De Coração
15 Ilegítimo Eu
Notas iniciais
Nicholas Thomas nunca foi um expert em artes. Por mais que tentasse pintar a cabeleira loira de seu irmão mais velho, nunca conseguia. Sempre se achou melhor em Educação Física, matéria na qual podia sair pulando como um sapinho por aí e mesmo assim ganhar a nota máxima em seu boletim.
Mas Leonard não pareceu muito preocupado com aquilo, naquela manhã de sábado. Mesmo que Nicholas fosse um ano mais novo, o tratava como um sênior, insistindo que ele se sentasse confortavelmente numa almofada na sala.
Sentou-se que nem um indígena na frente do mais novo, dando a ele seu batom preferido.
– Passa em mim — pediu, fechando os olhos, talvez com medo de Nick errar e furar sua pupila devido à total inexperiência.
Nicholas pensou em perguntar o porquê, mas preferiu ficar calado. Talvez passar batom em um amigo seja algo normal a se fazer, correto?
Olhou para o objeto vermelho em sua mão, olhando em seguida para o rosto inexpressivo de Leo. Rodou a embalagem, subindo o batom, tocando a cor viva nos lábios do outro, sem muito cuidado. Nicholas não era cuidadoso, por isso, sem querer, borrou, deixando um rastro vermelho que saía do lábio superior de Leonard e parava na ponta de seu nariz.
– Ai, eu borrei — disse o óbvio, rindo ao olhá-lo. — Você parece um palhaço! — Riu, mas, ao dar de cara com o olhar de ‘isso não é engraçado’ de Leo, Nick murchou. — Desculpa — murmurou, lambendo seu polegar e esfregando na pontinha do nariz de seu amigo, limpando-o. — Tá melhor.
Leo piscou, encarando o rosto ingênuo de Nicholas, vendo-o se esforçar para conseguir pintar seus lábios de forma correta. Será que Nicholas não o achava estranho?
– Você não se importa que eu use batom? — Decidiu perguntar, esforçando-se para mover o mínimo de sua boca e não atrapalhá-lo.
– Por que eu me importaria? — Nick terminou de passar, guardando o produto dentro de sua embalagem, encarando-o com certa monotonia. — A boca é sua, não é? E, mesmo se eu dissesse alguma coisa, você iria parar de usar só por que eu disse?
– Talvez.
Nicholas ergueu a mão, dando um tapinha na testa de Leonard, surpreendendo-o.
– Se você fizer isso, eu irei começar a chamá-lo de tonto! — Ameaçou, muitíssimo sério, juntando as sobrancelhas. — Eu gosto de usar meu pijama da Grifinória, mesmo que meu irmão seja da Sonserina. Só porque ele é da Sonserina, não quer dizer que eu também tenho que ser, sendo que eu gosto mais da Grifinória! — Cruzou os bracinhos, muito certo do que dizia.
Leonard começou a rir, acariciando sua testa.
– Você sabe que isso não tem nada a ver, né?
– Claro que tem! Ninguém é obrigado a fazer alguma coisa só porque outras pessoas fazem. — Seu tom de voz sugeriu um fim absoluto de conversa, exatamente igual ao de Antony quando o mandava para o banho. Nicholas era uma cópia mais faladeira de seu irmão, isso era inegável.
Leonard sorriu, extremamente feliz por ter alguém como Nick sendo seu amigo. Há quanto tempo estava esperando por conhecer alguém como ele? Não uma pessoa para passar batom em sua boca, e sim um alguém que estava disposto a aceitá-lo do jeito que era.
– Seu dente tá sujo de batom — avisou o loiro, virando-se e vasculhando sua mochila, à procura de, aparentemente, algo muito importante.
Leo levantou-se enquanto lambia seus dentes, correndo em direção ao quarto de sua irmã, abrindo seu guarda-roupa. Procurou incessantemente pelo vestido de cetim azul escuro que ela possuía que, modéstia a parte, ficava muito melhor nele do que nela.
Esther era esguia e tinha pernas finas, como duas varetas compridas. Já Leo, em seu próprio ponto de vista, tinha panturrilhas perfeitas para usar vestidos.
