De Coração

10 Sândalo, Morango e Baunilha


Notas iniciais
OLÁÁÁ, meus amores! Como estão vocês? Primeiramente, me desculpem pela demora! O motivo: este capítulo está GIGANTE! Talvez seja o maior capítulo da história, mas só quero ressaltar: vale muuuuito a pena! Motivos? Temos uma cena ótima entre LucasxAntony, HEHEHEHE! É agora que as verdadeiras intrigas começam, preparem os ships! xD Espero mesmo que vocês gostem e deixem um belo feedback, é a primeira vez que escrevo uma cena dessas /tímida. Como já deixei muito claro nas notas da história, aceito abertamente sugestões e críticas. Muito obrigada por estarem acompanhando, aliás! Pensei que haveria uma ou duas pessoinhas :,) Boa Leitura!

Kale sempre achou engraçado o fato de que, quando ele estava ansioso para alguma coisa, o tempo parecia não passar.

Era véspera da competição, às seis horas da tarde, e o surfista não parava quieto. Andava para lá e para cá, sentindo que não tinha nada para fazer. Já havia polido, arrumado e até perfumado sua prancha para competições, Lala — um nome havaiano que significava “vitoriosa” -, já tinha comprado um novo lash, ou seja, a cordinha que lhe prendia à prancha e já até mesmo havia arrumado seu lanche para depois da competição, coisa que iria ficar com Lucas.

Por causa de toda essa pressa, Kale não tinha mais nada para fazer além de andar de um lado para o outro na sala, seus pés descalços fazendo um barulho quase insuportável.

Toda aquela movimentação e aura ansiosa estava afetando Lucas, que havia se sentado à mesa para terminar seu trabalho. O míope suspirou, apertando o lápis nos dedos com força, empacando num cálculo simples de balanceamento.

Exatas era uma arte do silêncio.

– Kale! — Bradou, virando-se para trás, encarando o surfista, que estava quase comendo os dedos. — Pelo amor de Deus, quer parar com isso?! Eu tô fazendo um favor para você ao tentar terminar essa porcaria de balanceamento agora, porque eu poderia muito bem terminar no fim de semana, mas eu vou te acompanhar amanhã para competição, então, sério, dá para parar?! Eu não consigo nem somar dois mais dois com este seu maldito sapateado!

– O que eu posso fazer, Lucas? Você sabe que eu sou ansioso! — Dramatizou, sentando-se ao lado do amigo, repousando a cabeça na mesa. — Não tem nada para eu fazer para canalizar minha atenção. Não posso assistir TV porque você tá trabalhando, já tomei banho, já preparei as coisas para amanhã… Não há nada para fazer!

O míope suspirou, passando a mão pelo rosto e se perguntando se havia jogado um tijolo na cruz.

– Não sei, Kale, vá ler alguma coisa…

– Já li todos os meus livros.

– Releia-os.

– É previsível demais.

– Então pegue um dos meus, Kale. Escute, eu tenho muitos do Tolstoi.

– Que mané Tolstoi, Lucas?! — Exaltou-se, olhando como se Lucas fosse um alien. — Pelo amor de Deus, olha a minha cara de quem quer ler Anna Karenina!

– Então eu não sei, Kale! Definitivamente, eu não sei! Mas se você continuar fazendo tanto barulho, então é melhor sair do apartamento, dar uma voltinha no quarteirão, ir pra lanchonete, sei lá, se vira.

Kale assentiu, como se concordasse com ele até o fundo da alma.

– Você está certo. Vou caminhar um pouco, tá quente pra caramba, tenho certeza que vendem sorvete lá no Aloha. Quer alguma coisa? — Perguntou, já se levantando. Kale atravessou o corredor e foi para o banheiro, fuxicando na cesta de roupas à procura de uma camiseta limpa. Vestiu uma regata cavada, já que se sentia sufocado ao colocar algo com gola num tempo de vinte e nove graus.

– Não, obrigado. — Lucas voltou aos seus cálculos. — Mas esse dono da empresa é muito burro, puta merda. Segundo meus cálculos, no final do mês, os gastos serão maiores que- — Lucas foi interrompido quando Kale saiu do apartamento correndo, fechando a porta com um solavanco. Nunca que o surfista ficaria ali, ouvindo-o falando de contas.

Honolulu, na opinião de Kale, era quente e abafado como o inferno; enquanto caminhava pela calçada rachada, suando, não conseguia desprender seus olhos daquele pôr-do-sol paradisíaco. As ondas pareciam um pouco mais revoltadas, quase ansiosas, como se pressentissem o que iria acontecer no dia seguinte.

As nuvens pareciam algodões-doces, fofinhas e coloridas, sendo atingidas em cheio pelos raios solares que preparavam-se para desaparecer. Muitas pessoas estavam na orla da praia, tirando fotos, banhando-se no raso, retirando um pouco o calor do corpo com as águas ainda assim quentes do Havaí.

Era indiscreto, por isso não conseguia passar despercebido; muitas jovens passavam por ele risonhas, encarando-o discretamente, aos cochichos. Kale apenas sorria, as mãos enfiadas nos bolsos, segurando a chave gélida de casa.

O Aloha Coffee, como sempre, estava cheio, o que não melhorou seu embaraço quando puxara a porta no lugar de empurrá-la, coisa que provavelmente faria até o dia de sua morte. Entrou observando o local amplamente, procurando um local em que pudesse se sentar. O jukebox, que ficava nos fundos da lanchonete, tocava uma música de Phil Collins, trazendo certa nostalgia aos clientes. Kale virou-se por um segundo, apenas para conferir se uma mesa estava desocupada, mas a única coisa que conseguiu foi trombar fortemente com Luana, que trazia em ambas as mãos bandejas cheias de louças sujas.

Ambos gritaram, surpresos e em choque. Uma bandeja escorregou dos dedos finos da garçonete, que sentiu sua vida caindo junto com um dos copos. Mas Kale decidiu parar de ser tapado por dois segundos em sua vida e agiu rápido e instintivamente, quase abraçando Luana ao circundar seus braços por cima de sua cabeça, pegando a bandeja com firmeza pelas bordas, equilibrando tudo com os olhos esbugalhados.

Depois que o desespero inicial passou e Kale certificou-se que nada havia quebrado, começou a rir, afastando-se de Luana e encarando-a com um sorriso cúmplice.

– Me desculpa — pediu, ainda rindo, segurando a bandeja suja na frente dela. — Ainda bem que nada quebrou.

– Ai, meu Deus, Kale, que susto! — Exclamou ela, sentindo-se quente (não sabia se era por conta da tensão de quase ter seu salário descontado ou por ter um lindíssimo Kale (suado, de braços de fora, rindo lindamente) quase abraçando-a). Só conseguiu sorrir bobamente e agradecer quando ele lhe entregou a bandeja.

Quando ela ia em direção à cozinha, Kale lhe chamou.

– Ah, Luana, me desculpa estar te atrapalhando, mas o Kai tá aqui? — Não podia evitar.

Luana sorriu, negando com a cabeça.

– Não, ele chega normalmente às sete e meia, horário que geralmente eu acabo por aqui. — Explicou, sendo seguida pelo surfista enquanto andava. — Ah, sente-se aqui, a Alena vai te atender — disse, apontando para o balcão. — Assim você terá uma vista privilegiada da porta — piscou, cúmplice, abrindo a porta da cozinha com um empurrãozinho do quadril.

Kale sorriu, feliz por Kai ter amigos tão legais. Sentou-se no banquinho redondo e vermelho, apoiando os antebraços no balcão e sorrindo para a garçonete que se aproximou. Ela possuía incríveis e gigantescos olhos castanhos-claros.

– Boa noite — cumprimentou-o, muito dedicada ao serviço. — O que vai ser hoje?

– Vocês vendem sorvete? — Pediu, adotando uma postura quase infantil. Quando ela assentiu, toda risos, Kale continuou: — um de flocos, por favor.

A garçonete sorriu, afastando-se do balcão e entrando na cozinha com um pulinho entusiasmado.

– Caramba, ele é muito lindo! — Grunhiu para Luana e Quinn, outra garçonete. — Se Pele fosse homem, este cara seria sua personificação! — Pele era uma deusa havaiana do fogo, sendo reconhecida por sua enorme beleza.

Quinn, uma estudante de intercâmbio do Texas, riu com gosto enquanto acompanhava a amiga com o olhar, indo em direção ao freezer. Alena pegou o pote de sorvete de flocos, ainda debulhada em pensamentos.

– Ele é gato mesmo — Quinn concordou, ajeitando o avental. — E surfista.

Luana, que havia acabado de por ambas bandejas sobre a pia, bem ao lado de Manu, virou-se de repente, olhando para as duas.

– Não sei, para mim ele é gay. — Exclamou com certa indiferença.

