De Coração
16 É Estranho, mas Fique Comigo
Notas iniciais
Kai nunca sentiu uma enxaqueca tão forte em toda a sua vida. Sentia seu cérebro implorando por rendição, erguendo uma bandeira branca em busca de paz. Seu córtex parecia estar explodindo, com uma força absurdamente forte martelando em sua testa.
Chegou em casa, tomou um remédio para dor de cabeça, tirou suas roupas e se jogou apenas de cueca na cama, de bruços, a cara enfiada no travesseiro. Era coisa demais a se pensar de uma vez só, inundando seus pensamentos como ondas grotescas batendo nos cantos obscuros de seu subconsciente. E, para completar o pacote, o vizinho de cima estava fazendo uma festa infantil com mais de vinte crianças, todas elas pirralhas e choradeiras, gritando como cabras e quebrando coisas.
Martirizou-se por possuir uma audição tão boa.
Kai inspirou fundo, temendo pensar demais naquele momento e sua cabeça desistir da vida, desgrudando de seu corpo e voando para longe, invadindo pela janela a festa infantil e horrorizando todas as crianças.
Precisava botar seus pensamentos em ordem, porque, se continuasse naquela confusão, provavelmente mal conseguiria dormir à noite.
Sentou-se, coçando a cabeça, tentando concentrar-se em ajeitar aquela sinfonia desastrosa que ecoava em sua cabeça. Inspirou fundo, tentando se acalmar, pensando nos fatos ocorridos há algumas horas.
a) Reencontrou Allison, a garota na qual estraçalhou seu coração ao mantê-lo numa relação completamente não-correspondida. Obviamente ela não era obrigada a gostar dele em retorno, Kai sabia disso. Mas havia tantos motivos para ela negá-lo, e ela logo escolheu o fator cegueira. Na realidade, o único e exclusivo motivo para ela rejeitá-lo era porque ele simplesmente era Ela não o achava feio, nem burro e nem inconveniente. Ela o achava imperfeito. Aparentemente, olhos eram cruciais num relacionamento;
b) Allison voltou a conversar com ele como se nada tivesse acontecido, não deixando de tentar dar em cima de Kale;
c) numa sequência neurótica, Kale admitiu, no banheiro da lanchonete, que ‘eles’ tinham uma coisa forte, coisa na qual ele nunca havia sentido antes por ninguém. As palavras-chave o perturbavam profundamente;
d) Kale havia dado uma espécie de ‘esporro’ em Allison. O surfista não havia conversado cinco segundos com a garota e já alegava que a odiava profundamente, o que levava a pensar que era por sua
Suspirou, pensando no que diabos estava acontecendo. No fim, desistiu de pensar sobre. Precisava lidar com outros assuntos, como a mensagem de Alex, que havia ignorado por algumas horas.
Alex era um antigo amigo seu que havia conhecido em um centro para deficientes físicos, cegos, surdos e mudos do outro lado de Diamond Head, o vulcão extinto na orla da praia. Era um pouquinho distante, mas de carro demorava de quinze a vinte e cinco minutos.
Ligou seu celular, apertando para que a voz robótica lesse as mensagens — Alex não era de mandar mensagens de voz, até porque ele era mudo, mesmo.
“Oi, sumido.”
“Há quanto tempo a gente não se vê?”
“Três meses?”
Kai riu, seu humor negro florescendo à medida em que ia digitando.
“Eu não sei você, mas eu não te vejo há mais tempo que isso, hahahaha” gracejou, rindo, malévolo. Alex, como todos a sua volta, odiava aquelas piadinhas de mau gosto.
“Engraçadinho”
“É sério agora, Kai. O D perguntou de você esses dias.”
“A gnt tava preocupado, porque geralmente costumávamos conversar tanto, e agora vc nunca tá online.”
Kai suspirou, ouvindo aquelas mensagens com certo pesar. Alex estava certo. Desde a chegada de Kale, nunca mais teve tempo para os seus outros colegas, já que o surfista lhe roubava todo o tempo. Não que não fora divertido, muito pelo contrário; Kale o tratava como uma pessoa perfeita, sem limites. Não saía com ele por obrigação social e não tinha vergonha. Era ótimo estar com o surfista, mas apenas ao pensar nele, seu cérebro voltou a latejar.
Kale era como um alfinete enfiado no cérebro. É indolor, já que o nosso cérebro não possui neurônios sensitivos, mas, com o tempo, começa a incomodar.
“Me desculpa, Alex, mal vi o tempo passar” brincou novamente, não cansando-se daquilo e até mesmo achando-se genial por ter aquelas sacadas.
“Vc é mto besta, Kai.”
“Mas, sério, o que tá acontecendo? Problemas na família?”
