Dark Wood Circus
10 Terminar...
Notas iniciais
A água caia forte e neblina cobria parcialmente a vista de quem se atrevesse a aventurar-se pela floresta densa durante aquela tempestade. A essa altura, todos com o mínimo de bom senso já estariam em casa embaixo de grossas cobertas e com a lareira bem acesa. Porém Miku não tinha essa escolha.
Era por isso que a garota estava se arrastando lentamente pela floresta. Não se importava por seu vestido, antes branco; estar todo sujo de cascalhos, folhas caídas, lama e até mesmo um pouco de seu sangue; não se importava se seu cabelo comprido ficava preso em galhos e embaixo de seu próprio corpo o que a obrigava a simplesmente puxá-lo até que arrancasse de sua cabeça; não se importava se suas unhas estavam quebradas, sujas ou até mesmo arrancadas; não se importava com sua visão embaçada e com sua testa ardendo em chamas denunciando o início de uma febre... Só se importava em fugir... Para qualquer lugar, de qualquer modo... Contanto que fugisse... Ficasse livre... De alguma forma...
O anel dourado pesava em seu dedo como mil pedras de chumbo e ele brilhava tão forte que chegava a cegar seus olhos produzindo lágrimas instantâneas... Era demais para ela...
Havia aguentado os choques, as chibatadas, a temerosa cirurgia em suas pernas, os estupros, mas não aquilo... Não... Ela não iria se casar com aquele homem... Aquele homem que arruinou sua vida (muito mais do que a Rainha Vermelha) e a de seus amigos também, que havia escurecido a mente e o coração de uma jovem e inocente garotinha e que havia privado cada pessoa boa que Miku já conhecera da liberdade... Não! Jamais!
Esse pensamento tirava forças de um lugar que Miku nem sabia que existia. Forças para continuar se arrastando, numa lentidão profunda e embaixo de uma chuva pesada até um futuro incerto. Afinal, qualquer futuro era melhor do que o que lhe aguardava.
Mais cedo naquele mesmo dia, ele entrou na tenda ll onde Meiko estava dando seu típico sermão e afastou a jovem de vestido vermelho da jaula de Miku observando-a atentamente. Ele só a havia observado daquele jeito uma vez: Quando a viu pela primeira vez na jaula do castelo da Rainha Vermelha.
Que Miku soubera também, naquela mesma hora, que havia morrido.
"Adivinhe, pequena Princesa, tenho novidades para você. A mulher que mais a odiava no mundo acabou de morrer”.
Miku não entendeu de imediato aquelas palavras, mas mesmo que tivesse entendido não teria pulado de alegrias... Não direi que ela não desejava a morte da Rainha Vermelha, pois ela o desejava com afinco... Mas uma coisa ela aprendera, nunca espere boas notícias vindas do Dono do Circo.
"E sabe o que aquela maldita deixou para trás? Simplesmente trilhões de yens e barras de ouro... Todos congelados naquele maldito banco!" Ele gritou e bateu nas barras da jaula de Miku tão forte que ela pulou de susto "Um detalhe interessante é que não tinha testamento... Ela não deixou nada para mim... Seu fiel amigo... Aquela idiota desprezível”.
Aquilo realmente não estava tomando um bom rumo. O que ele pretendia revelando aquelas informações para Miku? Era certo que agora ambos odiavam a Rainha Vermelha, mas o Dono do Circo nunca considerou Miku igual então com certeza não estava lá apenas para desabafar... Será que ele a puniria pelos erros da Rainha Vermelha? Bem provável...
"Ela deixou. Para você".
Ele a encarou com aqueles pequenos olhos negros e Miku viu neles toda a maldade daquele homem a sua frente refletida... Ela sabia que iria sofrer... Sofrer muito.
"Claro que ela não fez isso propositalmente... Ela a identificou como sua filha para esconder as suspeitas de que mantinha uma criança em sua casa e por direito toda aquela fortuna... Irá para você."
Uma fortuna enorme era a última coisa que Miku queria no mundo... De que adiantaria dinheiro para ela... A coitada mal podia andar e vivia presa em lugares diferentes sem nunca poder ver o sol... Papeis retangulares e verdes nunca a ajudariam...
"Mas não precisa se preocupar com isso, pequena Princesa, porque eu, brilhante como sou, arranjei um jeito de todos nós ficarmos felizes com a morte prematura daquela inútil da Rainha Vermelha... Sabia que o dinheiro que é por direito seu pertencerá também a seus filhos e seu marido? Acho que já deve estar imaginando o que faremos”.
