Daylight
22 Capítulo Vinte e Um
Notas iniciais
– Porque eu sou um monstro! – Ela berrou, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Seu peito subia e descia rapidamente, e suas mãos tremiam. Ela nunca se permitia pensar naquilo e, ainda assim, aquela lembrança em especial ainda a atormentava como se tivesse acontecido há apenas algumas horas. – Porque ele me fez ajudá-lo a enterrar um corpo!
–x-
Um silêncio incômodo tomou conta da casa do detetive após a revelação de Isabella. A morena, nervosa demais para sequer olhar para o detetive, deu-lhe as costas e escondeu o rosto nas mãos, abafando os seus soluços ali. Edward permaneceu parado durante algum tempo, processando o que ela havia falado, sem conseguir acreditar que aquelas palavras haviam mesmo saído da boca dela.
Royce a havia obrigado a enterrar um corpo?
Engolindo em seco, o ruivo abriu a boca e a fechou diversas vezes, sem saber o que dizer. Tudo fazia tanto sentido agora; ele podia sentir as peças do quebra cabeça se juntando em sua mente, como se elas estivessem ali o tempo todo, só esperando por um sinal.
Então esse era o motivo de Isabella não testemunhar contra ele? Tinha que ser, certo? Ela achava que era culpa dela, que ela seria julgada por aquilo...
– Isabella... – ele começou, pronto para dizer que não a odiava.
Mas não teve a chance. A morena o interrompeu antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa.
– Eu sabia que não deveria ter contado. – Ela ainda estava de costas para ele, suas mãos agora caídas ao lado do seu corpo. Ele sabia que ela estava chorando; podia ver seus ombros tremendo. – Eu s-sinto muito, eu só... eu não vou... eu tenho que ir...
Ele a viu se afastando, em direção à porta. Antes que ela pudesse alcançá-la, no entanto, Edward segurou o seu braço, sem nem pensar direito no que estava fazendo, e a puxou em direção ao seu corpo, abraçando-a.
Isabella resistiu em primeira instância, não querendo que ele a visse daquele jeito, não querendo ouvi-lo dizer o quão ele a odiava. Ele não deixou, porém. Puxou-a até que a cabeça dela estivesse apoiada em seu peito, segurando-a bem forte, deixando que ela chorasse ali. Ele acariciou as costas de Isabella de forma suave, esperando que ela se acalmasse um pouco, antes de começar a falar.
– Ele a obrigou, Isabella – ele murmurou. – Eu sei que não é culpa sua... E eu não te odeio por isso.
A morena imediatamente negou, a cabeça ainda contra o seu peito. Ela tinha medo de se afastar e ver o ódio nos olhos do detetive, muito embora ela não soubesse e entendesse por que a opinião dele importava tanto.
– Shhh... – ele sussurrou. – Nós vamos conversar, ok? Apenas se acalme... E você me conta tudo, pode ser?
Incapaz de dizer alguma coisa, ela apenas assentiu. Eles ficaram parados ali durante algum tempo, o detetive ainda acariciando as costas dela de forma suave, até que os soluços de Isabella pararam. Ele a levou até o sofá, então, e trouxe um copo de água para ela, sentando-se na mesinha à frente. Ele sorriu para ela de forma tranquilizadora.
– Mais calma? – indagou. Isabella assentiu. – Certo. Acha que consegue me explicar o que me revelou mais cedo?
Isabella o examinou durante um tempo, antes de tornar a assentir. Ele não parecia estar com ódio dela, pelo contrário, parecia entender de uma forma que ela não entendia. Mas e se isso mudasse uma vez que ele soubesse toda a verdade?
– Foi pouco antes de eu fugir – ela começou, fitando as suas mãos. – A cada dia que passava, ele ficava mais animado comigo, dizendo que tinha certeza de que eu era a certa para ele...
Ela engoliu em seco, organizou seus pensamentos e continuou.
