Daylight

21 Capítulo Vinte


Notas iniciais
Mais um capítulo com revelações para vocês :D Leiam a N/A, por favor, ok?

– Emm? – Sua voz não passava de um sussurro. – Será que você consegue o endereço da casa do detetive Cullen para mim?

Agora, ela só tinha que esperar.

–x-

Royce acordou naquela manhã com um sorriso satisfeito no rosto. Ele se esticou na cama e bocejou, rolando de um lado para o outro, enrolando um pouco para se levantar. Ele olhou as horas, talvez cerca de meia hora mais tarde, e suspirou.

Por mais que quisesse ficar na cama até mais tarde, sabia que tinha que ir até o segundo esconderijo hoje. Já fazia alguns dias que ele não ia e gostaria de verificar como as duas garotas estavam indo.

Levantou-se e se arrumou rapidamente, com pressa para resolver aquilo logo. Ele tinha tentado ir há alguns dias, mas tivera a impressão de estar sendo seguido. O detetive Cullen não acreditara no álibi que ele dera, tinha certeza disso, então provavelmente tinha colocado algum policial para seguí-lo.

Mas Royce vinha prestando a atenção e como não alterara a sua rotina há alguns dias, ele sabia que eles tinham desistido. Ele estava atento a isso agora.

Afinal, ele tinha seus contatos. Não teria chegado tão longe se não fosse por eles.

Por precaução, porém, ele deu algumas voltas e vigiou o trânsito bem, apenas para verificar se estava certo ou não, antes de seguir para seu segundo local. Ele nunca havia precisado dele antes, ia nele pouquíssimas vezes, apenas para fazer uma manutenção no local, mas agora esse seria o seu ponto principal.

Royce sabia que não podia voltar para o primeiro mais. Ele tinha sido comprometido e provavelmente sempre seria vigiado.

O loiro demorou cerca de uma hora para chegar até o local desejado, preferindo pegar a rota mais distante. Ele estacionou o seu carro mais longe do que de costume e trocou por outro, usando luvas e tudo. O segundo carro, aquela segunda casa... tudo parte de um plano B.

E nada daquilo se encontrava em seu nome, nada podia levá-lo até a ele.

Algo que ele tinha aprendido ainda muito novo e que agora vinha sendo útil. Algo que ele tentara ensinar a Isabella, antes de ela fugir. Novamente, somente ela podia entregá-lo. Ele cometera o erro de levá-la até aquele lugar, afinal, um mês antes de ela ter tentado fugir.

Ele abriu a porta com cuidado e verificou todo o local, antes de subir as escadas, já com o saco de comida e bebida que havia trazido. Esticou-se e puxou uma escada do teto do segundo andar e subiu. Mais alguns passos e mais uma porta destrancada...

E as duas mulheres que ele havia sequestrado estavam ali, sentadas no canto, abraçada uma a outra, olhando-o, os olhos arregalados de medo.

– Bom dia – ele sorriu. – Desculpem-me por ter sumido por alguns dias, mas as coisas andam agitadas...

Ele sorriu quando viu que os recipientes deixados estavam vazios e os substituiu com os novos. Abriu a pequena geladeira que estava ali e colocou água suficiente para alguns dias, assim como frutas e outros alimentos gelados. Ele não fazia isso, geralmente, mas como tudo estava uma bagunça, precisava ter certeza de que elas sobreviveriam sem ele durante alguns dias, caso algo acontecesse. A última coisa que precisava era chegar ali e encontrar uma delas morta... ou as duas.

Ele não tinha tempo de sequestrar outra agora.

Depois de ter guardado toda a comida e de ter feito com que comessem um pouco, levou cada hora uma para tomar banho, naquele mesmo pequeno andar, e depois buscou algumas caixas.

Era a hora da primeira lição delas.

Exatamente como tinha feito com Isabella, ele fez com que elas olhassem os álbuns com as fotos de outras garotas, quase todos, menos o da morena – o único álbum que nunca fora completo, já que ela havia escapado antes. Ele sorriu quando viu a cara deles, a expressão...

E quando elas terminaram de ver todos eles, obrigadas, é claro, horas mais tarde, Royce se encontrava extremamente satisfeito.

– Tentarei voltar dentro de um ou dois dias – avisou. – Não tentem fugir, por favor. Consigo vigiá-las de onde estou e, garanto, vocês não vão gostar do meu castigo.

Ele estava quase saindo do local quando sentiu algo atingir o seu braço, fazendo-o gritar de dor. Ele rapidamente se virou e segurou a mais nova delas pelo braço, arremessando-a pelo quarto. Ele viu o prato que ela havia jogado nele no chão, quebrado, e a olhou, seus olhos cheios de raiva.

