De Kaer Morhen à Kaer Trolde
10 Kaer Trolde

Geralt não se deixava dominar pelo tempo. Ele costumava passar o inverno em Ker Morhen, mas sempre treinando; no resto das estações, fossem quentes demais, amenas ou chuvosas, ele estaria na estrada, ganhando dinheiro e certa fama. O bruxo nunca pensou em adiar algum encontro ou compromisso para poder ficar um pouco mais na cama, mas isso fora antes de dividi-la com Jaskier.
Ele demorou para conseguir coragem e afastar o adormecido bardo agarrado em sua cintura. O calor era confortável, e as sensações que o embalara durante a madrugada o fazia querer esperar os belos olhos se abrirem novamente para repetirem tudo o que haviam feito. Mas, desta vez ele não podia ceder aos próprios desejos. Ele já havia levado tempo demais para cumprir com sua resposta à carta de Crach An Craite, e não queria parecer ainda mais rude. Ele e o líder do clã An Craite haviam tido suas diferenças no passado, mas aquilo já fazia muito tempo, e o bruxo queria manter o respeito conquistado por ambas as partes.
O convite não era urgente, mas temia que o filho de Crach não aguentasse mais esperar, e acreditava que o duque de Kaer Trolde sentia o mesmo, ainda que disfarçasse muito bem em sua letra pesada, mas estranhamente elegante.
Geralt focou em arrumar seus pertences e de Jaskier em silêncio. Durante o processo, ele não se atreveu a olhar para a cama, ou cederia ao que seu coração ainda insistia. Podia ouvir a respiração profunda de Jaskier, fazendo-o se sentir ainda mais tentado, contudo, também trouxe a dúvida se teria que acordá-lo de maneira forçosa, para que pudessem partir. Depois de horas com os corpos agarrados um no outro, gemidos, sussurros e longos beijos, não era surpresa que o poeta estivesse tão cansado, e o bruxo lamentou a ideia de acordá-lo. Parte daquela situação era sua culpa, afinal, e mesmo culpado, enquanto preparava os cavalos do lado de fora, não pôde de deixar de sorrir orgulhoso por ter certeza disso.
Jaskier definitivamente sabia o que fazia, Geralt precisou admitir, e não reprimiu a ansiedade de voltar a tocá-lo, apenas se conformou de que precisava esperar. Mas, as lembranças da noite anterior continuaram a se repetir em sua mente, contentando-o com a realidade que lhe dizia que não havia mais como voltar atrás, depois de tudo.
Por meses, ele temeu aquele momento e o que viria depois. Mudar completamente sua relação com o poeta parecia tentador e ao mesmo tempo terrível, pois a relação que sempre tiveram já era boa o suficiente e não queria estragá-la, mas Geralt no presente só conseguia olhar para trás e se sentir bastante tolo por isso. Nada havia sido estragado, e ele sequer pensava em querer de volta a relação em que eram apenas dois amigos que claramente se queriam e se reprimiam enquanto dividiam camas com desculpas esfarrapadas. Era ótimo daquela forma, e como era.
A visão de Jaskier completamente nu embaixo de seu corpo seria dificilmente superada, ele tinha certeza, mas o coração do bruxo vacilou algumas batidas quando retornou para o quarto e viu os olhos claros abertos, mas ainda sonolentos. O corpo estava perfeitamente vestido com as peças de dormir e um grosso cobertor enrolado nele. As bochechas estavam avermelhadas pelo frio, e os pés cobertos apenas por meias andaram usando apenas as pontas dos dedos, quando o poeta o viu passar pela porta.
Os lábios de Geralt se curvaram levemente. Os cabelos castanhos estavam bagunçados e a expressão ainda era cansada, mas continuava tão belo que lhe tirou a fala por um momento, quando entendeu que definitivamente não podia contar com o insuperável quando se tratava de Jaskier. O poeta o fascinava de formas tão distintas e com intensidades diferentes que ele mal podia nomear alguns dos sentimentos que ele causava.
Jaskier deitou a cabeça no peito do bruxo, e soltou um profundo suspiro quando suas costas foram acariciadas.
— Por que não está na cama? — Ele perguntou em tom rouco. — Vamos voltar, vem.
Geralt precisou se esforçar para não concordar imediatamente, mas ele não resistiu ao contato, e a carícia nas costas do bardo acabou se tornando um abraço que foi muito bem recebido. O rosto se abaixou, até tocar a cabeça, e os fios bagunçados tocaram o nariz gelado do bruxo. Ele adorava o cheiro suave do shampoo que Jaskier sempre trazia consigo.
— Nós precisamos partir — ele disse, mas não tão firme quanto queria. — Vamos comer e ir para Kaer Trolde.
— Vamos mais tarde.
O bruxo sorriu ao ouvir o tom manhoso enquanto o rosto de Jaskier era esfregado em seu peito.
