Notas iniciais
"A dor é algo que nos atinge quando uma parte de nós é perdida"

Eu me virei num impulso, e os braços dele como mantas estavam envolvendo meu corpo imediatamente. Eu podia sentir seu desejo, sua vontade de mim. Eu podia senti-lo me querendo, podia sentir tudo o que era mais quente que emanava dele.

Seus dedos estavam apertando forte minhas costas nuas, mas de uma forma que me levava ainda mais a loucura e não a dor. Pude sentir seus lábios ferventes no meu pescoço, cheirando, beijando, mordendo. Seu rosto estava completamente enterrado em minha pele, de modo que a cada tocar de seus lábios eu podia sentir meus pelos se eriçando.

A mão dele escorregou para mais baixo do meu corpo, enquanto minhas loucas e famintas mãos tentavam achar cada vez mais seus cabelos negros. Eu os enrolava, puxava, enquanto ele me pressionava contra a parede. Sua mão rígida descendo pela minha coxa... Subindo novamente.

— Oh, Damon. — minha voz saiu rouca, enquanto ele continuava o circuito tentador e que me incendiava cada vez mais. Suas pernas nuas se entrelaçavam nas minhas procurando um encaixe perfeito, que me imobilizasse. Mas eu jamais pararia de me contorcer, não com ele agindo daquela forma.

Senti um sorriso se emoldurar dentro dos meus cabelos, depois ele desceu os lábios entreabertos até o lóbulo da minha orelha, mordendo-a afavelmente. Em seguida, ele sussurrou no meu ouvido, me pondo de vez nas chamas:

— Eu te amo tanto, Elena. — sua voz era calma e sem pressa.

Ele afastou um pouco o rosto, de modo que seus olhos ficaram fitando os meus. Eu podia ver a verdade sendo eclipsada naquele tom claro de suas íris. Eu podia ver também a verdade doce e ingênua de um menino feliz e inocente dentro daquela casca que um dia, ele foi.

Eu nunca o vi desse jeito: os olhos tão cálidos e serenos, a pureza que emanava dele, a felicidade que ele alojava no peito. Eu nem acreditava que o amor o houvera mudado, ou pelo menos deixado o Damon sombrio escondido atrás de uma rocha. E que era eu o motivo de sua felicidade. Eu, a simples Elena.

Meus dedos percorreram sua bochecha direita, e ele fechou os olhos se deliciando com o toque. Eu deslizei minhas mãos para sua nuca, e o puxei novamente para mim. Ele abriu os olhos num sobressalto.

— Eu te amo Damon, eu te amo. — e as palavras saíam do fundo da minha alma.

Suas mãos envolveram meu corpo, e num instante, ele me girou pelo quarto, e no segundo seguinte estávamos na cama, o corpo dele sobre o meu. Eu podia sentir suas costas quentes sob meus dedos.

Ele encaixou os lábios perfeitamente nos meus, e era como se nossas bocas tivessem sido criadas uma para a outra. Sua língua percorrendo afavelmente meu céu da boca, minha boca respondia o beijo ansiosamente.

Eu apertei sua nuca novamente, e girei o corpo de modo que no segundo posterior eu fiquei em cima dele; meus lábios cobrindo os dele, minha língua se entrelaçando na dele, que também sentia necessidade da minha.

Nossa como é boa…

Mas ele não me deixou muito tempo no comando. Ele girou o corpo e estava em cima de mim. Os lábios se contorceram num sorriso antes de tocar meus lábios novamente. Meu corpo estava se contorcendo de desejo sob os braços dele, sustentando o peso de seu corpo, e ansiando por ser amado.

Eu afastei meu rosto, e encarei Damon, seu rosto impassível, por um momento. Minhas mãos alisaram seu tórax exposto e voltaram para seus ombros e repetiram o percurso mais uma vez. Como ele é lindo, cada centímetro de seu rosto, cada ruga… e é meu. Meu. Meu Damon.

E, então, deixei que ele me amasse, enquanto eu mergulhava definitivamente no fogo intenso que era sua paixão.

