Darkness In The Clouds

5 Monstros na floresta


Notas iniciais
Ando um pouco ocupada então peço desculpas por qualquer coisa. Espero que gostem, temos finalmente um encontro entre os dois. Beijo.

NARRADO POR HERMIONE GRANGER

Dias se passaram desde que eu chegara a Hogwarts, as aulas apresentavam lições que eu já havia colocado em prática, visto e feito por mim mesma, nada novo, somente coisas que precisavam ser reforçadas até atingir a perfeição. Meu tempo era dividido em monitorar o castelo e ler por horas na biblioteca, que continuava sendo meu local favorito, o cheiro de livros antigos e pergaminhos velhos, além da tinta forte que agora cobria a antiga e penetrava em minhas narinas, era renovador, e eu quase podia esquecer da minha realidade enquanto estava absorta lendo livros.

A convivência com os outros monitores era passável, a dedicação de Igor, a irritabilidade de Sophia e o desinteresse por tudo de Malfoy, só deixava mais óbvio o quanto todos eram opostos.

—Dia' rapazes. —Disse quando cheguei a mesa da Grifinória e logo me sentei entre Harry e o Rony, dando-lhes um leve sorriso.

Ambos pareciam excitados, conversavam com os que falavam com eles e desenrolavam o assunto com a habilidade de um jornalista, ficaram ainda mais empolgados quando alguém comentou sobre as novas vassouras que haviam lançado e então disseram abertamente sobre as expectativas que tinham em relação aos jogos futuros.

Não pude deixar de notar que havia algo estranho com eles.

Pareciam… felizes.

E por mais que eu quisesse, não pude frear uma sensação esquisita que fez com que o meu mísero sorriso desaparecesse. Inveja. Porque por algum motivo que eu desconhecia, eles estavam conseguindo seguir com suas vidas apesar de tudo o que havia acontecido, e eu estava me afogando em meio a um mar de arrependimento e mortes.

—O que vocês tem? Estão tão… radiantes. —Falei tentando ignorar aquela sensação. Eles se entreolharam e deram um sorriso cúmplice.

—Hoje é o dia dos testes de quadribol! Como Minerva me nomeou como capitão do time da Grifinória, eu estava pensando em... —Então se iniciou mais uma vez uma longa conversa sobre vassouras, quadribol e sobre como eles estavam nervosos de voltar novamente a jogar, isso enquanto comíamos vagarosamente. Eu me perdi em meio a tantas palavras e ideias de táticas que eles me explicavam entusiasmados, de vez em vez eu acenava e sorria como se estivesse interessada em tudo o que era dito.

—Hermione, tá doente? —Rony me lançou um meio olhar enquanto comia. —Parece péssima.

—Estou bem, eu acho. —Respondi. —Apesar de que começar o dia com alguém dizendo que eu estou horrível, não é tão agradável.

—Tem certeza de que está bem? —Ele perguntou novamente.

—Tenho.

—Você dormiu bem, Hermione? —Harry questionou.

—Não precisa nem perguntar, é só olhar pra ela. —O outro disse.

—Vá na enfermaria com a Madame Pomfrey depois das aulas, e peça uma poção pro seu cansaço. Isso não vai sumir se você não fizer um esforço. —Harry opiniou. —Eu posso te acompanhar se...

—Eu sei. —O cortei de forma rude, e me arrependi no mesmo instante, pois só porque eu não estava bem, não significava que eu deveria estragar a alegria deles também. —Desculpe. Você tem razão, talvez eu vá até a enfermaria mais tarde.

Fomos para nossa primeira aula de História da Magia junto com a Lufa-Lufa e lá encontramos a Gina, o dia passou monótono, migrar de sala em sala só deixava as coisas mais cansativas e quando olhei para o pergaminho na minha mesa, estava liso e sem anotações. Eu olhava atentamente para a bruxa que falava sem pausas, só se interrompendo para respirar, mas as palavras dela não chegavam até mim, eu não conseguia mais acompanhar o ritmo de como as coisas estavam seguindo e o meu deslocamento parecia mais evidente cada vez mais conforme os dias se passavam.

A normalidade era esquisita, eu já não fazia mais parte daquilo, como uma peça quebrada que não se encaixava mais nas outras e forçar só a destruiria mais.

