De Braços Abertos Eu Consegui Voar
1 Capítulo Único: Até quando podemos viver?
Notas iniciais
Críticas são sempre bem vindas.
Meu mundo definitivamente não era colorido.Tudo parecia ser apenas preto e branco; apenas lágrimas. Ser triste faz parte da natureza humana, mas quando esta tristeza te corrompe diariamente, aí não é tão normal assim.
Eu era, no mínimo, uma criatura diferente: não tinha amigos, quer dizer, tinha pessoas que só queriam saber da minha vida, mas não para ajudá-la. Era uma pessoa totalmente deprimida e possuía uma carência que nem Deus conseguiria suprir com todo o seu amor.
Eu era um menino, quer dizer, aparentava ser. Na verdade, eu era um garoto de dezesseis anos.
Minha família era uma típica religiosa e se você não acreditasse em Deus, estaria no inferno; Eu estava literalmente no inferno.
No começo da minha infância, quando comecei a perceber no que de fato me chamava atenção, percebi que em sua grande maioria, se não exclusiva, via-me apenas atraído por meninos. Era estranho, já que fui ensinado que normalmente, os meninos amam as meninas e tudo mais. Eu definitivamente não seguia este padrão.
Cresci sabendo do que eu era e gostava: meninos. Me apaixonei diversas vezes, mas nunca, nunca tive coragem de se quer colocar um pé para frente da situação e demonstrar meu afeto. Mas, convenhamos, eu morreria logo em seguida, já que os rapazes, eram todos héteros!
Eu poderia ter sido uma criança feliz, um pré adolescente bem alegre e um adolescente curtição; mas não. Não, porque eu simplesmente não era compreendido por ninguém, nem mesmo por mim. Reprimia minhas paixões e meus desejos e sempre, sempre ouvia meus familiares falando de algum " gay", de como ele era promíscuo e de como ele queimaria no inferno. Pois é, eu já estava queimado no inferno.
Era uma pressão enorme em cima de mim, todos me excluíam, zombavam e certo dia, minha mãe vendo meus comportamentos diferenciados, me levou a uma igreja para que pudessem tirar o diabo de mim.
Minha história pode ser monótona para você, já que não passou pelo que passei.
Aqui, debaixo da terra, ainda recordo de todos os passeis que dei até finalmente chegar aqui, em meu próprio mundo, enterrado em meu próprio eu.
Os dias que passei pela chamada Humanidade ( que de humanos não tem absolutamente nada), percebi que os diferentes não são normais e que sim, são feios, ridículos e queimarão no inferno. Eu era um anormal então, posso falar com convicção. Gostar de rapazes pode ser tipo, nada, mas para mim, naquela altura da adolescência, da minha vida, do meu próprio reconhecimento enquanto humano, era Tudo: completamente tudo.
Então, para tentar viver e amenizar minhas dores d'alma, vive exclusivamente em um mundo só meu, onde meus desejos são realidades e os encantos de criança sempre foram realidade.
Fugia da minha realidade assim, brincando de faz de conta e tentando andar... passar pelos dias...
Eu estava morrendo...
Finalmente, quando completei dezessete anos, minhas dores já penetravam profundamente a carne do meu corpo e sem aguentar mais, falei para minha mãe quem eu era: de como agia, de como pensava e mais ainda, do que gostava.
- Não, eu não acredito nisso — ela dizia. Não sabia se chorava ou se me batia.
- Não!Não! Eu criei você para Deus, apenas para o Senhor — ela dizia me puxando pelos braços e instante seguindo, me socando o rosto.
Claro que doeu. Naquela altura, eu já não sentia mais nada.
Tudo virou um inferno: minha vida, meu eu, meu ar, tudo. Ser gay era abominante. Não conseguia mais se quer respirar, nem muito menos viver. Meus dias não ficaram preto e branco, ficaram ainda mais escuro sem branco algum, apenas escuridão... e lágrimas...
Estava no ápice da vida e então, sem esperar nem pensar, fui para um dos prédios que eu mais gostava; era fascinante olhá-lo de baixo e imagine só, lá de cima. Era um arranha céu grande, gigante, graças a Deus, pensei por um segundo, estava abandonado. Não tinha medo, nem receio, só queria voar...
O elevador estava quebrado, então, vagarosamente, subi os degrau lentamente. Cada passo, uma cena da minha vida repercutia em minha vida. As lágrimas desciam fervorosamente pelo meu rosto indo em direção ao chão, e em seguida, deixando marcas de que alguém, algum ser, estivera ali.
Subi mais um, outro, outro e me vi perdido na vastidão dos meus próprios pensamentos. Até que quando senti o vento acariciar-me, vi-me abraçado pelo Universo. Estava livre, ou pelo menos, queria ficar livre.
Já era noite e as estrelas cintilavam claramente ao longe. As nuvens estavam mais escuras que o habitual e a lua, tinha um semblante perdido. Caminhei para uma das pontas do prédio. Lá em cima, a ventana fazia-me esquecer de tudo, e lá em baixo, as pessoas pareciam me obedecer de tão pequenas que eram. Abri os braços e caminhei lentamente para uma das extremidades do prédio. O vento era gostoso e por um segundo, imaginei-me com belas asas que nem um anjo. Então, sem pensar eu voei... Tudo em mim parou, e percebi o quanto o ser humano é frágil e acéfalo.
Não me arrependi do voo, mas me arrependi por não ter vivido.
Estar morrendo não é o mesmo que estar morto, assim como estar vivo, não é o mesmo que viver.
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