– Sua idiota! – gritou.

Sabendo que não tinha tempo para castigá-la naquele momento, já que precisava ir até o orfanato, simplesmente agarrou-a pelos cabelos e a trancou em um quarto minúsculo, com apenas uma única janela, fechada com cadeados e com grade e madeira protegendo-a, um único feixe de luz entrando. Jogou-a ali, de qualquer jeito, junto com uma garrafa de água.

– Espero que aprenda a não tentar fugir – afirmou, antes de sair.

Sem mais única palavra, ele trancou tudo e se dirigiu até o carro. Trocou-os novamente em certo momento e partiu para o orfanato.

Durante o caminho, pegou o celular e conferiu como as coisas estavam indo com Isabella. Um sorriso nasceu em seu rosto quando seu informante lhe disse algo que o deixou extremamente satisfeito e que fez com que seu dia valesse completamente à pena.

Isabella Swan e Edward Cullen não entravam em contato há exatos três meses.

_

Três meses.

Edward Cullen achava que ficaria maluco a qualquer momento. Distrair-se com o trabalho já não ajudava mais, nem mais nada do que ele fizesse. Ele passava horas com os pais, com Rosalie, com alguns colegas de trabalho jogando conversa fora, passava horas e mais horas trabalhando, mas não adiantava.

Ele só conseguia pensar em Isabella.

Ele não a via há três meses. Pegava-se olhando o celular, verificando seu e-mail, verificando as suas ligações na delegacia, mas... nada. Absolutamente nada. Não havia sequer um sinal de que ela tentara entrar em contato com ele e não conseguira.

Ela estaria bem? Ela teria se esquecido dele? Teria voltado à antiga rotina como se nunca o tivesse conhecido? Ou ela esperava que ele entrasse em contato?

Seu coração acelerava toda vez que o celular tocava, informando uma ligação, ou a chegada de um e-mail... ele sempre tinha esperanças de que fosse Isabella. Nunca era também.

E ele já não tinha ideia do que fazer.

Tentou voltar a pesquisar sobre o caso. Lembrou-se de tudo o que Isabella havia falado, releu todos os relatórios, todos os arquivos... Pesquisou sobre Royce, sobre a família, sobre o orfanato. Procurou por qualquer brecha que pudesse ajudá-lo a chegar a algum lugar.

Mas embora fosse tudo suspeito, embora ela soubesse dizer que havia algo a mais – principalmente na ficha de Royce, vazia e limpa demais –, o detetive não conseguira nada. Ele nunca conseguia nada de novo.

A maior chave para aquele caso ainda era Isabella Swan.

Nenhuma nova garota fora achada, nenhuma desaparecia... O que os deixava sem nada novo para pesquisar.

– Edward?

O ruivo balançou a cabeça e saiu de seus devaneios, fitando Ben. Seu parceiro de trabalho entrou na sala e fechou a porta, parecendo meio nervoso, o que fez com que Edward franzisse o cenho.

– Algum problema? – indagou, largando a caneta e se recostando na cadeira, enquanto cruzava os braços. – Algo novo?

Ben suspirou.

– Eu sei que o chefe não te quer na casa que o sequestrador mantinha – começou –, já que você foi atingido lá perto, mas... será que você poderia dar uma olhada? Já fui lá diversas vezes, outros já foram, mas não conseguimos encontrar nada... Talvez, se você olhasse, pudesse se lembrar de algo...

O detetive suspirou. Ele não tinha entendido o chefe quando pedira para visitar a casa, e ele dissera não. Não entendia por que podia continuar a pesquisar sobre o caso, mas não entrevistar a mulher que mentira por Royce ou visitar tal estabelecimento.

– O chefe... – Edward começou.

Ben suspirou.

– Eu meio que conversei com ele – disse. – Ele não disse com todas as palavras, mas acredito que ele fingirá que não sabe que você foi lá.

Edward sorriu.

– Por mim, tudo bem. – Colocou-se de pé e pegou a sua jaqueta. Ele fitou Ben, ainda parado perto da porta, e ergueu uma sobrancelha. – O que estamos esperando?

_

Ao contrário da primeira vez, quando olhavam casa por casa, os detetives não demoraram muito para achar a casa. Edward estacionou perto dela, lembrando-se de tudo o que tinha acontecido há pouco mais de três meses, desejando que, naquele dia, ele tivesse tido a chance de ter entrado ali.