Nicholas tirou de dentro de sua mochila uma barra de chocolate, abrindo-a e quebrando-a no meio, dividindo-a justamente para ele e para Leonard. Começou a morder sua parte, esperando pacientemente o amigo, balançando os calcanhares, observando a casa.
Quer dizer, aquele local não tinha o aconchego de uma casa. Não havia uma plaquinha escrito ‘adorado lar’, nem plantinhas, nem espelhos. Até mesmo a televisão parecia transmitir um ar fúnebre. Os desenhos de Van Gogh pelas paredes eram perturbadores, todas aquelas vórtices parecendo-o sugá-lo para os montes de palha. Não era nem um pouco agradável permanecer ali, nem mesmo para uma criança de sete anos.
Até mesmo Nicholas pôde perceber que havia algo de muito errado dentro daquela casa, e de jeito algum estava relacionado a Leonard.
Parou de observar a casa quando o garoto voltou, vestindo o vestido de cetim azul, os pés descalços, uma das alças escorregando pelo ombro, grande. Nicholas estendeu a barra de chocolate dividida, vendo Leo se sentar do seu lado, agradecendo enquanto mordia o chocolate.
– Por que todos os seus vestidos são grandes? — Nicholas perguntou, vendo-o ajustar a alça pela segunda vez em cinco segundos.
– Não são meus. São da minha irmã — explicou, olhando-o.
– E por que sua mãe não compra vestidos para você? Vocês não têm dinheiro? — Nicholas não era adepto à cordialidades, mas era muito habituado a curiosidade.
– O m-meu pai não gosta que eu me vista assim… — Leonard encolheu os ombros, mastigando mais lentamente. — Ele diz que é coisa de… Veado – sussurrou a última palavra como se fosse um pecado pronunciá-la.
Nicholas franziu a testa, confuso. Não sabia o que significava aquilo, por isso se colocou de pé, pronto para começar a investigar.
– Você tem um dicionário? — Pediu, a boca suja de chocolate. Leo assentiu, levantando-se também, andando até o armário e se agachando, tirando de trás de alguns livros velhos um Macmillian rasgado, mas funcional. — Perfeito! — Nicholas exclamou, aproximando-se de Leonard, colocando o livro no chão e começando a vasculhar as páginas.
Ambos deitaram-se de bruços, observando as milhares de palavras que corriam pelas páginas à medida que Nicholas as virava, repetindo baixinho e para si mesmo a letra que almejava encontrar.
– Aqui, v, encontrei! — Anunciou, contente, começando a trilhar com os olhos o caminho pelas palavras, cutucando cada palavrinha até sorrir. — “Veado” – leu com certa dificuldade, devagarinho. — “Animal mamífero, com chifre quando maduro; cervo”. Você é um cervo?! — Exclamou, perplexo, encarando-o com os olhos esbugalhados.
– Eu vou ter chifres?! — Leonard indagou, apavorado, apertando sua cabeça como se temesse que algo pontiagudo saísse de repente de seu crânio. — Eu não quero ter chifres, Nick!
– Calma, Leo! — Nicholas se sentou, apertando o Macmillian contra o peito, pensando seriamente no assunto. — Você não terá chifres. E, se você tiver, a gente corta eles!
– Como se corta um chifre, Nick? — Leonard apertou os joelhos contra o peito, apavorado com a ideia.
– Eu não sei, mas se o Hellboy conseguiu, a gente também consegue.
– Quem diabos é Hellboy?!
– Sua irmã nunca leu quadrinhos pra você?! — Agora Nicholas estava apavorado. — Se bem que você está mais para Liz… — Murmurou para si mesmo a última parte, rindo quando Leo lhe chacoalhou, desesperado.
– Não é para rir, Nicholas, eu vou ter chifres! — Disse num tom meio chorado, assustado com a ideia de passar sua vida adulta como um animal selvagem.
– Calma, Leo, a gente vai encontrar um jeito. Em CSI, para eles conseguirem desvendar um caso, eles precisam ver a origem do problema — falou como se fosse um profissional, encarando-o seriamente. — A gente só precisa achar a origem do seu problema. Pois bem — Nicholas levantou-se, coçando o queixo pálido, andando de um lado para o outro na sala, sendo atentamente observado por Leonard. — Você só se tornará um cervo se você continuar vestindo roupas de garotas, certo?
