Darkness to Kill
15 A confiança é cega
Notas iniciais
Apesar de todo o meu esforço em tentar aparentar ser forte, não consegui muitos resultados. Depois de Jake ter dito que se lembrava de absolutamente tudo, um silencio um tanto quanto constrangedor se perpetuou. Não ousei por um segundo sequer, abrir os olhos temendo o que encontraria se o fizesse. Após o que pareceu uma eternidade de gritos e dor, percebi apenas mais tarde que o que ele havia injetado em mim era um remédio para auxiliar no sono. O que não ajudou muito, pensei.
— Sabe o que realmente ajuda nesses momentos? — perguntou Jake incisivo, e relutante em quebrar o muro que havia se construído entre nós nesse meio tempo.
— O que? — Resmunguei sem vontade, e indisposta em começar uma conversa. — Não me diga que contar ovelhinhas seja o melhor a se fazer.
— Não, não... — Deu uma risadinha — O que quero dizer, é que a melhor forma para aliviar a dor, é desviar sua atenção dela.
— Ou seja...? — perguntei impaciente.
— Converse... — Seu tom de voz pareceu suplicar — Converse comigo.
Senti vontade de abrir os olhos naquele momento, para saber que tipo de expressão ele estaria fazendo. Nas resisti à tentação e apenas continuei.
— O que é isso Jake? Está se sentindo carente? — Ri, querendo poder disfarçar tudo aquilo que me envergonhava. Mas a verdade era que se Jake olhasse em meus olhos saberia no mesmo instante, que eu mentia e que estava confusa e insegura, em relação a tudo.
— Só estou preocupado... — Seus movimentos ágeis com a “operação”, pararam apenas por um momento, até que ele voltasse ao trabalho. — Sinto que talvez ainda esteja pensando no que aconteceu e, acho que não entendeu...
— Jake... Não se preocupe demais. — Interrompi, rindo sem nenhum humor — Eu entendi completamente, o que aconteceu, ok?! Eu sei que para os olhos dos estranhos, eu aparento ser uma garotinha rica, mimada e que consegue tudo o que quer... Mas isso não é verdade! Moro numa casa onde não sou totalmente bem-vinda , trabalho num Petshop, e sinceramente acho que só tive uma amiga em toda a minha vida... Então por favor... Por favor... Não repita algo que eu já entendi, ok? Eu não sou burra! Entendi completamente o que você disse sobre amar a Ellie, e que tudo não passou de uma consequencia da sua doença... Eu entendi tudo!
Percebi de alguma forma que ele me encarava novamente, e apenas soltou outra risadinha e respondeu em tom firme.
— Você é realmente forte...
— Eu não sou forte! — neguei — Nem um pouco... Eu só acredito que não adianta pensar demais nas coisas... Porque senão elas podem acabar virando algo ainda maior.
— Entendo sua forma de pensar.
Passaram-se alguns segundos até eu criar coragem para dizer, e percebi que só teria aquela oportunidade já que não precisaria encará-lo.
— Me desculpe por ter perguntado sobre sua vida para o padre. — Falei direta. O que inicialmente causou certo espanto seguido por um pesaroso suspiro.
— Então foi ele quem disse... Imaginei o que você fez para descobrir, mas essa realmente é a alternativa mais lógica, apesar de que fofocar com um padre não seja a ideia mais promissora para se conseguir informações.
— Realmente... — Sorri envergonhada — mas fiquei surpresa ao saber que ele não sabe quase nada a seu respeito.
— E desde quando isso é novidade? — Falou estupefato — Você não me conhece Annie... Mas saiba que eu não deixo saberem da minha vida.
— Engraçado... Eu sei de algumas coisas bem interessantes — Sorri— Esta se contradizendo.
— Você é uma exceção.
Me senti enrubescer até ele falar as seguintes palavras.
— Não sei se você lembra, mas eu investiguei bastante sua vida... Então talvez considere justo você saber alguns detalhes da minha.
— Ata... Claro.
— Annie eu não te disse muitas coisas sobre o que esta acontecendo.
Jura? , pensei sarcástica.
— E talvez por causa disso e de toda a sua situação complicada demais para alguém normal, eu tenha me simpatizado com sua pessoa.
— Simpatizado? — Não percebi que meus pensamentos me levaram a falar em voz alta. Fiquei tão irritada que inconscientemente abri os olhos e o encarei. — Você tem certeza?
Ele pareceu não entender o que eu queria insinuar.
— Você pirou? — soltei irada — Você não só não me contou todos os detalhes, como não me contou NADA. E sinceramente acho que eu também estou pirando, já que aceitei de boa vontade ser “operada” por um maluco que eu nem sequer sei nome verdadeiro. E depois de tudo ainda tem coragem de me dizer na maior cara dura, de que simpatizou com a minha pessoa?
Jake ou sei lá como se chamasse aquele homem, apenas me encarou incrédulo enquanto eu despejava sobre ele mais e mais motivos para não confiar nele.
— Continue deitada... — falou simplesmente. — Não quer que isso dure mais tempo, quer?
Percebendo que ele era um babaca total, eu apenas olhei para a janela, me negando a fechar os olhos e me compadecer com tamanha hostilidade.
— Pode não parecer, mais eu te entendo. — suspirou.
— Murmurar isso e mais algumas palavras do tipo não vai me fazer mudar de ideia.
— Não é o que eu quero. Acredite, não cogito essa ideia... Mas me diga por que você acha que esse não é o meu nome?
— Não é obvio? — respondi impaciente — Para um cara que desde o começo vem tentando esconder a realidade, esta na cara que esse nome não é seu. Mas não se incomode em pensar em outro nome... por favor, não quero te dar esse trabalho, basta eu voltar a estaca zero e te chamar de X.
