Daydreaming
7 Um Beijo
Notas iniciais
Cheguei em casa e minha mãe já dormia. Agradeci por isso e fui direto ao banho, ainda sorrindo abobadamente pelo dia que tivera.
Sai do banho e enrolei-me na toalha, os cabelos molhados grudados no meu rosto. Passei pelo corredor até meu quarto, fazendo o mínimo de barulho possível.
Coloquei meu pijama já surrado, que se resumia a uma enorme blusa do Batman e um short curto velho que era coberto pela blusa. Chequei rapidamente meu email. Nenhuma novidade. Levantei da cadeira e deixei meu corpo cair na cama, finalmente percebendo o quão cansada eu estava.
Na escuridão proporcionada pelos meus olhos fechados, eu podia ver claramente o rosto sorridente da menina, seus olhos cinzas tão brilhantes e vividos me faziam sorrir também. Seu retrato era tão real e detalhado em minha mente, que eu seria capaz de copiar e descrever com exatidão cada traço de seu rosto.
Abri os olhos, fiquei um tempo encarando o vazio até que meus olhos se ajustaram ao quarto fracamente iluminado pela tênue luz que vinha do lado de fora. Passei outro bom tempo encarando o teto e fazendo um desenho mental do rosto da menina, até que me levantei, acendendo a luz. Pisquei algumas vezes por causa da claridade.
Voltei a sentar me de frente para a mesa de meu quarto. Coloquei o lap top de lado e peguei um caderno antigo, a capa já abatida pelos anos de uso. A muito não o pegava. Foi tocá-lo e eu senti um aperto no coração, uma estranha sensação de que ele me repreendia por ter sido posto de lado, desejei poder voltar e sentar me no banco da praça, desenhando e, de certa forma eternizando a cena que se estendia a minha frente.
Passei as folhas calmamente, olhando os desenhos que outrora eu fizera. Uns de paisagens que eu presenciara, outros que eu sonhara e, em sua maioria, lugares que eu ansiava por conhecer. Em sua maioria, desenhos preto e branco, o que eu mais gostava de fazer.
Enfim cheguei a folha em branco. Fiquei olhando para ela por um tempo, mais longo do que necessário. Peguei o lápis e fechei os olhos, deixando minha mente se iluminar e preencher com a imagem da menina. Com um suspiro de satisfação, reabri os olhos e comecei a passar os traços firmes e delicados para o papel.
Não me importei com a hora, desenhei com toda calma possível, tentando ser o mais fiel e realista possível. Eu segurava o desenho a minha frente, sorrindo satisfeita com o resultado, quando escutei um barulho fraco.
Deixei o caderno de lado, ainda aberto no rosto da menina. Fiquei quieta, respirando devagar para tentar compreender o que era o barulho. Era um sussurro fraco, que demorei para identificar, mas, quando o fiz, meu corpo gelou.
Corri para a cama, tateando entre as cobertas procurando pelo celular. Quando o achei, ele havia parado. Desbloqueei a tela, me deparando com dez mensagens de texto, 5 mensagens de voz e 7 ligações perdidas. Fiz uma careta, me xingando mentalmente por ter esquecido de avisar que chegara em casa. Peguei o celular, tomando fôlego e discando. Ela me atendeu ao fim do primeiro toque.
“Então quer dizer que a senhorita está viva?”
Mesmo que ela se esforça-se para soar brava, notei um certo alivio em sua voz. Sorri ao pensar que ela se preocupava a esse ponto comigo.
“Me desculpe” Comecei, tentando soar o mais sincera possível. “Eu realmente me esqueci, não estou acostumada com isso”
Ficamos em silêncio por um tempo, só o som de nossa respiração podendo ser ouvido.
“Então sou uma pessoa esquecível?”
Não sei se fora coisa da minha imaginação ou se ela realmente falara com certa tristeza na voz. Uma certa esperança preencheu meu coração, se espalhando pelo meu corpo através do sangue.
