Darkness to Kill
13 Confissão
Notas iniciais
Mesmo acreditando nas palavras de Jake em relação a ele me deixar, caso eu não voltasse em uma hora, cedi a minha curiosidade e resolvi dar uma volta e ter uma noção de onde estava. Fui até a porta de madeira, mas antes que saísse reparei numa mochila jogada numa mesinha de centro, e percebi que aquela era a minha mochila. A que eu cuidadosamente preparei com pertences básicos para minha jornada, e a mesma que eu não via desde o acidente. A abri com pouco ou nenhum interesse, e não consegui reprimir um sorriso quando vi o spray de pimenta que havia colocado lá, também achei roupas, o que dispensava o vestido que eu usava, mas não me troquei. Encontrei uma lanterna, kit de primeiros socorros, dinheiro, e por último uma foto minha e de Sophia. Sorri só com a simples menção do pensamento, mas logo fui tomada por uma inquietante vontade de chorar. Coloquei a mochila no ombro e saí.
A luz do sol machucou meus olhos assim que a encontrei. A casa de Jake era muito escura, principalmente pelas enormes e pesadas cortinas nas janelas. Ele não tinha jardim. Na verdade tinha, mas estava tudo morto. Todo e qualquer tipo de vida que existiu ali não deixou nada para provar sua existência a não ser a morte no ar. A primeira coisa que notei era que alguma casa enorme estava na minha frente, não exatamente, já que eu estava nos fundos e sua entrada ficada do outro lado. Era algo realmente grande e não dava muito bem para entender do que se tratava por trás. Enquanto andava me assustei quando um sino começou a tocar, e percebi que esse som vinha dessa tal “casa”, que pude perceber que era uma igreja assim que a encarei de frente. Uma igreja católica antiga bem simples, com apenas uma torre onde o sino ressoava. Não entendi o porque de Jake morar numa casa que ficava nos fundos de uma igreja, se é que aquela casa era dele. Não fazia a menor ideia em onde estava, o clima estava úmido e abafado, e senti que ainda me encontrava na Filadélfia já que conhecia bem esse clima, e sendo hipoteticamente impossível eu ter ido parar na China com apenas algumas viagens de carro. Mas apesar de achar que eu ainda estava na Filadélfia, percebi que isso não ajudou muito já que essa era uma cidade um tanto quanto “grandinha”. Em relação ao centro da cidade, que era onde morava com meus maravilhosos parentes, senti bastante diferença no “visual”, daquele lugar. Aparentava ser um pouco pacata e não vi muita movimentação, então podia ter certeza que ainda não conhecia esse lugar da minha cidade natal. Entrei na igreja sem nenhum motivo em particular, já que era apateísta. Fazia tempos que não entrava em uma, e senti uma enorme necessidade de pedir para não-sei-lá-quem um pouco de ajuda, uma vez que minha vida estava de cabeça para baixo. A igreja estava praticamente vazia, exceto por algumas senhoras ajoelhadas, fazendo suas preces. Um garotinho que estava ao lado de uma senhora de cabelos grisalhos não parecia muito se importar com toda a comoção e assim que nossos olhos se encontraram ele me mostrou sua língua, e bufou irritado. Continuei a reparar na igreja e tentei não dar bola para as suas caretas. A igreja era tão simples por fora quanto por dentro, tinha somente as cadeiras, e alguns outros objetos essenciais que necessitam uma igreja católica, incluindo uma estatueta de Cristo crucificado, no altar. Já tinha visto muitas igrejas pomposas, do estilo folheado em ouro e com muitas decorações. Aquela de longe era a mais simples que já tinha visto, era tão simples que a confundi com uma casa, estando por detrás. Acomodei-me no penúltimo assento, e apenas observei o padre começar a missa. Esperei pacientemente, e ouvi todas as orações. Se fosse para escolher um momento para me converter aquela seria a hora. Olhava um relógio pendurado na parede de minuto a minuto, esperando que não demorasse tanto. Felizmente o padre estava em um de seus dias bons e terminou um pouco antes de se passar meia hora. Observei ele comunicar que aquele seria o momento para se dirigir ao confessionário e independente de qual fosse o pecado se a pessoa se arrependesse Deus perdoaria. Fiquei sentada em silêncio enquanto a maiorias dos poucos presentes iam embora. Levantei imaginando o que de pior poderia acontecer e fui em direção ao confessionário. Até mesmo este era antigo, parecia uma caixa de madeira, considerei uma tarefa difícil ver o rosto de quem estivesse do outro lado. Entrei nele e ajoelhei-me.
— Oi, padre. — Cumprimentei. — Esta cidade é bem pacata, não é mesmo?
— Acredito que sim... É nova por aqui minha filha? Como se chama? — Perguntou com uma doce voz de avô.
— Não, só estou de passagem. Me chamo Annie.
— Oh.. muito prazer Annie. Deus fica feliz por passar na casa dele. No que posso ajudá-la a se redimir?
Fiquei um tempo em silêncio e então respondi.
— Estou atormentada. — abaixei o olhar.