– Oh, Rangi! – Alena rezou para o pai céu, pai de todos os outros deuses polinésios, quase em choque. — Não diga uma coisa dessas, Lua!

Manu riu, uma de suas risadinhas roucas, quase satíricas. Parou o que fazia para olhar as garotas; e, com uma expressão cômica, disse:

– Ah, mentira que ele é gay! Ótimo, mais chances pra mim. — Pronunciou a última frase sério e monótono, fechando a cara de repente. Luana foi a única a rir. — Por que vocês não param de fofocar e vão cuidar de suas vidas? Que eu saiba estamos lotados hoje.

– Nossa, seu rude! — Quinn grunhiu, fazendo uma careta e saindo da cozinha.

– Realmente, Manu… — Alena concordou, empinando o nariz e saindo da cozinha com o pote de sorvete.

O cozinheiro revirou os olhos, depositando colorante no chantilly.

– Você não precisa ser tão rude, sabia disso? — Luana, mesmo sendo uma pulga perto dele, se aproximou, tentando olhá-lo nos olhos. — As garotas já têm uma má impressão sobre você.

– Não tô aqui para causar boa impressão, tô aqui para fazer o meu trabalho, assim como você deveria estar fazendo o seu — como sempre, o sermão acoplado à carranca.

Mas Luana apenas sorriu, nada ofendida, porém totalmente habitada com o temperamento difícil e instável de Manu. Revirou os olhos, desapoiando da pia e caminhando lentamente até sair da cozinha. Faltavam dez minutos para o fim de seu turno, por isso ela não se apressou em nada.

Kale devorava o sorvete de flocos no balcão, estralando os dedos, coçando a cabeça, olhando sempre para a porta. Parecia extremamente ansioso, e Luana não estranhou — a competição seria amanhã, e nenhum nervo conseguiria suportar tanta ansiedade (talvez nervos experientes, como os do Slater, mas Kale era jovem, impetuoso e atrevido no esporte, então era muito normal que se sentisse desse jeito).

Luana acabou apiedando-se pela situação do surfista. Encheu uma taça de sorvete, colocando cobertura de chocolate e caramelo, fincando-a bem na frente dele. Kale ergueu os olhos, surpreso.

– Aqui, por conta da casa. — Disse, dando tapinhas carinhosos no ombro do surfista. — Sei que amanhã tem uma apresentação importante, então só relaxe, o.k.? Sorvete ajuda em tudo — sorriu, extremamente simpática. Se Kale era amigo de Kai, então também era amigo de Luana.

Kale quase chorou. Devorou a taça de sorvete, lamuriando-se para Luana sobre o quão nervoso estava, e, Luana, boa pessoa, ouviu-o sem pressa. No exato instante em que Kale terminou de falar, lambendo a colher, Kai entrou despreocupadamente no estabelecimento, a mesma cara impassível de sempre. Sua bengala estava sendo dobrada mecanicamente, e ele procurava um dos bolsos para guardá-la.

Kale saiu de seu lugar, largando Luana e sua taça de sorvete, indo em direção a Kai alegremente, cumprimentando-o com um abraço carinhoso, mesmo estando terrivelmente suado.

Kai reclamou, já que tinha um olfato mais aguçado por ser deficiente visual.

– Por Deus, Kale, você está fedendo a suor! — Reclamou, tentando se desvincilhar do abraço carinhoso em que estava confinado. Kale, pela primeira vez, estava quente.

– Tá um calor dos infernos, não tenho culpa! — Se defendeu, também sofrendo com a regata grudando nas costas.

Aquela pequena discussão iria continuar sua Luana não interviesse, cumprimentando Kai e oferecendo a ele uma taça de sorvete por conta da casa, assim como fizera com o surfista. Obviamente não houvera negações, e logo os três se acomodaram no banco azul, exclusivo.

– E aí, Kale, preparado para amanhã? — Kai perguntou, cutucando seu sorvete de pistache com calda de melancia.

– Depende. Física ou psicologicamente? — Gracejou, apoiando sua cabeça nos braços, que estavam cruzados sobre a mesa. — Fisicamente, tô ótimo. Já psicologicamente… Tô faltando comer minhas orelhas de tanta ansiedade, o que é muito ruim. Ainda bem que eu tenho remédio para dormir lá em casa.

– Imagino como você esteja. Mas tenta não se preocupar, você é muito bom — o garoto incentivou, os cantos dos lábios sujos de sorvete.

Luana estava concentrada demais no joguinho de seu celular para prestar atenção no que estava acontecendo a sua volta, ainda mais que já havia consolado parcialmente Kale.

O surfista ergueu apenas um canto de sua boca ao sorrir, a cabeça ainda deitada sobre seus braços. Ergueu uma das mãos, limpando com o polegar um canto da boca de Kai. Lambeu seu dedo em seguida, sentindo o gosto peculiar do sorvete.

Era quase um déjà vu.

Kai retesou-se, meio tenso, meio nervoso.

– Hm, você fez de novo… — Começou ele, enfiando rapidamente a colherzinha recheada de sorvete na boca, tentando disfarçar.

– Fiz o quê?

– Você sabe… Limpar minha boca e… Lamber depois.

– Ai, porra, desculpa, Kai! Não é por mal que eu faço, sério. — Desculpou-se, acordando para a realidade. — Eu tô tão tenso que meus neurônios explodiram.

– Os quatro restantes? — Kai gracejou, levando uma cotovelada leve na costela. Riu com isso, devorando mais uma colherada.

Manu apareceu instantes depois, a mesma carranca de quem iria matar a todos no rosto. Já estava pronto para ir embora, o olhar recaindo sobre Kale, como se quisesse matá-lo.

– Boa sorte. Você sabe, para amanhã — mas, ainda bem, só era impressão. — Kai nos convenceu a ir.

Luana olhou-o, chocada.

– Mas não é como se não quiséssemos ir, sabe? Queríamos sim!

– Fale por você — Manu rosnou, estreitando ainda mais os olhos.

Luana deu um soco na coxa do cozinheiro, que curvou-se, contendo um urro de dor por causa da proximidade com sua área mais sensível. A garçonete aproveitou a deixa de ele estar curvado e o enlaçou pelo pescoço, fazendo-o se sentar.

– Manu está brincando, Kale! Iremos com o maior prazer! — Sorriu nervosamente, tendo dificuldade de manter o braço sobre os ombros de Manu, agora que ele estava sentado.

Kale também sorriu, tão hesitante quanto ela. Estava óbvio que ambos só iriam por causa de Kai.

– Muito obrigado — disse mesmo assim, não querendo ser indelicado. — Vou precisar de apoio amanhã.

Eles conversaram mais um pouco, aproveitando a chance para combinar o local onde iriam se encontrar e ficar durante a competição. Decidiram ficar próximos à bancada de juízes, próximo ao locutor, para auxilar Kai no entendimento da competição.

Depois disso, decidiram ir embora; já estava ficando tarde e Manu e Luana iriam acompanhar Kai até em casa. Despediram-se com cumprimentos suaves, seguindo em seguida para seus respectivos caminhos, mas não deixando de se sentirem ansiosos.

***

– Lucas, Lucas, Lucas, Lucas, Lucas, Lucas…! — Sim, o míope foi acordado às seis e meia da manhã desse jeito. Sentia cutucões doloridos em sua panturrilha esquerda, a boa, enquanto a vozinha irritante de Kale repetia seu nome.

Gemeu, sonolento e já com pensamentos homicidas inundando sua mente.

– Que porra, Kale?! — Grunhiu, o rosto afundado no travesseiro.

– Vamos, Lucas, acorda! A gente precisa se arrumar pra competição! — Apoiou-se nos ombros do amigo e começou a chacoalhá-lo, realmente motivado a acordá-lo.

Se Lucas estivesse em seu juízo normal, provavelmente já teria socado Kale há muito tempo. Mas, com estava com sono, apenas grunhiu mais uma vez. Levantou-se devagar, encarando o rosto sorridente e embaçado de Kale, que parecia um filhotinho de labrador.

Coçou a nuca, bocejando.

– Por que você está tão cansado? — Kale perguntou, realmente surpreso.

– Eu fiquei até tarde adiantando meu trabalho ontem, só para ter o dia livre hoje.

O surfista sorriu, abraçando a barriga de Lucas.

– Eu te amo, Lucas, cê sabe disso, né?

– É o mínimo que você tem que fazer — seu humor matinal, no entanto, estava completamente normal. — Agora sai, vou tomar banho. — Começou, levantando-se e caminhando com certa dificuldade em direção ao banheiro.

Lucas terminou seu banho e, logo em seguida, Kale entrou no banheiro para também tomar uma ducha. Lucas preparou um café bem forte, os cabelos ainda molhados, respigando levemente em suas costas, bebericando o quase energético na varanda do apartamento, podendo apreciar o amanhecer no paraíso.