— Não posso mais adiar. An Craite me espera já faz algum tempo, e ele com certeza já sabe que chegamos na ilha — Geralt explicou, paciente demais para alguém como ele.
A mão subiu para os cabelos do bardo enquanto explicava que se não partissem logo, não chegariam na fortaleza dos An Craite naquele dia. Mas Jaskier não quis escutá-lo, e como último recurso, levantou a cabeça e mostrou seus olhos suplicantes. Aquela visão sempre ganhava do bruxo, mas desta vez houve mais resistência por conta do compromisso com terceiros.
— Não vai funcionar, não desta vez — ele disse com divertimento, mas a expressão do poeta fora completamente diferente da sua.
— Então, quer dizer que uma vez que teve o que quer, meu charme não funciona mais?
As sobrancelhas de Jaskier se juntaram, e Geralt acabou rindo em tom baixo.
— Só quer dizer que estou me esforçando aqui — ele explicou enquanto tocava o belo rosto próximo ao seu com as duas mãos —, porque sei que se voltarmos para a cama, não vou te deixar sair dela por alguns dias.
As palavras tiveram o efeito exato que Geralt procurava. O olhar do poeta mudou rapidamente, e os lábios se curvaram com malícia quando soltou o cobertor para tocar sua cintura.
— Não é uma má ideia.
Ele aproximou os lábios devagar, provocativo, esperando que Geralt cedesse, mas no fim não resistiu por muito tempo e foi quem beijou o bruxo primeiro. A porta do quarto foi fechada enquanto as línguas se acariciavam devagar, mas tão desejosas quanto na noite anterior. Os corpos esquentaram levemente, e neste momento, Geralt viu que não poderia se demorar ainda mais no beijo, ou realmente não seria capaz de sair daquele quarto pelos próximos dias. Ele desceu as mãos para a cintura do poeta e o afastou apenas o suficiente para que os corpos excitados não se tocassem.
— Jaskier... — o tom soou repreendedor, assim como o olhar, mas Jaskier não se afetou por isso. O sorriso provocador retornou, mas havia menos malícia nele e em como as mãos do poeta deslizavam pelo peitoral do bruxo, até chegar no pescoço. Neste momento, o sorriso de Jaskier enfraqueceu, e o olhou diretamente nos olhos.
— Você não vai fugir, não é? — Ele perguntou em tom baixo e receoso, surpreendendo Geralt, mas apenas por um momento. Era compreensível que pensasse daquela forma. Ele já havia fugido dos próprios sentimentos vezes demais no passado, e pela primeira vez se sentiu culpado por isso.
— Não, não mais — Geralt garantiu com confiança, e quando viu o poeta voltar a relaxar em seus braços, até mesmo arriscou um rápido beijo, que, por culpa do poeta, não se manteve tão comportado quanto pretendia. — Por favor, Jaskier, vá se trocar — ele pediu levemente ofegante, um pouco antes de receber outro beijo, porém, mais rápido que o anterior. — Eu estou mesmo me esforçando aqui.
Jaskier acabou rindo divertido quando enfim o soltou e levou um leve tapa na bunda. Geralt tinha uma expressão engraçada no rosto, e parecia mesmo se controlar ao máximo, e isso o deixou bastante contente. Era raro ver o bruxo daquela forma. Antes, quando queria afastá-lo, ele simplesmente fingia frieza ou ignorância sobre o que sentiam.
— Será que irão organizar um banquete para nós? — O poeta perguntou animado. Ele estava acostumado a ser recebido com festas quando se tratava da realeza, e os An Craite sabiam dar um banquete como ninguém. Havia sempre bebida e carne em abundância, assim como boa música.
— Eu espero que não.
Assim como Jaskier esperava, enquanto devolvia a coberta para a cama, ouviu o bruxo soltar um pesado suspiro. Não importava quantos banquetes Geralt participasse, ele nunca se acostumava ou ansiava por eles como o poeta.
O desjejum foi feito ás pressas, e por um milagre o bruxo não ouviu nenhuma reclamação por isso. Bem, não era exatamente um milagre; quando saíram, Geralt entendeu que a falta de comentários do poeta sobre a pressa era simplesmente porque o frio havia piorado naquela manhã, e a taverna, apesar de preparada para o inverno, não era tão aconchegante quanto os quartos em Kaer Trolde. Jaskier já havia estado na fortaleza no passado, apenas uma vez, mas fora o suficiente para lhe causar uma boa impressão e fazê-lo ansiar pelos quartos aconchegantes que tinham lareiras eficientes e janelas que fechavam tão bem que mal podia-se ouvir o vento do lado de fora.
Ele está ansioso para chegar logo, pensou o bruxo, observando o poeta acelerar o cavalo no caminho. Ele sorriu enquanto balançava a cabeça. Jaskier não era facilmente influenciado a mudar as próprias ideias, porém, quando o fazia, parecia se dedicar com mais afinco ao seu novo objetivo.