Royce já deveria ter limpado tudo há muito tempo, afinal.

Com Ben seguindo silenciosamente ao seu lado, Edward caminhou até a porta da frente, fechada e com as fitas amarelas policiais na frente. Ele e seu parceiro calçaram luvas, antes de puxarem a fita e abrirem a porta.

Ao contrário do que Edward esperava, a casa não estava completamente vazia.

Parecia que alguém havia saído ali às pressas, no entanto. Ele observou algumas gavetas no chão, alguns papéis espalhados, algo jogado... Andou pelos cômodos, tentando imaginar Isabella ali, anos atrás, fazendo tudo o que ela havia contado a ele.

Não pôde deixar de se lembrar como havia sido quando ela havia contado das vezes que cozinhara e preparara comida para Royce, assim como as bebidas. Ele andou pela cozinha, tentando não imaginar a cena, mas não conseguindo evitar que o seu estômago embrulhasse ao pensar nela.

Depois de ter andado por todos os cômodos daquele andar, ele desceu as escadas, sentindo-se estranho. Uma coisa era imaginar tudo o que Isabella havia falado, outra era ver e imaginar a cena. Ele andou até um quarto de tamanho médio, onde havia um colchão e algumas coisas no chão. Sentiu seu coração apertar quando viu as janelas trancadas, a precária situação do local, sofrendo ao imaginar uma garota de quinze anos ali, sozinha, sem saber o que aconteceria ali com ela.

Foi demais para o detetive.

Ele apoiou uma mão na parede e fechou os olhos, tentando, a todo custo, tirar as imagens da sua cabeça. Mas não conseguia. Ele podia ver, quase como se a cena estivesse acontecendo naquele momento, Isabella, mais nova, ali, sentada no colchão, seus olhos na porta, com medo, querendo a sua mãe e o seu pai. Ele não sabia quase nada do que havia acontecido a ela, mas o pouco que sabia foi o suficiente para que fizesse com que ele sentisse ainda mais ódio de Royce.

E ódio de si mesmo, por ter desistido tão fácil da morena.

Depois daquilo, ele não pode ficar muito mais tempo ali. Como não havia nada que pudesse ajudá-los, nada que Royce tinha deixado para trás, os dois detetives foram embora rapidamente, trancando a porta e recolocando a fita. Edward permaneceu perdido em pensamento até chegarem à delegacia e naquela noite, quando seu turno acabou, ao invés de ficar até mais tarde como vinha fazendo nos últimos dias, ele foi para casa.

Por mais que tentasse, ele não conseguia tirar as cenas da sua cabeça.

Imaginou Isabella, assustada, preparando bebidas para Royce, na noite que ela havia fugido. Imaginou-a abrindo a porta e correndo, à noite, tentando encontrar uma rua, com medo de seu sequestrador achá-la e levá-la de volta para dentro.

Ele também se lembrou das fotos que encontrara em sua casa certa vez, imaginando as cenas por trás delas. Tentou pensar em outra coisa, em qualquer coisa, mas não conseguiu.

Foi praticamente impossível dormir naquela noite. Ele sabia que eles tinham encontrado o local certo, sabia que era ali que a médica tinha vivido por onze meses, mas era difícil de acreditar, quase impossível.

Não podia ser verdade.

No outro dia, ele tornou a voltar cedo para casa, pensando no que deveria fazer. Como ele poderia obrigar Isabella a querer reviver tudo o que havia acontecido com ela durante os meses que vivera ali? Se ele não conseguia nem imaginar, como teria sido para ela ter que reviver, dia após dia?

No entanto, ele ainda achava que ela deveria falar, que ela deveria denunciar Royce, algo que Edward queria mais do que nunca. Ele sabia que Isabella não conseguiria seguir em frente, de fato, enquanto ele estivesse solto por aí. Um fechamento naquele caso a ajudaria, ele sabia disso.

Mas ele tinha falado com ela que havia desistido. E não sabia se era tarde demais para voltar atrás.

Ele se sentou no sofá da sua casa e fechou os olhos por um momento, desejando que estivesse cansado o suficiente para conseguir dormir. Estava prestes a pegar o controle da televisão e tentar assistir a algo para se distrair quando a campainha tocou.

O ruivo ponderou por um momento ignorar e continuar ali, sentado, mas pensando que talvez pudesse ser sua mãe ou seu pai – embora ele duvidasse disso –, Edward se levantou e caminhou até a porta, abrindo-a sem nem se preocupar em olhar pelo olho mágico.

E a pessoa que ele viu ali fez com que ele congelasse completamente.