Acordei na manhã seguinte com algo puxando meu corpo e imediatamente eu percebi que era o braço de Damon me puxando para mais perto de seu corpo. Não percebi o sorriso que se formava no meu rosto, enquanto eu ainda piscava, tentando acordar.

Encarei a claridade que atravessava as janelas e me virei.

Ele estava dormindo ainda. Nossa, que homem lindo, e acho que o amo demais. Meu coração pula confirmando meu achismo. Sim, eu o amo. Eu pertenço a ele. Fiquei ali encarando suas feições belas e relaxadas, seu rosto pálido que parecia estar… Corado.

Permaneci ali, junto de seu abraço que me prendia ao seu corpo, desejando nunca poder sair. Eu poderia, com certeza, ficar ali apenas o admirando, e pensando… Pensando como será nossa eternidade.

Mas ele me interrompeu se remexendo, e então abriu os olhos. Piscou mais uma vez para estabilizar a visão e abriu um sorriso quando me viu pelos fios de cabelo bagunçados. Eu sorri em resposta e acariciei seu rosto com os nós dos meus dedos e afastei o cabelo dos seus olhos.

Ele segurou meus dedos bruscamente, me dando um susto. Porém, levando meus dedos até seus lábios, ele foi beijando cada dedo meu, lentamente, e eu fechei os olhos me deliciando com a mais linda saudação de “bom dia”. E quando, terminou no mindinho, ele me puxou para si e…

E me beijou.

— Bom dia — ele sussurrou nos meus lábios.

Damon sentou-se na cama de repente, o relaxamento sumindo de seu rosto. Sentei ao seu lado segundos depois. O rosto dele parecia tão concentrado, rígido.

Então, só depois eu entendi, quando uma voz invadiu minha mente, e eu parei para escutar também. Era a voz de Jeremy, ele parecia estar conversando com alguém. Mas era muito cedo, e pouco improvável que alguém tenha entrado na mansão. Jeremy parecia tão triste e inconformado.

“Você não podia ter feito isso… Como vou viver sem você?” “Não, não vou conseguir encobrir mais essa mentira por muito mais tempo… Eu, simplesmente, não posso” ele dizia baixo, como se fosse um segredo.

Olhei para Damon intrigada, e seu rosto não denunciava resposta alguma. Mas era visível que ele estava intrigado também. Jeremy estava morto, e isso só podia ser alucinação da minha cabeça. Mas não era. Damon também o escutava.

— Fiquei aqui! — Damon num segundo estava de pé diante de mim, sua cintura enrolada no lençol, fazendo um sinal de “shiu!” com o dedo. Ele se virou, caminhando lentamente, até a porta, à espreita. Depois desapareceu.

Um calafrio percorreu meu corpo, e eu puxei o travesseiro para mais perto de meu corpo. Meu coração estava denunciando a resposta, e depois estava murchando. Não, não podia ser verdade… Jeremy… meus olhos se encheram de lágrimas com a possibilidade dele estar… vivo.

Mas o que eu estava fazendo? Agindo como uma fugitiva, como a Elena que sempre fugiu da verdade. Eu decidi me levantar, puxei um lençol para cobrir meu corpo nu, ainda que meu cérebro dissesse para eu ficar na cama. E se fosse alguma armadilha para alguém capturar a mim e a Damon? E se eu criasse esperanças e depois me decepcionasse? Eu devia obedecer a Damon e ficar aqui? Não, não mesmo.

Segui em direção à porta, com uma pontada de medo e uma maldita pontada de esperança atravessando meu peito.

Espere, volte, não vá. Vá, pode ser ele. Jeremy pode estar vivo. Você está indo mexer apenas na ferida, ele não pode voltar… Meus pensamentos contraditórios me seguiam enquanto eu caminhava lentamente em direção à porta.

Eu estranhamente não escutava nenhum ruído, nem sequer de uma conversa. Eu não conseguia escutar Damon nem nenhum outro som. Era uma calmaria conturbadora, a não ser pelos assombros de medo dentro de mim.

Virei no corredor e meus olhos se arregalaram.

