Daylight
20 Capítulo Dezenove
Notas iniciais
Ele se virou e se afastou, abrindo a porta da frente e a fechando. Bella ouviu, então, o barulho do portão se abrindo, só para fechar novamente, comprovando que o detetive havia, de fato, desistido e que ela estava sozinha.
E foi quando ela deixou as primeiras lágrimas caírem.
Novamente, ela estava sozinha.
E era tudo culpa dela.
–x-
Isabella não conseguia dormir.
Ela sempre havia enfrentado problemas para dormir desde tudo o que acontecera há pouco mais de dez anos. Seu sono, outrora ocupados por sonhos que qualquer adolescente tinha, passou a ser perturbado por terríveis pesadelos. Grande parte deles eram lembranças do que havia acontecido nos meses que ela ficara fora de casa... mas havia aqueles que eram puro medo: medo de que Royce King a achasse, medo de que a levasse de volta para o cativeiro. Medo de que a matasse.
Esse medo foi o motivo dos gritos durante a noite, das insônias que ela teve ao longo dos próximos anos. Seus pais tentaram de tudo; terapias foram marcadas, viagens foram feitas, tudo para que Isabella pudesse se acostumar novamente com a normalidade e voltasse a ser aquela adolescente feliz.
Entretanto, isso nunca foi possível para ela. Toda vez que ela tentava, toda vez que ela abria a boca para contar o que havia acontecido, ela não conseguia. No fundo, a garota de quase dezesseis anos só queria se esquecer dos piores meses da sua vida. Ela achava que ela poderia fingir que nada havia acontecido caso ignorasse.
E foi isso o que ela fez.
Ela voltou à escola, ela estudou como nunca. Ela não acordava os pais à noite mais. Seus gritos, outrora tomando conta de toda a casa, agora eram abafados nos travesseiros, assim como os soluços que vez ou outra ela deixava escapar. Os sonhos não pararam, pelo contrário: só pioraram. Mas ela nunca deixou que ninguém soubesse. Ela ria para os pais, ela conversava com os amigos, ela aparentava estar bem.
Mas ela não estava. Seus pais queriam que ela voltasse ao normal, mas não tinha como. Aquela menina inocente que acreditava que nada de ruim poderia acontecer para atrapalhar a sua vida havia deixado de existir no dia que Royce decidira por sequestrá-la.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Isabella, que continuou imóvel na sua cama, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. Ela se lembrou de cada minuto do que havia acontecido enquanto esteve com Royce, desejando que pudesse se esquecer deles, de que tudo aquilo não passasse de um pesadelo.
Só que era tudo real.
Os castigos que recebera, os casos das garotas que foram sequestradas antes dela que Royce tanto falava, apontando os erros delas, contando sobre quando ele achava que ia dar certo... E o modo que ele dizia, cerca de seis meses depois que Isabella havia sido sequestrada, que ele achava que ela era a pessoa certa.
Que eles seriam grandes parceiros em breve.
Outras memórias invadiram a sua mente, mas o corpo da morena, já exausto, se entregou ao sono.
Sono que não durou muito, porém. Não havia se passado nem uma hora que ela havia dormido quando acordou gritando, sua respiração rápida, as lágrimas novamente tomando conta de seus olhos.
Ela se encolheu na cama como uma bola, seu corpo balançando para trás e para frente, tentando pensar em coisas boas.
Lembrou-se de quando havia recebido a carta da faculdade que havia escolhido, dizendo que ela havia sido aceita. Lembrou-se de como tinha sido bom deixar a cidade para trás e começar uma nova vida. Ela conversava com os pais sempre, mas quase nunca visitava. Poucas pessoas a reconheciam na faculdade, quase ninguém sabia que ela era a garota que havia sobrevivido a um sequestro e que passara onze meses em cativeiro.
Mesmo assim, embora ela tivesse deixado a cidade, os medos nunca a deixaram. Ela nunca confiou em ninguém, nunca se permitiu ter amigos. As lembranças estavam sempre ali também... assim como os pesadelos.
Mas ela deu um jeito de contornar todos esses problemas, deu um jeito de aprender a se defender caso alguém tentasse levá-la novamente. Ela participou de aulas de yoga, de boxe, entrou na academia, aprendeu a usar uma arma... Quando ela voltou para casa, porque seus pais precisavam dela, já formada e terminando a sua residência, Isabella se sentia melhor. Ela reformou a casa, ela colocou câmeras, ela construiu um quarto do pânico, ela arrumou um excelente lugar para a sua arma... Ela se sentia segura ali.
Entretanto, nem mesmo aquela casa podia protegê-la dos pesadelos. Nem as aulas que tivera, nem o fato de saber que havia uma arma logo ali, próxima a ela. Eles continuaram a persegui-la. Todas as noites, sem exceção.