– Isabella? – ele soltou, algum tempo depois, quando conseguiu encontrar a voz.

A morena torceu as mãos e levou a mecha do cabelo atrás da orelha, sem olhá-lo nos olhos, durante um tempo. Respirou fundo e fechou os olhos, quase como se estivesse tentando criar coragem de algo, antes de abri-los e levantar a cabeça.

E ela parecia ainda mais perdida do que Edward estava.

Isso fez com que ele tivesse vontade de apertá-la em um abraço, ainda mais depois de ter ido visitar o local onde ela tinha sido mantida em cativeiro por mais de dez meses.

– E-eu queria falar com você – ela soltou. E Deus, Edward só tinha se dado conta de como sentia falta dela naquele momento. – Eu posso entrar?

Ele piscou, surpreso, sem ainda acreditar que ela estava ali, e assentiu, afastando-se um pouco da porta, dando passagem para que ela entrasse. Fechou a porta assim que ela passou e apontou para o sofá, um pedido silencioso para que ela se sentasse.

Enquanto ela caminhava até o sofá, Edward a observou, usando esses minutos para se recompor. Ela usava uma calça jeans e uma blusa leve, de frio, assim como tênis. Seus cabelos, longos, estavam soltos, e ela mexia neles toda hora, talvez porque estava tão nervosa quanto ele.

Mesmo vestida de forma casual e com nenhuma maquiagem cobrindo seu rosto, ela era linda.

Querendo afastar aquele pensamento da cabeça, o ruivo caminhou até o outro sofá e se sentou, fitando-a com atenção. Ele precisou pigarrear e balançar a cabeça, antes de conseguir pensar em algo para dizer a ela.

– Você queria falar comigo? – indagou. E então, lembrando-se de quando havia dito que ela podia procurá-lo caso precisasse de algo, ele arregalou os olhos, com medo de que algo ruim havia acontecido com ela. – Aconteceu alguma coisa?

A morena encolheu os ombros, mas, em primeiro momento, não disse nada, sua cabeça baixa. Isabella tentou dizer a si mesma que ela estava pronta para dizer aquilo para ele, que podia fazer aquilo, que ela podia mostrar a ele que um dia talvez fosse capaz de dizer tudo, mas ela não esperava que fosse ficar sem palavras quando o visse.

Ela não esperava que fosse se sentir daquela maneira quando ele abrisse a porta.

– E-eu... – ela engoliu em seco. – Eu queria que você soubesse...

Ela parou novamente, xingando-se mentalmente, antes de erguer a cabeça e olhar para o rosto dele. Sentiu seu coração acelerar e suas mãos suarem, o que achou estranho. Respirou fundo e balançou a cabeça, querendo se controlar.

– Eu queria te contar que procurei o Dr. Hale – soltou. – Estou indo a todas as sessões semanais.

Edward ficou sem palavras durante algum tempo, sem conseguir acreditar que ela havia dito aquilo mesmo. Ele sorriu, então, sentindo-se verdadeiramente feliz por ela ter procurado ajuda, principalmente depois de ter visto aquela casa no dia anterior.

– Eu não me sinto pronta para contar tudo o que aconteceu, tudo o que eu passei – ela murmurou. – Não sei se posso confiar nele, mas eu...

Ela parou novamente e fitou as mãos, cruzadas em seu colo.

– Eu só queria que você soubesse que estou disposta a contar tudo – murmurou. – Não sei quanto tempo vai demorar... sei que você já desistiu de esperar e que talvez eu não seja mais útil, mas eu só queria que soubesse que estou tentando e que um dia talvez eu consiga... e que eu...

Ela parou quando percebeu que já estava começando a falar coisas que talvez não fizessem sentido e que demonstravam quão desesperada ela estava. Fechou os olhos, quase esperando que o detetive a expulsasse de casa e dissesse que era tarde demais, somente para ser pega de surpresa e sentir algo segurando a sua mão.

Ela abriu os olhos e ofegou quando percebeu quão próximo ele estava. Ele havia se inclinado e estava segurando a sua mão, um pequeno sorriso no rosto. Ela não soube explicar porquê, mas vê-lo sorrir daquela maneira imediatamente a acalmou. Antes que se desse conta, ela estava sorrindo de volta para ele e tendo que se controlar para não se jogar em seus braços e abraçá-lo com força.

– Eu acho isso ótimo, Isabella – ele murmurou. – Acho que vai fazer muito bem a você, mas falei sério naquele dia... não vou obrigá-la a dizer. Caso queira, estarei aqui. Mas não vou te obrigar a nada.