Uma brisa agradável abraçava-o, e, mesmo sem os óculos, pôde apreciar toda aquela imensidão azul, que estava bem atrás de alguns prédios baixos. O sol já havia se posicionado acima do mar, mas era coberto por um conjunto de nuvens multicoloridas, quase tão comíveis quanto algodão doce. Os coqueiros na praia pareciam estar dançando hula, extremamente animados pelo o que aconteceria dali a algumas horas.

Decidiu tirar uma foto daquela vista. No lugar de postá-la em qualquer lugar, decidiu guardá-la para si. Na cabeça de Lucas, algumas coisas eram bonitas demais para serem compartilhadas com outras pessoas.

Assim que Kale saiu do banheiro, eles tomaram café e se arrumaram. Lucas passou o protetor solar fator 50 no corpo todo, até mesmo no tórax, local onde sabia que não iria expor — ainda mais porque Antony estaria lá. Após se aprontarem, Kale beijou Lala, sua adorável prancha.

– Nós iremos arrasar hoje, garota. Eu e você, juntinhos, inseparáveis… — Começou a dizer, fazendo Lucas rir.

– Deixa o Kai ouvir isso — o míope gracejou, abrindo a porta do apartamento.

Kale fez uma careta, chutando-o na canela, fazendo Lucas gargalhar.

– Babaca, isso é uma relação eterna: prancha e surfista. Pai e filho, entende?

– Você deita sobre o seu filho? — Lucas decidiu soltar mais uma enquanto eles desciam as escadas. Kale quase tropeçou na prancha enquanto descia o degrau, provocando um eco horrível no corredor de algo caindo. Mas o som foi abafado pela risada de Lucas.

– Nossa, Lucas, como você é engraçado, parabéns. Tá aqui seu diploma de pessoa mais engraçada do ano, pode morrer feliz agora.

Os dois saíram do apartamento discutindo (ou Kale pensou que estavam, já que Lucas tirou sarro da cara dele o tempo inteiro), dando leves ombradas um no outro, xingando-se e se empurrando. Teve uma hora em que o sinal fechou enquanto eles estavam atravessando junto com um bolo de pedestres, obrigando a todos ali darem uma corridinha — exceto Lucas, que não conseguia correr.

O resultado foi os dois xingando os motoristas, que buzinavam, apressados, ameaçando acelerar com tudo e atropelá-los sem dó.

Felizmente eles conseguiram chegar à praia sãos e salvos, rindo como dois idiotas que acabaram de aprontar. Mesmo àquela hora do dia, a movimentação da praia era enorme, com muitos guarda-sóis coloridos estendidos sobre a areia.

– O.k., vamos repassar o plano. Vamos à procura de quem agora? — Lucas perguntou, retirando os tênis a pedido do surfista, que também havia retirado as próprias sandálias.

– Do Kai. — Respondeu ele com muita convicção, como se já estivesse ensaiado. — Esperamos o Antony chegar com o Nick, para você cuidar do pequeno. Babá Lucas entra em ação, papai Antony e titio Kale vão ao serviço.

– Santo Deus, Kale, nunca mais repita isso. – Ordenou Lucas, resoluto, parando de andar para apenas encará-lo, os olhos esbugalhados em pura descrença.

– Ai, rude — o surfista reclamou, sentido. — Tô curioso para ver esse moleque, Lucas. Nicholas, né? — Quando o míope assentiu, ele continuou: — pelo o que você me contou, ele é bem animado.

– Como toda criança, Kale… — Ponderou Lucas, cruzando os braços enquanto se movia naquele mar de gente. Há exatos dois dias Antony Thomas puxou conversa com Lucas pelo facebook. O míope, que estava fazendo seu trabalho extra em casa, cuspiu toda a água que estava bebendo no monitor, descrente. Teve que reler sete vezes aquele “oi” normal para realmente conseguir compreender e se certificar que seu cérebro não estava o enganando.

Antony nunca foi um cara de muitas palavras, por isso foi direto ao assunto de interesse: “Lucas, eu sei que é algo extremamente precoce, mas, você poderia cuidar do Nick para mim, no dia da competição? Ele não quer ficar com mais ninguém”. A linguagem formal de Antony assustou por uns instantes Lucas, que demorou mais tempo apreciando o bom vocabulário dele do que para pensar. Digitou “sem problemas” rapidamente, recebendo de volta um emoji feliz.

O.k., talvez tenha sido um pouco estranho para uma primeira conversa, mas Lucas relevou; Antony não era bom em se comunicar, tudo bem, não era uma barreira — ele também não era.

Mas seus pensamentos foram cortados quando percebeu Luana a alguns metros de distância. A garota vestia um biquíni vermelho, a pele morena naturalmente brilhosa em contato com o sol. Os cabelos estavam presos num coque alto e firme, alguns fiozinhos escapando suavemente em sua nuca. Ela acenava, pulando vez ou outra, tendo dificuldade em ser notada entre aquela multidão, já que era muito baixinha.

Kale, no entanto, conseguiu notá-la, acenando alegremente em resposta. Os dois aproximaram-se de Luana, que parecia exepcionalmente animada. Ela os cumprimentou com beijinhos na bochecha, guiando-os na direção aonde Manu e Kai estavam, próximos à bancada de juízes.

O garoto estava sentado sobre uma toalha azul, o cabelo despenteado e muito rebelde mexendo-se a favor do vento. Vestia uma camiseta regata e shorts esportivos, parecendo perdido ao manter o rosto inexpressivo.

Kale sorriu ao perceber que ele estava descalço, suas sandálias viradas para cima, as solas imundas de asfalto não tocando na areia.

Manu estava agachado também sobre uma toalha, fuxicando em uma mochila. Não vestia camisetas, e era visível que seu torso estava lambuzado de protetor solar. O cozinheiro parecia muito mais carrancudo do que o habitual, e não tentou nem ao menos disfarçar seu mau-humor ao cumprimentá-los — ele não via motivos para estar ali naquele instante, e preferia muito mais estar trabalhando a ver uma competição estúpida de surf.

– Bota isso aqui — disse ele, enfiando um boné do Yankees na cabeça de Kai com brusquidão, mas a atitude era quase paternal.

– Um amor de pai, realmente — Kai gracejou, ajeitando o boné da forma como queria.

Kale começou a rir, enfiando sua prancha na areia, aproximando-se de Kai em seguida.

– Roupa esportiva, confere. Boné do Yankees, confere. Só falta o taco e você tá no jogo, Kai.

– Não posso jogar beisebol, mal vejo as bolas — sorriu, rindo muito quando Kale deu um beliscão em seu ombro. — Ah, vamos lá, a vida fica chata quando você não tira sarro dela. Oi, Lucas! — Cumprimentou o míope, sabendo exatamente que ele estava ali.

– Ah, oi, Kai! — Lucas, que estava um pouco avulso, olhando ao redor à procura de qualquer cabeça loura, apressou-se em dizer, sentindo-se estúpido quando viu Kale encarando-o presunçosamente. Tocou-lhe o ombro amigavelmente. — Tudo bem?

– Tudo sim. Sua voz está cansada, anda trabalhando muito? — Perguntou ele, ajeitando o boné quando sentiu seu rosto quente e já pinicando. Podia claramente distinguir determinadas características de uma pessoa apenas ao ouvir seu tom de voz. Talvez esses sons passassem batidos a pessoas com poderes oculares perfeitos, mas, para alguém que nunca viu o próprio reflexo, sons eram coisas delicadas, facilmente modificadas a ouvidos treinados.

– Sim, alguém tem que trabalhar naquela casa, Kai — brincou, mas aquela brincadeira tinha um forte fundo de verdade. Kale revirou os olhos, nada atingido.

– Você só sabe falar de trabalho? — O surfista fez uma careta, sentindo dor psicológica. — Se o seu trabalho fosse uma coisa legal, tipo ser cuidador de animais num zoológico, ator ou qualquer outra coisa que não envolvesse exatas, até seria aceitável este seu amor, Lucas.

Kai soltou uma risadinha desaforada, pronto para irritar o surfista.

– Mesmo se o emprego fosse de seu agrado, Kale, seus instintos vagabundos o impediriam de ir no segundo dia — soltou a pérola, não percebendo que o fato de chamar Kale de “vagabundo” o ofendeu.

– Ah, mas veja se pode! — Kale avançou sobre o garoto, saltando sobre ele num movimento rápido. — Vou te ensinar a respeitar os mais velhos! — Gracejou, começando a atacá-lo com cócegas impiedosas.

Se tinha uma coisa que Kai odiava mais que ficar sozinho e audiobooks ruins, era cócegas. E um ataque impiedoso dessa arte maldita de tortura era inadmissível. Se encolheu, tendo reflexos musculares muito fortes, começando a gargalhar enquanto chutava o ar, tentando se livrar dos dedos gélidos de Kale, que pareciam lhe atacar de todos os lados.

