Daylight

31 Capítulo Trinta


Notas iniciais
Finalmente... o julgamento! Espero que gostem!

Logo, o julgamento começaria e ela sabia que teria de testemunhar, na frente de várias pessoas, e que ainda teria de aguentar perguntas do advogado de defesa, perguntas que ela sabia que lhe trariam más lembranças.

Mas com Edward ao seu lado, sua família e com a ajuda do Dr. Hale, ela sabia que podia passar por aquilo.

Agora, bastava esperar.

—x-

Três meses depois

Seu celular já havia despertado havia algum tempo, mas ela simplesmente não sentia vontade de levantar — não naquele momento, pelo menos. Ela tinha programado o despertador para um pouco mais cedo, de qualquer forma, então ela sabia que ainda tinha um tempo antes de não poder enrolar mais e ter que levantar.

Ela vinha conversando sobre esse momento com o Dr. Hale fazia um tempo, mais precisamente desde do primeiro julgamento de Royce, e sabia, bem no fundo, que estava preparada para aquele momento — o máximo que poderia estar, pelo menos. Entretanto, ela não conseguia não deixar de se sentir nervosa, ansiosa e com um pouco de medo, sim. Porque pela primeira vez desde sempre, ela falaria abertamente sobre tudo o que tinha acontecido com ela, para um tribunal cheio de pessoas que ela nunca tinha visto na vida.

Finalmente, chegara o dia do julgamento de Royce.

E ela seria a primeira testemunha.

A morena sabia que o julgamento provavelmente duraria alguns dias, já que havia muitas pessoas para darem seu testemunho. Como as duas mulheres que estiveram em cativeiro com ela, alguns meses atrás, Angela e Abbie. Rosalie também seria testemunha, assim como o detetive Cullen e o Dr. Hale — que falaria das suas duas pacientes: Rosalie e Isabella.

Ela não sabia se haveria testemunhas de defesa e sinceramente não estava interessada nisso. Havia tantas provas contra Royce que não era possível ele escapar daquilo. Havia os álbuns, havia ela e mais duas mulheres que tinham sido sequestradas por ele e vivido para contar a história, havia os diários dele… Pelo menos, Isabella estava tentando se convencer disso. Royce ficaria preso, ela sabia, e corria até mesmo risco de pena de morte. O julgamento só serviria para mostrar qual seria sua pena: quantos anos na prisão, se seria prisão perpétua ou pena de morte.

E então, ela poderia deixar tudo isso para trás, definitivamente, e finalmente começar a viver a sua vida. Com sua família, seus amigos… e com Edward.

Ela sorriu um pouco ao pensar nele, lembrando de como eles tinham se aproximado mais nesses últimos meses. As sessões com Jasper estavam realmente ajudando-a, porque ela se sentia melhor, mais forte, mais ela. E dessa forma, ela conseguia se aproximar mais de Edward, conversar com ele sobre seus medos e anseios e coisas do tipo. Eles estavam verdadeiramente agindo como um casal, embora ainda não tivessem dito nada oficial como namorado e namorada, e Isabella realmente estava amando isso.

A cada dia que passava, ela sabia que o que sentia por Edward se tornava um pouco mais forte. Ela ainda não havia falado nada com ele, porém. Não se encontrava totalmente pronta para isso ainda, mas ela sentia, pela primeira vez desde sempre, que um dia estaria pronta para isso. Sabia que ainda tinha muitos problemas e talvez muita coisa pela frente, mas ela estava otimista em relação ao futuro.

E isso a deixava muito feliz.

O celular de Isabella tornou a tocar e ela soltou um suspiro, sabendo que não podia enrolar mais. Mesmo não querendo, a morena empurrou as cobertas para o lado e se levantou, partindo direto para o banheiro. Ela se sentia mais calma naquele dia do que tinha se sentido no primeiro julgamento, três meses atrás. Na verdade, ela só queria poder pular aquela parte, quase como se não tivesse acontecido. Falar sobre tudo o que tinha passado, contar tudo àquelas pessoas… era meio assustador.

Enquanto tomava banho, a morena pensou na conversa que tivera com seus pais alguns dias atrás. Eles disseram que queriam estar lá para ela, mas entenderiam se ela não quisesse que eles fossem. Ela relutou um pouco, mas acabou concordando com a presença deles. Eles nunca tinham escutado toda a história sobre o que aconteceu nos 11 meses que ela ficara desaparecida. Talvez fosse um pouco demais para eles, mas já que eles queriam estar presentes, queriam saber, Isabella achou melhor que fosse daquela forma.