Será que, caso contasse a Alex o que estava acontecendo, ele acharia muito estranho? Não tinha coragem para contar a Luana e muito menos a Manu, já que tinha medo de receber a notícia que Kale fora morto a facadas.
“Não. Eu conheci uma pessoa.”
“Ela meio q chegou de fininho e roubou meu tempo. a gente sai mto junto e eu fico mto tempo com ela, já q ela me entende e me aceita do jeito q eu sou. eu meio que me esqueci q eu tenho outros amigos também. me dsclp.”
Depois de cinco segundos embaraçosos, Alex respondeu com uma lua maliciosa, na qual a voz robótica fez questão de detalhá-la municiosamente.
“Opa, vc conheceu uma garota?”
“Não, é um cara, mesmo.” Kai respondeu, sentindo-se momentaneamente patético, pois acabou descrevendo Kale de uma forma meio romântica. Dez vergonhosos segundos se passaram antes que Alex o respondesse.
“Calma, desde quando vc gosta de garotos?”
Kai riu com aquilo, achando-o idiota por pensar aquilo dele.
“Desde nunca, Alex. A gnt só é amigo” se pôs a explicar, deitando-se e esticando as pernas, sentindo a brisa suave e quente entrando em seu quarto.
Foi quando Alex teve uma crise de indagações. Não esperava Kai para respondê-lo, simplesmente bombardeando-o com perguntas aleatórias.
“Qual o nome dele?”
“Ele é surfista?”
“Ele é de Honolulu?”
“Se ele é surfista, ele tá participando dessa competição que tá rolando aí?”
“Há quanto tempo vcs se conhecem?”
Franziu o cenho, assustado com a quantidade de perguntas. Relaxou os ombros, esperando pacientemente a crise de Alex passar. O garoto sempre fora assim. Um metro e cinquenta e seis de pura curiosidade. Caso ele pudesse falar, seria o maior fofoqueiro do Havaí. Xereta, com pais ricos e extremamente simpático, Alex foi o primeiro amigo deficiente que Kai já teve.
– O nome dele é Kale — decidiu enviar uma mensagem de voz, cansado de escrever. — E, sim, Alex, ele é surfista e tá em primeiro lugar nessa competição aí. Ele é de Big Island, e a gente se conhece há um tempinho — divagou, perdido no tempo.
“AH! Eu sei quem é! É o carinha que participou só de cueca, né?”
“HAHAHAH ele apareceu no noticiário sexta passada”
“Enfim”
“Vc tá livre terça? Eu tava pensando se vc não quer ir no centro para encontrar o Dé e eu”.
Era impressionante como ele conseguia mudar de assunto tão rapidamente. Digitou um “pode ser”, vago, pensando se de fato queria reencontrá-los. O ‘Dé’ do assunto era o Derek, um garoto surdo do centro. Havia muitos boatos que diziam que ele já tinha namorado metade da população de Honolulu e que carregava uma personalidade áspera, mas Kai não conseguia entender, já que com ele e Alex, Derek era uma pessoa extremamente amigável.
Despediu-se de Alex brevemente, alegando que iria cochilar um pouco. E, de fato, revirou-se na cama, tentando encontrar uma posição agradável que o embalasse no sono, protegendo-o de pensamentos que faziam seu cérebro querer explodir.
Apertou o rosto contra o travesseiro, pressionando seus olhos com força, quase como se forçasse a si mesmo a dormir. Queria esquecer, relaxar, não se concentrar no tópico Kale. Kai nunca se sentiu tão perdido na vida. Recentemente, tudo o que estava acontecendo de novo em sua vida, era por conta do surfista.
Passava tanto tempo com ele que nem se lembrava de como era sua vida antes de conhecê-lo. Era monótono, repetitivo e chato. Mas bastou ele chegar para, boom, todos os dias se tornarem surpreendentes. Até a forma como ele chegou havia sido inusitada e alarmante.
Kale era um intrometido, enfiando-se em sua vida sem permissão, mudando tudo de repente. E, sim, foi tudo de repente. Uma hora estava contando os dias para o fim do ano chegar, em outra estava feliz por simplesmente estar vivo. Simplesmente acordar e ter noção de que Kale iria fazê-lo rir lhe dava uma sensação estranha no estômago, mas estava tão habituado àquilo que esqueceu-se da estranheza por algum tempo.
Adormeceu com a cara enfiada no travesseiro, seus pensamentos perturbados única e exclusivamente pelo surfista, que não lhe dava paz nem em seus sonhos.
***
Troye Owen sempre foi perito em apenas uma coisa em sua vida: desenhos.
Com a mão esguia e ossuda, sempre soube manejar um lápis para sombrear um desenho perfeitamente; suas paisagens eram dignas de comentários como ‘isso é um desenho ou uma fotografia?’. Seus rostos eram expressivos, cheios de vida, geralmente representando angústia, muitas vezes felicidade excessiva.