– Ele dizia que estava preparando algo grande e que eu participaria – murmurou. – Disse que já havia começado, mas que ainda faltava uma coisa... Duas semanas antes de eu escapar, ele me levou para um lugar distante... foi a primeira vez que eu saí com ele daquela casa sem estar usando vendas nem nada...
Ela estremeceu, ainda desejando que aquele dia não tivesse passado de um pesadelo.
– A viagem foi curta, cerca de meia hora... Estava claro ainda e havia algumas pedras espalhadas de forma uniforme pelo terreno... e... e um saco preto e...
Ela engoliu em seco e tornou a parar. Levantou a cabeça e fitou os olhos do detetive, esperando que a qualquer momento ele fosse dizer que era a culpa dela. Mas ele não fez isso. Apenas sorriu para ela de forma gentil e apertou a sua mão, como se estivesse a incentivando a continuar.
– Ele me contou diversas coisas naquele dia – murmurou. – As pedras que estavam naquele terreno, em pontos específicos, eram para indicar onde havia corpos... E quem estava no saco preto era... era a mãe dele...
Ela viu os olhos do detetive se arregalarem.
– Ele matou a mãe? – indagou. Isabella assentiu. – Ele explicou o porquê?
Ela tornou a assentir.
– Ele matou a família toda – sussurrou. – Ele já havia me falado um pouco deles, meses antes... Ele ainda não havia me dito o seu nome. Ele falou um pouco sobre ele, porém. Sobre ele e seus pais.
Edward quase não conseguia esconder a animação. Ele nunca imaginara que Isabella iria revelar tanto assim.
– Ele contou que foi criado em uma cidade pequena – continuou. – Os pais dele trabalhavam em uma fazenda e tinham cinco filhos... Ele era o do meio... Dizia que os pais não davam muita atenção para ele e que ele sempre ajudava... Ele me contou que limpava os estábulos, escovava os cavalos...
Isabella parou por um momento, apenas para recuperar o fôlego, antes de continuar.
– Ele me falou de uma mulher que apareceu nessa fazenda um dia – murmurou. – Não me disse nada, mas falou que era linda... tinha os olhos azuis, se não me engano... Ele disse que ela perguntou a idade dele e ficou muito interessada quando descobriu que ele tinha acabado de completar quinze anos. Ela ficou ali durante um tempo e estava sempre por perto. Até que ela se aproximou dos pais dele e disse que ele tinha muito potencial para ser alguém na vida e o levou para a capital para estudar.
Isabella ergueu a mão e limpou as lágrimas que haviam escorrido pelo seu rosto. Ela deu um sorriso triste para o detetive.
– Ela não o levou para a capital para estudar – disse. – Ela usava diversas perucas, para se disfarçar, e pegava outros garotos, todos com quinze anos, todos com vínculos fracos com os pais, para fazer com eles o mesmo que ele fez comigo...
O detetive Cullen apertou a mão dela, ainda sem conseguir acreditar que ela havia lhe dito tudo aquilo mesmo. Ele abriu a boca para fazer perguntas, mas não teve a chance. Isabella logo tinha recomeçado a falar.
– Ele me disse que a entendia – murmurou. – E que um dia eu entenderia também... Ele me levou até esse lugar onde tinha enterrado a sua família, me contando que eles tinham desistido muito facilmente dele... e que tinha deixado a mãe por último...
Ela soltou um soluço.
– Ele me fez cavar o túmulo – soltou. – Ele me fez empurrar o corpo, olhar para o rosto dela... e me ajudou a jogar terra... e...
Ela não pôde mais continuar, porém. Logo se entregou ao choro novamente. Edward, não querendo forçá-la, apenas ficou ali, ainda segurando a sua mão, esperando que ela se acalmasse. O detetive queria muito fazer mais perguntas, queria saber se havia possibilidade de Isabella contar onde esse local ficava, mas ele sabia que não podia fazer aquilo, não depois de tudo o que ela havia dito; não era justo.
