Roger suspirou. Seus olhos encaravam o nada. Não lembrava de ter se sentido tão nervoso em sua vida, exceto em seus shows. Brian May, que costumava ser o mais tranquilo entre os amigos, estava em um pânico quase inexplicável. Estar de volta àquele estúdio era nostálgico, mas algo digno de um nervosismo. Jim Beach tinha seu semblante sério, nitidamente indecifrável. Os poucos minutos de silêncio se tornaram uma angústia que corroía os pensamentos dos três presentes na sala.

A porta se abriu pela quarta vez. Os passos se aproximando fizeram com que Roger e Brian rapidamente voltassem seus olhares para a entrada do local. Um ato automático. John Deacon atravessava o estúdio como uma expressão que beirava a tristeza e ansiedade.

Jim não dissera qual era o real motivo deles estarem reunidos naquele lugar repleto de lembranças. Só dissera que tinha a ver com Freddie. E, se tinha a ver com Freddie, todos se sentiam na obrigação de comparecer, até mesmo John Deacon. E incrivelmente, mesmo depois de anos, falar sobre o Freddie era sempre motivo de imensa saudade.

Jim suspirou e pigarreou, como se quisesse chamar a atenção dos olhares perdidos naquele cômodo que de repente parecia tão grande.

— Então, eu reuni vocês aqui hoje, por causa do Freddie. Por conta de um último pedido dele. — Jim começou a dizer, com certa dificuldade. Sua voz parecia trêmula. — Ele me deixou uma carta para que eu lesse depois de vinte sete anos da sua morte. Nem trinta, e nem vinte e cinco. Vocês sabem como o Freddie é. — Ele riu, nervoso. — Já estava em seu fim de vida quando me entregou. E admito que foi horrível esconder isso de vocês por tanto tempo.

Os meninos estavam tão surpresos, que não sabiam mais o que sentir. Angústia. Alegria. Tristeza. Agonia. Mas tudo podia facilmente se resumir em uma palavra que agregava todos esses significados: saudades. Roger deu alguns passos de um lado do estúdio para o outro, nervoso. John sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, de repente era como se tivesse voltado para 1991. Brian estava tão em choque, que abriu os lábios algumas vezes em tentativas falhas de deixar qualquer palavra escapar.

Jim sentiu o suor escorrer pelo seu corpo e a sua garganta querer se fechar. Por um momento, quis fugir de tudo. Ele suspirou, tentando acalmar-se, e pegou a carta da maleta que carregava consigo. Rever a letra de Freddie fez um arrepio percorrer o seu corpo. Também sentia falta do seu amigo.

— Eu posso ler a carta, mas só se vocês quiserem.

Brian assentiu com a cabeça, um pequeno sorriso tomava os seus lábios. Roger murmurou algo quase incompreensível em concordância, já John Deacon olhava Jim Beach com expectativa, ainda que seus olhos brilhassem com as lágrimas acumuladas.

“Para: Roger, Brian e John”, podia-se ler no envelope, conforme Jim o movimentava para retirar a carta de dentro.

“Queridos,

Espero que quando estiverem lendo essa carta, já tenham superado a minha partida. Eu não queria deixá-los, ainda haviam muitas coisas que eu gostaria de fazer, especialmente ao lado de vocês, minha família. Mas, afinal de contas, quem quer viver para sempre? Creio que minha jornada não foi a mais perfeita de todas, mas o suficiente para ajudar e trazer alegria àqueles ao meu redor.

Agradeço por tê-los conhecido, vocês mudaram a minha vida. Sem vocês, eu jamais seria um Queen, e o Queen não existiria sem vocês. Sentirei falta das birras do Roger, dos sermões do Brian e das caras engraçadas do John e, por isso, gostaria de deixar essa pequena lembrança para vocês. Não é a mais bela das minhas escritas, mas ainda assim é de coração.