Sempre desenhava de fone. Era quase uma regra, uma lei que jamais era descumprida. Geralmente utilizava o headset com som estéreo de Brandon, o volume no máximo, teletransportando-o para um universo particular, inalcançável.
As músicas quase nunca variavam. Era Radiohead, Nirvana ou Oasis. Sabia todas as músicas de cor, cantando-as de trás para frente, do refrão a diante, voltando do início e até mesmo com os versos trocados.
– O que você está desenhando? — Brandon brotou atrás de si, sua sombra enorme tampando a luminosidade do papel. Troye pulou na cadeira com o susto, tirando um lado do fone e encarando com os olhos esbugalhados o rosto inexpressivo de seu amigo.
– Cê quer me matar de susto, filho da puta? — Grunhiu, realmente assustado, colocando o headset no pescoço, voltando a prestar atenção em seu desenho.
– Foi mal — Brand riu, os cabelos repicados respingando por conta do banho fresco. Uma toalha estava sobre seus ombros, impedindo que as gotículas escorressem por seu tórax desnudo.
Troye deu de ombros, ouvindo a música mesmo que não estivesse usando os fones, já que o volume estourava no máximo.
– Tô desenhando um negócio para a Lindsey… — Explicou, rindo ao enfatizar bem os olhos de um gato sob a janela. — Eu acho que só neste desenho tem uns trinta gatos — disse sem exageros, prestando atenção em todos aqueles bichanos distintos que havia desenhado há algumas horas.
– Ah, é o aniversário dela semana que vem, né? — Brand indagou, procurando uma camiseta dentro do seu guarda-roupa.
– Yep – Troye respondeu, usando vários tons de verde para colorir os olhos daquele felino. — Ow, tem certeza que tem água na sua casa? — Perguntou de repente, virando-se na cadeira giratória, deparando-se com o olhar sério de Brandon. — Na minha não tem há, sei lá, seis dias.
– Há quanto tempo cê não paga a conta?
– Há provavelmente umas duas semanas — Troye riu, dando de ombros. — Porra, tô sem grana, mano. E ninguém trabalha naquela porra. A Lindsey ainda é de menor, o Trent só quer saber de dormir e eu nem tenho chances de ganhar aquele caralho por conta daqueles bichinhas e daquela sapatão miserável — resmungou, dizendo tudo com muito ódio, as pernas branquelas dobradas sobre a cadeira. — Então, sei lá, cara, me empresta seu chuveiro por uns três minutos? Não demoro porra nenhuma no banho.
– Claro — Brandon respondeu-o de forma direta e até mesmo um pouco grossa, vendo-o sorrir como agradecimento e levantar-se com um bocejo, encaminhando-se para o banheiro sem perguntar muito. Brand se levantou, parando no batente da porta ao ouvir o chuveiro ligando. — Troye — chamou-o não tão alto, já que o banheiro ficava num cômodo ao lado.
– Que é?
– Você não poderia falar com o seu pai sobre sua situação financeira? — Brandon estava pisando num terreno perigoso, sabia disso. Já que conhecia Troye como a palma de sua mão, sabia que ele muito provavelmente o mandaria para um local agradável e o mandaria não tocar naquele assunto novamente.
– E você não poderia ir tomar no cu, Brandon? — A voz ranzinza e áspera do outro inundou o corredor. — Eu já disse para você nunca se referir àquela porra daquela bicha como o meu pai. E, pelo amor de Deus, nunca mais me dê ideias estúpidas. Obrigado — encerrou o assunto de forma sarcástica, fazendo Brand sorrir.
A única pessoa que conseguia fazê-lo sorrir era Troye — mesmo que fosse terrivelmente doloroso. Ter aquele garoto morando em sua casa era como desistir de sua própria identidade para apenas ficar ao lado dele, ouvindo calado os comentários e as piadinhas homofóbicas, tentando esconder até de si mesmo sua real personalidade.
Ninguém fazia ideia do inferno que era ser apaixonado por Troye Owen e não poder fazer nada a respeito.
***
Kai acordou com alguém batendo à porta. Resmungou, ainda sonolento, remexendo-se na cama, querendo tudo, exceto se levantar para atender. Esticou a mão em direção ao seu despertador adaptado, sentindo os números saltados em braile e o ponteiro. Mal eram seis horas, então não eram seus pais que haviam esquecido a chave.
Também não podia ser Manu nem Luana, já que eles sempre lhe avisavam antes de visitá-lo, e em seu celular não havia notificação alguma. Também achava improvável ser Kale, já que ele não era cara de pau a este ponto, certo?