Quando os soluços dela começaram a diminuir, ele a deitou no sofá, o tempo todo segurando a mão dela. Ele pôde ver que ela lutava contra o sono, piscando de forma lenta, seus olhos quase não se abrindo.
– Shhh, Bella — ele sussurrou, quando ela abriu a boca para dizer algo. — Durma, ok? Amanhã você vai estar se sentindo melhor…
Não demorou muito para que a morena estivesse dormindo, a mão dela ainda na de Edward. O ruivo podia se afastar, mas não conseguiu. Ele permaneceu ali durante um tempo — horas, talvez, ele não sabia dizer -, apenas segurando a mão dela e às vezes acariciando os cabelos dela. Ela parecia tão serena quando estava dormindo. Seu rosto estava meio avermelhado, devido ao choro, e ela parecia exausta — como se não dormisse direito há dias -, mas mesmo assim… ela era linda.
Edward estudou o rosto dela, prestando atenção em todos os detalhes que ele não havia observado anteriormente. Os olhos fechados, escondendo o tom castanho, os cílios longos quase tocando as bochechas um pouco vermelhas… O nariz um pouco empinado, as pequenas sardas que ele nunca havia reparado que ela tinha, as mechas de cabelos caindo suavemente na testa… Ele sorriu quando ela resmungou algo, seus lábios formando um pequeno bico. Ele não se lembrava de ter a visto dessa maneira antes, tão relaxada.
E se perguntou qual fora a última vez que ela dormira assim.
Seu coração acelerou quando ele pensou em tudo o que ela havia dito mais cedo, finalmente deixando que as emoções tomassem conta de si. Que tipo de pessoa fazia isso com uma menina de 15 anos? Que tipo de pessoa enterrava os próprios pais e agia como se isso fosse normal? Deus, o rosto de Isabella… O detetive quase podia ver, como se a cena estivesse ocorrendo naquele momento na frente dele. Podia ver Royce a obrigando…
E ela ter passado por aquilo tão nova e sozinha… e ter guardado tal coisa por anos… Edward conseguia entendê-la tão melhor agora. O medo de contar, de testemunhar… o medo de ser julgada, das histórias saírem no jornal, do que os pais dela pensariam…
Mas ele sabia que tinha que dar um jeito de fazê-la perder aquele medo. Talvez conversar com ela e, aos poucos, convencê-la a falar o local. Ele não tinha esperanças de que aquilo ocorresse tão cedo, no entanto. Não agora que ele entendia o maior motivo de ela estar sempre assustada.
Ele continuou segurando a mão dela durante mais alguns minutos, até senti-la estremecer. Com cuidado para não acordá-la, colocou-se de pé, liberando a mão dela da dele, repousando-a no sofá. Tentando não fazer barulho, pegou um cobertor do armário e o colocou sobre a morena.
– Boa noite, Bella. — Ele se pegou sussurrando.
Ele ficou parado ali, apenas a observando, durante mais alguns segundos, como se algo estivesse faltando. Ele precisou conter a vontade de se inclinar e depositar um beijo na testa da morena, não entendendo por que ele sentia esse desejo. Balançando a cabeça, o ruivo soltou um suspiro e se virou para o quarto, sabendo que ele não dormiria bem naquela noite.
E ele não dormiu.
Além do medo de Isabella acordar assustada, devido a tudo o que ela havia contado para ele, e sair da sua casa sem avisar e ele ter a chance de conversar com ela novamente, de impedir que ela simplesmente fugisse e se fechasse novamente, o detetive se pegava acordando cada vez que cochilava, se lembrando do que a médica havia contado para ele há pouco.
Quando amanheceu, ele desistiu de permanecer deitado e se levantou, caminhando para o banheiro e fazendo sua higiene matinal fazendo o mínimo de barulho possível, com medo de que ela acordasse. Quando ele saiu do quarto e se dirigiu para a cozinha, não pôde deixar de sorrir um pouco quando a viu deitada no sofá, ainda parecendo perfeitamente adormecida.