Ela não sabia se seria capaz de contar toda a história depois novamente, mesmo que fosse para seus pais.

Lembrou-se, também, da conversa que havia tido com o promotor responsável pelo caso. Eles haviam se encontrado algumas vezes, porque ele queria prepará-la um pouco mais para o julgamento. Foi extremamente difícil, mesmo com o Dr. Hale e com Edward lá. Ele teve que fazer perguntas difíceis para ela, dizendo que advogados de defesa geralmente tentavam virar a culpa para a vítima. Ela precisou de algumas pausas, assim como precisou conversar com seu psiquiatra e com Edward também.

Mas depois de alguns dias passando por aquilo, ela se sentia mais preparada. Talvez o advogado de defesa fosse soltar alguma pergunta que a pegaria de surpresa, era um risco que ela corria, mas pelo menos, ela sabia disso. E sabia como ele poderia agir.

Depois de mais alguns minutos no banho, a morena saiu, secou-se e colocou um roupão, decidindo se vestir só após preparar algo rápido para ela comer. Obrigou-se a comer cereal com leite, mesmo não sentindo muita fome. Depois de ajeitar a pequena bagunça que ela havia feito, ela colocou a roupa que ela tinha escolhido para aquele dia, uma roupa mais formal. Ela estava terminando de pentear seus cabelos, quando Edward tocou a campainha. Ainda era um pouco cedo, o julgamento só começaria dali a uma hora e meia, e ela estranhou um pouco a sua presença, mas não questionou.

Ela sabia, de alguma forma, que aquilo também deveria estar sendo difícil para ele.

— Bom dia. — Ela o abraçou assim que ele entrou na sua casa, notando quão tenso ele estava. — Está tudo bem?

Ele suspirou, e depositou um beijo demorado em sua testa, antes de se afastar.

— Rose está meio nervosa — ele comentou. — Ela sabe que talvez não tenha que testemunhar hoje, mas está meio… não sei. Conversei um pouco com ela, ela parece mais calma agora, acho.

Bella o fitou durante um tempo, antes de suspirar.

— Você sabe que eu poderia ir até o tribunal sozinho, eu não me importaria — meio que mentiu. Era claro que ela preferia ir com ele, mas se a irmã dele precisava mais dele naquele momento, bom, ela entenderia. — Você podia ter ficado com a sua irmã…

Ele revirou os olhos.

— Não há necessidade — ele comentou. — Como eu disse, agora ela está mais calma. E além disso, Emmett está lá com ela. Aparentemente, eles se aproximaram um pouco nesses últimos meses. Ele está conversando com ela sobre como o julgamento deve ser e preparando-a um pouco, como o promotor fez com você.

A morena assentiu, sorrindo um pouco. Ela tinha se afastado um pouco de Emmett um tempo atrás, mas recentemente, eles tinham se aproximado novamente. Assim como Alice, que estudara com Bella anos atrás. Ela ligava mais para eles, conversava um pouco… Eles até tinham ido visitá-la em sua casa algumas vezes. Emmett também havia conversado com ela, querendo prepará-la o máximo que pudesse. E embora Bella já tivesse treinado, por assim dizer, com o promotor, ela ficou grata por seu amigo ter feito aquilo.

Toda ajuda era bem vinda, afinal.

— Você já tomou café da manhã? — ela indagou, um tempo depois. — Eu comi só um pouco de cereal, mas posso…

Ele negou imediatamente, apertando-a em outro abraço. Ele odiava que ela teria de ficar na presença de Royce por mais alguns dias, durante todo o julgamento. Odiava que ela teria de falar o que passara. Se pudesse, fugiria com ela até que todo aquele pesadelo acabasse.

Entretanto, ele sabia que era necessário; pelo menos, estava tentando se convencer disso.

— Tomei na casa dos meus pais — ele empurrou um sorriso para fora do rosto, mas saiu mais como uma careta. — Podemos só ficar assim por um tempo, até a hora de irmos?

Ela deitou a cabeça em seu peito e sorriu um pouco, querendo acalmá-lo. Chegava até a ser engraçado como ele estava mais nervoso que ela, mas não comentou nada. Levou-o até o sofá e os dois ficaram ali durante um tempo. Na maior parte do tempo, eles ficaram em silêncio, mas às vezes conversavam sobre uma coisa ou outra. Infelizmente, logo chegou a hora de eles saírem, já que, como testemunhas, tinham que chegar um pouco mais cedo.