Comecei a caminhar pelos jardins de Hogwarts, rumo a uma enorme árvore de amoras que se encontrava próxima da Floresta Proibida e a uma curta distância do Lago Negro, um lugar que eu comecei a ir para refletir um pouco, sentar por alguns minutos e fechar o olhos, sentir a brisa gélida que emanava do lago, o cheiro doce e convidativo dos frutos da árvore acima de mim, da relva de uma coloração verde vívida e úmida sob os meus dedos. Aquela sensação calmante e única que se apoderava de mim, uma sensação de alívio que invadia minha mente e revigorava pedaço por pedaço da minha alma.

Depois de algum tempo eu já estava terminando minhas anotações com o que eu conseguia lembrar, compensando pelas aulas que eu deixei passar em branco, mas um ruido chamou minha atenção me fazendo olhar em todas as direções possíveis sem conseguir identificar de onde tinha vindo.

Fechei os olhos e me concentrei, esperando ouvir o barulho novamente. Passou-se alguns poucos minutos e ele voltou, mas audível do que antes. Eram galhos quebrando, abri meus olhos com a varinha em punho e foquei em um local que eu supus que estivessem vindo os ruídos, vinham da Floresta Proibida. Talvez fosse algum dos monstros que viviam ali, então tratei de arrumar rapidamente minhas coisas para voltar ao castelo, mas as vozes seguintes prenderam minha atenção, não eram exatamente vozes, eram… sussurros. De alguém, ou alguma coisa. Colocando minha bolsa no ombro ergui novamente a varinha, e saí andando muito rápido.

Calculei as possibilidades de uma fuga e de uma luta, se fosse um monstro ou algo capaz de usar magia, se pudesse controlar elementos ou tivesse força e rapidez. Esperava que minha fuga fosse sucedida, mas se o encontro não pudesse ser evitado, então eu lidaria com o que quer que fosse.

Os barulhos estavam me seguindo, os ruídos ainda mais estranhos, parecia que a coisa estava me perseguindo, vindo atrás de mim, meus ouvidos estavam zumbindo, como um rádio em uma frequência que não funcionava, produzindo chiados cada vez mais altos. Acelerei o passo, e então eu já estava correndo, eu sentia o vento bagunçando meus cabelos e acariciando meu rosto, podia sentir que a coisa estava mais perto, sem nem ao menos olhar para ela. Estava se aproximando, a coisa que saiu da Floresta Proibida estava cada vez mais perto. Me preparei mentalmente, exigi de meu corpo obediência cronometrada. Me virei com determinação e gritei a todos pulmões.

—Estupefaça! —Pondo toda a minha força naquela palavra, vi apenas um feixe de luz vermelha forte sair da minha varinha e se chocar contra o corpo da coisa.

Ou melhor… alguém.

Não tive tempo de me sentir orgulhosa por meu feito, corri em disparada para onde o corpo foi jogado bruscamente na relva, e pude ouvir o impacto forte de quando o corpo se chocou contra o solo.

Estava chegando mais perto, e pude notar que o indivíduo era alto, com ombros largos e tinha longos braços cobertos por um casaco verde-escuro, cabelos loiros claros e dono de olhos cinzas tempestuosos, ele segurava fortemente o pingente de seu cordão que emitia uma luz azul, mas eu não pude distinguir qual a forma exata.

—Você está bem? —Perguntei assim que me ajoelhei ao seu lado e o fiz sentar no gramado.

Ele murmurou palavras incoerentes e logo desmaiou fazendo com que eu me movesse e impedisse que sua cabeça batesse no solo com meus braços.

Peguei minha varinha que estava jogada no gramado e apontei para o Malfoy.

—Enervate.

E logo ele abriu os olhos cinzentos, estava ofegante, e segurava a frente das minhas vestes com força, me puxando pra perto.

—Você está bem? —Perguntei receosa.

Ele murmurou alguma coisa olhando fixamente para os meus olhos.

—Levante, vamos, eu te ajudo. —Disse, como se estivesse falando com uma pequena criança, e não com meu forte arqui-inimigo que eu havia acabado de estuporar pensando que era um monstro vindo da Floresta Proibida.