Ele preparou um café rápido, deixando tudo pronto para quando ela acordasse. Depois que terminou, caminhou até a porta da cozinha e se escorou na porta, cruzando os braços sobre o peito.
Ele sabia que precisava ir à delegacia o quanto antes e começar a pesquisar tudo sobre o que Isabella havia dito. Ele precisava saber mais sobre a mulher que pegara Royce e o trouxera para a capital. Precisava saber se ela estava viva, o que acontecera com ela… Entretanto, ele sabia que não podia ir naquele momento, não podia deixar Isabella ali. Ele precisava conversar mais com ela, afinal.
Com um suspiro, ele se voltou para a cozinha, servindo um pouco de café para si. Ele estava prestes a abrir o armário e pegar um prato, quando ouviu um barulho na sala, o que fez com que ele congelasse durante alguns segundos.
Isabella havia acordado.
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Em outras circunstâncias, Royce teria demorado um pouco mais do que o costume para voltar ao segundo esconderijo, querendo que as garotas aprendessem a lição e não tentassem fugir novamente. Entretanto, ele sabia que não havia água e comida o suficientes para isso, além do fato de uma das mulheres estar presa com apenas uma garrafa de água à disposição. E ele não podia deixar que morressem — não agora, não quando ele estava tentando agir sem chamar tanta atenção.
Frustado, o loiro se dirigiu para a casa. Ele havia recebido uma notícia não muito boa algumas horas antes de um dos seus informantes: aparentemente, Isabella havia entrado em contato com o detetive, o que significava que ele teria que continuar sendo cuidadoso. Ele não achava que ela fosse contar alguma coisa — ela tinha muito medo e amor por sua família para fazer isso -, mas isso não queria dizer que o detetive não fosse voltar a segui-lo.
Então, ele teria que continuar com essas duas mulheres.
Soltando um suspiro, ele puxou as chaves do bolso e abriu a casa, partindo para a cozinha e colocando as sacolas que trouxera consigo em uma das bancadas. Ele separou a comida, antes de abrir a geladeira e pegar algumas garrafas de água. Colocando-as em uma sacola, ele subiu as escadas, tendo que deixar a comida e a sacola com a água no chão por um instante, antes de pegar as chaves e abrir a porta. Ele espiou por um momento, um sorriso nascendo em seu rosto quando ele viu que a primeira mulher que sequestrara estava encolhida em um canto. Só então ele abriu a porta por completo, pegou a comida e a água, e trancou a porta atrás de si.
– Olá, querida. — O sorriso dele aumentou de tamanho. — Trouxe algumas coisas para vocês…
Ele colocou o que havia trazido no chão, antes de se dirigir para o pequeno quarto, aonde a segunda mulher que sequestrara se encontrava. Ele abriu a porta, ainda sorrindo. Ela se encontrava na mesma posição que a mulher do lado de fora.
– Olá, Abbie — ele a cumprimentou. — Espero que tenha aprendido a sua lição.
Ele não se demorou naquele esconderijo por muito tempo, já que tinha que ir trabalhar — ele não podia perder o disfarce, afinal. Certificou-se de que havia comida o suficiente para as mulheres para uns dois dias, assim como água, e saiu, trancando a porta atrás de si.
Ele entrou no carro e colocou a chave na ignição, mas antes que pudesse ligá-lo, seu celular tocou. Puxando-o do bolso, ele o atendeu, sabendo muito bem quem estaria ligando àquela hora.
– Bom dia, chefe. — A voz firme soou do outro lado. — Liguei para atualizá-lo… Isabella foi até à casa do detetive Cullen ontem… e pelo que eu vi agora, ela ainda não saiu.
Royce franziu a testa e fechou a mão livre em punho. Ela havia passado a noite na casa do detetive?