Até o dia que Edward Cullen dormiu na sua casa.
Ela não sabia se havia sido só uma coincidência, mas já deixara de acreditar nelas há muito tempo. aquela tinha sido a primeira e única noite que ela dormira e acordara completamente descansada, sem ter acordado diversas vezes durante à noite... Foi reconfortante.
Mas também foi assustador. Por que ele fazia com que ela se sentisse dessa maneira?
Como você consegue, desde que conseguiu fugir, ver tantas garotas sendo mortas e não dizer nada?
As palavras dele, dita dias atrás, ainda estavam frescas em sua mente. Ela já havia pensado naquilo antes, sabia que seus pais provavelmente se faziam a mesma pergunta, mas...
Por que havia doído mais quando ele tinha feito aquela pergunta?
Por que ela não podia simplesmente seguir em frente? Durante meses tudo o que ela mais havia desejado era que ele a deixasse em paz, que se esquecesse do sequestro, que a esquecesse...
Agora que ele aparentemente tinha... por quê? Por que doía?
– Por favor... – ela sussurrou, embora não tivesse ideia pelo quê implorava e a quem.
Estou, oficialmente, desistindo.
– Não, não – murmurou. – Por favor, não...
E então, os lábios dele nas bochechas da morena.
Era demais. Era muito em pouco tempo. Era tudo tão... demais.
Eu procurei ajuda para você, ele havia dito. Um psiquiatra. Por que você não tenta conversar com ele? Eu peguei o cartão...
Ele havia procurado ajuda por ela. Ele queria ajudá-la. Mas por quê? E por que ela procuraria um psiquiatra? Seus pais haviam tentado durante anos... ela nunca havia sequer falado uma palavra.
Por que ela iria agora?
Ela podia simplesmente jogar o cartão fora e seguir com a sua vida. Continuar a trabalhar no hospital, continuar a visitar os seus pais ocasionalmente, assim como recebê-los na sua casa... Ela podia voltar para à academia, ela podia agir exatamente como havia feito quando era adolescente: fingir que nada havia acontecido não tocando no assunto. Fingir que Edward Cullen não existia. Ninguém faria mais perguntas, ela não teria que falar do passado.
Mas ela não era mais adolescente e ela já havia aprendido que fingir não a havia ajudado.
E ela sabia que o veria ainda. Ele não desistiria, ela sabia disso.
Respirou fundo, então, tentando se controlar, e fechou os olhos, usando uma das milhares de técnicas que havia aprendido nas aulas de yoga.
O detetive Cullen não desistiria, convenceu-se. Ele precisava de tempo, ele daria um tempo para ela pensar no que ele havia dito e voltaria.
E quando ele voltasse... ela não tinha ideia do que iria fazer.
_
Nos próximos dias que se seguiram, Edward se manteve ocupado o máximo que pôde. Cobriu o turno de alguns colegas, passou algum tempo com os pais, saiu com os amigos... Fez de tudo o que ele podia para não pensar no que havia acontecido na casa de Isabella...
Só que não era possível.
Porque todas as vezes que ele fechava os olhos... era nela que ele pensava.
Seus sonhos já não eram somente ocupados pela época que ele passou no exército mais. Eram uma mistura daquela época com o que acontecera desde que ele conhecera Isabella.
E ele não tinha ideia do que faria para se livrar deles.
Ele quis voltar à casa dela mais do que queria admitir. Todos os dias ele parava diante do hospital ou da casa dela, sem saber o que fazer. Às vezes sua mão ia até a porta do carro, pronto para abrir e sair... Mas então ele se lembrava que falara que havia desistido dela e não saía.
Às vezes ele pegava o celular, quase como se estivesse esperando que ela ligasse e avisasse que tinha mudado de ideia, que falaria tudo... Deus! Àquela altura, ele já nem se importava mais se ela fosse contar ou não. Se ela ligasse e pedisse que ele voltasse...
Edward sabia que ele voltaria.
No entanto, ele tentou não ter muitas esperanças. Ela devia estar feliz que ele havia desistido. Devia estar comemorando o fato de que agora não haveria ninguém para obrigá-la a falar sobre um assunto que ela não queria.
– Edward? – Ben o chamou. Ele balançou a cabeça, saindo de seus devaneios, e fitou o seu amigo e colega de trabalho. – Está tudo bem? Você parece meio perdido aí...
O ruivo forçou um sorriso para fora do rosto e assentiu.
– Sim, sim – suspirou. Ele passou a mão nos cabelos e fechou os olhos por um momento. – Como estamos na investigação?
Ben suspirou.