Leonard anuiu, temendo o fim que aquele caso iria ter.
– Mas você não gosta de roupas de garotos, então está fora de cogitação você parar de se vestir como uma garota, até porque não tem sentido deixarmos de nos sentirmos bem com medo de nos tornarmos cervos — deu de ombros, girando nos calcanhares, voltando a se concentrar numa ideia. Até que, de repente, parou, estralando os dedos como se tivesse acabado de ter uma ideia genial. — É isso, Leo! A gente tem que te transformar numa garota! — Constatou como se fosse Einstein, a boca ainda suja de chocolate.
Leonard entreabriu a boca, estupefato com a ideia. Processou a informação, pensando em tudo o que já passou até agora. Todos os seus problemas, todo o espelho fragmentado, todos os borrões e todas as incertezas fugiriam caso se tornasse uma pessoa diferente? E sua essência?
Deixaria de ser Leonard?
Ou nomes eram insignificantes demais se comparados à nossa essência, nosso âmago, nosso ‘nós’? Quem era o ‘eu’ dele? Seu ‘eu’ não era o Leonard, era? Era o Leonard quem via no espelho, sua imagem, seu borrão. Porém, seu espelho simplesmente não refletia sua alma.
– C-como fazemos isso? — Indagou, a voz frágil pela dubiedade de sentimentos.
– Hm, não sei… — Nicholas esfregou o queixo, extremamente pensativo. — O que diferencia um garoto de uma garota?
Leo abriu e fechou a boca, sem respostas para aquela pergunta.
– Não sei… — Limitou-se a responder. Pensou nas diferenças entre ele e sua irmã mais velha, Esther. — Garotas têm o cabelo comprido, não têm?
Nicholas negou com a cabeça, pensando em suas super heroínas preferidas.
– A agente Romanoff tem o cabelo curto, mas ela é uma garota. Ah, e o Thor é um garoto, mas tem o cabelo comprido! — Descartou a ideia imediatamente, pensando em outras formas de diferenciação.
– Que tal absorventes? — Sugeriu Leo, arqueando as sobrancelhas.
– O que são absorventes? — Nick juntou as sobrancelhas, perdido, abrindo o Macmillian para o auxílio. Mas, antes que pudesse achar ‘absorver’, Leo se levantou num salto, indo correndo para o quarto de sua irmã. Procurou entre as gavetas, voltando correndo para a sala com um pacotinho em mãos.
– Isto é um absorvente. — Mostrou a Nicholas, que agarrou o pacotinho, curioso. — Minha irmã os compra sempre.
Nicholas anuiu, investigando a embalagem.
– “Contém oito absorventes higiênicos”. – Começou a ler as pequenas letras, sua curiosidade o corroendo. — “Modo de colocar: passo um: retire a fita adesiva central do absorvente. Passo dois: fixe o absorvente no centro da calcinha.” – Nicholas, então, abriu o pacotinho, dando de cara com diversas embalagens menores, coloridas. — Por que as garotas colocariam isso nas calcinhas? — Indagou a si mesmo, voltando a ler as letras minúsculas. — “Você segura e confortável, mesmo nos dias de fluxo mais intenso.”
– ‘Fluxo mais intenso’? — Leo repetiu, a frase parecendo completamente confusa a ele.
– Bom, não importa, coloque isso aqui que você irá virar uma garota — Nicholas estendeu o pacotinho menor a Leonard, quase como se estivesse mandando.
– Acho que não funciona assim, Nick… — Leo hesitou, parecendo incerto.
– Por que não? — O loiro logo indagou, procurando o que havia de errado no pacotinho colorido.
– P-porque… — Leonard sentiu as bochechas esquentando ao dizer aquilo. — Eu acho que… Lá embaixo é diferente — sussurrou, quase como se não quisesse que Jesus o escutasse dizendo tais coisas.
– Você quer dizer que garotas não têm pipi? — Nicholas foi direto no assunto, sem rodeios, querendo de fato resolver o Enigma Leonard. Juntou as sobrancelhas, ignorando a exclamação de ‘não fale isso!’ de Leo, coçando o queixo. — Então o que nos difere das garotas são nossos pipis?