— O que te aflige?
— Tudo.
— Deus ficaria feliz se recorresse a ele para tirar essa escuridão do seu coração.
— Não entende. — Disse olhando para ele, mesmo sem poder ver quase nada entre os pequenos furos da tela. — O meu passado me atormenta, e sinto com se Deus estivesse me punindo por conta disso.
— Se fez algo errado não considera justo que Deus a puna?
— Não. — Respondi simplesmente — Se envolvesse só a mim não reclamaria, porque eu mereço. Mas algo ou alguém esta punindo a minha irmã, e... ela não merece.
— Algo ou alguém?
— Eu não sei como chamar essa força superior. Só sei que estou ficando louca.
— Fique calma minha filha. O que você fez no seu passado que a atormenta tanto?
— Eu...Eu... — Gaguejei com vergonha em admitir algo que eu nunca nem pronunciei em palavra. — Eu... matei uma pessoa.
O padre não demonstrou surpresa, ele apenas suspirou e disse:
— Você sabe que a vida é algo que só Deus pode dar e tirar não é mesmo?
Assenti com as já lágrimas irrompendo. Estava disposta a abrir o jogo e resolver os meus problemas, por mais que não tivesse solução e nem volta.
— Nunca sei como responder isso. — Disse o padre, me surpreendendo.
— Quer dizer que outras pessoas já confessaram isso?
— Creio que não estou quebrando meu juramento, então sim. É algo que parte meu coração, mas saiba que Deus é misericordioso e perdoa todo aquele que se arrepende. Então se isso vai ajudar a limpar o seu coração continue a se confessar.
— Ela era minha babá. Uma pessoa gentil e de bom coração. Ou pelo menos o que eu pensava que era. Mas ela me enganou, sabe? E me fez de tola... Ela fingiu que me amava e me usou, logo eu... Fui enganada pela pessoa que eu mais estimava no mundo. No começo achei que meus olhos estavam brincando comigo e que eu não tinha visto ela com meu pai, mas quando eu a fui confrontar ela confirmou o pior dos meus pesadelos. Lembro como se fosse ontem, a memória ainda fresca. Ela gritando, implorando que eu não fizesse aquilo. Mas eu estava tomada pela dor, não uma dor qualquer ou uma depressãozinha de adolescente... — Coloquei as mãos nos meus ouvidos tampando o mais forte que consegui, para evitar a cena na minha cabeça. — Imagina uma criança que sempre foi rejeitada e abandonada pelos seus pais, na verdade essa criança só tinha um pai, porque a mãe já a tinha abandonado mais cedo, assim que viu o seu rosto de desgraça. E não posso falar com toda a certeza se ele é realmente pai dela porque só de olhar nos olhos dele você já vê a repugnância, e o desprezo em seu absoluto. Afinal que pai mandaria matar sua própria filha? Não pode ser um pai legítimo não é mesmo? E mesmo assim ela ainda foi capaz de se apegar a alguém. Clarisse foi tão importante pra ela, que a impediu de enlouquecer. E quando o obscuro terror da verdade entrou nela, tudo desabou, e essa menina... não aguentou e matou ela, da maneira mais repugnante. Com uma faca. Sabe não foi planejado nem nada do tipo, foi apenas ao acaso, e por pura infelicidade bem depois de ela ter descoberto a verdade, e confesso que isso ajudou nos fatos. Se alguém de fora visse o que tinha acontecido até diria que foi um acidente, mas todo aquele sangue em minhas mãos ainda me culpa. Ainda não saiu a mancha vermelha. E adivinha... essa menina sou eu. As vezes acho que estou vivendo como a Cinderela... Tem até a madrasta... Mas onde esta o príncipe hein? Já me desiludi o suficiente com essas besteiras conhecidas como “Amor”. Isso não existe, foi inventado por alguma empresa só para lucrar, que nem o papai Noel. Eu não tenho sorte em nada... acho até que sou amaldiçoada.
— Isso não é verdade. — Me interrompeu o padre, fazendo-me abaixar as mãos e olhar por entre as frestas. — Seja lá o que você passou durante sua infância, não pode ser considerado como maldição. São apenas os resultados.
— Resultados? — Ri sarcástica. — O senhor quer me dizer que tudo o que eu passei na minha vida foram resultados?
— Sim. Resultados de ações humanas. Não culpe Deus por isso. Já ouviu o provérbio: “A sua liberdade termina onde começa a do outro”? Algumas pessoas não respeitam isso e praticam ações que prejudicam os outros, mesmo que estes não tenham feito nada para merecerem.
— Então quem é o culpado por tudo dar errado na minha vida?
— Não sei te responder.
— Então basicamente eu não tenho culpa de nada, é isso? É tudo culpa dos resultados?
— Minha filha tudo na vida tem um porquê e pra quê. Nada é sem sentido. Deus tem um propósito para você.
— Ele me perdoa, é isso que esta me dizendo? — Enxuguei as lágrimas, me segurando a mínima esperança de qualquer conforto que poderia encontrar.
