Darkness In The Clouds
1 Muro de proteção
Notas iniciais
NARRADO POR HERMIONE GRANGER
Era aquilo, todas as ações e conflitos dos últimos anos culminavam naquele ponto, o alívio era claro assim como a frustração que vinha junto, ambos sendo pelo motivo. O fim da guerra. Isso desfazia o nó que sufocava muita gente, mas trazia também a confusão em seguir e organizar as coisas que foram deixadas.
Fomos tragados para uma realidade que não condizia mais com o que nos tornamos, estávamos diante da oportunidade de arcar com os papéis de estudantes que deveríamos ter aceitado desde o princípio e não o fizemos. Era por isso que eu chegava a me questionar se a guerra tinha acabado de verdade, porque a mesma apreensão e nervosismo ainda seguia a todos como uma velha companheira, relembrando momentos de horror.
Mas as notícias sabiam como manipular, a simples menção do trio de ouro era motivo de plena excitação entre as pessoas, isso para nós significava apenas o fim de um período sombrio marcado por lástimas e esforço descomunal.
Com um pouco de relutância eu conseguia admitir que, em algumas partes, o Profeta não escrevia apenas mentiras quando se tratava de nós, mas eu dispensava o sensacionalismo e qualquer coisa relacionada. Afinal, eu sabia que a Sra. Weasley ainda sentia todo o impacto e reações pela perda, continuava chorando sobre o uniforme de Fred e se perguntava como teria sido se ele não tivesse partido, se aquela guerra fosse só uma ideia distante e não um acontecimento, todos sabiam que ela fazia isso, mas ninguém conseguia ir lá e dizer palavras de conforto para ela, porque estávamos muito ocupados reconfortando a nós mesmos.
Quando chegasse o momento de retornar à Hogwarts, esperava não receber olhares recheados de agradecimentos, porque eu sabia que apenas encobria e mal disfarçava o sofrimento ainda impregnado nas pessoas, e isso me incomodava.
—Hermione? —Chamaram meu nome.
—Sim? —Respondi distraidamente e tentei lhes oferecer um sorriso amistoso, mas não consegui. No meio do caminho o sorriso se transformou em uma careta então eu desisti. —O que eu perdi?
Estávamos todos reunidos na aconchegante Toca, pelo menos as sobras do que já fomos, parecia errado fazermos parte de algo tal banal, de estar de volta a uma rotina sem perigos, ninguém tinha se habituado com que era nosso por direito, com que costumávamos ter, ainda sentíamos a sombra incômoda de ameaça nos espreitando. Lá fora fazia frio, o vento cortava rápido e com força, quase pude sentir a dor na pele se não fosse pelo clima quente e monótono da casa, com pessoas tentando e falhando em manter uma conversa.
Olhei para meus companheiros ali tão perto de mim, mais velhos e com o olhar sério repleto de experiência pontuando a expressão, a idade já nos avistando de longe dizendo que não nos tinha esquecido, pois todos os jovens pareciam mais velhos do que deveriam. Harry encarava um ponto que eu não conseguia distinguir o que era, estava carrancudo e participava da conversa tanto quando eu, parado com seus pensamentos conflituosos ele travada uma batalha interna, discutindo consigo coisas que só ele poderia saber.
—Não perdeu nada. —Rony disse ao meu lado, o único de nós atento a tudo, mas desconfiei que fosse porque era sua casa, e se sentia mais confiante ali em seu domínio. —Mas sabe, ficar mexendo a comida não vai fazer com que ela desapareça. Só uma dica, tem que colocar na boca.
O sorriso idiota que ele me ofereceu me fez querer rir, e eu até dei uma risada baixa, mas o som me pareceu tão desaminado que parei.
Harry que estava do meu outro lado saiu de seu transe, me cutucou e me encarou como quem exigia uma resposta, eu o encarei de volta travando uma conversa silenciosa. Ele parecia decidido e rebelde, o motivo das suas ações eram desconhecidas pra mim e ele não se importou em esclarecer nada naquele momento, só me olhou como se pudesse me atravessar.
Virei para Rony com o objetivo de ter alguma resposta, mas ele deu de ombros se negando a escolher um lado, isso me motivou a segurar seu braço e o fazer olhar para mim, e quando isso aconteceu, eu soube que ele escondia algo.