O surfista estava sentado sobre a barriga do garoto, atacando-o em todos os pontos de pele sensíveis, inclusive axilas (ataque baixíssimo).

– Ai, meu Deus, para! — Implorou, a voz saindo rouca tamanho suas gargalhadas.

– Você está rindo!

– Mas estou chorando por dentro! — Rebateu, tentando segurar os pulsos do surfista, que pareciam ser feitos de chumbo. — Eu odeio cócegas! Para, por favor! — Tentou mais uma vez, virando-se de lado como se estivesse sofrendo a mais terrível das dores.

Lucas revirou os olhos, percebendo que Kale não era o único idiota molenga da relação.

– Lucas! — Foi pego de surpresa pelo chamado, virando a cabeça como a garotinha do Exorcista, sorrindo largamente quando viu aquela criaturazinha correndo em sua direção de braços abertos.

– Oi, Nick! — Cumprimentou-o, inclinando o tronco para poder pegá-lo, erguendo-o e acomodando-o em ambos os braços, o garotinho circundando sua cintura com as pernocas, abraçando-o pelo pescoço. — Que saudade! — Disse com sinceridade, envolvendo-o carinhosamente, não querendo largá-lo de forma alguma.

– Eu também tava com saudade. Obrigado por querer ficar comigo, eu já tava cansado da tia Nancy — reclamou, apoiando sua testa no ombro do míope.

– Nicholas!– Ambos se assustaram ao ouvir aquele rugido banhado em desespero. Lucas virou-se de supetão, não se surpreendendo ao se deparar com Antony Thomas, que vestia uma bermuda de borracha preta, especialmente feita para surfar. O surfista arfava, apoiando-se em seus joelhos, parecendo que correu uma maratona. — O que eu já te disse sobre sair correndo?! — Bradou, não parecendo muito simpático.

– Desculpa, Ant, é que eu vi o Lucas… — Explicou-se, talvez meio envergonhado por seu comportamento imprudente.

Antony revirou os olhos; odiava aquele apelido — geralmente Nick só o usava quando iria pedir alguma coisa que queria muito ou quando estava arrependido.

– Só deixo passar esta vez — avisou com certa amargura, subindo seu olhar para o rosto complacente do míope. — Oi, Lucas. Desculpa por isso.

– Ah, não, tá tudo bem! — Lucas apressou-se, sentindo alguma coisa se remexendo dentro do estômago; rezou para que não fossem borboletas. — Eu adoro o Nick, tenho certeza que ele irá se comportar muito bem. — Previu, olhando com carinho para o mais novo. — Ah, e… Você? Quero dizer... Animado para a prova?

– Na medida do possível. Esses caras são bons, mas… — Deu de ombros, a musculatura torácica se movimentando inteirinha. — Não ao ponto de me deixarem super animado para competir.

– Adversários fáceis não fazem boa prova — Nick falou, como se aquilo estivesse decorado na sua alma.

Antony abriu o maior sorriso de irmão orgulhoso, bagunçando o cabelo fino de Nicholas.

– Nosso velho vivia dizendo isso — Antony contou a Lucas. O míope percebeu de relance um olhar nostálgico no rosto do surfista, mas achou indelicado perguntar. Notou, no entanto, um papel numerado na coxa do surfista.

– O que é isto? — Indagou, curioso.

– O papel? É minha identificação. — Avisou com certa monotonia.

Lucas se deu um facepalm interno. Virou-se para Kale, que ainda estava torturando Kai com cócegas, percebendo que Manu e Luana estavam aleatórios àquilo.

– Kale! — Chamou-o num berro, fazendo os irmãos Thomas encararem o surfista também. — Seu idiota!

Kale estava rindo, aparentemente divertindo-se muito ao torturar Kai, que já estava sem fôlego. Parou o que fazia, segurando os pulsos do garoto, sentado sobre suas coxas. Virou-se para Lucas com o sorriso enorme.

– Que foi?

– Você já foi autenticar sua identificação? — Perguntou, já sabendo claramente a resposta.

– Que mané identificação, Lucas?

– Essa aqui, babaca — apontou para a coxa de Antony, onde o papel com o número “56” estava colado.

Kale ficou parado, encarando-o, por um momento parecendo congelado. Parecia mais tapado que o normal. Arregalou os olhos, numa conversa telepática com Lucas, que chamou-o de idiota novamente.

O surfista levantou-se num pulo, fazendo Kai se sentar, o boné meio torto.

– Meu Jesus, Lucas! Mas que por… — Ia falar o palavrão, mas cortou-se ao perceber Nick. — … caria! Essa merda vai começar em dez minutos, preciso ir pra lá zarpando e ir direto pra onde os competidores irão ficar! Tchau, Kai — despediu-se na correria, inclinando-se e espalmando o rosto do garoto, dando-lhe, sem querer, um beijo que alcançou um canto mínimo de sua boca. Obviamente Kale não percebeu, já que despediu-se de Manu e Luana afobadamente, abraçando Lucas em seguida, que lhe desejou boa sorte.

– Ele é idiota? — Nicholas perguntou de um jeito ingênuo ao ver Kale se afastar correndo com a prancha sob o braço.

– É — respondeu Lucas, sorrindo. — Extremamente idiota. Estou surpreso por ele não ter arranjado uma briga ainda.

– Competidores, por favor! — Uma voz masculina retumbou pela praia inteira; ela estava vindo no palco, acima deles.

– Ah, eu tenho que ir. — Antony Thomas sorriu, puxando sua prancha da areia, dando um beijo na bochecha de Nicholas. — Nick, cê já sabe. Comporte-se. Lucas, obrigado mais uma vez — agradeceu, piscando e afastando-se rápido, indo em direção à orla da praia.

Lucas sorriu para Nick, andando um pouco, colocando-o no chão. Nicholas carregava nas costas uma mochila de Procurando Nemo, na qual abriu e tirou uma toalha grande verde limo, de Monstros S.A.

– Vem, Lucas, senta aqui — disse ele, puxando a mão do míope, indicando a toalha.

– Já, já vou sentar, Nick, um minutinho. — Lucas estava ansioso, procurando por informações relevantes que indicassem o andamento da competição. Suspirou aliviado quando Kale brotou ao lado de um dos competidores, mas revirou os olhos quando notou que ele estava apenas de cueca. A identificação estava colada na barra da boxer preta (pelo menos ele teve a decência de colocar um tecido escuro), quase em sua bunda. O míope bateu com a mão no rosto, incrédulo e envergonhado. — Isso é tão você… Kai! — Chamou-o, virando-se. Viu que o garoto estava olhando para o local aonde ouvira sua voz. — A “etiqueta” de identificação do Kale tá colada na bunda dele. Nunca o faça se esquecer disso.

– Cê tá brincando! — Kai exclamou, segurando o estômago ao começar a gargalhar.

Quando Lucas virou-se novamente, para encarar a orla da praia, percebeu que havia mais de cem competidores, todos vestidos com roupas de borracha — exceto o Kale, cabeça de bague -, as pranchas em mãos, olhares concentrados. O locutor falava as regras da competição, detalhe por detalhe.

– Eu não entendo — Luana se pronunciou, os óculos de sol de coração refletindo o Sol. Todos a olharam, prontos para escutá-la. — Qual é o objetivo desta primeira parte da competição?

– Não cair — Manu a respondeu, monótono, a maior cara de bunda do universo. Ele parecia um bichinho infeliz no meio a felicidade alheia. — E somar o maior número possível de pontos. Se você cai, seus pontos são drasticamente reduzidos, o que é lógico. O placar irá se dividir em dois grupos: A e B. São 158 competidores, competindo para cinquenta vagas. Esta primeira parte serve como uma “peneira” gigante.

– Pelos meus cálculos — Lucas começou, metódico, expressando um ar intelectual, sentado na cara do Mike Wazowski. — O grupo A será formado pelos 25 primeiros. O grupo B, pelos 25 últimos.

– 108 competidores serão desqualificados?! — Luana pronunciou-se, chocada. — Tudo isso?

– É uma peneira, eu já disse. — Manu rosnou as palavras, os olhos estreitos ainda mais finos. — Geralmente esses 108 são moleques insensatos, mal criados e rebeldes, que não sabem o que querem da vida e entram nessas porcarias descabidas. — Ele dizia tudo com grande amargura.

Ninguém falou mais nada depois daquilo. Luana entendeu perfeitamente a mecânica da coisa, decidindo prestar atenção no que iria acontecer em seguida.

Lá a fundo, podia-se ver ondas quebrando, violentas. Estava um dia quente, com mar agitado e brisa. Era simplesmente ideal.