– O álibi de Royce é realmente válido, como você já sabe – respondeu. – Todos aqui sabem que ele está mentindo, mas não há nada que possamos fazer...
Edward assentiu, mas não disse nada. Se fosse em outra época – na verdade, se fosse até alguns dias atrás –, ele poderia se levantar e dizer que tentaria algo com Isabella.
E agora... nem aquilo ele tinha mais.
– E quanto a Isabella Swan, Edward? – Ben continou. – Algum progresso com ela?
O detetive ficou calado durante algum tempo, sem saber o que responder. Somente Ben e o chefe deles sabiam que Edward conversava com Isabella por fora, tentando convencê-la a testemunhar. Eles não sabiam ainda, porém, que ele e Isabella não se encontravam mais.
Que ele havia desistido dela.
– Tudo no mesmo – ele mentiu. Ultimamente parecia que ele vinha fazendo muito isso. – Às vezes eu acho que ela vai falar mais, sabe? Dar alguma pista que possamos seguir, mas ela sempre se cala, então...
Ele encolheu os ombros e parou de falar. A segunda parte do que ele falara era verdade, Isabella parecia sempre que iria dizer algo importante, mas ela sempre se calava.
E agora, nem as pequenas coisas ela iria contar a Edward mais. Ele havia, afinal, desistido.
– Entendo. – Ben suspirou, sem insistir mais. – Continue conversando com ela, ok? Você conseguiu um avanço nesse caso que ninguém mais conseguiu, só conversando com Isabella. Há anos que vários policias e detetives tentam falar com ela... e eles nunca conseguiram nada.
E eu não vou conseguir nada mais dela também, ele pensou.
Mas, novamente, não disse nada.
Quando saiu do trabalho, o detetive partiu para a casa dos pais, não querendo ir para a sua e ficar sozinho. Seus pais ficaram animados quando o viram, assim como Rosalie. Edward estava indo visitá-los quase sempre, algo que não acontecia com tanta frequência assim há anos.
Sua cabeça estava longe, no entanto, durante o jantar.
E seus pais não puderam deixar de notar tal coisa.
– Edward?
O ruivo virou e viu o seu pai parado ali, próximo a ele. O jantar havia encerrado há alguns minutos e enquanto todos estavam na cozinha, arrumando a pequena bagunça e conversando, Edward tinha escapado e vindo para a varanda, pensar um pouco.
Parecia que tudo o que ele fazia ultimamente era pensar.
E não eram pensamentos bons.
– Oi, pai – ele tentou sorrir. – Tudo ótimo. Só... pensando.
Carlisle assentiu. O médico observou o filho durante algum tempo, antes de suspirar e se aproximar.
– Ainda pensando no que você fez na semana passada? – ele indagou. – Porque, sim, Edward, foi errado, mas... você fez o que pensou que fosse melhor para todos.
Edward encolheu os ombros.
– Não é bem isso que anda em minha mente ultimamente, pai. – murmurou, decidindo por ser sincero. – Na verdade, para ser sincero, durante esses dias, eu me esqueci completamente desse assunto.
Embora tivesse passado por um período rebelde durante sua adolescência e tivesse virado as costas para o pai, a relação dos dois tinha ficado mais forte agora. Tinha sido Carlisle, afinal, que o tinha amparado quando ele foi liberado pelo exército e voltou para casa com um coração partido e culpa nos ombros. Demorou – e muito – para que Edward pudesse perdoar completamente Carlisle e Esme por terem escondido a verdade dele.
Mas eles eram seus pais. E nada mudaria isso.
– Quer falar sobre isso? – Carlisle perguntou.
E embora tenha hesitado nos primeiros minutos, Edward assentiu. Falou sobre a conversa que havia tido com Isabella na semana passada, omitindo o beijo na bochecha – seu pai não precisava saber sobre aquilo –, e em como ele se sentia mal por ter desistido.
– Eu só não sei o que fazer mais, pai – ele comentou. – O cara que sequestrou Rose conseguiu escapar... e tudo porque não consegui convencer Isabella a testemunhar contra ele. Tentei de tudo, mas já se passaram meses!
O pai do detetive o observou, antes de sorrir e falar.
– Edward, Isabella esconde isso há mais de dez anos – ele comentou. – Infelizmente, filho, alguns meses talvez não sejam suficientes para fazê-la confessar tudo. E talvez você conversar com ela não seja, também, o suficiente. Ela precisa de ajuda de um profissional, Edward. Não se pressione. Nem tudo o que acontece é culpa sua.
O ruivo assentiu.
– Eu dei o cartão do Dr. Hale para ela – ele comentou. – Eu só não sei se ela tem interesse em procurá-lo. Na verdade, acredito que ela não fará isso.