— Pelo que vejo seu passado realmente a atormenta, todo esse sangue derramado... você se sentiu realizada quando matou essa pobre alma? Adiantou de algo?
— Não. — Respondi sincera.
— Creio que só serviu para aumentar a escuridão dentro de você. Se quer o perdão de Deus me responda. Arrependeu-se de todos esses pecados?
— Se eu me arrependo? Para ser sincera padre sou apateísta. Não acredito em Deus ou qualquer outra divindade, apesar de não negar sua existência. Eu não quero o perdão de Deus. Mas já pedi perdão a Clarisse. Muitas vezes se quer saber. Só me pergunto se ela me perdoou.
— Então para quê veio a igreja, se não buscas o perdão de Deus e o seu conforto?
— Na verdade eu não sei. Deve me achar a blasfêmia em pessoa, mas não pense que eu não acredito em Deus porque sirvo ao Satã ou algo do gênero. Eu só não consigo me perdoar o suficiente para encarar uma religião. Prefiro enfrentar os meus medos do que pedir que algo os resolva para mim, até porque isso não funciona.
— Que Deus tenha piedade da tua alma. — Falou o padre, enquanto rezava em silêncio
— Posso lhe fazer uma pergunta, padre?
— Faça.
— Quem mora na casa dos fundos? — ponderei silenciosamente enquanto apertava os olhos na tentativa de ver a reação do padre.
Ele ficou surpreso de início, mas logo controlou a agitação e respondeu.
— Pra quê propósito quer saber?
— Nenhum além de satisfazer minha curiosidade.
— É só uma pessoa qualquer, assim eu alugo aquele casebre. Desse modo consigo arrecadar algum dinheiro para sustentar essa pobre igreja que quase não tem visitas.
— Entendo. Mas conhece o homem que mora lá?
— Eu não disse que era um homem. — cuspiu, e senti vontade de morder a língua. Nem para encontrar informações eu era boa. — Seja sincera e me diga, o que quer com ele?
— Pra falar a verdade eu vi ele entrando hoje cedo lá e achei ele um homem muito bonito. Só fiquei interessada nele, só isso. — menti, o que não era de todo uma mentira.
O padre me analisou cuidadosamente antes de responder.
— Hmm... Não o conheço o suficiente para satisfazer sua curiosidade.
— Não sabe nem o seu nome? — implorei.
— Algo como Jason ou James.
— Poderia ser Jake? — Falei com uma voz inocente de quem não sabia de nada.
— Pode ser. Não conheço ele muito bem.
— Qual é padre? Não é possível que o senhor alugue uma casa e não sabe nem o nome da pessoa. Vai que é um assassino?
— Agradeço pelo conselho, mas se não observou direito durante a missa, essa igreja necessita de reparos e o governo não aceita ajudar. Aquele casebre não me tinha serventia e aquele homem me pareceu um bom moço... Lembro como se fosse ontem eles chegando e me pedindo para alugar.
— Eles? — Repeti com a nítida impressão que foi só um erro de português.
— Sim ele e a sua namorada. São um belo casal. Ela vinha regularmente para a missa.
— Namorada é?— Falei contendo o sorriso com a bela informação que havia descoberto. — E qual o nome dela?
— Não acha que já está exagerando?... Isso é um confessionário...
— Me desculpe padre, mas me responda isso, por favor, que eu vou embora.
Ele ficou um tempo em silêncio e suspirou cansado.
— Ela se chamava Ellie. Uma fiel devota que vinha muito antigamente.
— Antigamente? — Perguntei.
— Você disse que era a última pergunta. Essa é a casa de
Deus não um salão de beleza para fofocar.
— Mas por antigamente quer dizer que... ela morreu?
O padre suspirou e percebeu que eu não iria desistir enquanto ele não falasse.
— Não que eu saiba. Ela só parou de vir regularmente e... Agora que você me lembrou, não sei o que aconteceu com ela.
— Obrigada, pela atenção, Padre. Já vou indo. — Respondi já me levantando.
— Espere filha.
Virei-me olhando por entre as frestas, quando ele falou.
— Que Deus olhe por você.
— E pela minha irmã também. — Sorri.
Enquanto saía da igreja olhei o relógio e percebi que havia conversado tempo demais com o padre. Dei a volta rapidamente mas parei assim que vi Jake encostado no capô do carro de braços cruzados.
— Achei que tinha dito que não me esperaria. — Comentei abrindo a porta de um carro preto que deveria considerar ser caro e de marca, mas como não entendia nada, só era um carro preto de luxo.
— Eu não estava esperando. Somente aproveitando a brisa, e por pura coincidência você apareceu, disse sério quando falei que não te esperaria. — Falou pulando no assento de couro e ligando a ignição. — Mas fiquei surpreso quando vi você de novo. Jurava que nunca mais iria ver sua cara de porcelana novamente.
— E por que pensa isso? — Encarei fundo nos seus olhos, ainda apegada aos detalhes da conversa com o padre.
— Porque é o que uma pessoa normal faria. — Sorriu. — Pelo visto você é uma das minhas.
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