— Pronta? — Edward indagou, ajudando-a a vestir seu casaco.

Bella encolheu os ombros e respirou fundo, desejando poder ter um controle sobre o tempo, só para que pudesse pular tudo aquilo. Ou desejando que ela não fosse necessária no julgamento, algo que a morena sabia que não era possível.

— Acredito que sim. — Forçou-se a dizer. — Vamos? Eu só quero acabar logo com isso…

Eles ficaram em silêncio enquanto saíam da casa e iam até o carro do detetive. Edward colocou uma música clássica para tocar, apenas querendo acalmar os dois um pouco, e procurou dirigir um pouco mais devagar do que dirigia, não querendo que eles chegassem rápido demais. Ele sabia que estava tentar adiar o inadiável, mas o que mais podia fazer? Ele tinha lutado para que aquilo acontecesse e finalmente todas as famílias das garotas que foram sequestradas conseguiriam um pouco de justiça, mas ele só não queria que Isabella e sua irmã tivessem que reviver tudo o que tinham passado.

Logo, porém, eles chegaram e, novamente, Isabella contou com a proteção de Edward e alguns agentes do FBI para conseguirem entrar no prédio. Lá, ela encontrou seus pais e a família Cullen, e aceitou um abraço de cada um deles, porque ela meio que precisava daquilo. Precisava saber que havia pessoas ali por ela, e que ela conseguiria passar por tudo aquilo.

— Lembre-se, você consegue fazer isso, ok? — O Dr. Hale falou, assim que eles se encontraram. — Conversamos muito sobre isso, Isabella, e você sabe que está preparada. Se precisar de um tempo, não fique envergonhada de pedir, e só respire fundo e feche os olhos, ok? E então olhe para as pessoas que estão aqui por você. Isso vai ter dar forças.

Ela assentiu, agradecida por ele estar ali. Ela realmente precisava ouvir aquelas palavras antes de ser chamada para testemunhar. Sabia que demoraria um pouco, mas também sabia que não seria possível conversar quando entrassem no tribunal.

E então, o momento chegou. Todos foram entrando e se acomodando em seus lugares. O júri chegou, e Isabella observou cada um deles, desejando saber o que se passava na cabeça deles. O futuro de Royce dependeria deles, afinal. Logo, duas portas se abriram e Royce apareceu, cercado por agentes. Ele estava de cabeça baixa, novamente acorrentado e algemado. Isabella o fitou o tempo todo, até que ele se sentou, de costas para ela.

— Tudo bem? — O detetive perguntou, alto o suficiente apenas para ela ouvir. Ele apertou a mão dela, o que a fez sorrir. — Podemos sair um pouco, se quiser… Eles não vão te chamar imediatamente…

Ele parecia tão preocupado com ela, que ela quis abraçá-lo naquele momento e beijá-lo, apenas para agradecer um pouco do que ele já fizera por ela. Mas sabia que não podia, não naquele momento, pelo menos.

— Está tudo certo — suspirou. — Só quero que acabe logo, sabe?

Ele assentiu. Fitou-a durante mais um tempo, antes de suspirar e sentar direito. Então, o juiz chegou e todos ficaram em silêncio.

O julgamento não demorou muito para começar. O promotor apresentou o caso. Ele falou do exato número de álbuns com fotos de diversas garotas que existiam de prova contra Royce. Falou dos diários que encontraram, com a letra dele, que já tinham sido comparadas para averiguar se eram mesmo dele. Ele falou durante um tempo, às vezes se dirigindo ao juiz, outras ao júri. Ele até mesmo voltou sua atenção para todas as pessoas que estavam ali. Logo em seguida, foi a vez do advogado de defesa. Ele parecia meio nervoso, Isabella pôde notar isso, mesmo com ele tentando esconder. Ele começou a dizer coisas extremamente absurdas, inventando um tipo de doença que Royce tinha, somente para se contradizer, ao dizer que ele teve permissão de todas as garotas quando as levaram, e que todas as fotos tiradas tinham sido com permissão delas, assim como os castigos. Ele não disse nada sobre o diário, no entanto. Aparentemente, não tinha como inventar desculpas para aquilo.