– P-provavelmente… — Leo murmurou, envergonhado em dizer aquilo.
– Mas o que elas têm, então?
– N-não sei, Nick! Você está me deixando envergonhado! — Leonard afundou o rosto nas mãos, parecendo um tomate maduro. O que impedia Nicholas de se envergonhar era sua curiosidade fora do comum.
– Sua irmã é mais velha, não é? — Nick ignorou-o completamente, suas engrenagens trabalhando. — Acho que os livros de ciência dela podem nos dar alguma resposta! — Bateu palmas, disposto a levar a diante aquela ideia.
Leo, oprimido pela espirituosidade de Nick, acabou cedendo. Fuçou até achar o livro de ciências da oitava série de sua irmã, levando-o até Nicholas. Assim como haviam feito antes, ambos deitaram-se de bruços no chão, folheando o livro com sede de informações.
– Com certeza nós iremos achar alguma coisa, não se preocupe — Nicholas o confortou, não temendo à informação. — Iremos descobrir como transformá-lo numa garota, Leo. Você já pensou no seu nome de menina? Ou prefere continuar sendo chamado de Leo? — Conversou, distraindo-o, continuando a folhear o livro.
– Leia é bonito, não é? — Leonard murmurou, tímido.
– Sim! — Nick sorriu, arregalando os olhos quando finalmente achou. — Olha, olha! “Sistema Reprodutor Feminino”. O que é reprodutor? — Indagou a Leonard, que estava com o dicionário em mãos.
– “Aquilo que reproduz. Aquele que o faz. Animal reservado à reprodução.” – Leonard leu em voz alta assim que achou. — É a parte mamãe das garotas!
– O.k., parte mamãe das garotas, vejamos como você se parece. — Nick deslizou os olhos pela página, dando de cara com uma grande… — Concha! Olha, Leo, as garotas têm uma concha! Não é mesmo um pipi, como o nosso! — Exclamou, completamente animado com a informação, apontando para a figura colorida na página.
Leonard estava vermelho até a raiz dos cabelos, tampando o rosto.
– Eu n-não quero ver, Nick…
– Por que não? É uma concha, veja! Na praia mesmo a gente encontra muitas partes mamãe das garotas! — Praticamente esfregou o livro na cara do mais velho, insistindo que o visse. — Sua irmã tem uma concha! Nossas mamães têm conchas! Você logo, logo vai ter uma! Veja, veja…!
Leo começou a se afastar, dando tapinhas no ar para afastá-lo, provocando em Nicholas uma crise de risos incontrolável. Deixou ele e sua bobeira de lado, voltando para ler a página.
– “O Sistema Reprodutor Feminino é composto pelo útero, presente em quase todos os mamíferos fêmeas. Mor-fo-lo-gi-ca-men-te– disse devagarinho a palavra colossal, concentrando-se -, possui um formato de pera, sendo que o corpo do útero é a parte dilatada, cuja parte superior, em forma de cú-pu-la, é conhecida como fundo do útero. A outra extremidade conecta-se às duas tubas u-te-ri-nas, também conhecidas como… Trombas?! Trombas de Falápio?! — Repetiu com incredulidade, não percebendo seu erro de leitura. Nicholas encarou, perplexo, a folha. — As garotas têm trombas? Tipo com dois elefantinhos dentro delas?
Leo aproximou-se de novo do loiro, os olhos arregalados tamanho seu espanto, incrédulo perante à notícia.
– Será que é por isso que minha irmã às vezes reclama de dor na barriga? É isso o que elas chamam de cólica? — Indagou, perplexo, espalmando o rosto.
– É claro que elas irão ter cólica! Elas têm efalentes dentro delas!
– Elefantes, Nick — Leo sorriu, achando-o fofo por inverter as sílabas. — E-le-fan-tes.
– Saúde — Nicholas desprezou a correção, erguendo-se, entusiasmado demais para se conter deitado. — O.k., Leo, acho que já sabemos como te transformamos numa garota. Primeiro de tudo — ergueu um dedo, sabido. — Precisamos te arranjar uma concha. Segundo — ergueu outro dedo, certo do que dizia. — Precisamos arranjar dois efalentes.