Kale suspirou, inalando o cheiro do mar, da areia molhada e até mesmo de seu próprio perfume. Aquela imensidão logo iria consumi-lo. Parecia estar o chamando, as ondas perfeitas, ritmadas e médias. Inchou o peito, segurando a prancha sob o braço esquerdo, inclinando o corpo numa reverência acentuada.

O mar era a coisa que ele mais amava e respeitava em toda a sua vida. Se ele quisesse ganhar aquilo, primeiramente teria que ganhar o mar.

Alguns competidores que estavam ao lado de Kale olharam-no de esguelha, a testa franzida. Alguns riram, achando-o idiota por dar uma reverência a água com sal.

– Vejam só! — A voz acentuada do locutor se pronunciou, parecendo surpresa. Pode-se ouvir algumas risadinhas ao fundo. — Parece que um competidor está reverenciando o mar.

Lucas olhou furioso para o palco, podendo encarar o locutor.

– NÃO É GRANDE COISA, SEU BABACA! — Berrou tão alto que sua voz foi captada pelo microfone, sendo reproduzida por toda a praia.

Teve uma vontade real de cavar um buraco na areia e ficar ali para sempre quando todos que estavam próximos se viraram para encará-lo, rindo.

– É, SEU BABACA! — Nicholas Thomas também berrou, erguendo sua pá de brinquedo em direção ao locutor. Todos da praia ouviram a voz da criança, emitindo um som parecido com um grasnido misturado com risada. Se espelhava em Lucas, e, se ele dizia que o locutor era babaca, era porque ele era.

Dentre os competidores, somente Antony Thomas sorriu amplamente.

A largada foi dada por uma espécie de pistola, assustando Kai e Nicholas. Diferente de Kai, Nicholas chorou, assustado, mas foi confortavelmente consolado por Lucas, que começou a construir um castelo de areia com ele, botando soldadinhos verdes para proteger o portão principal.

Mais de cem pessoinhas saíram remando com todas as forças pelas águas incertas, o tronco todo apoiado em suas respectivas pranchas, os olhos centrados no alto mar.

Chegou um ponto onde o único que ainda remava era Kale, os braços parecendo serem feitos de ferro, aguentando cada segundo contra seu próprio peso. Quando entrava na água, o seu modo perfeccionista entrava em ação, à espera de um momento perfeito.

Um garotinho louro de no máximo quinze anos entrou com tudo em sua frente, já posto em pé. Uma nova onda formava-se a alguns metros, e muitos surfistas começaram a desejá-la, manobrando em sua direção.

Kale inspirou fundo, segurando a borda de sua prancha com força, sentindo sua barba por fazer já ensopada, os olhos estreitos num ponto fixo.

Naquele momento, só era ele, o mar e Lala, a prancha. Não existia competidores, não existia sequer uma competição. Só existia sua respiração, as ondas agitadas, as palpitações de seu coração, retumbando contra o peito, ecoando em todo o seu corpo. Kale, naquele momento, estava vazio.

Seu corpo se entregou ao mar — porque a alma já pertencia há muito tempo.

Levantou-se de súbito, num último segundo, utilizando-se de toda a força que possuía nos joelhos, equilibrando-se e roubando com certa facilidade aquela onda de todos os outros que a almejavam.

O locutor anunciou isso, rotulando Kale como “o competidor que se reverenciou”. A multidão na praia aplaudiu, principalmente as moças, que já estavam de pé, dando pulinhos por conta das partes nada secas do surfista.

– Alguém tira esse cara daí! — Lucas ralhou para o locutor. — Isso não é nada excepcional, trouxão, ele só pegou a onda!

Mas quem disse que Kale ouvira? Não havia ninguém ali, só ele, não é mesmo? Deslizava pelas ondas como se estivesse deslizando pela neve, suave e controladamente. Deslizou para cima e para baixo, monopolizando a onda completamente, sentindo-a.

Deslizou até a base para, num súbito impulso, lançar-se com tudo para cima, inclinando os joelhos, girando em seu próprio eixo três vezes no sentido horário, caindo com a prancha inclinada levemente para baixo, uma angulação perfeita para que caísse com suavidade.

Lucas não reclamou quando o locutor anunciou a manobra de Kale, novamente a praia aplaudindo; era mesmo um maldito exibicionista, mesmo que fizesse sem reparar.

Nem se passou cinco segundos quando Kale tomou novamente impulso, voando sobre outra onda, rodando três vezes no sentido anti-horário, apenas três dedos beliscando a ponta da prancha. Sua queda não fora tão suave como a anterior, e ele até mesmo teve um pequeno desequilíbrio, mas nada que o fizesse cair.

Depois disso, ficou difícil dizer se Kale realmente estava encontrando problemas. Roubava ondas com a mesma facilidade que respirava, executava manobras difíceis e complexas sem nem mudar de expressão.

Mas o ponto alto de sua apresentação foi quando Kale se empinou na prancha, mantendo apenas sua parte de trás dentro d’água, pegando um impulso colossal e voando, novamente — manobras aéreas eram sua especialidade. Fez um looping fora d’água, pousando com certa hostilidade, mas com uma boa execução.

Kai ouvia tudo com entusiasmo. Não sabia se era porque aquela era a primeira vez que acompanhava ao vivo, ou se era porque tinha um amigo próximo concorrendo. Talvez as duas opções. Acompanhava tudo com os olhos arregalados, os ouvidos mais do que apurados, podendo até mesmo ouvir as ondas chocando-se contra as pranchas.

Assustou-se quando ouviu uma espécie de sino, alto e ensurdecedor, retumbando por toda a praia. Logo em seguida, uma salva de palmas encheu o litoral, e Kai, por quase obrigação, começou a aplaudir também.

– O que tá acontecendo?! — Perguntou, perdido.

– Acabou. — Manu explicou, sem emoção. — Os quarenta minutos mais entediantes da minha vida.

– Mas já? — Luana indagou, segurando o coco em ambas as mãos.

– É rápido assim mesmo. Essa foi até comprida, em média elas têm trinta e cinco minutos. — Ele explicou, bocejando. — Eu fiquei sabendo que isso aqui vai ser dividido em fases. Essa primeira foi uma peneira, como eu já havia dito. As próximas provavelmente serão mais sérias, com os melhores surfistas. 25 serão eliminados, depois 15. 10 restarão, que é a classificação final.

– Só isso? — Ela exaltou-se, as sobrancelhas erguidas.

– Sim, e isso nem é um campeonato mundial. Se fosse, provavelmente sobrariam dois ou três. — Kai disse, lembrando-se do Mundial passado, onde Medina e Slater competiram.

Kale pela primeira vez ouviu alguma coisa.

O sinal avisando que aquela parte da competição acabara soou, alto e claro. Piscou, atônito, acordando para a realidade. Sentia os músculos rígidos, e agradeceu pela água estar quente. Deslizou até a base de uma onda, sentindo-a empurrando-o bruscamente, a espuma branquinha respingando em seu rosto. Quando chegou a cinco metros da costa, jogou-se na água, submergindo. Permaneceu com os olhos fechados, sentindo o mar levá-lo, a prancha presa ao seu calcanhar.

Quando sentiu a areia úmida sobre seus pés, Kale emergiu numa golfada de ar, respirando fundo, penteando os cabelos para trás com os dedos, andando calmamente para fora d’água. Agachou-se, pegando sua prancha, desenroscando a cordinha que a amarrava em seu calcanhar. A fincou na costa, encarando-a, satisfeitíssimo.

– Obrigado por hoje — agradeceu, sentindo tanto os lábios quanto os dedos ressecados. Mas, mesmo assim, beijou sua prancha com blandícia, profundamente agradecido.

Assim que se virou, colocando-a sob o braço, pulou em susto. Muitas pessoas faziam um bolinho a sua volta, erguendo câmeras sobre as cabeças, tirando fotos, perguntando sobre ele ao mesmo tempo, numa confusão e caos de vozes ansiosas e admiradas.

– Hã… — Começou ele, perdido. — Oi.

– Kale, parabéns por hoje! — Uma voz lhe parabenizou, seguida por concordâncias.

– Obrigado. — Sorriu, começando a andar. O bolinho de gente começou a segui-lo, insistente. — Com licença, eu preciso mesmo comer alguma coisa e beber água potável… — Falou, apressando o passo, praticamente dando uma corridinha em direção aonde o grupinho de Lucas se encontrava. Sua garganta estava seca, os dedos sem toque, a língua parecendo uma navalha.

Lucas se ergueu quando avistou Kale se aproximando, cercado de urubus irritantes. Sempre era assim depois de uma competição. Ele parecia um bagaço, o cabelo todo despenteado, os lábios rachados e a mandíbula tremulando. Riu mesmo assim quando ele ergueu ambos os braços, forçando os músculos numa pose ridícula, mas que na cabeça dele estava heróica.