Roger Taylor, sentirei falta dos seus escândalos previsíveis, teimosias desnecessárias e agudos fenomenais. Lembro-me perfeitamente de quando gravamos o disco “A Night At The Opera” e do quanto ficara irritado com a quantidade de “galileos” que tivera que gravar. E de quando se trancara no armário até que eu colocasse “I’m in Love With My Car” no lado B. Sempre conseguindo o que quer, por meio de uma perseverança e infantilidade admirável.

Brian May, você sempre foi bom com sermões, não é mesmo? Mas tudo bem, eu entendo que tenham sido para o bem da banda e de nossa amizade, mesmo eu não tendo admitido isso em voz alta. Seus solos de guitarra são realmente incríveis, espero que ainda escute o compilado que fiz com seus melhores solos, apenas para se lembrar do quão bom você é no que faz. Nunca se esqueça disso, sou um grande admirador do seu talento. Espero que não tenha perdido o compilado como naquela vez em que perdeu a sua paleta favorita.

John Deacon, o mais tímido de nós, mas ainda assim um tanto quanto engraçado. Eu diria que o mais engraçado. Sempre fazendo caretas divertidas e tentando manter a calma entre nós nos momentos de confusão e turbulência. O baixista dançarino. Um homem que tem uma criatividade incrível para a música, e um grande compositor, como todos vocês. Gostaria de estar ao lado de vocês. De saber quantos filhos o Roger tem, ou se o Brian realmente fez o doutorado de que tanto falava sobre, ou se o John construiu algum instrumento musical incrível. Eu queria que pudéssemos passar mais um Natal reunidos, fazer mais shows, gravar mais discos.

Resumindo, quero agradecer por todos os momentos que passamos juntos como amigos, como uma banda e, acima de tudo, como uma família. Uma família que a vida me deu e que eu amei conhecer e conviver até o último segundo de minha vida. Eu daria de tudo para poder revê-los mais uma vez, e eu sinto muito por ter que partir. Eu sei que não seriam capazes de me esquecer, mas peço que se lembrem de mim como uma memória feliz, e não com pena. Então eu peço que prometam, mesmo após vinte e sete anos (Espero que Jim tenha cumprido a promessa), que eu sou uma lembrança feliz na vida de cada um de vocês.

Peço que se lembrem do Freddie sorrindo, não do debilitado. Do Freddie que fazia piadas ridículas, de ego invejável e do excelente senso de moda. Como confirmação dessa promessa, peço que assinem essa folha, assim saberei que não estão mentindo. Há três espaços, um para cada um de vocês. Prometam que sou e sempre serei essa lembrança boa.

E lembrem-se, o show tem que continuar, darlings.

Freddie Mercury.”

Roger deixou um sorriso aparecer em seus lábios ao ouvir cada uma daquelas palavras.

— Mesmo não estando mais aqui, ele ainda consegue nos surpreender.

Brian o acompanhou em uma risada fraca.

— Apenas o Freddie é capaz de fazer uma coisa dessas. — Concordou.

Silenciosamente, John Deacon retirou uma caneta que sempre carregava consigo do bolso e assinou o papel já amarelado. Em seguida, olhou para os outros dois homens, com as sobrancelhas arqueadas.

— A promessa. Assinem. — John estendeu a caneta na direção de ambos.

Roger, então, a pegou e assinou o segundo espaço deixado, acima de uma linha desenhada à mão pelo próprio Freddie. Por último, Brian pegou a caneta preta e assinou o terceiro espaço. A promessa, finalmente, havia sido selada entre os quatro.

Jim limpou o canto dos olhos, qualquer assunto relacionado a banda, mesmo pessoal como profissional, mexia muito com ele. Pediu licença e saiu indo ao banheiro jogar uma água no rosto.

— Abraço em grupo? — John com toda a sua timidez, ainda amava seus amigos, amava a sua família, mesmo depois de anos sem a presença deles quase todos os dias.