Levantou-se a contragosto, gritando um ‘já vai!’ enquanto procurava algo para vestir. Botou uma bermuda de algodão que geralmente usava quando estava um pouquinho mais frio, tropeçando na cômoda e xingando enquanto andava meio zonzo de sono pelo corredor, coçando a cabeça, a bochecha direita amassada.
Bocejou enquanto destrancava a porta, parando um segundo antes de abri-la.
– Bom, como o olho mágico é meio inútil para mim, você poderia se identificar, por favor? — Pediu, balançando a cabeça para se livrar do sono.
– É o Kale — o surfista inspirou fundo, apoiando a testa na porta minimamente aberta, receoso de ter se apresentado, temendo à reação de Kai.
A maçaneta tremulou na mão do garoto. Sim, Kale era cara de pau o suficiente. Na realidade, ele era cara de pau o suficiente para fazer qualquer coisa, inclusive visitá-lo numa hora tecnicamente crítica daquelas. Pensou duas vezes, realmente identificando-o como Kale Iwin, tanto pelo seu timbre de voz, tanto quanto por sua coragem besta de tão absurda.
Kale suspirou, sentindo a hesitação palpável de Kai.
– Desculpa te fazer se sentir tão mal a ponto de hesitar em abrir a porta pra mim. Eu não queria mesmo atrapalhá-lo, posso voltar mais tarde — alegou, mordendo os lábios e afastando-se alguns passos, pronto para ir embora e voltar quando Kai estivesse se sentindo mais à vontade.
– Ah, não, espera! — Kai arreganhou a porta, de repente assustado com a ideia de deixá-lo ir embora sem mais nem menos. — É que foi meio de repente, sabe? Aliás, como você conseguiu subir? — Perguntou, coçando atrás da orelha, a cabeça ainda em chamas.
– O porteiro me conhece pelas vezes que eu te trouxe em casa — Kale respondeu, sincero, voltando e encarando-o. — Ele disse que tudo bem se eu subisse.
– E c-como você sabe o número do meu apartamento? — Perguntou meio hesitante, temendo a resposta.
– A Luana me disse — respondeu diretamente, preferindo não fazer piadinhas daquela vez. Não estava no clima de fazer piadinhas, o que era extremamente raro.
– Ah, o.k., claro — Kai notou. O tom de voz de Kale estava claramente mudado, até mesmo inexpressivo. Era a primeira vez que o ouvia daquela forma. Não sabia exatamente o porquê, mas sentiu um formigamento estranho na base do estômago. — Hã… Entra aí — convidou-o, dando dois passos para trás, sentindo quando o surfista passou por ele, fechando a porta em seguida.
Andou relutante até o seu quarto, aquela confusão de sentimentos bizarros apossando-se de sua existência, sentindo-se extremamente estranho. Ter Kale perto de si naquele momento era, por si só, estranho. Será que o surfista não se sentia nem um pouquinho incomodado com a situação? Ou será que interpretou tudo aquilo de forma errada?
Será que todo aquele constrangimento não passou de um mal entendido?
Sua enxaqueca voltou a atacar, desta vez por ele se sentir estúpido. Jogou-se de bruços em sua cama, afundando a cara no travesseiro e permanecendo estático, podendo ouvir os passos de Kale pelo corredor.
– Tua casa é bonita — elogiou de forma vaga, vendo o garoto jogado na cama, a cabeleira bagunçada e as costas marcadas. — Gostei particularmente daquela foto sua em cima da estante de quando era bebê, na banheira — disse de forma monótona, vendo as costas de Kai tremularem por conta de sua risada.
O garoto sentou-se de repente, ainda rindo, encolhendo as pernas e apontando com a cabeça para a cama.
– Senta aí — ofereceu, abraçando os joelhos e encostando suas costas na parede gélida.
A cama vacilou com o peso de Kale, que, sentindo-se à vontade, também se encostou na parede, olhando para o corpo miúdo e encolhido do outro lado do colchão.
– A gente meio que precisa conversar, Kai — o surfista começou, coçando sua barba mal feita, não desgrudando seus olhos do garoto, com medo de perder alguma reação. — Tipo, sobre hoje cedo…
Kai sentiu o formigamento atacar de novo, mas anuiu, querendo resolver aquele mal entendido.
– Ah, tá bom. O que você quer falar?
Kale inspirou fundo, encarando um ponto vago no quarto. Existia muita coisa que precisava falar, mas se dissesse todas elas, provavelmente iria enlouquecer a si mesmo e a Kai. Mordeu os lábios, tentando reprimir aquele desejo de despejar tudo, sentindo o ventinho já mais gélido da tarde invadindo o quarto pela janela.