– Droga! — xingou. — Fique aí e me diga quando eles saírem. Me ligue imediatamente, ouviu?
Ele não esperou que a pessoa do outro lado da linha dissesse algo, apenas desligou o telefone, antes de começar a xingar. Ele não podia deixar que Isabella ficasse tão perto do detetive, não podia correr o risco de ela começar a dizer coisas que não devia. Porque, sim, Royce havia conseguido escapar uma vez, mas se Isabella dissesse algo…
Ele sabia que nenhum álibi seria capaz de salvá-lo.
Nervoso, ele ligou o carro e saiu daquele lugar o mais rápido possível. Ele precisava fazer algo, precisava impedir esse contato entre Isabella e o detetive. Royce demorou alguns minutos para formar um plano em sua mente e para se acalmar, mas um sorriso nasceu em seus lábios quando ele terminou.
Talvez fosse hora de ir visitar Isabella novamente… Ela se afastaria do detetive assim que ele a lembrasse das ameaças e de como ele poderia machucar os pais dela…
Royce tinha certeza disso.
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Isabella se remexeu um pouco no sofá, sentindo suas costas protestarem um pouco. Ela soltou um resmungo, antes de se ajeitar, um suspiro escapando de seus lábios. Ela não se lembrava da última vez que se sentia tão descansada dessa maneira. Esticando-se, ela abriu os olhos, piscando rapidamente várias vezes, seus olhos se arregalando de repente quando ela se lembrou de onde estava e do que havia acontecido na noite anterior. Envergonhada, ela se sentou de uma vez.
Deus, ela havia dormido na casa do detetive!
Sem saber o que fazer, colocou-se de pé e começou a arrumar-se, ajeitando a roupa e passando as mãos pelos cabelos. Ela dobrou a coberta que se encontrava no sofá e o ajeitou da melhor maneira possível. Depois que deixou tudo pronto, permaneceu parada na sala durante uns instantes, sem saber o que ela deveria fazer a seguir. Por um momento, pensou em sair despercebida, mas ela não queria fazer isso. Ela não queria que o detetive pensasse que ela estava se afastando de novo.
E ela não queria que ele desistisse dela novamente.
Ela não precisou se preocupar muito com isso, porém. Ela escutou um pequeno barulho, o que fez com que ela levantasse a cabeça. Ela corou imediatamente quando viu o detetive parado na porta, um pequeno sorriso nos lábios.
– E-eu sinto muito — ela sussurrou. — Eu não imaginava que iria dormir e…
Ele ergueu a mão antes que ela completasse a frase, ainda sorrindo de forma gentil para ela. Isabella esperou que ele começasse a xingar ou qualquer outra coisa, esperou que ele dissesse que havia mudado de ideia, de que a odiava. Mas ele não fez isso.
– Não se preocupe com isso, ok? — ele disse gentilmente. — Você disse algo que guardou durante anos, Isabella… Psicologicamente… eu não consigo nem imaginar como você se sentiu.
Ela assentiu, mas não disse nada, ainda se sentindo meio envergonhada.
– Eu deixei tudo preparado para você no banheiro, caso queira se refrescar — continuou o detetive, não querendo pressioná-la. — Preparei um café da manhã também… Estarei te esperando aqui na cozinha, ok? Tome o seu tempo…
Novamente, ela assentiu, incerta do que dizer. Edward a acompanhou até o banheiro, mostrando onde ficava e mais uma vez disse para ela não se apressar. Mesmo assim, Isabella não procurou se demorar muito e logo estava se dirigindo até a cozinha, sem saber o que diria ao detetive, se ele faria alguma pergunta…
Eles tomaram café praticamente em silêncio, apenas algumas palavras sendo trocadas. Quando eles terminaram, o detetive a levou até a sala e pediu que ela se sentasse.
