Day by day
1 Day by day
Aizawa vinha se sentindo exausto nos últimos dias, mas não era de sua natureza reclamar do trabalho. Pelo menos não muito, apesar de fazer cena na frente dos alunos, ele dava muito duro em todas as atividades que realizada.
Naquele ano em particular estava sendo mais complicado conciliar o trabalho e a vida pessoal. Precisou até mesmo se mudar para a escola, onde seria o supervisor de seus alunos. Com isso, a privacidade diminuiu para praticamente quase nenhuma.
Além da turma 1 – A, seu trabalho se estendia até a polícia e a vigias noturnas na cidade. E, recentemente, decidiu inserir na sua rotina apertada, mais um item especial.
Aquela não era a primeira vez que Aizawa via as habilidades de Hitoshi Shinso em ação. Logo no exame admissional dos alunos na U. A. High, o herói ficou interessado nos poderes do jovem futuro aluno. É verdade que ele não possuía uma habilidade ao qual se destacasse em eventos desportivos ou o próprio exame de admissão ao qual os alunos da classe de heróis foram avaliados. Contudo, não significava que ele não poderia também ser uma herói.
O estudante era como um diamante bruto que precisava ser lapidado. E o que faria dele um herói forte no futuro, seria a dedicação ao qual ele demonstrasse agora, no presente.
O garoto piscava lentamente, as pálpebras levemente caídas e uma expressão tediosa estampada em seu rosto, enquanto Aizawa explicava para ele a rotina de exercícios que iria ser submetido a partir daquele momento.
Shinso não fez nenhum tipo de reclamação, apenas tirou dúvidas simples como horário de treinamento e alimentação. Em seguida, ele girou os calcanhares e saiu caminhando tranquilamente com as mãos nos bolsos.
Naquela tarde, Aizawa ainda possuía muito trabalho para resolver na secretaria da escola, logo em seguida, ele precisou passar na delegacia de polícia, pois foi convocado para um depoimento. Estava cansado, é verdade, mas o dia ainda não estava nem perto do fim. Ele se trocou e foi até o local combinado com Shinso. A quadra de treinamento naquele horário era vazia, os alunos tinham autorização para utilizar os espaços da academia, contudo, a recomendação era de que eles também tirassem um tempo para descansar. O que não era exatamente aquilo que Aizawa pretendia fazer com o aluno.
Se ele quisesse ser transferido para a turma de heróis, então teria que sacrificar o tempo de descanso. Era isso, ou não teria chances com a turma 1 – A e 1 – B.
— Vamos começar com um aquecimento básico, vinte minutos de corrida ao redor da quadra.
Shinso moveu a cabeça e alongou os braços e pernas antes de começar a corrida. Aizawa fez o mesmo, acompanhando-o durante os vinte minutos de corrida ao redor da quadra. Ele usava um moletom folgado e uma regata cinza, enquanto seus cabelos negros estavam presos com um elástico. Ao final da corrida, eles fizeram outros exercícios de alongamento e então Aizawa pegou dois bastões de madeira, arremessando um na direção de Shinso.
A explicação foi bem simples e direta, Shinso parecia mais desperto naquele momento, e com um pouco de dificuldade para respirar. Aizawa esperou que ele bebesse água e retornasse para se colocar em posição. Não haveria um combate entre os dois, o herói primeiramente queria que Shinso desenvolvesse a técnica e compreendesse melhor os movimentos e o que precisava melhorar. Ele tinha força de vontade, mas fisicamente estava longe de ser excelente. Levou algumas semanas até que Shinso mostrasse melhora em alguns exercícios.
Aizawa, por outro lado, vinha se esforçando com suas atividades e acumulando muito sono perdido. Não era novidade vê-lo descansar entre uma aula e outra no seu costumeiro saco de dormir amarelo. Sempre que havia oportunidade, lá estava o professor dormindo pelos cantos da sala. Ele recusava todos os convites para sair, embora nunca fosse de recusar uma bebida forte no final do expediente.
