Daydreaming
1 1 - O começo do melhor sonho.
Notas iniciais
Sabe aquela garota que prefere ficar no canto, lendo um livro, estudando ou até mesmo divagando em sonhos, à ficar com um grupo de pessoas, conversando sobre uma futilidade qualquer?
Pois é, essa sou eu. Troian Stewart. A garota estranha que se esconde atrás de capas surradas de livros e se acha muito cool para falar com as pessoas.
Não. Eu não sou assim. Esse é o julgamento que as pessoas, incluindo parte da minha família, fazem de mim.
Acontece que, eu não tenho paciência para as pessoas dessa cidadezinha. Não para as da minha idade. As meninas só sabem falar de como o garoto é lindo, de como aquela outra menina é feia, de maquiagens. Os meninos só falam de como fulana é gostosa, sexo e esportes. Eu simplesmente me cansei dessas futilidades.
A senhora Curtis é a única pessoa que eu consigo manter uma conversa boa e leve, prestando realmente atenção, ouvindo com fascinação as histórias que ela me conta. São todas sobre o grande amor da vida dela. Como eles se amavam, mas não puderam ficar juntos, mesmo assim, ela me garante que o coração dela sempre fora do jovem soldado John Tyree.
Eu trabalhava na pequena livraria da cidade, nas horas vagas, eu sempre buscava refugio na casa da senhora Curtis que, entre uma garfada e outra e um gole e outro do melhor chocolate quente que eu já bebera na vida, ela me brindava com a história de amor dela e falava que eu podia chama-la de Savannah.
Não foi sempre assim, é claro. Eu já tive muitos amigos, já tive a maioria dos garotos aos meus pés. Afinal, quem não queria sair com a garota loira dos olhos verdes? E só, era por isso que queriam ficar comigo, não se importavam com o que eu realmente era.
Foi então que toda a futilidade me enojou de vez e eu me afastei, assumindo minha real personalidade, aquela que eu tinha deixado de lado pelo fútil motivo de ser aceita, pelas pessoas da minha idade e pela minha própria família. Cometemos erros, eu cometi inúmero deles, mas o pior, pelo menos para mim, foi me transformar em algo que eu não sou, para agradar terceiros.
Foi com muito orgulho que larguei as roupas de patricinha e adotei o um estilo mais grunge, pus o óculos de grau a muito esquecido em sua caixinha em algum lugar da estante, e prometi a mim mesma que nunca mais eu me esconderia para agradar alguém. Pode soar grosseiro, até um tanto prepotente, mas se não gostarem de mim por quem eu realmente sou, sem mentiras, pois eu descobri que o mundo é muito mais colorido quando se é olhado com os seus olhos, e não com os olhos que a sociedade quer que você tenha.
E foi assim que minha lista de amigos, pouco a pouco, se resumiu a três pessoas;
Allan, que apesar de ser o atleta popular do colégio e envolto em músculos e um sorriso encantadoramente charmoso, sempre arrumava um tempo para mim e escutava todos os meus devaneios sobre os livros e sonhos que me rondavam. Bem verdade que ele tinha os assuntos fúteis e toscos que qualquer menino de nossa idade tem, mas eu não me importava, afinal, ele havia ficado quando todos os outros se foram;
Senhora Curtis. Savannah. Desde que ela se mudara para a pequena cidade que é Brookave, eu ganhara uma confidente incrível, a única pessoa que eu contara meu maior segredo; As histórias que ela me contava, inspiravam meus sonhos, aumentavam minha vontade de conhecer um amor tão arrebatador e lindo como o dela. Embora, em segredo, desejava ter um final mais feliz, um final onde eu compartilharia da velhice ao lado da pessoa;
Por fim, mas o mais importante, senhor Stewart. Mark Stewart. Mais conhecido como meu pai; Meus pais são separados e, talvez pelo fato de minha mãe ser cristã, sempre fui mais agarrada a ele. Todo dia, depois de fechar a livraria, eu caminho até a oficina dele, pego o banquinho de sempre, pedimos pizza e contamos um ao outro o que de melhor e pior nos aconteceu no dia, sem falar nas histórias dos clientes.
Embora minha lista de amigos reais tenha diminuído consideravelmente, a minha lista de amigos fictícios só aumentara. E eu os preferia porque, ao contrário dos reais, que me mantinham presa, de corpo e alma, àquela pequena cidade, os fictícios, a cada página lida, conforme suas histórias eram narradas, me era permitido sair daquela cidade onde tudo o que importa são coisas fúteis, e vagar por mundos mágicos, repleto de sonhos e esperanças.
E era com eles que eu estava agora, arrumando as coisas para fechar a loja, quando o sino tocou, indicando que alguém entrara.
“Estamos fechados” Disse, sem me virar para ver quem entrara.
“Me desculpe, mas está chovendo” A voz doce e angelical me fez virar e, quando o fiz, desejei ter feito antes.
A dona da voz era simplesmente a garota mais linda que eu já vira. Tinha o cabelo castanho avermelhado ondulado. Os olhos de uma cor cinza que eu nunca vira ou imaginara existir. E um sorriso. Ah o sorriso. O mais belo de todo o mundo.
“Foi o único abrigo que encontrei” Ela disse timidamente, mordendo o lábio.
“Ah...” Balancei a cabeça, afastando alguns pensamentos. “Ah, claro, claro” Estreitei os olhos. “Eu não te conheço”
“Acabo de me mudar. Pensei em dar uma volta pra conhecer a cidade, mas a chuva não deixou” Ela fez uma careta fofa, que me fez rir. “Me chamo Sarah. Sarah Hastings.”
Apertei a mão que ela me oferecia, e senti um formigamento na mão e uma necessidade de abraça-la.
“Troian Stewart”
Nesse momento, um trovão soou firme ao longe, fazendo a menina se estremecer.
“Podemos ficar? Tenho medo de tempestades” Seus olhos refletiam o medo que ela sentia, embora eu pudesse notar que ela se esforçava ao máximo para mantê-lo escondido.
“Claro, é sempre bom conhecer pessoas novas” Sorri o mais encantadoramente possível, conseguindo tirar o medo do olhar dela.
E foi ali, naquela noite chuvosa e rodeada pelos melhores amigos eu tinha, que eu conheci o meu John Tyree, que compreendi verdadeiramente as histórias de amor que já lera e as histórias de Savannah. E eu soube, desde o momento que olhara para os misteriosos olhos cinza, que ela era meu maior sonho e não importa o que acontecesse, eu lutaria por ela.
Compreendi que, por mais que meu desejo fosse compartilhar da velhice com a pessoa que eu amo, se por acaso nossas histórias tomassem rumos diferentes, se fosse como a história de Savannah, ainda assim eu estaria feliz, pois saberia que ela existia, e saber que ela não era apenas um sonho, seria motivo suficiente para me fazer sorrir.
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