—O que há de errado?
—Se nem você responde isso, não pode esperar que eu o faça. —Replicou Rony tentando focar em sua refeição, mas a sopa de ervilhas já não parecia ter a atenção dele.
Fui pega diante da resposta dele, o humor que segurava aquela mesa desapareceu de repente, e eu me esquivei por reflexo, nervosa por ser levada para uma área que eu não tinha conhecimento, por isso não pude parar a mim mesma de pensar que estava andando por um lugar perigoso. Conseguia sentir a impaciência de Harry ao meu lado, seus olhos verdes pareciam elétricos e suas mãos moviam a colher em sua mão como se fosse a primeira vez pegando em uma.
—Não consigo decidir se vocês estão me deixando curiosa ou irritada.
—Você pode ficar como quiser, contanto que deixe de se fazer de boba, não combina com você. —O ruivo ao meu lado parou então de comer para soltar o comentário ácido.
—Certo, decidi, irritada é a opção mais provável. —Fechei os olhos.
—Quer mesmo andar por esse caminho? —A pergunta de Harry soou como um alerta.
—Só quero que me diga o porquê disso. —Fui sincera e talvez ele tenha visto a confusão em meu rosto, porque se acalmou.
—Certo, estamos indo lá pra cima. Se precisarem, não chamem. —Harry falou e Rony logo se levantou mostrando que nos acompanharia, todos olharam mas não nos deram muita atenção, apenas assentiram e não questionaram, nem mesmo a senhora Weasley, mas eu não podia culpá-la por não estar de fato ali conosco, ela parecia divagar em seus próprios pensamentos conturbados.
Todos ali não estavam presentes, eu notei.
Eu o segui pela escada acima, apressada para começar uma conversa que eu pressenti que me desagradaria, mas não tinha opção. Meus dedos descobertos bateram nos degraus mais vezes do que eu pude contar, não me dando tempo para questionar sobre nada por enquanto.
—O que houve? —Perguntei assim que chegamos ao quarto em que estávamos dividindo, era pequeno e bagunçado, mas eu não me importava, apenas agradecia por não terem se incomodado de eu ocupar um lugar na casa.
—Você precisa tentar. —Ele falou de modo sério, me surpreendendo um pouco com o tom da sua voz, ele quase nunca usava aquele tom.
—Tentar o quê?
—Bancar o tolo é o meu papel, não o seu. —Rony logo se fez presente.
—Eu não teria subido se soubesse que trocaríamos enigmas. —Virei e comecei a andar em direção à porta antes de mais uma vez.
—Você não pode virar as costas para nós sem nem ao menos saber o que vamos dizer.
—E eu não posso saber o que vão dizer se vocês não dizem. —Exclamei.
—Eu esperei todo esse tempo por uma oportunidade que nunca chegou, por uma brecha que nunca se abriu, uma simples chance de falar com você, mas você não permitiu, a única solução que eu achei foi forçar isso.
—Rapazes. —Fui calma e suave. —Se algo está incomodando vocês, me digam, eu vou resolver.
Rony hesitou um pouco, como se tivesse medo de pronunciar as palavras seguintes, assombrado pelo que elas significariam, com o impacto que elas teriam, então deixou que sua mão pairasse no ar, aquele gesto me fez imaginar que ele tentava me alcançar de alguma forma, mas era incapaz.
—Nós sabemos de tudo. —Ele disse cansado. —Não é sua culpa.
—Você tem que parar de se culpar por tudo o que acontece, não pode carregar o peso do mundo sozinha. —Carinho e atenção marcavam a voz de Harry e seus olhos verdes tão intensos mostravam o quão receoso ele estava. —Ninguém pode.
Uma mão gelada invisível acariciou minha coluna, fazendo com que eu me arrepiasse.
—Eu sei que eu deveria ser paciente com você, mas se eu for, você nunca vai olhar nos meus olhos e falar comigo, conversar sobre o que aconteceu.
—Hermione, nós estávamos aqui, sempre estivemos. —Os cabelos ruivos de Rony entravam na minha frente, e ele me lembrou de algo que eu já sabia, mas ignorei por vergonha e medo. —Ainda estamos.
—Não façam isso comigo, por favor.