Carlisle tornou a sorrir. Ele desejou ter as exatas palavras que confortariam Edward e tirariam aquele peso dos seus ombros, mas sabia que as coisas nem sempre funcionavam dessa maneira.
– Então você só tem que esperar – disse, finalmente. – Só o tempo dirá.
Mas Edward não sabia se ele podia esperar tanto assim. Fazia somente uma semana e ele já estava daquele jeito... E se levasse meses antes de Isabella resolvesse procurar ajuda?
Ele não sabia o que faria caso aquilo acontecesse.
Mas naquele momento, não havia muito o que fazer, a não ser seguir o conselho do pai: esperar.
Mesmo que ele não gostasse disso.
_
Ele ainda não voltou.
Um mês desde aquele trágico dia na casa de Isabella havia se passado e o detetive ainda não havia tentando nenhum tipo de contato. Isabella continuou a trabalhar, tentou continuar a sua vida, tentou voltar ao normal, mas ela se via constantemente olhando o celular, olhando para o portão da sua casa através das câmeras de segurança...
Mas ele não havia voltado.
Ela continuou a dormir mal, se fechou completamente, muitas vezes ignorando chamadas de seus pais, de Emmett... Ela se recusava a sair de casa quando não estava trabalhando, com medo do detetive chegar e ela não estar lá.
Só que um mês havia se passado.
Ele realmente havia desistido.
Isabella tentava não pensar muito nisso, convencida de que talvez tudo tivesse sido um engano, mas... um mês? Por que ele não havia voltado?
Ela se viu, então, pegando o celular diversas vezes, quase ligando para o detetive, quase pedindo que ele voltasse, mas o que ela falaria?
Ela também pegava o cartão que ele havia dado para ele, mas nunca conseguiu achar coragem o suficiente para ligar para o consultório do psiquiatra e marcar uma consulta com ele. Não tinha dado certo antigamente... Por que daria agora?
Ela tinha medo demais para fazer isso. O que ele pensaria dela? O que o Dr. Jasper Hale faria caso descobrisse tudo o que havia acontecido nos onze meses que ela permaneceu em cativeiro?
Conforme os dias foram se transformando em semanas e outro mês se passou, Isabella não conseguiu mais suportar. Ela não entendia por que estava se sentindo daquela maneira, não sabia por que não conseguia tirar o detetive da sua cabeça. Não sabia por que se sentia mais culpada do que nunca...
E ela simplesmente não podia aguentar mais.
– Isabella? – Renee a chamou. – Bella, querida, está tudo bem?
A morena balançou a cabeça e a levantou, desviando os olhos do cartão do Dr. Hale e fitando a mãe. Ela tinha desistido de esperar pelo detetive na sua casa e tinha decidido passar o seu dia de folga na casa dos pais. E desde que ela havia chegado, ela não conseguia parar de pensar em dar uma chance. Talvez... talvez ela pudesse ajudar o detetive mais. Não testemunhando, mas dando mais informações, tentando conseguir provas que prendessem Royce e que não a envolvessem.
Só que ela não tinha coragem para ir sozinha.
– Bella? – Renee tornou a chamar, seu tom de voz soando preocupado. – Algum problema?
A morena engoliu em seco e respirou fundo. Fechou os olhos por um momento, antes de abri-los e forçar um sorriso para fora do rosto.
– Mãe, eu... – começou. – Eu posso te pedir uma coisa?
A mãe da médica a fitou durante um tempo, antes de secar a mão no pano que segurava e se aproximar da mesa. Ela estava fazendo jantar, querendo aproveitar a companhia do marido e da filha, e estava animada. Ela contava as novidades para Isabella durante a última hora e só agora notara que a filha estava completamente distraída.
Ela sorriu, no entanto. Não conseguia se lembrar exatamente quando havia sido a última vez que Isabella tinha lhe pedido alguma coisa.
– Você sabe que sim, meu amor – respondeu, apertando a mão da filha gentilmente. – Do que você precisa? É só dizer, ok? Farei o que puder para ajudá-la.
Bella sorriu.
– E-eu estava pensando... – Sua voz não passava de um sussurro. – Em ir conversar um pouco com um psiquiatra. E eu... eu queria saber se você poderia ir comigo? Não entrar na hora da consulta, mas... me esperar na sala de espera?
Renee sentiu um sorriso enorme nascer em seu rosto. Ela vinha esperando por esse momento há tanto tempo que não conseguia acreditar que ele havia finalmente chegado.
Ela tentou se conter, porém. Sabia que, para Isabella, aquilo era difícil e não queria que a filha se fechasse de repente e mudasse de ideia.
– É claro que eu vou com você, Bella — respondeu. — Basta marcar e me informar o horário, ok? Eu estarei lá.