Ela assentiu.

– Eu sei – ela respondeu. – Só tem coisas que eu... não sei como contar. Eu não sei se posso contar isso a todos, detetive. Eu não sei se posso ir ao tribunal, em um julgamento, com câmeras e todos sabendo disso e...

Ela parou, então, estremecendo, e se afastou dele. Colocou-se de pé, sentindo que não conseguia ficar quieta mais, e o fitou.

– Eu só quero que tenha paciência, ok? – ela disse, por fim. – Não sei quando ou como, nem sei se terei coragem, mas... talvez um dia...

Edward assentiu. Ele sabia que não podia falar com ela que havia desistido novamente. Sabia que não podia ficar três meses sem ter notícias dela, sem vê-la, embora não entendesse tal coisa. Mas sabia também que não iria conseguir obrigá-la a narrar o que havia acontecido com ela. Principalmente depois do que vira no dia anterior.

– Eu tenho muito o que conversar com o Dr. Hale ainda – ela informou. – Eu só queria que você soubesse disso... que eu estou tentando.

Edward tornou a assentir.

– Eu aprecio isso, Isabella – ele respondeu. – E caso você necessite de algo, eu estou aqui, ok? Assim que quiser me contar alguma coisa.

Ela assentiu. Tentou pensar em algo mais para dizer, querendo ficar ali mais tempo, mas ela sabia que já havia dito tudo o que precisava. Agora que ela tinha visto o detetive, era como se esses três meses não tivessem existido. Ela não se lembrava da última vez que se sentira assim, tão calma.

– Eu... eu posso te ligar? – Ela hesitou na porta, não querendo ir ainda.

O detetive, novamente, precisou conter a vontade de abraçá-la. O que havia de errado com ele?

– Claro, Isabella – sorriu. – Sempre que quiser.

Ele a observou partir, então, ainda sem conseguir acreditar no que havia acontecido. Ela havia mesmo o procurado? Ele esperou que ela entrasse no carro e desse partida, ainda assim ficando ali durante algum tempo, parado. Por fim, ele entrou no apartamento, um sorriso no seu rosto.

Isabella havia o procurado. Isabella o ligaria.

O detetive pegou o celular e o apertou na mão, mal podendo esperar para ele tocar e escutar a voz dela.

Ela o ligaria.

E ele mal podia esperar.

_

Isabella não tinha esperança de que as coisas progredissem tão cedo nas suas consultas com o Dr. Hale . Fazia dois meses que ela se consultava com ele e eles ainda não haviam falado de nada que pudesse ajudá-la com Edward. Ela se sentia mais à vontade com o psiquiatra, mas ela não sabia se podia confiar nele. Não o suficiente para contar o que havia acontecido com ela tantos anos atrás.

Ela entrou no consultório dele naquele dia cumprimentando-o cordialmente, como sempre fazia. Sentou-se e esperou enquanto ele se acomodava, quase esperando que ele começasse a fazer perguntas sobre a sua infância ou seus pais ou seus amigos, como sempre acontecia.

– E então, Isabella... – ele começou, sua ficha e caneta na mão. – Por que você não me fala do motivo de ter escolhido medicina como profissão.

O sorriso que estava no rosto da morena morreu imediatamente, sabendo que não podia responder aquela pergunta. O detetive Cullen sabia a meia verdade, mas ela nunca falara mais do que isso. Nunca dissera a ele que ele só estava ciente da metade.

Ela nunca havia falado com ninguém o verdadeiro motivo de ter se tornado médica.

E ela sabia que não podia falar isso para seu psiquiatra.

– Algum problema, Isabella? – Jasper indagou, alguns minutos depois, quando Isabella não falou mais nada.

Ela engoliu em seco, e fitando as mãos, começou a falar.

– Ninguém nunca soube o porquê de eu ter escolhido a medicina – ela murmurou, alto o suficiente para o psiquiatra ouvir. – O detetive que eu quero ajudar adivinhou a meia verdade, mas...

Ela parou, então, incapaz de dizer mais alguma coisa.

– Mas?... – Jasper incentivou.

Ela levantou a cabeça e sorriu de forma triste para ele.

– Mas não sei se algum dia terei coragem de contar a ele tudo – concluiu.

Jasper assentiu, anotando rapidamente algo na ficha de Isabella, antes de tornar a olhá-la.

– E por que, Isabella? – perguntou. – Por que você não pode contar para ele?

Ela pensou por um momento, antes de suspirar e encolher os ombros.