– Hã… Tem uma coisa que eu não consigo parar de pensar. Eu sei que não é da minha conta e nem nada, mas você ainda gosta daquela garota, não é? — Indagou com as pálpebras meio fechadas, como se estivesse numa briga inteira: ao mesmo tempo em que desejava receber uma resposta negativa, sabia que, caso não ocorresse, iria sair sangrando, por isso tentou não criar expectativas demais.
Mas foi pego de surpresa pela risada quase sarcástica de Kai, como se o que ouvia fosse um absurdo sem limites.
– O quê?! Claro que não! De onde você tirou isso? — Devolveu a pergunta, ainda rindo.
– Não minta pra mim, Kai. Eu percebi como você reagiu quando a viu, meio felizinho — resmungou, tentando não expressar repúdio demais ao pensar na cara daquela vagabundazinha.
O sorriso de Kai somente alargou a ponto do seu segundo-molar tornar-se visível.
– Bom, se eu visse qualquer um, provavelmente ficaria ‘meio’ felizinho, mesmo — gracejou, podendo ouvir o ‘puta que pariu, eu sou muito idiota, mesmo’ característico de Kale.
– Vamos fingir que eu não falei merda e que você me entendeu claramente — Kale cortou o assunto, abanando os braços, como se tentasse burlar aquele acontecido da mente de ambos.
– Eu não gosto dela, e não fiquei feliz ao reencontrá-la, Kale — o garoto lhe respondeu de forma direta, abraçando-se mais aos joelhos. — Eu só fiquei um pouco chocado por ela aparecer do nada depois de tanto tempo com a maior cara de pau e conversar comigo como se nada tivesse acontecido, sabe? — Foi sincero no que dizia, meio sentido por estar tocando naquele assunto outra vez. — E eu meio que reparei que ela deu em cima de você. Aliás, por que você deu um fora nela? Sempre me disseram que ela é muito bonita — a curiosidade se sobrepôs aos resquícios de dor que guardava num cantinho minúsculo do coração.
Kale riu nasalado, balançando a cabeça negativamente, completamente satisfeito com a resposta que recebera.
– Ela é uma tábua desqualificada, isso sim — murmurou para si mesmo, quase como se tivesse vontade de teletransportá-la para aquele apartamento e bater em sua cara azeda. Foi então que Kale lembrou-se de uma das primeiras conversas que tivera com Kai. Lembrou-se que ele odiava fatos omitidos e mentiras, por isso inspirou profundamente, pronto para se esquecer do lado racional e fazer a coisa na qual era profissional: agir por impulso. — Eu ‘dei um fora’ nela porque eu meio que não tô me interessando por garotas no momento, Kai. Desculpa estar te falando isso tão tarde, mas eu sou bissexual. — Jogou mesmo a informação na cara dele, pensando que Lucas iria lhe retirar o fígado por ter o assustado, caso lhe contasse o ocorrido.
Mas não dava para evitar.
Não poderia e não conseguiria manter qualquer tipo de relação com Kai se continuasse na surdina, escondendo alguma parte de si. Gostaria de ser o mais aberto possível com ele, não mantendo segredo algum. E tudo isso porque, sim, admitia com todo o fervor: gostava dele. Gostava de Kai mais do que gostava de si mesmo, se isso era possível. Não conseguia mais guardar para si só todo aquele sentimento borbulhante que já estava dominando-o, alcançando cada pedacinho de seu ser, enviando mensagens para o seu cérebro apenas com a voz dele, o rosto dele, e, talvez, com o cheiro que o cabelo dele tinha.
O seu interior já não mais lhe pertencia completamente. Metade era Kale, metade era Kai. Era um sentimento que ultrapassava as barreiras dos desejos da carne — obviamente existiam, mas eles não mais comandavam (talvez nunca tivessem reinado). Era uma afeição crua de más intenções, isenta de qualquer tipo de malefícios, com um objetivo único e exclusivo de tentar fazê-lo feliz.
Desde o início, ele sabia. A partir do momento em que apanhou sua bengala e lhe entregou, desde o momento em que olhou para o seu rosto plácido, ele soube.
Ele soube que sua vida nunca mais permaneceria naquela inércia de sempre, mesmo que tentasse retornar a ela.
Kale não era a pessoa mais inteligente do mundo. Também não era a mais madura, generosa, controlada, humilde ou discreta. Ele tinha defeitos capazes de fazê-lo perder inúmeros relacionamentos, sejam eles românticos ou não. Era impulsivo, ilógico, chato, insistente e extremamente dramático.
Mas havia uma única coisa nele que fazia com que todos os seus defeitos parecessem como pedacinhos minúsculos e inúteis de uma personalidade fragmentada. Kale possuía um coração grande demais para caber no peito. Quando amava alguém, amava tão intensamente que seria capaz de dar, sem dúvidas alguma, a sua própria vida. Tudo o que fazia, independente do que seja, era feita com carinho.