Eles não conversaram muito durante o caminho. Ela um pouco estranho não ouvir a voz de Jaskier com frequência, até mesmo o som do alaúde o bruxo sentiu falta, mas o frio era intenso, e o poeta reclamava vez ou outra que os dedos estavam tão gelados que poderia congelar e quebrar a qualquer momento. O drama em seu jeito de falar era o que não mantinha a estranheza por muito tempo. Aquele era o Jaskier de sempre, só estava sendo afetado pelo frio e o desejo de estar em um ambiente fechado.
O porto de Kaer Trolde foi alcançado no meio da tarde. Houve uma breve pausa em uma taverna que era maior que a anterior. Havia longas mesas e duas lareiras. No centro, uma fogueira onde o taverneiro assava um porco inteiro. O cheiro era bom, o ambiente era quente e cheio de clientes, mas eles não demoraram ali. Ambos tomaram uma dose de gin para se aquecer mais rápido. Duas tigelas de sopa de batata foram tomadas, e os cavalos voltaram a ser montados após Jaskier estar satisfeito com a pele avermelhada de suas palmas, próximas demais do fogo da lareira.
A neve ficara mais densa no exato momento em que os cavalos tomaram o caminho para subir na fortaleza Kaer Trolde. O ritmo foi mais lento, e os pobres animais precisaram de uma proteção extra no pelo. Jaskier se mostrou bastante preocupado com a saúde de seu cavalo. Ele era alugado e estava com eles há pouco tempo, mas o poeta ainda sentia um pouco da tristeza por perder seu belo Furioso. Eu não quero ver nenhum outro cavalo morrer na minha frente, ele pensou enquanto o acariciava e respeitava seu ritmo lento.
Jaskier sentiu o peito pesar enquanto observava o cavalo, mas o sentimento passou tão rápido quanto apareceu. Ele sorriu de forma fraca quando o bruxo se aproximou, e se sentiu aquecer de forma aconchegante quando sua coxa foi levemente acariciada.
— É melhor nos apressarmos — sugeriu Geralt enquanto arrumava o capuz sobre a cabeça de Jaskier. — Os cavalos vão se manter aquecidos se os movimentarmos mais, e também chegaremos mais rápido desta forma, para que sejam cuidados.
Antes de respondê-lo, Jaskier segurou a mão que estava se afastando de seu capuz. O sorriso aumentou um pouco mais, quando viu as sobrancelhas do bruxo se levantarem ao receber um beijo na luva de couro.
— Aceleraremos então — ele riu em tom baixo quando soltou a mão de Geralt, e voltou a segurar as rédeas. — Assim, você poderá cuidar de mim também.
Outra risada chacoalhou o seu corpo ao ver Geralt balançar a cabeça de um lado para o outro. Ele adorava provocá-lo, e atualmente parecia ainda mais divertido vê-lo sem jeito ou bravo. Na verdade, tudo parece melhor agora, pensou Jaskier enquanto seu sorriso se alargava ainda mais.
As rédeas foram seguradas com mais firmeza, e assim como o bruxo sugeriu, o ritmo se tornou um pouco mais acelerado, mas ainda cuidadoso. O caminho até Kaer Trolde era seguro, mas não passava essa sensação quando a cada momento que se aproximavam, mais longe do porto eles ficavam. Os barcos lá em baixo pareciam minúsculos quando passaram pela longa ponte de pedras, e Jaskier não se atreveu a olhar mais do que uma vez. Suas mãos tremeram levemente, e a sensação que poderia cair a qualquer momento, mesmo estando bem protegido pelo baixo muro e os grossos pilares, ele só se sentiu seguro quando passou pelo primeiro portão da grande fortaleza no ponto mais alto de Ard Skellig.
Apesar da preocupação, os cavalos eram resistentes, e não demonstraram cansaço. Eles foram elogiados por um empregado, quando as rédeas foram passadas para ele, e sem saber o motivo, Jaskier se sentiu bastante orgulhoso disso.
A segunda pessoa que os recebeu, reconheceu o Lobo Branco de imediato, e curvou o pescoço com seriedade enquanto o cumprimentava. O servo de An Craite os guiou até o segundo portão, e não precisaram passar pelo terceiro para ouvir a agitação que vinha do salão principal da fortaleza. Havia música alta, gritos e canecos de cerveja que batiam sobre as mesas de madeira. Quando entraram no salão, Jaskier viu dois homens competirem com seus punhos um pouco longe da entrada. Não havia um banquete para recebê-los, mas aquilo com certeza era uma comemoração animada. Ele sorriu largo ao observar o festejo e voltar o olhar para o entediado bruxo, que contra a vontade, foi levado até o centro de toda aquela bagunça.
