciam, mas que ficavam cada vez mais claros um para o outro. Em tom baixo e decepcionado, Jaskier permitiu que a pessoa do outro lado entrasse. Mas ela não entrou. A porta foi aberta, e ainda com os pés no corredor, a empregada se curvou levemente.

— Os banhos estarão prontos em breve, senhores — ela disse em tom educado, mas não levantou o olhar para eles. — Venho apenas para perguntar se há alguma exigência para as essências.

— Eu tomarei um banho mais tarde — Geralt avisou um pouco apressado demais. — Estou de saída. E quando voltar, qualquer essência me serve.

A empregada assentiu e Jaskier se desencostou da parede enquanto levantava as sobrancelhas.

— De saída? E o jantar?

O bruxo se esforçou para se afastar e desviar o olhar. Seu peito estava agitado, e a prioridade era acalmá-lo, porém, Jaskier não o ajudava nem um pouco enquanto o seguia pelo quarto.

— Estou aqui para trabalhar — o lembrou ainda apressado. As bolsas foram pegas e só então Geralt notou que a empregada ainda esperava pela resposta do bardo. — E o jantar será daqui algumas horas, há bastante tempo — ele enfim olhou para Jaskier. Os olhos claros eram brilhantes e continham uma estranha esperança. A agitação ainda estava ali, em ambos, e Geralt precisou desviar a atenção novamente enquanto diminuía o tom de voz e fazia um sinal discreto para a empregada. — Cuide de você mesmo, não a deixe esperando. Não era você que não queria ofender ninguém nesta mansão?

Ele seguiu até a porta, acenou com a cabeça para a mulher, mesmo sabendo que ela não reagiria, por ainda ter a cabeça fielmente abaixada. O suspiro pesado dentro do quarto foi escutado, e um leve arrepio o incomodou, porém, a atenção continuou na mulher por um breve momento, até se virar em direção das escadas.

As sobrancelhas do bruxo se moveram novamente, e a sensação calorosa no peito se misturou com a desconfortável de antes. A empregada estava tremendo, foi fácil notar quando passou por ela, e Geralt se dividiu pela suspeita e a ideia do quanto era aquela visão era normal. As pessoas comuns o temiam onde quer que fosse, porém, isso nunca acontecia com Jaskier, e quando olhou para trás e a viu da mesma forma reclusa ao falar com o trovador, ele não conseguiu se manter em uma única ideia.

Notas finais
Oie! Tretogor foi dividido em 3 capítulos, me empolguei huahudhsduahs Finalmente os dois conseguiram um lugar confortável pra ficar, mas Geralt ainda quer dividir a cama hehe Brastol foi bem legal, só que o Geralt teima em não ir com a cara dele. Vocês acham que é paranoia? Jaskier acha! Espero vcs nos comentários~ Até!