– Porque eu sei que vai mudar a opinião dele sobre mim – ela contou. – Eu sei que ele vai me odiar por isso. E se um dia alguém mais souber, essa pessoa me odiará também.

Novamente, o Dr. Hale fez uma anotação.

– Mas como você espera ajudá-lo se não consegue contar tudo a ele? – ele indagou. – Se essa informação que você esconde é importante para o caso, como ele vai resolvê-lo?

Isabella engoliu em seco e assentiu, sabendo que ele estava certo. Entretanto, só de pensar no rosto do detetive quando ela contasse para ele... só de imaginar passar não só três meses sem vê-lo, mas muito mais que isso... ela não podia contar. Ele a odiaria. Ele nunca mais iria querer vê-la.

– Porque ele vai me odiar – ela sussurrou, sentindo as lágrimas encherem seus olhos. – Porque ele nunca mais vai querer me ver. Eu sei disso. E eu... eu não posso...

Incapaz de continuar, ela parou de falar. Como odiava chorar, fechou os olhos, querendo impedir que as lágrimas caíssem. Ela pressionou as mãos no rosto e respirou fundo, antes de olhar para o psiquiatra.

– Eu sei que vou ter que contar – ela murmurou. – Sei que mais cedo ou mais tarde, ele vai ter que saber, mas... e se ele me odiar?

Ela sabia que estava soando confusa, mas nem ela mesma sabia mais o que pensar. O que ela escondia de Edward e de todos era o que mais a impedia de contar tudo sobre Royce, de testemunhar. Todos a julgariam. Todos a odiariam.

E só de pensar nos rostos dos seus pais quando eles descobrissem... ela não conseguia nem mesmo pensar nisso. Ela não suportaria se eles começassem a odiá-la.

– Mas e se ele não odiar? – Jasper devolveu com uma pergunta.

Durante o resto da consulta, Isabella pensou naquela pergunta do psiquiatra, assim como quando ela estava em casa. Ela pegou o seu celular, disposta a ligar para o detetive, mas logo desistindo.

Ela não podia contar.

Ele a odiaria, ela tinha certeza.

Ela continuou a falar sobre isso com o doutor Hale à medida que as semanas iam passando, sem Isabella nunca revelar o verdadeiro motivo de ter escolhido a medicina. Ela sempre havia escondido tal coisa bem, muito embora se lembrasse dela todos os dias e se odiasse por isso. Entretanto, como Jasper insistia em falar disso em cada sessão, Isabella começou a pensar nisso com mais frequência.

E a culpa começou a crescer.

O detetive e ela haviam retomado o contato, mas a conversa entre eles nunca demorava muito, porém. Eles falavam mais via telefone e ela sempre dava um jeito de desligar, pensando no que ele falaria caso ela contasse a verdade. Ela chegara a abrir a boca para contar diversas vezes, mas não podia. A informação o ajudaria bastante, ela sabia. Ele conseguiria avançar o caso de uma forma que ninguém mais havia conseguido.

Ele não a pressionava mais para conseguir respostas sobre o seu passado, exatamente como havia dito que faria, o que deixou Isabella surpresa e um pouco assustada também.

E se ele tornasse a desistir dela?

Ele comentava algumas vezes coisas que ela já havia contado, provavelmente sondando, mas nada mais do que isso. Ele chegou até a contar que havia ido até a casa onde Royce a tinha mantido como refém, bem sutilmente.

E isso só serviu para aumentar a culpa de Isabella.

Assim como fez com que ela se lembrasse das palavras que ele havia dito três meses atrás, antes de sair de sua casa, dizendo que havia desistido.

Como você consegue, desde que conseguiu fugir, ver tantas garotas sendo mortas e não dizer nada?

Será que seria tão ruim assim, dizer para ele aquilo que ela guardava há tantos anos? Será que ele realmente a odiaria?

Ela se pegou pensando naquilo noite e dia, só conseguindo fugir um pouco quando estava no trabalho. Continuou indo às suas sessões com o Dr. Hale e respondendo as suas perguntas, tentando confiar nele, tentando criar coragem para começar a falar sobre o que acontecera com ela...

Até que um dia ela resolveu simplesmente dizer.

– Dr. Hale? – ela começou, interrompendo-o logo no começo da consulta. Ele estava querendo falar sobre a faculdade dela naquele dia. Mas ela não queria enrolar mais. – Será que podemos falar de outra coisa hoje?

Ela torceu as mãos uma na outra, esperando ele assentir.

– Claro que sim – sorriu gentilmente. – Do que você gostaria de falar?