Havia dois bardos tocando as músicas daquela noite, e os convidados ficaram animados em receber um terceiro, ainda mais com um sendo tão famoso e dono de baladas que todos adoravam naquela parte do Norte.
Jaskier se sentiu grandioso com os elogios e convites, mas preferiu recusá-los. Ainda que fosse tentador, ele não tinha planos para cantar diante de uma grande plateia naquela noite, e o motivo para isso estava ao seu lado enquanto aceitavam grandes canecos de cerveja. O olhar do bruxo era insistente e bastante óbvio, sendo assim quase impossível para Jaskier não sorrir ao devolver a atenção. Ele conhecia aquele olhar que o fazia estremecer levemente, e compartilhava do desejo de ser envolvido nos fortes braços de Geralt, enquanto os lábios devoravam um ao outro.
Jaskier chegou a se aproximar um pouco mais de Geralt, alargando o sorriso cheio de significados, por um momento se esquecendo completamente de onde estava e que tinham a companhia de no mínimo cinquenta pessoas. Por sorte, não demorou para que fossem notados pelo Clã an Craite, e ambos rapidamente voltaram a si.
Crach foi o primeiro a se aproximar. O duque de Ard Skellig os recebeu com alegria. Seu aperto de mão era forte demais, tanto que Jaskier mal conseguiu disfarçar a dor nos ossos dos dedos. A risada de Crach an Craite era escandalosa, mas divertida enquanto se desculpava com o poeta, que não pôde deixar de sorrir com o acolhimento caloroso, que não era exclusivo do líder do clã. Seu filho, Hjalmar, foi o próximo a cumprimentá-los. Assim como o duque, ele era caloroso e animado, mas havia o claro vigor de sua juventude que o fazia parecer mais enérgico e pronto para uma batalha, seja ela qual fosse. Assim como Geralt descreveu, ele pensou enquanto o ouvia tagarelar sobre suas conquistas que estava orgulhoso demais para guardar para si mesmo.
Até ali, Jaskier não conhecia Hjalmar na Craite pessoalmente. Antes, em sua única passagem por Kaer Trolde, ele havia cumprimentado apenas Crach, que já o conhecia de banquetes passados. Aquela era a primeira vez que tinha contato com a energia contagiante daquele homem, que alegrava o poeta apenas com suas histórias. Hjalmar emanava aventura e pouco juízo, o tipo de pessoa que Jaskier adorava se inspirar para suas baladas. E o filho do duque não o decepcionou, quando no meio de seu falatório, quase fez o bruxo se engasgar com a cerveja que bebia.
— Meu pai disse que o chamou para me acompanhar em Spikeroog — Hjalmar comentou tranquilamente, sem saber que o bruxo não queria falar sobre aquilo na presença do poeta. Mas era tarde demais para interrompê-lo. — Eu gostaria de não precisar de ajuda contra o gigante, mas, Geralt, devo dizer que me sinto mais tranquilo em saber que o terei ao meu lado.
Ele riu escandaloso enquanto acariciava a barba ruiva. Geralt fechou os olhos por um momento, e quando voltou a abri-los, olhou brevemente para o rosto do poeta, que subitamente se tornou iluminado e ainda mais empolgado que o de Hjalmar An Craite.
Ali estava o que ele queria evitar. Crach havia lhe pedido que acompanhasse Hjalmar em sua busca descabida pelo gigante que ele nem mesmo sabia se era real. Houve boatos da existência da criatura em Spikeroog, apenas isso, e Hjalmar já estava com as malas prontas e a espada afiada para partir. Ele queria uma aventura gloriosa, digna de um verdadeiro Skellige, mas o filho do duque, na mesma proporção em que era um bom líder dos mares, ele era impulsivo quando se tratava de suas próprias buscas por glória, e preocupava Crach, que mantinha o sentimento em segredo. Chamar o bruxo para acompanhá-lo o deixava menos preocupado, e sentiu alívio quando a resposta para a sua carta chegou e era positiva.
Geralt conhecia Hjalmar e presava sua amizade com o clã an Craite. Ele receberia uma recompensa no final, e sequer acreditava que encontrariam o tal gigante naquela região; não havia nada a perder, apenas ganhar, por isso aceitou o convite sem pensar por muito tempo. Mas, a situação mudou quando Jaskier se juntou a ele. O poeta era curioso, desajuizado e aventureiro de uma forma errada, e Geralt não precisou olhá-lo por muito tempo para saber que havia se empolgado com a ideia de ver um gigante pessoalmente, sem pensar nos perigos ou uma provável morte.
O gigante poderia não existir, como Geralt imaginava, mas os locais de Spikeroog que visitaria com Hjalmar não eram conhecidos por serem seguros. Com gigante ou não, era perigoso de toda a forma, e mais uma vez sentiu uma terrível aversão em apenas imaginar o poeta entre eles naquela viagem.