Isabella ouviu alguns murmúrios quando o advogado de defesa falava essas coisas, o que a deixou um pouco mais tranquila. Ela sabia que deveria haver alguns pais ali, que haviam perdido a filha por causa de Royce. Ela torceu para que eles conseguissem um pouco de consolo com aquele julgamento. Ela sabia que nada seria suficiente e nada poderia substituir a filha perdida, mas talvez aquilo ajudasse um pouco.

A morena estava tão perdida em seus próprios pensamentos, olhando as pessoas presentes ali, se perguntando quais seriam pais e quais não seria, que demorou um pouco para perceber que o advogado de defesa tinha terminado de falar.

O que significava que eles logo a chamariam para testemunhar.

E não demorou muito para isso acontecer.

— O tribunal chama a primeira testemunha — anunciaram. — Isabella Marie Swan.

Edward tornou a apertar a mão dela e a sorrir para ela, enquanto ela se levantava. Ela podia sentir os olhos de todos enquanto andava. Sentiu seu coração martelar contra o seu peito, sentindo um pouco de medo pelo o que estava por vir. Ela se sentou e fez o juramento, seus olhos o tempo todo nos de Edward. Ele sorri para ela e balançou a cabeça levemente.

E então, o promotor se levantou e caminhou até a ela, um sorriso gentil no rosto. Ele a cumprimentou e perguntou como estava, antes de começar com outros tipos de pergunta.

— Então, Srta. Swan… — ele disse. — Por que você não nos conta sobre o seu aniversário de 15 anos? Consegue se lembrar do que aconteceu naquela noite?

Ela assentiu. Essa talvez fosse a parte mais fácil. Ela já tinha falado sobre aquela noite algumas vezes. Ela começou contando como queria mostrar para os pais que era responsável e que por isso tinha pedido que eles deixassem que ela tivesse uma festa livre de adultos, pela primeira vez.

— Eles relutaram um pouco, porém — ela continuou, o tempo todo fitando o promotor. — Então, combinamos de que eles e os pais de alguns dos meus colegas na época ficariam durante um tempo na festa, por algumas horas, para ver se estava tudo sob controle. Depois de um tempo que eles foram embora, eu saí para pegar algumas luzes para a pista de dança…

A morena balançou a cabeça, conseguindo se lembrar exatamente do que tinha acontecido naquele dia, quase como se estivesse acontecendo naquele momento. Ela continuou contando, falando do cara loiro de olhos azuis que tinha aparecido, pedindo ajuda pelo seu cachorro. Ela contou que nem mesmo pensou no que os pais dela sempre falaram para não escutarem estranhos. Contou ter o seguido e da agulha que sentiu em seu pescoço.

— Eu me lembro de como foi quando me acordei… — ela continuou. — Não sei exatamente quanto tempo depois foi, mas eu sabia que já era dia, podia ver pelas pequenas janelas que tinha no local… Lembro de ter ficado confusa, sem saber como eu tinha ido parar ali. Lembro que tentei ficar calma, porque eu sabia que ficar desesperada não adiantaria em nada…

“Eu procurei por uma saída, no entanto. Havia uma porta que parecia daquelas de ferro, com uma pequena portinha, por onde às vezes uma mão passava e colocava comida para mim. Às vezes, eu escutava passos no andar de cima, e quando ouvi barulho de chuveiro, eu me levantei e tentei escapar…

“Havia algumas caixas de madeira no lugar e eu lembro de pegá-las e alinhá-las no canto da parede. As janelas eram daquelas muito altas e pequenas. Eu puxei os cadeados, esperando que eles fossem velhos e que não fosse difícil de quebrá-los ou algo assim… Só que então eu vi que havia grades do lado de fora… eu não conseguiria nunca passar ali.”

Ela parou de falar novamente, seus olhos ainda no promotor. Ela podia ouvir alguns murmúrios ao fundo, mas não teve ideia do que eles significavam e, sinceramente, não teve coragem de olhar para descobrir.

— Você se lembra de quando o homem apareceu pela primeira vez? — o promotor indagou. Isabella assentiu. — Ele está presente no tribunal hoje, srta. Swan?

Novamente, a morena assentiu, engolindo em seco.

— Você pode apontar para ele, por favor? — pediu novamente.

Respirando fundo, a morena tirou os olhos do promotor e fitou Edward e seus pais por um momento. Sua mãe chorava um pouco, e o pai de Bella estava entregando um lenço a ela. Bella engoliu em seco ao ver isso. Se a sua mãe já estava chorando ao escutar aquele começo… ela não queria nem imaginar como seria quando ela chegasse às piores partes.