Leonard ouvia tudo com atenção, sentindo-se, no entanto, confuso. Perdeu-se no meio da explicação, mordendo as bochechas internamente. O que sua família diria dele caso se tornasse uma garota? Sua mãe sempre quis um ‘casal’, certo? Pode um casal ser definido por duas garotas?
Ele seria, de fato, uma garota? Ou seria uma espécie mal feita? Uma cópia barata daquilo que almejava se tornar? Podemos mudarmos de corpo e nos autoafirmarmos como pertencentes a ele, ou somente ‘legítimos’, ‘nascidos’, poderiam ter este privilégio?
Ele era um garoto legítimo, mas nunca pensou que isso seria tão insuficiente.
– E-eu não sei, Nick — começou de repente, drasticamente assustado com a situação. — Eu acho que eu não quero mais isso. De qualquer forma, eu seria ilegítimo, certo?
– E daí? Quem se importa se você for igelítimo? — Perguntou, muitíssimo sério. — Você é gelítimo agora? Porque, da forma como você está triste, parece que essa palavra tem um sentido péssimo. Se eu estivesse na sua situação, com certeza iria preferir ser um igelítimo feliz, a continuar sendo um gelítimo triste — ponderou, erguendo o queixo, muito orgulhoso de seu argumento.
Leo começou a rir, limpando uma lágrima que de repente saltou de seus olhos. Era impressionante a capacidade que tinha de se magoar, mesmo não tendo motivos para tal. Apoiou o queixo nos joelhos, não se importando com a pronúncia errada de Nicholas, já que o significado daquelas palavras sobrepunham seu erro.
E, de fato. Alguns erros mereciam ser sobrepujados.
***
Depois de um fim de semana inteiro pesquisando incansavelmente a respeito das palavras que não sabia o significado, Nicholas Thomas caminhou ao lado de Esther e Leonard Martinez até seu apartamento com a cabeça em flamas, carregada de dúvidas.
Algumas de suas perguntas nem o Google conseguiu responder. Por isso, caminhou pela calçada completamente avoado, segurando a mão bronzeada de Esther com monotonia, sério e centrado em questões filosóficas.
– Nick, é aqui, certo? — Esther parou de caminhar, olhando para o edifício. Encarou Nicholas, que parecia em outra dimensão. Chacoalhou levemente sua mão, almejando acordá-lo de seus devaneios. — Nick?
Nicholas olhou para ela, mas não era como se, de fato, a estava vendo.
– É aqui, querido? — Esther repetiu a pergunta, sorrindo docemente a ele. Era esguia e alta, cursando o segundo ano do Ensino Médio, os cabelos castanhos escuros chegando em seus quadris, mas presos num coque alto e firme no meio da cabeça.
– Aham — Nick respondeu, completamente avulso. Se soltou da mão da garota, tocando a campainha de seu apartamento, ainda preso em devaneios. O boné estava torto, tampando suavemente sua expressão estática de incerteza.
– Obrigado por ficar lá em casa esses dias, Nick — Leo agradeceu, surpreendendo-o e acordando-o ao lhe dar um abraço apertado, sendo apenas alguns centímetros maior que o loiro. — Juro que nessa semana a gente vai atrás das conchas — sussurrou como se fosse uma confidência, vendo-o anuir fervorosamente.
– Acho que sua irmã vai ficar com ciúmes, Leo. — Nick murmurou, também em tom de sigilo.
Leonard franziu a testa, sem entender.
– Por quê?
– Porque você com certeza se tornaria uma garota mais bonita do que ela — sussurrou, parecendo muito sincero.
Leonard sorriu, extremamente agradecido. Espalmou o rosto de Nicholas e lhe deu um beijo na bochecha, afetuoso e já conectado a ele. Se afastou ainda sorrindo quando Antony desceu as escadas do edifício, abrindo a porta apenas de samba canção, provavelmente acordado de seu cochilo.
– E aí, homenzinho? — Cumprimentou-o com um sorriso enorme, extremamente contente em revê-lo, não escondendo sua saudade. — Oi, Leo! E você deve ser a Esther, né? Prazer, sou Tony — se apresentou, simpático, mesmo que sua cara estivesse levemente amassada.
Esther sorriu, encabulada por estar na presença seminua do surfista. Por vir de uma família extremamente religiosa, era incomum a ela ver tanta pele exposta.