— Realmente... Eu não fui muito sincero com você. — Só por um instante, o encarei pelo canto dos olhos e o observei. —Não que faça diferença, mas meu verdadeiro nome é Tyler.
— Tyler...? — Falei incisiva.
— Tyler McGraw.
— Mais um nome inventado... Que perca de tempo Sr. X.
Continuei murmurando bobagens, até ele puxar meu rosto para encará-lo.
— É sério. Esse foi o nome que meus pais me deram em homenagem ao meu avô.
— Tyler é...?
Ele assentiu vagarosamente, e enfiou a mão pela gola da camisa, tirando de lá um colar de prata. Abriu-o rapidamente, e mostrou as duas fotografias preto e branco que ali estavam contidas. De um lado uma moça jovem com cheios cabelos loiros, e do outro um homem vestindo um terno cinza que lhe caia perfeitamente bem. O sujeito com igual aparência jovial a da moça, tinha olhos incrivelmente iguais ao de: X/tarado/Jake/Tyler/whatever.
— São meus avôs por parte de pai, respondeu tirando minhas dúvidas.
— Bonitos. — Respondi sem saber o que comentar naquele momento.
— Eles morreram faz alguns anos...— E antes que eu pudesse falar qualquer coisa ele desviou o olhar do meu e encarou o para brisa — E por favor me poupe de lamentações. Sua vida já é um tanto trágica, se preocupe apenas com ela.
— Mas como posso ter certeza, se esse não é só mais um nome falso?—Perguntei pacientemente.
Sua mão ainda segurava meu rosto, e ele somente a abaixou e parou de me encarar com uma expressão de incredulidade.
— Você não espera que eu lhe mostre algum documento espera?
— Eu não sei... Talvez?
— Sinto lhe decepcionar, mas não vou fazer isso. — Respondeu frustrando meus planos de descobrir mais sobre ele. — Se quiser acreditar, acredite. Sua única opção é confiar em mim.
— O problema é justamente esse... — Me interrompi, não sabendo exatamente como chamá-lo, vendo isso Jake sorriu.
— Me chame como quiser, ok?
— Mas isso me lembra uma coisa...— Parei recordando uma memória confusa do meu cérebro. — Quando você me levou para o motel da Mamma, ela te chamou de Jake... Ou melhor, Jaikinho. — Ri.
— Cale a boca. — Riu também — A verdade é que todos se adaptaram a me chamar assim.
— O que? Você é mais daqueles jovenzinhos que odeiam seus nomes? — Continuei rindo, até ser obrigada a parar pela dor que começou a se espalhar pelo meu abdômen.
— Vamos deixar esse assunto pra lá... — Parou também, dessa vez adotando uma postura mais séria.
Ele novamente se virou para a caixinha de primeiros socorros, e pegou um rolo de faixa. Se virou para mim e pediu educadamente que eu me erguesse um pouco para ele enfaixar todo o meu abdômen. Seguindo suas instruções me ergui delicadamente, com sua ajuda. Enquanto ele desenrolava o rolo na minha barriga, acabei me abraçando a ele, para o propósito médico. Totalmente profissional. Minha cabeça pendeu sem energia para o ombro de Tyler, e percebi que estava começando a ficar bastante sonolenta.
— Acho que começou a surtir efeito. — Sorriu.
Quando finalmente o remédio se tornou eficiente, já havia terminado. Amaldiçoei silenciosamente os fabricantes por fazer algo, com efeito, tão demorado. Logo depois dele recostar minha cabeça delicadamente no estofado do banco, já podia ver o resultado do que pareceu demorar tanto. Minha barriga era apenas um embrulho branco, com muitas bandagens. Do lado de fora eram possível ver claramente os longos postes de luz que banhavam a estrada com uma triste luz amarelada. Alguns carros de vez em quando passavam pelo nosso carro, e de forma peculiar não estranhavam um carro preto no acostamento da pista, no meio da noite. Enquanto eu encarava a escuridão do lado de fora, Tyler comentou.
— Não se preocupe... Você nem vai perceber quando começar a dormir.
— Esse é problema... Eu não quero dormir.
— Vai se arrepender de dizer isso quando estiver, na outra dimensão.—Riu. — A sua dor vai passar.
— Duvido muito. — Respondi de forma um tanto quanto sombria, enquanto aos poucos sentia a escuridão me puxar. — Minha dor é muito mais profunda do que aparenta... E além do mais eu tenho medo.
Tyler parou um instante intrigado e apenas me observou pelo canto do olho.
— Medo? — Repetiu com a mesma entonação. — De mim?
— Talvez... Mas principalmente eu tenho medo, de não saber onde vou estar quando eu acordar. — Bocejei e me aconcheguei ao vidro da janela, que para minha surpresa estava quente.
— Não seja por isso... — Sorriu, enquanto ligava a ignição do carro, e ao mesmo tempo, apanhava uma blusa de moletom da traseira do carro e me acolhia. — Garanto que quando você acordar tudo já estará resolvido.
Com os olhos já semi-fechados, murmurei as seguintes palavras sem prestar muita atenção nelas.
— Incrível... Mas duvido muito que isso aconteça. Apesar de a ideia ser realmente agradável.
— Só acredite. — Sorriu vagarosamente, fazendo o carro enfim tomar o seu rumo.
— Gostaria... — Sussurrei baixinho, me aconchegando no enorme moletom cinza que ele havia me entregado. Sorri quando senti a doce fragrância de grama fresca misturada com baunilha. — Eu realmente gostaria...
Fale com o autor