Ela olhou para Royce por fim. Ele estava sério, a testa franzida. Ela não tinha ideia do que aquele olhar dele significava e também não estava a fim de descobrir. Antes que o promotor pudesse repetir a pergunta, a morena levantou a mão e apontou para Royce, sem dizer nenhuma palavra.

— Obrigado, srta. Swan — o promotor disse. — Agora… por que não nos conta um pouco sobre o dia que ele foi até este local que você estava ficando?

Isabella tornou a respirar fundo e começou a contar como tinha sido. Ela contou como sentiu medo quando escutou os passos nas escadas. Ela não queria ter que falar que sentira medo, para não dar essa satisfação a Royce, mas sabia que era necessário. O júri precisava escutar isso, afinal.

— Eu me encolhi o máximo que pude quando vi a porta se abrir — ela lembrou. — Ele pediu desculpas por ter demorado… e disse que estava ocupado preparando tudo o que iríamos precisar pelos próximos meses… Eu lembro de ter olhado o espaço entre ele e a porta e calculado se dava para eu escapar, mas ele percebeu… Ele disse para eu não fazer isso, que não seria bom para mim…

“Ele disse que estava ali para me levar para tomar banho e colocar algumas roupas limpas. E, para finalizar, disse que se eu fizesse tudo o que ele pedisse, meu final seria muito diferente das outras…”

O promotor fez mais algumas perguntas e Isabella foi falando de seu dia a dia naquele lugar. Seus medos, como ela sempre tentava pensar em uma maneira de fugir. Como sentia falta dos pais, dos amigos, da escola… Contou sobre como ele começou a aparecer com mais frequência.

— Às vezes, ele só ficava parado na porta me observando — ela disse. — Em outras, ele contava sobre si, sentando-se tão perto de mim que eu tinha vontade de vomitar… Ele queria conversar, eu pude notar, mas eu nunca dizia nada. Eu descobri que, se fizesse isso, ele desistiria e iria embora. Ele fazia isso, então. Simplesmente suspirava e saía.

Ela fez uma pausa e deu um sorriso triste.

— Quando ele fazia isso, eu me sentia quase feliz — comentou. — É meio triste, não é? Se sentir feliz com algo tão… não sei bem o que dizer. Mas eu pensava que nunca mais sairia dali, não viva, pelo menos, então ficava grata quando ele ia embora.

“Em uma dessas vezes, eu tive uma ideia. Na época, eu achava que era uma ideia meio maluca, mas o que eu podia fazer? Pensei em conquistar a confiança dele, porque ele sempre dizia esse tipo de coisa, sabe? Que eu só devia fazer o que ele quisesse, que tudo daria certo… Eu não queria morrer, não queria que meus pais tivessem que passar por isso. Então, pensei que poderia arrumar uma maneira de fugir, caso conseguisse conquistar a confiança dele.

“Um tempo depois, ele começou meu treinamento, como ele chamou. Eu tinha que cozinhar para ele, limpar a casa, lavar a roupa… Ele estava sempre me vigiando, quase colado comigo o tempo todo… E então, um dia…”

Bella fechou os olhos, tentando controlar as lágrimas. Ela logo abriu os olhos, respirando fundo, exatamente como o Dr. Hale havia sugerido, e depois olhou para Edward e seus pais. Isso deu forças para que ela continuasse.

— Ele me levou até um cômodo, onde haviam diversas pastas — ela comentou. — Depois, eu descobri que, na verdade, eram álbuns… Ele começou dizendo que eu era a segunda a ver aquilo, e que achava que eu não iria decepcioná-lo. E então, me mostrou… fotos de sua primeira vítima.

“Ele mostrou fotos dela fazendo os serviços que eu tinha feito até aquele momento… lavando, cozinhando… E então, ele começou a mostrar fotos de… machucados. Machucados que eram… aterrorizantes. E, por último, ele me mostrou a foto do… corpo dela…”

Novamente, Isabella teve que parar. Ela era incapaz de continuar a falar daquele momento. Ela se lembrava de como tinha se sentido, então. Como fora aterrorizante, assustador. Como ela deseja que aquilo não passasse de um pesadelo e que ela acordasse logo.

— Ele disse que foi a terceira facada que a matou — concluiu. — Ele falava isso com tanto… amor e devoção que eu…

Ela balançou a cabeça, sem concluir o que falara. O promotor assentiu, parecendo entender o que ela estava querendo dizer. Ele pegou um pequeno controle e apontou para a televisão, onde a foto da mesma garota que Isabella havia visto naquela época apareceu. A mesma morena de olhos azuis.