O chão se aproximou de mim, as paredes pareceram se fechar e o ar sumiu. Eu sabia que devia me frear, descer ou aparatar para outro lugar, mas estava tudo seguindo um curso que eu era incapaz de parar, eu não tinha controle sobre mim e isso me assustava. Foi inevitável quando meus músculos se tensionaram tanto que ficou difícil me mover, fugir dali e me esconder do que tinham trazido a tona. Meus olhos arderam, não pelas lágrimas que não viriam, mas pelo tempo que eu fiquei com eles vidrados, sem piscar, apenas encarando o espaço.
Não chorei nem lamentei, já havia feito muito isso quando toda aquela situação era mais recente, fiz tanto que decretei a mim mesma que minha capacidade de sequer lagrimar estava extinta, banida de todo o meu ser, e que isso era bom.
—Agora está tudo bem. —Um deles começou a afagar meus cabelos lentamente.
—Não, não está. —Sussurrei, a voz como um fio. —Eu não consigo mais assimilar a palavra “bem” com a minha vida. Parece tudo tão surreal, como se eu estivesse vivendo dia após dia em um universo alternativo onde tudo está contra mim, onde minha vida não é realmente minha vida. Eu não consigo mais imaginar meu futuro mesmo que eu me esforce. Acabou.
—Isso não é verdade, você sabe que apesar de tudo há pessoas que se importam com você. Ainda é jovem, e mesmo que tudo ainda pareça doloroso, saiba que é recente. —Era difícil acreditar nas palavras de Harry.
—Não vai passar. Há coisas que simplesmente não passam e não curam. Há coisas que ficam conosco, que nos marcam permanentemente, que insistem em se agarrar a nós e perduram através dos anos.
—Hermione, eu sei que… —A expressão de Rony era de pura frustração, e eu me senti culpada por contagiá-lo com aquilo.
—Não. —O cortei. —Você não estava lá.
—Então você podia ter me contado. —Ele respondeu ressentido.
—Eu só… não conseguia. —Falei derrotada. —Falar faz tudo parecer tão real, e eu preciso que não seja.
—O que você precisa é encarar isso. —A voz de Harry soou forte.
—Acha que eu já não tentei?
—Se tentou, claramente, já desistiu.
—Eu sei o que eu vi, mas eu me recuso a acreditar que seja verdade, tento me convencer de que eu ainda tenho um lugar para voltar.
—E você tem! —Exclamou Rony.
Pelo olhar que eles me lançaram pude captar os sentimentos que vinham com eles, traição e mágoa. Como se eu tivesse quebrado o laço de confiança que tínhamos mantendo aquilo pra mim, guardando a informação enquanto eu podia e segurando bem perto o restante da pouca dignidade que eu ainda apertava contra o peito, com medo de que poderia escorregar também o orgulho.
—Sabe bem o que eu quis dizer.
—Assim como você deveria, estamos aqui, e talvez para você agora não seja tanto, mas para nós é. —Disse ele, aflição impregnou sua voz. —Eu só não suporto te ver assim.
Ele me olhou e pude imaginar o que ele via, o estado deplorável que eu me encontrava sem poder me impedir, a vida parecia esvair de mim, não era apenas tristeza, era intenso e arrebatador, me envolvia em um abraço desconfortável sufocando os outros sentimentos e me entorpecendo como uma droga enquanto o vazio me consumia.
—Você me culpa por ainda lamentar, é isso?
—Não te culpo por lamentar, te culpo por não fazer nada além disso.
—Mas eu tento.
—Só não consegue. —Harry completou.
—Me chamar de inútil seria mais rápido do que fazer tudo isso.
—Só queríamos falar com você sobre o que aconteceu. —Se defendeu Rony.
—Posso afirmar que conseguiram isso e um pouco mais.
—Nossas intenções foram boas, posso jurar.
—Claro, me chamar de covarde foi algo ótimo de ouvir.
O silêncio veio e ficou, os dois rapazes não tinham mais a acusação querendo sair pela boca, estavam estáticos pensando sobre os acontecimentos que nos levaram até ali.
—Estamos aqui para ouvir você. —Rony disse.
—Não agora. —Era óbvio, mas não para eles. —Muito cedo.
Harry pensou e pesou todas as possibilidades, analisando as circunstâncias e o que poderia vir depois.