Foi nesse momento que Meiko interrompeu seu "tutor": "Senhor, não pode estar falando sério... Alguém como... como... Isso? Sua esposa? Minha... Mãe?”.
"Mas é claro que não Ratinha... Como se eu mesmo quisesse me casar com algo desse tipo... Essa hibrida horrorosa que não é nem mesmo um ser humano"
Len também resolveu interromper a série de insultos que eram dirigidos para sua amiga: "Não fale com ela assim! Você não tem o direito!"
"Len, cale a boca! Quer morrer?" Disse Rin tentando salvá-lo.
O Dono do Circo se inclinou na direção do gêmeo e falou com sua voz baixa e grave: "Você tem algum problema com isso jovenzinho? Você já tem sua irmã agarrada em você, prefere também se tornar um híbrido de animal?”.
"Não senhor" foi o que ele respondeu.
"Foi o que imaginei" o Dono do Circo disse e continuou "Quanto a você, pequena Princesa, deveria estar feliz com o acontecimento... Será minha mulher e terá de me obedecer em tudo... Como se já não fizesse isso... E nem pense que ganhará algum privilégio, temos que passar o exemplo para os outros participantes do circo.”.
"Mas senhor, isso é um absurdo! Não pode se casar com ela!"
“É claro que posso Meiko! Posso fazer o que eu quiser e você não vai me impedir."
O homem estava começando a ficar impaciente com sua Ratinha. Sim, Meiko era muito prestativa e valia mais que 20 de seus homens juntos... Seria uma herdeira e tanto... Mas as vezes ela pensava que estava no mesmo patamar, talvez até acima, que o próprio tutor... E isso ele definitivamente não admitiria. Ninguém era maior que ele.
Espera só até essa Ratinha Vermelha passar dos limites... Coitada se ela pensa que ele irá se segurar só porque é ela...
Com força ele puxou a mão direita de Miku com força e enfiou um anel dourado rudemente em seu dedo anelar para logo depois jogando o braço inerte encima da esverdeada.
Então ele disse: “Vamos logo Meiko. Você vai encontrar um padre discreto e subornável para realizar essa cerimônia e eu vou resolver a papelada no banco... Agora!”. Ele ameaçou Meiko e a jovem não pode recusar, então saiu correndo na direção da cidade depois daquilo.
Naquela noite Meiko e o Dono do Circo estavam fora então alguns homens de posto menor estavam cuidando deles, dois homens foram até a jaula de Miku para se “divertirem” com ela e acabaram esquecendo de fechar o cadiado, tolos como eram.
Foi difícil mas Miku conseguiu abrir a porta sem fazer muito barulho e se arrastou na direção da saída já que ela nunca aprendera a andar e seus músculos da perna deixaram de responder desde a cirurgia.
Lágrimas manchavam o rosto de porcelana de Miku e ela lutava contra o p´roprio corpo que queria deitar e descansar um pouco já que estava no início de uma gripe... Mas ela não podia parar... Não agora que estava tão longe.
Então ela ouviu um barulho: passos, muitos passos e vozes desesperadas e raivozas gritando por ela... Os homens a haviam descoberto... Precisava ir mais rápido.
Seus braços não a obedeciam, mas ela tinha que fugir de algum jeito.
Foi então que ela viu uma espécie de barranco bem perto de onde ela estava, ao se aproximar percebeu também que havia uma espécie de raiz na parede do barranco e que apesar do lamaçal escorregadia que aquilo havia se tornado a raiz parecia estar bem firme... Não haveria jeito de despistar os homens nem de correr mais que eles, não com essas pernas. Só havia um jeito...
Miku olhou para o pedaço de corda amarrado em um de seus cascos, ele era usado para manter Miku presa a jaula mas ela o desamarrou antes de fugir... Talvés pudesse ser usado a seu favor.
Com o coração batendo forte e as mãos tremendo ela desamarrou a corda de seus casco e deu um nó bem apertado em seu pescoço, em seguida esticando o braço agarrou a ponta da raiz e a puxou na sua direção enquanto amarrava a outra ponta da corda no pedaço de árvore.
Os homens estavam chegando perto, já podia ver a luz das lamparinas que traziam através das árvores... Só havia mais um movimento, uma escolha. E dependendo de qual for essa escolha tudo estaria terminado a partir dali...
Terminado...
Miku riu diante dessa palavra... Que palavra mais linda: terminar. Acabar para sempre... Que maravilhoso seria... Não importa pra qual lugar fosse... Qualquer vida era melhor do que essa...
“Por favor Deus, tende piedade de mim... Me salve”
Então ela se arrastou um centímetro para frente e seu corpo caiu para a escuridão do penhasco...
A corda se esticou...
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