No passado, já havia permitido que Jaskier se arriscasse demais o seguindo pelo Continente; quase o havia perdido muitas vezes, e nos dias atuais parecia que pouco havia mudado nesse quesito, mas ele estava firme em mudar isto. Desde Kaer Morhen, o bruxo decidira que o manteria longe do perigo. Nem tudo dera certo no caminho, algumas coisas estavam longe de seu controle, mas o que estava, como a viagem até Spikerrog, ele o impediria de se arriscar.
Quando aceitou a companhia de Jaskier no navio, a ideia era continuar a manter o conteúdo da carta em segredo. Ele e Hjalmar partiriam sem que o poeta soubesse para o que, e ficaria seguro em Kaer Trolde, debaixo das asas de Crach an Craite. Era perfeito, mas sem contar com a boca imparável de Hjalmar an Craite.
Ele se irritou, mesmo sabendo que não deveria. O filho do duque não fazia ideia de seus segredos ou de como Jaskier conseguia o que queria dele na maioria das vezes. Seria difícil fazer o poeta desfazer da ideia de ver aquele tal gigante, e por isso se tornou ainda mais inquieto entre todas aquelas pessoas. Era difícil pensar, e sentia o olhar de Jaskier em seu rosto o tempo todo. Ele vai me pedir para ir junto, pensou Geralt, que sem paciência, pediu que lhe dessem licença e se afastou da conversa empolgada sobre a viagem.
Ele olhou brevemente para o poeta antes de sair do grande salão, e sentiu um pouco da raiva que se misturava com preocupação o agitar.
As escadas do lado de fora estavam cobertas de neve e um pouco escorregadias, mas Geralt desceu rapidamente, sem se importar com a probabilidade de um tombo. Ele só precisava se afastar dos falatórios, da música, e do sorriso animado de Jaskier.
Geralt suspirou fundo e parou ao apoiar as mãos no gelo que cobria os baixos muros da fortaleza. Mesmo usando luvas, ele sentiu o frio que o fez estremecer levemente. A visão dali de Kaer Trolde era deslumbrante; até mesmo durante a noite podia sentir que estava em um lugar tão alto e rodeado das montanhas, mas nem mesmo a sensação de soberania daquele lugar o fez mudar o foco. Ele queria pensar com cuidado, desta vez certo de que era hora de ser um pouco mais claro com o poeta, mas não conseguiu ter muito tempo sozinho. Foram dois ou três minutos ali, até ouvir os passos cautelosos sobre a neve.
Geralt não precisou se virar para saber que Jaskier se aproximava de suas costas, mas só se sentiu realmente com companhia quando recebeu um toque em seu ombro. Jaskier perguntou se estava tudo bem, e o bruxo assentiu, ainda mantendo o olhar na escuridão que escondia parte das montanhas.
— Quando nós vamos partir? — O poeta perguntou, ainda com seu jeito animado, mas era perceptível a cautela em sua voz.
— Hjalmar e eu partiremos ao amanhecer — Geralt fechou os olhos por um breve momento. — Você vai ficar.
Ao seu lado, o poeta soltou um riso soprado. A recusa do bruxo não o espantou nem um pouco.
— Em seus sonhos — Jaskier apertou levemente o ombro em que estava apoiado. — Não posso perder a oportunidade de ver um gigante!
Ao ouvir a resposta que também não o surpreendeu, Geralt enfim se virou. Ele encarou o poeta, vestido com suas belas roupas de sempre, não muito preparado para estar ali fora. Ele suspirou suavemente, e devagar tirou a capa grossa e aquecida por seu próprio corpo.
— Onde está a sua capa? — Perguntou com seriedade. Quando cobriu os ombros de Jaskier com o tecido, ele o sentiu trêmulo.
— Esqueci no quarto — o poeta respondeu sem jeito. Estava com muito frio ali fora, mas não queria deixar o bruxo sozinho. Ele parecia incomodado e quando se tornava silencioso daquela forma, Jaskier sabia que os pensamentos que tinha não eram muito bons. — E você? — Perguntou quando sentiu a leve carícia em seus braços.
— Eu posso suportar o frio um pouco mais — o bruxo disse simplesmente.
Ele não era tão sensível quanto um humano, apesar de se afetar pelo clima da mesma forma. Mas o frio nem mesmo era sentido naquele momento. Geralt estava preocupado, e não escondeu os sentimentos desta vez. Ele terminou de aquecer os braços do poeta com seus movimentos, e agarrou o tecido grosso da capa, para trazê-lo para mais perto. A testa encostou na de Jaskier, e voltou a fechar os olhos enquanto soltava um profundo suspiro.
— Você pode, por favor, não me seguir amanhã?