Meu Deus. Não, não pode ser verdade… Mas é verdade. Minhas pernas amoleceram, e eu mal pude conter o lençol em minhas mãos. Um fluxo alarmante de lágrimas desenrolou um embrulho de saudade no meu peito e eu paralisei.

Meu coração batendo forte no meu ouvido. Damon estava virado para mim, com os olhos calmos e baixos esperando por minha reação. Como se soubesse que ia cair, Damon se moveu rapidamente da porta até onde eu estava e me segurou em seus braços.

— Elena — ele sussurrou batendo afavelmente no meu rosto.

— Não pode ser Damon. — e essa foi minha ruína. Eu desfaleci em lágrimas, e sai de seus braços num sobressalto, me atirando nos braços de Jeremy, molhando sua camisa preta com minhas lágrimas.

Eu o abracei forte. — Jeremy, Jeremy, você está vivo… Jeremy. Você está realmente vivo, e não é só um fantasma — era o que eu conseguia dizer por baixo do meu choro alegre. Porém, ele não parecia responder ao meu entusiasmo apesar de retribuir o abraço.

Eu me afastei dele sorrindo, o puxando para dentro. E eu não conseguia dizer mais nada, só sorrir para ele. Sorrir como uma criança boba.

— Damon, não é incrível? Jeremy está vivo! — eu me virei, e Damon me encarava com o mesmo rosto de antes, desfalecido. E com os olhos baixos ele permaneceu em silêncio.

Eu olhei para Jeremy, e o sorriso estava sumindo do meu rosto. Ele me encarava do mesmo jeito triste e cabisbaixo de Damon. Suas sobrancelhas se juntaram e eu vi um vestígio de choro em suas feições.

— Eu lamento tanto, mas preciso contar para ela… — ele dizia para alguém que eu não conseguia ver. Ele parecia mesmo estar numa conversa profunda, e não era com Damon.

Definitivamente, havia algo de errado, algo que arruinaria toda a minha felicidade de revê-lo.

— Jeremy? — eu disse e olhei para Damon novamente. Ele permanecia do mesmo jeito. — Jeremy, com quem… Está falando?

Ele abaixou a cabeça. Tensão. Olhei para Damon novamente, e ele também abaixou a cabeça. Percebi algo dentro de mim se remexendo, lágrimas, novamente… Mas essas não eram de felicidade.

— Jeremy. Com. Quem. Está. Falando?

Houve um soluço, meu irmão estava começando a chorar.

— Para ele voltar à vida, foi preciso que alguém morresse definitivamente, Elena. E um feitiço desses só pode ser feito por uma bruxa. Uma bruxa poderosa e tola que se sacrificaria por amor — Damon disse atrás de mim. — A mesma bruxa que derrubou o véu, e que trouxe os mortos de volta, assim como os fez sumir novamente.

Então atiraram água gelada em mim. Um sopro gélido sugou minha alma para longe. Minha cabeça girou, mas eu permaneci no mesmo lugar — dolorosamente intacta.

— Eu lamento Elena. Ela queria que eu inventasse alguma mentira. Ela disse que você sofreria demais se soubesse que… Ela deu a vida por mim, mas agora… Agora — ele sufocou e as palavras doíam — Bonnie está morta.

Eu fiquei muda por uns segundos que pareceram perpétuos. O mundo girou.

— Não. Não pode ser. Não pode ser. Não pode… — desfaleci e Jeremy correu para me abraçar e juntar seu choro ao meu. Ele colocou minha cabeça em seu peito, e fez carinho no meu cabelo.

— Shhh — ele disse no topo da minha cabeça. — Vai ficar tudo bem. Ela disse que vai ficar tudo bem. Bonnie está aqui e ela está sofrendo como você, Elena. Como nós.

Eu levantei a cabeça e olhei para ele.

— Sim, ela está aqui, bem atrás de você. Ela está chorando também. Mas ela disse que vai ficar tudo bem, ela disse que tudo deve ficar bem. Está dizendo que mesmo sem poder vê-la, ela sempre estará do seu lado, te protegendo e falando com você. Ela está prometendo cuidar de você.