— Agora irei mostrar a prova número um, meritíssimo — o promotor disse. — As imagens são um pouco fortes, caso alguém não queira olhar.

Isabella imediatamente desviou os olhos, não querendo reviver aquelas fotos. Ela já tinha olhado para elas uma vez e não precisava passar por isso novamente. Pelo murmúrio que ela escutou ao redor da sala, ela sabia que as pessoas estavam vendo as fotos naquele momento. Ela manteve o rosto abaixado, fitando as suas mãos, porque não era capaz de olhar para ninguém naquele momento.

Nem mesmo para Edward.

Depois que o promotor terminou de mostrar as fotos, ele continuou com as perguntas. Isabella contou sobre, como no decorrer dos dias, ele foi mostrando pasta por pasta e foi fazendo-a reorganizar tudo. Novamente, o promotor apresentou mais algumas provas e foi mostrando fotos de várias garotas. E, novamente, Isabella não olhou.

Depois, ela começou a contar como ele fora para a segunda parte do treinamento, onde a deixara sozinha por um momento, para ver se ela iria fugir, e como ele ficara satisfeito quando ela não fugira. E então, ele começou a ensiná-la a cozinhar para ele, as receitas favoritas dele.

— Até hoje eu não gosto muito de cozinhar — ela comentou. — É algo que eu tenho tentado vencer, mas geralmente peço comida para ser entregue em casa. É algo que parece tolo, eu sei, mas traz lembranças daquela época e isso é algo que eu tentei por muito tempo esconder.

O promotor deu um momento para ela se recompor, antes de perguntar dos castigos que ela recebera. Ela engoliu em seco e respirou fundo.

— Eu me lembro até hoje do primeiro castigo que recebi — ela sussurrou. — Ele tinha pedido que eu organizasse umas caixas para ele, com os álbuns das garotas… e eu não consegui fazer tudo como ele tinha pedido. Então… ele me castigou.

“Eu tinha que colocar os álbuns das garotas em ordem alfabética… Mas ele tinha escondido os nomes, de forma que eu tinha de abri-los para procurar os nomes. O que me obrigava a ver todas as fotos… Era um teste, eu sabia, mas simplesmente não consegui.”

Ela fez outra pausa e balançou a cabeça.

— Ele ficou tão bravo… Ele me fez virar de costas e então… — engoliu em seco. — Ele me bateu.

O promotor falou de mais uma prova, e Isabella abaixou o rosto imediatamente, sabendo o que ele mostraria: as fotos dos castigos dela. Ela olhou rapidamente para seus pais e viu que os dois choravam, abraçados um ao outro, como se tentassem buscar forças. Ela viu Edward fitando-a ao invés de olhar as fotos. Ele forçou um sorriso para fora do rosto, sabendo como tudo aquilo estava sendo difícil para ela.

Isabella continuou a contar tudo. Ela falou de quando ele contava da família dele, contou de como ele passara a ter mais confiança nela. Contou que já sabia por onde fugiria, quando chegasse a hora.

E então, ela contou de quando ele a levou para enterrar um corpo. E de como aquilo tinha simplesmente acabado com ela.

— Eu pensei em desistir naquele dia — ela soluçou. — Porque eu nunca iria poder sair dali e viver com aquilo. Ele me fez ajudá-la a enterrar um corpo… Eu quis simplesmente que ele me matasse, desejei que aquilo acabasse, porque era demais. Eu tinha aguentado tanto e aguentar mais aquilo… Desistir seria fácil, não seria? Eu morreria, sim, mas pelo menos toda aquela dor e aquele pesadelo acabariam…

Era a primeira vez que ela falava disso. Não teve coragem de olhar para Edward, seus pais ou o Dr. Hale enquanto isso. O que eles pensariam dela agora, afinal? Será que pensariam que ela não era tão forte quanto eles pensavam que ela era?

— Consegui, porém, de alguma forma — continuou. — E um dia, ele me contou do plano final dele, do que ele pretendia fazer comigo. E eu soube que eu tinha que fugir. Porque se eu completasse 16 anos e ele conseguisse aquilo, eu sabia que eu desistiria de vez.

Ela parou de falar e respirou fundo, sabendo que ela estava acabando aquela primeira parte. Ela estava quase no fim. Ela podia fazer isso, ao menos, ela estava tentando se convencer de tal coisa.