A morena assentiu, mas não disse nada. Novamente, não querendo forçá-la, a mãe apenas sorriu e não tocou no assunto novamente. Quando Isabella foi embora, porém, ela não pôde deixar de contar a novidade para Charlie.
Afinal, eles vinham esperando por aquele momento por tanto tempo.
Renee ainda se lembrava de quando eles receberam uma ligação, informando de que Isabella havia sido achada e que estava em um hospital. Ela se lembrava da sensação de alívio que tomou conta de si quando viu a sua Isabella na cama do hospital, parecendo completamente assustada.
Mas ela estava viva. Estava bem. E para Renee, aquilo era tudo o que importava.
Desde então, quando ela e o marido foram informados do exame físico de Isabella, eles tentaram de tudo para dar a chance de ela ter uma vida tão normal quanto possível diante das circunstâncias. Não adiantou, porém. Levaram-na para diversos especialistas, mas sempre escutaram a mesma coisa depois de algumas sessões, onde Isabella não havia falado absolutamente nada: ela que tinha que procurar ajuda, ela tinha que querer falar sobre o acontecido.
E finalmente, pela primeira vez desde que ela havia sido encontrada, ela tinha pedido ajuda.
E Renee e Charlie mal podiam esperar para ver as mudanças que as consultas fariam em Isabella.
_
No dia seguinte, bem cedo, Isabella ligou para o consultório do Dr. Hale e conseguiu uma consulta para a semana seguinte — um paciente havia desmarcado e a secretária a colocou no lugar dele. Bella, então, informou a mãe sobre o dia e horário, assim como passou o endereço para ela.
E quando o dia de ir consultar chegou, Isabella não conseguiu acreditar que estava realmente indo fazer aquilo.
Ela se levantou mais cedo do que o necessário e ficou pronta horas antes da consulta. Limpou a casa, organizou os livros... e mesmo assim, quando olhava para o relógio, parecia que apenas um minuto havia se passado. Quando a hora de ir para o consultório se aproximou, ela fez quase tudo de forma automática: comeu um sanduíche, embora não sentisse fome nenhuma. Pegou a sua bolsa, chaves e celular.
Quando ela entrou no carro, no entanto, e colocou a chave na ignição, não conseguiu dar partida. Permaneceu mais de dez minutos ali olhando para o volante, se perguntando o que ela falaria para o psiquiatra.
Ela não podia ir lá e simplesmente contar tudo. Tudo o que ela queria era ajudar o detetive da melhor maneira possível, sem ter que contar tudo o que havia acontecido com ela nos onze meses que ficara presa.
Especialmente algo que acontecerá duas semanas antes de conseguir escapar.
Algo que ela nunca seria capaz de esquecer.
Ela precisou de mais alguns minutos para criar coragem, antes de ligar o carro e dirigir-se até o consultório. Ela ficou mais alguns minutos dentro do carro quando parou em frente ao local, até que o seu celular tocou: era Renee, avisando que estava aguardando a filha na recepção.
E naquele momento, Isabella quase disse a ela que havia desistido e que não podia fazer aquilo.
Mas então ela se lembrou do motivo de estar ali e ela sabia que tinha que tentar.
Talvez se ela ajudasse mais o detetive ... ele fosse voltar.
Respirando fundo, ela fechou os olhos por um momento e saiu do carro, trancando-o. Com as mãos trêmulas, ela entrou no prédio e se dirigiu ao porteiro, informando a sala do Dr. Hale.
– É no sexto andar, senhorita – ele informou. – Tenha uma boa tarde.
Nervosa demais para dizer algo, ela apenas assentiu e sorriu, trêmula, antes de seguir para o elevador.
Renee foi a primeira pessoa que Isabella viu quando entrou na recepção do psiquiatra. Ela se encontrava sentada em um sofá de tom claro, que parecia ser extremamente confortável, e folheava uma revista, fitando-a como se a informação mais importante tivesse sido escrita ali. Um casal estava sentado no sofá que ficava na parede ao lado da porta e conversavam, baixo demais para que Isabella escutasse. A secretária digitava algo no computador; nenhum deles ainda havia notado a presença da morena.
Ela ficou parada na porta da sala durante alguns segundos, antes de respirar fundo, tentando criar coragem para entrar. Sabendo que se não fizesse aquilo logo, ela acabaria desistindo, entrou e caminho direto até a mesa da secretária, o carpete creme fofo silenciando o barulho dos seus passos.
– Boa tarde – ela murmurou, após limpar a garganta duas vezes. Esperou que a secretária a fitasse e forçou um sorriso para fora do rosto. – Eu tenho uma consulta marcada com o Dr. Hale às 14h.