Eu era um gênio, definitivamente.

Ele levantou, com um dos braços apoiados ao redor dos meus ombros enquanto eu segurava sua cintura com um braço para equilibrá-lo e com minha bolsa no meu outro ombro. Nós estávamos andando lentamente em direção ao castelo, ainda faltavam muitos e muitos passos e eu estava com minha varinha em punho.

Ele parou, bruscamente, como se tivesse voltado a realidade, tirou o braço que estava ao redor do meu pescoço e apontou o dedo na minha cara.

—O que você estava pensando? —Ele perguntou elevando um pouco a voz.

—Eu realmente sinto muito, Malfoy. Não era minha intenção… eu nem sabia que era você. —Eu atropelei as palavras.

—Bem, Granger, deixe eu te contar uma coisa que eu acho que você não ficou, completamente, ciente, você me atacou.

—Foi apenas um feitiço, e eu sinto muito, não foi nada e você parece melhor.

—Acho melhor você rever seus conceitos sobre “nada”.

—Em minha defesa, eu pensei que você fosse um monstro!

—E ainda me chama de monstro.

—Não, você não está me entendendo, eu pensei que fosse literalmente um monstro. Eu ouvi uns barulhos vindos da Floresta Proibida e achei que... em nenhum momento foi minha intenção machucar você.

Ele se desequilibrou e eu o agarrei envolvendo minhas mãos ao redor de sua cintura, ele era mais alto que eu, fazendo com que minha cabeça ficasse um pouco mais acima de sua mandíbula. Eu estava praticamente sustentando todo o peso do corpo do Malfoy e aquilo estava acabando com meus braços.

—Vem, vamos sentar ali. —Falei indo na direção de um banco que se encontrava ali perto. —Como você está se sentindo? —Perguntei assim que nos sentamos.

Eu sabia que deveria levá-lo até a enfermaria, mas se o fizesse, perguntariam a causa de tudo aquilo e eu não estava preparada para enfrentar uma punição logo no início das aulas.

—Enjoado e um pouco tonto. Seu feitiço é forte… bem forte.

—Obrigada, eu acho.

—Nesse momento, isso não é nem de longe um elogio a sua magia.

—Você só precisa ficar um pouco sentado e… Ei! —Gritei de repente, estalando meus dedos na frente de seu rosto. —Não feche os olhos! Você bateu a cabeça muito forte e pode ter tido uma concussão.

Ele tentou se manter consciente.

—O que diabos você estava fazendo por aqui? —Perguntei tentando manter ele acordado.

—Procurando por você, é óbvio.

—Você estava na Floresta Proibida?

—Mas é claro que não. Por que eu estaria na Floresta Proibida? Eu estava te procurando, rodei o castelo todo atrás de você.

—Por quê?

—Porque eu fui o sortudo para quem pediram que te avisasse da reunião dos monitores hoje com a Minerva. —Ele disse secamente.

—Eu, provavelmente, vou ter que relatar isso para Minerva, estou ferrada. —Disse baixinho para mim mesma.

—Nós não precisamos contar se você não quiser. Acredite quando eu digo que quero tanto quanto você que alguém saiba sobre você ter me estuporado.

—Olhe, eu não queria te estuporar, eu já disse.

—Isso não importa mais, eu já estou bem. —Ele disse fechando os olhos.

—Espere, aguenta só mais um pouco. —Disse, pegando minha bolsa e vasculhando ela a procura de uma pequena garrafa de wisky de fogo, e colocando-a abaixo das narinas dele.

—Inale profundamente. -Recomendei.

—Desde quando você começou a andar com bebidas na bolsa?

—Desde que ela me mantém desperta, aquecida e um pouco mais... alegre. —Comentei sem realmente prestar atenção.

—Ou seja, bêbada.

—Isso não vem a ser na sua conta. —Disse. —Você já está melhor?

—Ahram.

—Já pode andar sem apoio?

—Você só estava me carregando porque me estuporou como uma maníaca paranoica que eu sempre soube que você era.

—Estou ciente disso, mas da próxima vez, tente não agir como um louco perseguidor e simplesmente me chame.

—Eu chamei. Praticamente gritei o seu nome, mas você estava ocupada demais correndo para ouvir qualquer coisa que eu dizia.