— Por que está tão sério sobre isso? — Jaskier pergunto enquanto tocava um de seus braços. Os olhos do bruxo se abriram, para então ver o olhar tranquilo em sua direção. — Já estivemos juntos em situações piores, e nem sabemos o que realmente vai acontecer. Eu sei que não acredita que possa haver mesmo um gigante, então para que se preocupar tanto?
Eles já haviam conversado sobre aquele rumor algum tempo atrás. O bruxo disfarçou muito bem que aquele era o seu objetivo nas Ilhas Skellige, mas foi sincero ao dizer que duvidava do gigante. Não havia histórias concretas ou acontecimentos que indicassem a existência da criatura em Spikeroog, e Geralt gostava de juntar evidencias para ao menos começar a acreditar em algo. As pessoas costumam espalhar rumores sobre criaturas sem nem mesmo terem saído de casa para poder vê-las, você mesmo disse, pensou o poeta. Mas agora está aqui prevendo um perigo que nem sabe se existe.
— Este é o problema — Geralt interrompeu seus pensamentos quando afastou a testa e o olhou com impaciência. — Pode ser qualquer outra criatura, ou até mesmo um gigante, não há como saber. Nós nunca sabemos qual é o nível do perigo.
Apesar de entender as palavras, Jaskier não compreendeu de imediato o significado por trás delas, e manteve o fraco o sorriso despreocupado.
— É aí que está a diversão!
— Não há diversão alguma, Jaskier. Você pode achar inspirador, mas eu fico apavorado quando está no meio disso tudo.
Geralt soltou a capa que o cobria, mas o bardo não permitiu que se afastasse; ele rapidamente deu um passo para a frente e tocou a cintura do bruxo com as duas mãos. As palavras que ouviu finalmente o pegaram desprevenido. Apesar de saber o quanto o bruxo se preocupava, não esperava tamanha intensidade naquele sentimento, e por um momento não soube o que dizer.
— Eu não quero voltar a te ver daquele jeito de novo — Geralt disse em tom baixo e com bastante esforço para não recuar. Era difícil falar sobre os próprios sentimentos, mesmo sabendo que era necessário.
Jaskier o abraçou e sentiu uma leve carícia em suas costas quando o gesto foi retribuído. Sentiu o coração acelerado e o rosto que deitara no ombro largo esquentar um pouco. Apesar de estarem acostumados a desabafar um com o outro, aquilo era diferente. Era estranho estar daquele jeito com Geralt, mas, ao mesmo tempo, Jaskier sentia satisfação e forte compreensão sobre tudo o que o bruxo transmitia, fosse com palavras ou gestos, porque ele era da mesma forma.
— Eu deveria recusar — Geralt disse de repente, assustando o poeta, que afastou o rosto de seu ombro para que pudessem se encarar.
— O quê? Não, você deu a sua palavra, e é o seu trabalho — Jaskier disse rapidamente. Era a primeira vez que via Geralt desistir daquela forma, e saber que era por sua culpa, o fez se sentir bastante incomodado. — Eu entendo que está preocupado, mas eu corro riscos mesmo quando estou sozinho. Não sou tolo, e sei que você também não é para achar que tudo o que acontece comigo é sua culpa — ele respirou profundamente. — Olhe o que houve comigo em Tretogor, por exemplo. Teria acontecido, mesmo sem você por perto.
As sobrancelhas de Geralt se juntaram ao imaginar o que Jaskier dizia.
— Você teria morrido, se estivesse sozinho.
— Exatamente! — O poeta exclamou. Ele não conseguia aceitar que Geralt pensava que estarem juntos da forma que fosse o colocava em perigo, quando na verdade era o contrário.
Mais uma vez, Jaskier respirou profundamente. As mãos que seguravam a cintura de Geralt subiram para o peitoral coberto por um grosso tecido preto, e pararam próximo do medalhão em formato de lobo. Os olhares não desviaram um do outro, e Jaskier podia ver que ainda tinha muito que o bruxo escondia.
— Me diz, Geralt, eu quero saber o que está na sua cabeça. Sobre tudo — pediu com seriedade. Ele havia demorado muito para ter coragem de se entregar àquele sentimento que tinha pelo bruxo, e não queria mais ter que lidar com inseguranças ou sentimentos adivinhados por gestos e olhares. Ele mesmo havia planejado conversar sobre isso com Geralt exatamente ali, em Kaer Trolde, e vendo que a outra parte quem havia dado o primeiro passo, ele não pensou nem por um segundo em recuar. Mesmo se a verdade o incomodasse ou os mudasse, Jaskier precisava saber, e para isso sequer se importou de ceder um pouco ao manter o olhar sobre ele e prometer com seriedade que, se Geralt fosse sincero e claro, ele concordaria em esperar por ele na fortaleza e não o seguiria até Skiperoog.