— E então, um dia, quando ele me pediu para preparar uma bebida para ele — ela suspirou -, eu a adulterei, colocando um pouco mais de álcool do que era necessário. Quando ele adormeceu, eu peguei a chave, abri as portas e fugi. Corri até que parei numa rua, onde um casal de namorados me achou.

Ela parou de falar, sem conseguir acreditar que a pior parte tinha acabado. Ela sabia que ainda haviam mais perguntas, mas só de conseguir ter contado sobre esses 11 meses… Isabella sentiu um peso saindo de suas costas.

O promotor abriu a boca para fazer mais uma pergunta, mas foi interrompido por um grito.

— Sua estúpida! — Royce gritou, de repente. Ele se colocou de pé e socou a mesa, as mãos ainda algemadas. Imediatamente, dois agentes do FBI o seguraram. Isabella deu um pulo na cadeira, assustada. — Você estragou tudo!

O juiz bateu com o martelo, quando várias pessoas começaram a falar ao mesmo tempo. Bella viu Edward inclinar seu corpo em direção a Royce, quase como se estivesse esperando que ele tentasse chegar até a Isabella.

— Sr. Johnson, controle seu cliente! — o juiz gritou, batendo o martelo novamente.

Como Royce ainda parece meio descontrolado, o juiz decidiu pedir por um recesso, aproveitando que estava quase na hora do almoço. Ele informou que eles retornariam com Isabella dentro de duas horas e que o promotor teria chance de terminar com ela, antes que fosse a vez do advogado de defesa.

Isabella imediatamente foi levada até uma sala ao lado. Ela se sentou à mesa, sem conseguir acreditar em tudo o que tinha acontecido até então. Ela não ficou muito tempo sozinha ali. Logo, as portas se abriram e Edward entrou, junto dos pais da morena.

Ela se deixou ser envolvida pelos braços do ruivo. Ficou surpresa por não sentir vontade de chorar. Ela ainda sentia uma grande alívio por ter falado tudo aquilo.

— Estou muito orgulhoso de você, meu amor — ele sussurrou. — Muito.

Logo em seguida, seus pais a abraçaram. Eles pareciam mais controlados agora. Eles não comentaram nada do que ela falara no tribunal, e ela se sentiu extremamente grata por isso.

Charlie saiu alguns minutos depois, dizendo que buscaria almoço para todos eles, já que Bella não sentia vontade de sair dali. Eles conversaram sobre coisas banais e Bella percebeu que Edward e Renee estavam tentando distraí-la, o que ela agradeceu.

O recesso passou mais rápido do que Isabella queria, e logo ela estava voltando à sala do tribunal, onde o promotor prosseguiu com as perguntas. Ela contou o motivo de nunca ter contado à polícia, até um tempo atrás, sobre o que acontecera a ela, sobre a vergonha e a culpa que ela sentia. Falou sobre as ameaças que recebeu de Royce quando começou a confidenciar os segredos ao detetive Cullen, sobre como Royce aparecera na porta da casa dela, dizendo que sabia onde ela morava. Falou das fotos que ele mandara, como uma lembrete para ela. E depois, como ele tinha aparecido na casa da sua mãe, fingindo ser pai de um paciente.

Isabella falou sobre como conseguiu coragem para começar a contar a verdade, da força que o detetive Cullen e o Dr. Hale deram para ela. Como ela estava fazendo terapia há algum tempo e como isso vinha ajudando-a, não somente a lidar com o passado, mas com os problemas que ele tinha trazido à vida dela.

E ela soltou um suspiro de alívio, quando o promotor virou para o juiz e disse que não tinha mais perguntas para fazer.

O advogado de defesa se levantou, então. Novamente, ele pareceu um pouco atrapalhado. Ele tentou virar a culpa para Isabella, dizendo como ela tinha interpretado as coisas de forma errado e como ela tinha pedido por tudo aquilo.

— E também, cara srta. Swan — o advogado de defesa teve a audácia de rir -, como sabemos que tudo o que você contou não passou de uma mentira?

Bella sorriu um pouco. O promotor a havia treinado, afinal.

— Basta olhar os diários dele, então — ela simplesmente disse. — E o senhor pode verificar os fatos.

Depois disso, o advogado disse que não tinha mais perguntas, e Isabella foi liberada.

Finalmente.