Ela parou para pensar por um momento, antes de engolir em seco. Tantos anos haviam se passado, mas ela se lembrava como se fosse ontem. Sua vida mudara bruscamente ali, afinal.

– Do meu aniversário de quinze anos – murmurou.

Ela tremeu um pouco com a lembrança, não precisando de muito esforço para trazê-la à tona. A morena sonhava com ela com frequência, afinal.

– Seu aniversário de quinze anos? – Dr. Hale rapidamente fez uma anotação. – O que você gostaria de falar sobre ele?

Isabella ajeitou-se no sofá e respirou fundo, antes de começar a falar. Ela narrou como a festa havia sido montada, como os amigos tinham ficado felizes por não ter nenhum pai presente na festa. Contou sobre a dança, a música... Até chegar a parte da amiga pedindo pelas luzes extras...

– Eu fui até o quintal pegar as luzes, quando escutei alguém gritando – estremeceu ao se lembrar dessa parte. – Um cara alto, loiro e de olhos azuis apareceu, com um cachorro no colo... Ele pediu ajuda e, embora meus pais tenham sempre falado para eu não conversar com estranhos, eu fui...

Ela parou por um momento, antes de prosseguir.

– Nós fomos até uma van e eu abri a porta de trás para ele... – disse. – Tentei ajudar com o cachorro e, após cobri-lo, fui avisar que tinha terminado... E ele me furou com uma agulha...

Isabella estremeceu, quase como se aquela noite estivesse acontecendo naquele momento.

– Eu acordei em um local completamente fechado – murmurou, fitando as suas mãos. – Me lembro de como ele era ainda hoje, mesmo tendo se passado muitos anos desde aquele dia. O cheiro... Tudo. O colchão que se encontrava no chão, a porta... As janelas eram trancadas e tinham grades, além de serem altas. Eu procurei maneiras de sair dali mais de uma vez, mas nunca achei...

Parou de falar, então, sabendo que não conseguiria dizer mais nada para o doutor naquele dia. Respirou fundo e esfregou as mãos no rosto, antes de fitá-lo.

– Eu fui sequestrada aos quinze anos, Dr. Hale – ela murmurou, um sorriso triste tomando conta de seus lábios. – O senhor provavelmente já leu sobre mim no jornal, já que eu fui a única garota que escapou com vida daquele homem... Mas o que aconteceu comigo ali me mudou completamente... Os onze meses ali me mudaram.

Ela se calou por um instante, organizando os seus pensamentos.

– Eu sei que nunca vou voltar a ser quem eu era antes de ser sequestrada – disse. – E foi o que passei lá que me fez escolher a medicina, mas sei que as pessoas pensariam mal de mim caso eu contasse. Sei o que acontecerá se eu resolver testemunhar contra o cara que me sequestrou.

Jasper Hale assentiu, sério, enquanto fazia as suas anotações. Ele parou, então, esperando que Isabella dissesse mais alguma coisa. Ele não se lembrava de ter a visto falar tanto assim, por conta própria, desde que eles haviam começado as consultas.

– Há um detetive atrás de mim há meses tentando a minha ajuda – ela continuou. – Algumas coisas eu contei a ele, outras ele viu... mas isso?

Ela parou, então, e não disse mais nada. Fitou o psiquiatra, quase esperando que ele desse, naquele momento, resposta para tudo o que ela havia falado, mesmo não tendo sido uma pergunta.

– Você pode não ter percebido ainda, Isabella, mas você confia nesse detetive. – Jasper disse, finalmente. – Você não teria contado tudo o que contou a ele caso não confiasse. Você não estaria aqui, pedindo a minha ajuda para conseguir ajudá-lo, caso não confiasse.

Ela assentiu.

– Então, acho que você sabe a resposta para o que tanto anda se perguntando – ele sorriu gentilmente para ela. – Senão, você não teria me dito tudo o que disse hoje.

Com a promessa de que eles falariam mais sobre o que ela sentira no dia que fora sequestrada, o psiquiatra encerrou a consulta, liberando Isabella. Ela permaneceu sentada no carro, com ele ainda desligado, sem saber o que fazer. Ela poderia ir para casa e ignorar o que o Dr. Hale havia dito... ou ela poderia ir até a casa do detetive e contar de uma vez.

A morena ligou o carro e dirigiu até a segunda opção, antes que mudasse de ideia. Ficou novamente parada, dessa vez em frente à casa dele, até criar coragem para sair e ir até a porta.

Ela chamou duas vezes, antes de escutar a voz dele pedindo para aguardar um momento. Seu coração acelerou quando ouviu o barulho da chave.

Ele a odiaria.