A secretária olhou rapidamente para o computador, antes de assentir. Ela, então, entregou uma prancheta para Isabella e pediu que ela preenchesse as informações e que a entregasse assim que terminasse.
– Obrigada – ela sussurrou.
Seguiu, então, para onde a mãe estava sentada. Renee apenas sorriu e cumprimentou a filha com um abraço rápido, antes de olhar para a revista novamente. Ela havia notado o quão ansiosa sua filha estava e não queria piorar a situação. Estava ali para dar apoio à Bella, mas não a pressionaria.
Ela viria até a ela caso necessitasse, quando estivesse pronta.
Isabella rapidamente preencheu a ficha, embora tivesse hesitado em algumas delas. Procurou respondê-las com sinceridade, porém, porque sabia que aquilo não funcionaria caso começasse a mentir antes mesmo da consulta começar.
Ela entregou tudo preenchido para a secretária e foi informada de que logo seria chamada. Sentou-se ao lado da mãe, mas não disse nada, sentindo-se mais ansiosa a cada minuto que passava.
Cada barulho ali parecia chamar a atenção da morena (fosse a secretária digitando, o sussurro do casal ou a mãe virando a página da revista), embora ela soubesse que o problema era, muito provavelmente, com ela. O ambiente ali parecia ser criado com o objetivo de deixar as pessoas calmas, tudo ali indicava isso.
Seus olhos disparavam para o relógio praticamente a cada minuto. Quando ele marcou cinco para as duas – e ela já estava pensando em desistir e ir embora –, a porta se abriu e um garoto de aproximadamente 10 anos surgiu, um homem alto e loiro atrás dele.
Isabella levou cerca de um minuto para entender que o casal que aguardava ali eram os pais do garoto. Eles se levantaram e caminharam até o filho, enquanto conversavam rapidamente com o médico. Alguns minutos depois, eles se despediram e o casal seguiu, junto com o filho, para marcar a próxima consulta.
Assim que o casal saiu da sala, a secretária se levantou e entrou na sala. Isabella sabia que a hora de ela entrar estava quase chegando, sabia que a secretária estava entregando as suas informações para o médico.
E ela ainda não tinha ideia do que iria dizer.
Seu coração pareceu parar por cerca de um segundo quando a porta abriu e a secretária informou, com um sorriso no rosto, que o Dr. Hale estava pronto para recebê-la. Meio trêmula, ela se levantou e caminhou até a porta.
Antes de entrar, porém, ela se virou para Renee, seus olhos castanhos arregalados, revelando uma confusão de sentimentos – sentimentos que nem mesmo Isabella entendia.
– Mãe? – ela sussurrou. A mãe olhou para a filha, vendo aquela mesma Isabella que entrava no seu quarto quando criança, perguntando se podia dormir com os pais por causa de um bicho papão. – Você vai esperar aqui, não vai?
Renee sorriu.
– Estarei sim, meu bem – ela respondeu. – Não sairei do lugar.
E aquilo foi tudo o que Isabella precisou ouvir antes de entrar, fechando suavemente a porta atrás de si.
_
A sala do Dr. Hale era incrivelmente espaçosa e bonita, justamente como a recepção. Ele sorriu quando a viu e se levantou, esticando a mão e apertando a dela.
– Isabella Swan – ele disse, ainda sorrindo. – Sou Jasper Hale. Tudo bem?
Ela assentiu e sorriu, meio nervosa, antes de se sentar na poltrona que o médico havia indicado. Cruzou e descruzou as pernas, um hábito nervoso, e olhou para o psiquiatra, incerta do que dizer.
Ele deveria dizer algo primeiro? Ela deveria começar?
Tentou se lembrar das suas falhas tentativas de terapia no passado, mas não conseguiu encontrar uma lembrança sequer que fosse útil. Ela se lembrava, sim, de entrar em com consultórios e de se sentar em lugares confortáveis, mas tudo o que ela fazia durante o tempo de consulta era ignorar o que a pessoa sentada do outro lado – fosse psicólogo ou psiquiatra – falava.
– E-eu... – ela tentou, seus olhos fitando as mãos, que tremiam em seu colo. – Eu não sei por onde começar.
Dr. Hale continuou a fitando, avaliando cada movimento que ela fazia. Ele fez uma rápida anotação na ficha da paciente, um sorriso sempre no rosto.
– Tome o seu tempo, Srta. Swan – ele disse, por fim. – Estarei pronto para ouvi-la falar quando estiver pronta para dizer.
A morena assentiu.
Edward Cullen, pensou.
Talvez falar o motivo de estar ali pudesse ajudar.
– Estou aqui porque quero ajudar alguém – ela começou, alguns minutos depois. – Mas eu não sei como...
Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar. Por fim, abriu os olhos novamente, mas ainda não criou coragem o suficiente para fitar o psiquiatra.
– Ajudar alguém? – ele indagou. – Por que não me fala mais sobre isso?
Ela assentiu. Engoliu em seco e suspirou, antes de continuar.
– Ele é um detetive – ela sussurrou. – Ele precisa de ajuda em um caso e eu s-sou a única... testem–, não, sou a única pessoa que sabe algumas coisas, mas eu...
Ela parou, sabendo que aquele pequeno discurso parecia confuso. Não teve coragem de falar que era uma testemunha; não estava pronta para admitir isso ainda para o psiquiatra. Não sabia se algum dia estaria.
– Eu não consigo falar muito sobre aquela época – continuou. – Mas eu quero ajudar... E-eu só preciso...
Ela se calou, então, sem saber mais o que dizer. Fechou os olhos e sacudiu a cabeça, antes de abri-los e, pela primeira vez desde que havia se sentado ali, olhou para o psiquiatra. Ele não a estava fitando, porém; seus olhos estavam fixados na prancheta à sua frente, sua mão se movendo enquanto ele escrevia.
Antes que ele terminasse, Isabella moveu o rosto, tornando a encarar o chão, mas não disse nada.
– Esse foi o motivo de você ter vindo me procurar, Srta. Swan? – ele indagou. – Porque você quer ajudar um detetive?
Ela assentiu.
– Não por você? – continuou, quando viu que ela não falaria.
Ela pensou por um minuto, antes de suspirar.
– Eu não tenho certeza – ela sussurrou. Ela se calou novamente, antes de continuar a falar. – Meus pais tentaram vários psiquiatras e psicólogos para mim quando eu era mais nova, mas eu nunca disse nada... Eu só... eu só me sentava e passava a consulta toda calada.
Ela parou por um momento para respirar fundo, mas não deu chance de o psiquiatra continuar a falar. Ela não entendia por que estava dizendo tudo aquilo, mas estava se sentindo bem por estar tirando aquilo do seu peito, então...
Por que não tentar?
– Eles pararam de tentar, com o tempo – disse. – E eu deixei. Mas hoje... eu só quero ajudar, Dr. Hale. Eu só quero ajudar o detetive... mas e-eu não consigo.
Jasper Hale fitou Isabella por um momento, antes de assentir e fazer mais algumas anotações. Ele tinha quase certeza de que sabia de que detetive Isabella falava, mas decidiu não comentar nada.
– Certo – ele sorriu para ela, tentando lhe passar segurança.
Ele conseguia imaginar quão difícil tinha sido para Isabella procurá-lo. E sabia, também, que começar falando sobre o que acontecera com ela, o que fazia com que ela ficasse tão assustada, não era uma boa ideia. Levaria tempo.
– Por que você não me fala da sua infância, Srta. Swan? – ele indagou. – Vejo aqui na sua ficha... você anotou que é adotada... por que não me fala sobre isso?
Isabella piscou, um pouco chocada pela brusca mudança de assunto, mas não ousou questionar o psiquiatra. Ela nunca teve problemas para falar sobre isso; seus pais sempre foram sinceros com ela e não pareciam amá-la menos por ela não ser filha biológica deles.
E isso só fazia com que ela os amasse ainda mais.
– Hmmm, eu só sei o que os meus pais me contaram – ela começou. – Eles me adotaram quando eu tinha três anos... e já vivia há dois no orfanato. Não sei muito sobre os meus pais biológicos, no entanto. Até onde eu sei, eles me abandonaram ou algo assim.
Jasper assentiu.
– E você se sente bem com isso? – ele indagou. – Sobre o fato de ter sido adotada, de não ter conhecido os seus pais biológicos?
Ela encolheu os ombros.
– Meus pais nunca me trataram diferente – sorriu, pela primeira vez desde que entrara ali. – Eles me deram um lar, me colocaram na escola, me parabenizaram quando eu fazia algo certo... e me colocaram de castigo quando eu precisei. Eles me contaram a verdade pouco antes de eu completar dez anos... E é isso, eu acho. Não há muito o que falar.
O médico tornou a assentir.
– E você se dava bem com seus pais? – ele indagou.
Isabella tornou a sorrir e respondeu, relembrando alguns fatos de sua infância. Durante o resto da consulta, o psiquiatra focou suas perguntas na infância de Isabella, nunca perguntando sobre a adolescência ou mencionando o detetive novamente.
Nem mesmo falou mais nada sobre o fato de ela ter ido ali porque ela queria ajudá-lo.