— Vamos, eu pago o drinque. — O pedido de Toshinori pegou-o de surpresa naquele final de noite. Ambos estavam na varanda do prédio em que ficavam os dormitórios, conversando sobre o dia cansativo ao qual tiveram que levar os alunos para uma atividade fora da escola.
— Eu tenho algo importante para fazer essa noite. — Aizawa virou-se, não sentido muito prazer em recusar o convite de Yagi.
— Então me avise quando estiver livre. — Ele comentou, descendo as escadas.
Aizawa respirou fundo, aquilo teria sido algum tipo de brecha? Uma forma de Toshinori se aproximar mais dele? Já havia até deixado essa ideia de lado, quando o próprio recusou seu convite para beber alguns meses atrás, achando que havia sido invasivo com seu pedido. Desde então, não falaram nada mais além de assuntos triviais sobre a escola e novidades quanto aos vilões.
Shota balançou a cabeça, estava muito ocupado para pensar em romance. Foi até seu quarto e trocou de roupa, amarrando os cabelos em seguida. Vestiu um casaco de moletom por cima da regata, já que fazia frio naquela noite.
Encontrou Shinso correndo ao redor da quadra, para o aquecimento. Aizawa alongou o corpo e foi correr ao lado do aluno. Logo em seguida, tirou o casaco porque ficou quente demais. Naquela noite eles treinariam luta corporal, Shinso ainda não conseguia acertá-lo um único soco e Aizawa usava isso como forma de provocar o garoto.
— Se não consegue acertar um soco, como vai capturar um vilão? — A provocação sempre tinha como resposta a impulsividade do garoto, que partia para cima dele com velocidade, mas sem estratégia. Aizawa o levava ao chão com facilidade, prendendo seus braços atrás das costas. — Eu tenho uma proposta.
— Você sempre tem uma ideia diferente, mas até agora nada disso funcionou. — Shinsho se levantou, sem a ajuda da mão que Aizawa estendeu para ele. Era normal aquele sentimento e Shota fazia o possível para relevar, porém, não poderia simplesmente deixar que Shinso se levasse pela frustração e desistisse.
— Eu trouxe algo para você. — Ele disse e pegou a mochila, retirando uma réplica da mesma tira de tecido ao qual ele utiliza. — É um tecido feito com uma nanofibra de carbono, é resistente e pode ser um grande aliado durante uma luta.
— Você quer que eu use isso?
— Não quero que use, eu quero que experimente, você vai decidir se quer ou não usar. Além do mais, temos que ir ao departamento de tecnologia para pensar em algo para sua habilidade. Uma vez que o inimigo descobrir como ela funciona, você pode ter problemas. Além disso, o bastão não foi uma boa ideia, não é mesmo?
Shinso virou o rosto, envergonhado, ele manejava bem o bastão, mas ainda não era exatamente algo que conectasse com ele. E isso Aizawa entendia muito bem.
O rapaz aceitou treinar naquela semana com o tecido que Aizawa mandou fazer para ele. Foi um começo difícil, mas, aos poucos, Shinso descobria sua própria maneira de lidar com a captura usando o tecido. Ele chegou a prender Aizawa, embora tivesse sido fácil para o professor escapar.
— Você foi bem, muito bem. — Disse Shota, entregando a garrafa de água para o aluno. — Amanhã eu prometi levar Eri-chan ao cinema e... — Ele inclinou a cabeça, não gostava de desmarcar seus compromissos e Shinso estava contando com ele para conseguir mudar de classe. — Pensei se você não quer ir com a gente.
Shinso ergueu a sobrancelha, surpreso.
— Mas, achei que eu precisasse treinar mais. — Disse, enrolando o tecido na mão.
— Sim, eu disse isso, só que você também precisa de um pouco de descanso. — Aizawa suspirou, sabia que estava sendo muito severo com o garoto. E era por isso que ele comprou antecipadamente os três ingressos. — Amanhã é domingo, tenho certeza de que um dia de descanso vai te ajudar.