“Não” Aprecei-me em responder. “Só não sou do tipo de pessoa que alguém se lembre ou se preocupe”
Eu sabia disso e isso fora o motivo de alguns choros silenciosos à noite, porém nunca havia dito a ninguém, nem a senhora Curtis, a Allan ou ao meu pai. E lá estava eu, expondo uma realidade dolorosa para alguém que acabara de conhecer. Senti o nó em minha garganta e tentei afasta-lo.
“Pois trate de se acostumar com alguém se preocupando com você” Sua voz era controlada, mas não consegui detectar nada além disso. “Você não tem ideia de como fiquei preocupada”
Sorri, esperançando-me com aquelas palavras.
“Esse tipo de mudança requer tempo”
“Você terá muito tempo. Não pretendo te deixar antes da minha morte e não pretendo morrer tão cedo”
A promessa naquelas palavras fez meu coração acelerar, animada com a ideia de que permaneceríamos, no mínimo, amigas até nosso último suspiro.
“Gostei da ideia”
Ficamos um tempo escutando apenas nossa respiração e um ou outro carro que passava pela rua.
“Só queria saber se estava bem” Ela parou por um momento. “Temos que dormir se queremos assistir as primeiras aulas”
“Claro”
“Boa noite” Ela sussurrou.
“Boa noite” Sussurrei de volta.
Eu continuei na linha, sem coragem de desligar. Ficamos assim por um tempo, até que ela soltou uma risada e desligou finalmente.
Deixei meu corpo relaxar sobre o colchão e acabei pegando no sono mais rápido do que pensava.
Eu estava parada em uma enorme sala, decorada completamente de forma clássica e formal, como se imitasse um salão de visitas de um grande e rico palácio. Tudo de maneira impecável e perfeita, cada objeto na grande sala parecia ter luz própria, a lareira acesa aquecia o ambiente, a parede defronte para a lareira era coberta de livros, como se eles fossem um deslumbrante papel de parede. Peguei pensando-me se algum dia todos aqueles livros haviam sido realmente lidos, não só lidos, como apreciados e desejei poder saber o que contavam e imortalizavam.
Envolta pelo ambiente de época, olhei para baixo, ansiosa por ver o que vestia. A decepção percorreu o meu corpo, tal qual uma facada, quando vi que estava normal. No lugar do vestido de época, se encontravam uma regata branca, um xadrez vermelho, uma calça jeans que se modelava ao meu corpo e um all star surrado tomava o lugar de um salto. Levei as mãos automaticamente aos cabelos. Soltos.
“Te achei”
Aquela voz eu reconheceria em qualquer lugar. Virei-me para a menina, como sempre perdendo o ar ao fitar seus olhos cinzas e seu sorriso bobo.
“Acabei me perdendo tentando achar algum lugar que vendesse refrigerante” Ela passou seus braços no meu. “Temos mais quinze minutos antes do museu fechar, então se quer ver mesmo a tal peça, temos que nos apressar”
Olhei aturdida ao redor, finalmente enxergando as faixas que impediam os visitantes se aproximarem dos objetos; Antes que eu pudesse questionar ou lembrar de algo, a menina me puxou pelo braço.
Depois de cruzarmos alguns longos corredores, a menina me puxou para um quarto. Não era pequeno, porém deveria ser o mais modesto do lugar. Seu interior era pouco mobiliado. Tinha apenas uma mesa de canto, talvez usada para escrever e uma cabine de vidro, toda desenhada, com algumas pedras brilhando por todo o vidro. Exceto por aquela cabine, o local tinha a iluminação baixa, deixando o lugar com um aspecto sombrio e misterioso, o que obrigava a pessoa que entrava prender a respiração.
Caminhamos à passos curtos até a cabine iluminada. Por mais que a curiosidade me corroesse por dentro, um certo medo, talvez proporcionado pela fraca iluminação, me impedia de correr ao meu destino. As mãos firmes da menina apertavam meu braço, o que indicava que ela estava com tanto medo quanto eu; Conforme diminuíamos a distância da cabine, a sensação que me deva era de que o ar ficava mais frio e rarefeito.