– Eu gostaria de conversar com você sobre uma coisa, ok? — Edward murmurou. — Eu não quero pressionar você nem nada, Isabella, porque eu sei que foi difícil para você falar e me contar sobre o que aconteceu há tantos anos, mas…
Ele pausou por um momento, sem saber como fazer aquela pergunta. Era demais, ele sabia, principalmente depois do que ela havia falado. Só que o detetive também sabia que eles não podiam mais perder tempo. Havia duas mulheres que encaixavam no modo de operar de Royce, desaparecidas. E Edward tinha certeza de que ele estava com elas.
– Você acha que será capaz, algum dia, de me dar as coordenadas para chegar até a esse local? — indagou.
Isabella fitou as mãos durante um momento, pensando no que ele havia acabado de perguntar. Ela havia pensado nisso durante alguns dias, porque sabia que o detetive perguntaria aonde os corpos tinham sido enterrados quando ela ponderava se deveria contar ou não à verdade a ele. Ela queria dizer que não, que tal coisa nunca aconteceria. Queria falar que tinha medo pelos pais, que não podia deixar que nada acontecesse a eles, que Royce tinha os ameaçado.
Mas ela não queria que o detetive desistisse dela novamente.
– Ele vai machucar os meus pais — ela sussurrou, ainda fitando as mãos. — Ele disse… E eu sei que ele pode fazer isso, Edward.
O detetive sentiu seu coração apertar quando ele a ouviu dizer seu nome daquela maneira, sua voz mal passando de um sussurro. Ele sentiu vontade de se levantar e puxá-la para um abraço, mas ele não fez isso. Ele pegou as mãos dela, porém, e as apertou, antes de pedir que ela o olhasse.
– Eu sei que é difícil para você confiar, Isabella — ele murmurou. — Mas eu te prometo que não deixarei nada acontecer com os seus pais, ok?
Ela engoliu em seco e assentiu, mas demorou alguns segundos para dizer mais alguma coisa.
– S-se… alguém ligasse para a delegacia e fizesse… — ela parou por um momento, tentando reorganizar as palavras. — Se alguém fizesse uma denúncia anônima sobre ter visto corpos sendo enterrados… vocês teriam que envestigar, certo?
O detetive franziu a testa por um momento, sem entender aonde ela queria chegar com aquilo, antes de assentir.
– Então… eu vou… — Isabella tornou a parar de falar.
Ela fitou as mãos novamente, parando para pensar, durante um minuto, se aquela era mesmo o certo a se fazer. Por fim, ela respirou fundo, e o fitou novamente, o rosto sério.
Se eles fossem mesmo fazer aquilo, teria de ser do jeito dela.
E ela teria que deixar tudo pronto e se certificar de que nada desse errado.
– Eu não vou te dizer aonde o local fica — ela murmurou. O rosto de Edward caiu um pouco e ele abriu a boca, provavelmente para tentar convencê-la a dizer, mas a morena foi mais rápida e continuou a falar, antes que ele continuasse a tirar as suas conclusões. — Eu vou te levar até lá.
O detetive ficou calado por um momento, pensando que talvez ele tivesse imaginado aquele momento. Ele fitou Isabella, esperando que ela dissesse mais alguma coisa, mas a morena apenas continuou-o fitando-o, o rosto sério.
– Você vai me levar até lá? — ele indagou, ainda meio confuso. — Me levar até o local?
Com as mãos trêmulas e o coração acelerado, a morena engoliu em seco e assentiu.
– Eu vou — murmurou. — Mas vai ser do meu jeito e eu vou planejar. Nada pode dar errado.
Ela não ficou muito na casa do detetive depois de ter dito isso. Prometeu que resolveria tudo e que ligaria para ele quando tudo estivesse pronto. Ela ainda não tinha ideia de como faria tudo que planejara, mas precisava começar a tentar.
– Não me ligue por enquanto, ok? — ela murmurou, já caminhando para a porta. — Eu prometo não demorar… muito. Só… confie em mim nessa, ok? Eu contarei mais uma vez que estivermos no carro a caminho de lá.