Tudo era feito de coração.
E já não restavam mais dúvidas: gostava de Kai tão intensamente que não se importava caso ele o negasse ou o enojasse ali mesmo; continuaria gostando dele e protegendo-o, mesmo que distante.
Já estava preparado psicologicamente para uma resposta áspera, mas tudo o que ouviu e viu foi um simples arquear de sobrancelhas, surpreso, e uma entonação mais nervosa, que disse, com algumas simples alterações:
– Bissexual, tipo… Você se sente atraído tanto por garotas, tanto por garotos? Poxa, isso é legal. Você, hm, t-tem mais opções, né? — A voz de Kai estava levemente vacilante, deixando explícito o impacto que aquilo causava nele.
Kai estava com o cérebro entrando em combustão. Podia sentir fumaça saindo de seus ouvidos, os neurônios fritos com tanta informação de uma vez. Pelo amor de Deus, ninguém estava poupando-o naquele dia! Acariciou o córtex, sentindo sua dor de cabeça voltar.
E só estava com o cérebro latejando (se é que isso era possível) porque o garoto botou-o para funcionar rápido demais:
a) tudo fazia sentido. Se Kale era bissexual e estava, segundo ele, menos interessado em garotas, fazia sentido que ele desse um esporro em Allison;
b) sua teoria acerca do esporro estava correta; Kale Iwin odiava Allison por causa dele;
c) se Kale estava mais interessado em garotos, então ele não havia compreendido aquela frase cheia de palavras-chave no banheiro de forma errada. Não fora um mal entendido. Havia uma remota possibilidade de Kale olhá-lo de forma romântica.
Era demais para um único dia.
Somente Kale conseguia fazê-lo sentir uma dor de cabeça daquelas. Talvez Kale fosse a dor de cabeça em si, e não o motivo. Sorriu, imaginando a existência de uma dor de cabeça diagnosticada, denominada Mal de Kale.
O surfista ergueu uma sobrancelha, curioso para saber o motivo daquele sorriso. Mas decidiu ignorá-lo no momento, concentrando-se na pergunta do mais novo.
– Exatamente. Na teoria, eu me sinto atraído por ambos. Mas é uma merda, Kai, acredite. Eu sofro preconceito dos dois lados. Sofro preconceito das garotas porque já namorei caras, e também sofro preconceito dos caras porque já namorei garotas. — Confessou, ajeitando-se melhor na cama, aproximando-se um pouquinho do garoto.
Kai riu, achando engraçado a forma como ele falava aquilo.
– Não se preocupe, eu também sofro preconceito dos dois lados — decidiu colocar seu humor em dia. — Sofro preconceito das garotas porque elas acham que eu vou errar e enfiar no lugar errado, e sofro preconceito dos caras porque eu tenho vaga exclusiva para deficiente.
A gargalhada do surfista pôde ser ouvida no edifício inteiro. A festa infantil no andar de cima pareceu murchar um pouquinho por conta daquela risada escandalosa, algumas crianças chorando, pensando que o carinha lá de baixo estava subindo para sequestrá-las.
– Meu Deus, Kale, já passou das seis, shhiiiu!– Kai tentou contê-lo, mas acabou por rir junto, contagiado por aquele timbre rouco rindo deliciosamente.
– Puta merda, Kai, você é a melhor pessoa da face da Terra! — Kale ainda tentava se recompor depois daquela, esticando suas mãos e apertando o rosto de Kai, bagunçando seu cabelo completamente. Os fios castanhos só não ficaram desordenados porque estavam curtos.
O garoto começou a rir, a cabeça meio abaixada, tentando botar no lugar todos os fios que o surfista havia tirado do lugar. Kale observou-o enquanto ajeitava o cabelo, umedecendo os lábios, sentindo-os extremamente secos. Era loucura, mas sentiu uma necessidade voraz de despejar o conteúdo que já transbordava dentro de si.
Levantou-se da cama para apenas se agachar na frente do mais novo, puxando suas pernas com cerca brusquidão, fazendo-o se assustar e apoiar ambas as mãos em seus ombros. Pôde ver de baixo sua expressão de surpresa e espanto.
– Desculpa, te assustei? — Murmurou, acariciando com o polegar sua panturrilha.
– Um pouco, sabe? É que eu não consigo prever esse tipo de abordagem — sorriu, desapoiando as mãos dos ombros de Kale, que eram, surpreendentemente falando, terrivelmente rijos e largos, para apoiá-las no colchão, ao lado de seu quadril.
– Kai, talvez o que eu fale para você agora mude um pouco nossa relação — começou, sendo o mais sincero que podia. — E, falando francamente, eu não vou me importar caso você ouça isso de forma negativa, sério. De qualquer forma, eu não espero uma resposta e nem um sentimento mútuo.