Cobri a boca com as duas mão, abafando o grito que queria escapar, assim que chegamos perto o bastante para ver o conteúdo guardado ali.
Era uma peça de xadrez. Mas não qualquer peça, A peça. A peça de ouro, cravejadas de joias, retratando uma figura vestida em longas túnicas e sentada em um pequeno pavilhão com os trapejamentos dobrados para trás. Eu perdi o fôlego ao examina-la, tendo uma vontade ardente de toca-la.
Estava prestes a verbalizar minha ideia para a menina quando passos apressados e firmes invadiram o ambiente. Me afastei para o lado, dando passagem para o casal.
“Não pode ser” Sussurrei ao reconhecer as pessoas.
Aleksandr Solarin e Cat Velis. Ou pelos menos o que minha imaginação desenhou deles.
Ambos pararam a poucos centímetros do vidro, quase ultrapassando a barreira que tinha. Eles encaravam com terrível assombro o objeto, como quem encara um fantasma.
“Não pode ser” A voz de Solarin era baixa e firme, porém carregada com o medo que sentia.
“É mesmo ela” A voz de Cat saiu livre de emoção, mas seu rosto era uma máscara de horror. “A Rainha Preta” Ela sussurrou, agora com a voz arranhada e presa, como se pronunciasse sua sentença de morte.
Ao fundo, Demons do Imagine Dragons começou a tocar, quase em um sussurro.
Tateei ainda de olhos fechados a mesa de cabeceira.
“Alô” Disse sonolenta, ainda deitada e com os olhos fechados.
“Como assim você ainda está dormindo?” A voz do outro lado era histérica.
Sentei na cama, coçando os olhos tentando despertar.
“Deixei de estar dormindo quando você me acordou” Disse, sem tentar esconder o mal humor em minha voz. “O que você quer, Allan?”
“O que eu quero?” Ele parecia incrédulo. “Você perdeu as três primeiras aulas e o momento mais importante de minha vida é daqui a meia hora”
Aquelas palavras me fizeram despertar, como se fossem um balde de água fria.
“Eu” Passei a mão no cabelo, apertando com força os olhos. “Perdi a noção do tempo, mas fica tranquilo estarei ai te apoiando”
“Espero” Disse áspero antes de desligar.
Escrevi rapidamente o sonho no caderno e fui tomar meu banho. Assim que a água tocou meu corpo, desejei poder parar o tempo, apenas para aproveitar mais aquele momento e a sensação relaxante que sentia.
Sai do banho contra vontade, vestindo qualquer roupa e pegando a mochila. Corri o mais rápido possível. Antes de ir apoiar Allan, eu tinha uma parada a fazer.
Abri a porta e o pequeno sino anunciou minha entrada. O senhor Tolkin olhou na direção do som e pareceu surpreso ao me ver.
“Não deveria está na escola?” Ele perguntou, voltando a seus afazeres.
“Devia” Confessei, indo em direção ao livro que eu queria. “Posso pegar esse emprestado?” Perguntei, balançando o livro no ar, mesmo que ele não visse.
“Pode pegar qualquer um, a qualquer minuto, já disse”
Dei a volta no balcão, envolvendo o senhor em um abraço forte e beijando-lhe a careca.
Caminhei ainda mais apressada, chegando ao ginásio sem fôlego, mas a tempo de olhar para o menino e piscar, o encorajando a dar seu melhor.
Eu era a única na arquibancada quando o menino saiu do vestiário, os cachos ruivos bagunçados. Um sorriso um tanto quanto infantil apareceu em seu rosto, e ele correu em minha direção, levantando-me no ar e girando. Permaneci com as mãos em seu ombro quando ele me colocou no chão, suas mãos em minha cintura.
“Conseguiu?”
Ele meneou a cabeça, visivelmente eufórico demais para verbalizar qualquer tipo de resposta.