— Amo vocês. — Brian intercalou seu olhar entre o rosto de John e Roger.

— Me perdoem se eu fiz algo que não gostaram. Eu os amo demais. — Roger fechou os olhos sentindo uma lágrima descer por sua bochecha.

Os três amigos de olhos fechados não falaram mais nada, apenas curtiam o momento e a presença um do outro.

Uma brisa gelada, porém, gostosa invadiu a sala de Jim Beach, fazendo com que a carta voasse para o chão no meio do trio. Antes que Roger xingasse ou resmungasse algo, os três membros do Queen presentes sentiram uma leve tontura e falta de ar. Eles se afastaram rapidamente e quando a tontura passou abriram os olhos. Eles não estavam mais na sala de reuniões do Agente e Advogado do Queen.

Galos cantavam e John se mexeu percebendo estar deitado em uma cama de solteiro. A luz do sol batia em sua janela fazendo com que entrasse pelos buracos. Ao acordar e abrir os olhos, percebeu estar em um pequeno quarto no interior de uma casa. Já estivera ali, de alguma forma ele sentia seu corpo mais jovem.

Brian acordou e nem se olhou no espelho. Estranhou estar na casa onde gravaram “A Night at the Opera”. Se levantou correndo apenas com um samba canção azul e bateu forte na porta do quarto de Roger.

— Taylor! — o moreno estava desesperado e quando o loiro abriu a porta, ambos se olharam com surpresa.

— O que aconteceu com o seu rosto?

— O que aconteceu com o SEU rosto? — Roger estava com a aparência dos seus anos 70s’. O seu loiro vivo e pele jovem. — O que estamos fazendo aqui?

— Dá para vocês pararem de gritar e descerem logo para o café? Os ovos vão esfriar.

Um arrepiou passou pelo corpo de Roger e Brian. Há 27 anos não escutavam aquela voz e agora, naquele momento, Freddie Mercury segurava uma frigideira no andar de baixo esperando seus amigos descerem para tomar café. O dia de gravações seria longo.

— Bom dia, Deacy. — Freddie sorriu ao notar o amigo pela primeira vez na cozinha e ele não estava com a cara muito boa. — O que foi? Viu um fantasma?

— BRIAN? — O mais novo chamou pelo amigo sem desviar os olhos, que já estavam cheios de lágrimas, de Freddie. — May? O que está acontecendo?

— Freddie... — Roger sussurrou emocionado ao ver o amigo. — Freddie! — o loiro correu e abraçou o amigo com toda a força que tinha em seu corpo. — Cara, que saudade.

— Roger, não adianta me bajular. Não vamos colocar I’m in love with my car no disco. — Freddie deu dois tapinhas nas costas do loiro. — Por que estão chorando?

— Chorando, eu?! — Roger apontou para si mesmo, como se fosse um verdadeiro absurdo. — Eu não estou. — Balançou a cabeça negativamente. Uma risada nervosa escapou de seus lábios.

— Sendo assim... — Freddie deu uma pausa em sua fala, achando a situação um tanto quanto esquisita e deixou um sorriso aparecer em seus lábios. — Vamos, mexam-se, mexam-se. O álbum não vai se gravar sozinho. — Ele disse, batendo palminhas enquanto caminhava pela cozinha.

De repente, os três pegaram-se rindo da atitude descontraída do amigo, de uma forma um tanto quanto nostálgica. Era extremamente surreal o que estava acontecendo, mas, ainda assim, estavam gratos por poder vê-lo novamente. Todos eles. De repente, eles estavam de volta, como em um passe de mágica. Só não tinham ideia do que fazer de agora em diante.

Notas finais
Olá, pessoal! Espero que tenham gostado do capítulo e que curtam a história. Por favor, digam o que acharam e obrigada por darem uma chance para nós. Lembrando que esta fanfic está sendo escrita por @mstyrki e @sekishikis.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.