– Do que você tá falando? — Kai riu, não entendo bulhufas daquele papo maluco, mas sentindo uma fisgada bizarra nas entranhas.
Kale inspirou, procurando a coragem que lhe restava. Apertou as pernas finas de Kai, como se almejasse sugar um pouco de energia dele, também.
– Porra, como eu vou te falar isso? — E riu nervosamente, apertando os olhos, sentindo-se, acima de tudo, idiota. — Kai, eu meio que… — E sorriu, observando sua expressão perdida. — Eu meio que tô apaixonado por você. Há um tempinho, já, para falar a verdade.
O sistema neurológico de Kai decretou falência. Boquiaberto, mudo e com a cabeça latejando, a única coisa que conseguiu fazer perante àquilo foi balançar a cabeça, incrédulo.
– V-você tá brincando comigo? — Perguntou, recusando-se a acreditar.
Kale imaginou que ele reagiria daquela forma. Com a mão esquerda, envolveu um dos punhos de Kai, guiando-o até o seu peito, pressionando sua mão espalmada sobre o tórax.
– Você tá sentindo isso? Você acha que minhas frequências cardíacas estão de brincadeira? — Perguntou num sussurro, talvez com medo que aquelas palavras pudessem ser ouvidas por alguém além dele. — Eu gosto muito de você, garoto. Em todos os sentidos da palavra — à medida em que ia falando, ia sentindo seus dedos suados e o coração palpitando ainda mais. — Eu sei que você deve estar um pouco assustado agora, mas, acredita em mim, não precisa ficar… Eu-
– Não tô assustado — Kai cortou-o quase que imediatamente, a voz trêmula por conta da dubiedade difusa em sua mente e corpo. Aquele tipo de sentimento não era, nem de longe, assustador. Nem se Kale dissesse que era um antropofágico iria temê-lo, já que o surfista por si só lhe passava uma certeza que nem ele mesmo possuía. A sensação de ser o alvo da paixão de Kale Iwin era estranha. Lhe dava um formigamento intenso em cada cantinho de seu corpo, como se um choque gostoso o atingisse repentinamente.
Somente a ideia lhe atormentava. Não sabia como reagir ou como responder àquilo. Era a primeira vez que alguém se dizia apaixonado por ele, por isso não soube exatamente como pensar acerca. Continuariam amigos? Continuariam se falando normalmente, mesmo que Kai não o ‘enxergasse’ da mesma forma? Seria maduro o suficiente para aguentar a pressão?
– Tem certeza? — Kale voltou a indagar, erguendo uma sobrancelha. — Olha, Kai, eu só quero deixar bem claro que eu vou fazer o possível para que o que eu sinto por você não interfira na nossa amizade. — Explicou, apertando as mãozinhas pálidas do garoto. — Eu sei que a nossa relação vai mudar agora, o.k.? Podemos fingir que não, que tudo vai ser como antes, mas eu sei que não é assim. E tá tudo bem pra mim, para ser sincero.
Queria complementar com um: ‘não me importo em ser rejeitado, desde que você permaneça comigo, de qualquer forma, de qualquer jeito — somente… Fique’. Mas crispou os lábios, segurando-se para não parecer piegas demais e acabar afastando-o de vez.
– E-eu não sei, Kale… É estranho. – Kai admitiu, desvincilhando-se das mãos do surfista, esfregando o rosto com força. — É muito estranho. Há alguns dias a gente era só amigo, e aí…
– É, eu sei, desculpa, mas não é como se eu pudesse controlar isso, Kai. E, pelo amor de Deus, não pense que você é obrigado a alguma coisa — rapidamente, colocou aquele tópico, desesperando-se com a possibilidade de Kai achar que era, de fato, obrigado a algo. — Eu nunca me aproveitaria de você.
– S-sim, eu sei disso… — Murmurou, mordendo os lábios com certa angústia. — E-eu provavelmente vou ter que levar alguns dias para me acostumar com a ideia… E, sinceramente, talvez possa soar muito egoísta… E, caramba, é mesmo, porém, tudo isso pode ser muito estranho, mas eu não quero que você se afaste, Kale. — As palavras saíram difusas tamanha a confusão concentrada em um só corpo. Mas o surfista as compreendeu completamente, sorrindo.
– Isso nem por um instante se passou pela minha cabeça, Kai. — Disse, muito calmo. Decidiu se levantar com certo esforço, os joelhos estralando por conta da quantidade de tempo em que ficara agachado. — Então, hm… Acho que já vou indo, Kai.
– O.k., tudo bem… — Respondeu-o, avulso. Foi então que, de repente, teve uma ideia relâmpago, fazendo-o praticamente engasgar. Ouviu quando a porta de seu apartamento fora aberta. — Espera, Kale! — Gritou-o, descendo da cama às pressas, correndo pela casa como um louco.