– Oi! — Sorriu de volta, deixando a timidez de lado para cumprimentá-lo. Após terem um breve diálogo sobre como foi agradável ter Nicholas passando o fim de semana com os Martinez e como Leonard estava plenamente convidado a fazer o mesmo com os Thomas, Esther e Leo se despediram dos irmãos loiros, acenando à medida em que iam se afastando.
Nicholas entrou no elevador quieto e pensativo, suas engrenagens rodando sob o crânio. Foi o alvo da curiosidade massiva de Tony, que encarava-o como se quisesse ler o que o pequeno pensava, indagando-o sobre o fim de semana e recebendo apenas respostas evasivas e avoadas, como um ‘foi bacana’ quando o perguntou se havia tomado muito sorvete.
Nem ao menos se alterou quando entrou no apartamento, dando de cara com um Lucas sorridente, sentado à mesa decorada com guloseimas.
– Nick, que saudade! — Lucas logo foi puxando-o para um abraço apertado, sentando-o em seu colo. — Olha só o que eu comprei pra você — mostrou, meio paizão, puxando para perto deles alguns picolés de chocolate e pirulitos.
Nick permaneceu quieto, encarando os doces sem se alterar. Puxou o boné para baixo, retirando-o, fazendo seus fios loiros se bagunçarem. Torceu a aba do objeto, absorto em pensamentos.
– Eu tô com uma dúvida, Lu — admitiu, olhando pela primeira vez no dia para o rosto do míope.
– Uma dúvida? — Lucas franziu o cenho, olhando de esguelha para Antony, que caminhou bocejando até a pia, despejando um pouco de suco num copo limpo. — Se for algo relacionado a… Hm, sei lá, exatas, eu posso te responder sem problemas.
– Não é isso. — Nick ajeitou-se no colo do mais velho, olhando-o seriamente. — Se um menino quer se tornar uma menina, mas esse mesmo menino gosta de meninos, ele é um menino gay ou uma garota hétero? — Perguntou de supetão, despejando toda a informação que havia adquirido nesses dias na cara do míope, que ficou boquiaberto.
– Onde diabos você aprendeu isso?! — Antony exclamou, também pego de surpresa, colocando o copo parcialmente cheio sobre a pia, olhando com incredulidade para aquela criatura miúda, mais conhecida como seu irmão.
– A Esther nos deixou usar o computador dela — confessou sem problemas, não achando que aquilo tivesse sido errado.
– Você recém aprendeu a escrever seu próprio nome, Nicholas, como você acha que pode ter cabeça para pesquisar sobre um assunto desses? — O irmão mais velho com certeza estava preocupado, encarando com certo espanto o potencial destrutivo e curioso de seu irmãozinho.
– Ah, o.k., vamos nos acalmar aqui — Lucas interviu numa possível discussão, ajeitando Nicholas em seu colo, fazendo-o voltar a encará-lo. — Quando você fala sobre garotos que querem ‘se tornar’ garotas, você se refere ao Leo, certo? — Quando Nick anuiu, Lucas continuou. — Pois bem, Nick, eu vou te explicar uma coisa.
Lucas passou um braço por detrás das costas de Nicholas, empurrando para o fundo da mesa muitos doces, exceto um picolé e um pirulito.
– Vamos imaginar uma coisa, Nick. O mundo onde nós vivemos hoje em dia é dividido em duas partes. Uma parte é dos picolés — e abriu a embalagem do doce álgido, colocando-o ao lado de seu embrulho. — E a outra é dos pirulitos — complementou, também retirando o doce de sua embalagem. — Existem, no geral, esses dois tipos de seres convivendo pacificamente entre si. Eu, você e o Antony somos picolés — identificou-os, apontando para o doce gelado. — Sua mamãe, a Esther e sua professora são pirulitos — e apontou para o doce vermelho ao lado. — Nós estamos satisfeitos com nossas embalagens, porque, de fato, nos identificamos como ‘picolés’ e ‘pirulitos’. A forma como nos comportamos em relação a nossas embalagens, nada tem a ver com o tipo de sentimento que nutrimos por outros doces. Por exemplo, o Antony é um picolé que gosta de outros picolés, entende?