O detetive se encontrava a cada minuto mais confuso, sem conseguir entender o motivo de Isabella estar agindo daquela maneira. Ele queria insistir que ela dissesse naquele momento ou que ao menos contasse o que ela estava planejando para, dessa forma, ele poder ajudar. Ele não falou nada, porém. Apenas assentiu e ficou a observando se afastar, enquanto se perguntava quanto tempo ela demoraria para entrar em contato.
Ele não sabia se seria capaz de esperar.
Edward saiu não muito depois que ela deixou a casa dele, porém. Assim que ele chegou à delegacia, ele começou a pesquisar sobre tudo o que ela havia dito — principalmente sobre a mulher que tinha prometido aos pais de Royce que o levaria até a capital para estudar -, mas ele não conseguiu muito. Nada com o nome de Royce surgiu, o que aumentava ainda mais a suspeita do detetive de que ele usava um nome falso. Ele tentou buscar informações sobre a família de Royce também, mas, mais uma vez, não teve sucesso.
Com um suspiro frustado, ele fechou o notebook e apoiou a cabeça nas mãos. Por mais que estivesse nervoso e ansioso, e por mais que quisesse que Isabella ligasse logo e acabasse com aqueles sentimentos, ele sabia que, naquele momento, não havia nada a se fazer.
Ele só teria que esperar.
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Nos próximos dias que se passaram, Isabella fez de tudo para que o pequeno plano que ela estava montando desse certo. Ela se lembrava muito bem das conversas que havia tido com Royce, afinal. Havia uma conversa em especial que ela nunca esqueceria, algo que Royce havia contado durante um dos castigos finais que a morena teve. Ela sempre havia vivido com essa possibilidade, sempre tinha lidado com isso tentando viver a sua vida da maneira mais normal possível. Mas para mostrar ao detetive o local onde ele enterrava os corpos… Bella sabia que, muito embora ela provavelmente estivesse exagerando, ela não podia arriscar.
Não com aquilo. Não quando a segurança das pessoas que ela amava estavam em jogo.
Quando ela tinha certeza de que tudo estava pronto, ela aproveitou o seu dia de folga para mandar uma mensagem para o detetive e pedir para ele encontrá-la na sua casa à noite. O planejanemento havia levado um tempo a mais do que ela esperava, devido ao seu horário no hospital, mas a morena havia enfim conseguido.
Ela já estava pronta quando Edward chegou. Ele começou a fazer perguntas, mas ela apenas murmurava algumas respostas, enquanto verificava tudo. Quando ela tinha terminado de verificar tudo, ela se virou para ele e estendeu a mão.
– Preciso que você deixe seu celular aqui — ela murmurou. Ele abriu a boca para protestar, mas Isabella continuou a falar antes que o detetive tivesse a chance. — Por favor… eu provavelmente estou exagerando, mas… confie em mim, ok?
Edward a fitou durante um tempo, antes de assentir e deixar o celular com a morena. Isabella colocou os aparelhos dos dois na mesa da cozinha e caminhou até a porta dos fundos da casa, com o detetive em seu encalce.
Eles não trocaram muitas palavras enquanto ela trancava a casa. Eles andaram um pouco, Edward um pouco surpreso ao notar que a propriedade de Isabella era maior do que ele esperava. O ruivo franziu a testa quando viu um carro parado não muito longe dali, já perto de uma saída que dava para uma rua. Ele não fez nenhuma pergunta naquele momento, no entanto. Esperou que os dois estivessem no carro, com o mesmo já em movimento, antes de se voltar para Isabella.
– Eu… não é que eu não confie em você, Isabella… — ele começou. — Mas eu não estou entendendo nada.