A promessa chamou a atenção do bruxo, que não esperava por nada daquilo. Ele demorou para voltar a abrir a boca, pois precisava de algum tempo para reunir a coragem que já deveria ter, mesmo depois de tudo.
Jaskier o esperou pacientemente desta vez. Ele não se moveu ou falou, mas manteve o olhar ansioso no rosto sério de Geralt. Ambos estavam nervosos com o momento. Os corações batiam com tanta força que chegava a ponto de ser um pouco doloroso, e o ritmo aumentou quando o bruxo enfim abriu a boca.
— Perto de Kaer Morhen — Geralt lembrou. — Se você não estivesse comigo, eu teria ficado até o fim naquela vila. Mesmo sendo atacado e apedrejado, eu teria pego o meu dinheiro antes de ir embora — ele fez uma breve pausa para respirar fundo. — Teria perguntado para Farvel o que ele pretendia, e o que os elfos estavam fazendo em Flotsam.
Geralt se interrompeu por um momento, quando Jaskier se agitou em seus braços e deu um passo para trás.
— Está dizendo que eu o limito? — A expressão do poeta era triste. Ele queria a verdade, mas, ainda assim, era difícil ouvi-la. — Que a minha presença...
— Não — Geralt se apressou para dizer. Ele andou a distância que o bardo havia se afastado e tocou sua cintura com cautela. O nervosismo estava de volta, e isso finalmente deu a ele a coragem que ainda faltava. — Droga, Jaskier, eu estou dizendo que eu não me importo de deixar qualquer coisa para trás, desde que isso o mantenha a salvo. Porque eu não posso suportar a ideia de te perder de forma alguma — Geralt manteve o olhar sério no rosto de Jaskier, atento na expressão surpresa que suavizava aos poucos. — É claro que o quero aqui, do meu lado, mas é minha prioridade que esteja seguro.
Ele o trouxe para mais perto, fazendo os peitos tocarem e os narizes se esbarrarem quando abaixou um pouco a cabeça. Os corações acelerados podiam ser sentidos desta forma, e por isso os lábios de Jaskier se curvaram levemente.
— Eu te amo — Geralt enfim disse. Estava confiante e sem nenhuma hesitação desta vez, porém, os olhos desviaram enquanto o tom de voz diminuía. — Não quero que se machuque de novo. Não importa se por culpa minha, sua ou de qualquer outra pessoa. É demais para suportar.
Ele havia ultrapassado os próprios limites de sinceridade. Aquela era a única parte de si que ainda não havia sido explicitamente mostrada para Jaskier, por isso se sentiu desconfortável por um momento, principalmente pelo breve silêncio da outra parte, mas ele se sentiu aliviado tão rápido quanto o coração batia, quando sentiu mãos geladas tocarem seu rosto. Jaskier havia tirado as luvas para tocá-lo.
— Geralt, olhe para mim — ele pediu em tom baixo, e não demorou para que fosse atendido.
Eles puderam se olhar por poucos segundos. As faces coradas pelo frio e o sentimento que não podia ser mais claro do que naquele momento os fizeram sorrir um para o outro, mas os lábios logo se ocuparam de outra forma quando Jaskier aproximou um pouco mais.
Ele beijou o bruxo com calma desta vez. Não havia a euforia e ansiedade da noite anterior ou a pressa para seduzi-lo como naquela manhã. O poeta apenas seguiu o que sentia naquele momento, e notou o quanto era agradável envolver em seus braços o homem que amava com tanta segurança.
O beijo foi longo, e Geralt desejou que pudesse demorar naquela carícia um pouco mais, porém, quando se separaram pelo o que deveria ter sido apenas um momento, ele foi pego pelo agito de seu coração, por conta do largo sorriso de Jaskier. Até mesmo seus olhos pareciam sorrir. Ele parecia mais belo do que o bruxo jamais havia notado antes. Tão clichê e estúpido, como em uma de suas baladas, ele pensou, mas não havia como mudar o que sentia, e nem mesmo queria. Aquela era uma alegria que o bruxo jamais pensou que poderia sentir, e ele a abraçaria com cuidado.
Ele estava envolvido na aura criada pela beleza do poeta, e continuou da mesma forma quando o ouviu rir em tom baixo, enquanto os braços se apoiavam em seus ombros.
— E aqui estava eu, tentando me lembrar de tudo o que ensaiei para te dizer isso.
As sobrancelhas do bruxo se levantaram enquanto Jaskier enrolava uma mecha dos cabelos brancos em seus dedos.
— Dizer o quê?
— Que eu te amo — O sorriso de Jaskier se alargou um pouco mais. — Que eu também te quero ao meu lado, não importa a situação, é por isso que estou sempre aqui — ele acabou rindo sem jeito, mas a segurança do poeta não esmoreceu nem por um segundo sequer. Os olhos claros eram decididos enquanto encaravam os amarelos, e o sorriso largo e alegre logo suavizou para se tornar mais amoroso e calmo. — Obrigado por sempre estar ao meu lado, por salvar a minha vida tantas vezes que nem consigo contar. Eu te amo tanto, Geralt.