“Já o Leo, Nick… — Lucas suspirou, pegando o pirulito e o mostrando ao garoto. — O Leo é um pirulito na embalagem errada. — Explicou com simplicidade, enfiando pelo palito o doce vermelho dentro da embalagem grande dos picolés. — Ele está aprisionado dentro de uma embalagem distinta. Esses tipos de doces são chamados de transsexuais, Nick. Porém, a transsexualidade dele não define a qual tipo de doce ele vai gostar. Ele é um pirulito que gosta de picolés, independentemente de sua embalagem.”
Nicholas ficou quieto por um instante, pensando em toda aquela informação que havia digerido. Tudo fazia sentido agora. Sorriu para Lucas, abraçando-o bem apertado.
– Agora eu compreendi! O Leo só é pirulito que ninguém entende, mas eu o entendo agora, Lucas! Obrigado pela explicação! — E, antes de Lucas dizer alguma coisa, completou, afoito: — m-mas, e se ele gostar tanto de picolés, quanto de pirulitos? — Indagou, pegando o picolé de chocolate e lhe dando uma mordida, encarando com aflição o rosto pálido de Lucas.
– Não há problema nenhum, Nick. Todos os doces do mundo são livres para gostarem de quem bem entenderem. — Riu, feliz ao vê-lo também pegar o pirulito, enfiando-o na boca, como se estivesse com uma terrível fome de glicose.
– Ainda bem, Lu! Porque eu gosto muito dos dois, então escolher um seria terrível — conversou, deslizando do colo do contador e encaminhando-se calmamente até o seu quarto.
Lucas olhou para Antony abobalhado pela esperteza de Nicholas, impressionando-se com a facilidade que ele tinha para compreender assuntos complexos para sua idade. Mas Tony também estava abobalhado, mas por outros motivos.
– Ele é uma criança incrível, Tony — Lucas começou, levantando-se e pronto para iniciar um monólogo de o quão espetacular era a criação de Nick, e de como ele iria se tornar uma pessoa maravilhosa no futuro, quando Tony, repentinamente, aproximou-se dele, agarrando-o num abraço apertado que o fez sufocar por alguns segundos.
– Você que é incrível, Lucas. — Elogiou-o sinceramente, desapertando-o apenas para encará-lo. — E você notou que ele meio que se assumiu bissexual? — Voou no assunto, confuso de repente. — Será que o Leo o influ-
Antes de terminar seu discurso inocente, porém um pouquinho preconceituoso, Lucas calou-o ao pressionar seu indicador nos lábios do surfista, sorrindo.
– O Kale é bissexual e nem por isso eu gosto de garotas. — Quebrou seus argumentos sem fundamento, rindo. — O Leo não tem culpa de nada. Ele é o injustiçado. Com certeza ele se sente perdido, confuso, talvez até mesmo ilegítimo. Ter um amigo como o Nick provavelmente está sendo como o céu para ele.
Tony arqueou uma sobrancelha, pensando no assunto.
– Será que há uma possibilidade remota do Leo se apaixonar por ele? — Pensou no assunto, sabendo que às vezes, quando uma pessoa não tem ninguém, acaba criando laços fortes demais com o primeiro que a aceita do jeito que é.
Lucas deu de ombros, indiferente e meio desacreditado.
– Não dá para saber, mas os dois são apenas crianças, Tony. Se um se apaixonar pelo outro, muito provavelmente só saberão na adolescência. — Ponderou, um pouco pensativo. — Eles não têm malícia nenhuma nessa idade — deu de ombros, erguendo as sobrancelhas quando Antony riu. — O que foi?
– Nada, só estava pensando que, caso o Leo dissesse que está apaixonado pelo Nick, ele provavelmente diria ‘tudo bem, isso não é problema meu’ — e desatou a rir, divertindo-se ao imaginar as possíveis reações de seu irmão.
Lucas apenas deu de ombros, não conseguindo achar aquilo tudo muito engraçado. Voltou a se sentar, olhando para todos aqueles doces, alguns provavelmente já derretidos.
Pensou em Leonard àquela tarde inteira, pensando como uma criatura tão adorável quanto aquela poderia ser tão brusca e miseravelmente maltratada.
O mundo às vezes era um lugar extremamente injusto.
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