Talvez tomado pela onda de adrenalina que sentia, o menino uniu nossos lábios, me pegando completamente de surpresa, não se impondo quando eu fiz força para afasta-lo.
“Me desculpa”
Pelo seu tom de voz preocupado, sabia que algumas lágrimas fugiram do meu controle. Doía em mim ter que partir o coração dele, mas eu não podia, nem queria, fingir interesse para agradá-lo e agradar a minha mãe.
“Allan” Comecei, a voz embargada. Sentia as palavras arranharem minha garganta ao saírem, deixando uma ardência. “Eu não posso, por favor, não me faça fazer isso. Não me faça partir seu coração” Eu deixei o choro ganhar, já sabendo que era uma guerra perdida lutar contra ele.
“Eu te amo, Troian” Pude sentir o desespero tomar conta de sua voz.
“Não podemos ficar juntos” Eu gritei as palavras em meio ao choro.
“Por que não?” Ele tinha a suplica em sua voz.
“Porque” Eu comecei, mas parei ao olhar em seus olhos. O castanho claro de seus olhos transpareciam a confusão que ele sentia, medo, aflição, suplica, mas, o mais importante, por trás de todos aqueles sentimentos, ele tinha a chama infantil que ele não perdera. Essa era uma das coisas que mais amava nele e eu não ousaria tirar. “Porque não dá”
“Por que ao menos uma vez você não me dá uma resposta direita?” Frustração, era isso que sua voz me mostrava.
“Porque eu não posso tirar essa criança que tem dentro de você, eu não me suportaria se o fizesse”
Sai antes que ele pudesse me responder, mas fui capaz de ouvi-lo gritar, o que me atingiu como uma facada nas costas.
Caminhava em direção ao prédio de aulas quando vi a menina sentada à sombra de uma árvore, rabiscando algo no caderno. Respirei fundo e passei a mão no rosto, tentando afastar qualquer vestígio de que estava chorando. Aproximei-me devagar.
“Bú” Ela estremeceu e eu ri. “Devendo?” Repeti a pergunta que ela me fizera uma vez e sentei-me ao seu lado.
“Idiota” Ela murmurou brincalhona, ainda encarando os livros. “Não pense que te perdoei por ontem” “Bom” Disse, abrindo a mochila. “Pode sentir raiva de mim lendo um livro”
Ela deixou os cadernos de lado, finalmente me olhando.
“Ai meu Deus, você estava chorando?”
Sua voz soou nitidamente preocupara. Tentei disfarçar, mas sabia que fora pega, apenas meneei a cabeça e estendi o livro, sabendo que a menina iria entender que ela pra mudar o assunto.
Ela pegou o livro que eu lhe oferecia, um tanto contrariada.
“O Clube do Filme” Ela leu o título. “É bom?”
Dei de ombros.
“Nunca li”
Ela revirou os olhos.
“Então por que está me mandando ler?”
“Você não gosta de filmes? Achei esse o mais indicado”
Ela voltou a analisar o título, então virou e leu o resumo, dando de ombros.
“Okay, pena que se for ruim, não posso nem bate-lo na sua cabeça, já que não é tão grosso o que impossibilita machucar”
“Eu não bati com a capa do dvd na sua cabeça”
“Porque no fundo, você sabe que o filme é bom” Seu tom era levemente convencido.
Ficamos um tempo em silêncio. Eu analisando ela e ela analisando o livro, até que, subitamente, ela bateu com ele na minha cabeça.
“Por que você fez isso?” Perguntei, passando a mão no local.
Ela deu de ombros.
“Sei lá, mas se você não reclamou, significa que não doeu e que eu estava certa”
Ela me deu um beijo na bochecha, deixando o local dormente e quente, seguindo de um sussurro de desculpas, depois voltou sua atenção para o dever.
Eu me sentia péssima por quebrar o coração de Allan, mas ali, com Sarah a meu lado, a culpa e o remorso que eu sentia se esvaiam, tornando-se fumaça no ar, e restava apenas meu coração acelerado e minha pele implorando pelo contato quente da dela.
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