– Você com certeza está dentro — Lucas disse quando Kale jogou Lala sobre a areia, correndo para abraçá-lo apertado. — Você vai me deixar ensopado! — Ralhou, sentindo gotas d’água deslizarem do cabelo do surfista e pingarem em suas costas.

– Água, pelo amor de Deus… — Pediu ele, já não mais abraçando Lucas, e sim se apoiando nele.

– Se joga ali, vou pegar — Lucas soltou-se, rindo quando Kale de fato se jogou, só que não na toalha, e sim em cima de Kai.

O garoto deu um pulo assustado quando sentiu aquele peso úmido sobre si, caindo para trás, sobre a toalha, sendo esmagado por Kale, que parecia morto de cansaço. O surfista riu, seu torso desnudo e molhado colado no tórax de Kai, ensopando sua camiseta esportiva. Aproveitando-se da situação, Kale abraçou-o folgadamente, apoiando sua cabeça no estômago do garoto.

– Você tá cheirando a cachorro molhado — Kai grunhiu, tentando se sentar, apoiando os cotovelos na toalha. — E você tá me molhando também — admitiu, sentindo claramente o torso de Kale movimentando-se conforme sua respiração lenta. Os pelos de sua nuca estavam atiçados, um arrepio indesejável percorrendo como correntes elétricas em sua coluna por conta das mãos de Kale, que estavam posicionadas em sua região lombar.

– Para de ser frescurento, é só um pouquinho. — Debateu, pegando a garrafinha d’água que Lucas lhe entregou, tomando toda a água em menos de quinze segundos, os goles colossais. — Lucas, passa uma toalha aí, por fav- — não se surpreendeu quando uma toalha verde limão voou em sua cara, interrompendo-o.

Kale enxugou-se, vestindo-se em seguida com roupas leves, comendo uma barrinha de cereais com banana enquanto deitava displicentemente a cabeça no colo de Kai, à espera sossegada do resultado.

A parte que ao mesmo tempo odiava e amava era aquela. Odiava porque paciência nunca fora uma de suas qualidades mais marcantes, e amava porque aquele era o momento onde podia relaxar após a prova. E definitivamente estava relaxando, muito bem posicionado nas pernas de Kai.

Antony Thomas provou-se ser mais resistente que Kale quando andou tranquilamente na direção de seu irmãozinho, o tórax proeminente subindo e descendo, a tatuagem tribal em seu braço esquerdo brilhando por conta das gotículas d'água que escorriam sem parar por todo o seu corpo.

Lucas inspirou fundo, desviando o olhar, mordendo os lábios enquanto acariciava seus cotovelos. Se recusou a encará-lo por mais de três segundos, disposto a não envergonhá-lo. Mas não podia fazer nada a respeito. Antony lhe causava arrepios involuntários, bater de asas no estômago e contrações em áreas estratégicas.

Nicholas largou seu castelinho e correu na direção do irmão, abraçando-o com força, enquanto Antony o erguia, parecendo bem disposto apesar do cansaço. Lucas riu quando ele se jogou na toalha junto com Nicholas, ambos rindo, abraçados.

– Foi incrível, Antony! — Nicholas agarrou-o pelo pescoço enquanto Tony caçava uma garrafinha d’água dentro da mochila, refrescando-se com um sorriso.

– Obrigado, Nick. — Deu um beijo na testa do irmão, erguendo os olhos para encarar Lucas. O míope iria cumprimentá-lo pela apresentação, mas foi cortado por Antony: — Muito obrigado por tomar conta dele. O que eu faria sem você? — Gracejou, abrindo um sorriso que fez a perna boa de Lucas tremular.

– A-ah, imagina, não foi nada… — Falou, fraco.

Uma espécie de sineta tocou outra vez, despertando a atenção de todos os presentes. Seus olhares recaíram para o grande telão posto sobre os juízes, com um placar vazio.

– Atenção! — Iniciou o locutor. — Os surfistas qualificados irão aparecer no telão. Com a pontuação mais alta, encabeçando o placar, com um total de 16,54 pontos… — A expectativa estava tão densa, que estava palpável. Kai, sem querer, apertou o bíceps de Kale, extremamente tenso. O surfista olhou-o, aquele toque macio e firme o fazendo se esquecer aonde estava e o porquê de estar ali. — Kale Iwin!

O surfista não ouviu, porque estava ocupado encarando Kai, encantado. Só quando o garoto esbugalhou os olhos e entreabriu a boca, começou a notar as coisas.

– Você tá em primeiro, Kale! Você passou! — Dizia Kai, parecendo três vezes mais animado que o próprio ganhador.

– Passei? — Ele repetiu, sem entender. Quando sentiu tapinhas em seu ombro, arregalou os olhos, botando-se de joelhos. — Passei?! PASSEI! — Berrou, esticando os braços, completamente feliz. Kale agarrou Lucas, puxando-o num abraço de urso, para logo em seguida puxar a Kai, abraçando-o, se possível, mais forte ainda.

– Em segundo lugar… — Disse o locutor após o nome de Kale aparecer no telão, com sua pontuação ao lado. — Antony Thomas, com 16,48 pontos!

Nicholas olhou para o seu irmão, que estava enrolado numa toalha, completamente surpreso. Ambos ficaram quietos por um instante, mas começaram a rir logo em seguida, fazendo um high five animado.

Enquanto os competidores restantes eram anunciados e Kale e Antony eram muito parabenizados, Manu decidiu que já estava na hora de irem embora. O almoço estava quase chegando, e ele de jeito nenhum almoçaria perto daqueles caras. Fechou a mochila que trazia consigo, enfiando também as coisas de Luana dentro dela, pronto para chamá-la.

Foi quando quase teve uma síncope. Perto de uma barraquinha onde vendia água de coco, Luana e Alena conversam animadamente junto com outros três caras, obviamente surfistas classificados. Eles todos pareciam inchados, como se estivessem se esforçando profundamente para impressioná-las. Mordeu os lábios, os olhos estreitando tanto, que as semelhanças com um lince não mais foi contestada.

Levantou-se num salto, deixando a mochila ao lado de Kai, que estava com Kale, e foi pisando duro até onde Luana estava.

– Lua, vamos embora — seu tom simplesmente não permitia objeções.

Luana virou-se, olhando-o com tédio.

– Ai, Manu, por favor, né… — Revirou os olhos, esticando a mão para aceitar uma água de coco que um dos rapazes oferecia. Manu deu um soco na fruta, já irritando-se profundamente, lançando-a para longe. — Manu!

– Ela não irá aceitar nada seu. — Praticamente rugiu, nem ao menos se dando o trabalho de encará-los.

Manu era estupidamente maior que todos eles, por isso não se ouviu nenhuma reclamação. O tamanho de seu bíceps era do tamanho da cabeça de um deles, então nem ao menos se arriscaram a abrir a boca.

– Por que você é tão chato?! — Luana parecia uma pulga, mas o enfrentava sem medo.

– Pode me chamar do que quiser, eu só não quero que você seja estuprada por três malditos caras que nem sabem que têm a porra de um cérebro! Aliás, acho que eles nem ao menos sabem que têm um pau!

– Como você é idiota, Manu! — Brigou ela, socando-o no tórax, mas aquilo nem ao menos fez cócegas. Quando ela ergueu o punho para dar o terceiro, Manu pegou-a pelos pulsos, prendendo-a rente ao seu peito, encarando-a profundamente.

– Vamos para casa.

– Não vou pra lugar nenhum! Tá super sol e eu quero ficar na pra- — mas Luana não teve muito tempo para discutir. Manu simplesmente agarrou-a por baixo das pernas, erguendo-a como se fossem recém-casados. — O que você tá fazendo?! ME SOLTA! — Gritou, estapeando-o e esperneando freneticamente.

Manu apenas fechava os olhos vez ou outra por instinto, mas continuou andando pela praia com Luana nos braços como se fosse uma criança malcriada. Seus socos e tapas não o machucavam nem um pouco.

O problema de Manu era sua falta de expressividade. Talvez, se ele conseguisse dizer o que guardava há anos, os dois nem ao menos estariam ali, naquela situação.

– Hã… Kai… — Kale olhou-o, reprimindo um sorriso. — Acho que você foi abandonado.

– Como?

– Manu e Luana foram embora. Quer dizer… Ele meio que carregou ela à força.

Kai levantou-se num pulo, assustado e chocado.

– Me leva pra casa! — Aquilo não era um pedido.

– O quê? Por quê? — Kale pareceu perdido. Estava nos seus planos convidá-lo para almoçar naquela espécie de resort, que estava reservado para os surfistas classificados. Cada surfista poderia levar até cinco acompanhantes, numa estadia prévia após as competições.

– Porque eu não posso ficar aqui! Aqueles dois são uns filhos da mãe por fazerem isso comigo, me deixando sozinho aqui. Preciso voltar pra casa.