– O que foi?! Um inseto voador e potencialmente perigoso entrou no quarto?! — Incrivelmente falando, ele estava sério sobre aquilo.
– Claro que não, seu besta — Kai sorriu, não sabendo ao certo se estava encarando-o. — Eu só estava me perguntando se você tem alguma coisa para fazer nesta terça-feira.
– Eu sou surfista, eu nunca tenho o que fazer — gracejou com um forte fundo de verdade, apoiando-se ao batente. — Por quê?
– Bom, é que terça-feira eu marquei com um amigo meu de nos reencontrarmos na escola aonde estudamos. É um centro para deficientes do outro lado de Diamond Head, perto da praia de Wakiki, na Avenida Leahi — explicou a localização do local, não sabendo ao certo se Kale já sabia o básico de Honolulu.
Kale espremeu os olhos, produzindo um sonoro ‘hmm’ de dúvida, como se forçasse seu cérebro a lembrar-se daquela avenida.
– Não faço a mínima ideia de onde é. — Admitiu, coçando sua pseudo-barba.
– É do lado do zoológico de Honolulu. — Kai deu mais uma referência, inocente ao que a palavra ‘zoológico’ causava em Kale.
O surfista travou, encarando-o com os olhos arregalados.
– Espera… Zoológico? — Repetiu como se a palavra tivesse virado mel em sua boca.
Kai piscou, anuindo mais uma vez, começando a achar toda a situação bem estranha.
– Pelo amor de Deus, eu com certeza vou, mas apenas se formos no zoológico depois! — A animação dele sugeria o desaparecimento de um Kale de dezenove e o aparecimento de um garotinho de dez anos. — Por favor, Kai, eu nunca te pedi nada! Cê sabia que deficientes não pagam, né? E, aliás, tem um programa especial para cegos onde vocês podem tocar os animais! Por favor, vamos, vamos! — Kale segurou o garoto pelos ombros, lhe dando leves chacoalhos, completamente eufórico com a ideia.
Kai estava perdido, novamente. Permaneceu com uma cara de ‘o que está acontecendo?’ enquanto era alvo do entusiasmo de Kale, que o bombardeava com curiosidades acerca do zoológico.
– Hã… Claro que podemos ir, Kale — preferiu concordar, surpreendendo-se quando o surfista lhe puxou para um abraço forte e bem apertado, roubando-lhe todo o ar. Permaneceu inerte e meio zonzo, sentindo o aroma gostoso que ele exalava, proeminente dos cabelos repicados. Kale mantinha os punhos fechados em sua região lombar desnuda, marcando sua pele pálida.
– Tá bom, então! Ah, e faça o favor de convidar os seus amigos também, o.k.? Eu prometo que vai ser muito divertido — garantiu, soltando-o, não notando que o deixara zonzo por alguns instantes. — Amanhã a gente se fala, Kai! — Se despediu com a animação habitual dobrada, mal notando o estado petrificado do outro.
Fechou a porta com delicadeza ao sair, não querendo causar mais barulho do que já havia causado.
Kai inspirou fundo, o corpo inteiro arrepiado por um motivo inexistente ou simplesmente inexplicável — não que um seja sinônimo do outro. Caminhou quase roboticamente para o seu quarto, fechando a janela, deixando apenas o vidro aberto para refrescar o cômodo.
Jogou-se de costas em sua cama, ficando quieto na plenitude do silêncio. Podia ouvir uma mosca se chocando contra a lâmpada do poste de luz ao lado da janela de seu quarto, muito insistente, o som irritante de suas asinhas minúsculas o tirando do sério. Virou o rosto no colchão, dando preferência à falação no andar superior. O ‘parabéns’ iria ser realizado às sete e vinte, segundo uma mulher.
Inspirou de novo, podendo sentir o cheiro de Kale por todos os cantos.
Era ridículo como ele cheirava bem.
Mas, se era tão ridículo, por que sentia seu peito aos saltos? Acariciou seu tórax, podendo se sentir repentinamente quente. Tocou seu pescoço, os dedos cálidos pela temperatura alta de seu corpo. Sim, a ficha ainda não havia caído.
Kale estava apaixonado por ele.
Justamente por ele. Por mais ninguém, somente ele.
Sentou-se num lapso, os joelhos trêmulos, o coração aos saltos e pele queimando sobre os órgãos. Podia sentir um suor gélido escorrer por entre seu couro cabeludo, quase como se tivesse com a pior das febres.
Tudo aquilo era ridículo demais para conseguir compreender. Mas, com alguns segundos de consciência duvidosa, entendeu que aquele tipo de ridículo o afetava como nenhum tipo de sentimento jamais o afetou.
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