Shinso segurou o ingresso na mão e sorriu.
O passeio foi divertido principalmente para Eri, aquela era a primeira vez que ela ia ao cinema e a experiência fez a garota explodir em felicidade, falando sem parar sobre tudo o que havia se passado durante o filme. Aizawa levou os dois para comer em uma lanchonete perto do cinema, enquanto ouvia Eri falar sobre o filme.
— Hein, Shinso-kun, você gostou do filme? — Eri perguntou, sugando depois o milkshake pelo canudo. — Ai, ai, ai está muito gelado. — Ela reclamou, levando a mão à cabeça.
— Está tudo bem?
— Sim, sim. — A menina sorriu.
Aizawa observou os dois conversarem sobre o filme e depois Eri puxou-o pela mão para que ele fosse com ela até o brinquedo com piscina de bolinhas. Shota apenas balançou os ombros e riu, quando Shinso intercedeu pela ajuda dele, mas acabou cedendo à garota e pulou na piscina de bolinhas com ela.
— Agora eu sei com o que anda ocupado. — O comentário surgiu atrás de Aizawa, ele se virou, já reconhecendo aquela voz. Toshinori puxou uma cadeira próxima. — Posso me sentar?
— Claro, All Might. — Disse Shota.
— Não, não, pode me chamar de Yagi, já disse. — Ele balançou a mão no ar e depois sorriu. — Eu o vi um dia desses correndo a noite pelo campus do colégio com o jovem Hitoshi, imagino que viu algo especial nele.
— Sim, como você, com Midoriya. — Aizawa o alfinetou, mas Toshinori apenas sorriu.
— Bem, eu não quero atrapalhar. — Ele se levantou e piscou para o colega. — Qualquer noite me ligue.
Aizawa queria dizer que ele poderia ficar, mas, a verdade era que sua atenção estava voltada exclusivamente para aqueles dois que pulavam na piscina de bolinhas, pelo menos até o gerente do estabelecimento orientar que adolescentes não eram permitidos na piscina de bolinhas.
— Sinto muito. — Aizawa fez uma mesura educada e levou os dois para outro lugar.
No final do dia, Eri estava cansada e dormia em seu corpo. Shinsho caminhava ao lado de Aizawa em silêncio, até chegarem no conjunto de prédios que ele morava.
— Obrigado, sensei, por tudo. — Foi o que ele disse, antes de abrir o portão e entrar no prédio.
Aizawa não teve tempo de dizer nada, mas sorriu, satisfeito por vê-lo mais relaxado. Levou Eri em seguida para o hospital, onde ela ainda estava sendo assistida por médicos especializados. Seu quarto era decorado com um pouco de rosa e alguns brinquedos para que ela não se sentisse tão presa ou como se estivesse doente. Ao deixá-la, ele retornou para os dormitórios, o lugar estava silencioso, já que os alunos retornariam no dia seguinte pois foram dispensados para visitarem a família.
Shota sentou-se na cama e olhou o celular, alguma mensagens de colegas de trabalho, alguns e-mails que poderia responder no outro dia e alguns convites para sair. Essas últimas mensagens ele arquivou, sem nem ao menos responder. Depois, buscou nos contatos o nome de Toshinori e digitou uma mensagem, mas apagou em seguida. Depois, olhou novamente a tela, pensando em ligar até reunir a coragem e apertar o botão. Toshinori atendeu rapidamente a ligação e a conversa não durou muito mais do que um minuto para que eles combinassem o local onde poderiam se encontrar e tomar um drinque, como fora sugerido mais cedo.
Era verdade que naquele ano Aizawa estava sobrecarregado. Entretanto, decidiu reservar pelo menos uma noite para relaxar e aproveitar a companhia de alguém interessante enquanto bebia um drinque, já que no outro dia a rotina retornaria com força total.
Notas finais
Beijos
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