– Mas você não tá sozinho. Eu tô aqui, não tô? — Kale aproximou-se, dizendo aquilo sem malícia. — Aliás, você não quer sair comigo hoje? — Somente ele não percebeu o peso daquelas palavras e, principalmente, a forma como elas foram ditas.

Kai ficou paralisado por um instante, pensando naquilo. Não sabia se havia corado, porque sentia seu rosto num estado febril.

– C-como assim, sair? — Quando Kale lhe explicou a respeito do ‘resort’, Kai crispou os lábios. — Você também vai chamar o Lucas, né? — Sem condições de Kale não levar seu melhor amigo também.

– Eu o convidei, mas ele me disse que tem trabalho pra fazer. Algo como bater balanços – sim, Kale imaginou dois balanços de brinquedo chocando-se. — Coisa de exatas.

– Hm… Bom, o.k. por mim… — deu de ombros, não percebendo de forma alguma o grande sorriso de Kale. O surfista pegou a mochila de Kai, dobrou a toalha onde estava sentado e logo ofereceu o bíceps para Kai se apoiar.

– Lucas! — Chamou o míope, que guardava suas próprias coisas. — Cê vai pra casa agora?

– Vou, por quê?

– Eu tô indo com o Kai naquele treco dos resorts… — Disse, não sabendo exatamente o nome daquele local.

– Ah, sim! Bom proveito! — Desejou com um aceno, jogando sua mochila sobre o ombro. Levou um susto quando Nicholas apareceu do seu lado, puxando a barra de sua camiseta.

– Lu, vamos juntos! Vai ter piscina! — Obviamente ele se referia ao local reservado.

– Desculpa, Nick, eu tenho trabalho pra amanhã…

– Não pode nem ficar um pouco? — Antony apareceu atrás de si, assustando-o. — Só, sei lá, tomar um banho e comer. Você vai chegar em casa, no máximo, às três. A gente também não vai ficar muito, Nick tem escola cedo amanhã.

– É meu primeiro dia! — Disse ele, muito animado, puxando mais a barra da camiseta de Lucas. — Por favor, Lu! É meu último dia de férias, eu quero aproveitar com você!

Lucas era muito fraco à confissões.

***

Lucas nunca se sentiu tão deslocado em toda a sua vida. Tá certo que sempre se sentiu o estranho no ninho, seja no Brasil, seja em Big Island. Mas aquele lugar certamente não era para ele e sua jeans desgastada e camiseta salmão.

Tinha Nicholas nos braços, que olhava o hotel, que mais parecia um palacete, com encantamento. Antony não parecia ligar muito, nem para o ambiente, nem para as pessoas que passavam e o cumprimentavam, o parabenizando pela competição.

Se não fosse por Nicholas, nem estava ali. Mantinha as mãos nos bolsos, o olhar sério fixo à frente. Caminhava lado a lado com Lucas, acompanhando sem problemas o ritmo manco do garoto.

Lucas inspirou fundo, apertando Nicholas quando adentraram no salão principal. Era luxuoso, as colunas de mármore negro sustentando os dois níveis do hotel. Podia ouvir risadas escandalosas e um forte cheiro de comida.

– O que quer fazer agora? — Antony perguntou a Lucas quando chegaram à recepção, uma moça já anotando seus nomes. Nick nem pensou duas vezes quando ela lhe avisou que tinha um parquinho recheado de crianças ao lado, pulando do colo de Lucas, deixando-os sozinhos.

– Hã… — A chance dele dizer “vamos lá comer com aquele tanto de gente, que provavelmente vai me encarar por causa da minha perna e por estar andando com você!” era zero. — Eu realmente não sei, Antony… Mas acho que um banho não faria mal a ninguém. — Sugerindo, mesmo que já tenha tomado um banho de manhã.

– Você acabou de ler minha mente — então abriu um sorriso devastador, voltando-se para a atendente e pedindo duas toalhas e sabonetes. Lucas pegou uma toalha azul royal para si, pressionando sua boca nela. Podia sentir um cheiro maravilhoso.

“Jasmim”, pensou, seguindo Antony para dentro do hotel. Ao passarem por um corredor, foi surpreendido por uma parede de vidro, podendo avistar um recanto com piscina, recheado de surfistas — inclusive Kale, que conversava com Kai e uma mulher alta com cabelos curtos repicados.

Antony então abriu uma porta de correr, sua toalha jogada sobre o ombro. O banheiro masculino era enorme. Além de ter suítes em quartos separados, havia um grande banheiro no térreo, com cabines e chuveiros. Tinha um banco de metal cruzando praticamente todo o ambiente, com cestinhos e pias.

– Esse banheiro é maior que o meu apartamento — Lucas disse, sem exageros.

Antony sorriu, de repente tirando sua camiseta, dobrando-a e botando-a sobre o banco metálico. Só havia um gancho na porta, o que não aguentava roupas de corpo mais a toalha. Lucas, mesmo constrangido e nada confiante, retirou também sua camiseta, dobrando-a rapidamente e jogando-a no banco. Então, num piscar de olhos, Lucas lembrou-se de uma coisa.

– Ah, eu não tenho cueca aqui.

– Então faz que nem eu: toma uma ducha rápida e troca em casa — ele disse como se não fosse nem um pingo nojento. Lucas fez uma careta desgostosa, uma borboleta dentro de si apodrecendo. Antony riu com sua expressão. — Ah, qual é, Lucas, para de ser frescurento.

O míope engasgou uma risada.

– O Kale fala a mesma coisa pra mim. É que eu sou meio neurótico com higiene.

– Todo brasileiro é assim? — Ele estreitou os olhos, erguendo apenas os cantinhos dos lábios.

– Uns mais que os outros — ele sorriu. — Mas lá é muito quente, dá um desconto. Onde eu morava, por exemplo, tinha dias que eu tomava dois banhos. — Ele relaxou os ombros. — Nunca soube como é o clima em Camberra.

– Bom… Lá está mais para fresco puxado para o frio. Há meses que a máxima são 11°. Admito que tinha gente que ficava, assim como os russos, semanas sem tomar banho — admitiu, rindo ao ver a expressão de horror de Lucas. — Mas lá é muito frio, dá um desconto — repetiu o que ele havia dito.

Lucas riu alto, sentindo-se mais à vontade na presença de Antony. Porém, deixou que ele entrasse primeiro na cabine, sentindo-se, só aí, à vontade para se despir. Entrou correndo em sua cabine, ao lado da de Antony.

Tony era o Flash moderno do banho. Não deu três minutos de banho, e ele já saiu, perfumado, o cabelo completamente úmido, enrolado na cintura por sua toalha. Secou-se calmamente, podendo ouvir o chuveiro de Lucas, que sempre demorava. Um vapor aconchegante estava tomando conta do banheiro, o barulho da água e os movimentos embaçados de Lucas atrás do box fazendo Antony ficar zonzo por um instante. Podia sentir dali o aroma gostoso de sândalo, talvez morango.

Lucas saiu instantes depois, os cabelos levemente compridos encharcados, respigando. Estava envolto pela cintura na toalha, exalando fortemente um aroma muito gostoso. Estava tímido perante o olhar afiado de Tony, como se ele conseguisse enxergar sua alma. Chegou perto de sua muda de roupa, deixando para colocar seus óculos depois.

Antony, de repente, se levantou, não parando de encará-lo.

– Você pegou sabonete do quê? — Perguntou, aproximando-se do míope.

– Hm… Não sei. — Respondeu, esticando-se e pegando a embalagem já aberta. — “Sândalo, morango e baunilha” — leu, espremendo bem os olhos para conseguir ver alguma coisa.

– Realmente, é muito cheiroso — Antony inclinou-se, tocando com o nariz o ombro de Lucas, aspirando o aroma gostoso que ele exalava. Lucas sentiu um arrepio descer até a base de sua coluna, se encolhendo por instinto. O surfista agarrou-o pelos quadris com força, virando-o de frente para si, aproximando aquele corpo níveo do seu, não perdendo tempo ao encaixar seu rosto na curva do pescoço de Lucas, beijando-o na jugular, sentindo a pele quente e macia de encontro ao seus lábios.

Lucas estava perdido, voando num vórtice desconexo entre fantasia e realidade. Num instante estava falando sobre sabonetes, no outro estava sendo beijado no pescoço por Antony Thomas.

Arfou, voltando à realidade, sentindo as mãos ágeis de Antony envolvê-lo, abraçá-lo forte e possessivamente, seus lábios macios escorregando por seu pescoço, arrepiando-o por inteiro.

– A-Antony... — Murmurou, fraco, abraçando-o, os lábios partidos numa entrega muda. Uma corrente elétrica atingiu seu corpo carente de atenção de súbito quando Antony percorreu seu pescoço com a boca, recolhendo as gotículas d'água que percorriam por sua pele cálida com um esmero controlado, suas mãos deslizando ousadamente por suas costas, apertando a pele nívea com fome, marcando-a.