Jeremy me pressionou em seu corpo e senti suas lágrimas em meu pescoço, em busca de conforto. E eu sabia que, de alguma forma, mesmo sem eu poder sentir fisicamente, Bonnie estava nos abraçando também.

— Ela agora zombou que você está de lençol, e que é melhor procurar uma roupa, porque está na frente de uma criança. — ele disse me soltando e fez uma careta por sobre meu ombro. E estava claro que Bonnie estava tentando afastar a tristeza de sua partida.

Era noite. Eu estava deitada sozinha na cama, com o abajur deixando uma meia luz iluminar um quarto de espaço do quarto. Eu não queria que ninguém me visse fraca e chorando. Queria continuar ali, mergulhada no meu pranto, até adormecer.

Passei o dia todo conversando com Jeremy e tentando me distrair, tentando me basear nas teorias de Bonnie, — de que tudo iria ficar bem — tentando ser forte. Mas não é tão fácil suportar, e muito pelo contrário, as coisas não são simples de aceitar. Mesmo ela trazendo meu irmão de volta, ele jamais a substituiria.

Eu devia ficar agradecida? Ou devia ficar mais triste? Talvez deixar o tempo curar fosse o melhor remédio. Eu deveria tentar fazer como sempre fiz — vencer dia após dia, sem tentar me machucar muito. Sobreviver.

Mas é difícil. É difícil ter que deixar alguém que a gente ama ir embora, por mais que os dias passem, nós nunca iremos nos acostumar com o vazio que a partida da pessoa nos deixou. Cada despedida é um novo buraco aberto no nosso peito, que cisma em não nos deixar seguir em frente.

“Toc, toc toc”. Bateram na porta e eu tive que secar os vestígios de lágrimas de meus olhos, sentando-me apressadamente na cama para parecer natural. Metade do corpo de Jeremy apareceu na porta entreaberta. Ele estava com a mesma roupa com que chegou aqui — blusa escura e jeans.

— Está tudo bem? Posso entrar? — sua voz era baixa, combinando com a meia luz.

Eu suspirei fortemente e confirmei com um aceno de cabeça.

— Eu sei… Sei que está sendo difícil, não precisa se fazer de forte agora, Elena. — ele se sentou na cama e segurou meus dedos e esperou um pouco até se sentir à vontade. — Lembra, lembra quando perdemos papai e mamãe? Lembra como sofremos e como foram dias difíceis?

Eu balancei a cabeça.

— Então, e superamos?

Neguei.

— Claro que não superamos e nunca iremos superar. Eu compreendo que é difícil perder as pessoas, eu compreendo que machuca, mas é necessário. Alguns fins são realmente necessários, Elena. E por mais que nos doa continuar, precisamos. Precisamos juntar forças e nos manter de pé todos os dias. — ele sussurrou. — Não estou dizendo que não deva ficar triste. Estou dizendo que a vida não para porque perdemos alguém. Ela não se importa com isso.

Eu apertei meus lábios numa linha rígida.

— Eu também estou sofrendo, muito, Elena. Mas precisamos nos manter de pé, porque a vida nos exige isso. É a nossa obrigação diária. — ele continuou dessa vez, com uma linha de lágrima lavando seus olhos.

— Obrigada. De verdade, Jeremy. É bom ter você de volta, e mesmo não conseguindo demonstrar muito hoje, estou muito feliz em ter você de volta. — eu apertei seus dedos e tentei fazer aparecer um sorriso em meu rosto. Apenas uma linha sem dentes se contorceu para um lado.

— Me promete que vai ser forte? Que vai tentar engolir mais essa? — ele disse e eu balancei a cabeça. — Então agora deite e chore Elena, chore bastante, para poder sorrir amanhã.

Ele se inclinou para cima de mim e me beijou na bochecha.

— Obrigada — eu sussurrei abraçando-o.

— É bom estar de volta, Elena. De volta para cuidar de você — ele disse fechando a porta atrás de si. — Durma bem.

E com o barulho do fechar da porta, as lágrimas saltaram dentro de mim. Eu escorreguei meu corpo mole na cama, afundei meu rosto no travesseiro e me entreguei à minha dor.