Aquelas poderiam não ser as palavras exatas que havia ensaiado; em sua cabeça, era tudo mais rebuscado e poético, mas soou ainda melhor quando vieram diretamente de seu coração. Isso o deixou um pouco emocionado demais, e os olhos brilharam com lágrimas, que foram reprimidas até que escondesse o rosto no pescoço do bruxo.
— Droga, Geralt, olha o que você fez.
Geralt riu em tom baixo enquanto o abraçava mais uma vez, mas com força e menos calmo do que estava, segundos antes de ouvir Jaskier dizer o que quase o fez pensar que seu coração batia como o de um humano comum. Ele sabia que era impossível, e suas emoções eram que o faziam pensar que estava acelerado daquela forma, mas não se importou com nada disso. Geralt só queria amar Jaskier sem restrições pela primeira vez em tantos anos.
Eles se separaram quando a neve voltou a cair. O frio ficou ainda mais intenso com o começo da madrugada, e o bruxo sentiu o corpo agarrado no seu tremer levemente.
— Quer voltar para o banquete? — Ele perguntou enquanto ainda acariciava as costas do poeta, que rapidamente levantou a cabeça para olhá-lo e a balançou de um lado para o outro.
— Quero voltar para o quarto.
A fala fez Geralt abrir um sorriso discreto.
— Quer companhia?
O olhar doce do poeta rapidamente mudou com a pergunta. A malícia brilhou nas íris claras, fazendo Geralt estremecer levemente. O bruxo conhecia aquele olhar há pouco tempo, mas facilmente se acostumou a ele e as sensações que causava em seu corpo, por isso não estranhou quando notou próprio o movimento inconsciente de abaixar a cabeça para beijar os lábios sorridentes de forma rápida.
— Se for pela noite toda, sim — Jaskier o respondeu em tom alegre, aprovando outro beijo, mas que fora dado em seu rosto desta vez, enquanto as mãos do bruxo passeavam por suas costas.
Eles se separaram unicamente porque o frio havia passado do suportável, principalmente pelo bruxo, que havia cedido sua capa para o poeta. Ambos andaram um ao lado do outro, alcançando as escadas cobertas de gelo. Geralt ofereceu o apoio de sua mão, e Jaskier não apenas o aceitou como entrelaçou os dedos, mostrando-se bastante orgulhoso pelo simples gesto.
Na metade da escada, eles puderam ouvir que a festa ainda estava acontecendo no interior da fortaleza. Os dois ainda não faziam ideia do motivo do festejo, mas Geralt não se prendeu a isso por muito tempo. Os bardos cantavam alto enquanto as cordas dos alaúdes eram tocadas em um ritmo acelerado e alegre, e isso rapidamente o fez pensar no melhor músico que conhecia, o que segurava sua mão com firmeza.
— Por que resolveu não tocar? — Geralt perguntou quando subiram o último degrau. — Desde que chegamos em Skellige, não te vi segurar o alaúde.
O pensamento no assunto havia sido breve no dia anterior, quando Geralt chegara a pensar que o motivo para aquilo era ele. As atitudes posteriores do poeta mostraram que estava equivocado, por isso permanecia curioso, sem saber que de certa forma, estava mesmo certo.
— Ontem, eu só queria ficar ao seu lado. A música poderia ficar para depois — explicou Jaskier, que apertou sua mão levemente. — Hoje... eu gostaria de tocar, mas apenas para você — ele sorriu com orgulho. — Eu escrevi algo no navio. Quer ouvir?
A curiosidade de Geralt dobrou com o que ouviu, e não demorou para assentir e ver o largo sorriso da pessoa ao seu lado.
Apesar de nunca ter dito, ele gostava da voz de Jaskier. As letras não eram nem de longe verdadeiras, mas a graça e elegância com que o poeta as cantava o fazia amá-las em segredo. Ele estava mais do que disposto a ouvir mais uma nova mentira que apenas ele saberia a verdade por trás dela, foi o que pensou enquanto o acompanhava até o confortável quarto que dividiriam, mas ele foi pego de surpresa quando ouviu o alaúde soar pela primeira vez naquele quarto, e descobriu que cada palavra e sentimento que se misturavam com a bela melodia eram tão verdadeiras quanto o sorriso do homem a quem seu coração pertencia.
A música contava sobre uma viagem de uma fortaleza para outra, onde as pessoas nela eram dois tolos apaixonados que tiveram coragem de abrir seus corações após muitas provações, mas que antes disso já cuidavam dos corações um do outro como se já tivessem dito para o mundo o quanto se amavam.
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