Lucas não conseguiu conter um gemido quando Antony enfiou uma mão sob sua toalha, agarrando-o com força brutal na parte de trás de sua coxa, talvez aplicando a mesma vontade com que apertaria sua prancha num aéreo.

Lucas não sabia o que fazer; estava perdido, só conseguindo apertar seus fios louros queimados com força, puxando sua cabeça para trás com força, querendo encará-lo, certificando-se de que aquilo era real, que não estava sonhando, preso num delírio doloroso.

Seus olhos fixaram-se um no outro, os gestos estancados por instantes, as respirações afobadas misturando-se a milímetros de distância, ambos os lábios partidos, praticamente roçando-se.

Todos os pensamentos de Lucas convergiam em beijá-lo até sentir seus próprios lábios dormentes, inchados e rubros.

Mas todos seus pensamentos foram por água a baixo quando Antony simplesmente lhe enlaçou pela cintura, enroscando seu tornozelo com o calcanhar, lhe dando uma bela rasteira.

O míope gritou angustiado enquanto caía, agarrando-se ao surfista por instinto. Suas costas úmidas bateram no chão gélido do banheiro com força, criando um impacto térmico que o fez arfar em susto. Sua perna latejou, a toalha escorregando, tudo parecendo ceder aos caprichos de Antony Thomas, que caiu ajoelhado em cima de si.

Lucas segurou-se nos antebraços de Tony, encarando-o arfante, sentindo uma parte de si muito desperta e latejante — definitivamente, não era sua perna.

– E-eu me esqueci de te parabenizar hoje pela incrível apresentação — disse ele, avulso, o rosto tomado pelo embaraçamento.

Antony deu de ombros, inclinando-se para perto dele, passando seus dedos nos fios negros e úmidos.

– Quem ficou em primeiro não fui eu.

– Kale só ficou por sorte. Sua parte técnica é incrível — não rasgou seda; apenas dizia o que realmente achava. — Kale pode até fazer uns aéreos bonzinhos e ousados, mas sua execução é um lixo total. J-já a sua… Foi tão perfeita que o desconto de pontos não passou de três.

Antony sorriu, mostrando absolutamente todos seus dentes, um sorriso que deixou as pernas de Lucas moles — se ele estivesse de pé, provavelmente iria fraquejar.

– Então, quer dizer que você ficou reparando em mim? Que lisonjeio, Lucas.

E não perdeu tempo: atacou os lábios partidos de Lucas com fome, levando uma de suas mãos à nuca, puxando-o mais e mais em sua direção, chupando, lambendo, enroscando-se e perdendo-se em sua boca como se fosse a mais saborosa das frutas. O míope apertava, arranhava e acariciava as costas trabalhadas de Antony, sentindo todos seus músculos tensos.

Na realidade, sentia-se perdido, como se uma névoa prazerosa encobrisse seus pensamentos. Nunca tinha sido beijado daquela forma tão apaixonada antes — nem mesmo seus ex-namorados o tratavam daquele jeito. Tentou retribuir aquele contato de alguma forma, uma mão agarrando a manga da camiseta do surfista, a outra acariciando sua nuca. Sentia-se quente, fervendo. Sim, estava em flamas, queimando desde seus fios de cabelo, até os pés. Uma parte de si latejava, praticamente implorando para ser tocada, já começando a doer.

O míope gemeu, entregue, quando Antony esgueirou-se por entre suas pernas, afagando seus joelhos com esmero, principalmente o machucado. Não conteve-se; mergulhou a mão por baixo da toalha azul royal, a única coisa que ainda tampava o corpo pálido de Lucas.

O de cabelos negros juntou os joelhos num movimento rápido, arqueando as costas, um gemido longo e dengoso escapando de sua garganta; o som só não ecoou pelo banheiro porque Antony o impedia de emitir qualquer um, sua boca bem prensada na dele.

Lucas afastou-se num gesto sofrido, liberando sua boca, dando uma golfada de ar; depois do último gesto, seu nariz tornou-se incapaz de lidar com sua oxigenação sozinho.

O surfista acariciou-o, apertando-o com volúpia, sentindo-se mais e mais excitado ao vê-lo com o olhar perdido, não mais estrangulando suas lamúrias eróticas de quem ansiava por aquilo.

– A-Antony, a gente não pod- — ia completar a frase, sofrido, porém ainda ajuizado (e não sabia como alguma sanidade lhe restava). Mas seu telefone tocou dentro do bolso da bermuda, um Red Hot tocando alegremente “Snow”. Ambos pularam com o susto, e, Lucas, sabendo claramente que tipo de música atribuiu aos seus contatos, pressionou os olhos quando percebeu ser Kale.

Puxou de seu âmago uma força, aplicando-a em seus antebraços, obrigando-se a levantar. Mas Antony foi mais ágil, puxando seu braço, impedindo-o completamente de pegar seu celular.

– Deixa tocar — pediu, inclinando-se, lambendo o pomo-de-adão de Lucas, que não sabia se aquilo era gostoso demais, ou se fazia cócegas demais.

– E-eu preciso atender, Tony... — disse arrastado, soltando uma risadinha por conta da língua de Antony, que percorria todo o seu pescoço, provocando-lhe arrepios bons.

– Não precisa, não... — Antony murmurou, rouco, sentindo-se tão duro quanto Lucas, querendo logo livrar-se junto com ele daquela sofridão enlouquecedora que só aumentava entre suas coxas.

Lucas preferia estar um milhão de vezes com Tony, a atender a chamada de Kale, porém sabia que o surfista só ligava em urgências.

Forçou-se a se levantar, dessa vez definitivamente, sentindo-se rubro no corpo inteiro, ajeitando sua toalha na cintura com um nó nos dedos, caçando em seus bolsos o aparelho.

– A-alô? — Sua voz ainda estava manhosa, como se Antony ainda estivesse tocando-o.

– Lucas? — Kale atendeu, sua voz misturada ao barulho da festa aos fundos da ligação. — Cara, você precisa vir. Não é questão se pode ou não vir, você só precisa. Andei pensando aqui, mas você precisa mesmo espairecer, cê tá muito cansado e tenso, eu te passo o endereço e te encontro na recepção.

Lucas não sabia se ficava mais nervoso com Kale dizendo “andei pensando” ou com ele percebendo as coisas ao notá-lo tenso. Kale geralmente nem ao menos notava se seu zíper estava aberto.

– Então, hã… Eu meio que tô aqui.

– O quê?! — O surfista ficou em silêncio, mas logo riu. — Aaaah, o Antony, né? Luquinhas, Luquinhas... — Fez questão de chamá-lo por seu apelido mais horrível. — Você é imprestável, sabia?

– Daqui a pouco tô aí, tchau — foi curto e grosso, encerrando a ligação e desligando o celular, por um momento esquecendo-se da presença de Antony ali, que estava sentado no chão, observando-o. Lucas vestiu-se rapidamente, levando um susto quando Tony apareceu atrás de si. — Ah! Desculpa, era só o Kale sendo chato.

– Amigos servem para isso. — Disse, em tom de gracejo, mas não havia sorriso em seus lábios.

– Você vai ficar… Você sabe, para aquilo ali? — Perguntou num tom de descaso, apontando para fora.

– Você vai ficar?

– Só para relaxar — mordeu as bochechas por dentro.

– Ótimo, então eu fico também — deu de ombros, casual.

Lucas sorriu, ainda rubro, dando um passo para sair do banheiro. Mas foi completamente impedido por Antony, que, num gesto rápido e brusco, puxou-o para si pela cintura, fazendo questão de colar suas cinturas. Lucas olhou-o assustado, sem saber o que fazer — ambas ereções tentavam, ainda, se acalmar.

– Escuta, Lucas. Vou deixar uma coisa muito clara: se você sair por aquela porta e fingir que nada disso aconteceu, eu vou ficar muito puto com você. Acredite quando digo que não vou me esquecer de absolutamente nada e que temos muitos assuntos pendentes. — Forçou o aperto, fazendo Lucas sentir-se fraco. — Entendeu?

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O moreno tentou pronunciar alguma coisa coerente, mas o único som que saiu de sua boca foi um fraco “uhum”, seus olhos ainda perdidos nas íris de Antony.

Depois de alguns segundos de conversa jogada fora, ambos saíram do banheiro, menos lúcidos de quando haviam entrado.

Notas finais
Como eu amo este casal! *w* Eles são tão fofinhos, como lidar? Sobre o Manu: OJAOJAJOAOJOAJ sem palavras. Mas, àqueles que não simpatizam com ele, preparem-se porque ele se provará sendo um amorzinho no futuro. Obrigada a quem leu até aqui! Grandes beijos!