Quando a consulta terminou, ele foi cordial e simpático, oferecendo a sua mãe e dizendo que gostaria de vê-la novamente na semana que vem. Ainda meio confusa com a consulta – porque ela não tinha sido como Isabella havia imaginado –, ela agradeceu e saiu da sala, indo direto para a secretária para marcar o próximo horário.
Renee a esperava na porta quando ela se virou, mas não comentou nada enquanto as duas seguiram para o elevador. Isabella permaneceu perdida em pensamentos e Renee não pôde deixar de observar a filha, tendo de se conter ao máximo para não perguntar como havia sido a consulta.
– Obrigada por ter vindo comigo, mãe – ela murmurou, quando elas chegaram ao térreo. – De verdade.
Renee sorriu.
– Não precisa agradecer, Bella – ela respondeu.
Isabella sorriu de volta e assentiu. Ela se despediu de Renee sem dizer mais nada, dando um abraço rápido nela antes de se afastar. Ela não andou muito, no entanto.
– Mãe? – chamou. Renee se virou, mas não disse nada, esperando que a filha falasse. – Eu vou ter outra consulta semana que vem... no mesmo dia e horário? Você se importa em vir comigo?
O sorriso que nasceu no rosto de Renee era tão grande que podia ser visto de longe.
Isabella voltaria para uma segunda consulta.
Isso era melhor do que ela sequer esperava.
– Será um prazer, meu bem.
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Isabella voltou para mais três sessões depois daquela, mas as coisas não pareciam estar progredindo do jeito que ela esperava. Mais um mês havia se passado, completando três meses que ela não via o detetive...
O Dr. Hale continuava a conversar sobre a infância de Isabella, os amigos dela, a profissão dela hoje... mas ele nunca perguntava muito, ele não dizia nada sobre o que ela poderia fazer para ajudar o detetive.
E ela estava, sinceramente, cansada daquilo.
Ela precisava ver o detetive, precisava falar que tinha ido procurar o psiquiatra para ajudá-lo com o caso.
– Dr. Hale... – Isabella cortou-o quando ele começou a perguntar sobre o relacionamento atual dela com os pais. – Desculpe-me, mas... eu não quero falar sobre isso. Eu quero ajuda. Eu preciso descobrir como ajudar o detetive! Já tem um mês e eu...
Ela parou de falar quando percebeu que as lágrimas queriam tomar conta de seus olhos e quando notou quão desesperada soava. Ela não sabia por que se sentia assim, por que tinha essa necessidade de ver o detetive.
Ela só... ela sentia falta dele.
Jasper observou a reação de Isabella, mas não se moveu durante algum tempo. Ele sorriu para ela, por fim, antes de começar a falar.
– Isabella... – começou. – Eu não estou tentando te enrolar ou nada do tipo. Sei o motivo de você estar aqui, mas também sei que eu não posso simplesmente te dizer o que fazer: isso não vai ajudá-la. Eu não sei o que aconteceu no passado, não sei o suficiente sobre a sua história. Não sei por que, por exemplo, você quer tanto ajudar o detetive... e em qual caso ele precisa da sua ajuda.
Ele parou por um momento, querendo que ela absorvesse tudo o que ele tinha falado.
– Como eu disse, não estou tentando enrolá-la – continuou. – Só quero ganhar sua confiança. E então, falaremos sobre a época que você parece ter tanto medo. Isso, Isabella, vai ajudá-la. E caso você queira, pode ajudar o detetive também.
Isabella ficou calada durante algum tempo, antes de assentir, tentando entender o que o médico havia dito significava.
Quando ela saiu da sessão naquele dia, ela não sabia exatamente o que pensar. Foi para casa, logo após se despedir da mãe – que ainda a acompanhava nas consultas –, mas, a cada minuto que passava, ela se sentia mais estranha.
Três meses.
O detetive havia simplesmente sumido havia três meses.
Não pedirei mais, ela se lembrou do que ele havia dito naquele dia. Caso você necessite de ajuda, irei ajudá-la com prazer, basta você me procurar. Mas não aparecerei aqui mais pedindo seu testemunho. Esse assunto está encerrado. Estou, oficialmente, desistindo.
Ele havia cumprido o que prometera.
Só que Isabella não aguentava mais.
Ela realmente precisava vê-lo. Nem que fosse para pedir que ele esperasse mais um pouco, que ela estava conversando com o psiquiatra que ele havia recomendado, que logo ela estaria boa...
Ele tinha que esperar.
Antes que se arrependesse, a morena pegou o celular e ligou para Emmett, a única pessoa que podia ajudá-la naquele caso.
– Emm? – Sua voz não passava de um sussurro. – Será que você consegue o endereço da casa do detetive Cullen para mim?
Agora, ela só tinha que esperar.
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