A morena soltou um suspiro e engoliu em seco, lançando um rápido olhar para o detetive, antes de voltar a sua atenção para a estrada. Ela se encontrava a cada minuto mais nervosa. Podia sentir suas mãos suarem e começarem a escorregar do volante do carro, assim como podia sentir seu coração acelerar. Deus, seria ela mesmo capaz de ir até aquele lugar com o detetive? Ela nunca tinha ido ali… não desde…
Ela balançou a cabeça, querendo afastar aqueles pensamentos da mente.
– Em uma de nossas últimas conversas… — ela tornou a engolir em seco. — E-ele… ele me disse que ele tinha um contato. Uma pessoa que devia muito a ele…
Edward arregalou os olhos.
– Eu acredito que essa pessoa esteja envolvida com a lei de alguma forma. — Isabella continuou. Ela sabia que demoraria um pouco para chegarem ao local, mas já podia se sentir começando a vacilar. — Talvez eu esteja errada ou talvez eu esteja exagerando, mas eu não posso arriscar, detetive. Não com meus pais em jogo.
Não com você em jogo.
O pensamento foi tão rápido e forte que fez com que Isabella perdesse, por um segundo, o controle do carro. Ela nunca tinha pensado nisso, no fato de querer proteger o detetive também. E tal pensamento a assustou e fez sentir algo que ela não sabia explicar.
E ela não sabia se gostava disso.
– Isabella? — O detetive chamou, parecendo um pouco assustado. — Está tudo bem?
Ela engoliu em seco e assentiu, mas não foi capaz de olhá-lo. Continuou a dirigir, mas a cada quilômetro percorrido ela sentia seu coração acelerar e suas mãos tremerem. Ela não sabia se seria capaz de terminar o percurso.
Quando faltavam cerca de dez minutos para eles chegarem, de repente foi demais para ela. Ela conseguia reviver o medo que sentira quando Royce a levara até ali, conseguia rever as imagens do túmulo da mãe dele, do corpo…
Ela não conseguiria.
Sentindo fraca e com raiva de si mesma, a morena encostou o carro e enterrou o rosto nas mãos, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, o barulho do seu choro tomando conta do carro. Ela não teve coragem de olhar para o detetive, ela não teve coragem de dizer a ele que havia fracassado.
Ele não disse uma palavra também. Apenas saiu do carro e deu a volta, abrindo a porta dela e a tirando do carro, após retirar o cinto de segurança. Ela se viu, então, nos braços dele, a cabeça encostada no peito, os braços fortes envolvendo-a. Ela foi se acalmando aos poucos, suas mãos segurando a camisa do detetive com força. Ele esperou que ela se acalmasse, mesmo que tenha demorado um pouco, antes de afastá-la e segurar o rosto dela entre as mãos dele.
– É demais, não é? — ele sussurrou. Ela assentiu, feliz por ele ter entendido. — A gente não precisa fazer isso, ok? Eu posso dirigir até a sua casa… Acredito que eu posso voltar aqui depois, já com uma equipe…
Ela balançou a cabeça, interrompendo-o. Ela sabia que não estava pronta, podia sentir isso, mas podia sentir, também, que deveria tentar.
– Não, eu quero… — sussurrou. — Só… só dirija, ok? Eu não acho que posso fazer isso.
Foi extremamente difícil para ela voltar para o carro e, com o detetive atrás do volante, começar a explicar para ele o restante do caminho.
E então, eles chegaram.
O detetive soube imediatamente que aquele era o local, mesmo estando escuro. A luz vinda do carro era suficiente para iluminar boa parte dos túmulos, além do fato da reação de Isabella ter ajudado. Ele a sentiu congelar e, logo em seguida, fechar os olhos, parecendo ser incapaz de olhar. Ele sabia que ela seria incapaz de sair do carro também. Ele estendeu a mão e pegou a dela, apertando-a gentilmente, enquanto observava o local, memorizando-o, já que ele pretendia voltar ali com uma equipe pela manhã.
Ali, debaixo daquela terra, estava grande parte das respostas que o detetive procurava.
E ele mal esperava para encontrá-las.
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