—

Naquela noite, Bella pediu ao detetive Cullen que ele passasse a noite na casa dela, porque ela se sentia mais segura dessa forma. Novamente, no dia seguinte, eles foram cedo para o tribunal, Bella se sentindo mais tranquila, já que não teria mais que testemunhar.

Naquele dia, os testemunhos foram mais rápidos. Rosalie, Angela e Abbie ficaram apenas um tempo ali, cada uma contando sua experiência. Logo em seguida, Ben foi chamado. Edward foi o próximo e o advogado de defesa tentou fazê-lo perder a paciência, enchendo o ouvido de todos de mentiras, mas o ruivo permaneceu calmo.

E então, chegou o Dr. Hale. O promotor enfim mostrou pedaços dos diários de Royce, inclusive aquele que contava sobre Isabella, e foi pedindo a opinião do psiquiatra, também pedindo que ele falasse das suas duas pacientes, Isabella e Rosalie.

O julgamento durou alguns dias, e Isabella já não estava aguentando mais ter que ir lá quase todos os dias. Quando ele foi encerrado, a morena se pegou implorando para que o júri decidisse pela coisa certa.

Ela não suportaria saber que um dia, mesmo que fosse daqui uns 30 anos, Royce saíria da cadeia.

— A sentença será lida amanhã, às 10h. — O juiz informou.

Bella mal conseguiu dormir naquele dia, pensando que no dia seguinte, de uma forma ou de outra, tudo aquilo acabaria. Ela mal podia esperar. Só queria que tudo aquilo acabasse e ela pudesse seguir em frente, sem ter que se preocupar com ameaças nem nada do tipo.

A partir do dia seguinte, depois das dez da manhã, a morena finalmente poderia começar a viver a sua vida.

Quando finalmente o dia amanheceu, ela desistiu de tentar dormir e se arrumou, mesmo ainda sendo muito cedo. Edward também parecia ansioso, já que passou na casa dela muito antes do horário e preparou um café da manhã completo para os dois, em meio a brincadeiras e beijos roubados. Ele só queria tirar aquela tensão de Isabella e fazê-la rir e relaxar um pouco.

Na hora de eles irem, ele parou por um momento na porta, puxando-a para um abraço.

— Hoje tudo isso acaba, baby — ele sussurrou. — E você finalmente vai se sentir livre, ok?

Ela sorriu e assentiu, depositando um beijo rápido nos lábios dele. Como no primeiro dia do julgamento, ele colocou uma música clássica e foi conversando sobre outros assuntos com a morena, querendo deixá-la calma.

Logo, a morena encontrava-se sentada no mesmo lugar de todos os dias do julgamento, cercada por Edward, seus pais, os Cullen, o Dr. Hale e Emmett.

Quando todos se encontravam ali, o juiz começou a falar. Ele perguntou se o júri tinha chegado a um veredicto e a uma sentença, e quando a mulher que estava de pé do júri disse que sim, ele pediu que ela lesse.

Royce havia sido acusado de vários homicídios, de todas as garotas que ele havia matado, da sua família e da mulher que o tinha levado da fazenda até a cidade. E o júri o declarou culpado por todos eles. Além disso, havia outros crimes, como sequestro, tentativa de sequestro, e outras coisas mais, e por todos eles, ele havia sido declarado.

Isabella sentiu lágrimas tomando conta dos olhos dela, sem conseguir acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. E então, quando chegou a hora de lerem a sentença, ela estava tão nervosa e tão ansiosa, que mal escutou o que a mulher do júri disse.

Ela só sentiu Edward apertando a sua mão.

Royce não passaria 30 anos na prisão. Ele não passaria toda a vida na prisão, até que estivesse velho e morresse. Ele morreria, sim, mas muito mais breve do que ele tinha imaginado. Porque ele tinha recebido a pena de morte.

Ele tinha sido condenado à morte.

Notas finais
N/A: Antes de mais nada: não sou a favor da pena de morte. Acredito que ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém, não importa o que o criminoso fez. Passar a vida inteira na cadeia, sim, acredito que seja punição. Morte, não. Mas... acredito também que a Bella precisa mesmo de um fim definitivo nesse capítulo da vida dela e não acho que ela conseguiria isso totalmente se não fosse pela pena de morte, então... aí está. Enfim, espero que tenham gostado do capítulo. Só mais três agora! Até o próximo xx N/B: Que bom que esse julgamento acabou. Agora Bella e Edward poderão se libertar do passado e seguir em frente. Só que depois de a pena ser cumprida, eu acho. Beijos, Lu.