—Você pode, realmente, andar sem cair?

—Já disse que posso, Granger. Quero sair de perto de você tanto quanto você quer sair de perto de mim e eu já estou normal.

—Não é como se seu normal fosse algo bom. —Sussurrei pra mim.

—E não é como se você fosse uma santa. —Ele disse se levantando no mesmo momento que eu.

—Não foi isso que eu quis dizer. —Me justifiquei.

—Sim, eu fiz merda, sim, eu estraguei as coisas, mas eu não fui o único, então pare de canalizar toda a merda de raiva que você tem pra mim.

—Você admitir isso não vai apagar as coisas que fez, só vai confirmar o óbvio.

—Eu não ligo se você me odeia ou não, nem pro que pensa ao meu respeito, de fato, isso é inútil pra mim. Só me irrita como você olha pra mim com esse ar de julgamento como se nunca tivesse errado.

—Já errei, não nego, mas os meus erros não influenciaram a morte de milhares.

—Escuta, todos nós temos uma parte má dentro de nós, aquela parte que se acomoda em nosso ser e às vezes nem ao menos percebemos. Mas chega um dia, o tão temeroso dia em que essa parte se rebela, é inevitável. —Ele rosnou última parte. —A minha parte já se rebelou a anos atrás, e eu convivo com ela todos os dias. Mas e a sua? Vai me dizer que nunca fez algo que se arrependeu? Que nunca fez algo extremamente maldoso, ou simplesmente não fez nada e deixou tudo acontecer da maneira mais inescrupulosa?

—Pare de falar, Malfoy. —Disse pausadamente, e de um modo tão assustador que nunca pensei que seria capaz de falar.

—Você pode me dizer que uma parte de você não está satisfeita por ter feito isso?

—Isso o quê? O feitiço afetou o seu cérebro? —Perguntei. Ele estava se aproximando, com uma expressão feroz, mas eu me mantive no mesmo lugar. Não deixaria ele me intimidar. Não fazia muito tempo que eu finalmente havia conseguido construir a minha imagem perfeita, aquela que não se intimidava só porque era uma nascida-trouxa, que não achava que só porque uma pessoa era puro sangue, era superior.

Aquela que era temida, não a que temia.

—O fato de você finalmente ter feito o que tanto ansiava. Está satisfeita não está? Diga! Não está? —Ele perguntou, segurando meu braço fortemente.

—Eu estaria se fosse um duelo justo, se você também estivesse preparado e com varinha em punho, aí sim eu estaria satisfeita. Pisar no seu ego, te derrotar em um duelo, te ver no chão. Seria muito mais do que satisfatório. —Minha voz saiu rouca e feroz.

—Você tem apenas essa aparência, mas por dentro está contaminada, apodrecendo aos poucos. —Suas palavras foram suaves e seu hálito estava morno, ele roçava seus dedos em meu rosto calmamente. —Você se esconde por trás do que acha que é. —Ele chegou mais perto e sussurrou em meu ouvido. —Isso é assustador pra você?

—Eu não preciso ficar aqui. Tenho coisas demais para fazer além de ouvir você ocupando meu tempo.

—Seu rostinho cheio que frustração me conforta. Mas seus gritos... ah, seus gritos iriam ser meu êxtase de felicidade.

—É realmente uma pena que você não vai consegui-los, Malfoy.

—Não hoje, mas vou. Tenha certeza disso.

—Você é insano. —Disse me livrando do aperto em meu braço e de seus dedos em meu rosto e pegando minhas coisas no pequeno banco. Me virei e sai andando rumo ao castelo.

O que ele falou me veio em mente, e eu logo me arrepiei de forma involuntária com as lembranças que me invadiam, recordações do que aconteceu. Talvez se eu tivesse tentado mais, me esforçado mais, tivesse feito alguma coisa, qualquer coisa que seja, nada daquilo teria acontecido.

Minha consciência tentava me confortar, mas, em contrapartida, eu continuava a sentir a culpa me assolando, como se algo me puxasse para um abismo e que talvez que merecesse cair.

Notas finais
Obrigada por acompanharem até aqui, deixem a opinião se quiserem, isso é mais que bem vindo. Beijo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.