Ela tinha certeza disso.

– Isabella? – Edward franziu o cenho. Ele a estudou durante algum tempo. – Está tudo bem?

Ela assentiu.

– Posso entrar? – indagou. – Eu... eu quero te falar algo.

Achando estranho, o ruivo assentiu, dando espaço para a morena entrar. Ele a viu andar de um lado para o outro, torcendo as mãos, sem dizer nada. Tentou chamar seu nome algumas vezes, mas ela não o escutou.

Ela começou a murmurar baixinho algumas coisas, mas eram baixas demais para o ruivo escutar. Ele se aproximou, mas logo parou, sem saber o que fazer. O que tinha acontecido para Isabella agir daquela maneira?

– Eu acabo de sair de uma consulta com o Dr. Hale – ela soltou, de repente, pegando Edward de surpresa. – Nós estamos conversando sobre umas coisas... eu contei para ele que fui sequestrada e...

Edward sorriu.

– Isabella, isso é ótimo! – Ele não conseguiu se conter; abraçou-a rapidamente. A morena, porém, afastou-se rapidamente, parecendo ainda mais agitada. – Isabella?

– Ele me perguntou, há algumas sessões, a razão de eu ter escolhido a medicina – ela tornou a soltar. – E eu me lembrei de quando te contei umas coisas e... e eu nunca contei toda a verdade... o exato motivo de eu ter feito medicina.

Edward franziu o cenho, se sentindo mais confuso a cada minuto que passava.

– Eu não estou entendendo – murmurou, sincero. – O que isso tem a ver com a sua visita?

– Você vai me odiar – ela sussurrou, seus olhos castanhos arregalados de medo. – Vai me odiar...

Ela repetiu aquilo uma e outra vez, recomeçando a andar de um lado para o outro. Edward tentou pará-la, tentou fazer perguntas, mas ela só ficava repetindo aquilo e andando.

Isabella sabia que estava enrolando, sabia que deveria simplesmente falar logo, mas... ela só não queria que ele a odiasse. Não queria que ele pensasse mal dela.

Não ele.

Não aguentando mais vê-la agir daquela forma, Edward a segurou pelos ombros, fazendo com que ela o fitasse. Ele a fitou durante alguns segundos, sentindo seu coração acelerar, antes de dizer:

– Eu nunca te odiaria, Isabella... Por que você está dizendo isso?

Ela se afastou, incapaz de ficar tão perto dele quando contasse aquilo. Ela não queria ver o ódio em seus olhos. Manteve-se o mais afastado possível e cruzou os braços, sabendo que estava tremendo.

– Você vai me odiar, eu sei – repetiu, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. Ela ainda se sentia culpada, mesmo anos tendo se passado desde aquele dia. – E-eu sei que vai... todos iriam. Eu me odeio por isso.

– Por quê, Isabella? – ele indagou, se sentindo a cada minuto mais confuso. – Por que eu te odiaria?

– Porque eu sou um monstro! – Ela berrou, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Seu peito subia e descia rapidamente, e suas mãos tremiam. Ela nunca se permitia pensar naquilo e, ainda assim, aquela lembrança em especial ainda a atormentava como se tivesse acontecido há apenas algumas horas. – Porque ele me fez ajudá-lo a enterrar um corpo!

Notas finais
N/A: Olá, meninas! E então, esperavam por isso? Finalmente todos sabendo o verdadeiro motivo de Bella não se abrir e testemunhar: ela não quer que as pessoas saibam do que o Royce a fez fazer. Era para eu ter revelado isso no capítulo anterior, mas ele ficaria enorme caso eu fizesse isso, então aí está. Espero que, apesar da demora, vocês tenham gostado do capítulo. Agora, sobre a demora... sem tempo. Faculdade, provas, relatórios... Meu curso é integral, então, sempre chego em casa só à noite (com exceção de segunda-feira), e não tenho mesmo tempo para escrever. O tempo livre que tenho é para estudar, então... já viram. Consegui terminar esse capítulo num sábado à noite que tive de folga, mas estou cheia de provas nas próximas três semanas, então não sei quando conseguirei outro tempinho. Tentarei postar em breve na Unwritten, mas não garanto. Quanto a Daylight... deve demorar um pouco, mas tenham paciência: ele chega. Espero que tenham gostado! Até o próximo! PS: E agora? O que o Edward vai fazer? N/B: Aí, meu coração. Pobre Bella, tantos traumas. Esse de enterrar um corpo, foi muito triste. Imagina viver com isso tantos anos. Sei que Edward vai ajudá-la. Bjs, Lu.