—Não precisamos falar mais se você não quiser. —Concluiu. —Não hoje.
—Teria facilitado se tivesse decidido isso antes.
Eles se entreolharam, vendo se tinha problema deixar como estava, se o mal que eu me proporcionava mantendo aquilo pra mim poderia me afetar ainda mais.
—Só posso pedir desculpas por adiantar algo que tem seu próprio tempo. —Harry pareceu arrependido.
—Eu aviso quando esse tempo chegar. —Menti.
—Sei que não vai. —Rony expôs o que nós três sabíamos. —Mas isso não vai me impedir de te observar para ter certeza.
—Vem cá. —Harry me levantou do local no chão onde estava encolhida, então ambos me guiaram para a coisa mais confortável que tinha ali.
Deitamos todos na larga cama que eu estava usando, eles ignoraram as deles e se colaram em cada lado meu, cansados nós olhamos para o teto encantado do quarto, um céu escuro coberto por um manto de estrelas brilhantes e incandescentes.
—Isso me parece familiar. —Rony mudou o foco do assunto, e eu agradeci internamente por isso.
—Está tudo em Hogwarts, Uma História.
—Eu deveria ter imaginado. —Ele revirou os olhos.
—E eu não deveria me surpreender que depois de todo esse tempo você ainda não leu esse livro.
—Não fiz muitas coisas desde aquele tempo, não pode me culpar.
E ele estava certo, eu entendi o que ele quis dizer com aquilo, era correto pensar que não passamos pelo ciclo normal de crescimento social, nos ausentamos de quase todas as interações físicas e sentimentais, os escapes eram quase nulos, tão poucos não precisavam nem serem contados.
—Verdade, mas posso te incentivar. —Envolvi meu braço no dele. —Não temos mais uma guerra para lutar, acabou, vá em frente se quiser.
—Não saberia como. —Ele sorriu como um tolo.
—Parece que nosso amigo em comum ganhou mais uma utilidade então, a de conselheiro.
Harry nos olhou surpreso, a confusão dominou sua expressão até ele entender.
—Eu mal sei lidar com o meu relacionamento, não esperem que eu os ajude com o de vocês.
—Essa é a maior merda que eu já ouvi. —Manifestou-se Rony.
—Acho que ele quer manter todo o conhecimento para ele. —Opinei seguindo o exemplo do ruivo.
—Quebrar a cara se tornou sinônimo de conhecimento?
—Sempre foi. —Afirmei.
—Então eu acho que posso tentar guiá-los, só não tenho certeza se será pelo caminho certo.
—Seu namoro já está nesse nível de ruindade?
A alfinetada pareceu surtir efeito.
—Pelo menos o meu começou. —Se defendeu ele. —E o de vocês?
—Acha que algum dia você vai esquecer disso? —Perguntou Rony.
—Tenham certeza que vou lembrá-los desse episódio sem sentido até vocês decorarem cada parte pecaminosa.
—Por Merlin, será que isso pode ser considerado incesto? —A voz de Rony tremeu pelo receio.
—Me sinto até um pouco suja agora. —Nojo me inundou.
—Mas foi só um beijo, irmãos se beijam as vezes, certo?
—Eca, Rony! —Exclamei. —Você já beijou a Gina?
Isso captou a atenção de Harry.
—Como é?
—Não, claro que não, mas eu beijei você, isso conta como beijar uma irmã.
—Faz sentido, mas já foi, se não contarmos aquilo como uma coisa amorosa, então não será.
—E não foi.
—Resolvido. —Combinamos.
Nos aproximamos para nos aconchegar sem ficarmos desconfortáveis, foi uma tarefa difícil, mas no final, conseguimos achar um jeito de cabermos na cama sem ninguém ficar de fora. Provavelmente teríamos uma dor na costa no outro dia, mas naquele momento não pensamos muito na possibilidade.
—Amanhã vai ser o grande dia, espero realmente que ocorra tudo como planejado, sem interrupções ou avisos inesperados. Amanhã voltaremos a Hogwarts, mas acho que pela primeira vez em anos, em me sinto receosa quanto a isso.
—Vai dar tudo certo. —Harry soou esperançoso e eu não quis acabar com sua positividade.
—Eu espero que sim.
Fale com o autor